domingo, fevereiro 25, 2024

"If you're open to ambiguity" (parte II)

Há muitos anos numa livraria em Buarcos comprei um livro que na contracapa trazia a frase "Não existem coincidências, todos os acasos são significativos."

Ontem de manhã publiquei "If you're open to ambiguity." Depois, ao final da tarde dou de caras com uma frase de Søren Kierkegaard: 

"To dare is to lose one’s footing momentarily. Not to dare is to lose oneself"

Correr riscos, mesmo que signifique enfrentar incerteza ou instabilidade temporária ("perder o pé"), é essencial para o crescimento pessoal e a auto-descoberta. Por outro lado, evitar riscos e não ousar sair da zona de conforto ("não arriscar") leva à perda do verdadeiro eu ou da identidade, pois envolve uma falha em nos envolvermos plenamente com o campo de possibilidades da vida. 

Agora é aplicar isto às empresas, assumir a coragem de enfrentar o desconhecido e fazer escolhas, apesar da incerteza. Sem isso, humanos ou empresas deixam de ter vida autêntica, deixam de ter graus de liberdade.

Adenda: Esta manhã ao ouvir a homilia do Bispo Barron sobre os textos da Liturgia de hoje ... outra vez Søren Kierkegaard.

Vamos com alegria ...

 «Vamos com Alegria. Subamos Juntos a Jerusalém»

É o tema da caminhada quaresmal da Diocese do Porto.

A primeira vez que o ouvi, primeiro estranhei e depois ... não gostei.

Associar alegria a Quaresma parece-me uma contradição em si mesma.

Fui criado num tempo em que no dia de Sexta-Feira Santa a televisão só passava música clássica relativa ao tema, fui criado num tempo em que no meu pequeno mundo trabalhar nesse dia era pecado grave (ainda não tinha tido contacto com a realidade minhota).

Fez no passado Sábado uma semana que resolvi fazer uma caminhada ao principio da tarde. 3 km até ao salão paroquial da Madalena e ouvir uma apresentação sobre "As raízes cristãs da alegria". Confesso que fui de pé atrás. Pensava, mais um daqueles padres que nos vem dizer que o mais importante na vida é a alegria, é a felicidade, ao mesmo tempo que recordava as palavras de Jordan Peterson "life is tough".

O dia estava bom, o sol brilhava, a temperatura era primaveril. 14h30, a comunicação iniciou-se... um homem ... com um colar clerical e um punhado de folhas A4 começava a falar para o microfone. Começou com um texto do Atigo Testamento (se os nossos irmãos mais velhos na fé, os judeus, soubessem o quanto lemos, cantamos e ouvimos os textos do Antigo Testamento... recordo aquele jovem judeu de Nova York que achava que Jesus era italiano). Eu não adormeci, mas confesso que as minhas pálpebras tornaram-se pesadas como os portões de Helm's Deep. A certa altura o padre falou dos mártires do nosso tempo, referiu a Nigéria, o Paquistão, e eu despertei. pus-me direito na cadeira e fui ao meu mini tablete para olhar para uma foto que me tinha marcado durante essa semana:


O Santo Gaber Mounir Adly um cristão copta egipcío a momentos de ser decapitado em 2015 numa praia na Líbia pelo ISIS e a pronunciar "Ya Rabb Yesua!" (em árabe: يا رب يسوع, "Ó Senhor Jesus!"). Já agora o caso de Mathew Ayairga é impressionante, um ganês, que, segundo relatos, não era cristão até ao momento da sua captura, mas que escolheu identificar-se com a fé cristã dos outros 20 mártires pouco antes de sua execução​.

E o sono foi-se, como se pode ter sono quando se recordam estes Santos reconhecidos pela Igreja Católica e celebrados a 15 de Fevereiro?

Sintonizei e continuei a ouvir o padre e a certa altura, deu-se o clique na minha mente. 

Recordo num dos livros da disciplina de Filosofia na escola, que Einstein criticava os filósofos por terem dado cabo das palavras. Por causa deles, as palavras têm mais do que um significado. Podemos estar a dialogar com alguém, usando as mesmas palavras e não percebendo que estamos na realidade a falar de coisas diferentes.

Quando eu era criança os meus pais levavam-me à missa, muitas vezes era uma seca. Depois, aos 10 anos ia para estar com um grupo de colegas diferente do da escola. Depois cresci e continuei a ir à missa, por obrigação, por tradição, por rotina, algumas vezes por devoção, também como rédea (quando se é empresário, quando gerimos a nossa vida profissional e as coisas correm bem, faz bem ouvir palavras que nos alertam para o facto de que somos humanos, não deuses).

Mudei de casa, mudei de cidade e comecei a frequentar uma capela na minha nova paróquia. 

Até que veio o covid. E fiquei privado de ir à missa, de participar na Eucaristia, semana após semana. Aquilo que era comum tornou-se escasso, tornou-se precioso.

Até que um dia, andava sozinho de tarde a fazer uma das minhas caminhadas e passei perto da capela por mero acaso. E reparei que as portas estavam abertas. Entrei no pequeno átrio interior, recolhi uma máscara e entrei para me ajoelhar e rezar. Ao sair, encontro a chegar uma das maestrinas do coro e perguntei se sabia quando recomeçavam as missas. Ela respondeu:

- No próximo Domingo.

E naquele momento senti uma grande alegria interior. 

E foi esse momento que o padre com os seus papéis me fez recordar. Foi esse o clique. É essa alegria interior, é essa alegria cristã! E o lema passou a ter para mim esta interpretação pessoal.

Tomás Halík num dos seus livros recorda um tempo em que nas igrejas católicas durante a Quaresma as imagens eram cobertas com um manto. E que a sua ausência reforçava a sua importância.

E eu que condeno tantos e tantos exageros durante o covid, vou para sempre ser-lhe grato por ter mudado a minha relação com a missa. Participar com devoção e sentir a sua falta.

sábado, fevereiro 24, 2024

"If you're open to ambiguity"

 ""If you're open to ambiguity, you don't have tunnel vision, and things are not so set in stone," she told me. "You're a little more malleable, in your relationships, in your practice, or your expectations of yourself." You can push beyond the comfort zone of practiced know-how. You can test not just the problem but yourself. In turn, this stance instills confidence, even courage, she and other doctors noted. "When you value uncertainty," said Picker, "there is a confidence that builds and allows continued thinking and rethinking about next steps, as the picture changes." The crumbling of normalcy is no longer the abyss that you once feared.

Heeding the unease of uncertainty to get ahead of trouble, moving past the perceived obviousness of a first off-base answer, deeply inhabiting the question at hand, continually working at the outer edges of your knowledge, creating a culture that values notknowing: this is how you can pursue the prowess of adaptive expertise every day, whether you are roughing out a first take on a crisis or approaching the critical phase of a routine. Practicing such skills in your lifework exposes your limitations and expands your options."


Trecho retirado de "Uncertain : the wisdom and wonder of being unsure" de Maggie Jackson.

sexta-feira, fevereiro 23, 2024

"market-shaping devices"

Leitura de "Value propositions as market-shaping devices: A qualitative comparative analysis

"Both value propositions and markets have been conceptualized as configurations of interdependent elements. The complexity of the studied phenomenon is best captured by the configurational perspective, which is increasingly employed across business disciplines. Hence, the purpose of this paper is to identify the configurations of value proposition characteristics that are effective for focal firms engaging in market-shaping strategies.

...

Our principal contribution is to distinguish the VP's role as a key device for market-shaping; more specifically, we identify four characteristics of market-shaping VPs. We also show that even though VPs can shape markets without displaying all four of these characteristics, no single characteristic alone can create all the expected outcomes. Further, our study extends our understanding of the nature of the VP concept. Specifically, we identify that market-shaping VPs are complex configurations rather than unidimensional constructs aimed at differentiating the firm in the market. Practically, we distinguish distinct configurations of VP characteristics that are successful in either: (1) changing the elements comprising the market system, or (2) inducing an overall market change at the system-level.

Research is progressively recognizing markets as systems or ecosystems, suggesting a need to look beyond the seller-buyer dyad and to see the dyad as part of a larger system of actors. This transition from dyadic relational thinking to complex systems thinking reveals that nobody can fully predict or control the development of a market system.

Market systems do not obey simple laws of cause and effect. Furthermore, they have no center and no central control mechanism. Rather, they evolve from a mix of deliberately designed influence and random emergence."

Segundo o artigo:

  • As empresas podem moldar activamente os seus mercados criando e implementando propostas de valor fortes. Essas propostas envolvem a oferta de combinações únicas de produtos, serviços ou experiências que ressoem nos clientes e diferenciem a empresa dos seus concorrentes. Claro que quem aposta em dominar os biombos e carpetes do poder, perde a oportunidade de se especializar na moldagem do seu mercado.
  • Há quatro características essenciais que tornam as propostas de valor eficazes na modelação do mercado: integração acrescida de recursos, (a velha densificação de Normann), processo colaborativo de proposta de valor (customização, interacção), promessa de valor sistémica e verificada (é como fazer uma grande promessa de que se pode mudar o jogo para muitas partes interessadas, e depois provar que realmente se consegue fazer isso), e novas representações utilizadas na comunicação.
  • Há que empregar uma abordagem configuracional, sugerindo que estas características podem ser combinadas de várias maneiras para atingir os objetivos de formação do mercado. Nenhuma característica por si só é suficiente; a combinação e interacção entre eles são cruciais. Num sistema complexo como o mercado, os resultados resultam de uma combinação de factores que trabalham em conjunto e não apenas de uma causa. Diferentes combinações desses fatores interligados podem levar ao mesmo resultado, mostrando que múltiplos caminhos podem atingir um objetivo. 

quinta-feira, fevereiro 22, 2024

e sinto que algo não bate certo

Pensem no que tenho escrito aqui nas últimas semanas sobre o calçado:

O sector do calçado vai encolher, e vai ter de subir ainda mais na escala de valor, ou seja, vai ter de anichar e trabalhar para segmentos de muito maior valor acrescentado, luxo mesmo talvez.

Lido no Público de 20.02, "Calçado prepara salto para competir pelo luxo em grande escala".

"Um salto. É disto que o calçado português precisa para não ficar encurralado entre dois problemas que o ameaçam: o risco de perder para a concorrência a guerra comercial pelo segmento médio; e a incapacidade de satisfazer as grandes encomendas de calçado mais caro, seja de marcas de luxo ou de calçado técnico. Sem preço e sem escala, não há saída. Mas em Estarreja estão a abrir-se portas que evitem esta "armadilha do segmento médio".[Moi ici: Olha o tema do stuck-in-the-middle]

...

Com a subida dos custos de produção, Portugal deixou de ter preço para competir com outros países, de baixos salários, que usam esse "trunfo" para oferecer preço baixo e ganhar as encomendas do segmento médio. A alternativa, espelhada no que as empresas portuguesas estão a mostrar desde domingo em Itália, é o calçado mais caro, de moda ou técnico. Mas aí coloca-se o segundo problema: falta capacidade de produção em larga escala. O que pode ser solucionado com as máquinas e o software que Portugal criou e já se encontra em teste na empresa de Estarreja. Em causa está uma resposta às grandes marcas de moda internacional que procuram países fornecedores de calçado com capacidade de entrega de grandes volumes. Um assunto crítico sempre que se pensa em Portugal, e que pode ser ilustrado com o recente desfecho anunciado pela marca francesa Veja, muito popular em todas as geografias.

...

Para não concorrer pelo preço baixo, as fábricas portuguesas terão de assegurar encomendas de gama alta, moda e luxo, ou gamas específicas como o calçado técnico. Para isso, é fundamental ter capacidade de resposta a grandes encomendas. O que, por sua vez, obriga a repensar a forma como se trabalha.

Luís Onofre, presidente da Apicapps, já o disse, na recente entrevista ao PÚBLICO: muita gente vai ter de se mentalizar de que é preciso fazer menos coisas, mas melhores. O que se pode traduzir em menos segmento médio em que o preço baixo é o factor crítico, e apostar em fazer mais para os segmentos mais exigentes.

...

Tal como uma companhia de aviões quer os aparelhos o menos tempo possível em solo, também uma fábrica de calçado quer as máquinas sempre a trabalhar. Mudar entre produtos obriga a pará-las. "Com inteligência artificial, visão artificial e robotização, será possível mudar muito rapidamente de série, reduzindo ou eventualmente eliminando até esses tempos mortos", esclarece a gestora.

Para Reinaldo Teixeira, há outra vantagem: "Os robôs que esta tecnologia vai trazer consigo não trabalham apenas oito horas, como um ser humano. O que permite pensar num segundo turno, ou até num terceiro, caso seja necessário.".""

Leio e releio o artigo e sinto que algo não bate certo... sinto a sensação de "stuck-in-the-middle", logo a começar pelo título, "luxo em grande escala". Se tem escala não é luxo. Depois "países fornecedores de calçado com capacidade de entrega de grandes volumes" versus "muita gente vai ter de se mentalizar de que é preciso fazer menos coisas, mas melhores". (Nota: parágrafo corrigido às 08h26)

Já agora a APICCAPS tem centenas de associados, será que a sua direcção já teve uma conversa franca sobre o futuro com os associados? Não creio que todos estejam a par dos dilemas do futuro, ou tenham capacidade para sobreviver no futuro. 

Agora uma pergunta séria e honesta, não sei mesmo, não estou a ser irónico, como é que uma associação lida com o facto de ter de "pick winners" entre os seus associados?  

quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Curiosidade do dia

Do ChatGPT:

"Homothetic preferences in economics are a special type of consumer preferences characterized by consistent or proportional scaling. Here's a detailed explanation:

Definition: Preferences are homothetic if they remain consistent as they scale up or down. In other words, if a consumer prefers a bundle of goods A over bundle B, then they will also prefer any scaled-up version of A (say, twice as much of A) over the same scaled-up version of B.

Utility Representation: Homothetic preferences can often be represented by a utility function that is a monotonic transformation of a homogeneous function. A common example is a Cobb-Douglas utility function, U (x, y) = x2y2, where x and y are quantities of two goods, and a and b are constants.

Income Changes: In the context of homothetic preferences, changes in income lead to changes in the quantity of goods consumed but not in the proportions in which different goods are consumed. This means that the ratio of one good to another in the consumer's consumption bundle remains constant as income changes.

Indifference Curves: For homothetic preferences, indifference curves have the same shape at all points along a ray from the origin. As a result, these curves are self-similar and only shift in position with changes in income or prices.

Implications in Economics: Homothetic preferences simplify consumer behavior analysis because they imply that the income elasticity of demand is equal to one. This means that the proportion of income spent on a good remains constant as income increases.

Limitations: While homothetic preferences provide a simplified analysis model, real-world preferences are often non-homothetic. Consumers' preferences may change with income levels, leading them to buy different types or proportions of goods.

Homothetic preferences are a key concept in consumer theory and are used to model consumer behavior in various economic analyses, particularly in understanding how consumption patterns change with income."


Treta!!! Na realidade, os padrões de consumo mudam com a riqueza económica. Isto significa que as preferências não são realmente homotéticas. As alterações relativas nos preços afectam as pessoas de forma diferente, mesmo que todas enfrentem o mesmo conjunto de preços.

Primeiro, o que é a abordagem por processos?

Primeiro, o que é a abordagem por processos?

A abordagem por processos consiste em olhar para uma organização como sendo constituída por um conjunto de processos que interagem uns com os outros, porque essa é a forma mais eficaz e eficiente de atingir resultados desejados. Enquanto a abordagem tradicional é a de ver uma organização como um conjunto de departamentos.

Resultados consistentes e previsíveis podem ser mais eficaz e eficientemente atingidos quando as atividades são compreendidas e geridas como processos inter-relacionados que funcionam como um sistema coerente sintonizado num propósito comum.

A reengenharia dos processos nos anos 80 e 90 contribuiu para a popularização da abordagem por processos, que foi depois formalizada nos sistemas de gestão da qualidade pela versão de 2000 da ISO 9001.

Adoptar a abordagem por processos promove uma alteração na forma como se vêem as actividades numa organização. Michael Hammer escreveu:

"First, processes are teleological (from the Greek word telos, meaning "goal' or mission"). That is, they focus on the outcome of work rather than on work as an end in itself. In an organization that pays attention to its processes, everyone in the company understands the why as well as the what of their work. How people are trained and how performance is measured must reinforce the outcome orientation of processes.

Second, processes are customer-focused. Thinking in terms of processes compels a business to see itself and its work from the perspective of the customer, rather than from its own.

...Third, processes are holistic. Process thinking transcends individual activities. It concentrates instead on how activities fit together to produce the best outcome — the results that must be delivered to customers. The key goal - superior value for the customer — is achieved when an assortment of warring departments is replaced with a seamless web of collaborators working together for a unified purpose."

Adoptar a abordagem por processos permite melhorar a eficiência operacional. Quando se traduz o que se faz numa organização num conjunto de processos, facilmente se descobrem os pontos mortos, as etapas que consomem demasiado tempo, os by-pass que normalmente trazem problemas. Um processo é um conjunto de verbos, um processo é acção, um processo é fluxo, um processo é um rio com pressa de chegar à foz. Por isso, uso muitas vezes a imagem da água a jorrar de uma torneira para ilustrar o que para mim é um processo. Quando uma empresa ilustra pela primeira vez como funciona, usando a abordagem por processos, normalmente descobre com horror o lado direito da figura que se segue. Em vez de fluxo livre, temos barreiras a seguir a barreiras, constrangimentos e regras que diminuem o fluxo e levantam problemas.


Enquanto a abordagem por processos promove a satisfação dos clientes do processo e a eficiência do processo, a abordagem tradicional, departamental, promove o cumpriento dos objectivos departamentais, por vezes isoladamente do resto da empresa, levando à clássica visão dos silos. 

Uma analogia clássica para o que acontece numa organização sem a abordagem de processo é ver a organização como um conjunto de departamentos, os silos. Silos porque cada silo só contacta os outros silos através do topo. Silos porque cada silo responde a incentivos diferentes e conflituantes. Silos porque não vêem o panorama geral.

Lembro-me de exemplos de empresas onde o departamento comercial fecha vendas não lucrativas porque as vendas são boas para os bónus, mesmo que sejam não lucrativas. Ou as Compras recebem grandes bónus com as poupanças alcançadas, as famosas "savings" enquanto o resto da empresa é atormentado com problemas de qualidade, atrasos ou erros dos fornecedores, ou a Produção está tão focada no cumprimento dos objetivos de eficiência que não se preocupa com os acordos com os clientes, ou o cliente que negociou uma entrega especial, pagou extra por ela, contratou uma equipa para receber e aplicar o que vai receber, e depois a entrega não é feita porque o departamento de Logística é avaliado e premiado com base na capacidade de minimizar os custos de envio.

Com a abordagem de processo, diferentes pessoas de diferentes departamentos trabalham juntas e coordenam-se para alcançar objectivos comuns.


Há tempos estava numa carruagem de comboio e não pude deixar de ouvir a conversa de duas pessoas que trabalhavam numa empresa de serviços ligada ao mundo da criação artística para o marketing de marcas. Foi impressionante a descrição das actividades que eram realizadas descoordenadmente sem a orientação da abordagem por processos, com o consequente desperdício de recursos, o tempo perdido, a insatisfação dos clientes, a insatisfação dos trabalhadores, a margem perdida, a reputação manchada.

Se desenhassem o processo, se identificassem as caixas de decisão e a frequência de decisões que emperram, que atrasam o processo, se calculassem a diferença entre o tempo de ciclo teórico e o tempo de ciclo real ficariam com os cabelos em pé. Como se trata de um serviço, algo abstracto, é mais difícil de apreender. Contudo, quando se desenha um processo ... o serviço torna-se tão concreto quanto um processo de uma empresa manufactureira.

Quando se usa a abordagem por processos é mais fácil:

  • trabalhar na determinação dos riscos e oportunidades. Olhando para um fluxograma perguntamos: O que pode correr mal? O que nos pode levar a resultados indesejados?
  • determinar as competências necessárias para o desempenho eficaz. Olhando para um fluxograma, identificamos as funções intervenientes, e olhando para cada etapa do processo podemos responder de forma clara às perguntas sobre que conhecimentos, que experiências alguém precisa de ter para realizar autónoma e correctamente uma dada tarefa, parte de uma actividade, parte do processo?
  • desenvolver acções de melhoria. Olhando para um ou mais fluxogramas dos processos que contribuem para um resultado a melhorar, podemos localizar onde, em que partes dos processos, ocorrem eventos que prejudicam o desempenho do processo. Ou seja, balizamos a área a investigar e a melhorar. 

Um dos principais problemas que vejo na aplicação da abordagem por processos passa pela deficiente determinação dos processos. E o erro mais comum é confundir processo com departamento. Assim, o que em muitas empresas se chama de processo, é na realidade a descrição de uma série de actividades desempenhadas num departamento. O exemplo clássico é um suposto processo dos Recursos Humanos que lista como se faz:

  • a admissão de novos trabalhadores:
  • a avaliação do desempenho dos trabalhadores;
  • a formação dos trabalhadores;
  • as promoções;
  • o pagamento de salários;
  • a marcação de férias;
  • os processos disciplinares;
  • faltas e assiduidade;
  • demissões;
  • legislação laboral;
  • despedimentos;
  • ...
Qual a relação entre o pagamento de salários e a formação, ou os processos disciplinares?

Por isso, uma das minhas regras é fugir de atribuir nomes aos processos que se relacionem com os nomes de departamentos.

Continua.

terça-feira, fevereiro 20, 2024

A troika fez maravilhas

Só entre 2014 e 2022 o número de hóteis em Lisboa terá crescido 50% e o número de quartos 70%.

Em 2007, no tempo em que o "dono disto tudo" reinava, talvez no auge do seu poder, tinhamos isto "Big Man economy em todo o seus esplendor".

Entretanto li algures:

"Os hoteleiros deram conta de aumentos no preço médio por quarto em todas as regiões de Portugal em 2023, com o preço médio nacional a situar-se nos 141 euros - um aumento de 18% face a 2022.

 Os dados resultam de um estudo conduzido pelo gabinete de estudos e estatísticas da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), que inquiriu 476 estabelecimentos hoteleiros entre 2 e 21 de janeiro de 2024.

O maior aumento no preço médio por quarto verificou-se no Alentejo, que em 2023 situou este índice nos 159 euros, numa subida de 29% face a 2022. Também em Lisboa o preço médio por quarto fixou-se nos 159 euros em 2023, contudo, a subida em relação ao ano anterior foi de 4%.

Na lista de maiores subidas do preço médio segue-se a Região Autónoma dos Açores, que ao colocar este indicador a 135 euros verificou uma subida de 25% face aos valores de 2022. Destaque também para a região Norte, cujo preço médio aumentou 21% em 2023 face a 2022, para 132 euros, e para a região Centro, cujo preço médio de 100 euros significou um aumento de 20% deste indicador em relação a 2022."

30 de julho de 2014 devia ser feriado nacional.

segunda-feira, fevereiro 19, 2024

Precaução e optimismo (parte II)

Na parte I sublinhamos, acerca do aumento do preço médio do calçado português:

""Em 2023, o preço médio de venda nos mercados internacionais ascendeu a 27,70 euros (+3,45%), continuando a ser o segundo mais caro do mundo. Um aumento que, reconhece ao ECO o porta-voz da associação do setor (APICCAPS), Paulo Gonçalves, é "insuficiente face ao impacto da atualização do salário mínimo nacional e mesmo do aumento das matérias-primas", o que obriga a "acelerar a migração dos produtos para segmentos de maior valor acrescentado"."

Entretanto li "Custo do trabalho aumentou 5,3% em 2023":

"O Índice do Custo de Trabalho (ICT) aumentou 5,3% em 2023 face ao ano anterior, uma aceleração face aos 3,2% em 2022, anunciou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).

...

Já o custo médio por trabalhador aumentou 7,1% em 2023 (4,4% em 2022) e o número de horas efetivamente trabalhadas por trabalhador subiu 1,8% (1,2% em 2022).

Em termos de atividade económica, o custo do trabalho na indústria subiu 5,6%, na construção 5,7% e nos serviços 5,3%, contra 5,5%, 5,8% e 4,3%, respetivamente, em 2022."

Se calhar errei nos cálculos que fiz para chegar aos 14%, se calhar é muito mais do que isso. 

Há ainda que acrescentar:

"Os custos não salariais registaram aumentos entre 6,1% nos serviços e 11,4% na construção."


Isto ilustra aquele quadrante do empobrecimento que costumo referir aqui. Considerem o aumento de custos desde 2015, sobretudo nos últimos 3 anos, e as exportações estagnadas, as vendas estagnadas. Umas empresas fecham, outras encolhem, outras empobrecem, outras conseguem bons resultados porque trabalham para nichos e outras passam a pôr etiquetas made in Portugal para algo basicamente feito fora da Europa.

domingo, fevereiro 18, 2024

Curiosidade do dia

A qualidade do jornalismo made in Media Capital.


Dos 'pellets' aos indultos catalães: PP arrisca perder maioria absoluta na Galiza de Feijóo 


Partido Popular em risco de perder maioria absoluta na Galiza

Evolução das exportações entre 2022 e 2023

 Cá está a minha comparação para as exportações entre 2022 e 2023 para os sectores que acompanho há anos.


Sectores tradicionais a passarem um mau bocado.

BTW, comparar o progresso nos últimos 8 anos:
Foi uma surpresa o resultado do calçado!

sábado, fevereiro 17, 2024

Um jornal de negócios

Na passada quarta-feira, na última página do JdN, na coluna "Elevador" no fundo da coluna com carácter negativo aparecia Filipe Silva CEO da Galp:

"A Galp fechou a refinaria de Matosinhos, inaugurou centrais solares e prevê um investimento gigante em lítio, hidrogénio verde e biocombustíveis. Mas a sede por mais petróleo é insaciável. Em 2021, a empresa anunciou o fim da prospeção de novos campos de petróleoe gás em 2022. Resultado? Após um lucro recorde de mil milhões em 2023 e de ter encontrado petróleo na Namíbia, o CEO da Galp admite explorar mais poços na região."

Ontem no Caderno de Economia do Expresso, no topo de uma espécie de "Elevador" chamada "Altos", com conotação positiva aparecia ... Filipe Silva CEO da Galp:

"2023 foi um ano recorde para a Galp a nível de lucros - foram €1002 milhões, mais 14% do que em 2022. E a carteira de ativos e projetos construídos ao longo das últimas duas décadas traz-lhe boas perspetivas, tal como a importante notícia, conhecida no início do ano, de que o consórcio que lidera encontrou petróleo ao largo da Namíbia."

Go figure...

Recordo:

Pelos vistos parece que os jornalistas do JdN andam todos de carro eléctrico ou de transportes públicos.

Acho que não era só a Mariana, mas também o JdN:

sexta-feira, fevereiro 16, 2024

Precaução e optimismo

Na sequência de Outra coisa que me faz espécie e do Recordo o eu consultor versus o eu cidadão encontro um artigo do ECO, "Fábricas portuguesas perdem dez milhões de pares de sapatos.

Uma nota de precaução e uma nota de optimismo.

Vamos primeiro à precaução:
"Em 2023, o preço médio de venda nos mercados internacionais ascendeu a 27,70 euros (+3,45%), continuando a ser o segundo mais caro do mundo. Um aumento que, reconhece ao ECO o porta-voz da associação do setor (APICCAPS), Paulo Gonçalves, é "insuficiente face ao impacto da atualização do salário mínimo nacional e mesmo do aumento das matérias-primas", o que obriga a "acelerar a migração dos produtos para segmentos de maior valor acrescentado"."

Quando aqui referi o encerramento da Discoteca Amália por causa do aumento da renda era como uma ilustração do sublinhado acima. Recordar os 14% que referi há dias em Outra coisa que me faz espécie. É a isto que chamo empobrecimento por erosão, ser competitivo sem aumentar a produtividade.

Vamos à nota de optimismo. 

Isto anda tudo ligado... o final da frase citada acima:

"o que obriga a "acelerar a migração dos produtos para segmentos de maior valor acrescentado""

Sinal de que o sector continua focado no essencial. Só aqui, a mensagem aparece 5 vezes.

Outra citação:

"No último ano, enquanto as exportações de calçado encolheram 8,2%, as vendas no exterior de artigos de pele e marroquinaria cresceram 14%, para 310 milhões de euros, e nos componentes aumentaram 12,3%, para 73 milhões de euros. Valores e competências que estão a levar a associação a reforçar lógica de fileira e a encarar estes dois segmentos como "estratégicos" na afirmação da indústria nacional de calçado."

Items que teoricamente podem libertar um maior valor acrescentado bruto por trabalhador. Talvez por isso no último número de Facts & Numbers, de 2023, já se tenham acrescentado números das unidades de componentes e artigos de pele:



quinta-feira, fevereiro 15, 2024

"Niching up"

"And it gives us the foundation to kindly recommend alternatives to people who aren't in our group. Instead of hustling for more, we're focusing for better."

Este trecho final de "Niching up" de Seth Godin é muito interessante. Seria tão bom que mais empresas o percebessem e não procurassem ser tudo para todos, perdendo o poder da diferenciação.

Seth Godin desafia o conceito tradicional de “niching down”, que envolve estreitar o foco de um projecto para atrair um segmento de mercado específico. Em vez disso, propõe o conceito de “niching up”, que enfatiza o foco num público menor e mais específico para melhorar a qualidade e o impacte do projecto.

O autor sugere identificar o menor grupo de pessoas necessário para sustentar um projecto. Isso envolve entender o que esse grupo específico tem em comum, seus desejos e o que sentiriam falta se o projecto deixasse de existir. Ao atingir esse público específico, o projeto pode ser mais personalizado e significativo. Ao focar num público menor, há uma responsabilidade maior no projecto para atender às necessidades e expectativas específicas deste grupo. Esta abordagem focada provavelmente terá um impacte mais significativo, pois atende às necessidades específicas do público escolhido.

Recordar que isto se encaixa no que publicamos ontem em Outra coisa que me faz espécie, empresas mais pequenas, trabalhando para nichos conseguem libertar mais valor acrescentado.

Recordar o que temos escrito sobre o "anichar" nos últimos anos - Niching down. Seth Godin também escreveu para mim.

quarta-feira, fevereiro 14, 2024

Outra coisa que me faz espécie





Alguém diz ao filho com 5 anos?

- A actuação do vosso ano na Festa de Natal do jardim-escola foi uma valente porcaria!

"Enquanto não formos capazes de aumentar o salário bruto médio em Portugal, é difícil conseguir reter quer estudantes quer outros trabalhadores, que começam a comparar e facilmente vão para fora.
...
Temos também de ter maior produtividade. Além disso, claramente é preciso apostar na formação dos gestores e dos líderes das empresas portuguesas
...
Temos muitos gestores que não têm noções de gestão financeira. Falo da gestão financeira, mas podia falar de sustentabilidade, digitalização ou inteligência artificial. São áreas em que temos de desenvolver os nossos gestores para que as empresas tenham maior capacidade de geração de riqueza.
...
Se eu gostava que o país tivesse um salário mínimo de mil euros? Sim. Era bom para a retenção de talentos. Mas será que é possível? Acho que não. O nosso tecido empresarial é caracterizado por pequenas e médias empresas. Não temos um tecido empresarial de grandes empresas, como têm vários países europeus. Com o que temos, com um nível de produtividade relativamente baixo face à média europeia, como é que as empresas vão conseguir aumentar em três ou quatro anos o salário mínimo para mil euros? Não vejo como.
...
As empresas vão ter problemas, porque a componente de gastos com pessoal vai aumentar, o que reduz as margens. Isto liga-se com um tema fundamental que é o facto de as empresas portuguesas terem um nível de endividamento muito acima da média europeia. Em momentos de taxas de juro mais elevadas — como estamos a viver hoje –, grande parte do dinheiro que as empresas geram na sua atividade é usado para pagar os juros aos bancos. E isso faz com que não tenham capacidade para aumentar salários. Não podemos achar que vamos ter taxas negativas como tivemos. O problema do endividamento é importante. Se não tivermos mecanismos de financiamento alternativos, como o capital de risco, não vejo muitas empresas a terem capacidade de aumentarem os salários para esses níveis."

Escolham uma empresa de um sector tradicional aí com cerca de 75 trabalhadores, olhem para as suas contas e façam um exercício:

  • Mantendo o mesmo número de trabalhadores;
  • Mantendo o mesmo número de unidades de venda (produto ou serviço);
  • Assumindo que os preços das matérias-primas e energia se mantêm;
  • Quanto teria de aumentar o preço médio de venda para manter o mesmo nível de rentabilidade da empresa e pagar um salário mínimo de mil euros?
Num exemplo que eu fiz os preços médios teriam de aumentar cerca de 14%. Quantas empresas o conseguirão fazer num mercado competitivo? 

Querem-no fazer através da redução de custos? Um aviso, estudem primeiro os números de Marn e Rosiello

Querem-no fazer através de poesia académica? Um aviso, cuidado com os números, não se fiquem pelas acções, pensem nas fotografias do antes e do depois.

Alguns frequentadores mais antigos deste blogue podem contrapor e recordar o aumento do preço médio do calçado entre a primeira e a segunda década deste século. Sim, mas não foi a vender o mesmo e foi em empresas bem mais pequenas.

O sector tradicional continuará a existir, não poderá é ter a mesma dimensão e peso do passado. Lembram-se de um sketch do Herman José sobre o que é que Portugal exportava? Ele repetia em loop "calçado, têxteis, cortiça,  calçado, têxteis, cortiça,  ..." 

O que me faz espécie é a incapacidade dos académicos dizerem o que aprendi com Maliranta, com Taleb e com Reinert que destilei neste postal The "flying geese" model, ou deixem as empresas morrer!!!

Compreendo que os académicos queiram vender formação para empresários, acredito que eles ganharão com isso e poderão melhorar o desempenho das suas empresas, mas não resolverá o problema de produtividade do país. Recordo o eu consultor versus o eu cidadão.

terça-feira, fevereiro 13, 2024

"Mais vale ser rico e com saúde do que pobre e doentio"

 Mais um excelente artigo de Roger Martin sobre um tema que já não é novo nele e que deu origem ao meu:

"Mais vale ser rico e com saúde do que pobre e doentio"

Recordar:

"I realized that the single list contained two very different kinds of items. And the distinction revolves around the question that I have written about before: Is the opposite of your choice stupid on its face?

For some on the list, the answer is yes: the opposite is stupid on its face. For example, one item on the list was ‘suitability,’ i.e., the IT solutions need to aim for suitability for the internal users it served. Nobody strives for unsuitability in their IT solutions. That would be stupid.

For some, the answer is no: the opposite is not stupid on its face. And that is demonstrable because other players in the industry make the opposite choice and it doesn’t prevent them from succeeding. For example, another item on the list was ‘modularity.’ Many other players attempt to achieve their desired IT outcomes with systems that are more integrated and not modular at all.

I realized that I could go down the list of items and pretty quickly categorize them as yes-the-opposite-is-stupid or no-the-opposite-is-not-stupid.

So What?

The latter meet my definition of a Strategic Choice. Since the opposite isn’t stupid, it represents a real choice to do something meaningfully different than some or all competitors/peers. The former don’t meet the definition. Does that mean they are unimportant and shouldn’t be mentioned in a strategy document? No. This is what I have come to call an Operating Imperative. Because it is smart and there is no other obvious approach, we will fall behind if we don’t do the positive thing that everybody else is doing.

We make Strategic Choices when we want to gain an advantage over our competitors. That doesn’t happen when we do the same things as competitors. We follow Operating Imperatives when we want to avoid falling behind competitors on a meaningful dimension.

The two require very different thinking approaches.

With respect to Operating Imperatives, this is the domain in which you should be doing rigorous benchmarking to determine best demonstrated practices.

With respect to Strategic Choices, this is indeed where Benchmarking is for Losers, as I have written about before in this series. This is the domain in which you need to focus your bold choice-making. This is where you need to make sure that the opposite of your choice is what your competitors are doing. This is where you are going to get zero help from those who spend their lives figuring out what your competitors are doing and telling you to do the best version of that. In fact, zero is the best you can expect. They are actually most likely to convince you to replicate your best competitor, which is a recipe for losing. These unique choices are going to be the source of your competitive advantage."

Trechos retirados de "Is or Is Not The Opposite Stupid on its Face?

segunda-feira, fevereiro 12, 2024

"Tactical sourcing lever continuum"

Na linha do que aprendi há quase 20 anos em:

"Purchasing managers can use our findings to critically review their current purchasing approach and practices towards their suppliers. While purchasing portfolios are the number one tool for purchasers to differentiate purchasing approaches because they are easy to use, they also stem from an era where purchasing mainly focused on cost savings. Furthermore, they over-simplify the choices for managers by identifying norm sourcing levers to be used within each of the four quadrants. Our findings suggest that it is important for managers to be aware that each sourcing lever can have different applications for different objectives. Hence, we suggest managers to use the objective of a purchase to determine the suitability of a tactical sourcing levers for a given purchase, and adapt its use accordingly. Simultaneously, these new insights can be useful in the instruction and training of purchasers. Awareness and training of more advanced purchasing tactics beyond cost savings alone may establish a stronger position of the purchaser in 
its relationships."
No abstract:
"This study investigates how buying firms differentiate their relationship practices based on the objective of a purchase. Although previous research shows that purchasing objectives strongly influence how buyers organize their relationships, it remains unclear how so-called tactical sourcing levers are used to support an objective. We draw on a mixed-method case study design consisting of a scenario-based survey study and semi-structured interviews. Our quantitative findings show that while transactional levers are commonly applied across purchasing objectives, they are not necessarily the most important for the different objectives. In fact, our qualitative findings reveal that sourcing levers are not either transactional or relational, but exist on a continuum where each lever can be used in different ways depending on the objective of the purchase. As such, our study provides a novel view on more traditional purchasing classifications such as the one on purchasing levers. Consequently, our findings suggest that existing purchasing tools need to be revised in line with today's value creation approach of purchasing."

Trechos retirados de "In pursuit of value: The objective of a purchase as guide for a relationship" publicado por Industrial Marketing Management 117 (2024) 467-480.

domingo, fevereiro 11, 2024

Coisas que me fazem espécie

Encontrei um artigo com este título, "Indústria de madeira e mobiliário tem falta de mão de obra qualificada". Vejamos algumas citações:

"Vida Económica - Qual a atual situação geral do mercado da madeira e do mobiliário?

Vitor Poças - A evolução do mercado da madeira e mobiliário tem sido muito positiva, sobretudo no que diz respeito ao volume de exportações do setor que, nos últimos 12 anos, apresentou um crescimento verdadeiramente notável, passando de 1,5 mil milhões em 2010 para mais de três mil milhões em 2022. Num panorama mais recente, ainda só temos dados oficiais até novembro de 2023, o setor apresenta um crescimento global das suas exportações de 4,6% em comparação com o mesmo período do ano anterior, sendo que esperamos alcançar um record histórico de 3170 milhões de euros no final do ano. ...

VE - Quais os principais problemas que se colocam às empresas do setor?

VP - O setor tem desafios, alguns deles específicos do setor da madeira e mobiliário e/ou dos seus sub-setores, muito concretamente no que diz respeito à escassez de matéria-prima de origem nacional e de mão de obra qualificada, bem como dos custos de contexto para um setor industrial que, do nosso ponto de vista, o país teima em não acarinhar transversalmente, como a carga fiscal desproporcional sobre os rendimentos de quem trabalha, problemas de licenciamento industrial, burocracias, ineficiência de funcionamento do Estado em razão de celeridade de processos, desmotivação das pessoas, escassez de meios e ausência de proximidade para resolução de problemas concretos das pessoas e das empresas que poderiam catapultar o crescimento económico. 

...

VE - As empresas estão a fazer um esforço no sentido da internacionalização?

VP - Sim, sem dúvida. Portugal é um mercado de pequena dimensão pelo que o crescimento das empresas passa pelo aumento das exportações, ... Por outro lado, normalmente a exportação e a internacionalização permitem às empresas uma maior rentabilidade associada a uma maior valorização do produto, pelo que esta estratégia é seguida e constitui uma aposta das empresas nacionais e do setor.

...

VE - Tem havido problemas no fornecimento das matérias-primas?

VP - Sim, a questão da matéria-prima é crítica e penaliza a competitividade das nossas empresas. Portugal teima em não promover a exploração profissional da nossa floresta, fazendo uma gestão quase ruinosa da mesma e isso, obviamente, obriga à importação de enormes quantidades de matérias-primas, com todos os custos de transporte e de logística implícitos, e isso sem dúvida que afeta toda a fileira."

Portanto, primeiro:

  • crescimento significativo das exportações
  • a internacionalização é vista como uma forma de aumentar a rentabilidade e a valorização dos produtos
Seria interessante saber qual o aumento médio do preço de venda, e qual o aumento da rentabilidade média.

Segundo:
  • há uma crítica à gestão da floresta em Portugal, que é considerada quase ruinosa, levando à necessidade de importar grandes quantidades de matérias-primas. Isso implica custos adicionais de transporte e logística, afectando a competitividade das empresas portuguesas no setor.
Este trecho faz-me espécie, "Portugal teima em não promover a exploração profissional da nossa floresta,".

Portugal? Quem é Portugal? Típico de quem tem o locus de controlo no exterior. Quem tem mais a lucrar com uma boa gestão da floresta portuguesa? As empresas que fazem parte da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP). Assim, a AIMMP é que devia tudo fazer para que os proprietários vissem como uma boa opção evoluir para uma exploração profissional das suas propriedades florestais.

Terceiro:
  • escassez de mão-de-obra qualificada
Então, tanto sucesso a exportar e a aumentar a rentabilidade e os preços e não se consegue seduzir mão-de-obra qualificada, por que será?

A minha resposta é; não há falta de mão-de-obra qualificada, há sim incapacidade de pagar salários suficientemente atractivos. Por causa da carga fiscal e por causa do valor acrescentado que o sector consegue gerar. Não digo que seja o caso aqui, mas recordo que é possível ser competitivo, aumentar as exportações e ir empobrecendo. Recordar também Explicar o mais importante.


sábado, fevereiro 10, 2024

Mais um retrato do Reino do Absurdo

Mais um retrato do Reino do Absurdo:

""O Chega propõe um aumento faseado do salário mínimo que possa chegar em 2026 ao valor de mil euros, mas com uma condição, com a criação de um fundo de apoio às empresas que tenham custos fixos operacionais superiores a 30% para apoiar ao pagamento deste salário mínimo", afirmou esta quinta-feira o presidente do partido."

Como não recuar à primeira década deste século, a 2009, "Acham isto normal? Ou a inconsistência estratégica! Ou jogar bilhador como um amador!":

"Assim, os políticos tomam as decisões que levam a isto “Novo salário mínimo impôs aumentos de 5% para operários do têxtil”

Aumentos de 5% impostos numa época de crise, com as encomendas a baixar e as empresas a fechar (já em Novembro do ano passado se escrevia isto: “Indústria têxtil já perdeu 170 milhões em 2008”

A altura pode não ser a melhor, mas ao promover e incentivar o encerramento das empresas estaremos certamente a contribuir para premiar as empresas mais bem geridas e para fechar as empresas que seguem estratégias ultrapassadas “Têxtil e vestuário: Maioria continua a "trabalhar a feitio" (no JN de ontem)

Contudo, depois, vem aquela impressão na barriga dos políticos, aquele tremer das pernas, quando percebem, só então é que percebem, as consequências das suas decisões. E, em vez de constância… começam a remendar e remendar e remendar.

Assim, no Público de ontem: ” Parlamento pede política fiscal "especial" para o sector têxtil”

Como é que querem ter estratégia se não têm coragem de assumir o lado negativo das opções que tomam?"

Mais recentemente:

sexta-feira, fevereiro 09, 2024

“Desculpe lá, desculpe lá, o que é que não funciona?”

"Generating distinct options is even more difficult when our minds settle into certain well-worn grooves. Two of those grooves are common states of mind, studied widely by researchers, that play a role in almost every decision we make. One is triggered when we think about avoiding bad things, and one is triggered when we think about pursuing good things. When we're in one state, we tend to ignore the other.

To illustrate one of these states of mind, imagine a morning that goes as follows. Your teenage son talks to you about his duties as the president of a service-minded student club. You're proud of him, but you also hope he understands the commitments he's made. In your driveway, you bump into your next-door neighbor, who mentions that a home down the street recently sold, after six months, for far less than its asking price. On the way to work, you listen to a radio program about the potential dangers of a newly emerging technology.

Then, an hour after you arrive at the office, your boss pulls you aside and tells you about a new position that has opened up. It involves leading a small team in creating and launching a new product. It's a pretty risky product concept, but your boss thinks there's solid potential. He wonders if you'd be interested—it would involve a lateral move, with fewer direct reports than you currently have but potentially more glory if everything goes well.

What's your gut reaction to the offer? You might feel a little cautious. It doesn't really sound like a promotion, and you have a responsibility to get your team through its current project. And what happens if the new product is a flop? Will you have sabotaged your career prospects? You will definitely want to consider the position carefully. Better safe than sorry.

Now imagine a different morning. Your son tells you about his aspirations for a club he joined at school; you feel parental pride that he's pursuing big goals. Your neighbor tells you about how much he loves his herb garden, which gets you thinking about some landscaping ideas for your own backyard. On the way to work, you listen to a radio program about the opportunities opened up by a newly emerging technology. An hour after you arrive at work—the same as before your boss tells you about a new position ...

Now what's your gut reaction to the position? This time, you might feel a bit more open and enthusiastic. You're being trusted to lead a new product with great potential! Nothing ventured, nothing gained.

How you react to the position, in short, depends a great deal on your mindset at the time it's offered. Psychologists have identified two contrasting mindsets that affect our motivation and our receptiveness to new opportunities: a "prevention focus," which orients us toward avoiding negative outcomes, and a "promotion focus," which orients us toward pursuing positive outcomes

In the first scenario above, you arrive at work with a prevention focus, which means that you are in a vigilant mood. You want to ensure that your son lives up to his duties. You're worried about your home losing its value. You really hope policy makers will stave off the dangers of the new technology. So when you think about the new position, your spotlight tends to highlight what could go wrong, what you could lose. Whereas in the second scenario you have a promotion focus, meaning that you are eager rather than vigilant—you're open to new ideas and new experiences."

Os mesmos eventos são percebidos de forma diferente. A principal conclusão é que o nosso estado de espírito no momento da tomada de decisão influencia grandemente a nossa reação às oportunidades e desafios. Como não recordar a comunicação social no tempo da troika e no tempo da geringonça.

Humanos perante os mesmos factos. Não, adultos perante os mesmos factos. Como será o modelo mental:


Como será o modelo mental de alguém que pergunta: “Desculpe lá, desculpe lá, o que é que não funciona?”


quinta-feira, fevereiro 08, 2024

Têm de aprender a programar

Recordo de há dias: Imagino se isto fosse dito pelo Passos, ou pelo Trump...

Recordo de Novembro de 2021: Coerência e ambiente (parte II) em especial

"Há muito que penso que os políticos começaram a falar cada vez mais do ambiente porque era algo que não lhes vinha cobrar. ... Os políticos podiam falar do ambiente à boca cheia sem recear que ainda durante a mesma legislatura alguém lhes viesse pedir contas.

Julgo que a situação pode vir a alterar-se."

No FT de hoje em "Port Talbot closure raises questions over heralded green jobs transition":

"Thousands of workers in Port Talbot will lose their jobs next month as Britain's biggest steelworks goes green - raising questions about the consequences for the labour market from the net zero transition.

Rishi Sunak promised in September that a taxpayer subsidy of €500mn for Tata Steel would "safeguard thousands of jobs" at the totemic site in south Wales. But the prime minister's pledge now rings hollow for the 2,800 employees left on the scrapheap by the Indian-owned conglomerate's decision to close the last two blast furnaces at the Port Talbot site.

Politicians from both main parties have hailed the green transition as a latter-day employment gold rush. Boris Johnson said, when prime minister, the switch to net zero would be the biggest job creator since the industrial revolution: "Everywhere you look, in every part of our United Kingdom, there will be jobs," he promised.

...

For academics, the issue is more nuanced. The clean energy transition should not, overall, be a "destroyer of jobs", according to Anna Valero, a fellow at the London School of Economics' Centre for Economic Performance.

In contrast with previous periods of rapid industrial change, including the collapse of coal mining that has left bitter memories in the Welsh valleys near Port Talbot, the shift is more likely to alter existing roles than wipe out entire industries.

Job losses will be localised, while new vacancies - retrofitting buildings, for example - are likely to be widely dispersed with higher-paid roles clustered near the capital, according to analysts. Carl Sizer, head of regions for consultancy PwC in the UK, warned the creation of new green roles brought with it a risk of regional inequality. Those advertised last year were concentrated in and around London

...

Yet, economists have said that rather than replacing the jobs lost with equivalent roles in "green" manufacturing, the goal should be to ensure people can find good jobs reasonably close to home. "No one knows what a green job is ... People just want work. They want to know how are they going to earn a decent wage," Kakkad said."

De acordo com o "Brandon":

"According to Dave Weigel of the Washington Post, Biden said, "Anybody who can go down 3,000 feet in a mine can sure as hell learn to program as well... Anybody who can throw coal into a furnace can learn how to program, for God's sake!""

quarta-feira, fevereiro 07, 2024

Por que faz sentido acompanhar o contexto

"Detecting threats [Moi ici: Aqui "threats" são o que costumo chamar aqui no blogue de "riscos"]
Let's focus on how your organization senses and responds to potential threats (although similar ideas apply to identifying potential opportunities). The first thing your organization needs is a threat-detection subsystem that highlights changes and identifies potential danger. This subsystem must perceive important patterns and distinguish between "real" signals requiring action and background noise. Otherwise, you'll either miss essential signals and underreact, or see false signals and overreact.

This critically important subsystem consists of everything your organization does to scan the external (social, regulatory, competitive) and internal (organizational) environments, recognize potential risks and raise awareness of the need to respond.
...
Many elements of effective threat detection are likely already in place in your organization. However, you should assess whether (1) each element is as effective as it needs to be in recognizing important patterns and providing feedback as rapidly as possible; (2) these inputs are being integrated and interpreted appropriately; and (3) there are no potentially dangerous gaps in your organization's overall threat-detection coverage.
Is your organization at times surprised by threats that weren't recognized - or were, but too late? 

Sometimes, the threat-detection subsystem fails because the surprise is predictable but not recognized.[Moi ici: Os rinocerontes cinzentos] This can happen when silos prevent information and insight from being integrated, or when incentive systems motivate people to do the wrong things. Many businesses fail because of predictable surprises rooted in organizational design weaknesses.
...
Finally, what happens when your organization's threat-detection subsystem does its job and identifies an emerging threat? To what extent is your business able not just to sense but proactively respond to avoid emerging problems and prevent crises? Your organization needs to have a problem prevention subsystem that acts proactively, thereby avoiding the need to respond reactively (because an issue that could have been prevented wasn't and became a crisis)."


Recordar os recentes:
Trechos retirados de "The Six Disciplines of Strategic Thinking" de Michael D. Watkins.

terça-feira, fevereiro 06, 2024

"tudo se reduz ao salário que se pode auferir"

Recorrentemente encontro este artigo na internet, inicialmente publicado em Junho de 2023:

Artigo que comentei em A evolução da produtividade (parte III).

Perguntem (estou armado em Chief Liz Danvers):
  • Por que é que a indústria do vidro na Marinha Grande está a enfrentar uma escassez de mão de obra?
  • Quais são as condições de trabalho oferecidas pela indústria do vidro na Marinha Grande?
  • Como é que a indústria do vidro na Marinha Grande se compara com outras indústrias em termos de atractividade para os trabalhadores portugueses (locais)?
  • Como é que essa situação se compara com tendências de emprego similares em outras regiões de Portugal?
  • Será que os portugueses são preguiçosos?
  • Será que os portugueses acham que trabalhar na indústria do vidro é atentatório da sua honra e bom nome?
BTW, e no resto da Europa como é? Qual a evolução da produção de vidro fabricado à mão (vidro artesanal)? Em países como a França ou a Alemanha a produção tradicional de vidro artesanal envolve profissionais que trabalham em vidrarias ou estúdios de pequena ou média dimensão.

Qual será o preço médio das peças de vidro fabricadas manualmente na Marinha Grande? Até que ponto esse preço liberta margem para pagar salários interessantes?

Confesso a minha parcialidade nestas coisas: tudo se reduz ao salário que se pode auferir. O "salário mínimo" para um português-tipo poder viver uma vida de acordo com os seus padrões pessoais cresceu muito mais, e mais depressa, do que a capacidade das indústrias tradicionais subirem preços ou aumentarem a produtividade para continuarem atractivas. Os trabalhadores mais velhos ou porque estão "instalados", ou porque são medrosos, continuam a valorizar os seus custos afundados e a permanecer agarrados a empresas que estão condenadas a empobrecê-los, porque também elas estão condenadas a empobrecer. O salário vem do preço a que os clientes estão dispostos a pagar. Os novos não estão dispostos a seguir a mesma via, são livres.

Não matem empresas, mas deixem-nas morrer!

segunda-feira, fevereiro 05, 2024

Por que motivo protestam os agricultores?

O que é que aconteceu na Europa nos últimos dois/três anos?

Um aumento generalizado de preços, um aumento do custo de vida e dos factores de produção, um aumento de exigências "woke-like" por parte da União Europeia.

Acabo de ler "Por que motivo protestam os agricultores?", o autor responde:

  • Redução dos preços agrícolas
  • Dependência de subsídios
  • Aumento das exigências regulamentares
  • Ineficiências e atrasos nos pagamentos
  • Desejo de produzir com menos burocracia
  • Necessidade de infraestruturas para aproveitamento de água
  • Combate aos oligopólios na distribuição
Quem sou eu? Um anónimo da província que acrescenta uma outra razão, muito mais profunda, fruto da aprendizagem com a leitura de "The Visionary Realism of German Economics: From the Thirty Years' War to the Cold War" de Erik S. Reinert.

Lei dos Rendimentos Decrescentes na Agricultura
Na agricultura, a Lei dos Rendimentos Decrescentes é frequentemente observada. Isso significa que adicionar mais recursos (como trabalho ou capital) a uma quantidade fixa de terra agrícola eventualmente leva a rendimentos menores. Por exemplo, continuamente adicionar mais fertilizantes ou trabalhadores a um campo não continuará a aumentar a produção de forma proporcional. E quando o aumento do custo de vida é muito rápido a realidade manifesta-se em toda a sua crueza.

domingo, fevereiro 04, 2024

Um programa político

Há tempos vi Milei num video referir que estudiosos do tema acreditam que pelo menos 30% dos israelitas escravos no Egipto optaram por continuar escravos. Cerca de 30% teve medo da liberdade, preferiu a segurança do pão entregue pelo dono. 

"Uma boa parte dos explorados prefere acomodar-se ao risco conhecido do que arriscar tudo para ser livre."

Ontem li Ex 5, 17-21


"Pois bem, viste-os, os homens "livres" — acrescenta o velho, com ar sarcástico. — Sim, isto nos custou caro — prosseguiu ele, olhando-o com severidade —, mas levamos a cabo afinal aquela obra em teu nome. Foram-nos precisos quinze séculos de rude labor para instaurar a liberdade; mas está feito, e bem feito. Não o crês? Olhas-me com doçura, sem mesmo fazer-me a honra de te indignares. Mas fica sabendo que jamais os homens se creram tão livres como agora, e, no entanto, a liberdade deles depositaram-na humildemente a nossos pés.

...

— Absolutamente! Vangloria-se de ter, ele e os seus, suprimido a liberdade, com o fito de tornar os homens felizes. "Porque é agora, pela primeira vez (fala ele, bem entendido, da Inquisição), que se pode pensar na felicidade dos homens. 

...

Vês aquelas pedras naquele deserto árido? Muda-as em pão e atrás de ti correrá a humanidade, como um rebanho dócil e reconhecido, tremendo, no entanto, no receio de que tua mão se retire e não tenham eles mais pão. "Mas tu não quiseste privar o homem da liberdade e recusaste, estimando que era ela incompatível com a obediência comprada por meio de pães.

...

Consentindo no milagre dos pães, terias acalmado a eterna inquietação da humanidade indivíduos e coletividade —, isto é: 'Diante de quem se inclinar?' Porque não há, para o homem que fica livre, preocupação mais constante e mais ardente do que procurar um ser diante do qual se inclinar.

...

'Abandonai vossos deuses, adorai os nossos, senão, ai de vós e de vossos deuses!' E assim será até o fim do mundo, mesmo quando os deuses tiverem desaparecido; prosternar-se-ão diante dos ídolos. Tu não ignoravas, tu não podias ignorar esse segredo fundamental da natureza humana e, no entanto, repeliste a única bandeira infalível que te ofereciam e que teria curvado sem contestação todos os homens diante de ti, a bandeira do pão terrestre; rejeitaste-a em nome do pão do céu e da liberdade! Vê o que fizeste em seguida, sempre em nome da liberdade! Não há, repito-te, preocupação mais aguda para o homem que encontrar o mais cedo possível um ser a quem delegar esse dom da liberdade que o infeliz traz consigo ao nascer. Mas, para dispor da liberdade dos homens, é preciso dar-lhes a paz da consciência. O pão te garantia o êxito; o homem se inclina diante de quem lhe dá, porque é uma coisa incontestável, mas, se um outro se torna senhor da consciência humana, largará ali mesmo o teu pão para seguir aquele que cativa sua consciência. Nisto tu tinhas razão, porque o segredo da existência humana consiste não somente em viver, mas ainda em encontrar um motivo de viver. Sem uma idéia nítida da finalidade da existência, prefere o homem a ela renunciar e se destruirá em vez de ficar na terra, embora cercado de montes de pão. Mas que aconteceu? Em lugar de te apoderares da liberdade humana, tu ainda a estendeste! Esqueceste-te então de que o homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem e o mal? Não há nada de mais sedutor para o homem do que o livre arbítrio, mas também nada de mais doloroso. E, em lugar de princípios sólidos que teriam tranqüilizado para sempre a consciência humana, tu escolheste noções vagas, estranhas, enigmáticas, tudo quanto ultrapassa a força dos homens e com isso agiste como se não os amasses, tu, que vieras dar tua vida por eles! Aumentaste a liberdade humana em vez de confiscá-la e assim impuseste para sempre ao ser moral os pavores dessa liberdade."

Interessante, a maioria dos partidos políticos segue o Grande Inquisidor, se lhes prometeres pão vão-te adorar, vão depositar a sua liberdade aos pés do secretário-geral de turno.

Trecho retirado de "Os irmãos Karamázov" 


sábado, fevereiro 03, 2024

Tudo ligado ao contexto

Sempre a rever o contexto (parte II)

"In business, pattern recognition is your ability to observe the CUVA domains in which your organization operates and identify what’s important. Strategic thinkers possess powerful mental models of cause-and-effect relationships in their domains of expertise, such as customer behaviour, financial trends and market conditions.

By developing your pattern-recognition abilities, you will better perceive emerging business challenges and opportunities. As a result, you will move more rapidly to prioritize and mobilize your organization to avoid value destruction by neutralizing threats, or creating value by capitalizing on opportunities, or some combination of those two outcomes.

...

If you can’t recognize threats and opportunities, you cannot prioritize and mobilize your organization to deal with them. Like most executives, you likely are steering your business through rapid changes in competition, technology and society. At the same time, you are under ever more pressure to improve performance and transform your organization. In such challenging times, you face increasing mental-processing challenges. You must be able to assess rapidly evolving situations, predict their trajectories and adapt your strategies accordingly.

That is where pattern recognition comes in so handy. Insight is power. If you can better recognize patterns in complex, fast-changing environments, you can act more rapidly and effectively than your competitors."


Trechos retirados de "The Six Disciplines of Strategic Thinking" de Michael D. Watkins.

sexta-feira, fevereiro 02, 2024

Sempre a rever o contexto (parte II)

Parte I.

Retirado da newsletter de ontem de Peter Zeihan:
"No matter how much bubble wrap and caution tape we slap onto global maritime shipping, the industry has found itself in quite a predicament.

Despite the Ukraine War, a drought impacting the Panama Canal, Houthi attacks in Yemen, widespread piracy, and mounting geopolitical tensions in the South China Sea (yes, that is a lot of disruptions), the maritime shipping system has not cracked yet. However, it is very, very, very fragile.

The main thing propping up shipping in these more problematic regions is the emergence of 'ghost fleets' with alternative insurance policies. This insurance system is untested and unreliable, and as soon as one of the dominos falls, the entirety of the shipping system will follow.

The looming threat of a shipping collapse should terrify you. In case you need a supply chain refresher, manufacturing and global shipping is more interconnected than ever...so if the global shipping system fails, we're in for a world of hurt."

Imaginem o banhista gordo (produção da Ásia) sair da banheira de um momento para o outro.


 


quinta-feira, fevereiro 01, 2024

Vintage Martin

Esta semana Roger Martin publicou "The Strategic Leverage of Where-to-Play", um texto vintage sobre estratégia.

"The other commonly held view on WTP [Moi ici: WTP significa "onde jogar", significa escolher o foco do mercado onde se actua] — that it is preordained and immutable — is mainly implicit. I don’t see executives talking explicitly about this view, but it is clear in their actions.

...

The overpowering view, whether explicitly stated or implicitly acted upon, is that our WTP is what it means to be in this industry. Anything else is unbecoming, illicit, infeasible or some such prohibition/inhibition.

...

Arguably 95% of the 100 most valuable companies in the world have a unique WTP choice — which I would argue is critical to them being on the list. [Moi ici: O trecho que se segue é delicioso. Como não recordar tantos postais aqui no blogue sobre a concorrência imperfeita, sobre as ideias de Chamberlin e dos encalhados] Economists don't like that — at all. Economists love overlapping WTP, as illustrated in the left diagram above. It gets them closer to their holy grail, 'perfect competition,' in which customers see the competitors as largely interchangeable and, because of that, can force the competitors to compete down prices to a level that results in barely sustainable profitability. Economics love, love, love that — but it sure isn't a recipe for getting into the Top 100 market value companies. [Moi ici: O objectivo da escolha da WTP é ser diferente – é destacar-se. Mesmo uma pequena diferença é boa. Quanto mais exclusivo for o WTP, melhor. A diferença entre quem vende outcomes e quem vende outputs]

...

The WTP imperative is to spread — the illustration above on the right. Any amount of spread is good. Get as far from overlap as you can with your WTP [Moi ici: Recordo tantos e tantos gestores, alguns com quem tive muito gosto em trabalhar, com muito pensamento estratégico, mas incapazes de querer ter de tudo na prateleira]

...

The gift you receive when you achieve uniqueness in your WTP is that it opens up different kinds of HTWs [Moi ici: HTW, "Como ganhar", qual a vantagem competitiva] than the industry standard. 

...

Always think of WTP as malleable and nuanced. Small shifts in WTP can open up big HTW possibilities. If you are struggling with HTW — as companies regularly do - don't pull your hair out trying to find a HTW in your current WTP. There may well not be one. Instead, start playing with your WTP — and I mean playing. 

...

It is scary because it is choiceful. It is making a real strategic choice - because the opposite isn't stupid; the opposite is the WTP that others have chosen. That is why most executives are nervous about doing it — and the vast majority just plain don't. That is why there is so much overlap out there in the WTPs of modestly performing companies.

But it is important to keep in mind that if you can't find a HTW in your current WTP, you are going to expire. Maybe it won't be today or tomorrow or this year — but eventually.

So, start playing with your WTP. Come up with three to five different WTP modifications for which you can find a HTW pairing. Then think them through and choose the one for which the most compelling case can be made!" [Moi ici: Escolher uma alternativa e experimentar a sua execução. A experimentação, quase sempre abre portas a oportunidades escondidas... recordar a effectuation e o meu querido fuçar]

Trechos retirados de "The Strategic Leverage of Where-to-Play"

quarta-feira, janeiro 31, 2024

Cheira a 2007...



Duas notas deste artigo, "ANA critica contas e projeções da Comissão Independente em relação ao novo aeroporto de Lisboa":
"A ANA considera ainda que a CTI foi "otimista" em relação à projeção de tráfego, tendo previsto 66 a 108 milhões de passageiros em 2050, quando "entidades internacionais altamente credenciadas", preveem entre 40 a 52 milhões de passageiros em 2050.
Adicionalmente, também considera "otimistas" os cronogramas de construção e contesta o entendimento da CTI de que a opção Montijo levaria seis anos a ser construída."

Entretanto no Twitter descobri outra:

Como não recordar leituras já feitas... 

"A 2005 study examined rail projects undertaken worldwide between 1969 and 1998. In more than 90% of the cases, the number of passengers projected to use the system was overestimated. Even though these passenger shortfalls were widely publicized, forecasts did not improve over those thirty years; on average, planners overestimated how many people would use the new rail projects by 106%, and the average cost overrun was 45%. As more evidence accumulated, the experts did not become more reliant on it"

  • em 2023 li "How Big Things Get Done" de Bent Flyvbjerg e Dan Gardner. Os autores escrevem sobre a "Planning fallacy" e sobre a "The commitment fallacy":

"Research documents that the planning fallacy is pervasive, but we need only look at ourselves and the people around us to know that. You expect to get downtown on a Saturday night within twenty minutes, but it takes forty minutes instead and now you're latejust like last time and the time before that. You think you'll have your toddler asleep after fifteen minutes of bedtime stories, but it takes half an hour —as usual. You're sure you will submit your term paper a few days early this time, but you end up pulling an all-nighter and make the deadline with a minute to spare —as always.

These aren't intentional miscalculations. Much of the voluminous research on the subject involves people who are not trying to win a contract, get financing for a project, or ...

For us to be so consistently wrong, we must consistently ignore experience. And we do, for various reasons. When we think of the future, the past may simply not come to mind and we may not think to dig it up because it's the present and future we are interested in. If it does surface, we may think "This time is different" and dismiss it (an option that's always available because, in a sense, every moment in life is unique).

...

Purposes and goals are not carefully considered. Alternatives are not explored. Difficulties and risks are not investigated. Solutions are not found. Instead, shallow analysis is followed by quick lock-in to a decision that sweeps aside all the other forms the project could take. "Lock-in," as scholars refer to it, is the notion that although there may be alternatives, most people and organizations behave as if they have no choice but to push on, even past the point where they put themselves at more cost or risk than they would have accepted at the start. This is followed by action. And usually, sometime after that, by trouble; for instance, in the guise of the "break-fix cycle" mentioned in chapter 1.

I call such premature lock-in the "commitment fallacy." It is a behavioral bias on a par with the other biases identified by behavioral science. 

...

One is what I call "strategic misrepresentation," the tendency to deliberately and systematically distort or misstate information for strategic purposes. If you want to win a contract or get a project approved, superficial planning is handy because it glosses over major challenges, which keeps the estimated cost and time down, which wins contracts and gets projects approved. But as certain as the law of gravity, challenges ignored during planning will eventually boomerang back as delays and cost overruns during delivery. By then the project will be too far along to turn back. Getting to that point of no return is the real goal of strategic misrepresentation. It is politics, resulting in failure by design.

...

But as projects get bigger and decisions more consequential, the influence of money and power grows. Powerful individuals and organizations make the decisions, the number of stakeholders increases, they lobby for their specific interests, and the name of the game is politics. And the balance shifts from psychology to strategic misrepresentation."