quarta-feira, agosto 26, 2026

Curiosidade do dia

A propósito de um artigo publicado no JN de hoje, "População de Carrazeda protesta contra forma como foi combatido o grande fogo":

"A população não entende como foi possível com tantos recursos humanos e materiais "chegar a este ponto", afirmou Nuno Freixinho, que só encontra uma explicação: "descoordenação".

...

"Estamos revoltados e indignados com o que se passou, praticamente fomos abandonados. Mais de 90% da freguesia ficou queimada. A responsabilidade é de quem manda, que não fez uma boa gestão dos meios que tinha. Havia muitos, os bombeiros deram tudo, mas alguns estavam à espera de ordens na aldeia que nunca lhe chegaram", explicou Pedro Correia, lamentado que não tenham ouvido os populares. "Não quiseram a nossa ajuda para lhe ensinarmos caminhos e dar dicas sobre a zona. Só viam no mapa e isso não foi suficiente", revelou."

A população de Vilarinho da Castanheira e de Pinhal do Douro, no concelho de Carrazeda de Ansiães, prepara uma manifestação para protestar contra a alegada descoordenação no combate ao grande incêndio que, durante cinco dias, devastou cerca de 2000 hectares. Embora reconheçam que existiam numerosos meios humanos e materiais no terreno, os moradores afirmam que faltaram comando, planeamento e comunicação eficazes entre as equipas.

Os moradores estão a organizar uma manifestação para exigir explicações e uma revisão da forma como estas operações são comandadas.

Este fim de semana, em família, avancei com uma proposta "absurda". Todos os anos, os bombeiros deviam receber, virtualmente, um bolo de dinheiro. Depois, por cada m² ardido, uma parte desse bolo ia desaparecendo, até que, no final da temporada de fogos, recebiam o que sobrou do bolo inicial.

Que fique claro: não estou a sugerir que os bombeiros, as associações ou os responsáveis pelo comando tenham qualquer interesse em prolongar um incêndio. Não tenho qualquer elemento que sustente tal acusação. Estou apenas a colocar uma questão de desenho institucional: que comportamentos e resultados financia, mede e reconhece o sistema?

A minha proposta do "bolo" seria perigosa se aplicada mecanicamente. Punir cada metro quadrado ardido poderia levar a comportamentos de risco, penalizar injustamente corporações confrontadas com territórios, condições meteorológicas e incêndios muito diferentes, ou desencorajar o uso tecnicamente necessário do fogo. Mas a pergunta que lhe está subjacente é, julgo, legítima: como conceber um sistema que financie a disponibilidade e os meios necessários, mas que também reconheça a prevenção, a rapidez da primeira intervenção, a qualidade do comando e os resultados alcançados?


Quanto pode custar um tomate em falta? (Parte III)

Nos textos anteriores desta série, começámos por perceber que o cliente da Blue Apron ou da Marley Spoon não compra apenas ingredientes. Compra a possibilidade de preparar uma determinada refeição, sem planear as compras nem percorrer o supermercado à procura dos produtos necessários.

Depois seguimos essa promessa até à FreshRealm, o fornecedor que preparava e expedia as caixas. Quando a FreshRealm entrou em processo de insolvência, as encomendas tiveram de ser transferidas rapidamente para outras instalações. A falência começou a montante, mas os seus efeitos acabaram dentro das caixas recebidas pelos clientes. É altura de abrir algumas dessas caixas.

O artigo do WSJ permite organizar os problemas encontrados pelos clientes em cinco grupos.

O primeiro é composto pelos ingredientes em falta: 

"Some ingredients were missing—like all the vegetables.

...

Her recent Blue Apron shipment box arrived damaged and missing key ingredients like the tomatoes for the ‘baked garlic shrimp and tomatoes’ recipe.

...

She didn’t get the noodles, scallions or soy sauce for ‘cold sesame noodles.’

...

Last week two chicken portions were missing."

O segundo grupo inclui as substituições inadequadas: 

"Others were replaced with unacceptable substitutions, like garlic tahini for regular tahini.
...
"It looked like some random person threw stuff in the box."

O terceiro grupo é o das caixas incompletas ou quase vazias:

"Nearly empty boxes.

...

Incomplete boxes."

O quarto grupo é composto por caixas e embalagens danificadas:
"Her recent Blue Apron shipment box arrived damaged.
...
This week the meal box came with a container of harissa sauce splattered over its contents."
O quinto grupo inclui atrasos, cancelamentos e ausências de entrega:
"No delivery at all.
...
Delivery delays.
..
This week it pre-emptively canceled orders that won’t have the required ingredients."

Perante estes problemas, os clientes fizeram o que normalmente fazem quando uma organização deixa de cumprir a sua promessa. Começaram por reclamar. Alguns contactaram directamente as empresas. Outros utilizaram as redes sociais. O artigo descreve clientes:

"demanding refunds"

Outros começaram a suspender as encomendas:

"Many are [...] stopping orders

...

I’ve skipped the next four deliveries.

...

Meanwhile, some customers have canceled orders."

 E vários passaram a expor publicamente a experiência:

"venting on social media"

A Blue Apron concedeu reembolsos ou créditos a alguns clientes. Também reconheceu publicamente que a mudança para o novo parceiro logístico tinha corrido muito mal. A Marley Spoon fez um reconhecimento semelhante, mas um reembolso resolve apenas uma pequena parte do problema. Devolver o dinheiro pode corrigir a transacção financeira. Não devolve ao cliente o tempo perdido, não coloca o jantar na mesa, não elimina a necessidade de procurar uma alternativa e não recupera automaticamente a confiança.

No caso de Steven McGinty, cliente da Blue Apron há mais de dez anos, a empresa concedeu um crédito. Ainda assim, o artigo informa que ele:

"canceled future shipments"

A empresa resolveu, contabilisticamente, a questão da caixa danificada. Não resolveu a relação com o cliente. Quando falta um tomate, o primeiro impulso pode ser calcular o preço do tomate. Esse é o custo mais fácil de identificar e, provavelmente, o menos importante. A caixa já tinha sido preparada. Os restantes ingredientes já tinham sido comprados, separados e embalados. O transporte já tinha sido realizado. Se a ausência do tomate impedir a preparação da refeição, parte desses recursos perde utilidade para o cliente. Depois surge o reembolso ou o crédito. Em muitos casos, a empresa não consegue devolver apenas o valor do ingrediente em falta. Pode ter de compensar uma refeição completa ou até toda a caixa.

Segue-se o tratamento da reclamação:

  • recepção e registo do contacto;
  • análise da situação;
  • consulta da encomenda;
  • comunicação com o cliente;
  • autorização do crédito;
  • emissão do reembolso;
  • eventual contacto com o armazém ou fornecedor;
  • acompanhamento e encerramento da reclamação.

Cada uma destas actividades consome tempo de pessoas que poderiam estar a acrescentar valor noutras áreas. Depois aparecem as verificações adicionais, o retrabalho, as contagens de inventário, a procura urgente de ingredientes, a reorganização das encomendas e os esforços para recuperar o controlo da operação. O responsável da Misfits Markets explicou que algumas contagens de existências provenientes do processo de insolvência estavam incorrectas, deixando a empresa à procura dos ingredientes necessários para completar as caixas. Quando verificou antecipadamente que não conseguiria reunir todos os ingredientes, a empresa cancelou encomendas antes da expedição. Foi provavelmente a decisão menos má, mas continuou a representar perda de receitas, trabalho já realizado e clientes sem o serviço que tinham contratado.

Por isso, uma representação mais completa poderia ser:

Custo da não qualidade = reembolso ou crédito + produto e transporte desperdiçados + tratamento da reclamação + verificações e recuperação operacional + receitas futuras perdidas + prejuízo reputacional

Mesmo esta fórmula está incompleta. Alguns custos são difíceis de medir e surgem muito depois do incidente ter sido encerrado no sistema informático.

Segundo o artigo, Marlene Cooper pagava cerca de 100 dólares por semana à Blue Apron. Se mantivesse esse nível de compras durante todo o ano, isso representaria aproximadamente 5 200 dólares de vendas anuais. Já Steven McGinty gastava cerca de 70 dólares na maioria das semanas. Isso poderia representar cerca de 3 640 dólares por ano.

Naturalmente, vendas não são lucro. Também não sabemos durante quantas semanas por ano estes clientes encomendavam refeições, qual era a margem de cada caixa ou durante quanto tempo continuariam a utilizar o serviço. Mas ambos mantinham relações com a Blue Apron há cerca de dez anos. Não eram clientes que tinham experimentado uma caixa promocional e desaparecido na semana seguinte. Eram clientes que já tinham demonstrado repetidamente a sua disponibilidade para comprar. É aqui que o tomate começa a ficar realmente muito caro.

O custo directo pode ser o valor de um ingrediente. O custo comercial pode ser a perda de centenas de encomendas futuras. E o custo estratégico pode ser a destruição da confiança de um cliente que, até então, tinha incorporado aquele serviço na sua rotina.

Há ainda o efeito reputacional. Uma reclamação tratada em privado afecta uma relação. Uma fotografia publicada nas redes sociais pode afectar milhares de potenciais relações. A imagem de uma caixa danificada ou de uma receita rodeada por círculos que assinalam os ingredientes em falta comunica algo muito simples: a empresa não está a conseguir fazer aquilo que prometeu.

O cliente não conhece os contratos entre a Blue Apron, a Marley Spoon, a FreshRealm ou a Misfits Markets. Também não tem obrigação de conhecer os problemas causados pela insolvência, pelas transferências de inventário ou pela mudança de armazém. O cliente conhece a marca que lhe cobrou o dinheiro e lhe fez uma promessa. Ponto.

É possível que, durante algum tempo, os indicadores internos continuem a parecer razoáveis. A empresa pode medir:

  • caixas expedidas;
  • entregas realizadas;
  • percentagem de ingredientes incluídos;
  • tempo médio de preparação;
  • reclamações encerradas;
  • créditos emitidos.

No entanto, estes indicadores podem esconder o resultado que realmente interessa. Uma caixa com nove dos dez ingredientes pode ser classificada como 90% completa. Uma reclamação à qual foi atribuído um crédito pode aparecer como resolvida. Uma entrega efectuada na morada correcta pode ser considerada concluída, mas o cliente pode ter ficado sem jantar, ter ido ao supermercado e ter cancelado as próximas encomendas. A organização resolveu o registo. Não resolveu necessariamente o problema.

Quando o cancelamento aparece no relatório mensal, já pode ser tarde demais. A falha ocorreu dias ou semanas antes, no momento em que alguém não confirmou a disponibilidade dos ingredientes, aceitou uma contagem de inventário incorrecta, não detectou uma embalagem danificada ou expediu uma caixa sem verificar se a receita poderia ser efectivamente preparada. O cancelamento é apenas o momento em que o cliente comunica a sua conclusão.

Perante uma não conformidade, há pelo menos três perguntas diferentes.

  • A primeira é: Como compensamos este cliente? A resposta pode passar por um pedido de desculpa, um crédito, um reembolso ou uma nova entrega.
  • A segunda é: Como impedimos que o mesmo problema afecte as próximas caixas? Isso pode exigir verificações adicionais, a correcção das existências, o reforço das embalagens, a alteração dos métodos de preparação ou a suspensão temporária de determinadas receitas.
  • A terceira é mais difícil: Como recuperamos a confiança de um cliente que começou a duvidar da nossa capacidade para cumprir? Não basta garantir que a próxima caixa terá tomates. Pode ser necessário demonstrar que a operação voltou a estar sob controlo e que o cliente não terá de transformar cada entrega numa inspecção à recepção. A confiança reduz o esforço do cliente. Quando desaparece, cada caixa passa a ser aberta com a expectativa de encontrar o próximo problema.

A Blue Apron e a Marley Spoon não perderam apenas ingredientes durante a transição. Começaram a transferir para os clientes actividades que estes lhes pagavam precisamente para não executar: verificar se estava tudo presente, procurar substitutos, comprar o que faltava, reorganizar o jantar e decidir o que fazer com os produtos que já não permitiam preparar a refeição.

No final, alguns regressaram ao supermercado. Não porque tivessem deixado de valorizar a conveniência, mas porque o serviço deixara de a proporcionar.

Quanto custa, então, um tomate em falta? Depende.

Se a ausência for detectada antes da expedição, pode custar o próprio tomate, alguns minutos de trabalho e uma pequena alteração à caixa. Se for detectada na cozinha do cliente, pode custar o tomate, a refeição, o transporte, o crédito, o tratamento da reclamação e várias actividades de recuperação. Se acontecer repetidamente a um cliente que paga 100 dólares por semana, pode custar milhares de dólares em vendas futuras. E, se a fotografia chegar às redes sociais, pode custar a confiança de pessoas que nunca chegaram a experimentar o serviço.

O custo do ingrediente em falta é reduzido. O custo do cliente perdido pode ser enorme.

A insolvência da FreshRealm pode ter sido difícil de evitar. Uma transição rápida também pode ter sido inevitável. Mas será que era inevitável transferir os problemas da mudança para os clientes?

E se uma parte essencial do produto da sua empresa estiver hoje a mudar de fornecedor, como saberá que a primeira consequência dessa mudança não vai aparecer dentro da caixa, da máquina, do relatório ou do serviço entregue ao seu cliente?

Continua.


terça-feira, agosto 25, 2026

Curiosidade do dia

Assim que vi este tweet, traduzo-o para:

"O Gana é um exemplo de como a introdução do marxismo destruiu completamente um país. Mas comecemos pelo início. Até 1957, o Gana era uma das colónias mais ricas de África em termos per capita, com 200 milhões de libras em reservas, sem défice ou empréstimos estrangeiros. Possuía um funcionalismo público plenamente operacional."

E sabem o que me veio à cabeça? A Europa!

A Europa, parece que está a seguir as pisadas dos países africanos como o Gana.

Se olharmos para a lista de empresas mais valiosas na bolsa de Nova Iorque em 1980 e em 2024, o que vemos?

Se olharmos para a lista de empresas mais valiosas na bolsa de Londres em 1980 e em 2024, o que vemos?

Se olharmos para a lista de empresas mais valiosas na bolsa de Frankfurt em 1980 e em 2024, o que vemos?


Nova Iorque - Em 1980, quatro das cinco empresas dependiam de activos físicos, telecomunicações ou energia. Em 2024, as cinco assentavam sobretudo em software, semicondutores, dados, plataformas e propriedade intelectual. Não existe qualquer sobrevivente no top 5. É uma demonstração extraordinária da capacidade americana para criar novas empresas, financiar tecnologias emergentes e substituir antigos campeões.

Londres - Londres também mudou, mas não produziu uma nova geração de plataformas tecnológicas. GEC foi desmantelada depois da transformação desastrosa em Marconi; a ICI acabou adquirida; BP e BAT desceram no ranking. A única continuidade no top 5 é a Shell. Os novos líderes continuam concentrados em sectores maduros e globais — farmacêutica, energia, banca, bens de consumo e exploração mineira. Londres renovou os nomes, mas não mudou verdadeiramente de paradigma. 

Frankfurt - Frankfurt revela maior continuidade estrutural. A Siemens permanece no top 5; a SAP representa a grande excepção tecnológica; Deutsche Telekom, Airbus e Allianz continuam ligados a infra-estruturas, engenharia, indústria e serviços regulados. A Alemanha modernizou parte da sua base industrial, mas não gerou empresas digitais com a escala das norte-americanas. 

Imaginem o valor gerado por uma hora de trabalho no top 5 de Nova Iorque e comparem com o de Frankfurt. 

Imaginem, por absurda hipótese académica, que surgisse na Europa uma empresa com potencial para gerar mais valor do que a Apple. Agora, passo a citar um trecho que mão amiga me enviou esta manhã:
"A recomendação contida no subtítulo da capa [Moi ici: A capa de um número da revista The Economist sobre o apocalipse de empregos, de Maio deste ano], "esperar pelo melhor, planear para o pior", evidencia a falência analítica e a complacência do pensamento neoliberal. Tratar a substituição do trabalho humano como uma fatalidade meteorológica, e não como o resultado de escolhas políticas e de modelos de governação corporate, é um erro crasso. O combate exige intervenção soberana: tributação progressiva sobre o capital tecnológico, regulação estrita da autonomia algorítmica e a redesenho dos sistemas de redistribuição, sob pena de o vórtice ilustrado se transformar na sepultura da própria ordem democrática."

Logo faria as malas deste local cada vez mais socialista. Foco na redistribuição e medo da morte dos incumbentes. Imaginem o choque e o impacte do encerramento puro e duro da VW na Alemanha, depois imaginem todos os recursos encalhados nessa empresa a terem de ser mobilizados noutros projectos mais produtivos...

A Europa sofre a mesma doença que Portugal: a de Caim.



Cuidado com as euforias



Já escrevi sobre isto aqui, mas este tweet é muito mais elucidativo:

Três postais:

Primeiro o artigo: "'Mamma mia'. Portugal já produz mais carros do que Itália":

"Já na indústria automóvel, o maior grupo automóvel a produzir no país (Stellantis) atingiu mínimos de 70 anos. Desde 1954 que Fiat, Alfa Romeo e Lancia não produziam tão poucos automóveis: menos de 214 mil ligeiros de passageiros. Em 1997, o país produziu mais de 1,8 milhões de automóveis."

Recuemos a 2013 e a uma frase de Marchionne:

"se a Fiat eliminasse a produção de carros em Itália seria uma empresa com lucros." 

Agora, antes de ir à minha interpretação, vou contar uma história. Aliás, vou recuperá-la daqui: "The "flying geese" model, ou deixem as empresas morrer!!!"

Há negócios que parecem eternos enquanto a curva de aprendizagem sobe. Nascem com conhecimento escasso, produtividade em crescimento e margens confortáveis. Essas margens atraem concorrentes, difundem o conhecimento e financiam novas capacidades. Mas, à medida que a tecnologia amadurece, a aprendizagem abranda, o produto torna-se comum e a concorrência passa a fazer-se sobretudo pelo preço.

Foi o que aconteceu com o calçado em St. Louis. Em 1850, eram necessárias 15,5 horas para produzir um par de sapatos; em 1900, bastavam 1,7 horas. A explosão de produtividade criou riqueza suficiente para transformar St. Louis numa das cidades mais prósperas dos Estados Unidos e financiar e receber os Jogos Olímpicos de 1904. Depois, a curva achatou. Restando cada vez menos produtividade por conquistar, as margens começaram a depender dos salários e a produção migrou para regiões mais pobres.

É esta a lógica dos Flying Geese. O Japão produziu roupa barata até deixar de conseguir produzi-la de forma rentável; seguiram-se a Coreia do Sul, Taiwan, a Tailândia, a Malásia e o Vietname. Cada país aproveitou durante algum tempo a actividade para aprender e enriquecer, mas teve depois de subir para negócios com mais conhecimento e valor acrescentado. O erro não está em perder a velha actividade. Está em tentar conservá-la artificialmente, em vez de usar o tempo que ela proporciona para preparar a actividade seguinte.

A notícia de que Portugal já produz mais automóveis do que Itália pode ser lida à luz deste modelo, mas não deve alimentar demasiada euforia. Portugal subiu porque manteve a produção, enquanto a italiana caiu para mínimos de 70 anos. Em certa medida, estamos a receber uma actividade que se tornou menos sustentável num país com salários e custos mais elevados. A questão é saber se estamos a aproveitar esta posição na formação dos gansos para adquirir engenharia, tecnologia, fornecedores, conhecimento e capacidade de decisão — ou se continuamos apenas a montar automóveis concebidos e decididos noutros países. Cuidado com a lição que a Yazaki nos contou/conta.

A electrificação da Autoeuropa e de Mangualde é um sinal positivo, porque obriga a modernizar processos e competências. Mas contar automóveis não chega. Itália ainda possui marcas como Ferrari, Lamborghini e Maserati, que produzem muito menos unidades, mas capturam muito mais valor por unidade. O verdadeiro sucesso português não será produzir mais carros do que Itália. Será conseguir aumentar a produtividade, os salários e o conhecimento nacional antes deste ganso levantar voo em direcção a outro país mais barato. 

É por isso que as empresas portuguesas têm de pensar no dia de amanhã enquanto as encomendas de hoje ainda enchem as fábricas. Devem usar as margens, as relações e a aprendizagem proporcionadas pela montagem para subir na cadeia de valor: participar no projecto, dominar tecnologias críticas, desenvolver fornecedores, criar propriedade intelectual e conquistar capacidade de decisão. O momento de procurar o próximo ganso não é quando o actual já levantou voo; é agora, enquanto ele ainda nos dá trabalho, receitas e tempo para preparar o futuro. Porque, quando a produção migrar, e, mais cedo ou mais tarde, migrará, já será tarde para começar a aprender aquilo que devíamos ter aprendido durante a sua passagem.

É a estória de saltar de liana em liana:



segunda-feira, agosto 24, 2026

Curiosidade do dia

Este texto de Seth Godin, "The disconnect between effort and value", aborda um tema básico de iliteracia económica, muito enraizado em Portugal: a crença de que esforço e valor são sinónimos.

Uma pessoa ou uma empresa pode fazer um grande esforço e um grande investimento e, mesmo assim, o resultado pode não ter valor ou ter um baixo valor económico.

É comum, sobretudo no mundo agrícola, associar o muito trabalho que se teve a uma maior compensação em termos de valor económico. Sorry, não é verdade!


E enquanto não quebrarmos este feitiço, estaremos ancorados à Zombyland.


Polarização do mercado, ao vivo e a cores.

Recordo de 2013: o sucesso da Bimby em Portugal, no pico do período negro da economia interna durante a troika. 

Esta recordação foi desencadeada por um artigo no The Times de ontem, "Some of us still have pots of money for a £469 Le Creuset, despite the cost of living crisis". Leio quase diariamente pelo menos um jornal inglês e, como por vezes comento aqui, a situação económica não é nada positiva.

O artigo mostra que uma marca forte pode funcionar como uma espécie de isolamento, não de imunidade, contra uma crise económica. A Le Creuset vende produtos que têm alternativas funcionalmente semelhantes por uma fracção do preço, mas os consumidores não estão apenas a comprar uma panela. Compram design reconhecível, durabilidade, tradição, pertença e até um objecto de status. Compram uma marca e tudo o que lhe está associado.

A crise não desapareceu: fragmentou o mercado. Muitos consumidores procuram o preço mais baixo, enquanto outros continuam dispostos a pagar muito mais por produtos aos quais atribuem significado. Quem tende a sofrer é a marca intermédia, simultaneamente demasiado cara para competir pelo preço e pouco diferenciada para justificar um prémio. É o velho fenómeno da polarização do mercado.



domingo, agosto 23, 2026

Curiosidade do dia


Não confio ilimitadamente num político, seja ele quem for, nem em mim posso confiar.

Mas torço pelo sucesso de Milei e da Argentina.

O El Economista, no passado dia 21 li "Milei eleva el superávit fiscal argentino en un 69,2% al cierre del pasado julio":
"La economía de Argentina sigue inmersa en una transformación que dio comienzo hace más de dos años y que está teniendo consecuencias de diferente tipo en la economía. Por un lado, los indicadores fiscales y financieros parecen haber mejorado de forma sustancial en este periodo. Al mismo tiempo, otros indicadores de la economía real como la tasa de pobreza también se ha visto reducida de forma drástica
...
El superávit fiscal se ha disparado en julio.
...
Argentina registró en julio pasado un superávit fiscal primario de 2,9 billones de pesos (unos 1.954 millones de dólares), un 69,2% más que en igual mes de 2025, según ha publicado el propio Gobierno esta semana.
...
"Argentina ha logrado dos años consecutivos de superávit fiscal primario por primera vez en 15 años.
...
Ya se han aprobado más de 45.000 millones en proyectos de inversión."


As previsões do FMI para o crescimento do PIB argentino nos próximos  6 anos são:





Quando o fornecedor se torna parte do produto (Parte II)


Parte I - O cliente não compra ingredientes. Compra o jantar

Na parte I terminei com esta pergunta:

"E quanto dessa promessa está hoje nas mãos de um fornecedor cujo nome o seu cliente nem sequer conhece?"

No caso da Blue Apron e da Marley Spoon, esse fornecedor chamava-se FreshRealm.

Provavelmente, nenhum dos clientes que escolhia as refeições, pagava a subscrição e esperava pela caixa à porta de casa conhecia a FreshRealm. Não tinha escolhido aquela empresa, não visitava o seu site, não recebia as suas facturas e não telefonava para lá quando faltavam as duas porções de frango.

Contudo, uma parte crítica da experiência que a Blue Apron e a Marley Spoon vendiam aos clientes estava nas mãos dessa empresa. A FreshRealm era o principal fornecedor das duas marcas. Preparava e expedia as caixas que depois chegavam às casas dos clientes. Isto significa que, entre outras coisas, participava em actividades relacionadas com:

  • a disponibilidade dos ingredientes; 
  • a separação das quantidades necessárias; 
  • a correspondência entre os ingredientes e as receitas; 
  • a preparação das caixas; a embalagem;
  •  a exactidão das encomendas; 
  • a expedição; e 
  • a pontualidade das entregas.

Não fornecia os tinteiros das impressoras, os produtos de limpeza dos escritórios ou aqueles blocos de notas com o logótipo da empresa que aparecem nas formações e que ninguém quer levar para casa. Executava uma parte indispensável do produto. Ou, talvez mais rigorosamente, executava uma parte indispensável do resultado que o cliente esperava conseguir.

No livro que escrevi sobre o Balanced Scorecard, quando quero introduzir a abordagem por processos, escrevi algo como; se olharmos para um organigrama como a representação do funcionamento de uma empresa, há 3 coisas que não aparecem nele: os produtos/serviços, os fornecedores e os clientes. No organigrama, a FreshRealm estava fora da Blue Apron e da Marley Spoon. Na experiência do cliente, estava dentro. Esta diferença é super importante.

As empresas gostam de desenhar fronteiras. Dentro da organização estão os nossos trabalhadores, os nossos equipamentos, os nossos processos e as nossas responsabilidades. Fora estão os fornecedores, os subcontratados, os transportadores e toda aquela gente a quem enviamos requisitos, contratos e ordens de compra. Contudo, o cliente, feliz ou infelizmente, não respeita essas fronteiras. Quando abre uma caixa da Blue Apron e não encontra os tomates necessários para a receita, não pensa:

"Que desagradável não conformidade do prestador externo responsável pelo processo subcontratado de preparação e expedição."

Pensa:

"A Blue Apron esqueceu-se dos tomates."

Quando o molho bechamel se espalha sobre o conteúdo da embalagem, o cliente não analisa a matriz de responsabilidades entre a Marley Spoon, a FreshRealm, o fornecedor da embalagem e a transportadora. Não! Vê uma caixa da marca que escolheu e uma refeição que já não consegue preparar. A actividade pode ter sido subcontratada. A experiência do cliente não foi. 

Voltemos à FreshRealm.

Segundo o artigo do The Wall Street Journal, a empresa entrou em processo de insolvência depois de uma série de surtos de listeria (faz-me sempre lembrar o Dr House e o episódio das pombas) nas suas instalações ter levado a Walmart, um dos seus principais clientes, a terminar a relação comercial. A Walmart deixou de comprar os produtos da FreshRealm em Janeiro e representava, na altura, mais de 20% das receitas da empresa. Mais de 20%. É um daqueles números que parecem simpáticos numa apresentação comercial sobre "clientes estratégicos", mas que se tornam menos simpáticos quando o cliente estratégico decide sair.

A FreshRealm perdeu uma parte muito importante das suas receitas, entrou em processo de insolvência e colocou imediatamente em risco as operações que realizava para outras empresas. A Blue Apron era, segundo o artigo, o maior cliente da FreshRealm e chegou a instaurar uma acção judicial para tentar libertar-se do contrato. Entretanto, a Wonder, proprietária da Blue Apron, discutiu com a Misfits Markets, uma empresa de comércio electrónico de alimentos perecíveis, a possibilidade de comprar a FreshRealm durante o processo de insolvência. Abhi Ramesh, presidente executivo da Misfits Markets, explicou o problema de forma bastante directa:

"If the doors close for FreshRealm, as you can imagine, the doors end up closing for everyone they are doing fulfillment for."

Se a FreshRealm fechasse as portas, as portas também se fechariam para todos aqueles para quem preparava e expedia produtos, e aqui está o verdadeiro problema. A Blue Apron e a Marley Spoon continuavam a ter:

  • clientes;
  • receitas;
  • menus;
  • marcas conhecidas;
  • aplicações e plataformas para receber encomendas;
  • contratos;
  • receitas culinárias;
  • e muita vontade de continuar a vender.

O que podiam deixar de ter era capacidade para colocar os ingredientes certos dentro das caixas certas e fazê-las chegar aos clientes certos. Tinham a promessa, mas podiam perder o mecanismo que permitia cumpri-la. Esta é uma daquelas situações em que descobrimos que um fornecedor não fornecia simplesmente qualquer coisa à empresa. Sustentava uma parte significativa da capacidade da empresa para funcionar.

Como mudar de motor com o avião no ar nunca foi uma actividade muito sossegada, parte dos negócios e dos contratos da FreshRealm foi adquirida pela Misfits Markets. As encomendas começaram então a ser transferidas das antigas instalações da FreshRealm para um dos armazéns regionais da Misfits Markets. Segundo o seu presidente executivo, a transição através do processo de insolvência foi:

"Incredibly messy and incredibly fast."

Uma forma educada de dizer que era preciso mudar uma operação crítica em tempo recorde, enquanto os clientes continuavam a escolher refeições e a esperar pelas caixas à porta de casa. Não se tratava apenas de mudar o nome que aparecia na lista de fornecedores aprovados. Era necessário transferir ou reconstruir:

  • inventários;
  • informação sobre os ingredientes;
  • dados das encomendas;
  • métodos de preparação;
  • conhecimentos sobre as receitas;
  • regras de substituição;
  • requisitos de embalagem;
  • sistemas informáticos;
  • responsabilidades;
  • e capacidade logística.

Por exemplo, segundo o artigo, algumas contagens de inventário comunicadas durante o processo de insolvência estavam incorrectas. A Misfits Markets ficou a tentar encontrar ingredientes suficientes para completar as encomendas que já tinham sido feitas.

A certa altura, começou a cancelar preventivamente as encomendas para as quais sabia que não teria todos os ingredientes necessários. É melhor cancelar uma caixa do que enviar conscientemente uma caixa incompleta, mas o cliente continuava sem jantar...

A falência da FreshRealm começou com problemas ocorridos a montante: segurança alimentar, perda de um grande cliente, queda das receitas e insolvência. No entanto, as consequências viajaram pela cadeia de abastecimento até chegarem às cozinhas de pessoas que nunca tinham ouvido falar da FreshRealm.

É o que acontece quando o fornecedor se torna parte do produto. Ou melhor, quando se torna parte do processo necessário para produzir o resultado que o cliente compra.

O problema não é subcontratar. O problema é tomar uma decisão de subcontratação olhando apenas para o preço, para a eficiência e para a conveniência, sem considerar o que acontece quando o fornecedor falha. 

Até acontecer.

A questão não é saber se todas as actividades devem permanecer dentro da empresa. É saber quais as actividades externas cuja interrupção impede a organização de cumprir a promessa feita ao cliente. Nem todos os fornecedores têm a mesma importância. Se o fornecedor de papel A4 desaparecer, provavelmente haverá outro. Se o fornecedor que recebe as encomendas, gere os ingredientes, prepara as caixas, embala as refeições e organiza a expedição desaparecer, talvez não seja possível encontrar um substituto na Sexta-feira e começar a operar normalmente na Segunda. Azar.

A criticidade de um fornecedor não depende apenas do valor anual das compras. Depende também de:

  • quanto da proposta de valor passa pelas suas mãos;
  • quão rapidamente pode ser substituído;
  • quanto conhecimento específico acumulou;
  • que informação e infra-estruturas controla;
  • que alternativas existem;
  • e quanto tempo demora o cliente a sentir a sua falha.

No caso da FreshRealm, a resposta ao último item parece ter sido: na caixa seguinte.

A falência era do fornecedor. A interrupção afectava a Blue Apron e a Marley Spoon. A caixa incompleta chegava ao cliente. E o nome que estava na caixa não era FreshRealm. O que me leva a perguntar:

Quais dos seus fornecedores se limitam a fornecer produtos e serviços e quais já executam uma parte essencial da promessa que a sua empresa faz ao cliente?

Se um deles fechasse amanhã, quanto tempo demoraria o seu cliente a perceber?

E perceberia primeiro a sua empresa... ou o cliente?

Na parte III, os problemas saem dos armazéns, entram nas caixas e começam a aparecer nas reclamações, nos reembolsos e nos cancelamentos. É impressionante como um único artigo de jornal está carregado de exemplos sobre o impacte na insatisfação dos clientes, e em prejuízo, financeiro e não só, para as marcas

Continua.

sábado, agosto 22, 2026

Curiosidade do dia

Retirado do The Telegraph de hoje:

"Families in China are paying £1,000 to send children to "hardship camps" to toughen them up and teach them to appreciate their parents.

At the camps, children are forced to spend their summer holidays carrying out farm work, planting potatoes and corn, peeling bark, chopping wood and feeding livestock.

Their mobile phones are confiscated and food can be withheld as a punishment if they fail to complete their tasks. They are ordered to write letters home to their parents during their stay.

In videos shown on state media, children can be seen hunched over and wiping away tears as they struggle to carry baskets of food and wood. In one clip, a young boy sobs while he ploughs dirt, crying: "I want to work, I want to do homework."

The children are also seen sleeping on green sleeping bags on the floor in cramped rooms."

Não concordo com a humilhação, a privação de comida como castigo ou o sofrimento deliberadamente imposto às crianças, mas reconheço que há, por detrás desta experiência extrema, uma intuição que o Ocidente parece ter perdido: o carácter também se forma através do esforço, da responsabilidade, da frustração e da descoberta de que as coisas de que usufruímos resultam do trabalho de alguém. Uma criança não precisa de ser maltratada para aprender isto, mas precisa de contribuir, cumprir tarefas, superar dificuldades e perceber que nem tudo pode ser abandonado quando deixa de ser agradável.

Estamos a educar demasiadas vezes para uma estranha ideia de vida boa: não a satisfação de realizar um trabalho útil, dominar uma capacidade ou contribuir para os outros, mas uma espécie de fim-de-semana glorificado que deveria prolongar-se pela semana inteira. O descanso é necessário, mas só adquire verdadeiro valor quando alterna com o esforço; a liberdade é preciosa, mas não existe sem responsabilidade. Uma sociedade que deixa de transmitir o valor do trabalho acaba por querer beneficiar de tudo, sem compreender quem produz, mantém e paga aquilo de que depende. 



O cliente não compra ingredientes. Compra o jantar (Parte I)



No passado dia 20, o The Wall Street Journal publicou um artigo intitulado "Incomplete Meal Kits Vex Buyers" sobre clientes da Blue Apron e da Marley Spoon que começaram a receber caixas com ingredientes em falta, embalagens danificadas, substituições estranhas e, nalguns casos, quase nada que permitisse preparar a refeição que tinham escolhido.

"Marlene Cooper has paid $100 a week to get a box of five meals from Blue Apron for the last decade, delighting in dinners like chicken enchilada skillet and cilantro paneer and chickpea curry. But a few weeks ago, the 53-year-old, who lives in Fredonia, N.Y., started noticing problems with her orders. Some ingredients were missing-like all the vegetables. Others were replaced with acceptable substitutions, like garlic tahini for regular tahini. This week was worse.
...
For over a decade Steven McGinty of Atlanta has spent around $70 most weeks for three Blue Apron meals to cook dinner for himself and his husband. Last week two chicken portions were missing, said the 43-year-old pricing analyst.
This week the meal box came with a container of harissa sauce splattered over its contents. McGinty has been able to get a credit, but has canceled future shipments."

Mas, antes de irmos aos problemas, às reclamações, aos reembolsos e aos cancelamentos, talvez valha a pena perceber o que é que estas empresas realmente fazem.

A Blue Apron e a Marley Spoon pertencem ao mundo das chamadas meal kits. O cliente escolhe antecipadamente as refeições, indica o número de pessoas e recebe em casa uma caixa com as receitas e os ingredientes necessários, já divididos nas quantidades adequadas. Em princípio, o processo é simples: 


À primeira vista, estas empresas vendem caixas com alimentos. Carne, peixe, legumes, massa, arroz, molhos, especiarias e mais uma série de pequenos sacos com coisas que, pelo menos no meu caso, só descobriria para que servem depois de ler as instruções.

No entanto, estas empresas não vendem, de facto, ingredientes. Vendem a possibilidade de chegar a casa ao fim do dia e cozinhar uma refeição sem ter de decidir o que fazer, procurar uma receita, verificar o que existe na despensa, elaborar uma lista de compras, ir ao supermercado e tentar perceber se aquele molho exótico que a receita recomenda está na prateleira dos temperos, na secção internacional ou escondido atrás de um expositor de iogurtes.

A Marley Spoon resume parte da promessa dizendo que envia exactamente aquilo de que o cliente precisa para cada refeição. A Blue Apron apresenta os ingredientes já proporcionados, receitas concebidas por chefes e diferentes níveis de dificuldade. Parece um pormenor de marketing, mas não é.

Há empresas que descrevem o seu produto a partir daquilo que fazem. Os clientes avaliam-nas a partir daquilo que conseguem fazer com o que recebem. Para o armazém, o resultado pode ser uma caixa preparada e expedida dentro do prazo. Para a transportadora, pode ser uma caixa entregue na morada indicada. Para o cliente, o resultado é conseguir colocar o jantar na mesa. Entre uma coisa e outra pode existir um mundo.

Do ponto de vista de quem prepara a encomenda, uma caixa com nove dos dez ingredientes pedidos pode parecer 90% conforme. Do ponto de vista do cliente, se os ingredientes em falta forem as duas porções de frango, pode não existir jantar. Nove ingredientes correctos não fazem necessariamente uma refeição quase completa. Por vezes, fazem apenas uma caixa cheia de coisas que já não servem para o fim pretendido. É uma diferença importante.

O cliente da Blue Apron ou da Marley Spoon não está a comprar separadamente tomates, massa, molho de soja, cebolinho e uma receita impressa. Está a comprar a combinação entre todos esses elementos, entregue no momento certo e nas condições necessárias para conseguir preparar uma determinada refeição. Está também a comprar: 

  • conveniência e poupança de tempo; 
  • variedade e previsibilidade; 
  • redução do esforço de planeamento e menos desperdício; e 
  • a possibilidade de cozinhar sem organizar previamente toda a sua cadeia de abastecimento doméstica.

Por isso, há requisitos que talvez o cliente nunca escreva, mas que fazem parte da compra. A caixa tem de chegar: 

  • completa; 
  • correcta; 
  • pontualmente; 
  • sem danos; 
  • com os ingredientes frescos e seguros; 
  • com quantidades suficientes; e 
  • com correspondência entre os ingredientes e a receita escolhida (ehehehe).

Nenhum cliente deverá sentir necessidade de escrever no formulário de encomenda: "Por favor, não se esqueçam de incluir o ingrediente principal." Também não deverá precisar de esclarecer que não pretende que o recipiente do molho se abra e tempere o cartão, as instruções e todos os restantes produtos. Esses requisitos não são normalmente explicitados porque são tão evidentes que o cliente presume que serão cumpridos. E é aqui que uma caixa quase completa pode representar um fracasso completo.

Um supermercado vende ingredientes. Estas empresas vendem a eliminação de uma parte do trabalho necessário para transformar uma intenção, "hoje vou cozinhar", num resultado, "o jantar está na mesa".

Se o cliente tiver de sair de casa para comprar os ingredientes que faltam, a empresa não falhou apenas na preparação da caixa. Destruiu a própria razão pela qual o cliente escolheu aquele serviço.

No artigo do The Wall Street Journal, um cliente que recebia refeições da Blue Apron há mais de dez anos acabou por cancelar as entregas futuras e resumiu a experiência desta forma:

"We just went to the grocery store this week like normal people."

A frase tem graça, mas é ... terrível. O cliente regressou exactamente à actividade que pagava à Blue Apron para evitar.

Quando se fala de foco no cliente, é fácil cair em palavras como satisfação, experiência, expectativas e valor. A ISO 9001 também utiliza algumas delas. No entanto, antes dos indicadores, dos questionários e das reuniões, existe uma pergunta muito mais básica: O que é que o cliente está realmente a tentar conseguir quando compra o nosso produto ou serviço?

Se a organização responder mal a esta pergunta, pode medir escrupulosamente o que produz e continuar sem perceber por que razão os clientes estão insatisfeitos. Pode contar caixas expedidas quando deveria contar refeições que os clientes conseguiram preparar. Pode considerar uma entrega concluída quando, para o cliente, o processo ainda não produziu qualquer resultado útil. Pode até celebrar uma elevada percentagem de ingredientes correctos enquanto perde clientes porque faltou precisamente o ingrediente que transformava todos os outros numa refeição.

A Blue Apron e a Marley Spoon vendem a promessa ao cliente, mas não executam necessariamente todas as actividades necessárias para a cumprir. Uma parte crítica dessa promessa estava nas mãos da FreshRealm, a empresa que preparava e expedia as caixas. Quando esse fornecedor entrou em dificuldades, os problemas não ficaram no fornecedor. Viajaram até à cozinha dos clientes.

O que me leva a perguntar: A sua empresa sabe o que o cliente está realmente a comprar ou limita-se a descrever aquilo que factura e entrega? E volto a:

Think “outcome before output”

E quanto dessa promessa está hoje nas mãos de um fornecedor cujo nome o seu cliente nem sequer conhece?

Continua.

sexta-feira, agosto 21, 2026

Curiosidade do dia


O FT do passado dia 16 publicou uma coluna intitulada "CEOs cannot get enough of 'brutally honest' feedback".

A certa altura pode ler-se:
"The higher you get in an organisation, the fewer people will tell you what you actually need to hear,"
À medida que se sobe na hierarquia, diminui o número de pessoas dispostas a dizer ao líder aquilo que ele precisa de ouvir. Os subordinados podem recear contrariar o CEO, enquanto colegas e administradores podem ter interesses próprios. O resultado é uma redução progressiva da informação franca que chega ao líder.

O principal problema pode não ser aquilo que o CEO desconhece, mas aquilo que a organização deixou de lhe dizer. Uma empresa deve criar mecanismos para que informação incómoda, sinais fracos e opiniões divergentes cheguem efectivamente ao topo. 

Começo logo a pensar na nota de 5 euros que nunca é reclamada...

Recordar:


Acerca do futuro, script para um filme

Esta semana no Twitter alguém respondeu a um tweet meu com outro tweet:
"na véspera, os nenúfares ocupavam apenas metade do lago..."

Há coisas que intuímos que vão ocorrer, mas demoram sempre os 47 dias incipientes da praxe. Depois, quando ocorrem, o culpado é o Passos da ocasião. 

  • Há mais de um ano que leio, aqui e acolá, sem procurar, sobre a inversão do carry trade baseado em ienes. 
  • Esta semana a dívida alemã a 10 anos atingiu o valor mais alto desde Maio de 2011.
  • A orgia despesista da França, Itália, Espanha e Reino Unido continua.
  • Os grandes, enormes investimentos em IA.
Na ISO 9001, a cláusula 4.1, "Compreender a organização e o seu contexto", convida-nos a olhar para dentro e para fora e a equacionar o que pode influenciar o futuro da organização.

O The Telegraph de ontem publica um artigo intitulado "The era of cheap money is over, now you must protect your funds against bond market chaos":

"For anyone under 40, paying to borrow and being rewarded to lend is a new concept. For the rest of us, it is a return to familiar territory.

The zero-interest-rate world helped the financially overstretched. It enabled me to house my young family in a property I never could have bought before the cost of borrowing collapsed. But for anyone with savings, or the retired, it required a couple of big shifts in their attitude to risk. Cash was trash for a decade and a half; now it is king again."

E volto aquele meu mágico Verão de 2008... e aos almoços grátis, que não existem:

Os consumidores vão ter de moderar o seu consumo.
O crédito para habitação vai ser mais caro.
A poupança vai voltar a estar na moda.

O fim do dinheiro barato aumentará o custo de novas máquinas, instalações, aquisições, expansão internacional e fundo de maneio. O impacte será especialmente forte nas PME, que dependem do crédito bancário e têm menos alternativas de financiamento.

As empresas precisarão de demonstrar que os investimentos rendem mais do que o custo do capital. Serão particularmente vulneráveis:
  • as empresas muito endividadas;
  • as actividades com margens reduzidas; 
  • os negócios que sobrevivem através de refinanciamentos sucessivos;
  • as empresas de baixo valor acrescentado que investem pouco na produtividade;
  • e as "farfetch" desta vida
No curto prazo, isto vai reduzir o investimento e o crescimento. No médio prazo, pode ter um efeito saudável: menos capital para projectos pouco produtivos e maior disciplina na sua alocação. O dinheiro barato permitia manter empresas zombies; o dinheiro mais caro obriga a distinguir crescimento real de crescimento financiado por dívida.

Agora, vamos às minhas profecias:

Já me estou a preparar para as associações empresariais começarem a fazer pressão para reduzir o custo do capital.

Já imagino o choradinho nas televisões e os calafates, as anabelas e os frazões desta vida a fazerem propostas para prolongar processos de recuperação, suspender execuções, dificultar a cobrança de dívidas ou conceder novos períodos de carência. Mark my words: raramente se dirá "esta empresa não consegue remunerar o capital". Dir-se-á que enfrenta uma "dificuldade conjuntural", mesmo quando a dificuldade já dura há uma década.

Já imagino as empresas da construção, consultoria, transportes, turismo (Oh não, outra vez um banho de Jacinto nas TVs e jornais), formação e tecnologias a procurar compensar a quebra da procura privada através de pressão para manter a procura através do Estado.

Já imagino os devotos da 1ª Lei de Arroja a fazerem romarias diárias às TVs e ao ministro de São João da Madeira a pedir protecção contra a concorrência. Se tiverem sorte, ainda voltam a ganhar na rifa o CEO da Brisa, que emoção!!!

E agora que o BE acabou, já imagino o clube amigos do Rui Tavares, com o apoio do Chega, a agarrar a bandeira e a fazer pressão sobre os bancos e sobre o Álvaro das natas.

Vou ter de actualizar o meu dashboard de Google Trends para incluir "sectores/setores estratégicos" porque imagino que vai voltar a estar na moda.

Por fim, que ambiente poderia ser melhor para aumentar a pressão para importar paletes de mão de obra barata e conseguir-lhes alojamento e formação à custa do contribuinte.

Ah! Já me esquecia do PCTP, a campanha pública do medo:

  • o BCE está a matar as PME; 
  • Portugal corre o risco de perder a sua indústria; 
  • os bancos têm lucros excessivos enquanto as empresas sofrem; 
  • Bruxelas não compreende a realidade portuguesa; 
  • sem apoios, milhares de famílias ficarão sem rendimento; 
  • as empresas precisam de tempo, não de mais exigências.
E acabo com:

"Planning is an unnatural process; it is much more fun to do something. And the nicest thing about not planning is that failure comes as a complete surprise rather than being preceded by a period of worry and depression." (Sir John Harvey-Jones)

O que me leva a perguntar: a sua empresa está preparada para este novo mundo ou faz parte do clube zomby e tem amigos em high places?



quinta-feira, agosto 20, 2026

Curiosidade do dia

Não li o relatório sobre a sustentabilidade da Segurança Social em Portugal.

Praticamente só vi algumas imagens na TV onde comentadores de espectro largo o comentavam como mais um tema em que também são experts, além do futebol, da guerra da Ucrânia, do aquecimento global e do preço das barracas de praia. No entanto, li alguns destaques dos comentários desses comentadores no Twitter e nos jornais.

E fiquei a pensar nos sofistas da Atenas pós-Péricles... eles abriram a porta aos demagogos e, depois, aos tiranos.

Muitos comentadores usam a palavra, a retórica, tal como os sofistas, para persuadir e não necessariamente para procurar a verdade e o bem comum… Interessante: mal acabei de escrever a frase anterior, recordei o que o bispo Barron escreve hoje sobre o wokeismo.

É triste quando uma comunidade deixa de conseguir distinguir a melhor argumentação da realidade; a política transforma-se numa competição entre narrativas. Anteu ensina-nos o que acontece a quem perde o contacto com a realidade.

São as pessoas que tomam as decisões.

Na semana passada publiquei o quarto episódio da série BlueRiver — ISO 9001:2026 in Real Life.

A BlueRiver já definiu os seus clientes-alvo, as promessas que pretende fazer, o âmbito do seu Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ ) e os processos que devem funcionar em conjunto. Mas uma declaração do âmbito e um mapa de processos não tomam decisões sozinhos. São as pessoas que tomam as decisões.

Este episódio explora a forma como a cultura da qualidade se torna visível na prática. O episódio desenvolve ainda a Política de Qualidade da BlueRiver utilizando quatro pilares: Identidade; Clientes-alvo; Capacidades; e Compromissos.

A política resultante é depois testada com base numa questão simples: expressa escolhas estratégicas reais ou poderá ser aplicada a quase qualquer organização?

O episódio mostra também como a política deve traduzir-se em objectivos mensuráveis, compromissos da liderança e comportamentos esperados.


Vou disponibilizar cinco sessões individuais de trabalho, gratuitas e com a duração de uma hora, destinadas a pessoas que estejam a implementar, rever ou repensar um Sistema de Gestão da Qualidade.

A ideia é simples: Uma pessoa. Uma organização. Um problema real. Uma hora.


quarta-feira, agosto 19, 2026

Curiosidade do dia

Por volta das 17h do passado Domingo, fiz uma caminhada até à FNAC do Gaiashopping. Ao chegar à zona de entrada do parque de estacionamento do hipermercado, estranhei ver uma camioneta de passageiros no local onde as camionetas costumam parar de manhã para recolher benfiquistas em dias de jogo grande em Lisboa.

Ao aproximar-me, reparei que era uma camioneta para turistas e que alguns já faziam fila para entrar nela. Eram asiáticos. 

No centro comercial, voltei a ver pequenos grupos de asiáticos a passear entre as lojas. 

Confesso que achei estranho e pensei: só mesmo asiáticos para incluir um centro comercial numa visita turística. 

Hoje, no JdN encontrei o artigo "O turismo de supermercados é a nova grande tendência". Um destaque do artigo é:

"Prevejo para breve a chegada de autocarros de excursão às portas do Pingo Doce e do Continente, com filas de turistas a seguir um guia com um guarda-chuva levantado."

Não é preciso prever, já está a acontecer e eu vi. 

Sublinhei:

"Não é ficção, prometo, está atestada como uma das maiores tendências do turismo para 2026, tanto no relatório "Hilton's 2026 Trends Report", que indica que 77 por cento dos viajantes adoram visitar supermercados no estrangeiro, como também na lista da Condé Nast Traveller, ambos profusamente citados numa reportagem da BBC que considerou o fenómeno digno da sua atenção.

...

o que mais os atrai é passear num lugar onde nada lhes é diretamente destinado, porque estão fartos até à ponta dos cabelos de lojas para turistas [Moi ici: Como eu os entendo!], cheias de sardinhas pintadas, andorinhas e galos de Barcelos, os mesmissimos recuerdos, porta sim, porta sim."

Produtividade e o nosso planeta de Miller

A Roménia já ultrapassou Portugal em produtividade por hora trabalhada. Repito: a Roménia — um país que, quando aderiu à União Europeia, em 2007, tinha um nível de vida que parecia estar várias décadas atrás do nosso. Não escrevo isto com satisfação, muito menos com desprezo pela Roménia. Escrevo-o com a tristeza de quem vê outros avançarem enquanto Portugal continua a repetir as mesmas receitas: mais redistribuição antes de criar riqueza, mais impostos sobre quem investe e cresce, mais Estado a escolher, proteger e adiar aquilo que o mercado acabaria por transformar.

Há uma cena em Interstellar em que uma manobra errada próxima de um buraco negro custa décadas a quem ficou longe dele. Às vezes penso que Portugal vive dentro dessa metáfora: aplica-se mais uma política destinada a proteger-nos da mudança, adia-se mais uma reforma, salva-se mais uma actividade que deixou de ser viável e, quando voltamos a olhar para o exterior, passou outra década. Os outros países envelheceram, aprenderam, investiram e enriqueceram; nós continuamos no mesmo lugar, a discutir como repartir melhor uma riqueza que nunca chegámos a criar. A riqueza nasce do investimento, do capital, da inovação, da produtividade e da capacidade de deixar morrer o que já não tem futuro. O resto é apenas uma maneira politicamente confortável de perder tempo — e Portugal já perdeu demasiado.


terça-feira, agosto 18, 2026

Curiosidade do dia

O JN de hoje traz um artigo sobre o panorama dos fabricantes portugueses de componentes automóveis que, sobretudo, exportam para as fábricas da Alemanha e da Espanha que estão a produzir cada vez menos automóveis, não só pela concorrência asiática, mas também pela evolução demográfica.

Numa coluna à parte, o jornal entrevista um dirigente sindical dos trabalhadores do sector automóvel. O dirigente começa com um discurso baseado em factos, impossível de rebater, sobre a transformação em curso imposta pela electrificação automóvel e pela concorrência asiática. Por fim, o jornal pergunta:

"Onde estão os maiores riscos para os trabalhadores?

No setor dos componentes, onde encontramos muita subcontratação e trabalho temporário, além de salários mais baixos e níveis elevados de flexibilização. São empresas que dependem muito mais das flutuações da produção dos grandes fabricantes.

O que deve ser feito perante esta transformação?

É preciso impedir que os trabalhadores sejam o elo mais fraco e que essa transformação não seja feita à custa dos postos de trabalho e das condições laborais."

 Come on!!! Se os fabricantes europeus produzirem menos automóveis, se a electrificação eliminar componentes e simplificar as cadeias de fornecimento e se a concorrência asiática conquistar mercado, haverá inevitavelmente menos encomendas para algumas empresas portuguesas. E, quando desaparece a procura, não há declaração sindical, lei ou subsídio capazes de conservar indefinidamente todos os postos de trabalho e todas as condições anteriores.

Perante uma transformação desta dimensão, todos serão afectados: accionistas perderão capital, empresas fecharão ou terão de mudar, trabalhadores perderão funções e regiões poderão ver desaparecer actividades inteiras. A pergunta séria seria outra: que empresas ainda têm futuro, que novas competências serão necessárias, que trabalhadores podem ser reconvertidos e como facilitar rapidamente a passagem para actividades mais produtivas? 

Impedir que a realidade tenha consequências não é uma política. Gostaria, por isso, de saber qual é exactamente a alternativa deste dirigente: manter artificialmente empresas sem encomendas, proibir despedimentos até elas falirem ou pedir ao contribuinte que pague para conservar uma estrutura industrial que o mercado deixou de sustentar? 

Estamos cada vez mais invadidos por um discurso do tipo Miss Mundo...

Não esperar pelo subsídiozinho

O JN no passado dia 16 de Agosto publicou, "Espírito Santo virou-se para o turismo e 50% dos clientes são estrangeiros".

Há empresas que ficam à espera de que alguém lhes volte a trazer o queijo. Outras, quando percebem que o queijo mudou de lugar, procuram-no noutro sítio. A Espírito Santo, empresa de transportes de Gaia que acaba de completar cem anos, parece pertencer ao segundo grupo. Perante a transformação do mercado, não abandonou aquilo que sabe fazer, transportar pessoas, mas procurou novos clientes e novas utilizações para os seus recursos. Reorientou-se para as viagens de lazer e para o turismo, passou a operar dentro e fora do país e, hoje, cerca de metade dos seus clientes são estrangeiros.

"A celebrar cem anos, reinventou-se e tem agora o foco direcionado para o turismo.

Faz viagens dentro e fora do país, sobretudo para Espanha, e "metade dos clientes são estrangeiros"."

É um bom exemplo de uma empresa que observa a evolução do contexto e não espera passivamente que o passado volte. Em vez de perguntar como poderia continuar a fazer exactamente o mesmo para os mesmos clientes, talvez com um subsídiozinho, perguntou onde poderiam ser valorizadas as capacidades que já possuía: a frota, o conhecimento das operações, os motoristas, a organização logística e a reputação acumulada ao longo de várias gerações. Manteve o serviço essencial, mas mudou os clientes-alvo. Não se trata apenas de adaptação comercial; trata-se de uma escolha estratégica destinada a recuperar algum controlo sobre o futuro.

Contudo, encontrar um novo queijo não significa que ele ficará para sempre no mesmo lugar. A aposta no turismo abriu novas oportunidades, mas também gerou uma nova exposição. Uma empresa demasiado dependente das viagens de lazer fica vulnerável à sazonalidade, às crises económicas, às alterações nos fluxos turísticos, ao custo das deslocações e a acontecimentos inesperados como a pandemia. O que hoje constitui uma via de crescimento pode tornar-se amanhã numa nova concentração de risco. è a velha metáfora da vida de liana em liana.

A lição, portanto, não é que todas as empresas devam virar-se para o turismo. É que devem acompanhar continuamente o contexto, reconhecer quando os seus mercados tradicionais estão a mudar e procurar novas aplicações para as capacidades que construíram. E, depois de encontrarem uma alternativa, devem evitar confundi-la com um destino definitivo. Ganhar controlo sobre o futuro não é adivinhar onde estará o queijo amanhã; é desenvolver a capacidade de voltar a procurá-lo antes dele desaparecer.

segunda-feira, agosto 17, 2026

Curiosidade do dia

Para reflexão:

"Queridos amigos e amigas, convido-vos a continuar a sonhar o sonho de Deus. A cada um de vós digo: Deus ama-te tal como és, mas sonha-te ainda melhor! O Senhor permite-nos a todos recomeçar sempre, pois ser humano e ser cristão não consiste em não cometer erros, mas sim em crescer na capacidade de se converter, arrepender, emendar e, acima de tudo, de se reconciliar e perdoar."

Trecho retirado daqui



IA - Um outro tipo de arqueologia industrial


Recordo que no tempo em que andávamos todos mascarados e eu estava a dar os primeiros passos com a IA, trabalhava na altura com uma empresa grande que tinha um sistema informático muito lento, mas onde se armazenavam mais de 20 anos de CAPAs (aquilo que no mundo dos sistemas de gestão quer dizer "Corrective Actions Preventive Actions"). Como era uma empresa grande e disciplinada, tinha registos de vários milhares de CAPAs, e uma das primeiras coisas que imaginei que se poderia fazer com a IA seria explorar todo aquele património de informação e procurar padrões, recorrências escondidas, causas comuns, sinais precursores e acções que pareciam resolver os problemas, mas que, na realidade, apenas adiavam o seu reaparecimento. 

Tudo isto veio-me à memória por causa dum artigo publicado no Handelsblatt do passado dia 14, "Menos consumo de matéria-prima, maior volume de vendas graças à IA" (Weniger Rohstoffverbrauch, mehr Umsatz dank KI).

A Gebrüder Dorfner, é uma empresa alemã com 130 anos que extrai e transforma caulino e areia de quartzo, está a utilizar inteligência artificial para converter décadas de dados laboratoriais e de formulações num activo estratégico. A IA permite-lhe identificar mais rapidamente como responder às necessidades dos clientes, desenvolvendo soluções personalizadas em poucos dias, em vez de meses, e obtendo o mesmo desempenho nas tintas com menos um terço de caulino. Desta forma, a empresa reduziu substancialmente a extracção de matéria-prima, prolongou a vida útil da jazida e, simultaneamente, aumentou as receitas e os resultados.

Mais do que optimizar os processos existentes, a Dorfner está a transformar o seu modelo de negócio: deixa progressivamente de vender apenas minerais e passa a fornecer funções e soluções adaptadas às aplicações dos clientes.

Talvez esta história me tenha interessado tanto porque me fez recordar o meu primeiro emprego a sério, na TMG. Eu era engenheiro de produto. Parte do trabalho consistia precisamente em compreender como diferentes matérias-primas, formulações e condições do processo influenciavam as características do produto final. Cada ensaio, cada lote, cada desvio e cada tentativa falhada continham informação. Contudo, muito desse conhecimento permanecia disperso por cadernos, folhas de cálculo em... seria Simphony?, relatórios ou, simplesmente, na memória das pessoas mais experientes. Recordo outra experiência: quando alguém opera um forno rotativo há décadas, quase como se este fosse um mistério, alterando parâmetros com base numa mistura de experiência, intuição e hábitos transmitidos oralmente, existe ali conhecimento, mas ainda não existe necessariamente conhecimento organizacional. E claro, o biorreactor desta série.

É por isso que o caso da Dorfner não interessa apenas a empresas mineiras ou a fabricantes de tintas. Interessa a todas as organizações que têm décadas de resultados guardados em folhas de Excel, bases de dados, relatórios em papel, cadernos de laboratório, registos de produção, reclamações, avarias, ensaios, auditorias ou CAPA. Em muitos casos, as empresas procuram fora aquilo que já possuem dentro: milhares de experiências realizadas, decisões tomadas e consequências observadas, mas nunca suficientemente organizadas, relacionadas e transformadas em conhecimento.

Talvez uma das aplicações mais valiosas da IA não seja criar conteúdos novos, mas sim permitir-nos conversar com o passado da organização. Perguntar-lhe que combinações funcionaram, que sinais antecederam uma falha, que problemas regressaram com outro nome, que parâmetros parecem explicar a variabilidade e que soluções resultaram num contexto, mas falharam noutro. O verdadeiro tesouro pode não estar apenas na jazida, na fábrica ou no equipamento. Pode estar em décadas de dados que a organização acumulou sem ainda ter aprendido verdadeiramente a ler.

Imagino-me na empresa, com 20 anos de CAPAs, a investigar: o que é que vinte anos de problemas e tentativas de solução nos ensinam sobre a forma como esta organização realmente funciona?