Na foto deste artigo "Indústria da defesa nacional tem de "perceber o que pode dar à Europa"" vemos casacos e a minha mente cínica imaginou logo grandes narrativas.
O debate sobre o papel de Portugal na defesa europeia parte quase sempre da mesma suposição: se a Europa vai gastar mais em defesa, então abre-se automaticamente uma grande oportunidade económica para países como Portugal.
Mas talvez não seja assim tão simples.
O artigo de ontem no Wall Street Journal, "Why Defense Stocks Aren't Rallying", sobre o fraco comportamento bolsista das grandes empresas americanas de defesa é um bom sinal de alerta. Em teoria, mais guerra devia significar mais entusiasmo pelos grandes fabricantes. Na prática, isso não está a acontecer de forma clara.
Porquê? Porque a guerra actual não está apenas a aumentar a despesa. Está também a expor a fragilidade económica de parte do modelo tradicional: mísseis de milhões para destruir drones de baixo custo, estruturas pesadas a responder devagar, programas antigos a absorver orçamento enquanto o valor se desloca para tecnologias mais ágeis, modulares e adaptáveis.
É aqui que Portugal devia prestar atenção.
O país pode facilmente entusiasmar-se com a ideia de “entrar na defesa” e acabar no sítio errado da cadeia de valor: subcontratação indiferenciada, montagem, trabalho periférico, pouca propriedade intelectual, pouca margem, pouca influência.
A questão séria não é se Portugal consegue participar. A questão séria é onde participa. Onde é que o valor novo está realmente a nascer? Não onde está o orçamento. Não onde está a fotografia. Não onde está o discurso. Mas onde está a nova dependência do sistema.
É aí que Portugal tem de tentar entrar.
Se o valor novo estiver a deslocar-se para software, sensores, integração, ciberdefesa, drones, sistemas não tripulados, electrónica crítica, manutenção avançada e soluções dual use, então a oportunidade portuguesa pode ser real, mas só para quem perceber que não vale a pena imitar os grandes.
Portugal não precisa ser uma mini-França da defesa. Precisa de identificar os pontos em que pode tornar-se difícil de substituir.
O risco não é ficar fora da despesa europeia.
O risco é entrar aplaudindo a narrativa certa e, depois, ocupar o lugar economicamente errado.
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