O Telegraph de ontem publicou "Kyiv embarrasses Nato as workshops roll out daily list of weapons" de onde cito:
"IN TINY workshops scattered across Ukraine, a war machine is being built at a pace that has left Nato's most powerful members standing still."
Só em Maio, o Ministério da Defesa ucraniano terá certificado 175 novos sistemas de armas, quase todos concebidos e produzidos na Ucrânia. O contraste é forte: enquanto países como a Alemanha ou os EUA aprovam poucos sistemas por ano, a Ucrânia está a certificar vários por dia.
A guerra obrigou Kiev a eliminar a burocracia, aceitar a experimentação rápida e aproximar o desenvolvimento tecnológico do campo de batalha. Drones, robots terrestres, guerra electrónica e mísseis de longo alcance são desenvolvidos com ciclos curtos de aprendizagem: se funciona, avança; se não funciona, é abandonado ou corrigido.
O ponto central é este: a Ucrânia criou um ecossistema de inovação militar descentralizado, competitivo e orientado para resultados imediatos, enquanto grande parte da Nato continua presa a processos lentos, centralizados e burocráticos.
A Nato tem mais dinheiro, mais indústria e mais capacidade técnica. Mas a Ucrânia ganhou uma vantagem diferente: ciclos curtos de aprendizagem. Aprende depressa porque experimenta depressa. Isto vale para a defesa, mas também para empresas: quando o contexto muda rapidamente, a vantagem pode estar menos no plano perfeito e mais na capacidade de testar, corrigir e avançar.
O artigo mostra que as unidades no terreno não são apenas “clientes” do sistema. São também fontes de informação, teste e adaptação. Isto é uma lição poderosa para qualquer organização: quem está perto do problema deve estar perto da solução. Separar demasiado quem decide, quem desenvolve e quem executa cria lentidão e desperdício.
Os sistemas ocidentais de procurement foram desenhados para controlar risco, garantir conformidade e evitar desperdício. Tudo isso é importante. Mas, em contextos de ameaça rápida, esse mesmo sistema pode tornar-se parte do problema. A Ucrânia mostra uma lógica diferente: aceitar algum risco controlado para ganhar velocidade, aprendizagem e capacidade operacional. A questão estratégica para a Europa é se vai esperar pela pressão extrema da guerra para mudar, ou se consegue reformar os seus sistemas antes de precisar desesperadamente deles.
É aqui que John Boyd ajuda a perceber melhor o que está em causa. O famoso OODA loop, observar, orientar, decidir, agir, não é apenas uma curiosidade de teoria militar. É uma forma de pensar a competição em ambientes instáveis. Quem fecha o ciclo mais depressa obriga o adversário a reagir a uma realidade que já mudou. A Ucrânia observa o campo de batalha quase em tempo real, orienta-se com informação vinda das unidades no terreno, decide com pouca distância entre quem sente o problema e quem pode agir, e actua antes da solução perfeita existir. Depois, volta ao princípio. Observa de novo. Corrige. Adapta. Escala. Ou abandona.
A Europa Ocidental, pelo contrário, parece, muitas vezes, presa a um anti-OODA loop. Observa através de relatórios, orienta-se através de comités, decide através de procedimentos longos e actua através de contratos concebidos para sistemas caros, pesados e demorados. Quando finalmente chega ao terreno, o problema já mudou. A Ucrânia embaraça a Nato não apenas porque fabrica drones baratos ou porque improvisa melhor. Embaraça-a porque mostra que, na guerra que está a nascer, a vantagem não pertence necessariamente a quem tem mais orçamento, mais aço ou mais PowerPoints. Pertence a quem aprende mais depressa.
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