quarta-feira, janeiro 31, 2024

Cheira a 2007...



Duas notas deste artigo, "ANA critica contas e projeções da Comissão Independente em relação ao novo aeroporto de Lisboa":
"A ANA considera ainda que a CTI foi "otimista" em relação à projeção de tráfego, tendo previsto 66 a 108 milhões de passageiros em 2050, quando "entidades internacionais altamente credenciadas", preveem entre 40 a 52 milhões de passageiros em 2050.
Adicionalmente, também considera "otimistas" os cronogramas de construção e contesta o entendimento da CTI de que a opção Montijo levaria seis anos a ser construída."

Entretanto no Twitter descobri outra:

Como não recordar leituras já feitas... 

"A 2005 study examined rail projects undertaken worldwide between 1969 and 1998. In more than 90% of the cases, the number of passengers projected to use the system was overestimated. Even though these passenger shortfalls were widely publicized, forecasts did not improve over those thirty years; on average, planners overestimated how many people would use the new rail projects by 106%, and the average cost overrun was 45%. As more evidence accumulated, the experts did not become more reliant on it"

  • em 2023 li "How Big Things Get Done" de Bent Flyvbjerg e Dan Gardner. Os autores escrevem sobre a "Planning fallacy" e sobre a "The commitment fallacy":

"Research documents that the planning fallacy is pervasive, but we need only look at ourselves and the people around us to know that. You expect to get downtown on a Saturday night within twenty minutes, but it takes forty minutes instead and now you're latejust like last time and the time before that. You think you'll have your toddler asleep after fifteen minutes of bedtime stories, but it takes half an hour —as usual. You're sure you will submit your term paper a few days early this time, but you end up pulling an all-nighter and make the deadline with a minute to spare —as always.

These aren't intentional miscalculations. Much of the voluminous research on the subject involves people who are not trying to win a contract, get financing for a project, or ...

For us to be so consistently wrong, we must consistently ignore experience. And we do, for various reasons. When we think of the future, the past may simply not come to mind and we may not think to dig it up because it's the present and future we are interested in. If it does surface, we may think "This time is different" and dismiss it (an option that's always available because, in a sense, every moment in life is unique).

...

Purposes and goals are not carefully considered. Alternatives are not explored. Difficulties and risks are not investigated. Solutions are not found. Instead, shallow analysis is followed by quick lock-in to a decision that sweeps aside all the other forms the project could take. "Lock-in," as scholars refer to it, is the notion that although there may be alternatives, most people and organizations behave as if they have no choice but to push on, even past the point where they put themselves at more cost or risk than they would have accepted at the start. This is followed by action. And usually, sometime after that, by trouble; for instance, in the guise of the "break-fix cycle" mentioned in chapter 1.

I call such premature lock-in the "commitment fallacy." It is a behavioral bias on a par with the other biases identified by behavioral science. 

...

One is what I call "strategic misrepresentation," the tendency to deliberately and systematically distort or misstate information for strategic purposes. If you want to win a contract or get a project approved, superficial planning is handy because it glosses over major challenges, which keeps the estimated cost and time down, which wins contracts and gets projects approved. But as certain as the law of gravity, challenges ignored during planning will eventually boomerang back as delays and cost overruns during delivery. By then the project will be too far along to turn back. Getting to that point of no return is the real goal of strategic misrepresentation. It is politics, resulting in failure by design.

...

But as projects get bigger and decisions more consequential, the influence of money and power grows. Powerful individuals and organizations make the decisions, the number of stakeholders increases, they lobby for their specific interests, and the name of the game is politics. And the balance shifts from psychology to strategic misrepresentation."

terça-feira, janeiro 30, 2024

Sempre a rever o contexto

Ontem no JdN:

"Cerca de 12% do comércio global (mais de um bilião de dólares) passa pelo mar Vermelho todos os anos."

Há dias aqui no blogue em Análise do contexto, again:

"Merchants have worked through the excess inventory that piled up on store shelves and in warehouses over the past 18 months, and are now focusing on replenishing items rather than stocking up on goods to have on hand in case of supply-chain disruptions. The shift marks a return to the "just-in-time" inventory management strategy many companies had employed before pandemic-driven product shortages and volatile shifts in consumer demand prompted a switch to a "just-in-case" stockpiling approach." 

Em Julho de 2022 começava em Já lhe falaram? (parte II) o meu relato da leitura de "The End of the World is Just the Beginning" de Peter Zeihan:

"Perhaps the oddest thing of our soon-to-be present is that while the Americans revel in their petty, internal squabbles, they will barely notice that elsewhere the world is ending!!! Lights will flicker and go dark. Famine’s leathery claws will dig deep and hold tight. Access to the inputs—financial and material and labor—that define the modern world will cease existing in sufficient quantity to make modernity possible. The story will be different everywhere, but the overarching theme will be unmistakable: the last seventy-five years long will be remembered as a golden age, and one that didn’t last nearly long enough at that."

Gostei do livro, embora tivesse ficado de pé atrás com o excessivo americanismo do autor. Por exemplo, no livro e nos seus vídeos Peter não se cansa de dizer que a globalização vai acabar porque a marinha americana vai deixar de patrulhar as águas internacionais para proteger o comércio mundial. Não se cansa de defender que hoje em dia só a marinha americana consegue defender os navios com pavilhão americano em qualquer parte do mundo. 

Pois bem, na semana passada os Houthis demonstraram que nem a marinha americana consegue defender navios de comércio. 

Just-in-time e desglobalização até funcionam bem, mas julgo que não era a intenção dos entrevistados no primeiro texto citado lá em cima.


segunda-feira, janeiro 29, 2024

Maximizar é, muitas vezes, a via cancerosa

"The work of optimization is finding the best set of tradeoffs.

Maximization, on the other hand, seeks the solution that ranks the highest for just one goal.

...

Maximizing something is simple and may be satisfying. It doesn't involve difficult tradeoffs and it's easy to measure.

But that doesn't mean it's a good idea."

Trechos retirados de "Optimized or maximized?

domingo, janeiro 28, 2024

Planear capacidade, ou como nem todos estão no mesmo caldo, ou análise do contexto (parte VIII)

 Parte VII.

Gosto sempre de recordar a origem da Escola Comercial Oliveira Martins no Porto.

Em Por que é que os jornalistas não colocam perguntas impertinentes? escrevi acerca de "Indústria apela a plano “maciço” de requalificação de trabalhadores":

"Julgo que esta gente não valoriza a formação, e que isto não passa de "conversa da treta". Se valorizassem a formação tratavam-na como algo estratégico sobre o qual querem deter o controlo e não algo que tentam externalizar e pôr o contribuinte a pagar. Outros que continuam "in the last industrial revolution"."

Ainda recentemente o CEO de uma empresa com marca de luxo dizia numa entrevista:

"A falta de mão-de-obra ainda é um problema?

A especializada, sim. Eu tenho um défice de quase uma dúzia de pessoas na minha empresa e não consigo arranjá-las. E para a conseguirmos especializar um trabalhador é muito complicado, as pessoas acabam por desistir e preferem ir para restauração e o turismo. Precisávamos que o IEFP funcionasse de outra forma, tentando perceber junto das empresas quais são as suas necessidades em termos de formação, fazendo o levantamento da situação das empresas e das suas disponibilidades ou necessidades em termos de trabalhadores. Se calhar há empresas que têm gente a mais, pessoas que são válidas e que poderiam ser úteis noutros setores."

As pessoas particulares já perceberam que têm de ter um seguro de saúde porque o SNS não responde, e os empresários ainda acham que o IEFP lhes vai resolver os problemas de formação? Come on! 

Entretanto, ontem li no FT outro exemplo da parte VII, "Jewellery brands enter the classroom to help shape the next generation of craftspeople":

"Jewellery has long been an art form passed down the generations but, now, some brands are looking to broaden that transmission of skills — ensuring that it is as wide as it is deep.

Many brands incorporate organisational-level, practical training for the next generation, often alongside local institutions and labour departments."

sábado, janeiro 27, 2024

Imagino se isto fosse dito pelo Passos, ou pelo Trump...

Nunca esqueço a "caridadezinha":

"if you really want to reduce unemployment and poverty, it is obvious from recent history that job training has nothing to do with it."

Conjuga bem com esta cena "Biden tells coal miners to "learn to code"":

"During a rally yesterday, Democratic presidential candidate Joe Biden spoke to a crowd in Derry, N.H., a town that many miners call home. He acknowledged the economic setbacks and job insecurity that coal miners face these days, and gave them some advice: learn to code.

According to Dave Weigel of the Washington Post, Biden said, "Anybody who can go down 3,000 feet in a mine can sure as hell learn to program as well... Anybody who can throw coal into a furnace can learn how to program, for God's sake!""

Imagino se isto fosse dito pelo Passos, ou pelo Trump...  

sexta-feira, janeiro 26, 2024

Análise do contexto, again

Trecho retirado do WSJ de ontem em "Retailers Shift Inventory Strategy".

"Retailers are reviving an old playbook to manage their inventory levels after four years of struggling to find the sweet spot of holding enough merchandise but not too much.

Merchants have worked through the excess inventory that piled up on store shelves and in warehouses over the past 18 months, and are now focusing on replenishing items rather than stocking up on goods to have on hand in case of supply-chain disruptions. The shift marks a return to the "just-in-time" inventory management strategy many companies had employed before pandemic-driven product shortages and volatile shifts in consumer demand prompted a switch to a "just-in-case" stockpiling approach.

Jamie Bragg, chief supply chain officer at Tailored Brands, said just-in-time inventory management is the goal. The Houston-based parent company of Men's Wearhouse and Jos. A. Bank worked over the past few years to get better visibility into orders that are still in production overseas, positioning it to adjust orders based on demand, he said.

...

Terry Esper, a logistics professor at Ohio State University, said companies are now better able to predict shopper demand and feel they can hold leaner inventories amid moderating spending growth and fewer supply-chain disruptions.

"Retailers have more confidence in the overall supply chain and the logistics network and the environment, and as a result, they're saying, 'Hey, I think we're at a point now where we're safe to go back to just-in-time," Esper said.

Companies typically prefer not to hold large inventories because the excess stock ties up capital, requires more space and people to manage it and runs the risk of becoming outdated as trends change, logistics experts say.

Retailers have been working to get inventories back in line with sales after bringing in too much merchandise that was no longer in demand in 2022 as consumers shifted spending from items such as home decor to office apparel and then toward travel."

Que implicações para fabricantes europeus que forneçam estes retalhistas?

  • Encomendas mais pequenas
  • Aumento da volatilidade da procura
  • Necessidade de mais flexibilidade e capacidade de resposta
  • Maiores requisitos de colaboração
  • Potencial para aumento da complexidade logística.

  • Riscos e oportunidades para os fabricantes europeus:

    Riscos:
    • Instabilidade financeira: tamanhos e frequência de encomendas flutuantes podem levar a fluxos de vendas menos previsíveis.
    • Aumento dos custos operacionais: Expedições mais pequenas e mais frequentes podem aumentar os custos de transporte e logística.
    • Desafios de produção: Adaptar os processos de produção para atender à maior variabilidade e ao imediatismo dos pedidos JIT pode ser um desafio.
    Oportunidades:
    • Parcerias mais fortes: Uma colaboração mais estreita com os retalhistas pode levar a relações mais fortes e de longo prazo.
    • Capacidade de resposta ao mercado: Os fabricantes que se adaptam de forma eficaz podem responder melhor às tendências e exigências do mercado, ganhando potencialmente uma vantagem competitiva.
    • Diversificação da base de clientes: A necessidade de mitigar o risco pode encorajar os fabricantes a diversificar a sua base de clientes e reduzir a dependência de um único retalhista.
    Riscos e oportunidades para este tipo de retalhistas

    Riscos:
    • Perturbações na cadeia de abastecimento: A dependência do JIT pode tornar os retalhistas mais vulneráveis a perturbações inesperadas na cadeia de abastecimento, o que pode levar a rupturas de stock.
    • Aumento da dependência dos fornecedores: A entrega pontual torna-se crucial, aumentando a dependência da capacidade dos fornecedores de cumprir prazos apertados.
    • Volatilidade do mercado: Mudanças rápidas na procura dos consumidores podem representar desafios na manutenção de níveis ideais de inventário.
    Oportunidades:
    • Custos de stock mais baixos: Níveis mais baixos de stock podem reduzir os custos de armazenamento e transporte.
    • Maior flexibilidade: o JIT permite que os retalhistas sejam mais ágeis na resposta às tendências do mercado e às preferências dos consumidores.
    • Melhor cash flow: Ao reduzir o excesso de stock, os retalhistas podem melhorar seu cash flow e alocar recursos de forma mais eficiente.
    Prepare-se, atenção à liquidez ou linhas de crédito para lidar com períodos de procura incerta ou mudanças rápidas no mercado, diversifique a base de clientes para não depender excessivamente de um pequeno número de grandes retalhistas, melhore a integração com os sistemas TI dos clientes.

    O resto já sabe daqui do blogue: Aumentar a flexibilidade e agilidade na produção, foco na qualidade e inovação.

    quinta-feira, janeiro 25, 2024

    Um click!

    Em Explicar o mais importante (parte I) inclui esta figura:


    Olhando para o Painel B tive um click que me fez recuar até a um livro que li em 2008 - "Value Migration" (1996) de Adrian Slywotzky. O autor definiu value migration como: 
    “Value migration is the shifting of value-creating forces from declining or outmoded business models to fresh business designs that more effectively satisfy customers’ needs and priorities.”

    O autor aplica a migração de valor a 3 tipos:

    1. a migração de valor entre indústrias ou sectores económicos
    2. a migração de valor entre empresas  
    3. a migração de valor entre áreas de uma empresa.
    Segue-se um esquema que representa o ciclo de vida típico de um sector económico, ou de uma empresa. 

    Foi deste esquema que me lembrei ao rever o tal painel B.

    Na capa do JN da última terça-feira podia ler-se "Desemprego aumentou mais a Norte e castigou setores do calçado e têxtil" no miolo lia-se:
    "Porto, Felgueiras, Guimarães e Braga são dos concelhos que espelham maior aumento do número de desempregados, revelando que é sobretudo nos territórios com mais indústria, no Norte do país, que as pessoas estão a perder o sustento. É ali que estão muitas das fábricas, nomeadamente de calçado e têxteis, dois dos setores que, segundo o Instituto de Emprego, estão a ser mais fustigados pelo desemprego: a indústria do couro lidera, seguida de perto pela fabricação de minerais não metálicos e pelo vestuário."

    Penso que uma parte desta evolução é causada por factores conjunturais - se a economia nos mercados compradores afunda, claro que a procura baixa. No entanto, a grande pergunta é: quanta desta evolução é causada por factores estruturais?

    Em conversa recente com alguns empresários do calçado julgo que a maioria pensa que isto é conjuntural. Eu, pelo contrário, julgo que existe uma corrente estrutural que não deve ser menosprezada.  

    Os fabricantes portugueses foram capazes de evoluir de sapatos a 3€ o par para sapatos a 30€ o par, para isso tiveram de mudar de mercado, deixar o mercado interno, tiveram de ter fábricas mais pequenas e mais flexíveis. À medida que os custos sobem, e o preço de venda pouco mexe, cada vez mais empresários vão sentir dificuldades em continuar a manter as suas empresas a funcionar. Alguns, poucos, conseguirão evoluir para nichos onde os preços praticados são mais altos, mas precisarão de empresas ainda mais pequenas. A imigração, tal como na agricultura intensiva no sul do país, permitirá manter por mais tempo as empresas a funcionar com mão de obra barata (recordo as bofetadas).

    Como poderá um empresário do calçado em Portugal pensar o futuro? Que diferentes vias pode seguir?

    "A Roupa Nova do Rei" escrita por Hans Christian Andersen

     












    quarta-feira, janeiro 24, 2024

    Se soubesse algo acerca do futuro da economia ...

    Só na cidade de Baltimore nos Estados Unidos, antes de 1920, existiam 19 fabricantes de automóveis.

    Quando pergunto ao ChatGPT se conhece algum fabricante de automóveis nascido em Baltimore:

    "There is no major automotive brand that originated in Baltimore, Maryland. Baltimore has been more prominently known for its history in shipping, rail transport, and as a hub for various manufacturing industries. The automotive industry in the United States has been primarily centered in cities like Detroit, Michigan, which is famously known as the birthplace of several major American automotive brands."

    Pena nenhum ter tido o apoio de um governante esclarecido:

    "Se, nas eleições legislativas de 10 de março, o povo der a Pedro Nuno Santos o poder para governar o País, o novo secretário-geral do PS tem um plano para mudar a especialização da economia portuguesa,

    ...

    O líder socialista quer elevar o nível de sofisticação da economia, que assim poderá pagar melhores ordenados, através da aposta do Estado em setores estratégicos que poderão passar pelo digital, as tecnologias de informação, a inteligência artificial, a cibersegurança, as ciências da vida e a biotecnologia, o lítio associado à indústria do automóvel elétrico e as energias renováveis, segundo os economistas, consultados pelo ECO, 

    ...

    "o Estado tem a obrigação de fazer escolhas quanto aos setores e tecnologias a apoiar"

    ...

    O ex-ministro das Infraestruturas e eventual futuro primeiro-ministro defende, por isso, que é necessário um "designio nacional para a próxima década", que passa por "selecionar um número mais limitado de áreas estratégicas onde concentrar os apoios durante uma década;"

    Recordo 2012 e César das Neves em Acerca da Totoestratégia:

    "Por isso, César das Neves disse na última segunda-feira na TVI, que se o ministro da Economia soubesse algo acerca do futuro da economia, despedia-se e apostava nessa previsão para enriquecer. Ninguém pode ter a garantia de nada."

    Um privado aposta com o seu dinheiro, um ministro aposta com dinheiro dos impostados. 

    Melhor seria se os governos deixassem as empresas morrer e não escolhessem amigos, perdão, vencedores.


    Trechos retirados de "Do digital à indústria automóvel. Quais os setores estratégicos para a economia?" 

    terça-feira, janeiro 23, 2024

    "Isso das empresas estratégicas é uma treta"

    "A carga fiscal afasta [as pessoas e os investimentos]. Olham para a taxa a pensam: 'espera aí, porque é que vou ter uma fábrica aqui? Porque é que eu vou trabalhar aqui?' Preferem ir para outro sítio. Mas se dermos tempo para que a base fiscal aumente, então aí as receitas fiscais aumentam. Esse trabalho nunca ninguém quis fazer. Também é um trabalho de médio prazo.
    ...
    Houve dois casos recentes em Portugal, a TAP e a Efacec, em que o Estado teve uma intervenção direta. Como olha para esses dossiês?
    Foi uma má utilização de dinheiro. Mas o problema não é só quando o Estado mete dinheiro, mas quando intervém antes disso tudo acontecer. Depois quando põe o dinheiro é um problema complicado porque estamos todos a pagá-lo e vamos pagar caríssimo. Estou em desacordo total. Isso das empresas estratégicas é uma treta. Nem é um critério [para salvar empresas] nem é verdade. O que é que é estratégico?! Atrair investimento bom é que é estratégico. O que é que têm de estratégico empresas que durante anos tiveram uma operação negativa? Nada.
    Absolutamente nada."

    Acerca da carga fiscal em Portugal recordar:

    Acerca da importância do investimento directo estrangeiro recordar:
    Acerca das empresas estratégicas recordar:


    Trechos iniciais retirados de "Isso das empresas estratégicas é uma treta. Vamos pagar caríssimo pela TAP e Efacec

    segunda-feira, janeiro 22, 2024

    Acerca do contexto

     




    Figuras retiradas de Centre for the New Economy and Society - Chief Economists Outlook - January 2024

    domingo, janeiro 21, 2024

    Explicar o mais importante (parte II)

    Parte I

    "In this paper we argue that endogenous product selection provides a neglected source of bias in measured productivity in addition to the conventional biases of exit self-selection, endogeneity, and misspecification of the production technology and demand. When firms choose their products at a more disaggregated level than is observed in plant- and firm-level datasets, measured productivity reflects both characteristics of the firm and attributes of the products that are non-randomly chosen by the firm. To characterize the resulting bias in measured productivity, we develop a model of industry equilibrium in which firms endogenously sort across products. Following the standard "revenue production function" estimation approach, we use the model to derive the bias in measured firm and aggregate productivity. Calibrating the model's parameters, we show that the bias in measured firm and industry productivity can be quantitatively large and influences the response of both productivity measures to changes in parameter values.
    Our analysis points to a number of areas for further research. On the one hand, the estimation of structural models of industry equilibrium that feature endogenous product choice is a promising line of inquiry. On the other hand, the development of census of production datasets containing detailed information on establishments' output, inputs, and prices by product is clearly a priority. While census datasets typically allocate establishments to a "main industry" based on their largest good, our research points to the additional insights to be gained from gathering more detailed information on the set of goods establishments supply. It is important to remember, however, that even when this information is available, the industrial classification used is typically coarse compared to the level at which firms make decisions about products. As a result, the bias in measured productivity induced by endogenous product selection is likely to remain a concern."

    Recordei agora um postal, redigido à porta de uma moradia em Guimarães com uma garagem onde ouvia uma máquina de bordar a trabalhar, sobre a produtividade e o numerador como variável e não como uma constante. Escrito em Agosto de 2011 explicou melhor um outro escrito em Outubro de 2006.

    Alterar o tipo de produtos produzidos é uma forma de alterar o numerador da equação da produtividade. E de que maneira.

    Trecho retirado de "Products and Productivity" publicado pelo The Scandinavian Journal of Economics 111(4), 681-709, 2009.

    sábado, janeiro 20, 2024

    Não é como começa, é como acaba!

     


    Até pode custar 1€ no primeiro mês de funcionamento.

    Como dizem no futebol: Não é como começa, é como acaba!



    Um bruá!

    Aquando da apresentação do orçamento de estado o governo publicou:

    Se publicou é porque o seu gabinete de Marketing achou positivo.

    No passado fim de semana, na convenção do Chega, o mesmo número e título foi mencionado e foi um bruá!!!

    Seguiram-se logo os desmentidos e explicações pelos afectos ao governo.

    Interessante esta mudança da maré. Interessante como aquilo que era usado num momento como arma pró passou a ser usado como arma contra no momento seguinte.


    sexta-feira, janeiro 19, 2024

    Explicar o mais importante

    "Predating Raymond Vernon's work (Vernon, 1966) on the product cycle theory by several decades, Kaname Akamatsu identified two empirical regularities of industrial development (Akamatsu, 1935, 1937).' One is a time-series pattern of a given industry, shifting from imports to import-substitution for the domestic market, and exports (Figure 1, Panel A). The other is a time-series production pattern across industries, in which a series of industries appear, prosper, then decline and finally disappear one after another (Figure 1, Panel B). Because these patterns reflect wild geese flying in ranks, they are called flying geese patterns of industrial development and are referred to extensively in explaining the production patterns of the East and Southeast Asian countries.

    Recordo a primeira vez que mencionei os Flying Geese aqui no blogue - "why some countries grow faster than others" (parte II)

    Recordo outro postal sobre os Flying Geese e a evolução dos sectores industriais - The "flying geese" model, ou deixem as empresas morrer!!!

    "An FG analogy came originally from Akamatsu's empirical findings of the sequential development pattern of imports (M) leading to domestic production (P) and then to exports (X). The sequence involved thus goes beyond a process of import substitution under protection (i.e., infant industry protection) and ultimately leads to exporting.
    ...
    It should be noted, however, that in this age of globalization multinationals (MNCs) can now create new export industries instantly via foreign direct investment (FDI) in the developing host countries (i.e., FDI → P → X) that is, gradual industry building under protection (MPX) is replaced by instant industry building via FDI. [Moi ici: Recordo postais sobre a importância do investimento directo estrangeiro como A receita irlandesa, como Tamanho, produtividade e a receita irlandesa]
    ...
    A second FG pattern is a sequence of structural change in industrial development, not only in the order of 'capital goods following consumer goods', but also 'in the progression from crude and simple goods to complex and refined goods'."
    Trecho inicial e figura retirados de "Industrial Upgrading in a Multiple-cone HeckscherOhlin Model: The Flying Geese Patterns of Industrial Development" de Kozo Kiyota e publicado por Review of Development Economics, 18(1), 177-193, 2014.

    Trechos finais retirados de "The (Japan-Born) 'Flying-Geese' Theory of Economic Development Revisited - and Reformulated from a Structuralist Perspective" de Terutomo Ozawa e publicado por Global Policy Volume 2 . Issue 3 . October 2011.

    Recordo de ontem o final deste postal - Heterogeneidade e produtividade: Julgo que ajuda a explicar o mais importante, o salto de produtividade que falta a Portugal.

    Por exemplo, este artigo de ontem "Discoteca Amália fecha portas após 30 anos de vendas de CDs e vinis". Negócios que não conseguem aumentar o seu valor acrescentado, com o tempo, deixam de poder pagar salários competitivos, daí a falta de pessoal, e deixam de poder pagar rendas, ou matérias-primas de qualidade. Por isso, este postal A brutal realidade de uma foto.

    quinta-feira, janeiro 18, 2024

    Uma curiosidade

     Em Setembro de 2010 brinquei com isto "Nem de propósito" por causa de um artigo de Quesado no Diário Económico. 

    Interessante como o mesmo parágrafo é usado pelo autor ao longo dos anos com pequenas variações:

    • em 2012 no Público.
    • em 2007 no JdN.
    • em 2016 no Jornal Económico.
    • em 2014 no Povo Livre.
    • e julgo que em 2023 e 2021 no Dinheiro Vivo.
    Liga bem com:
    E com o FT de ontem:

    "Os conhecidos baixos índices de "capital estratégico" e a ausência de mecanismos centrais de "regulação positiva" têm dificultado o processo de afirmação dos diferentes protagonistas desta sociedade"

    Os políticos é que sabem, por isso, podem colmatar os "baixos índices de "capital estratégico"" e criar "mecanismos centrais de "regulação positiva"."

    Heterogeneidade e produtividade

    "In his Nobel lecture, James Heckman named 'the evidence on the pervasiveness of heterogeneity and diversity in economic life' the most important empirical discovery from econometric analyses using micro data. Everybody who has ever worked with plant- or enterprise-level data will agree - there is no such thing as a representative firm, not even in four-digit industries where growing and shrinking, entering and exiting firms can be found in each period. Productivity differentials are a case in point as regards firm heterogeneity within industries. 'Of the basic findings related to productivity and productivity growth uncovered by recent research using micro-data, perhaps most significant is the degree of heterogeneity across establishments and firms in productivity in nearly all industries examined'." [Moi ici: Como não recordar o Lugar do Senhor dos Perdões ou Voltar ao Lugar do Senhor dos Perdões]
    Seguem-se agora uns trechos que explicam o mindset das polítcas bem intencionadas:
    "The empirical facts uncovered in microeconometric studies motivated formal models for the dynamics of industries with heterogeneous firms
    ...
    In these models, productivity differentials play a central role in the entry, growth and exit of firms. In equilibrium, growing and shrinking, exiting and entering firms that have different productivities are found in an industry.
    ...
    [Moi ici: Os políticos gostam de estabilidade, receiam a incerteza. Vêem com maus olhos o encerramento de empresas] H1. Firms that exit in year t were less productive in t-1 than firms that continue to produce in t.
    Given that firms with a low productivity have a higher probability of exit at a point in time, exiting firms will be concentrated among the least productive units. [Moi ici: Por isso, os políticos pensam que as empresas com baixa produtividade têm de ser subsidiadas, têm de ser apoiadas, para que não encerrem. A desculpa é a de que os apoios ajudarão as empresas a aumentarem a sua produtividade] 'Less productive' means that the productivity distribution of exits is stochastically dominated by the productivity distribution of the continuing firms.
    H2. Firms that enter the market in year t are less productive than incumbent firms in year t.
    This follows from the selection process described above that leads to an improvement of the productivity distribution of incumbents over time because in each period the less productive firms have the highest probability to fall below the critical level and, therefore, to exit. Here, 'less productive' means that the productivity distribution of entries is stochastically dominated by the productivity distribution of incumbents.
    H3. Surviving firms from an entry cohort were more productive than nonsurviving firms from this cohort in the start year."

    Não me custa nada a crer no poder estatístico de H1, H2 e H3 no texto acima numa economia de mercado. Isto ajuda a explicar o aumento da produtividade agregada num dado sector económico. No entanto, não ajuda a explicar o mais importante. 

    quarta-feira, janeiro 17, 2024

    Penela, produtividade, trabalhadores, censos, autoestrada e inimigos

    Ontem de manhã apanhei a parte final de "A História Do Dia", na rádio Observador, sobre o tema "A IA vai ficar com os nossos empregos?". Ouvi os últimos minutos que terminaram assim:

    "Os dois problemas do país são a falta de produtividade e a falta de mão de obra"

    Sorry, só há um problema, a falta de produtividade. Tudo o resto decorre deste.

    Depois, à hora do almoço li no Diário de Coimbra, atraído por uma capa com uma cena de corrupção à base de queijos e spa:

    "No entanto, Eduardo Nogueira dos Santos revelou que, «hoje, Penela tem praticamente pleno emprego, sendo que uma das maiores dificuldades dos nossos maiores empregadores reside na captação de trabalhadores». «Temos falta de trabalhadores, porque temos um tecido empresarial robusto, em que a procura excede a oferta. Mas também porque temos falta de habitação, o que também faz com que percamos população e eleitores e, indiretamente, provoca que o municipio veja a sua capacidade de investimento reduzida», frisou."

    Temos aqui uma argumentação interessante:

    • falta de trabalhadores;
    • tecido empresarial robusto;
    • procura excede oferta;
    • falta de habitação;
    • perdemos população;
    • capacidade de investimento reduz-se.
    Hoje em dia quando me falam em falta de trabalhadores torço logo o nariz. Recordo de Novembro passado "Depois não se venham queixar das empresas zombies". 

    A falta de trabalhadores não é uma causa raiz, a causa raiz é a baixa produtividade. Porque a produtividade é baixa não se conseguem pagar salários que atraiam as pessoas. Por isso, o salário médio do concelho ainda não conseguiu ultrapassar o valor atingido em 2012. Por isso, o concelho de Penela perdeu mais de 9% da sua população em 10 anos segundo o Censos de 2021. Quanto à robustez do tecido empresarial o Censos de 2021 diz-me que em 10 anos:

  • População empregada na Agricultura e Pescas 2,7 % +0,4 р.р.
  • População empregada na Indústria e Construção 27,6 % -1,1 р.р.
  • População empregada nos Serviços 69,6 % +0,7 p.p
  • Trabalhadores por conta de outrem 1.628 -3,4 
  • Empregadores 235 -2,5 %
  • Trabalhadores isolados 240 +50,9 %
  • População ativa com 25 a 44 anos 41,9 % -12,4 p.p.
  • População ativa com 55 e mais anos 23,8 % +10,5 p.p.
  • No JdN da passada segunda-feira sublinhei estas palavras:
    "Falou do candidato Pedro Nuno Santos. Como olha para a proposta dele de aumentar o salário mínimo para mil euros em 2028?
    Acho que mil é pouco. Devia ser muito mais elevado, mas, para isso, precisamos de uma economia que suporte um salário digno, isso é que é importante. Precisamos de crescer 4%, 5% ao ano de forma sustentada."

    BTW, a entrevista ao presidente da câmara de Penela é um manancial de temas para este blogue. Mais um:

    "Neste campo, não posso deixar de evidenciar a satisfação com que recebemos a notícia de que no dia 1 de janeiro corrente, as portagens da Al3 iriam ser reduzidas. Menos 65% (desconto) é muito impactante para o nosso território. Porque não nos interessa estar a 15 minutos de Coimbra se isso comporta uma despesa demasiado elevada para a maioria das famílias a utilizarem. Com esta medida, de inteira justiça para as populações, mas sobretudo de extremo interesse para as empresas da região, trazemos também mais centralidade e maior qualidade de vida para Penela», sublinhou."

    Qual a remuneração base média mensal dos trabalhadores por conta de outrem no concelho de Penela em 2019 (última ano do Pordata com números)? 776,3 €.

    Qual a remuneração base média mensal dos trabalhadores por conta de outrem no concelho de Coimbra em 2019 (última ano do Pordata com números)? 966,1 €.

    Qual o sentido mais provável do fluxo de trabalhadores?

    Para um político nacional mergulhar a sério no tema da produtividade é perigoso para a sua carreira, porque se for sério vai fazer inimigos. Onde estará a tal fábrica?

    terça-feira, janeiro 16, 2024

    Uma via difícil e os escolhedores de vencedores (parte II)

    Há dias escrevi Uma via difícil e os escolhedores de vencedores sobre a atracção dos políticos por serem eles a fazerem o papel do mercado e a escolherem os vencedores. 

    Entretanto, no último caderno de Economia do Expresso Ricardo Reis aborda o tema:
    "Pedro Nuno Santos é o novo secretário-geral do PS. No seu discurso no congresso do partido, ele prometeu romper com o espírito antirreformista dos Governos de António Costa (de que fez parte) para conseguir uma "transformação estrutural da economia." A trave-mestra do seu pensamento económico é a "obrigação de fazer escolhas quanto aos sectores e tecnologias a apoiar". Ao contrário de outros temas, em que Santos é mais vago acerca do que promete (como é normal nos líderes partidários em eleições), esta é uma convicção profunda pessoal que vai caracterizar um futuro Governo que ele lidere.
    A discussão sobre a capacidade de o Estado escolher bem os sectores e as tecnologias a apoiar, ou o seu sucesso a promover transformações estruturais, é um tema clássico.
    ...
    No que diz respeito a promover o "perfil de especialização" com "potencial de arrastamento da economia" (palavras de Santos) é difícil pensar num melhor exemplo do que a Efacec. 
    ...
    Infelizmente, hoje é um exemplo também de que quando um Governo escolhe um campeão nacional e se empenha a facilitar o seu crescimento acabamos com um escândalo de corrupção.
    Não há volta a dar, o historial pessoal de Santos como investidor em sectores estratégicos e como transformador de empresas públicas até hoje foi um desastre. Talvez melhore se ele for primeiro-ministro. Um facto bem documentado no estudo dos gestores de carteiras financeiras é que os homens (mas não as mulheres) têm um otimismo persistente nas suas capacidades, que resiste à acumulação de perdas atrás das perdas. Para alguns, este desvio da racionalidade é uma forma de carisma. Para gerir dinheiro, costuma ser algo a evitar."


    segunda-feira, janeiro 15, 2024

    "who thinks about the entire company”

    "In a recent CEO research study we conducted, we interviewed a dozen CEOs of mid- to large-size companies. There was one key challenge every CEO mentioned: their frustration at not being able to get their executive teams to work together. “I’m the only one who thinks about the entire company,” one CEO lamented, “and despite my best efforts, each of my executives is only concerned with their own function or team.”

    It's long been recognized that cross-functional collaboration is essential. Still, stubborn silos that bog down execution, hamper innovation, and slow decision-making are still a common and persistent challenge. In our work with company leaders, we've found that without leaders working together at the top, silos and dysfunction are inevitable. The onus is therefore on senior leaders to knock down these silos — moving beyond their ability to lead their own teams to also prioritize leading across the organization."

    É por isto que a abordagem por processos: ver uma organização como um conjunto de processos teleologicamente focados na sua razão de ser, no seu propósito. Um fluxo a caminho dos entregáveis ao cliente do processo e indiferente a barreiras e "alfândegas" departamentais.

    Quanto maior uma organização, maiores os benefícios da adopção da abordagem por processos. Porque:

    • facilita a coordenação entre diferentes departamentos, garantindo que todos estão alinhados com os objectivos da organização;
    • ajuda a identificar redundâncias e gargalos, permitindo que a organização optimiza as suas operações. Quanto maior uma organização, maior o impacte das ineficiências;
    • incentiva a análise e revisão contínua dos processos. Quanto maior uma organização, maior o efeito multiplicador.
    Infelizmente, a maioria das empresas que pensa estar a usar a abordagem por processos em boa verdade não o está.

    Exportações de 2023

    Exportações dos onze meses de 2023:



    domingo, janeiro 14, 2024

    O futuro, a abstinência e a taxa de juro

    "Animals do not seem to consider the future in the same manner as we do. [Moi ici: Esse é para mim o significado de Adão e Eva passarem a ser mortais, quando tomaram consciência do futuro] If you visit the African veldt, and you observe a herd of zebras, you will often see lions lazing about around them. And as long as the lions are lying around relaxing, the zebras really do not mind. This attitude seems a little thoughtless, from the human perspective. 

    ...

    Relaxed lions are never a problem!" Zebras do not seem to have any real sense of time. They cannot conceptualize themselves across the temporal expanse. But human beings not only manage such conceptualization, they cannot shake it. We discovered the future, some long time ago —and now the future is where we each live, in potential. We treat that as reality. It is a reality that only might be-but it is one with a high probability of becoming now, eventually, and we are driven to take that into account.

    You are stuck with yourself. You are burdened with who you are right now and who you are going to be in the future. That means that if you are treating yourself properly, you must consider your repetition across time. You are destined to play a game with yourself today that must not interfere with the game you play tomorrow, next month, next year, and so on."

    Li isto há dias em "Beyond Order" de Jordan Peterson. 

    Agora, acabo de ler em "The Price of Time" de Edward Chancellor:

    "The argument of this book is that interest is required to direct the allocation of capital, and that without interest it becomes impossible to value investments. As a reward for abstinence' interest incentivizes saving. Interest is also the cost of leverage and the price of risk. When it comes to regulating financial markets, the existence of interest discourages bankers and investors from taking excessive risks."

    E o que é esta abstinência? O sacrifício, o adiar a gratificação imediata:

    "Depois da expulsão do paraíso, porque descobrimos que éramos mortais, porque descobrimos que havia uma coisa chamada futuro tivemos de começar a trabalhar. [Moi ici agora: Na verdade no Paraíso também se trabalhava, ver Gn 2, 15] Trabalhar gera frutos que podem ser consumidos de imediato, ou podemos atrasar a gratificação e investir alguns desses frutos em buca de um futuro melhor. Ora uns investem muito, outros investem menos, outros não investem nada. Assim, quando o futuro chega, uns têm mais retorno, outros menos e outros nenhum. Nessa altura cresce a inveja e Caim mata Abel."


    sábado, janeiro 13, 2024

    "rates turned negative"

    "After the Lehman Brothers bankruptcy in September 2008, neoliberal economists implemented the anarchist Proudhon's revolutionary scheme. Central bankers pushed interest rates to their lowest level in five millennia. In Europe and Japan, rates turned negative - an unprecedented development.

    ...

    Central bankers congratulated themselves for restoring calm on Wall Street. The bogey of deflation was dismissed. Unemployment came down sharply. These were the 'seen' effects of zero interest rates. The secondary consequences of zero interest rates went largely unseen. Yet they were there for anybody who cared to look.

    ...

    the sharp decline in interest rates had encouraged households to spend more and save less. The downside of bringing forward consumption from the future, White suggested, was that people must in fact save more for any predetermined goal; and, given the prevailing low interest rates, it would take much longer to accumulate a satisfactory nest egg The authorities believed that low rates would boost corporate investment. But White suggested firms were actually investing less. Furthermore, ultra-easy money was responsible for the misallocation of capital. Creative destruction was thwarted. 'It is possible,' White concluded, 'that easy money conditions actually impede, rather than encourage, the reallocation of capital from less to more productive resources.' By lowering the cost of borrowing, ultra-easy money provided an incentive for investors to take undue risks. At the same time, insurance companies and pension providers were struggling to cope with the low interest-rate regime. Given the low cost of borrowing, governments were unconstrained to run up their national debts. In the last analysis, easy money served only to postpone the day of reckoning. 'Aggressive monetary easing in economic downturns is not a "free lunch", concluded White, 'at best, it buys time to rebalance economies. In reality, this opportunity is wasted.' On Wall Street, they talked about 'kicking the can'."

    Trechos retirados de "The Price of Time" de Edward Chancellor.

    Pergunta honesta: qual o significado?

    Qual o significado de ter uma mesa no escritório assim?

    Qual o significado de aceitar, querer, ser fotografado diante de uma mesa assim?



    sexta-feira, janeiro 12, 2024

    Como ainda não morremos, voltamos ao bilhar

    "This long run is a misleading guide to current affairs. In the long run we are all dead. Economists set themselves too easy, too useless a task if in tempestuous seasons they can only tell us that when the storm is long past the sea is flat again"

    John Maynard Keynes

    Não sei porque é que as pessoas se queixam da inflação elevada e das suas consequências? Será porque algures o longo prazo torna-se presente e afinal ainda não morremos?

    A vida para além do défice existiu e passou por chamar a troika.

    "No very deep knowledge of economics is usually needed for grasping the immediate effects of a measure; but the task of economics is to foretell the remoter effects, and so to allow us to avoid such acts as attempt to remedy a present ill by sowing the seeds of a much greater ill for the future".

    Ludwig von Mises

    quinta-feira, janeiro 11, 2024

    Acerca dos jogadores amadores de bilhar

    ""In the sphere of economics, a habit, an institution, or a law engenders not just one effect but a series of effects. Of these effects only the first is immediate; it is revealed simultaneously with its cause; it is seen.

    The others merely occur successively; they are not seen; we are lucky if we foresee them.

    The entire difference between a bad and a good Economist is apparent here. A bad one relies on the visible effect, while the good one takes account of both the effect one can see and of those one must foresee."

    The bad economist, says Bastiat, pursues a small current benefit that is followed by a large disadvantage in the future, while the good economist pursues a large benefit in the future at the risk of suffering a small disadvantage in the near term."

    Há milhares de anos escrevo aqui no blogue sobre os jogadores amadores de bilhar ... 


    Trecho retirado de "What is Seen and What is Not Seen" de Frédéric Bastiat.

    quarta-feira, janeiro 10, 2024

    Ficar na Terra do Nunca

    Nunca li a estória do Peter Pan num livro. Aos 8 anos comecei a ler aqueles “patinhas” brasileiros com as histórias das personagens da Disney. Aí comecei a encontrar pequenas estórias, episódios, do Peter Pan na Terra do Nunca com a Wendy, os Meninos Perdidos o Capitão Gancho.

    Há tempos descobri que o autor escreveu o livro com camadas de significados a envolver as personagens. Porquê não li o livro escapou-me tanta coisa sobre a vida interior das personagens. Claro que o Capitão Gancho tem medo do crocodilo, quem não tem medo de um crocodilo a correr atrás de si? Mas um crocodilo com um relógio na barriga? Tic Tac Tic Tac. Gancho é cada um de nós com medo da morte que se aproxima inexoravelmente. 

    Eu, que gosto tanto de metáforas, já arranjei mais uma para as PMEs e para mim. Peter Pan, a criança que não quer deixar de ser criança. Já aqui escrevi sobre o espaço de Minkowski, as escolhas que fizemos no passado limitam as escolhas que podemos fazer no presente. Escolher mal hoje significa limitar o campo de possibilidades no futuro. Muitas vezes optamos por não escolher com medo da perda de potencial. E ser criança é isso, é um campo de possibilidades em aberto. Crescer significa começa a fazer escolhas. E para uma PME escolher é ter uma estratégia e, como dizia Porter, tão importante ou mais ainda é escolher o que não fazer, do que escolher o que fazer. Não escolher é ficar na Terra do Nunca. Não escolher é querer servir todos os clientes, é ficar stuck-in-the-middle.

    Esta pergunta é genuína, mesmo. (parte II)

    Comunico que me informaram da razão para a dificuldade de atracção referida na parte I


    Agora fica tudo mais claro. A navalha de Occam funciona mesmo, a explicação mais simples é a preferível.

    O marketing é extraordinário.


    terça-feira, janeiro 09, 2024

    Uma via difícil e os escolhedores de vencedores

     E volto a "A Growth Strategy for the Greek Economy":

    "Global competition in all sectors of the economy, and particularly in manufacturing, demands a reduction in production costs through the introduction of advanced technologies, and the development of innovative high-quality products. Success in these areas requires R&D activities. However, R&D spending in Greece is low compared to other European countries. For example, in 2018, the R&D spending of Greek firms accounted for 0.57% of GDP, compared to 1.41% on average in the EU (Figure 5-13, Section 5.4)."

    O texto sublinhado implica que à medida que os custos de produção baixam, o sistema produtivo tem de ser capaz de produzir e vender muito mais unidades para poder pagar o capital investido. Uma via difícil. 

    Outra vez, os autores não colocam a hipótese da economia se mover na horizontal.

    A propósito, no JdN de ontem li:

    "Se quando venceu as diretas o discurso foi criticado pela falta de preparação, no encerramento do 24.° congresso do PS Pedro Nuno Santos fez questão de dizer ao que vinha: pretende implementar um novo modelo "com mais dinheiro para menos setores" da economia,

    ...

    A grande mudança, anunciou, será feita - se vencer - na forma como os apoios passarão a ser atribuídos, selecionando "um número mais limitado de áreas estratégicas onde concentrar os apoios durante uma década". Defendeu que "é tempo de ser claro e de fazer escolhas [na atribuição de incentivos|". "Só conseguiremos transformara economia com mais dinheiro para menos setores.""

    Quem segue este blogue sabe que eu cada vez mais torço o nariz ao efeito nefasto dos subsídios na economia. No entanto, o que acho interessante nesta proposta é saber quais são as áreas estratégicas. Quais os critérios para a sua definição? BTW, "picking winners" sempre deu asneira, daí a minha proposta de longa data "deixem as empresas morrer".

    BTW, ainda acerca de Pedro Nuno Santos e este pormaior:

    "Isto porque, explicou, "a economia está em profunda transformação", onde "a automatização, a robotização e a inteligência artificial têm um enorme potencial para aumentar a produtividade, mas trazem desafios". "Neste processo, muitos setores altamente lucrativos mas com poucos trabalhadores, deixam de contribuir para o sistema de segurançasocial tanto quanto poderiam e deveriam", enfatizou."

    Que mais treta vai inventar ao melhor estilo do jogador de bilhar amador, tão focado na próxima jogada, na jogada imediata, que não se pensa nas consequências dessa jogada. Um clássico deste blogue: Nós não estudámos até ao fim todas as consequências das medidas que sugerimos.

    Sempre preocupados em sacar e não em criar riqueza. Aquele "setores altamente lucrativos", faz-me logo pensar no Portugal actual, se ganhas mais de 1800 euros por mês já és rico pela bitola socialista.

    Já nem a UE nos consegue salvar deste monstro fiscal.

    segunda-feira, janeiro 08, 2024

    Come on, aumentar a produtividade à custa de apoiar salários?!

    Primeiro, pelo que vou lendo, tenho uma opinião positiva sobre a evolução da economia grega. Recordo, por exemplo este postal do início do passado mês de Dezembro, "A receita irlandesa na Grécia (parte II)", ou este outro publicado no início do passado mês de Outubro, "A receita irlandesa na Grécia".

    Segundo, há dias escrevi este postal "Por causa de uns pastéis de nata (parte II)" que termina com um comentário a um video de Milei:

    "Voltando agora ao vídeo de Milei. Simpatizo com a teoria, mas o desafio é criar as condições para que a evolução horizontal na figura acima possa ocorrer a uma velocidade tal que não torne a transição muito dura. Contudo, os governos fazem exactamente o oposto. Em vez de apoiarem o novo, apoiam os incumbentes, fica-se numa terra de ninguém tão bem descrita por Spender e Taleb."

    Na passado Sexta-feira mão amiga mandou-me este artigo, "A Growth Strategy for the Greek Economy" que me levou ao original.

    Escolhi começar pelo capítulo 3, "Vision and goals for the Greek economy" e o que li ... não me agradou:

    "Employment in manufacturing has fallen internationally, but in Greece it has declined excessively. This is attributable to distortions that have led to too many self-employed individuals and small businesses that are dominant in the specific environment. In more technologically mature EU member states (the so-called EU15 group), the share of labour in the manufacturing sector was 20% in 2000, and just 14% in 2019. The reasons behind this reduction are new technologies and globalisation, in particular China's emergence and its impact on international trade. In Greece, 14% of the labour force was employed in manufacturing in 2000 and 8.2% in 2019. Based on Greece's technological lag compared to the EU15 countries and its relatively closed economy, one would expect that the share of employment in manufacturing would be larger than in the EU15. Indicatively, in Portugal, which is at the same technological level as Greece, 22.7% of the labour force was employed in manufacturing in 2000 and 17.6% in 2019.

    It is important to contain the reduction of employment in Greece's manufacturing sector and to achieve a convergence to the EU average. Currently, Greece exhibits one of the lowest shares of manufacturing activity in the EU, comparable only with the Netherlands and the Nordic countries - economies with much higher per capita income and greater industrial maturity. Policy proposals for enhancing Greece's manufacturing sector, and the remaining sectors examined in this section, are examined in detail in Chapter 6. This section summarises the main directions.

    The support of salaried employment is critical to the growth of the manufacturing sector in Greece. Greek manufacturing firms are generally small, in part due to the particularly high number of self-employed in the services sector. When measures to support salaried employment are adopted, these businesses will have a greater comparative advantage in the international markets and will grow."

    E recuo a 2006 e à ideia de Blanchard sobre a redução de salários para aumentar a produtividade que comentei em "Redução dos salários em Portugal" (Blanchard retratou-se em 2017). E recordo Reinert e o caso do Uganda e o quadrante do empobrecimento.

    O que os autores propõem no artigo citado acima é aumentar a competitividade das empresas apoiando-as no pagamento dos salários dos seus trabalhadores. Weird!!!

    O que estes autores não perceberam ainda foi a necessidade do que escrevi acima "mas o desafio é criar as condições para que a evolução horizontal na figura acima possa ocorrer a uma velocidade tal que não torne a transição muito dura". Não conseguem ganhar produtividade a proteger o passado.

    domingo, janeiro 07, 2024

    Esta pergunta é genuína, mesmo.

     No Dinheiro Vivo de Ontem em "Luís Onofre "Ajudámos os bancos na altura da troika, é tempo dos bancos ajudarem as empresas"" sublinhei:

    "A falta de mão-de-obra ainda é um problema?

    A especializada, sim. Eu tenho um défice de quase uma dúzia de pessoas na minha empresa e não consigo arranjá-las. E para a conseguirmos especializar um trabalhador é muito complicado, as pessoas acabam por desistir e preferem ir para restauração e o turismo."

    Tão estranho... a empresa de Luís Onofre não será das mais pobres do sector e, mesmo assim, não consegue ser mais atraente que a restauração e o turismo? Por que será? 

    Esta pergunta é genuína, mesmo.

    sábado, janeiro 06, 2024

    Não é impunemente ...

     No JN de 4 de Janeiro passado li "Sonae encerra supermercados Go Natural até final do mês". 

    Recordei logo o fim da Berg em Onde a vai expôr?

    Recordei Sem estar com as mãos na massa...

    Recordei Vou apenas especular.

    Quando fogem do negócio do preço ... sofrem do que referimos há poucos dias Não é impunemente ...

    sexta-feira, janeiro 05, 2024

    Confirmation bias

     "The tricky thing about the confirmation bias is that it can look very scientific. After all, we're collecting data. Dan Lovallo, the professor and decision-making researcher cited in the introduction, said, "Confirmation bias is probably the single biggest problem in business, because even the most sophisticated people get it wrong. People go out and they're collecting the data, and they don't realize they're cooking the books." At work and in life, we often pretend that we want truth when we're really seeking reassurance: "Do these jeans make me look fat?" "What did you think of my poem?" These questions do not crave honest answers.

    ...

    The odds of a meltdown are one in 10,000 years.

    —Vitali Sklyarov, minister of power and electrification in the Ukraine, two months before the Chernobyl accident

    Who the hell wants to hear actors talk?

    —Harry Warner, Warner Bros. Studios, 1927

    What use could this company make of an electrical toy?

    —William Orton, president of the Western Union Telegraph Company, in 1876, rejecting an opportunity to purchase Alexander Graham Bell's patent on the telephone

    ...

    A study showed that when doctors reckoned themselves "completely certain" about a diagnosis, they were wrong 40% of the time. When a group of students made estimates that they believed had only a 1% chance of being wrong, they were actually wrong 27% of the time. We have too much confidence in our own predictions. When we make guesses about the future, we shine our spotlights on information that's close at hand, and then we draw conclusions from that information.

    ...

    The problem is that we don't know what we don't know. ...

    The future has an uncanny ability to surprise. We can't shine a spotlight on areas when we don't know they exist."

    Trechos retirados de "Decisive - How to Make Better Choices in Life and Work" de Chip and Dan Heath.

    quinta-feira, janeiro 04, 2024

    Curiosidade do dia

     "Dutch supermarket chain Jumbo said that shoplifting exceeded its annual profits last year, highlighting how the cost of living crisis has driven up crime and is hurting businesses.

    The group said yesterday that theft cost it more than €100mn in 2023, against forecast annual post-tax profit of around €80mn.

    Retailers worldwide have reported an increase in shoplifting as soaring inflation raised prices faster than wages."

    Trecho retirado do FT de hoje, "Dutch supermarket chain Jumbo reels after shoplifting losses exceed annual post-tax profit" 

    Por causa de uns pastéis de nata (parte II)

     Parte I.

    Primeiro, recomendo a visualização deste discuro de Milei:

    Agora vamos à visão tradicional dos bens transacionáveis:

    É tabu mexer no numerador porque se vê o numerador como um dado e não como uma variável.

    Qual a lei da vida nos negócios? Recordar de 2010 The Knowledge Funnel (parte I)


    Alguém vai olhar para o denominador e reduzi-lo, passando aquilo que era mistério, para um conjunto de regras heurísticas e, depois, para um algoritmo e, depois quiçá, transformando num conjunto de linhas de programação.

    Além disso, mesmo não mexendo no numerador, a lei de Kano:
    "Price is like gravity,it always goes down if you do nothing"
    Como se reduzem os custos?
    • Reduzindo o custo dos factores de produção
    • Aumentando a eficiência
    Numa economia aberta, as empresas que não mexem no numerador estão sempre sob a ameaça de "cair no abismo" quando os clientes as trocam por alguém mais barato:

    Voltando ao esquema da parte I:


    Sem mexer no que se produz, pode-se mexer no que chamei de "contexto" na figura acima para acrescentar valor através de atributos associados ao produto: rapidez, flexibilidade, ... (não coloco aqui a "marca" deliberadamente).

    Mexer no "contexto" permite ser competitivo sem no entanto ser muito mais produtivo:

    Foi isto que não vi quando escrevi "Mas claro, eu só sou um anónimo engenheiro da província". No entanto, continuo a não concordar com os economistas citados no postal: Aumentar a produtividade à custa de aumentos de volume e escala não é suficiente. Reparar na lição asiática, o que nos traz ao presente não nos pode levar ao futuro:


    Voltando agora ao vídeo de Milei. Simpatizo com a teoria, mas o desafio é criar as condições para que a evolução horizontal na figura acima possa ocorrer a uma velocidade tal que não torne a transição muito dura. Contudo, os governos fazem exactamente o oposto. Em vez de apoiarem o novo, apoiam os incumbentes, fica-se numa terra de ninguém tão bem descrita por Spender e Taleb.