Entretanto, li dois artigos na imprensa espanhola que me fizeram regressar a este tema. A RTVE anuncia uma previsão de crescimento de 23% da produção de azeite em Espanha, acompanhada pelo receio de uma queda dos preços. O el Economista dá conta das preocupações dos olivicultores valencianos: segundo a organização agrícola La Unió, o azeite virgem extra estaria a ser pago na origem a cerca de 3,20 euros por quilo, quando os custos estimados para o olival tradicional mecanizável de sequeiro da região rondariam os 4,60 euros.
Estas notícias dizem directamente respeito aos produtores de azeitona. Mas, se eu tivesse um pequeno lagar, também as leria com atenção. Quer prestasse um serviço de transformação aos produtores, quer comprasse azeitona para vender azeite, encontraria nelas mais uma razão para pensar em estratégia.
No serviço de transformação, uma campanha abundante pode trazer mais trabalho. Contudo, se os produtores tiverem dificuldade em rentabilizar a colheita, também terão mais razões para discutir o preço do serviço. Se considerarem que os lagares disponíveis fazem essencialmente o mesmo, por que haveriam de pagar mais pelo nosso?
Na compra de azeitona para venda de azeite, a pressão chega através dos compradores. Quando consideram o nosso azeite equivalente ao de muitos outros fornecedores, podem escolher em função do preço. Uma maior disponibilidade de azeite aumenta as alternativas e reforça a sua capacidade negocial. Comprar bem a azeitona e transformar com eficiência é indispensável, mas outros lagares também procuram fazer isso. Portanto, nos dois casos, colocaria a mesma pergunta: que razões podemos construir para que determinados clientes nos escolham, mesmo quando encontram uma alternativa mais barata?
É aqui que o pensamento estratégico começa a fazer diferença. Se aceitarmos como inevitável que todos oferecem o mesmo, resta-nos procurar baixar os custos e acompanhar os preços do mercado. Para um pequeno lagar, que dificilmente ganhará uma corrida de escala, interessa explorar outras possibilidades: escolher clientes para quem certas diferenças no nosso trabalho tenham importância suficiente para justificar a preferência e o preço.
Na parte II, desenvolvi o exemplo dos produtores que querem comercializar azeite com a sua marca. Para esses clientes, preservar a identidade do lote, organizar a colheita em articulação com a transformação, conhecer antecipadamente os custos e receber informação documentada podem ser especialmente importantes.
Um lagar capaz de cumprir esses compromissos dá ao cliente razões para olhar para além do preço por quilo transformado. Uma diferença nesse preço pode ser aceitável quando permite evitar atrasos, preservar um lote ou experimentar um projecto comercial sem comprometer toda a produção. Precisamos de compreender essas consequências e de verificar se o cliente está disposto a remunerar o serviço.
Se comprássemos azeitona para vender azeite, procuraria aplicar o mesmo raciocínio aos nossos compradores. Por exemplo, um restaurante pode valorizar um perfil sensorial adequado aos seus pratos, apoio à equipa e fornecimento em quantidades ajustadas ao consumo. Uma loja especializada pode precisar de informação credível sobre o produto e de argumentos que ajudem os seus clientes a compreender a diferença.
Essas possibilidades exigem escolhas. Que compradores queremos servir? Que azeite precisamos de obter? Que azeitona devemos comprar, a quem e em que condições? Que capacidades comerciais e de serviço precisamos de desenvolver? A estratégia começa a ligar decisões que, de outra forma, poderiam ser tomadas separadamente.
Não bastaria colocar uma marca na garrafa ou anunciar qualidade, tradição e paixão. Procuraria construir uma oferta cuja diferença fosse reconhecida na utilização, na relação e nos resultados do cliente. Depois, precisávamos de assegurar que o preço recebido compensava os custos desse modo de trabalhar.
Os preços baixos tornam este exercício mais urgente. Mostram o risco de depender de compradores que nos substituem facilmente e de campanhas que só são boas quando o mercado ajuda.
Se eu tivesse um pequeno lagar, procuraria reduzir essa facilidade de substituição. O objectivo do pensamento estratégico seria construir razões concretas para determinados clientes quererem trabalhar connosco e aceitarem pagar o necessário para continuarmos a servi-los. Quanto menos razões lhes dermos, mais o preço decidirá por nós.
Continua.
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