De que estamos realmente a falar quando falamos de competitividade?
Quando um político diz que Portugal perdeu competitividade, convém parar um segundo.
Competitividade em quê?
A vender mais barato?
A pagar salários mais baixos?
A atrair turistas porque somos relativamente baratos?
A subsidiar empresas que não conseguem pagar melhor?
Ou a produzir bens e serviços pelos quais o mundo aceita pagar mais?
A diferença não é pequena. É a diferença entre subir a escada ou ficar preso ao degrau de baixo.
Ainda ontem publiquei um texto em que recordei a economia portuguesa de há 35 anos. Portugal tinha muito menos intervenção do Estado, uma taxa de desemprego de 4,1%, crescia mais e parecia acreditar mais no futuro. Havia energia. Havia confiança. Havia menos esta sensação de país sentado à espera de autorização, subsídio, programa, plano, comissão ou despacho. Era, sem ironia, um país muito, muito competitivo.
Quando José Luís Carneiro diz que Portugal perdeu competitividade, gostava de saber se está a falar de competitividade ou de produtividade.
A figura ajuda a perceber a diferença.
Uma empresa pode ser competitiva porque vende barato. Pode ganhar encomendas porque os salários são baixos, porque as margens são espremidas, porque o Estado compensa custos, porque o país aceita viver com pouco. Isso é competitividade pelo denominador da equação da produtividade. Corta-se o custo. Aperta-se o salário. Reduz-se a ambição. E depois chama-se a isso realismo.
Mas há outra forma de competir.
Uma empresa pode ser competitiva porque faz algo difícil de copiar. Porque tem marca. Porque domina tecnologia. Porque desenha melhor. Porque entrega melhor. Porque conhece melhor o cliente. Porque vende confiança, estatuto, desempenho, ritual, pertença, precisão, beleza ou segurança. Isso é competir pelo numerador. Não é fazer o mesmo com menos. É fazer algo que vale mais.
Esta distinção quase desapareceu do discurso político… ou talvez nunca tenha feito parte dele.
José Luís Carneiro foi membro de um governo que ajudou a consolidar uma economia de baixo valor acrescentado e bastante competitiva em certas áreas. O turismo é talvez o exemplo mais visível. Portugal tornou-se muito competitivo a atrair pessoas de fora, mas competitividade não é automaticamente produtividade. Um país pode encher hotéis, restaurantes e alojamentos locais, e continuar com salários baixos, empresas frágeis e jovens qualificados a procurar futuro noutro lado.
Não creio que isso tenha sido feito com intenção. Quase nunca é. É simplesmente o resultado natural das decisões tomadas.
Quando se facilita o que é fácil, cresce o que é fácil.
Quando se subsidia o que existe, prolonga-se o que existe.
Quando se confunde movimento com criação de valor, o país fica cheio de actividade e vazio de transformação.
Por isso, a pergunta a José Luís Carneiro devia ser outra: quando diz que Portugal perdeu competitividade, que teria feito de diferente?
Porque, ao responder, talvez caísse na armadilha ugandesa.
No texto "Competitiveness compass? Be careful what you wish for", recordei a crítica de Erik Reinert à elasticidade perigosa da palavra "competitividade". A mesma palavra pode significar um processo que aumenta salários e rendimento real. Mas também pode ser usada para convencer trabalhadores a aceitar salários mais baixos em nome da competitividade. É uma palavra tão flexível que serve para defender uma coisa e o seu contrário.
É por isso que os políticos gostam tanto dela.
Produtividade obriga a explicar. Competitividade permite discursar.
Produtividade pergunta: o que produzimos, como produzimos, com que conhecimento, com que tecnologia, com que organização, com que marca, com que margem?
Competitividade, quando mal usada, pergunta apenas: como ficamos mais baratos?
E é aqui que mora o problema. Muitos políticos vivem mentalmente no século XX. Quando falam de produtividade, pensam quase sempre no denominador da equação: menos custos, menos tempo, menos desperdício, menos salários, menos rigidez, menos encargos. Tudo isso pode ser importante. Mas é apenas metade da história.
A outra metade está no numerador.
O que é que o cliente valoriza?
O que é que o mercado aceita pagar?
O que é que a empresa sabe fazer que os outros não fazem?
O que é que o país consegue aprender, acumular e escalar?
Se não se muda o que se produz, competitividade e produtividade não andam de braço dado. Se não se muda o que se produz, a comoditização, como a ferrugem, está sempre a trabalhar, como a Rainha Vermelha, está sempre a corroer valor. Para compensar, reduzem-se custos, aumenta-se a eficiência, ganha-se algum espaço. Por isso, o empobrecimento previsto na figura acima. No entanto, quando se abre o mundo do numerador, a história muda.
A Suíça não é competitiva porque é barata.
A Suíça não compete com base no salário mínimo, na electricidade subsidiada ou na promessa de mão-de-obra dócil. Compete porque há sectores em que consegue cobrar caro. Muito caro. E o mundo paga. Paga pela precisão, pela confiança, pela reputação, pela engenharia, pela farmácia, pelos relógios, pelos serviços financeiros, pela estabilidade institucional.
Então pergunto: o que diria José Luís Carneiro sobre a competitividade da Suíça?
Diria que falta competitividade porque os salários são altos?
Diria que os custos são excessivos?
Diria que o país devia ficar mais barato?
Ou perceberia que a verdadeira questão não é quanto custa produzir, mas quanto vale aquilo que se produz?
Portugal precisa menos de políticos a repetir a palavra competitividade e mais de gente disposta a fazer a pergunta difícil: queremos competir pelo preço ou pelo valor?
Porque competir pelo preço pode encher estatísticas.
Competir pelo valor é o que pode enriquecer o país.
Amanhã, falamos de Montenegro e dos invejosos.