Em Agosto passado descobri a oração do abandono de Charles de Foucauld no Twitter, numa versão inglesa:
Desde então tenho voltado várias vezes a ela, talvez porque a palavra "abandono" seja perigosa. À primeira vista, pode parecer desistência, resignação, passividade, quase uma forma piedosa de cruzar os braços perante a vida, mas quanto mais penso nela, mais me convenço do contrário.
O abandono de que fala Charles de Foucauld não é deixar de agir. Não é deixar de decidir. Não é deixar de lutar. É outra coisa muito mais difícil: é agir sem a ilusão de controlar tudo; é entregar-se sem exigir garantias; é fazer o que deve ser feito sem transformar o resultado numa propriedade minha.
A oração começa assim: "Pai, abandono-me nas tuas mãos; faz de mim o que quiseres." Isto não é uma frase confortável. É uma frase exigente. Porque não nos retira da realidade. Pelo contrário, coloca-nos dentro dela, mas sem armadura total, sem contrato de retorno, sem garantia de aplauso, sem seguro contra a dor.
Entretanto, ontem ouvi um podcast com Scott Galloway. Na parte final, sem qualquer referência religiosa, pareceu-me que ele estava a falar, na prática, de uma forma secular de abandono.
Um dos temas que ele desenvolve é a capacidade de suportar a rejeição. Ele diz que muitos jovens, especialmente muitos homens jovens, estão a perder a capacidade de ouvir "não". A vida digital oferece relações com pouca fricção, respostas rápidas, ambientes controlados, interacções que podem ser interrompidas sem grande custo emocional. Mas a vida real não funciona assim.
Na vida real, temos de pedir. Temos de nos expor. Temos de correr o risco de não sermos escolhidos.
Pedir amizade. Pedir uma oportunidade. Candidatar-se a um trabalho para o qual talvez não se esteja totalmente preparado. Aproximar-se de alguém. Apresentar uma ideia. Fazer uma proposta. Levar uma porta fechada na cara. Sofrer um pouco. E seguir em frente.
Há aqui uma forma muito concreta de abandono: eu faço a minha parte, mas não possuo a resposta do outro. Não controlo se me aceitam, se me contratam, se me amam, se compram a minha ideia ou se reconhecem o meu valor. Posso preparar-me, posso melhorar, posso tentar com seriedade, mas não posso exigir que o mundo responda como eu gostaria.
Isto é profundamente contra-cultural.
Vivemos, sobretudo eu, rodeados por linguagens de controlo: optimizar, prever, medir, antecipar, proteger, gerir risco, controlar variáveis, maximizar retorno. Tudo isto tem o seu lugar. Eu próprio vivo profissionalmente em mundos onde estas palavras são importantes. Mas há uma parte da vida que nunca se deixa reduzir a um painel de indicadores.
As relações não se controlam. A confiança não se fabrica. A vocação não se força. O reconhecimento não se exige. O amor não se captura. O futuro não se possui.
Talvez por isso a rejeição seja uma escola tão dura e tão necessária. Ela recorda-nos que não somos donos do mundo. Recorda-nos que a nossa vontade encontra outras vontades. Recorda-nos que a realidade não é apenas a extensão do nosso desejo.
Mas esta aprendizagem pode ser libertadora. Quem é capaz de ouvir "não" e continuar a caminhar torna-se mais livre. Não livre porque deixa de sofrer, mas livre porque deixa de viver escravo da aprovação imediata. Percebem bem o significado deste parágrafo? Evita ficarmos prisioneiros do insucesso.
Outro ponto forte da conversa de Galloway é a sua reflexão sobre propósito. Ele sugere que o propósito aparece muitas vezes quando damos algo de nós sem garantia de retorno positivo. Como acontece com os filhos, com o serviço, com uma causa, com uma comunidade, com um compromisso que não cabe numa folha de cálculo.
Isto é muito interessante. Uma parte da vida moderna tenta convencer-nos de que tudo deve ter retorno mensurável. Tempo, energia, atenção, relações, projectos, escolhas. Tudo parece ter de justificar-se pela pergunta: "O que é que eu ganho com isto?"
Mas talvez as coisas mais importantes da vida comecem precisamente onde essa pergunta perde força.
Criar filhos não tem ROI. Cuidar de alguém não tem ROI. Acompanhar uma pessoa difícil não tem ROI. Servir uma comunidade não tem ROI. Permanecer fiel numa fase dura não tem ROI. Recomeçar depois de uma perda não tem ROI. Perdoar não tem ROI.
E, no entanto, é aí que a vida muitas vezes ganha densidade.
O abandono, neste sentido, é também abandonar a contabilidade permanente do eu. Não porque o eu não conte, mas porque uma vida fechada sobre si própria se torna pequena. Há uma grande diferença entre gerir bem a vida e transformá-la numa empresa individual de extracção de benefícios.
Charles de Foucauld não reza: "Pai, optimiza a minha vida." Reza: "Pai, abandono-me nas tuas mãos."
É uma diferença enorme.
Há ainda outro contraste que me ficou da conversa. Galloway critica os bilionários que têm planos de fuga, bunkers, estratégias para escapar se tudo correr mal. A ideia é quase caricatural: se o mundo se tornar inabitável, eu salvo-me sozinho. Eu fujo. Eu tenho meios. Eu tenho avião, abrigo, segurança, plano B.
Isto é, para mim, o anti-abandono. É a fantasia última de controlo. A ilusão de que posso separar o meu destino do destino dos outros. A crença de que, se acumular recursos suficientes, conseguirei escapar à condição humana. Come on, ninguém escapa sozinho.
A resposta mais humana não é preparar uma fuga secreta. É tentar tornar este mundo um pouco mais habitável. É investir em relações, instituições, confiança, comunidades e responsabilidade. É aceitar que o nosso futuro está ligado ao futuro dos outros.
Aqui, a linguagem secular aproxima-se muito de uma intuição cristã: a vida não se cumpre na auto-suficiência. Cumpre-se na entrega.
E talvez seja isto que mais me toca na oração do abandono. Ela não nos convida a uma vida menor. Convida-nos a uma vida maior, porque mais entregue. Não nos tira responsabilidade. Aumenta-a. Não nos dispensa de agir. Purifica a forma como agimos.
Abandonar-se a Deus não é deixar de remar. É remar sem a ilusão de que somos donos do mar.
É trabalhar com seriedade, mas sem idolatrar o sucesso. É amar com generosidade, mas sem possuir o outro. É educar com empenho, mas sem controlar o destino dos filhos. É arriscar, mas sem exigir que a vida nos devolva exactamente o resultado que imaginámos. É aceitar que há uma parte essencial da existência que só pode ser vivida em confiança.
Talvez por isso esta oração seja tão simples e tão difícil.
"Pai, abandono-me nas tuas mãos."
Não é uma frase para momentos decorativos. É uma frase para a vida real. Para quando somos aceites e para quando somos recusados. Para quando percebemos o caminho e para quando só vemos alguns metros à frente (isto é de outra oração, mas de Thomas Merton). Para quando temos força e para quando já só temos confiança. O abandono não é passividade. É coragem sem posse. É acção sem idolatria do resultado. É entrega sem cálculo.
É viver como quem faz tudo o que pode, mas sabe que, no fim, não está nas suas próprias mãos. Está nas mãos do Pai.
Scott Galloway ajudou-me muito a consolidar a minha aprendizagem em curso sobre o que é o abandono de que fala a oração; não tem nada a ver com passividade… é subir para outro nível de viver a realidade.
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