"Researchers for the annual Post Office Travel Money Family Holiday report, which ranked 22 of the most popular European holiday destinations using on-the-ground price research conducted by Tui, found prices in the Algarve this month were 2.7 per cent lower than at this time last year. Those in most other destinations went up. The report compared prices for items including a cup of coffee, a glass of wine, sunscreen and a three-course family meal with drinks. It did not include the cost of getting to the destination or staying there. The report found it was cheaper to eat out in the Algarve this year, the average cost of a three-course meal coming in at £77.76, down from £83.67 last year."
domingo, julho 19, 2026
Curiosidade do dia
Ideias erradas sobre a produtividade (parte II)
O artigo, ver Parte I, abre com:
"Em Portugal trabalha-se mais horas do que na UE."
A maior parte dos artigos e comentários sobre produtividade centra-se na quantidade de horas e sublinha a baixa produtividade associada a um elevado número de horas. Há até uns "cromos" que profetizam:
"Baixem as horas trabalhadas e a produtividade subirá."
A produtividade não nasce apenas no posto de trabalho. Começa antes, nas escolhas estratégicas:
- O que vende a empresa?
- A quem vende?
- Em que mercado compete?
- Com que diferenciação?
- Com que marca?
- Com que poder para estabelecer preços?
- Em que posição da cadeia de valor se encontra?
Uma empresa pode ser muito eficiente a fabricar um produto banal e continuar a apresentar baixo valor acrescentado por hora. O artigo fala de capital, tecnologia e organização, mas quase ignora a proposta de valor, o posicionamento estratégico, a diferenciação e a concorrência imperfeita.
No final há um trecho que revela um paradoxo, não sei se é a melhor classificação. Vamos a ele:
""Baixa produtividade da hora trabalhada e salários mais baixos são duas faces da mesma moeda", vinca Miguel St. Aubyn. "Se se podem pagar salários baixos, a produtividade não precisa de aumentar. E se a produtividade é baixa, não se podem pagar salários mais altos. Tem de se romper com este ciclo", evidencia."
Miguel St. Aubyn tem toda a razão: salários baixos retiram às empresas a pressão para investir e aumentar a produtividade; a baixa produtividade oferece, depois, a justificação perfeita para continuar a pagar salários baixos. A ironia está em ouvir este diagnóstico de alguém próximo do espaço político socialista, depois de anos em que os governos do PS fizeram tudo para reforçar o tal ciclo que ele diz querer romper.
O artigo termina com esta frase:
""O maior número de horas de trabalho compensa, em parte, o grande diferencial de produtividade entre Portugal e a UE", conclui João Cerejeira."
É verdade que mais horas de trabalho podem compensar parte do diferencial de produção ou de rendimento por trabalhador. Mas não compensam o diferencial de produtividade por hora: apenas o escondem através de uma maior quantidade de trabalho. O verdadeiro desafio não é trabalhar mais tempo a produzir eficientemente bens baratos, mas deslocar recursos para actividades com maior conhecimento, diferenciação, rendimentos crescentes e capacidade de praticar preços superiores. Erik Reinert ilustrou esta diferença comparando as bolas de basebol cosidas manualmente no Haiti, uma actividade presa a salários baixos e reduzido potencial tecnológico, com produtos mais sofisticados fabricados nos países ricos.
Compensar baixa produtividade com mais horas é administrar o atraso; desenvolver-se exige subir na escala de valor.
A frase confunde a produtividade por hora com a produção ou o rendimento anual por trabalhador. Mais horas não corrigem a baixa produtividade: permitem viver com ela por algum tempo. É uma compensação quantitativa que pode até adiar a transformação qualitativa de que a economia necessita.
sábado, julho 18, 2026
Curiosidade do dia
Há, no discurso de posse de Andy Burnham, uma curiosa tentativa de regressar ao mundo anterior a Margaret Thatcher, esquecendo por que razão Thatcher chegou ao poder. Vem aí a reversão das privatizações, entre outras ideias.
O problema é que várias das ideias que propõe reproduzem precisamente o modelo económico que precedeu Thatcher: empresas públicas protegidas da concorrência, preços politicamente determinados, investimento condicionado pelas finanças do Estado, sindicatos com capacidade para bloquear a economia e governos empenhados em escolher e sustentar sectores industriais. Oh! What can go wrong?
O resultado foi inflação elevada, baixa produtividade, conflitos laborais, subinvestimento e empresas que transferiam repetidamente seus prejuízos aos contribuintes. Burnham apresenta como futuro uma parte importante do passado, sem ainda explicar como evitará que regressem também as razões pelas quais esse passado foi abandonado.
O que pode correr mal ...
- aumentar salários;
- automatizar;
- reorganizar processos;
- investir em tecnologia;
- melhorar as condições de trabalho;
- abandonar segmentos sem futuro;
- ou fechar, pura e simplesmente.
sexta-feira, julho 17, 2026
Curiosidade do dia
França abre caminho à eutanásia. Os deputados aprovaram a morte medicamente assistida para adultos com doenças incuráveis, em risco de vida e com sofrimento físico constante ou psicológico, desde que possam expressar uma decisão livre e informada. pic.twitter.com/7C3dmV4k9x
— CNN Portugal (@cnnportugal) July 15, 2026
Tão distante do mainstream mediático português... até dói
O NYT da passada quarta-feira publicou um artigo intitulado "Productivity in U.S. Is on a Major Roll. Is It A.I.? Not Really." Um artigo alinhado com as ideias deste blogue e distante do mainstream mediático.
Primeiro a introdução:
"For years now, "labor productivity" - an economic measure of how much each worker produces - has been climbing at its fastest pace in at least two decades. Artificial intelligence is merely a fresh ingredient in the gumbo of forces propelling the trend, not the central one, at least for now. Tight labor markets, digitization and remote work are among other parts of the mix.
"I never thought I'd see this many years of really high productivity and, by the way, expect it to continue," Jerome H. Powell told reporters in March, before he stepped down as Federal Reserve chair. "And we haven't really started to see the effects of generative A.I.""
Agora vamos ao sumo:
""I believe the productivity gains began coming out of Covid with the digitization of work, remote work and the implementation of machine learning - and we're just scratching the surface on A.I." Mr. McVey said.
...
Another driver of sunnier productivity numbers has been low unemployment, which has stayed at or below 4.5 percent since October 2021 - the longest streak since the 1960s. When nearly everyone who wants a job has one, employers have to pay more to attract workers [Moi ici: Daí a metáfora dos Figos] , which pushes them to find efficiencies elsewhere.
...
Mr. McVey pointed to another, more solemn reason productivity is up: job cuts."
O artigo defende que a produtividade nos EUA está a melhorar de forma significativa, mas que é prematuro atribuir esse salto sobretudo à inteligência artificial. A IA aparece como uma parte da explicação, mas não como o motor principal.
A tese central é que a produtividade tem sido impulsionada por um conjunto de factores: digitalização acumulada desde a pandemia, trabalho remoto, melhor uso de dados, pressão dos mercados de trabalho apertados, redução de efectivos em alguns sectores, tecnologia operacional mais eficiente e reorganização das empresas.
Portanto, a IA pode vir a ter impacto, mas o artigo sugere que ainda estamos numa fase inicial. Muitos ganhos actuais parecem resultar da digitalização, da reorganização, da melhoria da tecnologia operacional e da maior pressão para fazer mais com menos.
Esta é a tese deste blogue dum engenheiro anónimo da província: Quando o trabalho é caro ou difícil de encontrar, as empresas tornam-se mais disciplinadas. Automatizam, simplificam, despedem, reorganizam processos, usam dados e procuram eliminar desperdício. A escassez obriga a aumentar a produtividade; claro que os "experts" não estão de acordo.
A produtividade não nasce de proclamações, subsídios, planos estratégicos ou da adopção superficial de tecnologia. Nasce da pressão competitiva, da reorganização do trabalho e das exigências sobre os processos.
Portugal tem demasiadas actividades em que a escassez é evitada, em vez de ser usada como motor de transformação. Quando há falta de pessoas, a resposta frequente é procurar mão-de-obra mais barata, adiar investimento, proteger sectores existentes ou baixar exigências. Isso reduz a pressão para subir na escala de valor.
O artigo sugere outra leitura: quando o trabalho se torna escasso e caro, as empresas são obrigadas a escolher melhor, automatizar melhor, formar melhor, medir melhor e gerir melhor. A produtividade surge quando a empresa deixa de poder sobreviver apenas com mais horas, mais gente ou salários comprimidos.
Se queremos produtividade, temos de deixar de tratar a baixa produtividade como um problema externo às empresas. Ela vive nos processos, na gestão, na tecnologia realmente usada, na qualidade das decisões e na capacidade de fazer escolhas duras.A IA pode ajudar, mas não substitui essa disciplina. Sem processos claros, dados fiáveis, liderança exigente e capacidade de reorganizar trabalho, a IA será apenas mais uma camada de verniz tecnológico sobre empresas que continuam a funcionar da mesma forma.
quinta-feira, julho 16, 2026
Curiosidade do dia
Tratados como Figos (parte IV)
Em Outubro passado, numa série de textos intitulados "Tratados como Figos", descrevi algo que à partida parece estranho: a existência de empresas centenárias no Japão que operam no sector ... têxtil.
Segundo a teoria dos Flying Geese, o sector têxtil é um sector com margens pequenas que um país quando sobe na escala de valor, tem de abandonar:
Tem de abandonar, a menos que possa importar paletes de mão de obra barata, que aceitem trabalhar por um salário que já não garante uma vida digna como cidadão, apenas sobrevivência como "Deltas".Os produtores japoneses não competem através do volume, de salários baixos ou de capacidade instalada. Competem combinando o saber artesanal acumulado, a engenharia de materiais e a criatividade no tratamento das superfícies.
O Japão surge apenas no 17.º lugar mundial e exportou cerca de 6,2 mil milhões de dólares em têxteis em 2025, muito longe da escala da China, do Bangladesh ou do Vietname. A sua posição é, portanto, a de fornecedor de tecidos especializados e de elevado valor, não a de produtor de volume.
É uma excelente ilustração da concorrência imperfeita: não vender "tecido", mas um efeito visual, uma textura, um desempenho técnico ou uma história de origem que poucos concorrentes conseguem reproduzir.
O artigo não se limita ao romantismo do artesão. Reconhece que as marcas internacionais exigem garantias relativas à rastreabilidade, aos impactes ambientais, às certificações, às substâncias químicas e às condições sociais. Ou seja, o fornecedor não ganha apenas por saber produzir um tecido excepcional. Ganha porque consegue transformar esse saber numa oferta consistente, documentada, auditável e integrável numa cadeia internacional.
quarta-feira, julho 15, 2026
Curiosidade do dia
O Daily Telegraph de hoje publica o artigo "Cheating and lying AI could cause market chaos, Bank chief warns":
"AI bots risk causing chaos in financial markets if they cheat and lie to make a profit, the Bank of England governor has told MPs."
O que me faz espécie é o uso das palavras "cheat" e "lie". O texto faz-me recordar o que Elon Musk diz sobre o perigo de embutir critérios "woke" nos LLM's e um postal que escrevi em tempos sobre objectivos e os comportamentos que podem gerar.
Um agente não precisa de receber uma instrução explícita para mentir. Basta que lhe seja pedido que maximize um resultado e que descubra que pode atingi-lo explorando lacunas, omitindo informação ou manipulando o sistema de controlo.
Um único agente que adopte um comportamento inesperado pode causar prejuízos. Muitos agentes treinados com dados semelhantes, orientados pelos mesmos indicadores e reagindo aos mesmos sinais podem provocar movimentos simultâneos, vendas em cadeia e falta de liquidez.
A IA pode, assim, aumentar a velocidade e a correlação das decisões financeiras. O verdadeiro risco não é apenas uma máquina "tornar-se desonesta", mas sim milhares de sistemas tomarem a mesma decisão errada ao mesmo tempo.
"what is our center?"
"It will slash the number of models in half. And, if it can secure the agreement of the unions, it will cut 100,000 jobs from its workforce.Volkswagen, Europe's biggest carmaker, and once the proud symbol of Germany's industrial strength, is finally taking the bold action needed to try to save the company. And yet, the blunt truth is this. It is surely too little, too late....Indeed, the company increasingly resembles the British Leyland of three decades ago. It is a random collection of worn-out brands, with little connection between them, plagued by overpowerful unions, and with a cost base that is far too high for the markets it is meant to be selling into. Just like the British Leyland of the 1980s, it is hard to see any real future for it."
Entretanto, dei comigo há dias a contar o que Steve Jobs fez quando regressou à Apple e a encontrar um paralelismo com o que a VW provavelmente terá que fazer.
Ontem, li "Volkswagen is a case study in what's wrong with many of our biggest industrial companies".
O problema descrito na VW é semelhante ao que Steve Jobs encontrou quando regressou à Apple em 1997. Em ambos os casos, a empresa acumulava produtos, estruturas, compromissos e actividades que tinham deixado de formar um todo coerente. A organização continuava a fazer muitas coisas porque sempre as fizera, não porque essas coisas contribuíssem para uma vantagem competitiva clara.
Jobs não se limitou a reduzir custos para prolongar a vida da Apple. Começou por responder à pergunta que o texto de Rita McGrath sobre a VW formula como "what is our center?". Reduziu quinze computadores de secretária a um, concentrou os portáteis num único modelo, abandonou impressoras e periféricos, diminuiu a distribuição, externalizou grande parte da produção e criou um canal directo de venda. Cada decisão reforçava a mesma lógica: preservar um núcleo pequeno, coerente e capaz de sobreviver enquanto a empresa esperava pela próxima grande oportunidade tecnológica.
É isto que distingue uma estratégia de um simples plano de reestruturação. Cortar 100 000 postos de trabalho, fechar fábricas ou reduzir o investimento pode ser necessário, mas não indica, por si só, o que a VW pretende ser. Jobs também cortou produtos, pessoas, distribuidores e capacidade industrial. Mas não cortou ao acaso. Redesenhou a lógica do negócio em torno de uma escolha clara sobre aquilo que a Apple ainda podia fazer de forma distintiva.
A VW enfrenta hoje uma dificuldade semelhante, mas de muito maior complexidade institucional. A Apple podia reduzir a produção, eliminar distribuidores e abandonar produtos com relativa rapidez. A VW está ligada a governos regionais, sindicatos, conselhos de trabalhadores, famílias accionistas, fornecedores e cidades inteiras. Muitas das actividades que deveriam ser avaliadas segundo critérios estratégicos são também empregos, compromissos políticos e símbolos nacionais. Por isso, aquilo que para Jobs era uma decisão empresarial difícil pode tornar-se, em Wolfsburg, uma negociação social e política quase impossível.
Ainda assim, o princípio mantém-se. A VW não precisa apenas de ficar mais pequena. Precisa de decidir em torno de que competência, experiência ou posição no ecossistema pretende reconstruir-se. Pode escolher a mobilidade eléctrica acessível, a excelência industrial, a orquestração de plataformas de produção ou a integração entre software e automóvel. O que dificilmente poderá fazer é continuar a ser tudo para todos, em todas as geografias, tecnologias e segmentos, apenas com menos trabalhadores.
Steve Jobs não salvou a Apple por ter previsto exactamente o futuro. Salvou-a porque eliminou tudo aquilo que a impediria de estar preparada quando o futuro chegasse. Essa é também a escolha essencial da VW: não apenas quanto cortar, mas o que preservar, o que abandonar e para que próxima oportunidade pretende estar preparada.
A VW é uma megaempresa. No entanto, as PME podem encontrar aqui algumas lições.
O primeiro ensinamento é que crescer por acumulação não é necessariamente crescer com estratégia. Mais produtos, mais clientes, mais mercados e mais actividades podem aumentar a facturação e, ao mesmo tempo, destruir foco, margens e capacidade de resposta.
O segundo é que reduzir custos não substitui uma escolha estratégica. Uma PME pode cortar pessoal, fornecedores ou investimento e continuar com o mesmo problema: não saber onde cria valor de forma distintiva. Antes de perguntar "onde podemos poupar?", deveria perguntar "o que fazemos melhor, para quem e por que razão alguém nos escolherá?".
O terceiro é que abandonar pode ser tão importante como investir. Muitas empresas continuam a manter produtos, clientes e actividades apenas porque sempre existiram. Preparar o futuro exige libertar recursos do passado. Uma PME não precisa de prever a próxima grande mudança, mas precisa de ter foco, margem de manobra e rapidez suficientes para a aproveitar quando surgir.
terça-feira, julho 14, 2026
Curiosidade do dia
Li hoje "Seguro quer redução do risco sísmico como prioridade nacional" e subitamente percebi porque precisamos de um presidente da república eleito por sufrágio directo e universal.
António José Seguro quer tornar a redução do risco sísmico uma prioridade nacional, acima dos ciclos políticos, com políticas coordenadas, continuadas e avaliáveis. É uma promessa tão consensual e politicamente segura quanto as do Count Binface: construir pelo menos uma casa acessível.
O problema começa quando a prioridade ganha orçamento, calendário, obras obrigatórias e, eventualmente, uma taxa sobre os seguros da habitação. Aí regressamos a Joaquim Aguiar: a política portuguesa adora propostas cujos benefícios são de todos, mas foge das que apresentam uma factura directa a alguém. Talvez o verdadeiro programa seja, portanto, reduzir o risco sísmico sem incomodar proprietários, construtores, seguradoras, contribuintes ou eleitores.
"A imigração torna-se então um substituto da estratégia" (parte II)
"Acaba de sair um trabalho que obriga a repensar uma das premissas mais repetidas do debate. Chama-se "Baby Busts and Growth Booms", e é de Daron Acemoglu (o Nobel de 2024), David Autor, Keelan Beirne e Andrew Scott. Estudaram a natalidade, não a imigração, mas o resultado é perturbador para a ortodoxia. Contra a expectativa generalizada de que a quebra de nascimentos e o envelhecimento travam o crescimento, encontraram o contrário: taxas de natalidade mais baixas associam-se a maior crescimento do PIB por adulto em idade ativa entre países.A explicação é uma velha ideia da história económica, a hipótese de Habakkuk, que Acemoglu reformulou: quando o trabalho escasseia, as empresas são empurradas a inventar e adotar tecnologia que o poupa. Menos trabalhadores jovens, mais automação, mais produtividade, salários mais altos. E os autores mostram-no com a marca da escassez: as regiões com menos nascimentos registam mais patentes poupadoras de trabalho e maior crescimento da produtividade total dos fatores. Usaram até as mortes da Segunda Guerra Mundial para provar que é o declínio da população jovem, e não o tamanho da população, que gera o efeito.Ora, se a escassez de trabalho induz ganhos de produtividade, então a conclusão para a imigração é incómoda mas direta: a imigração que alivia essa escassez remove a pressão que geraria a inovação."
Recordo outro postal recente, acerca da Lituânia, "Curiosidade do dia".
Ao nível da empresa, a abundância de trabalhadores reduz a urgência de redesenhar operações. Um processo pouco produtivo pode continuar a funcionar porque é possível acrescentar mais pessoas. A escassez, pelo contrário, funciona como uma restrição que obriga a gestão de topo a perguntar: como podemos produzir o mesmo com menos trabalho, menos desperdício e maior valor acrescentado?
Ao nível da estrutura económica, esta opção multiplica as empresas dependentes de baixos salários e de actividades intensivas em trabalho. Agricultura pouco mecanizada, construção tradicional, turismo indiferenciado, logística de baixo custo e alguns serviços pessoais podem expandir-se sem alterarem substancialmente a produtividade.
Ao nível político, o processo pode tornar-se circular. Os decisores receiam que empresas incapazes de pagar salários mais elevados desapareçam; facilitam, por isso, o acesso a mão-de-obra barata. Essa disponibilidade permite que os modelos menos produtivos sobrevivam, reforça o peso político desses sectores e cria novos pedidos de trabalhadores. A imigração deixa de corrigir uma escassez temporária e passa a sustentar uma especialização económica que gera continuamente novas "carências" de mão-de-obra.
segunda-feira, julho 13, 2026
Curiosidade do dia
Em "O valor brando da economia portuguesa" no final pode ler-se:
"uma parte demasiado grande da economia portuguesa assenta em valor brando, frequentemente dependente de procura interna, proteção implícita, regulação favorável e compressão de custos e salários."
Ninguém diz ao filho de cinco anos que a festa de Natal foi uma porcaria. O problema começa quando esta lógica afectiva passa para a economia: empresas pouco produtivas são protegidas da concorrência, poupadas ao confronto com os seus próprios erros e sustentadas por regulação favorável, crédito, subsídios, compressão salarial e acesso permanente a mão-de-obra barata.
Os políticos receiam que as empresas morram, porque cada encerramento tem custos sociais e eleitorais visíveis. Mas, ao tentarem evitar todas as mortes empresariais, acabam por promover a zombificação: mantêm recursos, trabalhadores e capital presos a actividades que já não criam valor suficiente e impedem o nascimento e o crescimento de empresas mais produtivas.
E já agora, a dependência da procura interna não é, por si só, o problema. O problema surge quando essa procura é protegida da concorrência externa, alimentada por regulação favorável ou pouco exigente e suficiente para sustentar empresas que não precisam de aumentar significativamente a produtividade. Já as empresas expostas à procura externa enfrentam uma disciplina competitiva mais forte; mas, quando operam em actividades de baixo valor acrescentado, podem responder não através de inovação, diferenciação ou subida na escala de valor, mas comprimindo custos e salários. Num caso, a fragilidade é protegida pelo mercado interno; no outro, é exportada através de um modelo de competitividade baseado no preço.
Deixem as empresas morrer! Diferente de "matem as empresas".
Ideias erradas sobre a produtividade (parte I)
"Em Portugal trabalha-se mais horas do que na União Europeia, mas criando menos valor do que noutros países.""A produtividade do trabalho em Portugal está na cauda da Europa."
"Os trabalhadores portugueses são tão produtivos como quaisquer outros, dependendo do enquadramento."
- num sector que pratica preços mais baixos;
- numa empresa subcontratada com pouco poder negocial;
- num produto indiferenciado;
- numa fase pouco valorizada da cadeia de valor;
- com menos capital, tecnologia, escala ou activos intangíveis.
domingo, julho 12, 2026
Curiosidade do dia
"There is a line in Count Binface's manifesto that encapsulates why Britain is in such a mess. "I'll cut your taxes," pledges the Clacton by-election candidate, "and raise everyone else's." So says every party, if not quite so baldly. Politicians baulk at hiking the taxes that people feel directly. Instead, they raise the taxes at one remove - the taxes that voters imagine fall on others....He promises to cap the price of kebabs,...Capping the price of a kebab is not a brave take on a glaring policy failure. It is what every half-wit who refuses to understand economics would do. If we did somehow fix the price of kebabs, the result would be a massive kebab shortage, because it would no longer be worth producers' effort to bring them to market. But unscrupulous politicians pretend that price rises are caused by "corporate greed" rather than by excessive regulation, taxation and money-printing.In the same way, raising taxes that people imagine are paid by someone else is wildly popular....Why have we, as a country, drifted so far from reality? Partly because we prefer sweet falsehoods to bitter truths, and partly because the lockdown convinced us that there really was a magic money tree. But partly, too, because our politicians are like weak parents bullied by demanding teenagers. They shy away from telling us what needs to happen."
Recordo Joaquim Aguiar... não basta censurar os políticos por prometerem; é necessário compreender a sociedade que exige essas promessas e castiga quem apresenta a factura.
Esta semana, enquanto decorria o injusto clamor dos munícipes de Almada (gente que tem pão e circo queixa-se de quê?), li que o PSD perdeu a câmara de Coimbra por aumentar o preço da água para fazer investimentos na rede, li que o PSD, a liderar a câmara do Porto, tornou os transportes públicos no Porto gratuitos para os habitantes do Porto.
A imigração torna-se então um substituto da estratégia
"If employers believe they will always have access to a large pool of readily exploitable labour, why would they shift their business models and operations towards better jobs or invest in higher productivity? A "job Americans won't do" exists only if employers know they will be given someone else to do it."
A imigração pode, assim, resolver uma carência operacional imediata e, simultaneamente, adiar uma transformação estratégica. A empresa consegue preencher turnos, aceitar mais encomendas ou prolongar uma actividade que, de outro modo, teria de ser redesenhada. No curto prazo, o problema desaparece. No médio prazo, permanece a baixa produtividade por trabalhador, a fraca intensidade de capital, os salários reduzidos e a especialização em actividades de baixo valor acrescentado.
É aqui que o artigo do FT converge directamente com a situação portuguesa. Uma economia pode crescer de forma extensiva, acrescentando mais trabalhadores, mais horas e mais unidades produzidas, sem crescer de forma intensiva, isto é, aumentando o valor criado por cada trabalhador. O PIB sobe, o emprego cresce e as empresas respiram aliviadas, mas a produtividade continua estagnada.
Ou seja, a imigração torna-se então um substituto da estratégia, e não um instrumento ao serviço dela. Percebem esta desgraça?! Daí os meus postais sobre as bofetadas que recebi em resposta à minha ingenuidade.
"A new paper by 2024 Nobel Prizewinner Daron Acemoglu, fellow MIT economists David Autor and Keelan Beirne, and the London Business School's Andrew Scott provides another line of evidence. While they studied birth rates, not immigration, their findings bear directly on the latter.
Economists generally assume that a decline in available workers will mean stagnation and contraction and make the case for high levels of immigration on those grounds. Acemoglu and colleagues found the opposite: "In contrast to the prevailing wisdom, we find that lower birth rates so far have led to higher growth in GDP per worker across countries and higher wage growth across local labour markets in the US." Their explanation? "The endogenous, labour-saving response of technology to the scarcity of younger workers." Simply put, less available labour led to technological innovation and investment, leaving the economy intact and, by boosting productivity and wages, improving outcomes for workers. [Moi ici: Isto é tão básico para mim... é o alicerce de "Vão todos ser tratados como Figos"]"
sábado, julho 11, 2026
Curiosidade do dia
"Suspeita-se que a origem do incêndio tenha sido uma linha privada de eletricidade que abastecia uma habitação e um restaurante que estavam abandonados."
E já agora, uma das razões para as companhias eléctricas serem levadas à justiça nos EUA é: não desligarem a rede elétrica preventivamente apesar das previsões de ventos extremos e do elevado risco de incêndio.
Só em Portugal é que isto não é assunto.
BTW, perguntem ao ChatGPT "Companhias eléctricas responsáveis por incêndios florestais nos EUA?"
Quem tem coragem?
"In the late 1990s and early 2000s, Zhu Rongji, a charismatic Chinese premier, took the scythe to large swaths of the country's politically powerful state-owned enterprises.Under Zhu's slogan of "zhua da, fang xiao" or "grasp the large, let go of the small", Beijing retained its grip on strategic industries while relinquishing control of a vast sea of smaller companies and factories. The cuts ripped through China's north-eastern rustbelt. Thousands of mines, steel mills and other industrial sites were shut for good. An estimated 30mn to 40mn workers lost their jobs."
Entretanto, no Handelsblatt do passado dia 7 de Julho de 2026 em “Europas Autowerke sind nur zu 59 Prozent ausgelastet” (em inglês: “Europe’s car plants are operating at only 59% capacity”) pode ler-se:
- as fábricas automóveis europeias estavam, em média, utilizadas apenas a 59%, quando cerca de 80% seria o nível economicamente mais eficiente;
- existia uma sobrecapacidade de aproximadamente 5,4 milhões de veículos;
- essa capacidade excedentária correspondia a mais de 35 fábricas, num universo de cerca de 90 unidades na Europa;
- cerca de uma dúzia de fábricas estaria sob risco imediato, sendo considerados inevitáveis novos encerramentos nos três a cinco anos seguintes.
sexta-feira, julho 10, 2026
Curiosidade do dia
Mão amiga mandou-me "Benteler Opens Plant in Morocco".
A notícia não é apenas "mais uma fábrica". É um indicador de uma mudança estrutural na indústria automóvel europeia. A Benteler escolheu Marrocos porque, para o tipo de produção que pretende fazer, o país oferece hoje uma combinação de factores que, em muitos casos, já supera a de vários países europeus: produzir perto do cliente; custos baixos; um forte ecossistema industrial; facilidade logística (proximidade do porto de Tânger) e baixos custos energéticos.
A abertura da primeira fábrica da Benteler em Marrocos, confirma o mecanismo descrito em "Não devia ser um drama, quase que podia ser celebrado": as actividades industriais mais sensíveis ao custo deslocam-se para territórios capazes de combinar salários mais baixos, proximidade dos clientes e um ecossistema industrial já funcional.
O modelo dos Flying Geese ajuda a interpretar esta evolução. Portugal atraiu, durante décadas, produção industrial intensiva em mão de obra porque oferecia custos competitivos e acesso ao mercado europeu; à medida que os salários subiram, parte dessa produção passou a procurar países como Marrocos, Tunísia ou Egipto. Isso não deveria constituir, por si só, um drama: é um processo normal de desenvolvimento, desde que Portugal avance para actividades mais sofisticadas, produtivas e capazes de pagar salários mais elevados. Infelizmente, isso parece não estar suficientemente desenvolvido.
Qual é o mecanismo que vai fazer o sistema melhorar?
quinta-feira, julho 09, 2026
Curiosidade do dia
um país sério, perante a onda de calor que aí vem, decretava obrigatoriedade de trabalho remoto ( para todos os empregos em que isso é possivel ), durante os próximos dias
— umDiogo (@umDiogoScp) July 1, 2026
Um país sério precisa apenas de alguém suficientemente iluminado para decretar, de cima para baixo, que todos os empregos “possíveis” passam a ser remotos por uns dias.
A beleza da fórmula está no detalhe: ninguém sabe exactamente quem decide o que é possível, quem garante o serviço ao cliente, quem assegura a produção, quem responde ao idoso, ao doente, ao aluno, à obra, à loja ou à fábrica, mas isso são minudências burguesas.
O importante é a pose moral: chamar de "país sério" a uma pequena fantasia administrativa em que a complexidade do trabalho real desaparece perante a caneta redentora do decretador de serviço.
Voz do futuro ou voz dos activos acumulados no passado?
Há cerca de ano e meio escrevi aqui "Portugal, Netflix e produtividade". Um texto ao qual volto vezes sem conta.
Nele escrevi:
"A decisão estratégica de Reed Hastings e Ted Sarandos de excluir a "DVD leadership team" das reuniões não foi apenas prática, mas simbolicamente poderosa. Eles reconheceram que, para avançar, era essencial abrir espaço para ideias alinhadas com o futuro, mesmo que isso significasse sacrificar o presente. Da mesma forma, Portugal precisa deixar morrer (deixar morrer não é o mesmo que matar) empresas ou modelos que não têm futuro, para realocar recursos e criar espaço para negócios inovadores, especializados e de maior produtividade."
Foi dele, novamente, que me recordei ao ler "German bosses urge Merz to prevent 'lost decade'" no FT de ontem.
"German chief executives have expressed concern that Chancellor Friedrich Merz's €10bn in tax cuts may not be enough to jump-start the country's stagnant economy.
Merz's coalition government last week unveiled measures including tax cuts for the middle class, labour market reforms, stricter sick-leave rules and initiatives to curb bureaucracy as it aims to kick-start the economy and combat rising voter discontent.
Executives welcomed the moves but warned that the measures were not enough to dispel fears among business leaders that the country was at risk of a "lost decade".
Roland Busch, chief executive of Siemens, Germany's biggest company by market capitalisation, said the reform package was "an important step towards restoring growth and competitiveness" but that "further action will be needed"."
Berlim quer restaurar a competitividade e conter o descontentamento político, mas as empresas temem que reformas lentas, custos laborais elevados, burocracia, infraestruturas atrasadas e falta de incentivos ao investimento continuem a travar a economia alemã.
Penso nisto tudo e imagino um equilibrista, um funâmbulo. Até que ponto o governo alemão está a fazer o que é certo, a evitar assassinar empresas, e até que ponto não estará a ir por um caminho de exagero e a não deixar morrer empresas que estão condenadas?
Em "Portugal, Netflix e produtividade", a "DVD leadership team" representa os responsáveis pelo negócio antigo: ainda lucrativo, ainda poderoso, ainda cheio de argumentos racionais para estar presente nas decisões, mas estruturalmente comprometidos com a defesa do passado. No exemplo da Netflix, a liderança deixou de convidar essa equipa para certas reuniões porque sabia que essas vozes tenderiam a empurrar a empresa para compromissos destinados a proteger o negócio dos DVD, mesmo quando o futuro estava no streaming.
No caso alemão, muitos destes líderes empresariais podem comportar-se como essa "DVD leadership team" se a sua pressão sobre Merz tiver como objectivo principal tornar o velho modelo alemão novamente confortável: menos impostos, menos custos laborais, menos burocracia, mais investimento público, mais protecção da base industrial existente.
Nada disso é errado em si mesmo. Custos, impostos, burocracia e infra-estruturas contam. Mas estão a pedir condições para construir o futuro, ou apenas oxigénio para prolongar o passado?
Quem, tendo de ser eleito mais tarde ou mais cedo, tem coragem para dizer que a Festa de Natal foi uma porcaria?
E perguntar: que sectores pertencem ao futuro? Não porque os governos saibam "pick winners", mas podem perguntar que tipo de salários podem pagar e, ao mesmo tempo, ser produtivos e competitivos? Que competências industriais ainda são uma vantagem e quais já são um peso morto?
Peso morto ... ainda ontem recordei Karl Weick e "Drop your tools!"
Não podemos aceitar automaticamente a voz dos grandes empresários como se fosse a voz do futuro. Muitas vezes é apenas a voz dos activos acumulados no passado.
Muitos líderes industriais alemães, quando pedem menos impostos, menos custos, menos burocracia e mais apoio público, podem estar a pedir duas coisas muito diferentes: condições para construir o futuro ou autorização para continuar a carregar ferramentas que já não servem para fugir ao fogo. O verdadeiro teste estratégico não é perguntar se essas ferramentas foram úteis no passado; foram. É perguntar se ainda ajudam a atravessar o incêndio ou se tornaram o peso que impede a fuga. "Drop your tools" é, por isso, uma frase brutal: não pede apenas eficiência; pede uma conversão de identidade. E talvez seja essa a parte mais difícil da produtividade: deixar morrer o que ainda tem prestígio, ainda tem voz, ainda tem argumentos, mas já não tem futuro.
Isto não é fácil; é um equilíbrio cada vez mais difícil de manter depois dos apoios pós-2008 e pós-pandemia, em que se perdeu um certo bom senso.
quarta-feira, julho 08, 2026
Curiosidade do dia
A geração do Maio de 68 a trucidar os novos em nome dos direitos adquiridos.
Bison threw the young member of its herd to the wolves so he could escape 😭 pic.twitter.com/kF8s28tIzj
— Redd (@ReddCinema) July 6, 2026
Tudo começou com as lojas dos 300
A propósito desta frase:
"China fue probablemente la mayor fuerza desinflacionaria de la economía mundial en las dos primeras décadas del siglo XXI."
Normalmente, pensamos em China e relacionamos com preços baixos. O que poucos fazem é pensar em China e relacionar com duas décadas de salários industriais estagnados na Europa e não só.
A força desinflacionária da China não se limitou aos preços. Actuou também no poder de negociação dos trabalhadores industriais europeus.
A entrada da China na economia mundial trouxe milhões de trabalhadores para o mercado global da manufactura. O efeito imediato foi simples: bens industriais mais baratos. Roupa, electrónica, brinquedos, componentes, máquinas, produtos intermédios. Isto ajudou a manter a inflação baixa no Ocidente. Para o consumidor europeu, parecia uma boa notícia: mais produtos, preços mais baixos, maior variedade. No entanto, havia o outro lado.
A mesma pressão que baixava os preços também dizia às fábricas europeias: "ou reduzes custos, ou alguém produz mais barato noutro sítio". E "custos" significava muitas vezes salários, emprego, condições, margens industriais e investimento local. Assim, a China não foi apenas uma força desinflacionária no cabaz de compras. Foi também uma força disciplinadora dos salários industriais.
O mecanismo foi este:
Interessante como isto foi feito a 2 níveis. Primeiro, foi no segmento industrial mais baixo onde operavam, por exemplo, as fábricas portuguesas. Agora, temos exactamente o mesmo a acontecer no segmento médio-alto onde operam as fábricas alemãs.
1. Concorrência de produtos mais baratos
As empresas europeias passaram a competir com importações chinesas de baixo custo. Muitas perderam quota de mercado. Outras sobreviveram comprimindo as margens, automatizando, despedindo ou deslocando a produção.
2. Deslocalização e ameaça de deslocalização
Mesmo quando a fábrica não fechava, a ameaça ficava sobre a mesa. O trabalhador ou o sindicato que pedia aumentos ouvia, explicitamente ou não, "os nossos clientes têm alternativas". A China tornou-se uma espécie de “concorrente invisível” nas negociações salariais europeias.
3. Enfraquecimento do trabalhador industrial
O operário industrial europeu do pós-guerra tinha força porque trabalhava em sectores centrais, produtivos, sindicalizados e territorialmente enraizados. Com a globalização, essa posição enfraqueceu. O capital ganhou mobilidade; o trabalhador ficou preso ao território.
4. Substituição do emprego industrial por emprego de menor poder salarial
Quando se perde emprego industrial, nem sempre se fica sem trabalho para sempre. Muitas vezes há transição para serviços, logística, comércio, segurança, plataformas, restauração ou trabalho administrativo de menor produtividade e menor poder negocial. O desemprego industrial é apenas a parte visível; a degradação salarial é a parte mais silenciosa.
5. Inflação baixa como anestesia social
Durante anos, a estagnação dos salários foi parcialmente disfarçada por bens importados baratos. O salário não subia muito, mas a televisão, a roupa ou o telemóvel ficavam mais acessíveis. Só que isto não resolvia a habitação, a saúde, a energia, a educação, a mobilidade ou a poupança. Ou seja: a China ajudou a baixar o preço de muitos bens transaccionáveis, mas não compensou a perda de segurança económica e de trajectória profissional.
Não foi a única causa. Houve também automação, euro, alargamento a Leste, políticas de austeridade, financeirização, enfraquecimento sindical e erros estratégicos europeus. Mas a China foi uma peça central porque aumentou brutalmente a oferta mundial de capacidade industrial barata.
Por isso, a desinflação chinesa teve uma dupla face. Para o consumidor europeu, foi uma bênção de curto prazo. Para muitas comunidades industriais, foi uma erosão lenta: menos fábricas, menos carreiras industriais, menos sindicatos fortes, menos salários de classe média, menos orgulho produtivo.
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