quinta-feira, abril 09, 2026

Curiosidade do dia

"Shoppers will experience a surge in "dynamic pricing" this year when retailers adopt technology that allows them to change the price of goods and services based on demand, the Bank of England has said.

One in three companies plan to use "market-responsive pricing tools" over the next year, up from one in five last year, a survey by the Bank has found. The Bank defines market-responsive pricing as the use of algorithms, including Al, and digital display labels, to adjust prices in response to data on "demand, capacity or competitors' prices". Dynamic pricing raises the prospect of shops changing prices depending on the time of day, how busy a store is or the weather."

Vou aguardar para breve, nos supermercados em Portugal, preços apresentados em suporte digital.


Publicado hoje no The Times.

É preciso trabalhar a diferenciação concreta


Há muitos anos que uso a metáfora do "hollowing" das marcas. 

Por exemplo, neste título de 2019, "profecia fácil do "hollowing", ou "radioclubização", de como uma marca forte e genuína se transforma numa carcaça, num aristocrata arruinado, fruto de deixarem os muggles à solta", ou neste outro de 2016, "Marcas que viraram carcaças (bonitas por fora mas ocas)".

Lembrei-me dela ao ler um artigo publicado no WSJ de ontem, "For Chinese, American Brands Have Lost Their 'Sexy' Cachet":

"American companies are flailing in China.

Last week, Nike said revenue there was down by a double-digit percentage and poised to get worse. California clothing brand Guess just closed down all its stores in China.

...

A decade ago, American companies had pegged China as a top growth opportunity. The country of some 1.4 billion people was growing rapidly and its young people were intrigued by American brands and fashion. 

...

U.S. companies trying to hang on to a piece of the Chinese market are running into innovative local brands in industries such as ice cream, lingerie and bicycles.

...

U.S. companies are finding that Chinese consumers are less captivated by American cultural trends and more often take pride in local brands.

...

"There are so many domestic brands in China now," she said. "If a brand lacks a unique style and a reasonable price, it simply cannot survive here.""

Há dez anos, muitas empresas viam a China como um mercado de expansão quase obrigatório. Hoje, essa expectativa já não se confirma da mesma forma. Os concorrentes chineses melhoraram muito. Já não competem apenas por preço baixo; em vários sectores competem por inovação, rapidez e melhor leitura do consumidor local.

O artigo sugere que os consumidores estão menos fascinados com marcas americanas e mais inclinados para marcas locais. Em alguns casos, o estilo americano perdeu relevância cultural. 

Uma marca não deve assumir que a sua origem, reputação passada ou imagem "internacional" bastam para vencer. Quando o mercado amadurece, o cliente passa a perguntar: o que me dás exactamente que os outros não dão? É preciso trabalhar a diferenciação concreta — produto, serviço, experiência, rapidez, confiança, personalização - e não viver apenas da fama. 


quarta-feira, abril 08, 2026

Curiosidade do dia


O meu amigo Paulo comentou este artigo, "A AI vai mudar o organograma das empresas – e acabar com o ‘middle management’", no Twitter:

E fez-me recordar Heidi & Alvin Toffler ...


Há partes do artigo que parecem ter sido retiradas do vídeo (primeiros 8 ou 9 minutos).

A ideia central é que, pela primeira vez, existe um sistema, a IA, capaz de manter uma visão continuamente actualizada das actividades e decisões da empresa e de usar essa informação para coordenar o trabalho. Numa empresa tradicional, o gestor sabe o que se passa na equipa e transmite contexto para cima e para baixo. O artigo argumenta que a IA pode passar a desempenhar grande parte dessa função de integração e circulação de contexto.

O artigo cita ainda a ideia de que a velocidade é um dos melhores indicadores de sucesso, sobretudo em startups, e sugere que a IA pode alterar a forma de trabalhar muito mais profundamente do que apenas melhorar a eficiência.

Sim, a velocidade é importante e há muita falta dela
Sim, há muitos gestores intermédios que não passam de uma espécie de rentistas. No entanto, não creio que os gestores possam ser eliminados; têm, é de ser, muito mais criativos e proactivos.

BTW, agora pensem no impacte disto na organização do Estado...

Nas democracias parlamentares, também existem muitas camadas de mediação: administração pública, direcções-gerais, gabinetes, ministérios, comissões, partidos, parlamento. Tal como nas empresas, parte dessas camadas existe para recolher, interpretar, filtrar e fazer circular informação, bem como para coordenar decisões entre muitos actores.

Seguindo a lógica do artigo, poder-se-ia dizer que a IA poderia reduzir parte dessa necessidade de intermediação técnica. Por exemplo, poderia consolidar informação dispersa, simular impactos, acelerar a preparação de decisões, acompanhar a execução e dar aos decisores uma visão mais contínua da realidade. Terreno perigoso, porque não é só a eficiência que conta, também a legitimidade, o controlo, a responsabilidade política, o escrutínio, a negociação, ...



Estratégia em todo o lado, não se pode fazer by-pass


Ao longo dos anos, conheci algumas pessoas que olham para a bolsa como um casino, apostando em empresas sem considerar o contexto nem os fundamentos. Foi nelas que pensei quando li no New York Times, a 4 de Abril, o título: “Billions Were Plowed Into Vertical Farms. Most Failed.”

Continua a impressionar-me que haja quem trate estratégia, posicionamento e proposta de valor como se fossem ideias ultrapassadas. 

Durante algum tempo, as vertical farms foram apresentadas como uma espécie de revolução agrícola: menos água, menos pesticidas, menos transporte, menor dependência do clima, maior proximidade ao consumidor, mais previsibilidade, mais tecnologia. A promessa era sedutora: libertar a produção alimentar de algumas das suas fragilidades e colocá-la num ambiente controlado, limpo, racional, quase industrialmente perfeito.

O fascínio compreende-se. A agricultura está exposta à meteorologia, ao solo, às pragas, à sazonalidade e à geografia. A ideia de trazer parte dessa produção para instalações fechadas, com iluminação artificial, controlo ambiental e precisão quase laboratorial, tinha enorme força simbólica. Parecia modernidade em estado puro. Parecia a natureza finalmente disciplinada pela engenharia.

Mas uma coisa é a elegância da promessa. Outra é a dureza da economia.

"Vertical farming businesses blossomed a decade ago, promising an abundant, cleaner source of fruits and vegetables. Today, most of those start-ups have withered.

...

Now, that venture capital funding has gone up in flames, most prominently the $938 million raised by Bowery Farming and the $792 million by AppHarvest, which are out of business.

Just three years ago, 23 companies signed on to a Vertical Farming Manifesto and committed to goals like transforming "food systems for the benefit of people and the planet." Today, fewer than 10 are in business.

The farms and their investors were not fully prepared for what they would encounter in the agriculture industry, where margins were already thin. New, high-tech vertical farms had to elbow their way into produce markets dominated by extremely efficient traditional farms."

O problema das vertical farms nunca foi apenas tecnológico. Foi, sobretudo, económico. Não porque a tecnologia fosse falsa, nem porque o conceito fosse absurdo, mas porque, muitas vezes, se tentou aplicá-lo num terreno em que a lógica do negócio jogava contra ele. A produção alimentar continua a ser, em grande medida, uma actividade de margens apertadas, forte pressão competitiva e enorme sensibilidade ao custo. Entrar nesse mundo com uma estrutura pesada de capital, energia, equipamentos e engenharia exigia uma clareza estratégica que, muitas vezes, faltou.

Foi aí que surgiu o desajustamento. Parte do entusiasmo inicial parece ter partido da ideia de que uma solução tecnologicamente superior acabaria por derrotar uma agricultura tradicional vista como antiquada. Mas a agricultura convencional não é um sistema ingénuo. É o resultado de décadas, por vezes séculos, de aprendizagem, adaptação, optimização e selecção económica. É brutalmente eficiente em muitas das coisas que faz, sobretudo quando se trata de produzir grandes volumes de bens relativamente indiferenciados a baixo custo.

Por isso, nunca me surpreende quando uma nova tecnologia sofisticada descobre, mais tarde do que deveria, que competir com incumbentes altamente eficientes em mercados de commodities é uma forma rápida de destruir valor.

Foi isso que parece ter acontecido com muitas vertical farms. Em vez de reconhecerem cedo que a sua economia as empurrava para nichos, produtos de maior valor acrescentado ou contextos muito específicos, deixaram-se arrastar pela ambição de escala e pela crença de que a superioridade tecnológica bastaria para vencer.

"She said the first wave of vertical farms had approached business as if they were huge, established food companies, and not start-ups. Their business plan was "large-scale, commodity lettuce sold into retail at thin margins," she wrote in an email, a difficult proposition against established competition.

...

Few consumers seek out vertically farmed produce, Ms. Yehia said, so for now, she is targeting a slice of the market - not the mass market. She grows a wide variety of greens, selling to schools and hospitals in addition to local grocers."

Mas a produção de alface não é software.

Convém dizê-lo de forma nua. Houve aqui uma mentalidade típica do venture capital: crescer primeiro, dominar depois, escalar depressa, captar capital e confiar que o modelo acabaria por se endireitar com a escala. Essa lógica pode funcionar em alguns contextos digitais. No mundo físico, e especialmente no alimentar, a realidade é menos indulgente. A energia custa. A infra-estrutura custa. Os juros contam. A operação conta. A logística conta. E o produto final continua a ter de competir com alternativas cuja eficiência foi afinada ao longo de muito tempo.

No fundo, o erro não foi imaginar demais. Foi imaginar no quadrante errado.

Cultivar em altura, em ambiente controlado, pode ter mérito. Pode reduzir certas vulnerabilidades, fazer sentido em alguns contextos urbanos e servir certos produtos, cadeias logísticas e segmentos de mercado. Mas isso é muito diferente de dizer que veio substituir a agricultura convencional ou disputar-lhe, em larga escala, os segmentos mais sensíveis ao preço. Foi nessa distância que muito dinheiro desapareceu.

Ainda assim, seria simplista ler esta história apenas como um falhanço. Há tecnologias que morrem porque não resolvem nenhum problema. E há outras que passam por uma fase de euforia, seguida de desilusão, até encontrarem finalmente o seu território económico real. As vertical farms parecem pertencer mais a esta segunda categoria: não como solução universal, mas como ferramenta útil em condições muito particulares.

É isso que tende a emergir quando o entusiasmo baixa e a realidade se impõe. O espaço viável das vertical farms parece concentrar-se em produtos mais perecíveis, de maior valor, com ciclos mais sensíveis ao tempo, ou destinados a clientes dispostos a pagar por atributos específicos. Quanto mais se sai do território da commodity e se entra no da especificidade, maior a probabilidade da tecnologia justificar o seu custo.

Dito de forma simples: não faz sentido pedir a uma estrutura cara que sobreviva a vender produtos baratos em mercados implacáveis.

Talvez, por isso, a pergunta certa nunca tenha sido "será esta a agricultura do futuro?", mas antes "em que parte da agricultura do futuro faz sentido que isto exista?". A diferença é decisiva. A primeira pergunta alimenta o delírio da substituição total. A segunda obriga ao trabalho sério do posicionamento.

E é talvez aqui que o futuro se torna mais interessante. Não numa guerra frontal entre vertical farms e agricultura convencional, mas numa reorganização mais fina das funções de cada modelo. É possível que certas culturas, certos contextos urbanos, circuitos curtos, segmentos premium ou exigências de previsibilidade criem espaço para esta tecnologia. É possível também que soluções híbridas, como estufas tecnologicamente muito avançadas, acabem por captar melhor a oportunidade, precisamente porque combinam modernização com uma física económica menos severa.

"Plenty, like many others, began with lettuce because it was easy to grow and commanded a high price relative to its weight. But Plenty soon learned that the market was well supplied with lettuce. "How much of a premium lettuce product the market is actually interested in" is an open question, Mr. Malech said.

Plenty closed farms and has pivoted its sole remaining farm, in Virginia, to strawberries. It has a partnership with the berry giant Driscoll's, which distributes its strawberries to restaurants and higher-end stores. Rather than attack conventional farms head-on, as it did a decade ago, Plenty is starting with customers willing to pay more for a tastier strawberry. While vertical farming businesses have not fared as well as expected, high-tech greenhouses are flourishing. Using many of the same technologies as vertical farms, greenhouses grow food in a single layer and rely on the sun for photosynthesis."

Muitas inovações falham quando querem substituir tudo. Têm mais hipóteses quando aceitam complementar, especializar-se ou ocupar apenas os espaços onde a ordem anterior serve pior.

No caso das vertical farms, essa humildade estratégica talvez tivesse poupado muito capital e muita desilusão. Uma tecnologia nova não tem de conquistar o mundo inteiro para provar o seu valor. Basta encontrar um domínio em que a sua diferença seja suficientemente importante para que o mercado aceite pagar por ela.

A história recente das vertical farms lembra-nos, assim, que a inovação não vive só da engenharia. Vive também da escolha lúcida do lugar onde quer competir. E esse lugar raramente é definido apenas pela beleza da ideia. É definido pela combinação de custos, valor percebido, urgência do problema, disposição para pagar e alternativas já existentes.

Talvez por isso o futuro deste sector, se vier a ser construído com mais disciplina, venha a ser menos grandioso nas palavras e mais sólido nos resultados: menos messiânico, mais selectivo; menos centrado em "alimentar o mundo" e mais centrado em resolver bem problemas concretos.

"He said that vertical farming would not replace conventional farming, but that it would develop to grow the highest-value and most perishable produce. He added that he thought placing vertical farms next to, or inside, regional grocery distribution centers made sense, and that companies would pay a premium for the supply chain and off-season flexibility vertical farms provided in an increasingly fragmented world."

As vertical farms não falharam por serem tecnicamente absurdas. Falharam muitas vezes por terem sido empurradas para uma escala, uma ambição e um mercado que não perdoam ilusões. O seu futuro, a existir, começará quando aceitarem uma verdade mais estreita, mas talvez mais fértil: não vieram para substituir a agricultura, vieram para encontrar, dentro dela, os poucos sítios onde podem ser realmente melhores.

terça-feira, abril 07, 2026

Curiosidade do dia

 
"The oil shock set off by the war in Iran is rippling through Asia, where factories are curbing production to save energy, and some gas stations are telling drivers they can only partially fill up. Economists say it is a sign of things to come for countries in Europe and Africa that also rely on imports from the Middle East.
...
Keeping prices down during a supply crisis also props up demand, making shortages worse. 
...
"It is clear that the more you can do to save oil, especially diesel, especially jet fuel, the better we are off," said Dan Jorgensen, the EU's energy commissioner. "We are in a situation that might worsen, where indeed, demand reduction is necessary.""

Trechos retirados de "Europe Faces An Oil Crisis Like Asia's" publicado no WSJ de hoje. 

Os dois lados

No JN do passado 1.º de Abril, li a notícia de que Guimarães vai ter uma fábrica de satélites

No jornal, tal como no link, aparece a foto da Fábrica do Alto, na vila de Pevidém. As instalações da antiga têxtil vão ser cedidas pela Câmara de Guimarães ao CEiiA para a instalação de uma unidade industrial ligada à produção de satélites ópticos.

Esta notícia deixa-me com sentimentos mistos.

Começo pelo lado positivo. 

Ao olhar para a foto da antiga fábrica têxtil e pensar na sua reconversão para uma unidade ligada a satélites, a primeira ideia que me veio à cabeça foi: Flying Geese ao vivo e a cores.

A reconversão de um espaço destes para uma actividade deste tipo tem, pelo menos em teoria, um potencial de valor acrescentado e de inserção em cadeias mais sofisticadas muito superior ao de uma actividade têxtil tradicional. E a imagem é poderosa: um lugar associado a uma etapa antiga da industrialização a tentar entrar noutra muito mais exigente.

Agora imaginem que esta fábrica é uma metáfora de Portugal. Não, isso não quer dizer que tenhamos de acabar com todas as fábricas têxteis. Mas quer dizer que um país não progride a proteger indefinidamente actividades que já não conseguem subir, adaptar-se ou encontrar um novo lugar na escala de valor.

Mas há um outro lado que não convém ignorar.

O caso do ventilador Atena mostrou que o CEiiA tinha capacidade de mobilizar engenharia e de produzir depressa em contexto de emergência. Mas também mostrou que capacidade técnica e capacidade de navegar sectores hiper-regulados não são a mesma coisa. E isso justifica alguma prudência sempre que o CEiiA surge associado a grandes promessas tecnológicas.

É aqui que nasce o meu receio de que isto possa vir a ser mais um caso de assar sardinhas com fósforos.

A sustentabilidade ainda não está demonstrada, o que é natural nesta fase de criação de capacidade. Compreendo isso. Mas o peso do dinheiro público é enorme. Na transparência do PRR, o projecto New Space Portugal aparece com 417,03 milhões de euros de financiamento não reembolsável e com conclusão prevista para 30 de Junho de 2026. Ainda sabemos pouco sobre a carteira de clientes, a cadência esperada de encomendas e a capacidade desta unidade sobreviver sem respiração assistida por fundos e compras públicas.

Para ter pernas para andar, isto tem de deixar depressa de ser um projecto de instalação e passar a ser um projecto de clientes, receitas e repetição de negócio. 

Se ficar dependente de encomendas públicas, de agendas mobilizadoras e de entusiasmo autárquico, pode tornar-se mais uma infraestrutura vistosa e subutilizada. Se conseguir transformar capacidade industrial em contratos de dados, de defesa, de ambiente e de exportação de serviços, então poderá vir a ser uma das raras apostas públicas que realmente ajudam a criar uma indústria nova.

segunda-feira, abril 06, 2026

Curiosidade do dia


Leio isto: Sublinho:
"it's the most elegant labour control mechanism ever written into law.. cheap workers AND workers who can't quit.. in one government form."

Relacionei logo com isto: "Um ano depois, “via verde” para contratar imigrantes merece balanço positivo com mais de três mil vistos atribuídos".

Sim, é certo que, ao contrário dos Estados Unidos, os trabalhadores não ficam presos ao empregador durante um tempo mínimo, mas o protocolo de Abril de 2025 prevê que o empregador tenha obrigações:  entre outras, a existência de contrato de trabalho válido, formação profissional e aprendizagem da língua, alojamento adequado.

Ora, o artigo 137.º do Código do Trabalho permite que as partes acordem que o trabalhador não denuncia o contrato durante um período de até três anos, mas apenas como compensação por despesas avultadas com a sua formação profissional. Claro, o trabalhador pode rescindir esse acordo mediante o pagamento do montante correspondente a essas despesas. 

Recordar:


O problema não é de procura, é de oferta

 A propósito disto:

Isto:
Primeiro sinal - BP em Itália

 

domingo, abril 05, 2026

Domingo de Páscoa

 


A minha imagem preferida para o Domingo de Páscoa... Maria Madalena à beira de exclamar:

Rabôni! (Jo 20, 16)

sábado, abril 04, 2026

Sábado Santo: Um grande silêncio reina sobre a terra

 

Fonte.

O Sábado Santo é o dia do silêncio, da espera e da esperança entre a morte de Jesus na cruz e a sua Ressurreição.

Depois da dor da Sexta-feira Santa, a Igreja fica, por assim dizer, junto do túmulo. Não se celebra a Missa durante o dia; o altar permanece despojado, e os fiéis são convidados à oração e ao recolhimento. É como se toda a criação estivesse suspensa, à espera.

Mas o Sábado Santo não é apenas um dia de luto. É também o dia em que os cristãos contemplam Cristo que, tendo morrido, vence a morte. Na tradição cristã, este é o tempo ligado à chamada descida de Cristo à mansão dos mortos, sinal de que a salvação alcança também os justos que O precederam.

A grande importância litúrgica do Sábado Santo culmina na Vigília Pascal, celebrada na noite de sábado para domingo. Essa vigília é uma das celebrações mais importantes do ano litúrgico. Nela, a Igreja passa da escuridão para a luz, acende o círio pascal, proclama a Ressurreição e celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte.


quinta-feira, abril 02, 2026

Quinta-feira Santa


 Leonardo da Vinci, Public domain, via Wikimedia Commons

A Quinta-feira Santa é importante porque celebra a Eucaristia, o serviço, o amor fraterno e o início do caminho da Paixão de Jesus.

Esta noite, segundo a tradição cristã, Jesus celebrou a Última Ceia com os discípulos. Instituiu a Eucaristia, isto é, a origem da Missa: o pão e o vinho oferecidos por Jesus como o seu Corpo e o seu Sangue.

Também é um dia muito ligado à instituição do sacerdócio ministerial, pois Jesus confia aos apóstolos a missão de repetir esse gesto em sua memória.

Além disso, a Quinta-feira Santa recorda o lava-pés. Ao lavar os pés aos discípulos, Jesus mostra que a verdadeira grandeza reside no serviço, na humildade e no amor concreto pelos outros. 

Do ponto de vista litúrgico, a Quinta-feira Santa abre o Tríduo Pascal, o centro do ano litúrgico cristão, que se prolonga com a Sexta-feira Santa e culmina na Vigília Pascal e na Páscoa.

Depois da ceia, Jesus vai ao Getsémani, onde vive a angústia, a oração e o início da sua Paixão.

Uma tristeza...

"In view of massive Chinese imports of cheap parts, Valeo points out that this can have devastating consequences for the European automotive supplier industry ...

The Valeo boss Christophe Perillant noted in the context of the IAA Mobility: "Today, 75 percent of the parts found in a car manufactured in Europe also come from Europe. But if we want our industry to remain as strong as it is today, this quota must be maintained at least!”"

Se a UE decidir proteger esta base industrial, a pergunta seguinte que eu faria seria simples: proteger em troca de quê?

Porque , se houver protecção pública, barreiras, conteúdo local obrigatório, subsídios ou preferência regulatória, deixa de fazer sentido que as empresas se comportem como se tivessem conquistado um mercado cativo sem contrapartidas. Nesse caso, alguma disciplina sobre margens, preços e uso dos lucros passa a ser não apenas aceitável, mas legítima.

O ponto não é impedir o lucro normal, nem sequer um bom lucro. O ponto é evitar que a protecção pública se transforme em renda monopolística. Ou seja: aceitar rentabilidades atractivas, mas não permitir que a protecção se traduza em preços artificialmente elevados, sem melhoria visível na capacidade, na inovação ou no emprego.

Se há protecção, não deve haver liberdade total para converter escassez politicamente criada em rendas privadas. Mas também não deve haver um tecto tosco às margens que desincentive o investimento e a inovação.

E foi aqui que me ocorreu o velho condicionamento industrial de Salazar. Proteger uma indústria estratégica não é, por si só, salazarismo económico. Mas proteger incumbentes da concorrência, sem prazo, sem disciplina e sem contrapartidas, começa a aproximar-se da lógica profunda do condicionamento industrial: não a defesa temporária de capacidade estratégica, mas a cristalização administrativa de posições adquiridas.

"Contrary to widespread belief, China's cost advantage is only partially due to lower wages. The analysis by Roland Berger shows that approximately 60 percent of the cost advantage arises from design and system decisions, such as consistent standardization, reduced variety, and "fit-for-purpose" engineering, which focuses on market-relevant performance. Other drivers include competitive supplier structures and operational efficiency, rather than primarily personnel costs."

E aqui a coisa torna-se muito mais interessante.

O primeiro texto descreve o sintoma; o segundo explica uma parte importante da doença. Dito de outra forma: o CEO da Valeo fala como um incumbente ameaçado; o segundo artigo fala como um diagnóstico de competitividade.

No texto sobre a Valeo, a resposta implícita é, sobretudo, proteger: preservar a produção europeia, manter o conteúdo local, pedir ajuda à Comissão. Dir-se-ia: a resposta reflexa de uma Europa que, perante a pressão externa, pensa primeiro em escudos.

No texto sobre a China Speed, a resposta implícita é, sobretudo, transformar: reduzir a complexidade, acelerar as decisões, integrar melhor os fornecedores, usar mais testes virtuais e adoptar uma versão europeia daquilo a que chama China Speed-Light.

O aparente choque entre os dois textos desaparece quando percebemos que não se contradizem. Falam isso, sim, de planos diferentes para o mesmo problema.

A Valeo olha para a pressão concorrencial: os componentes chineses chegam mais baratos, comprimem a indústria europeia e ameaçam o emprego, a escala e a capacidade produtiva. O tom é, por isso, o de quem pede defesa.

O outro artigo olha para a origem da vantagem chinesa: não é apenas uma questão de salários mais baixos, mas também de produtos mais simples, menor variedade, decisões mais rápidas, mais testes virtuais e integração mais cedo com os fornecedores. Ou seja, não é só custo. É um sistema.

Por isso, não há verdadeira contradição. Há uma diferença de foco. A Valeo descreve o impacto; o outro texto explica a mecânica. Um pede protecção. O outro sugere transformação.

E é daqui que sai a conclusão mais importante: se a Europa se limitar a proteger os seus fornecedores sem mudar a forma como desenvolve produtos, decide e organiza a sua cadeia de valor, ganhará tempo, mas não recuperará competitividade.

O risco, naturalmente, é que a protecção se torne substituto da reforma. E aí entramos num terreno muito familiar, sobretudo em países como Portugal: o velho hábito de responder à fragilidade competitiva com pedidos de apoio, excepções, barreiras, almofadas e qualquer outra coisa que adie a necessidade de mudar a sério.

No fundo, é sempre a mesma tentação: pedir ao Estado que proteja o que as empresas não conseguiram tornar suficientemente forte para resistir ao mundo tal como ele é. 

Agora, imaginem isto por todo o lado, a começar por Portugal, pelos habituais pedidos de apoios e protecções, e sei lá o que mais. Uma tristeza...

quarta-feira, abril 01, 2026

Curiosidade do dia

Volto ao podcast DOAC com Daniel Priestley que referi aqui.

Se clicarem no link para o podcast vão parar ao momento em que Daniel Priestley diz qualquer coisa como:
"65% of all the businesses by valuation are people over 65 now. So there is a mathematical certainty that 2/3 of the businesses that run the economy by valuation have to change hands in the next 10, 15, or 20 years.

So this is a massive business opportunity. Baby boomers want to get rid of their businesses.
They want to retire.

Baby boomers are willing to fund you to buy their business if you present yourself well, if you've got a little bit of a personal brand."

Entretanto, mão amiga mandou-me aquilo que me parecia uma mentira de 1º de Abril, mas que já confirmei que é verdade:

"C'est une réalité qui s'impose : la France vieillit, on le savait. L'espérance de vie augmente, la natalité chute et 22,2 % des habitants de ce pays ont désormais plus de 65 ans. De toutes les conséquences du vieillissement post-baby-boom, il en est une qui avait été identifiée mais sans doute pas assez relevée : une grande partie de nos chefs d'entreprise, ces patrons de PME, ETI et TPE, qui font le tissu profond de nos territoires, ont l'âge de passer la main! Selon un rapport du Sénat datant de 2024, un patron sur quatre a déjà plus de 60 ans. D'ici moins de dix ans, ce sont près de 500 000 établissements qui devraient changer de propriétaires. Et avec eux, des millions de salariés dont l'avenir s'écrit en pointillé. Qu'ils dirigent une boulangerie de quartier, un salon de coiffure indépendant, une boîte de plomberie ou de transports, beaucoup sont à l'affût, à la recherche d'un successeur, parfois désespérément.

...

Le ministère de l'Économie évaue à 500 000 le nombre de ces entreprises qui vont devenir orphelines dans les dix prochaines années. Soit au total trois millions de salariés, dans tous les secteurs d'activité, qui peuplent chaque parcelle du pays. « Cette grande transmission doit devenir une grande cause économique nationale », martèle Serge Papin, le ministre des Petites et Moyennes Entreprises."

Para reflectir... Portugal está ainda mais envelhecido do que a França e nunca tinha ouvido falar deste tema por cá. Ando distraído.


Trechos retirados do que me parece ser o jornal "Le Parisien" de hoje.

O problema, por isso, nunca foi apenas de texto.

A ISO 14001:2015 inclui uma nota à cláusula 5.2 c)

“NOTE Other specific commitment(s) to protect the environment can include sustainable resource use, climate change mitigation and adaptation, and protection of biodiversity and ecosystems.”
A FDIS 14001:2026 inclui uma nota à cláusula 5.2 c)
“NOTE Other specific commitment(s) to protect the environment can include: preservation or conservation of natural resources; sustainable resource use; climate change mitigation and adaptation; or protection of biodiversity and ecosystems.”
A ISO 14001:2015 inclui esta alínea na cláusula 5.2 d) 
"includes a commitment to fulfil its compliance obligations;"
A FDIS 14001:2025 inclui esta alínea na cláusula 5.2 d) 
"includes a commitment to meet its compliance obligations;"
Agora leio um documento da LRQA que me avisa:
“Update your environmental policy to reflect revised terminology and broader commitments.”
E eu que em 2007 escrevia aqui:
"Aproveito as minhas aulas sobre SGA's. para chamar a atenção de que as políticas ambientais não devem ser TT (todo o terreno), não deviam servir para qualquer empresa, deviam ter em conta os resultados do levantamento ambiental específico da organização, e a sua estratégia para o negócio."
E eu que em 2010 escrevia aqui:
"Por demasiadas vezes, deparamo-nos com sistemas de gestão ambiental que estão a leste do negócio das organizações, que evidenciam as famosas políticas ambientais TT, "políticas todo o terreno". Experimente fazer o teste, encontre uma política ambiental de uma organização certificada ISO 14001, com uma caneta-corrector, esconda a sua designação. Agora, leia o texto da política várias vezes, testando, em cada uma delas, um nome diferente para a organização, verifique como a política contínua aplicável, independentemente do nome escolhido ser o de uma multinacional de serviços, ou de uma PME industrial. Acontece quase sempre, apesar da alínea a) da cláusula 4.2 da ISO 14001:2004."
A alínea a) da cláusula 4.2 da ISO 14001:2004 é agora a cláusula 5.2 a) quer da ISO 14001:2015, quer da ISO/FDIS 14001:2026.

Não creio que a simples introdução mais explícita das “condições ambientais” ou o alargamento dos exemplos na nota da cláusula 5.2 c) venha, por si só, alterar profundamente a realidade no terreno.

Convém não confundir a clarificação com a transformação.

A ideia de que a política ambiental deve estar ligada à realidade específica da organização não nasceu agora. Não apareceu de repente com a FDIS 14001:2026, como se antes a norma autorizasse políticas ambientais vagas, intercambiáveis, "todo-o-terreno" e desligadas do negócio. Essa ideia já lá estava. Estava sob a exigência de adequação ao propósito e ao contexto da organização. Estava na referência à natureza, à escala e impactes ambientais das suas actividades, produtos e serviços. E, para quem quisesse ir além do ritual, estava também numa leitura minimamente séria do que deve ser uma política de gestão.

O problema, por isso, nunca foi apenas de texto.

O problema esteve, demasiadas vezes, na prática de aceitar políticas ambientais "todo-o-terreno": textos suficientemente genéricos para servir a quase qualquer organização, suficientemente correctos para não levantar objecções e suficientemente vazios para não obrigarem ninguém a pensar a sério sobre os aspectos ambientais significativos, as prioridades reais da organização ou a forma como a gestão ambiental se articula com o negócio.

É verdade que a nova redacção ajuda. Ao falar mais explicitamente de preservação ou conservação dos recursos naturais, ao reforçar o léxico ligado às condições ambientais, a FDIS torna mais visível uma intenção que já existia, mas que muitas vezes passava despercebida, ou era convenientemente desvalorizada. Nesse sentido, a revisão da norma pode fornecer mais argumentos a quem queira exigir políticas ambientais menos genéricas, mais situadas e consequentes.

Mas uma norma mais explícita não produz automaticamente um mercado mais exigente.

E é aqui que entra a minha dúvida.

Durante anos, muitas organizações foram certificadas com políticas ambientais claramente "TT", sem verdadeira ligação ao seu levantamento ambiental, sem correspondência nítida com os seus aspectos ambientais significativos, e sem tradução visível nas prioridades de gestão. Isso aconteceu não porque a norma o exigisse, mas porque, em muitos casos, o sistema o tolerou. E quando uma prática foi tolerada por tanto tempo, não basta acrescentar uma expressão, reformular uma nota ou enriquecer um exemplo para esperar uma mudança repentina de comportamento.

Seria bom que assim fosse. Mas não é assim que as coisas funcionam.


terça-feira, março 31, 2026

Curiosidade do dia

Em "La inversión del sector público español se encuentra a la cola de los países de la UE" pode ler-se:
"La inversión efectiva del sector público español se encuentra a la cola de los países de la Unión Europea. Solo por debajo de España están Portugal e Irlanda, según recoge el estudio elaborado por el Instituto de Estudios Económicos (IEE), La necesidad de aumentar las inversiones en mantenimiento de infraestructuras en España. El informe desglosa los datos sobre la formación bruta de capital fijo (FBCF) de las Administraciones Públicas como porcentaje del Producto Interior Bruto (PIB) para los países de la Unión Europea entre los años 2019 y 2024."

Gráficos como estes ajudam-nos a ver coisas que muitas vezes ficam escondidas pela espuma dos dias: o baixo investimento público não é apenas uma limitação orçamental, é também uma escolha política.

Em Portugal, como em Espanha, o Estado prefere comprar paz social no presente com despesa corrente, apoios, remendos e medidas de curto prazo, em vez de investir de forma consistente naquilo que evita problemas maiores no futuro: infra-estruturas, manutenção, capacidade produtiva e resiliência.

O resultado é conhecido. Adia-se o custo político hoje, acumula-se a deterioração silenciosa amanhã e, mais tarde, inevitavelmente, alguém é obrigado a fazer o trabalho ingrato de corrigir anos de subinvestimento. Nessa altura, esse governante será apresentado como o homem/mulher da austeridade, da dureza ou dos cortes, quando, na realidade, está apenas a pagar a factura de uma complacência prolongada.

No fundo, é esta a lógica: uns compram tranquilidade política no presente; outros herdam a obrigação de enfrentar a realidade — e são vilipendiados por isso.



“today dollars” versus “tomorrow dollars”

Volto ao podcast com Will Guidara, a partir do minuto 29.

Quando Will Guidara fala de “today dollars” versus “tomorrow dollars” (minuto 30:27), está a criticar uma forma muito comum de gerir empresas: a obsessão com o ganho imediato, mesmo quando isso destrói valor futuro.

A ideia dele é esta:
  • today dollars = o dinheiro, a margem, a poupança ou o lucro que a empresa consegue agora;

  • tomorrow dollars = o dinheiro que a empresa poderá ganhar mais à frente, porque construiu relações fortes, lealdade, reputação e vontade de voltar.

O argumento dele é que muitas empresas estão tão focadas nos today dollars que acabam por sacrificar os tomorrow dollars.

Ou seja, poupam hoje, cobram tudo hoje e cortam todos os pequenos gestos que não têm retorno imediato e visível, mas, ao fazer isso, enfraquecem a relação com o cliente e perdem valor no longo prazo.

O ponto central aparece quando ele diz, em substância:

  • muitas empresas seguem a lógica de que “what gets measured gets managed”;
  • como a hospitalidade (só a hospitalidade? pergunto eu. E a consultoria? E o vendedor de fármacos para gado?), a generosidade e a relação humana são difíceis de medir em ROI imediato, acabam subvalorizadas;
  • os líderes ficam demasiado focados nos today dollars e não suficientemente focados nos tomorrow dollars, isto é, estão a maximizar os lucros de hoje à custa dos que viriam amanhã.

Mais à frente, ele dá uma formulação muito prática: gerir 95% dos custos “como um maníaco”, para ganhar o direito de gastar os últimos 5% de forma aparentemente “foolish”.

Mas esse “foolish” é irónico. Só parece um gasto tolo se olharmos apenas para o curto prazo.

Na verdade, esses 5% é onde muitas vezes se cria memória, experiência, ligação emocional, diferenciação, lealdade e histórias que as pessoas contam aos outros.

Portanto:

  • os 95% dão disciplina;
  • os 5% dão humanidade e futuro.

Porque ele acredita que, a longo prazo, a verdadeira vantagem competitiva não vem apenas de um produto melhor, de uma marca mais forte ou até mesmo de eficiência operacional. Vem de algo mais difícil de copiar: relações construídas com consistência e generosidade.

Um concorrente pode copiar o produto. Pode até copiar partes da experiência, mas é muito mais difícil copiar uma relação de confiança acumulada ao longo do tempo.

O que Guidara está a dizer é que há empresas que tratam cada decisão como se só existisse o trimestre actual,  mas há gestos, investimentos e cuidados que não servem para ganhar mais hoje. Servem para que o cliente queira voltar amanhã.

segunda-feira, março 30, 2026

Curiosidade do dia


No FT de hoje fui surpreendido por um texto carregado de lucidez, não o texto, mas o que ele reporta, "Egypt imposes emergency measures to limit energy use":
"Egypt is reducing street lighting and closing shops and cafés early under energy-saving measures as the US and Israeli war against Iran sends fuel prices surging.
Most retailers and venues in Cairo, a city known for never sleeping, will have to close at 9pm five days a week. Illuminated billboards will be switched off, government buildings will close early and several infrastructure projects requiring heavy use of diesel are being delayed."
A realidade aperta? O governo reconhece-o. A energia encarece? Corta consumos, adia projectos, mexe em subsídios, aceita custos políticos. Não tentou abolir a escassez com discursos piedosos nem fingir que a economia obedece a slogans.

É este realismo que falta tantas vezes na Europa. Aqui, uma parte demasiado grande da política parece existir para amortecer cada sinal de realidade, como se preços, défices, dependências externas ou limites materiais fossem inconveniências morais que o Estado pudesse anestesiar eternamente. Compra-se paz social a crédito, adia-se o embate, distribui-se almofada e, depois, chama-se “protecção” ao que muitas vezes não passa de adiamento da factura.

O Egipto, com muito menos margem, mostra pelo menos isto: governar é escolher, priorizar e aceitar que a realidade não desaparece só porque é desagradável.

Acerca da FDIS 14001:2026 - Um sistema é constituído por relações, não por ingredientes.

Em 1981, a televisão portuguesa passava, aos sábados à tarde, a série Cosmos, apresentada por Carl Sagan. Houve um episódio que nunca mais me saiu da memória. No início dos anos 2000, cheguei mesmo a comprar a colecção em DVD para poder usar um pequeno excerto desse episódio nas minhas formações sobre sistemas de gestão.

Porquê? Porque muitas pessoas continuam a pensar que, se conseguirem mostrar uma resposta para cada cláusula de uma norma, então têm um sistema de gestão.

Peço desculpa, mas não.

Podem até ter o suficiente para passar numa auditoria de certificação. Podem ter documentos, registos, matrizes, planos de acção e algumas explicações bem ensaiadas. Mas isso não significa, necessariamente, que tenham um sistema de gestão.

O episódio 5 de Cosmos: A Personal Voyage chama-se “Blues for a Red Planet”. É dedicado a Marte e à procura de vida nesse planeta. Numa cena memorável, Carl Sagan reúne os ingredientes químicos que entram na composição de um ser humano. Mistura-os. E volta a misturá-los. Mas não aparece um ser humano.

A ideia é simples e profunda: a vida não é apenas matéria. É também organização, estrutura e informação. Não basta ter os átomos e as moléculas certas. O que importa é a forma como estão organizados, como se relacionam entre si e como são coordenados por um programa biológico subjacente. Um ser humano não é uma pilha de ingredientes. Um ser humano é um sistema altamente organizado.

Essa cena ficou comigo porque capta, melhor do que muitos manuais, aquilo que tantas vezes escapa às pessoas quando pensam em sistemas de gestão.

Um sistema de gestão não é um monte de cláusulas respondidas uma a uma.

Não é a mera presença de uma política, de objectivos, de procedimentos, de auditorias, de revisões e de acções correctivas. Tudo isso são ingredientes. Necessários, sim. Mas continuam a ser apenas ingredientes.

O que realmente importa é o padrão de relações.

As questões ambientais influenciam a estratégia? Os riscos e oportunidades influenciam os objectivos? Os objectivos moldam as decisões operacionais? Os controlos operacionais respondem ao contexto real em que a organização actua? A monitorização gera aprendizagem? A revisão pela gestão conduz a decisões reais? As alterações no mundo exterior mudam as prioridades internas?

É aí que está a diferença.

Um verdadeiro sistema de gestão é feito de interdependências, não de acumulação. Existe quando as partes se influenciam mutuamente de forma coerente. Existe quando a informação flui, quando as decisões se ligam à realidade, quando as acções não são actos isolados de conformidade, mas partes de uma estrutura viva. Nesse sentido, aquilo que faz de um sistema um sistema não são as peças em si mesmas, mas a qualidade das relações entre elas.

Escrevo isto agora porque, ao estudar a ISO/FDIS 14001:2026, dou por mim a pensar repetidamente nas implicações do reforço da atenção dada às condições ambientais na cláusula 4.1.

Para mim, isso é importante exactamente pela mesma razão que a demonstração de Sagan.

A norma está a empurrar as organizações para longe de uma visão estática do contexto, lida como lista de verificação, e a aproximá-las de uma visão mais relacional. As condições ambientais não são simples informação de enquadramento. Não são cenário. Não são um parágrafo para inserir numa análise de contexto e depois esquecer.

São parte da realidade viva com a qual a organização está enredada.

Escassez de água, degradação dos ecossistemas, padrões climáticos, pressão sobre as infra-estruturas de resíduos, perda de biodiversidade, níveis de poluição, disponibilidade de recursos: tudo isto não são elementos decorativos à volta do sistema de gestão. Moldam riscos, limitações, dependências, custos, escolhas operacionais, exposição reputacional e viabilidade futura. E, por sua vez, as actividades da organização também influenciam essas mesmas condições.

É esse o ponto.

A cláusula 4.1 torna-se muito mais interessante quando deixamos de a ler como um pedido para “identificar questões” e passamos a lê-la como um convite a compreender relações. Não factos isolados, mas realidades ligadas entre si. Não ingredientes em cima de uma mesa, mas forças que interagem dentro de um sistema maior.

Carl Sagan mostrou que não se cria um ser humano misturando produtos químicos dentro de um recipiente.

Da mesma forma, também não se cria um sistema de gestão ambiental com significado juntando respostas desligadas para cláusulas desligadas.

Só começamos verdadeiramente a ter um sistema quando as relações estão lá.






domingo, março 29, 2026

Curiosidade do dia

Há quase um mês escrevi "Como é que os decisores se adaptarão a esta vertigem evolutiva?". Agora já sei a resposta… não se adaptam; a tarefa deles é cumprir um indicador, não ser eficazes.

Recordo também o que escrevi há cerca de uma semana nesta "Curiosidade do dia".

Vamos a isto. 

Hoje, o Twitter estava em polvorosa por causa desta demonstração de arrogância em "Building Tanks While the Ukrainians Master Drones".

O artigo começa por mostrar um forte contraste entre o que a guerra na Ucrânia revelou e o que a  indústria grande de defesa continua a fazer. Simon Shuster visita a Rheinmetall, à espera de encontrar uma empresa profundamente abalada pela ascensão da guerra por drones, mas encontra, antes, uma liderança que a desvaloriza. 

"Last month, on my way home from Kyiv, I passed through Germany to visit one of the world’s largest weapons manufacturers. My hope was to see its response to the rise of drone warfare. The company, Rheinmetall, is best known for making artillery and tanks; the Ukrainians have fought the Russian army to a virtual standstill by learning how to destroy such old-school armaments with cheaply made drones. I thought I would find the leaders of Rheinmetall seized by the threat of this revolution in military technology. I found no such thing."

O texto abre logo com a ideia de que os ucranianos travaram o exército russo aprendendo a destruir armamento tradicional com “cheaply made drones”, enquanto o CEO da Rheinmetall reage com desdém e fala em “Legos”. 

"When I brought up the drones that Ukraine has used so effectively against Russian tanks, the company’s chairman and CEO, Armin Papperger, was withering in his dismissal. "This is how to play with Legos," he told me.

He did not expect them to disrupt his industry. "What is the innovation of Ukraine?" Papperger asked. “"They don’t have some technological breakthrough. They make innovations with their small drones, and they say, ‘Wow!’ And that’s great. Whatever. But this is not the technology of Lockheed Martin, General Dynamics, or Rheinmetall.""

A tensão central do artigo nasce aqui: a eficácia táctica dos drones baratos já foi demonstrada, mas os grandes actores industriais não parecem dispostos a aceitar facilmente o que isso implica. É impressionante a abstracção face à realidade no terreno:

"That, at least, is the feeling toward tanks that I have developed after several years of reporting in Ukraine, where they are no longer seen as vehicles that keep you safe and kill your enemies. In that war zone, they are slow-moving prey for the drones that fill the sky. I would sooner pull the pin from a grenade than ride around near the front lines in a tank.

When I explained this to my guide, Jan-Phillipp Weisswange, he seemed confused and a little defensive. The sale of armored vehicles makes up a significant part of the business at Rheinmetall. In Russia and Ukraine, soldiers have learned to protect their tanks from drone strikes using improvised nets and boxes, which cover the vehicles like a turtle shell. I asked whether Rheinmetall had developed something like that after four years of war in Ukraine. Weisswange glanced around at the machines on either side of us, all of them waiting for repairs, their tracks unchained and gun barrels angled upward. "No," he said. "We don't have something like that."

Well, why not?

The reasons turned out to be complex. But they help explain why Germany, like Europe and the rest of NATO, is so ill-prepared for not only wars of the future but also the ones raging today."

Ao mesmo tempo, o artigo mostra que:

"Since the Russian invasion in 2022, the Ukrainians have sparked a revolution in military technology. "Their level of innovation is out of this world," Lieutenant General Steven Whitney, a senior Pentagon official, testified this week before the Senate Armed Services Committee."

... e fizeram uma mudança estratégica muito rápida: 

"Produce less tanks. Produce more drones."

O argumento, portanto, não é que o velho arsenal desapareceu; é que o novo centro de adaptação, precisão, alcance e velocidade de aprendizagem se deslocou fortemente para os drones e sistemas associados.

O artigo mostra, depois, que a continuidade das compras de tanques, blindados e outros sistemas pesados não decorre apenas de lógica militar. Resulta também da forma como o Ocidente compra, certifica e financia a defesa. O texto diz que as compras desses sistemas "keep swelling", que é mais fácil alocar rapidamente grandes verbas a “exquisite systems”, e acrescenta que, “as a general rule”, os militares ocidentais dão os maiores contratos a fabricantes estabelecidos. 

"Still, purchases of new tanks and armored vehicles keep swelling the deal book at Rheinmetall, as well as the company's stock price, which has risen more than 15-fold since the Russian invasion of Ukraine. Most of that growth came after Trump returned to the White House and began demanding that Europe spend more on defense. NATO members pledged at a summit in December to increase their defense budgets over the next decade to 5 percent of gross domestic product, more than double the previous spending commitment.

To reach that goal, European politicians and military planners need to allocate billions of dollars in a hurry, which is easiest to do by ordering what are known as "exquisite" systems-state-of-the-art machinery such as ballistic missiles, warships, and fighter jets. Most drones are too cheap to move the needle toward NATO's gargantuan spending targets."

Ao mesmo tempo, novas soluções enfrentam barreiras institucionais: para vender à NATO, os ucranianos precisariam de "NATO qualification", e mesmo mudanças de desenho em sistemas alemães exigem nova certificação. Isto dá ao artigo uma segunda camada: não é só uma história sobre tecnologia militar, é também uma história sobre inércia industrial, procurement e protecção dos incumbentes.

No fim, o artigo sugere que a verdadeira disputa não é apenas entre armas antigas e armas novas, mas entre modelos económicos e industriais diferentes. A ascensão dos drones baratos "poses a direct threat" ao modelo de negócio de empresas como a Rheinmetall, precisamente porque estas precisam de continuar a justificar contratos multimilionários para sistemas caros e pesados. O texto termina quase como uma ironia estratégica: 

"Papperger, of course, sees it differently. The rise of cheap drones poses a direct threat to his business model. To continue winning multibillion-dollar contracts for tanks and artillery, he needs to convince his clients that these weapons will remain essential to wars of the future. Ukraine has made that a much greater challenge.

When I asked him whether Ukrainian companies would one day sell their drones to NATO, he sighed and shook his head. They would not make it through the alliance's bureaucracy, he said: "They need a NATO qualification." Western regulators could, in other words, keep them off the European market by requiring licenses that Ukrainian firms might find hard to get.

Even adopting Ukrainian know-how seems difficult in that environment. During our tour of the factory in Unterlüss, my guide explained the complexity of changing anything about the design of a German weapons system. "Any adjustment needs to be recertified by the procurement agency," a department within the Ministry of Defense, Weisswange said. Any change to the material used to make the barrel of a tank, he said, would take at least a year to certify. "The quality controls are very strict, and the costs are very high."

In the end, Rheinmetall has a strong incentive to continue making the expensive weapons it has made for much of its history, even if they can be blown apart by drones that cost less than the average smartphone."

Este trecho é o tal que deu mais tweets, é doentio:

"Ukraine now makes more drones than any democracy in the world, and wealthy nations in Europe, Asia, and the Middle East are lining up to buy them. But when I asked the CEO of Rheinmetall what that could mean for his business model, he bristled. "Who is the biggest drone producer in Ukraine?" Papperger demanded. I listed the ones that I had visited in Kyiv two weeks earlier, Fire Point and Skyfall, which make hundreds of thousands of drones a month for the Ukrainian armed forces. "It's Ukrainian housewives, Papperger said of their factories. "They have 3-D printers in the kitchen, and they produce parts for drones," he said. "This is not innovation.""


Pattern recognition


Em Outubro de 2024, escrevi aqui vários textos sobre o livro "Unreasonable hospitality" de Will Guidara. 

Um livro que recomendo vivamente.

Entretanto, na passada sexta-feira ouvi este podcast com Will Guidara:

Quero sublinhar sobretudo a ideia de "pattern recognition".

Reparar que certas situações se repetem e aprender a responder-lhes melhor, de forma intencional, em vez de deixar tudo ao acaso.

Num restaurante, há coisas que acontecem todos os dias:
  • alguém faz anos;
  • alguém fica noivo;
  • alguém chega atrasado e stressado;
  • alguém está a celebrar uma coisa importante;
Se cada empregado reagir “na hora” e inventar qualquer coisa, às vezes corre bem e, às vezes, não.

O que Guidara diz é: olhar para trás, ver o que acontece repetidamente, dar-lhe um nome e preparar uma boa resposta antes de voltar a acontecer.

Isso é pattern recognition: detectar padrões, perceber que não são casos totalmente isolados e transformar essas repetições em oportunidades para agir melhor.

sábado, março 28, 2026

Curiosidade do dia


A revista The Economist traz algo tão weird que custa a crer que seja verdade:
"Before the invasion Robert “Madyar” Brovdi was a wheeler-dealer grain broker. Now the 50-year-old commander of Ukraine’s unmanned forces is a weathered warrior and the lead architect of a strategy to target drone power at individual Russian soldiers.

An ethnic Hungarian from Ukraine's western borderlands, Mr Brovdi joined the war as a civilian volunteer. His rise was improbable but no accident. Applying business instincts to battlefield problems, he helped to develop Ukraine's earliest drone capabilities. The first breakthrough came in the summer of 2022, when he was fighting on the Kherson front. The Ukrainians were outgunned and, worse, had no idea where the Russians were firing from. Mr Brovdi, still an inexperienced soldier, remembered a drone he had bought his son on a business trip in Asia, and had some brought to the trenches. They were crude, but good enough to spot hidden Russian tanks. The future commander began passing coordinates to a nearby artillery brigade over Discord, a social-media app. He had created Ukraine's first drone kill chain.

A year later Mr Brovdi and his disciples had been transferred to Bakhmut, then the war's main killing ground. One colleague, a former taekwondo champion known as Klym, had a friend who had competed in races of first-person-view drones. He suggested the fast, agile machines could carry small munitions. The team began hanging water-filled condoms from trees and trying to hit them with drones. Soon they were taping American MK-19 grenades to the frames. This became the cornerstone of a "line of drones" reconnaissance-and-strike kill-zone concept, which Mr Brovdi later championed to offset Ukraine's infantry shortage."

Recordo de 2012, "Abertura de espírito e atenção aos sinais...

O texto ilustra que a estratégia nem sempre nasce de um plano desenhado de cima para baixo. Muitas vezes, ela emerge do acaso, de pequenos sinais no terreno, de improvisações locais feitas por pessoas que ainda não sabem que estão a inventar uma nova lógica de acção.

Tudo começa com um problema concreto: o inimigo dispara e ninguém sabe de onde. Depois aparece um pequeno sinal, quase banal: a memória de um drone comprado para o filho. A seguir, vem a experimentação, o uso imperfeito, a adaptação, a ligação improvisada entre observação e artilharia. Mais tarde, outro sinal: alguém conhece corridas de drones FPV. Testa-se, falha-se, ajusta-se. E, pouco a pouco, o que parecia apenas uma solução oportunista transforma-se numa nova arquitectura táctica.

É assim que muitas estratégias verdadeiramente novas nascem: não como execução de um grande plano inicial, mas como aprendizagem acumulada a partir de tentativas, acidentes, intuições e descobertas feitas na periferia da organização. Primeiro, há respostas locais a problemas locais. Só depois, se alguém tiver visão para percebê-las, essas respostas ganham forma, coerência e escala. A estratégia, afinal, muitas vezes não é desenhada antes da acção. É reconhecida depois, quando alguém entende o padrão que o terreno foi revelando.


Interessante...

Recordo o que escrevi em Outubro passado, em "Tratados como Figos (Parte II e 3/4)", sobre a possibilidade da catalã Nextil comprar fábricas têxteis em Portugal:

"a única saída viável é subir na cadeia de valor, apostando em inovação, sustentabilidade e especialização."

Recentemente, li "Catalã Nextil compra têxtil de Pombal com 200 trabalhadores" e "Nextil Enhances Manufacturing Capabilities in Portugal with Major Sindutex Acquisition" e ainda "Nextil compra 70% da portuguesa Sindutex"

"«Portugal e a nossa aposta por consolidar um ecossistema de parceiros para marcas premium e de luxo são peças-chave no desenvolvimento do grupo», sublinhando que a integração permitirá «reforçar a nossa capacidade de design e confeção, diversificar a nossa base de clientes europeus e, sobretudo, avançar na integração de uma cadeia de valor mais completa».

Para além da capacidade industrial, César Revenga valoriza o know-how da empresa portuguesa. «Com a Sindutex não só incorporamos capacidade industrial. Incorporamos conhecimento e equipa», refere.

Em termos de perspetivas financeiras, a Nextil estima que, na sequência desta operação – que se encontra sujeita ao habitual processo de diligência e à formalização dos acordos definitivos – e do reforço de capacidades associado, a Sindutex possa atingir, em 2026, um volume de negócios superior a 10 milhões de euros e um EBITDA acima dos 2 milhões de euros."

Já não basta ter produção, é preciso controlar mais elos da cadeia, aproximar design, confecção e cliente, e fazê-lo em geografias capazes de combinar qualidade, flexibilidade e proximidade. A escala pura, sozinha, perdeu poder explicativo. O que conta agora é a capacidade de montar pequenos ecossistemas de competências que permitam servir marcas premium e de luxo com rapidez, fiabilidade e diferenciação.

A compra da Sindutex não é apenas uma operação financeira ou industrial. É mais um passo na reorganização silenciosa do têxtil europeu em torno de plataformas regionais de maior valor acrescentado. 

Em vez de competir frontalmente com a Ásia no preço, alguns grupos europeus parecem estar a escolher outro caminho: consolidar capacidades dispersas, preservar know-how difícil de replicar e construir cadeias de valor mais curtas, mais completas e mais próximas do mercado. 

O padrão é claro: no têxtil europeu, sobreviver já não depende apenas de produzir; cada vez mais, depende de saber integrar, especializar e orquestrar.

 

sexta-feira, março 27, 2026

Curiosidade do dia



Mão amiga mandou-me isto: 



O verdadeiro poder não está no chip nem no gás. Está na máquina sem a qual nem o chip nem o gás existem.

É a mesma lição nos dois casos: num mundo de cadeias de valor complexas, a escassez mais decisiva muitas vezes não está na matéria-prima nem na procura final, mas nos poucos nós industriais que transformam possibilidade teórica em capacidade real.

Ratos versus humanos





No livro "Quem mexeu no meu queijo?" há uma diferença decisiva entre os ratos e os humanos. Os ratos percebem que o queijo acabou e vão procurar outro. Os humanos, sobretudo os mais infantis, ficam parados, zangados e ofendidos com a realidade, à espera de que alguém lhes reponha o queijo no mesmo sítio.

É difícil não pensar nisso ao olhar para uma parte do debate português sobre o vinho. Há anos que os sinais se acumulam: menor consumo, mudança de gostos, jovens menos interessados, maior concorrência de outras bebidas, pressão sobre os preços, excesso de oferta. E, no entanto, demasiada gente continua a reagir como se o problema fosse moral, político ou comunicacional, e não económico. Como se a solução estivesse em ir a Belém, pedir medidas, dramatizar o passado e adiar a adaptação. Como escrevi noutros textos, defender o passado impede-nos de abraçar o futuro, e por cá há uma velha tentação de não enfrentar o touro, de desviar para canto e de externalizar os prejuízos.

O contraste com Bordéus é interessante. Ontem, o The Times publicou "Bordeaux's vineyards are going back to their roots", que mostra produtores de Bordéus a tentar recuperar um vinho mais leve, mais fresco, mais adaptado ao presente:
"Now, the Bordeaux Wine Council has returned to the region's origins in an attempt to win back young drinkers. Officials say the wine is "fresh, light, fruity" and can be drunk two years after the grapes have been harvested
...
The lighter version would be perfect with a hamburger at an after-work event between friends or for an evening with a pizza in front of the television, the council said. It said it expected the region to produce 2.2 million bottles of the relaunched claret and some would be introduced to British connoisseurs at the London Wine Fair next month. Bordeaux's winemakers are seeking to restore their precarious finances by cutting production and trying to find new customers. The region exported €1.9 billion of wine last year, down from €2.25 billion in 2022."
Isto pode falhar. Mas, mesmo que falhe, há ali uma atitude mais séria perante a realidade. Em vez de exigirem que o consumidor volte atrás no tempo, estão a tentar ajustar o produto ao mundo tal como é.

É exactamente isso que falta a muita conversa portuguesa sobre o vinho. Falta maturidade. Falta realismo económico. Falta a coragem de dizer que há vinhas que talvez tenham de desaparecer, produtos que talvez tenham de mudar, terrenos que talvez tenham de ser usados para outra coisa, e produtores que talvez tenham de procurar novas formas de criar valor. 

O problema não é apenas o mercado estar pior; é a recusa em aceitar que o modelo pode estar obsoleto e que, quando isso ocorre, o adulto adapta-se. A criança faz birra.

No fundo, é isto. Os franceses, neste caso, comportam-se mais como os ratos do livro. Não choram eternamente pelo queijo antigo. Mexem-se. Procuram outra saída. Por cá, demasiadas vezes, prefere-se o papel de humano ofendido: reclamar, sentimentalizar, pedir protecção e esperar que alguém suspenda a realidade. Mas a realidade não se suspende. No máximo, adia-se o embate. E cada adiamento sai mais caro.

A diferença entre uns e outros não está no vinho. Está na cabeça.