segunda-feira, abril 27, 2026

Jogar bilhar como um amador: quando a solução de hoje cria o problema de amanhã



Há uma pergunta simples que devia estar escrita na parede de muitas salas de reunião: "E depois?"

Parece uma pergunta banal, quase infantil, mas talvez seja uma das mais importantes em gestão. Thomas Sowell conta, em Applied Economics: Thinking Beyond Stage One, que, quando era estudante em Harvard, o professor Arthur Smithies lhe perguntou que política defendia sobre determinado tema. Sowell respondeu com entusiasmo, explicando as consequências positivas que esperava. Smithies limitou-se a perguntar: "And then what will happen?" A cada nova resposta, voltava a perguntar: "E depois?" Sowell percebeu que os efeitos seguintes da política que defendia podiam ser muito menos desejáveis do que o primeiro efeito imaginado. A sua conclusão ficou célebre: grande parte do pensamento pára na primeira etapa.

É exactamente isto que, há muitos anos, tenho chamado jogar bilhar como amador. O jogador amador concentra-se tanto na próxima jogada que se esquece de prepará-la para a seguinte. Quer meter a bola agora. O profissional, pelo contrário, faz a jogada actual já a pensar onde ficará a bola na jogada seguinte. Num texto do blogue, quase a fazer 10 anos, formulei isto assim: 
"Um jogador amador de bilhar concentra-se tanto na próxima jogada que se esquece de a fazer, preparando a outra que se seguirá."

Nas empresas acontece o mesmo. Muitas decisões são tomadas para resolver o problema que está à nossa frente, ocupando o prime time da nossa banda de atenção. 

Atrasos? Compra-se software. 

Falta de vendas? Entrega-se tudo a um distribuidor forte. 

Custos altos? Automatiza-se. 

Estrutura pesada? Externaliza-se. 

Falta de tesouraria? Vai-se buscar financiamento. 

Em abstracto, nada disto está errado. O problema começa quando a organização só pergunta: "Isto resolve o problema?" e esquece-se de perguntar: "Que problema novo estamos a criar?"

Porque quase toda a solução cria uma nova vulnerabilidade. Um novo software pode melhorar a coordenação, mas também pode criar dependência do fornecedor. Um distribuidor único pode acelerar as vendas, mas também aumentar a vulnerabilidade comercial. A automatização pode reduzir custos, mas enfraquecer o conhecimento humano crítico. A externalização pode aliviar a estrutura interna, mas pode reduzir o controlo. Uma nova linha de produto pode abrir mercado, mas também dispersar o foco. Um financiamento fácil pode resolver a tesouraria, mas pode instalar complacência.

Isto não é um argumento contra a mudança. É um argumento contra a ingenuidade. Gestão madura não é escolher entre agir e não agir. É perceber o preço estratégico de cada escolha. 

No passado dia 20 o FT publicou o artigo "The annoyance economy isn't going anywhere" que ajuda a ver o outro lado do problema. A autora descreve a chamada annoyance economy, composta por subscrições difíceis de cancelar, chatbots inúteis, robocalls, taxas escondidas, processos administrativos intermináveis e experiências desenhadas para cansar o cliente. O artigo refere um relatório segundo o qual estes incómodos custam cerca de 165 mil milhões de dólares por ano só nos Estados Unidos. 

O ponto interessante, para quem gere empresas, é este: muitas destas "soluções" nasceram como optimizações. Automatizar o atendimento parecia eficiente. Criar subscrições parecia facilitar a venda recorrente. Tornar o cancelamento menos imediato parecia melhorar a retenção. Introduzir taxas adicionais parecia aumentar a receita. Tudo isto pode melhorar as métricas de curto prazo. Mas, ao mesmo tempo, compram-se frustração, desconfiança, desgaste reputacional e perda futura de clientes.

É bilhar de amador com Excel.

A empresa olha para a métrica da frente (conversão, custo, retenção, produtividade aparente) e esquece a jogada seguinte: confiança, lealdade, simplicidade, reputação, capacidade de resposta. O cliente não desaparece logo. Primeiro, irrita-se. Depois desconfia. Depois, evita. Depois fala mal. Depois muda. Quando a organização percebe, já não está a resolver um problema operacional; está a tentar recuperar uma relação deteriorada, contaminada.

O mesmo acontece nas PME. Muitas entram em dificuldade não porque decidiram mal de forma óbvia, mas porque decidiram bem apenas para o problema imediato. Resolveram a dor visível e não viram a fragilidade invisível que estavam a comprar.

Por isso, antes de qualquer decisão importante, talvez valha a pena introduzir uma pequena disciplina de bilhar profissional. Não basta perguntar: "Qual é o benefício?" É preciso perguntar também: "Que dependência estamos a criar?", "Que risco estamos a concentrar?", "Que competência estamos a perder?", "Que liberdade de manobra estamos a reduzir?", "O que acontece se o contexto piorar?", "Como poderemos recuar se isto correr mal?"

A pergunta decisiva não é apenas se isto resolve o problema. A pergunta decisiva é: "E depois?"

Porque a maioria das empresas não perde o jogo na jogada que vê. Perde-o na jogada seguinte, aquela que não preparou.


domingo, abril 26, 2026

Curiosidade do dia


De vez em quando, escrevo aqui sobre um recorte da revista The Economist, do início dos anos 90, que aborda a competição feroz no mercado interno japonês. Tenho de encontrar esse recorte; sei que o tenho algures no escritório. 

Agora até me veio à mente o título do artigo, "Don't collaborate, compete". 

Em Outubro passado escrevi Uma advertência sobre o termo "involution", a impiedosa competição interna no mercado chinês. Aliás, a estória recente de um sensor ilustra o fenómeno.

Ontem no Twitter encontrei isto:

Isto é ainda mais incrível do que os números do Japão, que já era uma economia madura. Shenzhen, uau, .... faz-me lembrar Baltimore e o carro em 1919.

BTW, com a ajuda do título do artigo, "Don't collaborate, compete", o ChatGPT diz-me que o artigo foi publicado em 9 de Junho de 1990 e teria esta tabela:

IndústriaNº estimado de concorrentes japoneses
Automóveis9
Pneus para camiões e autocarros5
Camiões11
Máquinas-ferramentas112
Semicondutores34
Auto equipment25
Computadores pessoais16
Câmaras15
Copiadoras14
Televisores15
Videogravadores10

Entretanto, outra fonte encaminhou-me para esta outra tabela:

E nós, por cá, entretidos com guerras de alecrim e de mangerona.

Investimento e estoicismo


Mão amiga mandou-me link para este postal no LinkedIn:
Uma nota inicial: não conheço a Youshoes. O que vou escrever não é sobre a Youshoes, foi motivado pelo que li no postal, nada mais.

E volto ao estoicismo. Os estóicos não evitam o risco; evitam a fragilidade. Algumas fontes atribuem a Seneca:
"Não é o infortúnio que destrói o homem, é a falta de preparação para ele."
Ou seja, o problema não é o investimento; é a estrutura que só funciona num cenário perfeito. E recordo as minhas salamandras de Estarreja.

O caso da Youshoes é interessante precisamente porque não permite uma resposta simplista.

Investir em linhas robotizadas pode ser uma excelente decisão. Pode aumentar a produtividade, reduzir defeitos, melhorar prazos, diminuir dependência de mão-de-obra escassa e permitir à empresa trabalhar para clientes mais exigentes. Nesse caso, o investimento não se limita a uma máquina nova. É uma forma de ganhar força.

Mas também pode ser uma armadilha.

Se a linha robotizada implicar custos fixos elevados, prestações financeiras relevantes, manutenção especializada, necessidade de volume mínimo permanente e dependência de clientes que não pagam mais por essa capacidade, a empresa pode trocar flexibilidade pela aparência de modernização.

E aqui está a questão central: o problema não é investir. O problema é montar uma estrutura que só funciona se tudo correr bem.

No caso da Youshoes, a pergunta não deve ser apenas:  "A robotização aumenta a eficiência?"

A pergunta mais séria é: "A robotização continua a ser sustentável se houver menos encomendas, pressão nos preços, subida do custo do dinheiro, dificuldade em contratar técnicos ou clientes a capturarem parte dos ganhos?"

Porque uma PME não morre apenas por falta de ambição. Também pode morrer por excesso de estrutura.

Há investimentos que tornam a empresa mais forte porque aumentam a capacidade real, a margem, a diferenciação, a rapidez e o poder de negociação. E há investimentos que tornam a empresa mais frágil, pois aumentam a dívida, os custos fixos e o break-even.

A diferença está no que acontece quando o terreno abana.

Se a robotização permitir à Youshoes subir na cadeia de valor, vender melhor, entregar mais depressa, reduzir desperdício e conquistar clientes que valorizam a produção europeia flexível, então pode ser um bom investimento.

Se servir apenas para produzir mais pares ao mesmo preço, para os mesmos clientes, com mais dívida e menos margem de manobra, então é modernização por fora e vulnerabilidade por dentro.

A lição para as PME é simples: crescimento bom é aquele que aumenta a liberdade estratégica. Crescimento mau é aquele que exige que o futuro seja perfeito.

Uma PME inteligente não pergunta apenas: "Quanto vou ganhar se isto correr bem?"

Também pergunta: "Quanto tempo aguento se isto correr pior do que o previsto?"

Porque há empresas que crescem e ficam mais fortes e outras que crescem e ficam mais frágeis.

À primeira vista, ambas parecem modernas. A diferença aparece quando chega a primeira curva.

sábado, abril 25, 2026

Curiosidade do dia


Ontem, o Handelsblatt, o jornal económico de referência da Alemanha, estampava na capa uma verdade incómoda: "Wachstumsbremse Kündigungsschutz - Wie das Arbeitsrecht die technologische Transformation behindert, die Deutschland so dringend braucht"

O Google Tradutor faz o serviço de tradução:
"A segurança no emprego como travão ao crescimento
Como a legislação laboral dificulta a transformação tecnológica de que a Alemanha tanto necessita" 
Acham que é montagem?
OK, podem ir aqui.

Aí, a mensagem é ainda mais forte:

Nós, em Portugal, esgotamos semanas… meses de reuniões a discutir se uma vírgula no Código do Trabalho fica antes ou depois de um "e".

Eles olham de frente para a ferida que dói. Nós fazemos teatro em torno da crosta, para não termos de a tocar.

E depois ainda queremos que nos chamem reformistas. A diferença não está na inteligência. Está na coragem de ir ao fundo da questão.

Ainda esta semana em Não vai ser fácil escrevi:
"se o futuro é o anichamento, e é, e se sabe que, ao par do anichamento, está o encolhimento das empresas," 

Enquanto uns perguntam "como é que isto limita o nosso futuro?”, nós, portugueses, perguntamos "como é que isto fica mais aceitável no presente?".

E essa diferença, subtil mas decisiva, acaba por moldar tudo o resto. 

O jogo mudou de nível. Passou de n para n+1.

E isso muda tudo.

Na Alemanha, a pergunta é simples: o que temos de fazer para jogar bem no nível n+1?

Não é confortável.

Implica mexer em regras, estruturas, hábitos.

Mas é aí que o jogo agora se joga.

Por cá, a conversa é outra.

Uns tentam defender o nível atual, o n-3, como se ainda fosse suficiente.

Outros acham mais seguro recuar para o n-4 ou n-5, onde as regras eram conhecidas. E há ainda quem, com ambição, proponha subir para o n-2, como se isso fosse progresso.

Mas não é.

Porque o jogo já não está lá.

E enquanto discutimos em que versão antiga queremos ficar, outros já estão a aprender as regras do nível seguinte.

Parvoíces de um ignorante, cínico, anónimo da província (parte II)

Parte I.

Li no JdN: "Vista Alegre com lucros de 4,7 milhões. Exporta 71% da produção". 

Uma boa ocasião para recordar a velha máxima:

Lucro é sanidade. Volume é vaidade. Recordo 2024 e "Parvoíces de um ignorante, cínico, anónimo da província"

Eu, um ignorante cínico e anónimo da província, olho para os números e fico a pensar.

As receitas subiram para 144,3 milhões de euros. As exportações já valem 71% do volume de negócios. O grés cresceu 11,4% e chegou aos 62,9 milhões de euros. Muito bem. Palmas para o volume. 

Mas depois começa a parte menos decorativa da história.

EBITDA ficou em 27,7 milhões, apenas +1%. A margem EBITDA ficou em 19,2%. O resultado líquido foi de 4,7 milhões, apenas +4% face a 2024. Ou seja: mais vendas, mais exportação, mais grés, e mesmo assim uma progressão muito modesta no resultado final. 

E eu lembro-me do que escrevi em 2024, quando a Vista Alegre vinha de um ano em que as vendas tinham caído quase 10%, mas o lucro tinha subido para 6,8 milhões, com uma aposta declarada nos produtos de marca, enquanto o grés representava quase 40% das vendas. Nessa altura, a dúvida era simples: quem subsidia quem naquela casa? 

Agora, em 2025, o grés volta a puxar pelo volume. E eu, ignorante de província, volto a fazer uma pergunta deselegante: crescer onde e para quê, se o resultado continua sem grande brilho?

Porque uma empresa pode exportar muito, facturar muito, encher apresentações com percentagens vistosas e até impressionar distraídos. Mas se, no fim, com 144,3 milhões de vendas, entrega apenas 4,7 milhões de lucro, convém não confundir movimento com qualidade, nem actividade com criação de valor. 

Em suma: a Vista Alegre teve em 2025 um ano de mais volume, mas não um ano de mais sanidade.



sexta-feira, abril 24, 2026

Curiosidade do dia

A propósito de "Patrões alertam para a iminência de uma crise económica e exigem ao Governo o controlo de preços":

"Perante este cenário, as associações empresariais e agrícolas recusam propaganda vazia e exigem, com firmeza, responsabilidade política e respostas imediatas por parte do Governo. As comunidades, as populações, os agricultores e o tecido empresarial não podem continuar a esperar."

Há qualquer coisa de profundamente português nisto: empresários a falarem como campeões do mercado até ao exacto momento em que o mercado faz uma coisa desagradável, e então correm para o Estado a pedir controlo de preçosapoios a fundo perdidogasóleo subsidiadoalívio fiscal e até programas públicos de compras conjuntas. Tudo isto, claro, em nome da livre iniciativa. 

É o velho milagre nacional: um país ao mesmo tempo salazarista nos reflexos e socialista nas exigências. Salazarista porque continua a sonhar com a autoridade paternal que põe ordem, fixa preços e disciplina a realidade. Socialista porque, perante a dificuldade, a primeira ideia nunca é competir melhor, inovar ou diferenciar; é pedir ao Governo que distribua protecção, subsidie custos e corrija o mundo por decreto. 

No fundo, não se pede um mercado. Pede-se uma espécie de quartel com tesouraria: mando firme, preços domesticados e o contribuinte de serviço à porta do armazém. Depois admiram-se de viver num país onde o capitalismo, mal apanha febre, pede logo uma cama no hospital público.

Produtividade, competitividade, salários e magia.



Neste relatório do Rabobank, a que fiz referência aqui, quando chegamos ao endereço que o divulga, encontramos logo a abrir:

Pedi ao Google Tradutor para traduzir a legenda do gráfico:
"Figura 1: Os custos salariais por hora nos Países Baixos são mais baixos do que entre países semelhantes."
Ao lado deste gráfico está um outro:
Mais um pouco de magia do Google Tradutor e:
"Figura 2: O desenvolvimento da produtividade nos Países Baixos está estagnado há catorze anos."

Os custos salariais nominais por hora nos Países Baixos são relativamente mais baixos face aos seus pares, mas isso não impediu a deterioração da sua competitividade, porque o problema central está na produtividade estagnada e até na sua contracção recente. O texto diz explicitamente que, nos Países Baixos, "é sobretudo uma produtividade em queda em 2023 e 2024" que prejudica a competitividade, ("Het is vooral een krimpende productiviteit in 2023 en 2024 die de Nederlandse concurrentiekracht parten speelt") e que o crescimento da produtividade do sector exportador está praticamente parado há catorze anos.


"uma produtividade em queda em 2023 e 2024" que prejudica a competitividade"? - Que estranho!

Isto quase que me parece o mesmo que querer relacionar preço com custo...

Como é que o Rabobank define produtividade?

No relatório, a produtividade aparece sobretudo como produtividade por hora trabalhada:  "reële productiviteit per uur" e, noutro ponto, "reële arbeidsproductiviteit per uur". Ou seja, aqui produtividade significa, na prática, valor gerado por hora de trabalho, em termos reais.

Como é que o Rabobank define competitividade?

No relatório, usa os “loonkosten per eenheid product (p.e.p.)” como medida de competitividade. E define-os assim: custos salariais nominais por hora em relação à produtividade real por hora. Além disso, insiste que esta comparação deve ser feita sobretudo para a “external sector”, isto é, a parte da economia exposta à concorrência internacional, porque é essa que, no entender do relatório, acaba por determinar o nível de prosperidade do país.

Neste relatório, a fórmula é esta: Competitividade ≈ custos laborais por unidade de produto (p.e.p.) = custos salariais nominais por hora / produtividade real por hora.

Ao chegar aqui... percebe-se o mundo "Muggle".

A fórmula usada pelo Rabobank é: custos salariais nominais por hora / produtividade real por hora. Isto é uma boa aproximação da competitividade baseada nos custos laborais por unidade produzida. Mas não mede directamente coisas como:
  • rapidez de resposta,
  • flexibilidade produtiva,
  • variedade da oferta,
  • qualidade do produto,
  • fiabilidade,
  • poder de marca,
  • poder de mercado.
A fórmula vê bem o custo por unidade; vê mal a superioridade competitiva decorrente da diferenciação.

Como é que essa fórmula lida com países em que os salários estagnam, mas surgem concorrentes de outros países com preços muito mais baixos?

Aí a limitação é ainda mais visível. A fórmula do Rabobank analisa a relação interna entre o salário por hora e a produtividade por hora. Se os salários de um país se mantêm estagnados e a produtividade também não muda muito, a fórmula pode sugerir uma posição relativamente estável. Mas isso não significa automaticamente que a posição competitiva real no mercado tenha ficado estável, porque os concorrentes externos podem ter baixado ainda mais os seus preços, por outras razões. Recordar os sensores.

Vou ter de mergulhar mais no relatório, até porque já vi uns gráficos que me parecem tratar do efeito da composição da economia sobre a produtividade agregada de um país.

Para terminar num modo irónico.

Há quem olhe para as Figuras 1 e 2 e conclua, com admirável fé mágica, que basta aumentar os salários para que a produtividade também suba. 

É a mesma escola de pensamento que imagina que, se construirmos mais garagens, aparecerão mais empreendedores lá dentro. /Recordar FCF)

No relatório, porém, o enredo é menos encantado: os custos salariais e os horários neerlandeses nem sequer são especialmente altos face aos pares, mas a competitividade piora porque a produtividade encolheu em 2023 e 2024 e está praticamente estagnada há catorze anos. 

Ou seja: o decreto pode mexer no salário; não faz nascer máquinas melhores, processos melhores, gestão melhor ou mais inovação. A produtividade continua a ter este defeito burguês: exige trabalho sério.






quinta-feira, abril 23, 2026

Curiosidade do dia

A propósito desta Curiosidade do dia sobre um futuro com ginásios para a mente, mão amiga mandou-me este artigo, "Ivy League teacher makes students use typewriters to fight against Al-written work":

"Once each semester, Grit Matthias Phelps, a German language instructor at Cornell University, introduces her students to the raw feeling of typing without online assistance.

No screens, online dictionaries, spellcheckers, or delete keys.

The exercise started in spring 2023 as Phelps grew frustrated with the reality that students were using generative Al and online translation platforms to churn out grammatically perfect assignments.

...

"This might sound bad, but I was forced to actually think about the problem on my own instead of delegating to Al or Google search," he said."

Talvez a moda pegue.

Tenho 2 máquinas em casa. 

Não confundir estabilidade aparente com solidez real


Há empresas que não caem por falta de vendas, nem por falta de trabalho, nem sequer por falta de competência técnica. Caem porque confundem tranquilidade com solidez, crescimento com força e solução com progresso.

E quando finalmente percebem a diferença, já perderam algo decisivo: os graus de liberdade, a margem de manobra.

Uma PME não vive apenas da conta de resultados. Vive também da sua capacidade de aguentar choques, corrigir trajectória, ganhar tempo, absorver erros e continuar de pé quando o contexto muda. É por isso que há decisões que parecem inteligentes no curto prazo, mas que vão cavando fragilidades por baixo do chão.

Por exemplo há:

  • relações comerciais que parecem seguras apenas porque duram há muito tempo;
  • clientes que parecem seguros porque são grandes;
  • fornecedores que parecem seguros porque sempre entregaram;
  • mercados que parecem seguros porque têm funcionado bem até agora.

No entanto, uma coisa é parecer estável. Outra é ser realmente sólido.

Uma PME pode ter uma facturação aceitável e, ao mesmo tempo, estar perigosamente exposta a um único cliente. Pode ter um fornecedor “de confiança” e, no entanto, depender quase totalmente dele. Pode achar que tem um bom negócio porque o volume cresce, quando na realidade está a perder liberdade estratégica mês após mês.

O maior risco nem sempre está no problema visível. Muitas vezes está na dependência silenciosa.

É por isso que uma gestão séria não olha apenas para o que está a correr bem. Olha também para aquilo que, se falhar, pode desorganizar tudo. Os estoicos defendiam que o teste da solidez não é a calma, e sim a turbulência. O que encaixa com a ideia de que uma empresa pode parecer estável porque:

  • tem vendas regulares,
  • um cliente grande,
  • um fornecedor habitual,
  • crédito disponível,
  • processos que “parecem funcionar”.

Mas isso pode ser apenas estabilidade aparente. A solidez real só se vê quando há:

  • atraso de pagamentos,
  • quebra de procura,
  • subida de custos,
  • falha operacional,
  • mudança de contexto.

Um estoico diria que não devemos confundir o que nos dá conforto hoje com o que nos sustenta amanhã.

Por isso, algumas perguntas úteis são:

  • Se este cliente desaparecesse, quanto tempo resistiríamos?
  • Se este fornecedor falhasse durante três semanas, o que aconteceria?
  • Se os prazos de pagamento se agravassem, onde é que isso nos apertaria primeiro?

Temos alternativas reais ou apenas conforto psicológico?

Muitas PME vivem anos com uma fragilidade escondida e chamam-lhe normalidade. Até ao dia em que descobrem que aquilo a que chamavam estabilidade era apenas ausência temporária de problemas.

Recordo: a estabilidade é uma ilusão ou Debaixo da superfície calma e pacata.



quarta-feira, abril 22, 2026

Curiosidade do dia

Mão amiga fez-me chegar este gráfico

... que mostra a evolução da produtividade em quatro países.

Depois, quando vamos ao sítio onde está a fonte do gráfico, aparece-nos logo este outro gráfico:
 

Há muita coisa a retirar deste relatório, mas começo com uma curiosidade:

Segundo o Banco Mundial, em 2024, a população com 65 anos ou mais representava cerca de 30% no Japão e cerca de 25% em Portugal; além disso, o rácio de dependência dos idosos era de 50,66% no Japão e de 39,14% em Portugal. Ou seja, o Japão tem um peso muito maior de idosos em relação a cada pessoa em idade activa.

Na figura, na coluna "Participatie", os valores de 56% para o Japão e 51% para Portugal devem ser lidos como a proporção da população total que está a trabalhar. 

Por isso, o 56% do Japão é, em certo sentido, mais impressionante do que o 51% de Portugal. Num país mais envelhecido, é normalmente mais difícil ter uma fatia tão elevada da população total empregada. 

Assim, o valor japonês sugere uma mobilização muito forte da população em idade de trabalhar e, provavelmente, também de trabalhadores mais velhos para compensar o peso demográfico do envelhecimento. 



Não vai ser fácil...

Na semana passada publiquei esta Curiosidade do dia e Sim, outra vez: "China-speed".

Julgo que este material dá para perceber o que quero dizer quando me refiro à diferença entre o "Carlos-cidadão" e o "Carlos-consultor".

Perante um desafio concreto, o Carlos-consultor pensa numa e com uma empresa em concreto. Há um desafio a ultrapassar, qual é o contexto, qual a vantagem competitiva, quem são os clientes-alvo, qual é a estratégia, que mudanças promover. Normalmente, passa por anichar, por subir na escala de valor e ... encolher no entretanto.

Neste outro postal da semana passada, Para reflexão , cito um caso concreto para ilustrar a vertigem da competição actual.

Entretanto, no Handelsblatt de ontem no artigo "Deutsche Industrie startet eine Technologieoffensive" podia ler-se (tradução do Google tradutor) algo como:

A Hannover Messe 2026 está a ser uma espécie de palco para uma tentativa de reposicionamento da indústria alemã num momento difícil. O contexto é exigente: encomendas fracas, pressão competitiva da China, custos elevados e sinais de perda de dinamismo industrial. Perante isso, muitas empresas estão a responder com uma “ofensiva tecnológica”, apostando em inteligência artificial, robótica, automação, digitalização e integração de sistemas. 

A feira surge, assim, não apenas como montra comercial, mas também como sinal da reorientação estratégica. Grupos grandes, o Mittelstand e institutos de investigação procuram mostrar que a resposta ao aperto competitivo não será simplesmente baixar os preços, mas sim aumentar a sofisticação tecnológica, a produtividade e a capacidade de integração, o tal "subir na escala de valor". 

No fundo, a mensagem central é esta: a indústria alemã sente a pressão, sabe que perdeu terreno em vários domínios, mas está a tentar defender-se e reinventar-se através de uma nova vaga de intensidade tecnológica.

OK, esta é a via do Carlos-consultor. 

Então, qual é o assunto? 


O Carlos-cidadão pensa para lá de uma empresa em particular e sabe que, se o futuro é o anichamento, e é, e se sabe que, ao par do anichamento, está o encolhimento das empresas, tal como o calçado e o têxtil mostraram na última década e meia em Portugal, como é que a sociedade vai reagir a uma vaga de despedimentos por causa do anichamento necessário, depois somam-se os despedimentos por causa da IA. Numa sociedade não-socialista a coisa resolve-se facilmente, numa sociedade para-socialista como é a UE, cheia de medo da destruição criativa, não vai ser fácil.


terça-feira, abril 21, 2026

Curiosidade do dia

Ontem ao final da tarde, durante o jogging, ouvi o 1º episódio de "How Economic Calamity Led To Thatcher's Rise | EP 1"

Fez-me recuar a algures entre 1977/78 e à Escola Comercial Oliveira Martins, e ao momento em que o meu professor de História, o padre Reinaldo, fez um comentário sobre o então descalabro económico que era a Inglaterra.

Recordei a minha primeira viagem de trabalho: foi a Inglaterra, a Manchester, a um instituto têxtil. O inglês com quem nos reunimos, depois do tema do trabalho e antes da despedida, por curiosidade, colocou-nos uma série de perguntas sobre Portugal (estávamos em 1988/89). Era um tipo alto, enxuto, já com cabelos brancos, já na fase final da sua vida profissional, com muita experiência, talvez ex-combatente na Segunda Guerra Mundial, e, quando contávamos as maravilhas económicas do PREC, ia fazendo um esforço para não falar, mas o body language dizia tudo.

Nos últimos anos tenho-me lembrado dele várias vezes; deve estar a dar voltas no túmulo com a situação de Inglaterra nos últimos anos, e se os Green ou os Reform vierem a seguir, podemos citar Reagan e dizer "You ain't seen nothing yet".

No Domingo, o The Sunday Times publicou "We have stopped behaving like a serious country. Look at our borrowing splurge":

"But even before the bombs fell, the debt markets were treating Britain as an outlier (or, if you're less kind, a pariah). Most obviously, by charging us more to borrow than others. But also in their willingness to be spooked. As the bond market expert Mohamed El-Erian wrote last week, "the UK sovereign debt market has gone from a bedrock of the economy to a temperamental asset class that overreacts at the slightest provocation, both on a standalone basis and relative to other government bond markets"

...

"For over a decade," wrote El-Erian, "the UK has failed the basic test of debt sustainability: borrowing too much while growing too little."

...

In February, the UK borrowed £14.3 billion, the highest nonpandemic total for that month since records began. As the economic commentator Liam Halligan has pointed out, £13 billion of that was to service the existing interest on our debt. We are borrowing to pay for borrowing, a story that never ends well.

...

What all of this boils down to, sadly, is that we've stopped behaving like a serious country. Our overall debt position isn't as bad as some. But our trajectory is much worse. Because instead of building up savings for a national rainy day, we run our economy on the never-never."



Quando o labour hoarding não chega para explicar (parte I)

Li com atenção a explicação avançada pelo CFP para a combinação, hoje tão discutida, de emprego robusto, salários a crescer e produtividade quase estagnada. A ideia é conhecida: perante dificuldades persistentes de recrutamento, muitas empresas preferem reter pessoas mesmo quando a actividade abranda. O texto fala, por isso, em labour hoarding, isto é, na tendência das empresas para "reterem os seus trabalhadores" e em "dificuldade em contratar pessoal qualificado" como factor que alimenta esse comportamento. 

Em muitos contextos, sobretudo quando os choques são percebidos como temporários, uma empresa pode achar mais racional suportar durante algum tempo um excesso de capacidade laboral do que correr o risco de perder pessoas e não as conseguir voltar a contratar mais tarde. O próprio CFP liga esse mecanismo à resiliência do emprego e ao fraco crescimento da produtividade aparente do trabalho. 

Mas o facto de uma explicação ser plausível não significa que seja a mais forte. E foi precisamente aí que comecei a ter dúvidas.

A minha primeira reserva é simples: o labour hoarding é uma explicação interna à empresa. Ajuda a perceber porque pode uma empresa individual manter mais trabalhadores do que o volume de actividade justificaria num dado momento. Mas o que estamos a observar pode não resultar apenas, nem sobretudo, desse comportamento. Pode resultar de algo mais profundo: uma alteração na composição da economia.

Dito de outro modo: a produtividade agregada de um país pode enfraquecer não só porque as empresas retêm pessoas "a mais", mas também porque o crescimento do emprego acontece relativamente mais em actividades de menor valor acrescentado por trabalhador do que em actividades de maior valor acrescentado. Neste caso, o problema já não é apenas conjuntural. É estrutural. Não está apenas na prudência das empresas. Está no tipo de economia que cresce.

Foi por isso que, desde o início, me pareceram decisivas três perguntas.

  • Primeira: em que sectores está a crescer mais o emprego?
  • Segunda: o valor acrescentado nesses sectores cresce ao mesmo ritmo?
  • Terceira: a produtividade está a cair dentro dos sectores, ou o problema está sobretudo na deslocação do emprego para sectores menos produtivos?

Estas perguntas importam porque distinguem duas histórias muito diferentes. Numa, temos empresas a proteger talento escasso durante uma travagem temporária. Noutra, temos uma economia que continua a criar emprego, sim, mas fá-lo sobretudo em actividades cujo contributo médio para o valor acrescentado é menor. A primeira história fala de retenção defensiva. A segunda fala de especialização económica.

Entretanto, ao olhar para o estudo da Informa D&B sobre o desempenho das empresas em Portugal, encontrei um gráfico que, a meu ver, enfraquece bastante a leitura forte do labour hoarding. Refiro-me ao gráfico da parte inferior da página 7, que cruza a evolução do volume de negócios com a evolução do número de empregados. 

Este gráfico merece ser lido com atenção.

Segundo a Informa D&B, 41% das empresas estão no quadrante da "Eficiência": aumentam o volume de negócios sem aumentarem o número de empregados. 14% estão em "Expansão": crescem simultaneamente em facturação e em emprego. 8% "mantêm-se". 31% estão em "Contracção". E apenas 6% aparecem em "Vulnerabilidade", o quadrante em que o emprego sobe sem crescimento do volume de negócios. 

Ora, se o labour hoarding fosse a explicação dominante da fotografia actual, esperaríamos ver muito mais empresas concentradas precisamente nesse espaço de vulnerabilidade: empresas a segurar ou aumentar emprego sem correspondente crescimento da actividade. Mas não é isso que o gráfico mostra. O que ele mostra, por número de empresas, é quase o oposto: o grupo mais numeroso é o das empresas que conseguem crescer sem reforçar o emprego. 

Há, aliás, um detalhe importante no próprio gráfico da página 7 da Informa D&B. As empresas colocadas no quadrante da "Expansão", isto é, as que aumentam simultaneamente a facturação e o número de empregados,  "concentram-se sobretudo nos setores da Construção e Alojamento e restauração". Este ponto merece atenção especial. Não estamos a falar, em primeira linha, de sectores geralmente associados a níveis muito elevados de produtividade por trabalhador, sofisticação tecnológica ou forte criação de valor acrescentado. Pelo contrário, estamos perante actividades que, no debate económico, surgem frequentemente associadas a produtividade relativamente baixa. Isso torna ainda mais plausível a hipótese de que uma parte relevante da fraqueza da produtividade agregada resulte não tanto de labour hoarding, mas da composição do crescimento do emprego e da actividade. 

Isto não elimina totalmente a hipótese de labour hoarding. Convém ser justo. O gráfico não mede valor acrescentado, mede volume de negócios. Também não pesa as empresas pelo número de trabalhadores, o que significa que uma minoria de empresas pode ter um peso desproporcionado no emprego total. E além disso, o gráfico mostra direcções de evolução, não intensidades. Tudo isso é verdade.

Mas, mesmo com essas cautelas, ele diz-nos alguma coisa importante: não estamos perante uma evidência clara de que o tecido empresarial português esteja, em massa, a acumular mão-de-obra para lá do que a actividade justifica. Pelo contrário, a distribuição sugere um quadro mais heterogéneo e menos favorável à tese de que o labour hoarding seja a principal chave para explicar o problema da produtividade. 

Há mais. O mesmo estudo da Informa D&B mostra que o crescimento do emprego em 2024 foi transversal, mas com contributo muito significativo da Construção e do Retalho, que em conjunto representaram mais de um terço do aumento global do emprego. Mostra também que as Indústrias, apesar de concentrarem o maior número de empregados, tiveram o menor crescimento do emprego, apenas 0,7%

Este ponto é particularmente relevante. Porque ele abre precisamente a porta à explicação que me parece mais promissora: talvez uma parte importante do problema não esteja em empresas a "guardar" trabalhadores, mas no facto de o emprego estar a crescer mais em sectores cuja produtividade média, escala, intensidade tecnológica ou capacidade de geração de valor acrescentado não puxam pela economia da mesma forma que outros sectores puxariam.

É aqui que a discussão ganha espessura. Uma economia pode parecer vibrante porque cria emprego. Pode até parecer socialmente saudável porque reduz o desemprego e aumenta os salários. Mas isso não resolve, por si só, a questão decisiva: que tipo de emprego está a ser criado, em que sectores, com que intensidade de capital, com que capacidade de aprendizagem, com que potencial de exportação e com que valor acrescentado por trabalhador?

Sem essa pergunta, a conversa sobre produtividade fica demasiado curta. E o conceito de labour hoarding corre o risco de funcionar como uma explicação confortável: suficientemente sofisticada para parecer convincente, mas talvez demasiado estreita para captar o que realmente se passa.

A minha conclusão, por isso, é prudente, mas clara.

labour hoarding pode existir. Em certos sectores e em certas empresas, provavelmente existe mesmo. Pode explicar uma parte da resiliência do emprego no curto prazo. Mas não vejo boas razões para o tomar, sem mais, como explicação principal. Quando olhamos para a composição sectorial do crescimento e, sobretudo, para o gráfico da página 7 da Informa D&B, a leitura que emerge é outra: talvez o problema esteja menos em empresas a reter trabalhadores em excesso e mais no facto de estarmos a criar emprego numa estrutura económica que não gera valor acrescentado ao mesmo ritmo.

E isso muda bastante a natureza do debate.

Porque, nesse caso, o problema não se resolve apenas com a normalização do ciclo, nem com a esperança de que as empresas “larguem” o excesso de mão-de-obra quando a incerteza passar. Resolve-se, ou não se resolve, ao nível muito mais difícil da especialização da economia, da qualidade do investimento, da sofisticação empresarial e da capacidade de deslocar recursos para actividades que criem mais valor por pessoa empregada.

No fundo, a questão não é apenas saber se Portugal está a empregar mais gente. A questão é saber onde a está a empregar, para fazer o quê, e com que capacidade de transformar esse esforço em valor económico duradouro.

O postal já está a ficar longo, tenho de escrever uma sequela para ligar à Netflix, às festas de Natal nos jardins-escola, aos mastins dos Baskerville. Sim, porque o problema não é dos presentes, não é dos trabalhadores, nem destes empresários, eles dão o melhor que podem e sabem. O problema é dos que não estão; dos que não aparecem.

segunda-feira, abril 20, 2026

Curiosidade do dia

Houve um tempo aqui no blogue em que publiquei uma série com mais de 20 episódios intitulada "Aprenda a duvidar dos media".

É precisamente quando não gostamos de alguém que devemos ter mais cuidado com o que dizemos sobre essa pessoa. O ódio tolda o rigor. E, numa pivot, isso é especialmente sério: uma coisa é informar, outra é fazer comentário travestido de jornalismo. Não é preciso defender Trump para defender a diferença entre jornalismo e militância emocional. 





Não vence apenas o maior


"Condiments are booming.
The once boring world of red sauce, brown sauce, mustard and mayo has morphed into a dazzling array of drips, drizzles, smoked srirachas and spicy chimichurris.
According to Worldpanel, which monitors the baskets of 30,000 families in the UK, sales of ketchup and mayo are flat compared with two years ago and mustard and brown sauce sales have actually fallen, but flavoured mayonnaise is up 20 per cent, and hot and sweet chilli sauces are up an amazing 39.5 per cent.
Ocado stocks an astonishing 616 different condiments, up from 430 a year ago. Many are pricey. 
...
"People are using food products in their store cupboards in the same way as their clothes or car - it's a way to express their nersonalities""

Trechos retirados do The Sunday Times de ontem em "How are we meant to pick a condiment when Ocado is selling 616?"

Os condimentos já não servem apenas para acompanhar a comida; passaram a ser uma forma de experimentar, de demonstrar gosto, de buscar novidades e até de afirmar identidade.

A fragmentação da oferta criou espaço para pequenas marcas. Um mercado antes dominado por grandes nomes tornou-se permeável a nichos, sabores étnicos, marcas artesanais e propostas com forte personalidade.

Uma PME não precisa de inventar uma nova categoria; muitas vezes, basta reinterpretar uma categoria madura com mais identidade, melhor posicionamento e uma proposta sensorial mais clara. A embalagem, a narrativa e o universo simbólico podem ser tão importantes quanto o produto. O artigo mostra que não se vende apenas sabor. Vendem-se curiosidade, pertença, descoberta, estatuto cultural e até a estética da despensa.

Mercados fragmentados favorecem quem lê cedo micro-tendências. As PME ágeis podem entrar antes das grandes empresas em novos subnichos: sabores regionais, fusões improváveis, inspiração estrangeira, formatos premium, linhas para usos específicos, etc.

Este artigo descreve um mercado que deixou de ser “Terra normal” para se aproximar de Mongo: mais estranho, mais colorido, mais tribal, mais fragmentado, menos previsível. Já não basta vender um produto correcto e genérico. É preciso perceber em que “tribo” se quer entrar, que linguagem visual se usa, que diferença real se oferece e que sinal identitário o produto permite emitir.

Dito de outra forma: o corredor dos condimentos tornou-se menos um espaço de abastecimento e mais um pequeno mapa de micro-mundos. Isto é muito Mongo. Não vence apenas o maior; vence muitas vezes quem parece vir de um planeta próprio.


domingo, abril 19, 2026

Curiosidade do dia



Há aquela cena retirada de um dos filmes da saga Star Wars:


Foi dela que me lembrei ao ler no Telegraph de ontem:
"THERE will be price caps on food.
There will be a minimum income for "artists" and "comedians", extra controls on landlords and a cap on bus fares. The Scottish National Party has unveiled its manifesto for the Scottish elections next month with a predictable list of wild spending pledges.
The trouble is, there are not even any clues as to how it will all be paid for. In reality, the Nationalists are driving the country to an economic abyss - and this time England will be too broke to bail them out.
After an attempt to move towards the centre, John Swinney, the SNP's leader, has clearly decided that only big spending promises will keep his party in power."

É assim que o declínio se instala nas democracias modernas: não apenas por imposição, mas por aclamação. Na corrida ao poder, promete-se tudo, adia-se a factura e corrói-se a base económica que sustenta a liberdade e o nível de vida. O aplauso vem primeiro. O preço vem depois. E, nessa altura, costuma ser tarde. 

Num mundo com mais IA, ...



Primeiro, uma transcrição deste podcast com Seth Godin a partir do minuto 3:
"When AI is the buyer, you’re going to lose if your business is built around answering RFPs and being the cheapest.

If you can win simply by being the cheapest, then congratulations — your job is easy. You probably do not need much marketing help. Walmart grew by offering average products at lower prices than anyone else and saying, in effect, “Come buy from us because we’re cheaper.”

But that is not why most businesses need a marketing department. You need marketing to sell things that people believe are worth it even when that value is not easily measured — things that are worth paying more for, not just the cheapest option.

When AI shows up, that becomes harder, because it is difficult to teach an AI to recognize that kind of value. So it often defaults to buying the cheapest option. And if that becomes the norm, we end up in a race to the bottom, and that is not good for anyone.

One of the key roles of storytelling is that it communicates value. It helps connect the dots. So how should a small business think about storytelling while also dealing with the challenge of adopting AI and learning how to use it without losing the human element?

Here is the key fork in the road with AI. Right now, the dominant use case is cost reduction: how can we use AI to need fewer people and spend less money? But you cannot cost-reduce your way to greatness.

That phase will soon be replaced by a better opportunity: using AI to improve what you do, to make your work more demanding perhaps, but also more valuable.

And when we want to tell a story, it begins with a simple question: who do you want to help your customers become?

Then comes the second question: what are your customers hiring you to do?

And the answer to those two questions is probably connected."

Usar a IA só para cortar custos é uma visão curta já o escrevemos aqui várias vezes. Pode ser útil, claro. Mas uma PME ganha mais quando usa a IA para aumentar, para subir na escala de valor: responder melhor ao cliente, acelerar propostas sem perder qualidade, melhorar diagnóstico de problemas, personalizar comunicação, encurtar ciclos de decisão, apoiar técnicos e comerciais, transformar conhecimento disperso em resposta útil. Ou seja, não apenas fazer o mesmo mais barato, mas fazer melhor aquilo que o cliente valoriza.

Por fim, a pergunta de Seth Godin é muito forte para qualquer PME: quem queremos ajudar os nossos clientes a tornar-se? 

Isto obriga a sair da lógica "vendemos produto/serviço X" e entrar numa lógica mais estratégica: que progresso ajudamos o cliente a fazer? E a seguir: para que trabalho é que o cliente nos contrata realmente? 

Muitas PME pensam que vendem horas, peças, relatórios ou auditorias. Na prática, o cliente pode estar a "contratá-las" para reduzir risco, ganhar confiança, evitar erros, acelerar decisões, cumprir melhor, crescer sem caos ou proteger relações com os seus próprios clientes. E isto nem sempre é confortável. Já me aconteceu pensar que estava a vender melhoria de desempenho através de um sistema de gestão, quando o cliente, na prática, só queria o papel: porque um cliente lho exigia ou porque isso lhe dava acesso à majoração de um apoio. Perceber esta diferença é essencial. Muitas vezes, não estamos a vender aquilo que julgamos estar a vender.

Num mundo com mais IA, sobreviverá melhor quem for menos comparável e mais valioso.

 


sábado, abril 18, 2026

Curiosidade do dia



Ontem almocei com o parceiro das conversas oxigenadoras e falámos sobre o uso do ChatGPT et al. A certa altura, abordámos o tema do desaparecimento do esforço para escrever um texto ou fazer uma investigação, já que o LLM entrega.

O meu parceiro disse algo interessante. Antigamente, as pessoas trabalhavam nos campos; quando nos sedentarizámos, surgiram os ginásios para exercitar o corpo. Será que, com o tempo, aparecerão ginásios para a mente para exercitar o que deixámos de fazer com os LLM?

Interessante.

Que lições para uma PME?

O The Times do passado dia 12 de Abril publicou "How Steve Jobs saved Apple from destruction".

O artigo descreve o regresso de Steve Jobs à Apple em 1997, numa altura em que a empresa estava perto da destruição: sem rumo claro, com produtos confusos, com hemorragia de talento, perdas elevadas e uma estrutura de decisão fraca. Jobs entrou num ambiente de crise profunda e, em poucos meses, tomou uma série de decisões duras e rápidas para devolver foco, disciplina e identidade à empresa.

Entre essas decisões estiveram a substituição de parte do conselho de administração, a reorganização da empresa, a criação de uma cultura interna mais directa e mais exigente, o corte drástico da gama de produtos e o lançamento da campanha “Think Different”, que ajudou a recuperar a alma e a imagem da Apple. Ao mesmo tempo, Jobs tentou travar a saída de talento e restaurar a confiança dos mercados.

"Apple was still trying to keep 15 product lines alive. "I mean, I couldn't figure out the damn product line after a few weeks," Jobs said.

Finally, in a strategy session with his top lieutenants, he jumped up, grabbed a marker pen and impulsively drew two intersecting lines on a board, forming a quadrant. Apple, he said, should make only four products: two laptops and two desktops. The room was silent. Surely this was going much too far. [Moi ici: Recordar]

The idea would mean shutting down 70 per cent of the company's projects. It would mean flushing away millions of dollars of investment [Moi ici: Os custos afundados]. But Jobs was emphatic. "If we only had four, we could put the A-team on every single one of them," he said. The cancellations upset many of Apple's people deeply."

A recuperação não começou com um grande produto novo, mas com escolhas de liderança muito claras e, quase sempre, dolorosas: simplificar, concentrar recursos, reerguer a equipa, redefinir a marca e voltar a dar coerência à empresa. O primeiro grande sinal de viragem acabou por ser algo inesperado: o regresso ao lucro.

Que lições para uma PME?

Uma PME em dificuldade tem, muitas vezes, a tentação de manter tudo vivo: demasiados produtos, demasiados clientes, demasiadas frentes, demasiadas excepções. O artigo mostra o contrário: quando os recursos são escassos, concentrá-los em poucas apostas fortes pode ser mais inteligente do que tentar salvar tudo. Às vezes, crescer começa por cortar.

Jobs não começou por uma grande invenção. Começou por clarificar quem manda, como se decide, quais são as prioridades, o que se deixa de fazer e a identidade que a empresa quer ter. Quando uma empresa está perdida, a primeira necessidade não é mais actividade; é mais clareza. Uma empresa em crise não se salva por fazer mais coisas; salva-se por escolher melhor, concentrar melhor e alinhar melhor as pessoas e os recursos.

sexta-feira, abril 17, 2026

Curiosidade do dia

 


Recordar a Lituânia… depois vêm-nos dizer que a produtividade não cresce em Portugal por causa de "labour hoarding"… go figure.



Para reflexão



Há quase 15 anos, escrevia aqui no blogue "It's not the euro, stupid! (parte I)" que começava assim:
"It's not the euro, stupid!
It was China!"

Nele, revoltava-me por todos culparem o euro quando o responsável era a China.

Ontem, recebi a newsletter diária do FT, e o primeiro texto rezava assim:

"Twenty years ago, the global economy was shaken by a "China shock" as a wave of low-cost goods destroyed the business models of manufacturers in advanced economies. Now a second shock is under way — and it is even more threatening to China's trading partners. (Free to read)".

Podem ler no link:

  1. fabricantes alemães e suíços colocavam sensor no mercado a um preço equivalente a Rmb200.
  2. chega fabricante chinês que coloca o seu sensor no mercado a Rmb100, tendo um custo de Rmb40.
  3. os fabricantes europeus começam a deixar o mercado.
  4. concorrentes chineses entram e a famosa "involution" entra em acção.
  5. o fabricante chinês inicial "now sells some sensors for as little as Rmb10 a pop".

quinta-feira, abril 16, 2026

Curiosidade do dia


Ontem, enquanto subia a correr umas rampas, comecei a ouvir este podcast, notável. Ainda vou a meio e há tantos temas e são abordados de forma invulgar. A certa altura é-nos colocada a questão:

- Qual é o problema dos pais escolherem o sexo e o perfil genético do filho?

Os participantes no podcast responderam: nenhum.

Eu comecei a pensar: e se todos os pais o fizerem? 

Desequilíbrios demográficos? Pressões sociais e culturais? Novas formas de desigualdade?

E depois a mente derivou para a economia.

Sou liberal em termos económicos. Continuo a acreditar que a liberdade económica, a concorrência, a iniciativa privada e a responsabilidade individual são, em regra, superiores à direcção burocrática da economia.

Mas há uma pergunta que me parece cada vez mais difícil de evitar: e se a soma de decisões economicamente racionais estiver a produzir resultados colectivamente destrutivos?

Uma empresa compra na China porque é mais barato. Faz sentido.
Duas também.
Milhares fazem o mesmo durante vinte anos e o resultado pode ser outro: perda de produção, perda de competência industrial, dependência externa, fragilidade estratégica. O que era racional à escala da empresa pode tornar-se ruinoso à escala da sociedade.

Este é um ponto incómodo para quem, como eu, valoriza o liberalismo económico. Porque o mercado coordena escolhas, mas não contém, em si, um princípio de temperança. Não tem um travão interno que diga: até aqui, sim; para além disto, começamos a destruir condições que depois não conseguimos reconstruir facilmente. 

O problema não é apenas industrial. É mais fundo. Há escolhas que parecem legítimas e inofensivas enquanto são excepcionais, mas que se tornam perigosas quando passam a ser a regra geral. O que um faz sem grande efeito, se todos fizerem, pode alterar profundamente o equilíbrio do conjunto.

É aqui que o liberalismo económico, tal como é frequentemente entendido hoje, revela uma fragilidade séria. Parte-se, demasiadas vezes, do princípio de que a soma dos interesses individuais, regida por regras gerais, produzirá uma ordem aceitável. Muitas vezes produz. Mas nem sempre. Sobretudo quando há externalidades pesadas, perda de capacidades estratégicas, ou dinâmicas em que o ganho privado imediato se transforma em erosão colectiva acumulada.

Falta-nos uma linguagem de contenção. Tudo no sistema empurra para mais: mais eficiência, mais arbitragem, mais escolha, mais optimização, mais velocidade. Quase nada educa para a prudência. Quase nada pergunta se aquilo que é vantajoso para cada agente, quando considerado isoladamente, continua a ser defensável quando se transforma em padrão social.

O mercado é uma ferramenta extraordinária. Mas não é uma filosofia moral completa. Não sabe, por si só, distinguir entre eficiência e sabedoria. Não sabe proteger automaticamente a base industrial de uma civilização, a sua coesão social ou os limites que impedem que a liberdade de uns destrua as condições de liberdade de todos.

Por isso, a questão não é abandonar o liberalismo económico. A questão é reconhecer que ele depende de algo que não consegue produzir por si: a temperança.

Sem temperança, a liberdade económica degrada-se em automatismo.
Sem temperança, o curto prazo corrói o longo prazo.
Sem temperança, o mercado pode acabar por destruir precisamente aquilo que o torna possível.

Talvez um dos grandes desafios do nosso tempo seja este: como preservar a energia criativa do liberalismo económico sem deixar que ela se transforme numa força cega, incapaz de reconhecer limites.

Porque uma sociedade não implode apenas por falta de liberdade.
Também pode implodir por falta de contenção.

Não tenho resposta, só perguntas e dúvidas.

Sim, outra vez: "China-speed"


Recuemos a 2010 e à minha leitura de "Crisis in the 21st Century Garment Industry and Breakthrough Unified Strategies" de David Birnbaum.
"In the 21st century industry, all successful strategies rely on speed-to-market."

Pois bem, recentemente escrevemos aqui sobre a "China-speed":

O tema da "China-speed" tem sido muito discutido em 2025-2026, especialmente no sector automóvel (ex.: o desenvolvimento de veículos eléctricos e baterias na China é muito mais rápido do que na Europa ou nos EUA). Os jornais alemães (Handelsblatt, Frankfurter Allgemeine) e americanos (WSJ, Bloomberg) usam o termo para descrever a capacidade chinesa de: desenvolver e industrializar tecnologia a uma velocidade impressionante; iterar rapidamente com base em dados reais de mercado; e combinar escala, apoio estatal e ambição tecnológica.

Em Novembro passado publiquei aqui "Trepar às árvores com muita rapidez" sobre o impressionante crescimento da biotecnologia chinesa.

Agora, no WSJ do passado dia 11 de Abril publicou "Big Pharma Turns to China for Drug Ideas". Juro, ainda esta semana, alguém com quem falei ainda tinha, no seu modelo mental, a ideia de que os chineses vão às feiras e copiam tudo. 

O artigo mostra que a China deixou de ser apenas uma base de apoio ou de custo mais baixo para a indústria farmacêutica e passou a ser uma fonte relevante de inovação biotecnológica. Grandes farmacêuticas ocidentais e japonesas estão a pagar milhares de milhões de dólares para obter direitos sobre moléculas e candidatos a medicamentos desenvolvidos por biotecnológicas chinesas, sobretudo em áreas como o cancro, a obesidade e as terapias avançadas.

A ideia central é esta: a China já não compete apenas na fabricação ou no apoio ao desenvolvimento. Está a competir na origem das próprias ideias, das moléculas e das plataformas terapêuticas. E está a fazê-lo com uma combinação de investimento estatal de longo prazo, talento científico, regulação mais rápida, ecossistemas urbanos densos e uma capacidade de aprender depressa com a ciência publicada no Ocidente.

Antes era o sector automóvel (NEVs, baterias, software de condução autónoma). Agora, a mesma narrativa aplica-se à descoberta de novos medicamentos: a China é mais rápida a identificar alvos, a avançar em ensaios clínicos e a gerar candidatos inovadores. 

Ponto comum: Em ambos os casos (auto e pharma), o Ocidente passa de “líder inovador” a “comprador/licenciador” da inovação chinesa, pagando prémios elevados. Isso reforça a percepção de que a China já não é apenas “fast follower”, mas está a tornar-se first mover em várias tecnologias de ponta.

O atractivo da China resulta da velocidade, do custo e da capacidade de execução. As farmacêuticas não vão à China apenas porque é mais barato. Vão porque ali conseguem encontrar, testar e desenvolver activos promissores com mais rapidez.
"Things are cheaper and faster.
...
It has also created a regulatory system that permits rapid testing and speedier approvals of drug candidates, making it easier for drug researchers to innovate. For instance, the government established a route for researchers to quickly start testing drugs, rather than having to wait the months it takes to get cleared in the West.
...
It takes about two to four months to get a clinical trial going in China after seeking regulatory clearance, compared with six to nine months in the U.S."
E volto a 2010 e ao livro de David Birnbaum sobre fabrico de vestuário e a uma equação:
FULL VALUE COST = EXPECTED RETAIL PRICE - PROFIT

"the difference between that goal and the present situation is markdown. Markdown is time-related. The longer the lead time, the greater the markdowns." 

Na moda, o inimigo é o markdown (os saldos). Na pharma, o inimigo é o custo de oportunidade do tempo (perda de anos de exclusividade e de receita premium). Por isso, a Big Pharma está hoje tão interessada na China: as empresas chinesas oferecem exactamente o que Birnbaum defende no têxtil: speed-to-market (mais rápido e mais barato no desenvolvimento), o que permite lançar mais cedo, maximizar a janela de patente e reduzir o impacto da "patent cliff".