Em "O choque chinês, não o euro", listo alguns postais, não todos, sobre aquilo a que o mainstream chamava de “choque do euro” e eu sempre chamei de “choque chinês". Sem euro, imaginem o mundo em que estaríamos a viver, "O mundo alternativo em que poderíamos estar a viver" (postal de 2016). O euro salvou-nos de uma espiral desvalorizadora para combater a guerra anterior "Redução dos salários em Portugal" (postal de 2006)
Por exemplo, em "A receita deste blogue (parte I)" ilustro um exemplo muito claro do choque chinês e de como se pode responder-lhe. Subir na escala de valor.
Quando Portugal sofreu o choque chinês, e as indústrias tradicionais de baixo valor acrescentado foram dizimadas. Por exemplo, em "3 momentos na evolução do sector do calçado" de 2014:
Eu comparava o choque chinês em Portugal, ao choque japonês nos Estados Unidos.
Entretanto, a China subiu na escala de valor, e agora está a dizimar empresas noutro campeonato, noutros países europeus. Ver este gráfico que encontrei aqui (reparar no período temporal, 2019-2024):
O choque chinês mudou de composição sectorial e, com isso, mudou também de geografia. A primeira vaga atingiu sobretudo têxteis, vestuário, couro e mobiliário no Sul da Europa (não esquecer Manzano). O choque não chegou apenas através de produtos chineses vendidos em Portugal; chegou através de encomendas que deixámos de receber dos nossos clientes europeus. Um estudo sobre empresas portuguesas identifica reduções significativas do emprego entre 2000 e 2007 nas empresas mais expostas à concorrência chinesa nos mercados europeus de exportação, encontrando efeitos muito menores da concorrência directa no mercado português.
A pressão mais recente deslocou-se para o equipamento eléctrico, a química e o automóvel, atingindo mais directamente o núcleo industrial europeu do Norte. Numa análise de 2024, o BCE descreve a passagem da concorrência chinesa em vestuário, calçado e plásticos para actividades de maior valor acrescentado, como o automóvel e a maquinaria especializada. Aumento a semelhança entre as exportações chinesas e as europeias, sobretudo em maquinaria e equipamento de transporte, com particular exposição da Alemanha. A China está a disputar capacidades industriais que a Europa considerava fontes duradouras de vantagem.
Numa newsletter do FT, o autor publicou no Domingo passado, "Europe can fight the 'China shock'" de onde cito:
"First, the effect of the "China shock" on Europe is more concentrated than widely assumed. In 2025, almost two-thirds of the goods imported into the EU from China fell into just five product categories, such as machinery, chemicals and cars."
Os dois gráficos do FT nestes tweets, são da newsletter, e ilustram o que dizemos aqui há duas décadas, fugir do negócio do preço, subir na escala de valor. O Carlos consultor diz: subir na escala de valor. O Carlos cidadão diz: facilitar a recomposição da economia.
O subtítulo do artigo da newsletter é, para os políticos europeus, como a cruz para o diabo:
"But it requires Brussels to prioritise creative destruction over protectionism"
Vai ao encontro doutra guerra deste blogue. Sim, "Deixem as empresas morrer!" apresenta a orientação: dar prioridade à destruição criadora sobre o proteccionismo.
A pressão chinesa está concentrada em determinadas actividades e a contracção destas tem coexistido com o crescimento de outras. A produção, o valor acrescentado real e o emprego industrial da zona euro aumentaram ligeiramente na última década. Esses números agregados podem esconder perdas profundas em determinadas empresas e regiões, mas também revelam uma indústria que se transforma.
Recordo o exemplo do mobiliário e do calçado português: enquanto desapareciam empresas e postos de trabalho, outras empresas desenvolviam marcas, trabalhavam o design, trabalhavam a flexibilidade e a rapidez, encontravam novos clientes e aumentavam as exportações. Recordo também a Marlin Steel: a mudança começou pela descoberta de clientes que precisavam de soluções diferentes e estavam dispostos a pagar por elas. Subir na escala de valor também se faz dentro de sectores considerados tradicionais, através da transformação do modelo de negócio.
Parikh, o autor, recupera ainda um exemplo particularmente interessante. A concorrência japonesa abalou os fabricantes alemães de máquinas fotográficas nos anos 1970; alguns sobreviventes orientaram-se para a óptica de topo, desenvolvendo capacidades que hoje são importantes para a produção de semicondutores. O conhecimento acumulado encontrou novas aplicações e novos clientes (mudar de quadrante ou recordar as sanitas da Toto ou sa máquinas de vending da Fuji).
O FT acrescenta a dimensão institucional: facilitar o financiamento, reduzir barreiras no mercado único, melhorar as condições de acesso à energia e apoiar a requalificação dos trabalhadores. A transformação exige empresas capazes de escolher novos caminhos e condições que lhes permitam concretizar essas escolhas.
Entretanto, a própria China continua a subir na escala de valor. Por isso, a experiência portuguesa oferece uma lição sobre a necessidade de adaptação contínua. Não basta abandonar produtos baratos e entrar num sector tecnologicamente sofisticado, porque a China também está a fazer essa travessia. É necessário construir uma diferença concreta, especialização, conhecimento difícil de reproduzir, desenvolvimento conjunto com clientes, rapidez ou serviço, e continuar a renová-la. Cada vantagem conquistada precisa de ser aprofundada e renovada: conhecer melhor determinados clientes, resolver problemas mais exigentes e desenvolver capacidades pelas quais esses clientes estejam dispostos a pagar.