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sexta-feira, outubro 23, 2026

A produtividade também depende de quem nasce (parte lI)

No postal anterior, usei a notícia do JN sobre Revinhade para ilustrar uma ideia: a produtividade de Felgueiras poderá aumentar através da alteração da composição da sua economia. A entrada e o crescimento de actividades com maior valor acrescentado por trabalhador podem elevar a média do concelho. Como saber, daqui a alguns anos, se foi isso que aconteceu?

Comecemos por um exemplo com números inteiramente ilustrativos. Imaginemos uma economia onde 80% dos trabalhadores estão em actividades que geram 30 mil euros anuais de valor acrescentado por trabalhador e os restantes 20% em actividades que geram 60 mil euros. A média é de 36 mil euros. Se os pesos passarem para 60% e 40%, respectivamente, a média sobe para 42 mil euros. Mais 16,7%, mantendo exactamente a mesma produtividade em cada um dos dois grupos. Mudou a composição da economia. Recordo uma série com uma história sobre golos.

Para acompanhar Felgueiras, começaria por construir uma série anual, usando 2024 como referência anterior ao arranque da produção da Somfy, que o artigo situa em Outubro de 2025. A primeira medida seria o valor acrescentado bruto por trabalhador e, havendo informação suficiente, por hora efectivamente trabalhada. O valor acrescentado aproxima-nos daquilo que a actividade gera depois de descontados os bens e serviços consumidos na produção. Uma facturação elevada pode coexistir com um valor acrescentado relativamente reduzido, quando uma parte importante dessa facturação corresponde a componentes, materiais e serviços comprados a terceiros.

Depois, abriria a média do concelho. Acompanharia o peso do calçado, do equipamento eléctrico, dos plásticos e das restantes actividades no emprego e no valor acrescentado. Procuraria perceber quais estão a crescer e qual o seu valor acrescentado por trabalhador. Também distinguiria empresas novas e empresas preexistentes, porque dentro do mesmo sector podem coexistir modelos de negócio e posições na cadeia de valor muito diferentes. A classificação da actividade ajuda a organizar os dados; o valor efectivamente criado permite avaliar o resultado.

O passo seguinte seria separar dois contributos: o aumento da produtividade dentro das actividades e a alteração do peso dessas actividades na economia local. Uma forma de o fazer seria calcular, em cada ano, qual teria sido a produtividade média se a distribuição do emprego continuasse igual à de 2024. A comparação com a média observada permitiria estimar o contributo da mudança de composição. Assim, poderíamos perceber quanto do progresso resultou da melhoria das actividades existentes e quanto resultou do crescimento relativo das actividades mais produtivas.

Acrescentaria as remunerações médias e medianas, descontando a inflação, a evolução das qualificações e das funções desempenhadas e a proporção dos empregos ocupados por residentes no concelho. Interessaria ainda acompanhar os fornecedores locais: conseguiram novos clientes, desenvolveram competências, passaram a fornecer soluções de maior valor acrescentado? Uma nova fábrica pode contribuir para transformar o tecido empresarial à sua volta. Esse efeito merece ser procurado e medido.

Há alguns cuidados necessários neste acompanhamento. O valor acrescentado e o emprego devem corresponder às mesmas unidades efectivamente localizadas em Felgueiras, verificando o efeito da localização das sedes das empresas. A evolução dos preços também deve ser considerada, para distinguir um aumento nominal de uma melhoria em termos reais. 

O artigo referido na parte I admite que a zona industrial poderá chegar aos dez mil postos de trabalho dentro de uma década. Seria interessante que, nessa altura, Felgueiras pudesse apresentar também a evolução do valor acrescentado por hora e das remunerações reais, explicando o contributo das novas actividades para esses resultados. Teríamos então um caso concreto para estudar como um território aumentou a produtividade através da transformação da sua economia.

domingo, outubro 18, 2026

A produtividade também depende de quem nasce (parte l)


O JN de 16 de Outubro publicou o artigo "Revinhade quer chegar aos dez mil postos de trabalho", sobre a área empresarial do Alto das Barrancas, em Felgueiras. A notícia destaca a inauguração da fábrica da Somfy, com potencial para empregar 700 pessoas, mas o interesse do caso vai além deste investimento.

 Vejo aqui um exemplo concreto de uma possibilidade que tenho referido neste blogue: aumentar a produtividade através da alteração da composição da economia:

Segundo o jornal:

"Felgueiras, com cerca de 57 500 habitantes, tem uma forte dependência da indústria do calçado, que emprega diretamente cerca de 20 mil pessoas."

Quando se fala em aumentar a produtividade, costuma pensar-se em melhorar o funcionamento das empresas existentes: reduzir desperdícios, melhorar a organização, investir em equipamento, desenvolver competências. Também conta subir na escala de valor, desenvolver produtos e serviços pelos quais os clientes estejam disponíveis para pagar mais, aumentar a diferenciação e escapar à comoditização. Contudo, à escala de um concelho ou de um país, há outra possibilidade: mudar o peso relativo das empresas e actividades que compõem a economia.

O próprio artigo identifica essa intenção:

"A concorrência dos mercados asiáticos, com custos de produção inferiores, aumenta a pressão sobre o setor e torna a diversificação industrial uma prioridade para o município."

Mais adiante, acrescenta uma informação relevante:

"A zona industrial começou a ser desenvolvida de raiz em 2018 e conta já com três empresas: Somfy, Coloplast Portugal e Biselplas."

A Somfy produz motores para estores. A Coloplast é uma multinacional dinamarquesa especializada em dispositivos médicos, cuja unidade de Felgueiras foi concebida para fabricar cateteres intermitentes. A sua instalação acrescenta à economia local uma actividade ligada a outros produtos, mercados e exigências técnicas. A diversificação começa a ganhar uma expressão concreta naquilo que o território passa a produzir.

É uma dinâmica compatível com a lógica dos Flying Geese, o paradigma associado ao economista japonês Kaname Akamatsu: as economias transformam-se, desenvolvem capacidades e passam a participar em actividades progressivamente mais exigentes. O investimento internacional pode acelerar essa aprendizagem, trazendo equipamento, conhecimento, métodos de trabalho e acesso a cadeias de produção. À escala local, Felgueiras poderá estar a desenvolver uma expressão desse movimento.

Se estas empresas gerarem mais valor acrescentado por trabalhador do que a média existente e ganharem peso no emprego, a produtividade agregada do concelho poderá aumentar. O calçado pode continuar a crescer, a inovar e a subir na escala de valor, enquanto outras actividades crescem mais depressa. A transformação da composição da economia também se faz por adição, com empresas que passam a existir naquele território e oportunidades que se abrem a trabalhadores e fornecedores.

Naturalmente, a presença de motores eléctricos ou dispositivos médicos não demonstra, por si só, uma produtividade superior à do calçado. Interessa conhecer o valor acrescentado que fica nas unidades locais e os recursos necessários para o gerar. A hipótese de subida na escala de valor terá de ser confirmada pelas contas, acompanhando também o desenvolvimento de competências e as respectivas remunerações.

O artigo refere a intenção de promover a:

"criação de emprego qualificado e mais bem remunerado para fixar jovens no concelho."

É essa ambição que torna o caso especialmente interessante. O futuro da produtividade de Felgueiras também dependerá das empresas que conseguirem nascer, instalar-se e crescer no concelho, das capacidades que trouxerem e das oportunidades que ajudarem a desenvolver. No próximo postal, volto ao assunto para sugerir como poderíamos medir esta transformação.

São as empresas que vão ocupar a tal cadeira vazia da Concertação Social.

sábado, outubro 17, 2026

Mongo é para os David, não para os Golias (parte I)

Em “This is an era of Davids, not Goliaths”, Janan Ganesh, do FT de quinta-feira passada, questiona a ideia de que os grandes países conseguem impor facilmente a sua vontade aos pequenos. 

"In the last century, it was shocking when not one but two empires succumbed to ostensibly weaker Vietnamese forces. In this century, which has brought the Iraq and Afghanistan debacles, such giant-killings are almost banal.

...

What explains the agonies of Goliath? How is it that apparent titans so often fail to get their way? For one thing, almost all actors, however small, have leverage of some kind. If it isn't control of a strait, it might be an indispensable business (the Netherlands has ASML) or even just specialised knowledge."

Interessante, na passada Quinta-feira escrevia aqui sobre o "sticky knowledge". 

Vamos fazer o paralelismo para as empresas. 

Quando se fala em aumentar a produtividade, a conversa encaminha-se quase sempre para o mesmo lugar: crescer, produzir mais, ganhar escala. O raciocínio é conhecido: aumentar o volume permite diluir custos fixos, especializar tarefas, investir em equipamento e produzir mais por hora de trabalho. São ganhos possíveis e importantes. Contudo, produzir mais só aumenta a produtividade se o valor acrescentado crescer mais depressa do que os recursos utilizados. Uma empresa pode aumentar a produção e a facturação sem melhorar a sua produtividade.

Cuidado: os clientes-alvo e a proposta de valor de uma empresa com 50 trabalhadores, são diferentes para uma empresa com 200 trabalhadores. Portanto, quando outsiders aconselham 4 empresas a juntarem-se para serem partes de uma maior com menores custos unitários, estão, na verdade, a pedir que essas empresas abandonam os clientes e proposta de valor que conhecem e ir para uma arena diferente.

Para as PME, interessa-me particularmente outra via: aumentar o valor acrescentado por hora trabalhada através da subida na escala de valor. Na equação da produtividade, o numerador merece tanta atenção quanto os recursos necessários para obtê-lo. Podemos melhorar o resultado reduzindo desperdícios, esperas e retrabalho. Podemos também melhorá-lo desenvolvendo uma oferta que os clientes valorizem mais e pela qual estejam dispostos a pagar mais: mais inovação, mais personalização, mais diferenciação, mais flexibilidade e maior capacidade para resolver problemas específicos.

Uma aposta exclusivamente centrada na escala pode tornar uma PME mais dependente de grandes volumes e de ofertas padronizadas. Se, entretanto, essas ofertas se tornam semelhantes às dos concorrentes, a comparação passa a fazer-se cada vez mais pelo preço. A empresa precisa então de vender mais para compensar margens menores, o que reforça a pressão para ganhar escala. Pode acabar a produzir cada vez mais, com um esforço crescente, para ficar com uma parcela cada vez menor do valor criado.

O modelo de Kano ajuda a compreender como se pode perder a diferenciação ao longo do tempo: aquilo que hoje surpreende e encanta o cliente pode, amanhã, passar a ser esperado e, mais tarde, tornar-se uma exigência básica, comoditizada. A característica mantém-se, mas perde a capacidade de distinguir a oferta. Esta evolução torna necessário renovar as razões pelas quais os clientes escolhem uma empresa e aceitam pagar um preço mais elevado.

É por isso que, quando penso nas PME, dou prioridade à capacidade de compreender determinados clientes e desenvolver respostas que façam uma diferença relevante para eles. Pode ser uma solução à medida, uma entrega mais flexível, um apoio técnico que evite erros ou uma adaptação que um fornecedor de grande volume não esteja preparado para assegurar. Essa diferenciação precisa de ser reconhecida pelo cliente e traduzida em resultados para a empresa. Acrescentar complexidade e custos sem conseguir cobrar o valor correspondente pode tornar o negócio mais difícil e menos rentável.

Recordo, a este propósito, "Managing Price, Gaining Profit", de Michael V. Marn e Robert L. Rosiello, publicado na Harvard Business Review em 1992. Há 20 anos e um dia escrevi, "Ainda a produtividade", Para a estrutura económica média analisada, uma melhoria de 1% no preço, sem perda de volume, aumentava o lucro operacional em 11,1%; um aumento de 1% no volume, sem redução do preço, aumentava-o em 3,3%. Os valores dependem dos pressupostos, mas ilustram bem a força do preço efectivamente obtido na formação do lucro.

Produtividade e lucro são medidas diferentes. Ainda assim, esta reflexão obriga-nos a olhar com mais atenção para aquilo que vendemos e para o valor que conseguimos captar. Uma oferta mais valorizada pode permitir aumentar o valor acrescentado por hora trabalhada, desde que os recursos adicionais necessários não absorvam esse ganho. Para muitas PME, a pergunta decisiva é: como podemos tornar o nosso trabalho mais valioso para clientes que reconheçam essa diferença e estejam dispostos a pagá-la? A dimensão a procurar deve ajudar a concretizar essa escolha.

Na Parte II vamos abordar o tema da dimensão das empresas e o papel do contexto, nomeadamente a legislação.

segunda-feira, outubro 12, 2026

Cuidado com o numerador


Uma das tendências de ontem no Twitter andava em torno desta imagem associada a números internos da VW:

Ao ver esta imagem, recordei logo dois postais.

Primeiro, "As anedotas", de Junho de 2010:
"Por isso é que o trabalhador português que emigra para a Alemanha vê aumentar a sua produtividade pessoal? Por isso é que os trabalhadores portugueses no Luxemburgo têm uma produtividade 3 vezes superior à que têm em Portugal?

Conseguem encontrar fábricas gémeas, fábricas que fabriquem os mesmos produtos em Portugal e na Alemanha?

Há uma que salta logo à vista, a AutoEuropa.

No caso da AutoEuropa, aposto que a produtividade portuguesa é, ou semelhante, ou superior às fábricas congéneres da VW na Alemanha (para modelos com a mesma gama de preço)."
O que é que a imagem não nos diz? Não aborda o parêntesis na citação acima. Chama produtividade à cadência física.

Segundo, "Não compararás laranjas com maçãs!!!", de Janeiro de 2013:
"A ideia do postal de Janeiro foi a de chamar a atenção que não faz sentido comparar maçãs com laranjas e dizer que a produtividade polaca é superior à italiana só porque na Polónia menos gente produzia mais quantidade de automóveis da Fiat que as fábricas italianas."

Perguntei ao ChatGPT: "Consegues comparar o preço médio de venda dos automóveis que saem de Emden, Palmela e Tianjin?"

A resposta foi: "Como ordem de grandeza do preço ao cliente final, usaria 50 mil euros para Emden, 35 mil para Palmela e 25 mil para Tianjin. São estimativas minhas a partir dos preços dos modelos, sem conhecer a repartição da produção por versão."

E até me deu uma tabela:


Contar automóveis por trabalhador deixa de fora o valor do que se produz. E esse é o problema de muita gente que escreve sobre produtividade, considera o numerador constante.


Não chega a ser, mas é quase o mesmo que comparar um McDonald’s, aberto durante grande parte do dia, com um restaurante familiar que só serve almoços, contar as refeições por trabalhador e declarar vencedor quem despacha mais pratos. Uma refeição passaria a valer uma refeição, independentemente do que se cozinha, do serviço prestado, do preço que o cliente aceita pagar e do valor acrescentado por hora de trabalho.

quinta-feira, outubro 08, 2026

Produtividade, salários e horas trabalhadas


O algoritmo mandou-me este tweet:

Concordo com a parte factual:

"Nothing better explains Germany's demise than the comparison with Switzerland. Switzerland has much higher salaries and a stronger currency, yet it keeps growing and its industry thrives while German industrial production implodes. The reason is simple, Swiss productivity keeps rising, holding labor costs stable."

Quanto ao resto tenho de discordar:

"In Germany, salaries rise without productivity growth, making products more expensive. 

No one in Europe works fewer hours than the Germans. They no longer value hard work and productivity. Instead, they listen to populists offering simple solutions, left redistribution and "tax the rich" nonsense, or the far-right blaming immigrants for everything. 

It starts with values and mindset. Either Germans start working hard again, or they will keep losing the prosperity the world once admired."

O resto fez-me lembrar dois textos:

Voltemos à equação da produtividade:
O erro do tweet é considerar o numerador como constante. Se o que produzimos não se altera, como se aumenta a produtividade? Aumentando a eficiência: reduzindo os custos dos recursos ou aumentando a quantidade das saídas por unidade de tempo é o "working hard again". 

Aquela afirmação "salaries rise without productivity growth, making products more expensive" até seria interessante de estudar a fundo, porque penso que há um outro factor em jogo e que contribui para a baixa da produtividade porque baixa o valor do que os alemães produzem. O efeito de Kano:
Quando não se sobe na escala de valor, quando não se inova mais rápido do que a média do mercado, o que produzimos vai-se comoditizando e o preço premium inicial vai-se corroendo. Por isso, o numerador vai ficando mais pequeno. E se recordarmos Marn e Rosiello:
Aumentar/reduzir o preço tem um impacte muito mais forte na rentabilidade, no lucro, do que aumentar/reduzir o custo. Sei que é contraintuitivo, mas se fizerem as contas, têm uma surpresa.

Quando o tweet diz "salaries rise without productivity growth, making products more expensive" aquele "more expensive" não é aumento do preço, até pode não ser aumento do custo unitário, e é muitas vezes redução do preço por pressão da concorrência.

Utilizando dados da OCDE relativos a 2025, o salário médio bruto anual, equivalente a tempo inteiro em euros ao câmbio médio de 2025 na Suíça foi ≈104 946 € e na Alemanha foi 54840 €.

O PIB por hora trabalhada preços constantes de 2020 - dólares PPC, foi na Suíça de a 90,52/h e de 83,36/h na Alemanha.

O problema não é o trabalhar muitas ou poucas horas, mas a não subida na escala de valor. E quando não se sobe... o mais provável é descer (Red Queen Effect). Por fim, o "tax the rich et al" é uma consequência do surgimento da mentalidade de "jogo de soma nula" porque o sentimento de prosperidade vai-se esvaindo:
Nota: Vamos à fórmula de cálculo dos "unit labour costs":

 ULC = Custo do trabalho por hora / Produção por hora

Nesta equação, não esquecer que a produção por hora pode aumentar porque se produziu mais quantidade, ou porque o que se produziu tem um valor acrescentado maior. Esta segunda hipótese é praticamente ignorada por quem aborda o tema da produtividade.

sexta-feira, outubro 02, 2026

Quando acabam as facilidades


O Japão é um laboratório importante. Um dos países mais envelhecidos do mundo, que ao mesmo tempo não importa paletes de mão de obra barata.
"The new staff recruitment campaign by FamilyMart is striking. Global megastars, however sincerely they worship your fried chicken tenders, do not come cheap: hiring Lady Gaga to dance for 30 seconds and ask "Why not work for FamilyMart?" marks a distinct new episode for corporate Japan.
Superficially, the company's need to spend big and raise its game on recruitment is clear enough. But the timing is especially revealing.
Japan, out of deflation and in labour deficit, now offers fewer cushions between companies and reality. 
...
In July, across all industries, the ratio of jobs-to-applicants was almost 1.2 times, while in parts of construction it was as high as 7.9.
...
More and more companies, say advertising agencies and consultancies, are diverting larger slabs of budget into recruitment campaigns. They are doing so with a sense of urgency - not in a hunt for raw staffing numbers but for a suite of skills and a likelihood of loyalty that are in even more acute scarcity. Japan has a crisis of misallocation, say company HR departments.

...

The Bank of Japan had begun […] a quarter-century experiment with ultra-low interest rates; companies, for their part, would spare the country mass unemployment by avoiding the most brutalising version of creative destruction [Moi ici: Recordar o esquema que se segue e as implicações que o dinheiro barato gera]
...

Companies that might not have survived in another environment muddled through, delaying consolidation and favouring sprawl.
…
People who might otherwise have retrained and moved elsewhere stayed put, bloating the workforce in non-useful places.
...
All of this was a recipe for a protracted, double misallocation of financial and human capital that has been exposed by two changes. The first has been the push for greater governance reform […]. But the most recent revision […] calls on companies to continuously review and explain allocation of resources, including human capital.

The second major change has been the normalisation of monetary policy by the BoJ 
...
the prospect of a higher cost of money is creating an expectation that capital allocation will, eventually, become a more existential activity
...

That should drive companies to become more active participants in job markets, in turn providing far greater social licence for people to change jobs and reskill for deployment where the economy needs them. […] corporate survival is no longer guaranteed."

O investimento numa celebridade revela que atrair trabalhadores passou a ser uma questão estratégica, num Japão envelhecido onde as empresas têm de disputar pessoas, competências e capacidade de aprendizagem. Segundo o artigo, a demografia é apenas parte da explicação. De acordo com o autor, décadas de dinheiro muito barato e de tolerância perante empresas pouco rentáveis permitiram preservar negócios que, noutras condições, teriam sido transformados, consolidados ou encerrados. Esse arranjo protegeu empregos, mas também manteve trabalhadores em actividades onde contribuíam pouco para o desempenho da economia.

A escassez de mão-de-obra, as reformas da governação empresarial e a subida do custo do dinheiro estão agora a reduzir essa protecção. As empresas terão de justificar melhor a utilização dos seus recursos e competir mais activamente por trabalhadores; estes poderão encontrar maior abertura para mudar de emprego e adquirir novas competências. A sobrevivência empresarial deixa de poder ser tomada como garantida. 

Quando em Portugal as empresas se queixam da falta de trabalhadores e pedem paletes de mão de obra barata, estão na verdade a pedir ao Estado que as ajude a não terem de mudar.

Recordar "Tratados como Figos (Parte I)" e "A imigração torna-se então um substituto da estratégia"

Trechos retirados de "The Lady Gaga moment for corporate Japan" publicado no FT do primeiro de Outubro passado.

segunda-feira, setembro 28, 2026

Um enfermeiro de esquerda na Irlanda

O algoritmo colocou este tweet no meu feed:

E eu sorri... até pensei: "Se eu lhe propuser que Portugal adopte as mesmas políticas que a Irlanda adoptou para chegar onde chegou, vai-me responder - Vade Retro Direitolas!!!"

Há dias vi um filme passado na Irlanda rural em 1981, "The Quiet Girl", uma Irlanda pré-revolução, uma Irlanda mais pobre que Portugal na mesma altura. Agora, por cada hora de trabalho, em média... sim, agarrem-se à cadeira:

Segundo o ChatGPT, os números para 2025 apontam para 130,5 €/h versus 29,9€/h.

O que é que os irlandeses fizeram para dar este salto? O que é que os empresários irlandeses fizeram que os malvados e preguiçosos empresários portugueses não são capazes de fazer?

Não, não caiam no erro de Alexandre Relvas em 2020 e leiam "A Tale of Two Clusters: The Evolution of Ireland’s Economic Complexity since 1995". 

O que o tweet retrata é um exemplo que costumo usar aqui com frequência:
Estou mesmo antigo… isto tudo faz-me recuar ao tempo em que se falava da vinda da Autoeuropa para Portugal e do efeito de "spill-over" que poderia ter na economia.

Recordo um postal que seria rejeitado por qualquer pessoa de bem, de esquerda, claro: "Não são elas que precisam de Portugal, Portugal é que precisa delas"

O salto irlandês passou por mudar a composição da economia, atraindo empresas com capital, tecnologia, conhecimento e acesso a mercados que o tecido empresarial existente não tinha. Uma fiscalidade competitiva, pessoas qualificadas e condições para investir ajudaram a trazer essas actividades para o país. 

A produtividade média também sobe assim: quando passam a ter mais peso empresas que geram mais valor por hora trabalhada. E os benefícios podem chegar a quem nunca trabalhou numa multinacional, através da procura de serviços, da concorrência por trabalhadores e da receita fiscal que permite financiar serviços públicos. Os efeitos sobre os fornecedores e as empresas nacionais exigem ligações e aprendizagem; não acontecem por magia.

O profissional de saúde que emigra não adquire outra acreditação nem passa a trabalhar três vezes mais ao aterrar em Dublin. Passa a trabalhar numa economia com outra capacidade para remunerar as suas competências. É por isso que insisto: Portugal precisa de criar condições para que venham para cá actividades capazes de pagar melhor e para que as que cá estão subam na escala de valor. Caso contrário, continuaremos a formar pessoas para economias que conseguem aproveitar melhor o que elas sabem fazer. Gostamos muito dos salários que encontram lá fora; falta discutir, sem alhos nem exorcismos, as condições que permitem pagá-los.

quinta-feira, setembro 24, 2026

Keep dreaming... ou nightmaring

7 meses depois, o anónimo da província vê a sua explicação tornar-se mainstream.

Em Fevereiro passado, este anónimo da província publicou um postal e um vídeo com um título um bocadinho comprido: "Temos um problema de produtividade: a explicação plausível que falha no essencial."

Nesse vídeo, parti de um artigo publicado pelo ECO, baseado numa análise da Randstad. O emprego em Portugal tinha crescido 3,2%, enquanto o PIB tinha crescido apenas 1,9%. Portanto, havia mais pessoas a trabalhar, mas o valor produzido não estava a crescer ao mesmo ritmo. 

Até aqui, tudo bem. São factos, são números. A minha surpresa começou com a explicação dada para o fenómeno. Segundo a Randstad, o mercado de trabalho enfrentava um "desafio de eficiência".

Segundo a Randstad, as empresas estariam a contratar ou a reter trabalhadores, mesmo sem terem trabalho suficiente para eles, a Randstad usava o termo "hoarding", porque receavam não conseguir recrutá-los no futuro. E, perante a queda da produtividade, a solução proposta era investir em tecnologia e no famoso upskilling das equipas.

Foi nessa altura que me apeteceu dizer: “What the fuck?”

Ontem li que os alemães dizem que "Costa [is] losing touch 'with reality'". A mim também me surpreendeu que alguém possa desconhecer tanto o tecido empresarial português que possa acreditar em "labor hoarding", um bom exemplo de "losing touch 'with reality".

As empresas portuguesas, muitas delas com margens reduzidas, dificuldades financeiras e falta de encomendas, estariam a acumular trabalhadores que não precisavam, só porque talvez viessem a precisar deles no futuro? 

Pareceu-me uma explicação absurda formulada com palavras sofisticadas, mas que falhava no essencial. O erro era confundir aquilo que se passa dentro de uma empresa com aquilo que acontece no conjunto da economia. Numa empresa concreta, a produtividade pode diminuir porque aumentou o número de trabalhadores sem que a produção tenha aumentado. A empresa pode ter capacidade desaproveitada, processos ineficientes ou pessoas sem trabalho suficiente, mas, quando falamos da produtividade de um país, temos de olhar também para a composição da economia.

Temos de perguntar:

  • Em que sectores está a crescer o emprego?
  • Que tipo de empresas está a contratar?
  • Quanto valor geram essas empresas por cada trabalhador?

Foi isso que procurei explicar no vídeo de Fevereiro.

Imagine-se que temos dois tipos de empresas. As empresas do tipo A trabalham com margens baixas, têm reduzido valor acrescentado e competem sobretudo através do preço, do volume e dos baixos custos. Mas são estas empresas que estão a criar emprego. 

Depois temos as empresas do tipo B. Têm margens mais elevadas, maior valor acrescentado, mais tecnologia, mais conhecimento e maior capacidade para pagar bons salários. O problema é que estas empresas são poucas, não existem em número suficiente ou não estão a crescer.

Se o emprego aumentar sobretudo nas empresas do tipo A, a produtividade agregada do país pode cair sem que os trabalhadores tenham ficado menos eficientes e sem que cada empresa tenha necessariamente piorado. É um efeito de composição.

O denominador, o número de trabalhadores ou de horas trabalhadas, cresce mais depressa do que o numerador, o valor criado. E o resultado estatístico é inevitável.

7 meses depois, o ECO publica uma nova notícia: "Produtividade de Portugal face à União Europeia é mais baixa do que em 2000."

E o que diz agora o ECO, com base num relatório da Business Roundtable Portugal? Diz isto:

"O crescimento português assentou sobretudo na mobilização de mais trabalho e menos no aumento do valor gerado por cada trabalhador."

E acrescenta:

"Uma parte significativa dos novos empregos foi criada em setores intensivos em mão-de-obra e com menor valor acrescentado bruto por trabalhador."

Ora aí está. É precisamente o problema de composição de que falei em Fevereiro. 

Desta vez, temos números. Entre 2011 e 2024 foram criados em Portugal cerca de 684 mil postos de trabalho. Mais de 60% desses postos de trabalho surgiram em sectores cujo valor acrescentado por trabalhador era de apenas 31,7 mil euros. Estamos a falar de actividades administrativas, alojamento e restauração, agricultura e pescas. Entretanto, os 81 mil empregos criados nas tecnologias de informação e comunicação geraram um valor acrescentado por trabalhador de 61,8 mil euros. Quase o dobro.

Temos, portanto, mais emprego, mas grande parte desse emprego está a ser criado nos sectores que geram menos valor por trabalhador. A taxa de emprego portuguesa aumentou de 63,4%, em 2013, para 79,6%.

É uma evolução impressionante.

Portugal tem hoje uma taxa de emprego superior à média da União Europeia. No entanto, a produtividade por hora trabalhada caiu para 66,9% da média europeia. Estamos mais longe da média europeia do que estávamos no ano 2000. E descemos do 17.º para o 24.º lugar entre os 27 Estados-membros.

Portanto, a economia portuguesa conseguiu mobilizar mais pessoas para trabalhar. O que não conseguiu foi transformar esse aumento do trabalho num aumento equivalente da criação de valor. Não se trata simplesmente de trabalhadores menos eficientes. Não se trata principalmente de empresas que acumulam trabalhadores porque receiam não conseguir contratá-los no futuro. E também não se resolve automaticamente com mais umas acções de formação ou com a compra de mais tecnologia.

Podemos dar muita formação às pessoas. Podemos fazer muito upskilling. Mas depois temos de perguntar:

  • Onde vão essas pessoas aplicar as novas competências?
  • Em empresas que continuam a competir pelo baixo custo?
  • Em actividades com margens reduzidas?

Em sectores onde o principal argumento comercial continua a ser o preço?

Se a economia não criar empresas capazes de utilizar essas competências, acontecem duas coisas. Ou as pessoas qualificadas ficam subaproveitadas, ou vão trabalhar para outros países onde as suas competências conseguem gerar mais valor.

Há dias coloquei esta pergunta, mas não obtive resposta:


Isto é quase como numa sociedade capitalista dizer mal do capitalismo; é fácil. É fácil dizer que "A culpa da falta de produtividade não é dos trabalhadores" porque é verdade, mas se não dissermos mais nada pecamos por omissão. Fica implícito que a culpa é dos malvados dos patrões, e não é.

Por isso costumo recorrer à história do cão dos Baskerville. Sherlock Holmes resolveu o mistério por causa do cão que não ladrou. O mais importante não era aquilo que estava presente. Era aquilo que faltava. Na economia portuguesa, também precisamos de olhar para as empresas que faltam.

Faltam empresas com maior valor acrescentado, daí a metáfora da cadeira vazia na Concertação Social. Faltam empresas mais intensivas em conhecimento e em capital. Faltam empresas internacionalizadas, capazes de desenvolver produtos próprios, construir marcas e ocupar posições mais valorizadas nas cadeias de valor. Faltam, sobretudo, empresas capazes de crescer sem dependerem permanentemente de salários baixos.

O próprio relatório agora divulgado reconhece a necessidade de fazer a transição de um modelo assente em serviços intensivos em mão-de-obra para uma economia mais orientada para o conhecimento técnico, a indústria e a tecnologia. Também recomenda mais investimento, mais capital por trabalhador, digitalização, automatização, internacionalização e maior dimensão empresarial.

Tudo isso é importante, mas convém não voltar a confundir eficiência com criação de valor. Uma empresa pode automatizar uma actividade de baixo valor e tornar-se mais eficiente. Isso não significa que tenha passado a criar muito mais valor. Pode continuar a produzir o mesmo produto indiferenciado, para o mesmo mercado, enfrentando a mesma concorrência pelo preço.

E quando o relatório reconhece aquela lenga-lenga repetida há anos:

"a necessidade de fazer a transição de um modelo assente em serviços intensivos em mão-de-obra para uma economia mais orientada para o conhecimento técnico, a indústria e a tecnologia. Também recomenda mais investimento, mais capital por trabalhador, digitalização, automatização, internacionalização e maior dimensão empresarial."

Os incautos vão pensar que se as empresas existentes fizerem isto vão aumentar a sua produtividade. E vão, de 66,9% da média europeia para 67,5 ou para 68,1. É só fazer as contas, mas é mesmo. Tudo torna-se mais simples se em vez da economia pensarmos numa empresa concreta.

Os incautos vão pensar que temos de ajudar a DVD leadership team a criar o mundo do streaming. Os incautos vão pensar que  Japão ficou rico com uma economia baseada no têxtil:

Os incautos vão acreditar que a produtividade portuguesa atingirá a média europeia se:
"Outro entrave ao aumento da produtividade apontado é a reduzida dimensão das empresas. 
...
O aumento da produtividade passa ainda por melhorar a competitividade energética, ajudar as empresas a ganhar escala e “fazer a transição de um modelo de serviços, baseados na mão de obra intensiva, para uma economia focada no conhecimento técnico, na indústria e na tecnologia"
Keep dreaming... ou nightmaring



segunda-feira, setembro 21, 2026

A cadeira vazia da Concertação Social (Parte II)

Parte I.

Vamos então ao artigo do FT, "Switzerland has turned fierce tax competition into a national sport":
"As countries across Europe compete to lure the world's wealthy and their money, Switzerland has a peculiar advantage: it has spent decades competing with itself.
...
But Switzerland has been conducting its own version of this experiment for decades. Its 26 cantons compete fiercely for companies, wealthy residents and the taxes they bring.
...
Heinz Tanner, finance director of low-tax Zug, has suggested that left-run cities such as Zurich drive away the taxpayers his canton attracts. He has described them as some of Zug's most useful economic promoters.
...
Other governments are trying to decide how much sovereignty they can monetise to attract the global rich. Switzerland has made its cantons compete to do much the same thing. "It's good to try to be better than your neighbours," said a Swiss executive. "That's the way our federalist system works.""

A cadeira vazia da Concertação Social é a cadeira das empresas que ainda não existem, das empresas que poderiam crescer, das actividades de maior valor acrescentado que poderiam instalar-se em Portugal e dos centros de decisão que poderiam permanecer entre nós. Essas empresas não têm associação patronal. Não têm sindicato. Não assinam acordos de Concertação Social. Não aparecem nas estatísticas do IRC e não enviam representantes para São Bento.

Na Suíça, também não estão formalmente sentadas à mesa. Mas o sistema institucional obriga os cantões a pensar nelas. Cada cantão sabe que uma empresa que ainda não está no seu território pode vir a instalar-se. E sabe também que uma empresa que já lá está pode atravessar a fronteira cantonal. A empresa que Zurique afasta não desaparece num contrafactual impossível de observar: pode reaparecer nas receitas fiscais de Zug. 

Portugal não elevará duradouramente os salários, limitando-se a exigir mais produtividade às mesmas empresas, nos mesmos sectores, produzindo os mesmos bens para os mesmos clientes. É necessário aumentar o numerador. É necessário produzir coisas que os clientes valorizem mais. Isso exige novas empresas e actividades diferentes. Exige centros de decisão, capital, conhecimento e procura de trabalho qualificado. Em suma, exige alterar a composição da economia.

O exemplo suíço mostra uma maneira de fazer com que o Estado participe nesse processo. Não escolhendo administrativamente as empresas vencedoras, mas obrigando os próprios governos a competir pela criação das condições que permitam que elas apareçam, cresçam e permaneçam.

Portugal pergunta frequentemente: Quanto custa reduzir o IRC às empresas que já cá estão? Mas falta-lhe uma segunda pergunta: Quanto nos custa a estrutura produtiva que nunca chegou a existir?

Na Concertação Social portuguesa, a cadeira continua vazia e, por isso, os interesses de quem poderia vir amanhã quase não entram na discussão de hoje. A Suíça encontrou uma solução diferente: pôs 26 cantões a competir para ver quem consegue sentar alguém nessa cadeira. Transformou a cadeira vazia num campeonato nacional.

sexta-feira, setembro 18, 2026

A cadeira vazia da Concertação Social (Parte I)


O FT da passada Quinta-feira publicou um pequeno artigo, "Switzerland has turned fierce tax competition into a national sport", que gerou uma reacção em cadeia na minha mente e me levou a relacionar:
Comecemos pelo artigo do Público. Os sindicatos querem aumentar o salário mínimo, a CIP não:
"Numa resposta por escrito, a confederação liderada por Armindo Monteiro lembra, contudo, que "o objectivo estabelecido para a evolução da produtividade está muito longe de ser atingido". É por isso que defende que "a revisão do acordo deverá incidir não sobre um aumento da ambição no que respeita ao aumento do salário mínimo ou do salário médio, mas sobre o reforço das políticas públicas que promovam o aumento da produtividade da economia portuguesa"."

Isto pôs-me a pensar num tema que já abordei aqui no blogue várias vezes: Aumentar salários por decisão administrativa não cria automaticamente produtividade, mas esperar primeiro pela produtividade também pode perpetuar salários baixos, reduzindo os incentivos ao investimento, à qualificação e à reorganização. Se nos focarmos na economia que existe é aquilo a que chamo há muitos anos de: o jogo do gato e do rato. 

A metáfora do "jogo do gato e do rato" descreve a perseguição interminável entre salários e produtividade quando se parte do princípio de que a empresa continuará a produzir essencialmente os mesmos produtos, aos mesmos preços. A produtividade aumenta através de mais eficiência, mais unidades por hora ou redução de custos; depois, os salários sobem e absorvem esses ganhos, fazendo reaparecer o problema da competitividade. Segue-se nova pressão para reduzir custos ou aumentar a produção, à qual sucede nova pressão salarial. Produtividade e salários perseguem-se mutuamente, disputando uma margem limitada.

A forma de abandonar este jogo não é correr mais depressa dentro da mesma lógica, mas aumentar o valor criado: mudar o que se produz, subir na escala de valor, diferenciar, inovar e conseguir preços superiores. Quando a produtividade cresce pelo "numerador", pelo valor gerado, torna-se possível pagar melhores salários sem perder competitividade. A relação deixa de ser uma guerra distributiva entre salários e custos e pode transformar-se numa dinâmica em que empresas e trabalhadores ganham simultaneamente. 

A CIP escreve "o reforço das políticas públicas que promovam o aumento da produtividade da economia portuguesa." O que dá azo a uma pergunta muito importante: a quem compete aumentar a produtividade da economia portuguesa?

Às empresas ... e ao governo de turno.

Às empresas compete actuar simultaneamente sobre tecnologia, competências, gestão, escala, investimento e subida na escala de valor. 

Ao governo compete actuar sobre a composição da economia (não sobre a treta do tempo da troika (aqui e aqui) que anda a tentar Merz).

O que representa a Concertação Social? A Concertação Social está ocupada com o cão que ladra

À mesa estão o Governo, as confederações patronais e as centrais sindicais. Todos representam legitimamente quem já existe:

  • os trabalhadores actualmente empregados;
  • as empresas actualmente em actividade;
  • os sectores actualmente dominantes;
  • os modelos de negócio actualmente praticados.

A discussão acaba, portanto, concentrada na passagem do salário mínimo de 920 para 970, 1020 ou 1100 euros, na inflação, nos custos das empresas e nos apoios públicos à produtividade (WTF?!?!?!).

É uma discussão necessária, mas trata sobretudo da distribuição do valor produzido pela economia actual. Não responde à pergunta dos mastins dos Baskerville: Onde estão as empresas que não precisam de ser convencidas, pressionadas ou subsidiadas para pagar mais do que o salário mínimo, porque cada trabalhador gera muito mais valor?

O problema não é necessariamente os empresários presentes, que fazem o melhor que podem dentro dos respectivos mercados, produtos e modelos de negócio. O que devia inquietar-nos é "o silêncio das empresas ausentes": actividades de elevado valor acrescentado, centros de decisão, capital, conhecimento e procura por trabalho qualificado.

Em "Portugal, Netflix e produtividade", a Netflix percebeu que a equipa responsável pelo negócio dos DVD não era a mais indicada para conceber o futuro do streaming. Não porque fosse incompetente, mas porque as suas competências, métricas, receitas, carreiras e identidade estavam ligadas ao modelo anterior.

A Concertação Social enfrenta o mesmo problema estrutural:

  • os sindicatos representam os empregos existentes;
  • as confederações representam as empresas existentes;
  • os ministérios administram a estrutura existente;
  • todos têm incentivos para preservar o que existe e repartir melhor os seus resultados.

Pedir a este grupo que conceba uma economia radicalmente diferente é, em parte, pedir à DVD leadership team que desenhe o futuro da Netflix.

O resultado tende a ser um compromisso em torno do modelo presente: aumentar salários, compensar empresas, atribuir apoios (recordo o Reino do Absurdo, ou o País do Chapeleiro Louco), financiar formação e acrescentar novas obrigações administrativas. Pode melhorar o DVD; não cria necessariamente o streaming. E isto é mesmo VERDADE! Cada apoio do governo para aumentar a produtividade é, na prática, um apoio do governo para manter a produtividade baixa, porque não incentiva as empresas a fazê-lo através da escala de valor. Pensem nisso.

Surge então um ciclo que se auto-reforça:

empresas de baixo valor → baixa capacidade salarial → pressão para aumentar o salário mínimo → apoios para proteger as empresas fragilizadas → preservação da estrutura produtiva → persistência da baixa produtividade.

O aumento do salário mínimo poderia obrigar à modernização, à mudança de modelo ou à saída das empresas inviáveis, mas, se cada aumento for acompanhado por medidas destinadas a impedir essa selecção e reafectação de recursos, conserva-se precisamente a estrutura que gera salários baixos. E é preciso cuidado com esta engenharia social-económica, porque: quem é que sabe calibrar o rácio adequado entre morte natural e assassinato?

Nestas reuniões da Concertação Social, as empresas parecem pensar que o aumento da produtividade não é da sua responsabilidade; é antes algo que decorre das benesses do governo de turno. E os sindicatos também não sentem qualquer temperança nas suas propostas porque acreditam que o governo de turno, de direita ou de esquerda, acabará por apoiar as empresas em dificuldade.

Então, qual é o papel do governo acerca da produtividade? Trabalhar a composição da economia. 

O leitor não estava à espera desta???!!!

Ninguém fala nisto! O que é que um anónimo da província sabe sobre produtividade? Ao menos não vem dizer que a produtividade baixa porque há hoarding de trabalhadores! 

Dizer que a produtividade baixa porque as empresas estão a fazer "hoarding de trabalhadores" é típico, arrisco dizer, da mentalidade das fotos: a realidade é o presente. E isso leva-nos ao PS de Alexandra Leitão. Nunca me esqueço desta expressão "Descida do IRC é injusta" e do que ela significa.

A frase de Alexandra Leitão, a descida do IRC seria injusta porque 40% das empresas não o pagam, é quase uma demonstração perfeita da violação da Regra do Mastim dos Baskerville.

A análise concentra-se exclusivamente nas empresas presentes:

  • quantas pagam IRC;
  • que empresas beneficiariam da descida;
  • que empresas já têm lucros;
  • como se distribui o benefício imediato.

Mas não pergunta:

  • Que empresas poderiam ser criadas?
  • Que empresas poderiam crescer?
  • Que sedes poderiam instalar-se em Portugal?
  • Que investimentos escolheram Espanha, Irlanda, Países Baixos ou Polónia?
  • Que empresas não acumularam capital suficiente para mudar de dimensão?
  • Que actividades de maior valor nunca chegaram a aparecer?

Os 40% que não pagam IRC estão nas estatísticas. As empresas que não vieram para Portugal não estão. E porque não estão, também não entram no raciocínio político. O argumento parte da estrutura produtiva actual como se ela fosse fixa. Se apenas 60% das empresas pagam IRC, conclui-se que uma descida favorece essas empresas e exclui as restantes. Mas a questão estratégica é saber se a fiscalidade pode alterar o número de empresas lucrativas, a acumulação de capital, o crescimento das empresas, a localização de novas actividades e, sobretudo, o peso relativo das empresas de elevada produtividade.

A política fiscal não deve ser avaliada apenas pela distribuição de um benefício entre os incumbentes. Deve também ser avaliada pela estrutura produtiva que ajuda a criar.

Nesta cultura económica do PS, que é afinal a cultura dominante em Portugal, a empresa com lucros é vista como aquela que não precisa de ajuda, enquanto a empresa sem lucros aparece como merecedora de apoio. O resultado pode ser uma selecção às avessas:
  • tributa-se progressivamente quem acumula capital e cresce;
  • subsidia-se quem não consegue sobreviver autonomamente (lembram-se do Chapeleiro Louco que menciono acima? As empresas que mais beneficiaram desse apoio foram a SONAE e a Jerónimo Martins) ;
  • conservam-se empresas de baixa produtividade;
  • impede-se a libertação de recursos para novas actividades (a tão querida zombificação);
  • esquece-se quem nunca chegou a entrar no mercado.

Não significa que todas as empresas com prejuízos devam fechar nem que qualquer descida do IRC seja boa. Significa que apoiar indefinidamente empresas inviáveis pode conservar a estrutura produtiva que explica a baixa produtividade portuguesa.

A oposição fundamental não é simplesmente entre impostos altos e impostos baixos. É entre duas formas de olhar para a economia: a do PS e a minha (Regra dos mastins dos Baskerville):

O PS olha para as empresas que pagam IRC e pergunta se é justo cobrar-lhes menos. A Regra do Mastim dos Baskerville manda olhar para as empresas que não pagam IRC porque não existem, não cresceram ou escolheram outro país. 

Este exemplo inglês da semana passada ilustra bem o que estou a tentar transmitir. Perante a ameaça de mais um raide fiscal o terceiro maior contribuinte do Reino Unido no ano passado decidiu mudar-se para a Grécia. Assim, os £330 milhões que ele pagava, e que correspondem ao imposto sobre o rendimento pago por cerca de 40 mil contribuintes médios, vão desaparecer. Agora imaginem isto ao contrário... Não se iludam, a produtividade irlandesa não está baseada em empresas irlandesas.

O problema da produtividade portuguesa não é apenas aquilo que as empresas presentes possam fazer mal. É, sobretudo, aquilo que as empresas ausentes nunca chegaram a fazer cá. 

Bom, só me falta ligar esta reflexão ao artigo do FT sobre a Suíça, esse país bonito, trabalhador, orgulhoso e cuidado onde vive a minha filha e está a nascer-me uma neta. Fica para a parte II




quinta-feira, setembro 17, 2026

Alternativa à Ásia — ou stuck-in-the-middle?


Li no Dinheiro Vivo: "Portugal investe 100 milhões de euros na indústria do calçado e quer ser alternativa aos produtos da Ásia". Há boas notícias no artigo. Num continente que representa apenas 2,1% da produção mundial, Portugal conserva uma base industrial, produziu 74 milhões de pares em 2025, mantém uma balança comercial positiva e investiu em sustentabilidade, digitalização, inteligência artificial e novas tecnologias. Não é pouco.

É a expressão "alternativa aos produtos da Ásia" que me deixa desconfortável. É justo reconhecer que, no corpo do artigo, Luís Onofre fala num modelo alternativo baseado na inovação, sustentabilidade, flexibilidade, proximidade e maior valor acrescentado. Isso é muito diferente de tentar reproduzir em Portugal o modelo asiático.

A Ásia não produz apenas calçado barato, mas a sua esmagadora presença no mercado mundial assenta, em grande medida, em escala, baixos custos e ecossistemas industriais que a Europa não consegue reproduzir. Se Portugal já não tem preço para disputar o segmento médio com países de baixos salários, como poderá substituir os produtos cuja vantagem reside precisamente no preço?

Em "Precaução e optimismo", recordei que a subida do preço médio do calçado português era insuficiente para compensar o aumento dos salários e das matérias-primas. Chamei-lhe empobrecimento por erosão: continuar competitivo sem aumentar suficientemente a produtividade e o valor criado. A resposta anunciada era acelerar a migração para segmentos de maior valor acrescentado.

Pouco depois, em "…e sinto que algo não bate certo", estranhei a expressão "luxo em grande escala". De um lado, dizia-se que era preciso fazer menos coisas, mas melhores; do outro, prometia-se capacidade para grandes volumes. Luxo e escala não são sempre incompatíveis, mas exigem combinações muito diferentes de competências, processos, clientes e investimento. Tentar servir simultaneamente o mercado de volume e os nichos mais exigentes pode deixar o sector preso na conhecida armadilha do segmento médio: sem custos para vencer pelo preço e sem diferenciação suficiente para vencer pelo valor.

Por vezes, fico com a sensação de que a direcção da APICCAPS alterna entre o discurso dos nichos, do luxo e do calçado técnico e o discurso da substituição da Ásia. Talvez uma mensagem suficientemente ampla seja uma forma de manter unida, tranquila e "mansa" uma base de associados muito heterogénea. Cada empresa consegue ouvir nela o futuro que gostaria de ter.

A ambiguidade pode ser politicamente útil para uma associação, mas é perigosa como orientação estratégica. Os 100 milhões de euros são um input, não um resultado. Máquinas, robôs, biomateriais, software e inteligência artificial só criarão valor se forem transformados em produtos pelos quais alguém esteja disposto a pagar, encomendas recorrentes, maior margem, maior valor acrescentado por trabalhador e salários mais elevados. Automatizar pode aumentar a produtividade; também pode aumentar mais depressa a capacidade de produzir aquilo que o mercado já não quer.

As oportunidades existem, mas são mais específicas do que o título sugere. Portugal pode ser uma escolha superior quando o cliente valoriza proximidade, rapidez de desenvolvimento, pequenas séries, flexibilidade, rastreabilidade, qualidade, co-desenvolvimento ou menor risco de inventário e abastecimento. Pode crescer no calçado técnico, na moda de gama alta, nos componentes, na marroquinaria, nos novos materiais e até na venda de tecnologia e conhecimento industrial. Aqui, o custo relevante não é apenas o preço à saída da fábrica, mas o custo total, incluindo prazos, existências, falhas, alterações e risco.

Existe, contudo, outro perigo: investir para continuar a ser apenas a fábrica de marcas estrangeiras. A empresa portuguesa suporta o investimento, a sazonalidade e o risco operacional, enquanto a marca controla o consumidor, os dados, a distribuição e a margem principal. Subir na escala de valor exige também engenharia, design, propriedade intelectual, marcas, acesso ao mercado e poder negocial; não apenas máquinas mais modernas.

Uma associação não tem de escolher nominalmente os vencedores. Tem, porém, o dever de dizer com franqueza quais os modelos de negócio e competências que têm futuro, e admitir que nem todas as empresas conseguirão fazer a transição. Estratégia implica escolhas, concentração de recursos e abandono de caminhos sem futuro. Uma narrativa em que todos cabem confortavelmente pode evitar conflitos hoje, mas preparar desilusões amanhã.

Os 100 milhões podem ser uma excelente plataforma de lançamento. Mas Portugal não precisa de ser uma alternativa genérica aos produtos da Ásia. Precisa de se tornar insubstituível para determinados clientes, produtos e circunstâncias. É uma ambição mais estreita, menos tranquilizadora, e muito mais estratégica.

Nota escrita antes da publicação, mas depois de escrito o texto acima: Num pequeno artigo do JN de 15 de Setembro pode ler-se Luís Onofre, "A Europa não pode aceitar que a sua produção seja substituída por importações". Será que está a contar com a França para impor o "Made in Europe" não só no automóvel? Mesmo assim, como suportará os salários a substituir a Ásia?

segunda-feira, setembro 07, 2026

Outra estrutura produtiva


Mão amiga fez-me chegar um recorte do JE com uma entrevista com Armindo Monteiro, "Armindo Monteiro: "E urgente provocar um sobressalto na nação produtiva"".

Lamento, mas este anónimo da província tem uma opinião diferente da do presidente da CIP.

Eis algo em que concordo com Armindo Monteiro, a baixa produtividade portuguesa não resulta dos portugueses trabalharem pouco ou mal. Resulta sobretudo do perfil da economia e da reduzida capacidade de criar valor em cada hora de trabalho. O que ele diz:
"O grande desafio que se coloca a Portugal é o desafio da produtividade. Em Portugal o Salário líquido típico é de 980 euros (salário mediano) que compara com aproximadamente 1800 euros líquidos na média europeia. Portugal tem uma produtividade de 29 euros por hora. A Alemanha tem mais do dobro de Portugal, atingindo os 63 euros. No final de cada dia de trabalho, a Alemanha produziu mais 272 euros que Portugal. Ao fim de um dia de trabalho, na Europa, em média, são gerados mais 120 euros que em Portugal e isso explica muito da nossa crónica dificuldade em transformarmos Portugal num país prospero para todos."
Esta diferença resulta, segundo ele, de vários problemas que se reforçam mutuamente:
  • "Temos muitas empresas pequenas e pouco capitalizadas."
  • "Na economia portuguesa existe um forte peso de sectores de baixo valor acrescentado como é o caso do turismo e da restauração que têm um peso muito grande no emprego."
Monteiro considera, portanto, esgotado o modelo económico assente em baixos salários, baixo valor acrescentado e reprodução das actividades existentes.

Estes trechos que se seguem são aqueles em que começo a divergir dele:
  • "A mudança tem de começar nos próprios empresários, os quais têm de apostar em negócios mais sofisticados, integrados em cadeias de valor mais ricas e mais complexas."
  • "Em Portugal ainda temos um ecossistema empresarial culturalmente avesso ao risco e punitivo com o erro."
Depois, vamos para onde divirjo a sério dele:
  • "É urgente provocar um sobressalto da Nação Produtiva, através da valorização do trabalho, do investimento nas empresas e da redução da burocracia estatal, através da simplificação administrativa."
  • "“Portugal a horas”, ou seja, um Estado que entrega aos cidadãos e às empresas aquilo a que está legalmente obrigado, a tempo. O cumprimento desta prioridade seria o catalisador para um leque mais alargado de reformas – concorrência e neutralidade regulatória, uma administração meritocrática, reguladores e empresas públicas reformados, uma fiscalidade mais simples e favorável ao investimento, custos urbanísticos e de licenciamento mais baixos, e I&D aplicada concentrada nos setores transacionáveis."
Portanto, Monteiro acredita que o que é preciso é termos grandes empresas de [calçado, têxtil, metalomecânica, mobiliário, ...] para termos mais produtividade e ficarmos como os alemães. Sorry, isso nunca vai acontecer. Recordar St. Louis. 

Monteiro acredita que com um sobressalto a "Nação Produtiva" conseguirá dar o salto de produtividade que não deu até aqui. Monteiro, pela posição que ocupa, não pode dizer outra coisa. Monteiro acredita que a DVD leadership team consegue dar o salto; eu não. E não consegue, não por falta de vontade, mas o que produz não permite muito mais.

Há muito tempo que uso a metáfora dos mastins dos Baskerville. O problema da produtividade baixa não é culpa de quem está no terreno e dá o seu melhor; o problema da produtividade baixa é de quem não está no  terreno, de quem não existe. 


Por isso, "É urgente provocar um sobressalto da Nação Produtiva, através da valorização do trabalho, do investimento nas empresas", claro que este é o discurso que se espera de um presidente da CIP. Discurso que abre portas a apoios, subsídios e fundos europeus. É o mesmo discurso de Alexandre Relvas, acreditar que o salto na produtividade da Irlanda foi feito por irlandeses. 
    Portugal não fechará o diferencial europeu apenas tornando um pouco melhores as empresas que já tem. Precisa de criar, fazer crescer e atrair as empresas que ainda não tem; de deslocar capital e trabalho para actividades em que cada hora possa gerar muito mais valor; e de aceitar que nem todos os sectores, empresas ou modelos de negócio conseguem dar o mesmo salto.

    O problema da produtividade portuguesa não são os mastins dos Baskerville que estão no terreno e não correm suficientemente depressa. São os mastins que não estão lá. O verdadeiro sobressalto não consiste em pedir à actual Nação Produtiva que faça mais do mesmo com maior entusiasmo. Consiste em construir outra estrutura produtiva.



    sexta-feira, setembro 04, 2026

    Quando se confunde produtividade com competitividade

    O FT publicou ontem "German industry pushes to extend working week to 40 hours":

    "Four decades after German metalworkers won one of the most acrimonious labour disputes in the country's postwar history to secure a 35-hour week, some of the largest industrial employers are reviving the totemic debate over longer working hours.

    ...

    Labour has become too expensive here by international standards," Martin Brudermüller, chair of Mercedes-Benz Group's supervisory board, told German newspaper Handelsblatt recently, adding that the country had lost its "productivity advantage over important competitors".

    "We should seriously consider a return to the 40-hour week."

    ...

    What has transformed a decades-old argument into an urgent competitiveness debate is the deepening crisis in German manufacturing."

    Os alemães têm esta mania de confundir competitividade com produtividade e são duas coisas que podem ser diferentes e podem ser iguais. Quando produtividade e competividade se equivalem, temos o empobrecimento dos países.


     Custa-me a ler que líderes de empresas que supostamente sempre competiram por algo mais do que preço estejam agora, instintivamente, prisioneiros dessa mentalidade... fazem-me lembrar o último governante mouro de Granada a chorar quanto viu a cidade pela última vez.

    Segundo o artigo, desde 2017, a produção industrial alemã caiu mais de 15%, devido aos preços da energia, à concorrência chinesa, às barreiras comerciais norte-americanas e à transição para os veículos eléctricos. Embora o emprego industrial tenha diminuído mais lentamente do que a produção, os economistas esperam novas perdas de postos de trabalho. Neste contexto, o aumento do horário é apresentado como uma forma de reduzir o custo do trabalho por hora e recuperar competitividade. 

    Vamos lá ver, como medida temporária, a proposta pode ajudar empresas viáveis que atravessam um período de transição particularmente difícil. Poderá permitir aumentar a capacidade produtiva sem aumentar imediatamente os custos fixos, reduzir o recurso a horas extraordinárias, recuperar margens e criar espaço financeiro para investir em equipamentos, automação, formação e desenvolvimento de novos produtos. Mas será que o problema é falta de capacidade de produção? Não me parece.

    O problema da Alemanha é a evolução do numerador da equação da produtividade, não o da evolução do denominador. A redução de custos só afecta o denominador. É a versão alemã desta cena em Portugal.

    terça-feira, agosto 25, 2026

    Cuidado com as euforias



    Já escrevi sobre isto aqui, mas este tweet é muito mais elucidativo:

    Três postais:

    Primeiro o artigo: "'Mamma mia'. Portugal já produz mais carros do que Itália":

    "Já na indústria automóvel, o maior grupo automóvel a produzir no país (Stellantis) atingiu mínimos de 70 anos. Desde 1954 que Fiat, Alfa Romeo e Lancia não produziam tão poucos automóveis: menos de 214 mil ligeiros de passageiros. Em 1997, o país produziu mais de 1,8 milhões de automóveis."

    Recuemos a 2013 e a uma frase de Marchionne:

    "se a Fiat eliminasse a produção de carros em Itália seria uma empresa com lucros." 

    Agora, antes de ir à minha interpretação, vou contar uma história. Aliás, vou recuperá-la daqui: "The "flying geese" model, ou deixem as empresas morrer!!!"

    Há negócios que parecem eternos enquanto a curva de aprendizagem sobe. Nascem com conhecimento escasso, produtividade em crescimento e margens confortáveis. Essas margens atraem concorrentes, difundem o conhecimento e financiam novas capacidades. Mas, à medida que a tecnologia amadurece, a aprendizagem abranda, o produto torna-se comum e a concorrência passa a fazer-se sobretudo pelo preço.

    Foi o que aconteceu com o calçado em St. Louis. Em 1850, eram necessárias 15,5 horas para produzir um par de sapatos; em 1900, bastavam 1,7 horas. A explosão de produtividade criou riqueza suficiente para transformar St. Louis numa das cidades mais prósperas dos Estados Unidos e financiar e receber os Jogos Olímpicos de 1904. Depois, a curva achatou. Restando cada vez menos produtividade por conquistar, as margens começaram a depender dos salários e a produção migrou para regiões mais pobres.

    É esta a lógica dos Flying Geese. O Japão produziu roupa barata até deixar de conseguir produzi-la de forma rentável; seguiram-se a Coreia do Sul, Taiwan, a Tailândia, a Malásia e o Vietname. Cada país aproveitou durante algum tempo a actividade para aprender e enriquecer, mas teve depois de subir para negócios com mais conhecimento e valor acrescentado. O erro não está em perder a velha actividade. Está em tentar conservá-la artificialmente, em vez de usar o tempo que ela proporciona para preparar a actividade seguinte.

    A notícia de que Portugal já produz mais automóveis do que Itália pode ser lida à luz deste modelo, mas não deve alimentar demasiada euforia. Portugal subiu porque manteve a produção, enquanto a italiana caiu para mínimos de 70 anos. Em certa medida, estamos a receber uma actividade que se tornou menos sustentável num país com salários e custos mais elevados. A questão é saber se estamos a aproveitar esta posição na formação dos gansos para adquirir engenharia, tecnologia, fornecedores, conhecimento e capacidade de decisão — ou se continuamos apenas a montar automóveis concebidos e decididos noutros países. Cuidado com a lição que a Yazaki nos contou/conta.

    A electrificação da Autoeuropa e de Mangualde é um sinal positivo, porque obriga a modernizar processos e competências. Mas contar automóveis não chega. Itália ainda possui marcas como Ferrari, Lamborghini e Maserati, que produzem muito menos unidades, mas capturam muito mais valor por unidade. O verdadeiro sucesso português não será produzir mais carros do que Itália. Será conseguir aumentar a produtividade, os salários e o conhecimento nacional antes deste ganso levantar voo em direcção a outro país mais barato. 

    É por isso que as empresas portuguesas têm de pensar no dia de amanhã enquanto as encomendas de hoje ainda enchem as fábricas. Devem usar as margens, as relações e a aprendizagem proporcionadas pela montagem para subir na cadeia de valor: participar no projecto, dominar tecnologias críticas, desenvolver fornecedores, criar propriedade intelectual e conquistar capacidade de decisão. O momento de procurar o próximo ganso não é quando o actual já levantou voo; é agora, enquanto ele ainda nos dá trabalho, receitas e tempo para preparar o futuro. Porque, quando a produção migrar, e, mais cedo ou mais tarde, migrará, já será tarde para começar a aprender aquilo que devíamos ter aprendido durante a sua passagem.

    É a estória de saltar de liana em liana: