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sábado, abril 06, 2019

Análise do contexto no calçado

"Há "uma fusão de várias tempestades perfeitas" no ar, a abalar a indústria do calçado à escala global e, também em Portugal.
...
No diagnóstico do quadro atual, a afetar Portugal, mas também os outros países produtores, pesam fatores vários, das alterações climáticas, à retração do consumo na Europa ou ao "novo comportamento dos clientes", com as vendas online e diretas ao consumidor a trazerem alterações de peso à cadeia de retalho e ao modelo habitual de negócio. E é ainda preciso considerar a viragem nas tendências de moda para o calçado desportivo, quando a indústria nacional ganhou fama internacional nos modelos mais clássicos.
...
as mudanças em curso no padrão do retalho, por força do mundo digital, tenderão a acentuar-se com a chegada dos consumidores mais jovens ao mercado, alerta.
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Na resposta, as empresas têm de ajustar-se e tornar-se cada vez mais ágeis. "Esta realidade não é surpresa para ninguém na cadeia de retalho e o sector do calçado está a dar grandes passos para que, num futuro muito próximo, a maioria dos sapatos sejam adquiridos online", diz o presidente da FDRA.
...
Flexibilidade e tiragens limitadas, podem ajudar as empresas a responder à nova conjuntura de consumo.
...
Quanto aos sapatos a fazer, o presidente da FDRA não tem dúvidas de que independentemente do estilo, cor ou forma, "terão sempre de ser confortáveis"."
Trechos retirados de "Calçado. Uma indústria debaixo de “várias tempestades perfeitas”"

quarta-feira, março 06, 2019

Como aumentar a facturação quando não se pode aumentar a produção por falta de pessoas? (parte V)

Parte I, parte II, parte III e parte IV.

Comecemos pelo último texto citado:

"Por outro lado, grande parte dos profissionais que dominam este ofício trabalha por conta própria, mostrando pouca disponibilidade para aceitar desafios por conta de outrem que embora estejam hoje mais valorizados monetariamente, continuam a não ser suficientemente aliciantes."
E acrescentemos uma citação do último postal:
"Business model innovation is a powerful force of abrupt market-level change, in some cases more powerful than technology.
...
Likewise, don’t let an excessive focus on your products prevent you from paying attention to your business. Many executives at incumbent businesses, wedded to their business models, react to disruption by blaming their products. As they see it, all the newfangled lemonade stands out there are stealing customers because they have created better-tasting lemonade. Stop blaming your lemonade! The truth is that the upstart’s lemonade tastes the same as yours, or maybe even worse. It’s the new business model that is stealing your customers, not the product. ”
Quem lê este blogue sabe o que é Mongo, a metáfora do Estranhistão. O mundo cauda longa a espalhar-se por todo o lado, em vez das grandes séries do século XX, customização, individualização, interacção, co-criação, proximidade, pequenas quantidades.

Há dias em "Calçado português? Bom no fabrico, desconhecido na marcavoltei a ler a actualização dos números:
"A conclusão nessa altura foi que tanto o calçado masculino como o feminino made in Portugal tinha melhor avaliação (média de 34 e 31,50 euros, respectivamente) do que o italiano (31,50 euros e 29,60 euros) quando a origem do produto não era revelada. Só que, depois de dar a conhecer a origem, o sapato português desvalorizava (-18,2%, para 27,80 euros, no masculino; e -18,4%, para 25,70 euros, no feminino), ao passo que o calçado italiano valorizava ligeiramente (+1,6% no masculino) ou mantinha o preço inalterado (no calçado feminino), ainda assim 13,6% acima do preço do calçado português."
Recordo outra comparação entre o calçado italiano e o português, a dimensão, aqui: "Calçado italiano e português" (empresas bem mais pequenas - também por causa disto).

Stop! reparem no título "Calçado português? Bom no fabrico, desconhecido na marca".

Agora, leiam o artigo "Meet the Italian Makers of Luxury":
"We are long used to applauding designers at the end of a season. But behind them is a plethora of generally unheralded artisans who also power the “Made in Italy” brand, creating everything from knits to sneakers. Now, one nascent company is aiming to place that talent firmly in the spotlight.
...
We decided we wanted to celebrate the unknown,” Mr. Johnston said, “those who are rarely identified but are also behind some of the most beautiful creations made for the luxury market.” He noted that many artisans sign strict confidentiality agreements that keep them out of the public eye. [Moi ici: Conseguem fazer o paralelismo com aquela parte do título "Bom no fabrico, desconhecido na marca"]
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 "Create ways in which consumers could truly appreciate things made by hand and preserve a crafted  society in the digital age.”
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All of the sales tags carry the label’s logo and the names of the Italian businesses that made the products, highlighting the craftspeople involved [Moi ici: Recordar "Fugir do anonimato"]. Available online are supplier details like contact and address information alongside photographs and biographies of the artisans who worked on the piece.
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As a direct-to-consumer brand, Crafted Society’s retail prices do not include the traditional distributor or wholesale markups, nor the usual markup associated with a premium brand name, which usually is 7 to 10 times the manufacturer’s cost price. (Crafted Society said its markup is three times the cost price.
...
The partnerships that Crafted Society has been building, he said, could also tackle a broader crisis weighing on the future of Italian luxury manufacturing: the struggle to find the next generation of artisans.[Moi ici: O mesmo tema do artigo do Caderno de Economia na parte IV desta série]
“Most artisans in factories and workshops now are in their 60s and 70s, and younger people are not so interested in this line of work,” Mr. Mattioli said. “We cannot recruit them by saying the big luxury names we work for because of our contracts. But if we can take pride in what we do and in our community, and can present our craft independently, perhaps we can convince them of the importance of what we do.”
E volto aquela citação com que terminei o postal anterior e iniciei este. Há anos coloquei esta pergunta numa empresa de calçado: 

- Não têm receio que os vossos trabalhadores comecem a trabalhar para marcas a partir de casa?

E pensar no 2º golo? E pensar num modelo de negócio alternativo? Como metaforicamente escreveram num comentário na parte IV: "obrigar as empresas "a saírem da vala""

Quem está focado no 1º golo pensa à la Bruce Jenner, quem pensa no 2º golo pensa em salami slicers. Quem pensa no 2º golo sabe que tem de dizer não a muita coisa.

É tão difícil fazer esta transição... Maliranta e Taleb explicam 


quinta-feira, fevereiro 28, 2019

Acerca da Micam

"“Now the world has changed. Thanks to digital disruption and transformation, the buyers are a little bit lost, in their words. [Moi ici: Aqui "the buyers" são os clientes das empresas de calçado. Recordar "Calçado português? Bom no fabrico, desconhecido na marca"] They are lost because it’s very complicated to understand what to follow, how to follow it and what time to dedicate to what," Micam's chief executive Tommaso Cancellara told BoF."
Trecho retirado de "Insights From the Frontline of Footwear"

sábado, fevereiro 16, 2019

Para reflexão pelos empresários do calçado e do têxtil

Um artigo interessante e merecedor de reflexão por muitos empresários do calçado e do têxtil, "Millennials have a new shopping habit that could spell trouble for Forever 21 and H&M".

Talvez mais uma razão para subir na escala de valor, talvez mais uma razão para pensar em Mongo e nas suas tribos.

Dá que pensar no potencial impacte numa série de modelos de negócio baseados no fast-fashion... ou no low-cost.

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Quem aproveitará?

Perspectiva interessante, o online pode estar a dar cabo das vendas nos centros comerciais norte-americanos e a promover o seu encerramento em larga escala (a densidade de centros comerciais norte-americanos é muito superior à na Europa)

Por outro lado, a economia das experiências está a promover o renascimento das lojas de rua:
"Algunos analistas de mercado lo denominan como «el renacer del comercio tradicional en los Estados Unidos». Con esta definición explican la sorprendente revitalización que está experimentando en los últimos años el comercio minorista en los Estados Unidos. Según un estudio de Credit Suisse, entre el 20 y el 25 por ciento de los grandes centros comerciales de EE. UU. cerrará en los próximos años, lo que supondrá la desaparición de entre 240 y 300 de los cerca de 1.200 existentes. Por el contario, según el banco suizo de inversión, EE. UU. experimentará un nuevo resurgir de las tiendas de proximidad."
O que faz pensar é o remate final do artigo:
"Esta renovada eclosión del retails a pie de calle supone una gran oportunidad para el sector del calzado, especialmente para aquel, como el español, que destaca por su excelente relación calidad-precio y por su diseño. Las pequeñas zapaterías que ahora están apareciendo en cada rincón de las ciudades estadounidenses necesitan diferenciarse de las grandes plataformas de distribución de zapatos mediante la selección de un muestrario original, diferente y con valor añadido. En este sentido, el calzado nacional puede ser un gran aliado de estas zapaterías de proximidad." 
Em que "prateleiras", em que feiras, em que espaços, estas pequenas sapatarias de rua vão abastecer-se com o seu portefolio de sapatos?

Quem aproveitará para trabalhar com elas na co-criação da sua oferta? E estas pequenas sapatarias frequentarão as mesmas feiras que as cadeias de sapatarias?

Trechos retirados de "El renacer del comercio minorista en los Estados Unidos, una oportunidad para el calzado español", artigo enviado pelo amigo Rui Moreira.

sexta-feira, dezembro 28, 2018

Anónimo da província, mas muito à frente

Este anónimo engenheiro da província, enquanto o mainstream culpava o euro, apontava o dedo acusador à China:
Entretanto, em Outubro de 2018 o semanário Expresso chegou lá, "Negócios da China custaram 162 mil empregos a Portugal":
"Segundo o coautor, Portugal foi claramente um dos perdedores da globalização chinesa, “não em termos de concorrência direta (importações de produtos chineses para Portugal), mas em termos de concorrência indireta, ou seja, pela substituição da exportação de produtos portugueses por produtos chineses em países como a Alemanha, França e outros”." [Moi ici: Imaginem que ainda estávamos com uma moeda manipulável por governos volúveis e ignorantes. Imaginam a dimensão da manipulação monetária para tentar competir com a China via desvalorização cambial?]
A propósito desta interpretação:
"“As empresas recusaram-se [Moi ici: A abarrotar de "hindsight bias". As empresas não se recusaram, as empresas foram sendo dizimadas. Lembrem-se que os académicos previam o fim do sector. As empresas comportaram-se como a Natureza, "nature evolves away from constraints, not toward goals", quando as primeiras começaram a ter sinais positivos começou a contaminação por spillover. Só à posteriori parece que foi pensado e deliberado] a vender minutos de produção e apostaram no desenvolvimento de produtos de excelência e valor acrescentado e nas marcas”, explica. Se tivessem escolhido outro o caminho, reconhece Paulo Gonçalves, “teria sido o nosso suicídio coletivo”" 
E ainda, a propósito de:
"“Os têxteis nacionais não competem com a China. Se competíssemos com a China, já não teríamos sequer indústria.”"[Moi ici: Lembram-se de quando este senhor achava que competíamos com o Paquistão? Não? Então, regressem a Outubro de 2010]

quarta-feira, dezembro 26, 2018

O choque em curso

Em "Acerca das exportações YTD - mês 10 (2018)" publiquei este quadro:

Nele podemos ver que o código 64, onde se inclui o calçado, teve uma queda homóloga de 3%. Contudo, o código 64 também inclui a marroquinaria que tem tido um ano excepcional com a instalação e arranque de várias fábricas.

Em "Emprego cresce mais no norte" podemos encontrar números mais precisos que ilustram melhor o choque que o calçado português está a sofrer:
""Este abrandamento foi motivado sobretudo pela evolução das exportações de produtos tradicionais como o vestuário de malha, o mobiliário e o calçado, bem como de máquinas, aparelhos e materiais elétricos", refere esta análise, apontando por exemplo , o facto do vestuário de malha ter passado de um crescimento homólogo de 7,2% no segundo trimestre para para uma queda de 2,9% no terceiro.
.
No mesmo sentido, as exportações da indústria do calçado passaram de um desempenho positivo de 2,4% a meio do ano para uma quebra de 5,6% no terceiro trimestre."
Entretanto, o mainstream anda iludido com o efeito do banhista gordo na banheira que transborda (Autoeuropa/Peugeot).

segunda-feira, dezembro 17, 2018

"transparency created value"

A propósito de "Cooks Make Tastier Food When They Can See Their Customers":
"The results showed that when the cooks could see their patrons, the food quality got higher ratings.
...
The results were pretty compelling: Customer satisfaction with the food shot up 10% when the cooks could see the customers, even though the customers couldn’t see the cooks. In the opposite situation, there was no improvement in satisfaction from the baseline condition in which neither group could see the other. But even more striking, when customers and cooks both could see one another, satisfaction went up 17.3%, and service was 13.2% faster. Transparency between customers and providers seems to really improve service. [Moi ici: De pessoas para pessoas. O poder da interacção. A força de Mongo]
...
We consistently found that transparency created value.
...
Being appreciated makes work meaningful. People feel what they do matters. Human connections seem to trigger that.
...
What’s exciting is that these are often subtle alterations. It’s not expensive or difficult to create transparency between consumers and producers. Just by opening up the work environment, you could improve value and quality. Transparency becomes a low-cost strategic advantage."
Ao ler isto recordei-me do que escrevi sobre a Eureka em 2015 e 2018.

domingo, novembro 04, 2018

Debaixo da superfície calma e pacata


À superfície vemos uma coisa, e tomamos decisões e construímos narrativas e visões do mundo com base nesse agregado fácil de contemplar para quem tem pressa ou preguiça de pensar.

No entanto, quando se mergulha e se vai à análise granular, quando se desdobra o agregado, percebemos que há uma turbulência subjacente permanente.

Recordei-me do índice de turbulência a propósito de um texto do Banco de Portugal sobre o sector do calçado. O texto é de Julho de 2018, ainda que trate de dados até 2016, "Análise setorial da indústria do calçado 2012-2016", e o que me chamou a atenção foi este gráfico:
Com a evolução da taxa de mortalidade e de natalidade no calçado.

Quando olhamos para as Monografias Estatísticas da APICCAPS sobre o sector e olhamos para a evolução do número de empresas:
Normalmente escápanos a percepção de que apesar do número total não ter tido grande evolução nos últimos anos, por trás dessa estabilidade há turbulência.

A curiosidade levou-me a olhar para alguns números dos Boletins de Conjuntura (Trimestrais) da APICCAPS (desde o 1º trimestre de 2015 até ao 2º trimestre de 2018). Eis alguns dados apresentados de duas formas:

Interessante notar que ao mesmo tempo em que cresce o número dos que afirmam que a utilização da capacidade diminui, aumentam os preços no estrangeiro.
Interessante notar que o número de empresas que contratam e despedem aumentou.
Interessante notar que o número de empresas que refere crescimento ou diminuição da carteira de encomendas do estrangeiro parece ter aumentado.

Cuidado com os que vêem os sectores como blocos homogéneos e não percebem o como a idiossincrasia desempenha um papel fundamental.
Nestes tempos de hoje estão a criar-se as causas que gerarão os efeitos de 2020:









quarta-feira, outubro 31, 2018

Um sector económico robusto e saudável tem empresas com diferentes estratégias

Gosto muito de relacionar economia e biologia:

Será que podemos dizer que a opção biológica do flamingo é melhor do que a do borrelho (plover) ou da narceja (avocet)? Não acredito!

Recordo uma pergunta da economia evolucionária: qual a melhor estratégia? Sim, regresso à minha leitura do Verão de 2007:
"So who was the winner? What was the best strategy in the end? What Lindgren found was that this is a nonsensical question. In an evolutionary system such as Lindgren’s model, there is no single winner, no optimal, no best strategy. Rather, anyone who is alive at a particular point in time, is in effect a winner, because everyone else is dead. To be alive at all, an agent must have a strategy with something going for it, some way of making a living, defending against competitors, and dealing with the vagaries of its environment.”

O trecho que se segue, faz-nos pensar no choradinho dos coitadinhos, que protestam contra os concorrentes, por serem chineses, por serem espanhóis, por serem …, por existirem.
“Likewise, we cannot say any single strategy in the Prisioner’s Dilemma ecology was a winner. Lindgren’s model showed that once in a while, a particular strategy would rise up, dominate the game for a while, have its day in the sun, and then inevitably be brought down by some innovative competitor. Sometimes, several strategies shared the limelight, battling for “market share” control of the game board, and then an outsider would come in and bring them all down. During other periods, two strategies working as a symbiotic pair would rise up together – but then if one got into trouble, both collapsed.”

And now, the grande finale:
We discovered that there is no one best strategy; rather, the evolutionary process creates an ecosystem of strategies – an ecosystem that changes over time in Schumpeterian gales of creative destruction.”"
Lembrei-me disto ontem, quando me mostraram este artigo "Vá com um pé, venha com outro". Também me lembrei da malta do leite e dos seus tiros no pé.

Analisemos "Vá com um pé, venha com outro":

"Um dos nomes mais fortes desta indústria é Luís Onofre, sinónimo de marca de luxo e presidente da APICCAPS, a associação portuguesa dos industriais do calçado. Para ele as grandes diferenças entre os sapatos portugueses e os de marcas de fast fashion como a Zara, Massimo Dutti, Mango ou H&M, entre outras, é a “mão de obra made in Portugal, 100% portuguesa, [Moi ici: E quem diz que os sapatos das marcas de fast fashion não são feitos em Portugal?a qualidade de construção [Moi ici: E quem diz que os trabalhadores que fazem uma marca trabalham de forma diferente com outra marca?] e a dos materiais utilizados. Materiais nobres [Moi ici: Recordo este postal, "Consequências da radioclubização ou os muggles à solta" O preço não tem necessariamente a ver com os custos incorporados, mas com o valor percepcionado pelos clientes] que se calhar não são utilizados por marcas de grande consumo, daí conseguirem fazer um preço mais baixo. Isso por si só já faz a diferença”" 
Por que é que o presidente da APICCAPS tem de dizer mal da produção das empresas portuguesas para o fast fashion? Quantas empresas portuguesas têm marca própria? Quantos pares de marca própria portuguesa são vendidos? Quantas empresas portuguesas sobreviveriam só com marca própria?

Um sector económico robusto e saudável tem empresas com diferentes estratégias, diferentes propostas de valor... por que achar que umas são melhores do que outras? Recordar lá em cima Lindgren ou o borrelho.

Uma associação é para unir, não para criar divisão. Seria bom termos mais marcas portuguesas reconhecidas e bem sucedidas? Claro que a resposta é sim, e este blogue defende a subida na escala de valor, mas isso não implica diabolizar quem trabalha para o fast fashion. Como escrevo aqui, desde 2006 ou 2007, uma vantagem da indústria portuguesa é a proximidade, a rapidez, a flexibilidade... tudo a contribuir para o sucesso com o fast fashion.


terça-feira, outubro 30, 2018

A China da Europa

Encontrei recentemente este texto de 2015, "Why "Made In Portugal" Is The New Wave":
"The reasons are clear: 1. It has nearly the same craftsmanship quality as France or Italy at a lower wage cost, 2. It's driven by small-scale factories that are able to produce smaller orders, which appeals to high-end designers who want shoes produced in limited quantity and 3. it imports raw materials quickly.
.
It's those first two reasons that make Portugal so appealing for brands. They get products with Italian or French-level quality at a fraction of the price. It wasn't always that way thought. Previously, Portugal was seen as the "China of Europe" with lost costs and equally low quality."
Em linha com uma terminologia que uso há alguns anos, para defender o euro da acusação de que foi o culpado da perda de competitividade no início deste século. Por exemplo:
 "nós éramos a China antes da China, éramos a China da CEE)"


E com este gráfico:

Retirado de uma sinopse sobre as Indústrias do Couro e do Calçado, da autoria da Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE)

domingo, setembro 02, 2018

Fugir do anonimato

Temas abordados aqui ao longo dos anos: transparência, autenticidade, artesanato em vez de vómito industrial.

Em Março de 2015, escrevi "Outra forma de David bater Golias" onde publiquei:


Há dias descobri este exemplo de batota, de aposta na imperfeição dos mercados, de criação de relação e de distinção:
"There will be a little card with a photo of one of the Italian artisans who made your new leather shoes, bag, or jacket. You’ll also find a pre-stamped postcard with a hand-drawn map on it of all the places in Tuscany where Arno makes its products. You can send the card to whomever you choose, but if you’d like to send a thank-you note to the man or woman who made the item you just purchased, you can send the postcard back to Arno’s founders, who will deliver it to the right person.
.
“We’ve been surprised by how many of our customers actually choose to send the cards back to us,”
...
Not only do their customers know where their shoes were made, they can see a picture of the shoemaker who crafted it by hand. It’s a level of visibility into the supply chain that we don’t see very often in the world of fashion.
...
Arno sells products directly to the consumer, bypassing traditional retailers–and their price markups–allowing it to sell products at a fraction of the cost of traditional luxury brands, with sandals starting at $198. The brand collaborates with family-owned factories in a small region just outside Florence, Italy. Products are made by a small team of artisans, who each have extensive experience making leather goods. One of these factories has chosen to invest in Arno, which is unusual since it is usually fashion brands that invest in manufacturing facilities.
...
Arno wants to take this approach a step further, by humanizing the manufacturing process even more and giving customers a glimpse of the person who actually made the item they purchased. Besides the photograph that comes in their package, they can go to the Arno website, which offers bios of each artisan full of details about their families and interests. For instance, Laura, Arno’s head of quality control, was born on the island of Sardinia, and went into an artisan apprenticeship program immediately after middle school. Since she lives two streets away from the factory, she goes home for lunch every day, and returns to her village every summer for a vacation.
.
“We really believe this is the future of luxury,” says Crowe. “People want to know how their products were made, and the natural extension of that is to connect with the human beings who made their new shoes or bag.”"
Como é que a sua empresa pode adaptar algumas destas ideias, para fugir do anonimato?
No mercado, provavelmente a sua empresa é como o Willy nesta figura. quem vai ter paciência para a procurar? E como sabem que ela existe?



Trechos retirados de "The future of luxury fashion? Getting to know your shoemaker"

quarta-feira, julho 18, 2018

O futuro passará por voltar ao passado

In the 1950’s footwear brands offered many different widths and in-store customer service for bespoke fitting. However, with mass scale global production in the 1970’s and fast fashion of today, this went away. Now 90% of the population buy the wrong shoe sizes or don’t even know their correct shoe size. This has created an average of 20% return rate from brick and mortar and e-commerce sales. This mounts to annual 80 billion of lost revenue for the footwear industry! Thus, the pain point is in correct sizing, fitting and reducing returns and not necessarily figuring out the new trendy color for the spring collection. By offering consumers 127 sizes you can capture 90% more of the population simply by offering a vast size range that serves the consumer directly for accurate fit with 3mm increments. The 90% of the population needs to be provided for different widths and global sizing fitting to encompass all markets. 127 sizes will also increase revenue for brands to better serve the consumer for a better fit.”
O futuro passará por voltar ao passado. Uma ideia que não é nova neste blogue.

Trecho retirado de "Janne Kyttanen: Finding the magic number for customization utilizing 3D printing in your industry"

quarta-feira, junho 27, 2018

Para reflexão séria - é a vida!

Faz hoje 8 dias que os meus amigos da Olifel me convidaram para dizer umas palavras sobre a Indústria 4.0 no âmbito do lançamento do novo Visualgest
Nesse mesmo evento tive oportunidade de ouvir o presidente da câmara de Felgueiras dizer, sem papas na língua, que o calçado atravessa um momento difícil, um momento de mudança.

Entretanto, os remendos feitos no tempo da troika continuam a ser desmantelados. Por exemplo "Alexandra Leitão: Mexer na idade da reforma dos professores "é um caminho possível"".

Entretanto, as empresas grandes continuam a fazer o seu trabalho de liquidar as pequenas e médias e de desertificar o interior, "Governo abre a porta a salário mínimo acima dos 600 euros".

Sabem como defendo aqui no blogue, há mais de 10 anos, que Portugal não pode competir com a China nos custos e teria de apostar nas vantagens da proximidade e rapidez (postal de 2007). Por exemplo, neste postal de 2015 apresento esta tabela para o sector do têxtil e vestuário:

Mas o mundo económico é uma continuação da biologia, um eterno subir e descer do espaço competitivo enrugado que obriga as empresas a estarem atentos às outras empresas concorrentes, aos clientes e ao habitat.

Há dias escrevi este "Desabafo", hoje olhei para estes números:



Olhem para o mapa:

Proximidade e rapidez... quanto tempo para a Roménia e Hungria ditarem cartas?

Ontem estive numa empresa que já está a competir no nível seguinte do jogo: de igual para igual com os italianos. No entanto, isso não é campeonato para empresas com muitos trabalhadores, nem é para produção em massa.

A vida não é nem justa nem injusta, nem moral nem imoral. A vida é ajusta e amoral.

quarta-feira, junho 13, 2018

Contexto - calçado

Quando a ISO 9001 fala de contexto, de questões externas relevantes para o futuro da empresa, é de coisas como esta, por exemplo, "Consumers Want to Eat Beef, Not Wear It, Sending Leather Prices Plummeting".

Não é a APICCAPS que quer fazer dos EUA o alvo para as exportações de calçado dos próximos anos? Não é o calçado de couro a especialidade do calçado português?

Até que ponto esta tendência tem peso? Até que ponto esta tendência se pode reforçar no futuro?
"Today, shoppers have a more vegan sensibility about what goes on their feet, demanding shoes with non-animal elements like canvas, microfiber and plastic. Making the choice easier are advances in the quality of fake leather, which is now so good most buyers can’t distinguish it from the real thing.
...
That’s bad news for the leather industry because footwear makers are by far the biggest buyers, accounting for 55 percent of demand.
...
Younger consumers, in particular, prefer more casual footwear to dress shoes, and they are gravitating to non-leather products from companies with a compelling feel-good story about how they’re made,"

quarta-feira, maio 23, 2018

A invasão das sapatilhas

Hoje em dia é muito comum ouvir empresários do calçado queixarem-se da invasão das sapatilhas e de como elas estão a dar cabo do seu negócio.

Há dias ouvia alguém do retalho dizer que, para rapazes, só conseguia vender sapatilhas, a menos que estivesse por perto a altura das comunhões ou o Natal.

Pois parece que a coisa vai continuar por mais algum tempo e até reforçar-se, "Sneaker sales are growing as sales of high heels tumble":
"As American fashion has slowly become more casual, so has footwear. That trend has become especially apparent in women's sneaker sales, which have surged 37 percent throughout the U.S. in 2017. Meanwhile, sales of high heels have declined 11 percent during the same time period, according to the NPD Group's Retail Tracking Service.
...
"It's becoming kind of a basic consumer need to have comfort and the desire to be comfort because everybody's so busy and running around all the time," Beth Goldstein, NPD's executive director and industry analyst for fashion footwear and accessories, told CNBC.
.
"Brands that are focusing on comfort are doing better, because that something that women of all ages want," she said. The sneaker trend will likely continue in the double digits for the next few years, Goldstein added, as it becomes more of a lifestyle choice."

sexta-feira, maio 04, 2018

Como se compete num mundo de Amazons e Zalandos et al? (parte III)

Parte I e parte II.

Ainda acerca do by-pass ao mundo das Amazons, Zalandos, Continentes, Pingo Doces, FNACs et al.
"many small retailers carry inventories that compensate with quirk or quality for what they lack in breadth. Magpie-like secondhand and vintage stores are especially popular. So are businesses that carry local specialty and handmade items. Longtime retailers reflect the specific--and sometimes peculiar--tastes of their communities..These companies excel in product selection.
...
"We are proud of the weird," [Moi ici: Como isto está em sintonia com a mensagem deste blogue!!!]
...
"His vision has always been to rescue records from people who did not want them and turn them over to people who did," Grauzer says.
.
Weber's strategy was more passionate than practical. "He just kept buying records regardless of whether they sold or not," [Moi ici: Isto é um ponto importante, muito importante. Abaixo na tabela tem tudo a ver com o criar uma network]
...
"I guess it doesn't sound like a great business model," says Grauzer. "But it has worked."
...
Kneib will custom-make soap in any design from almost any natural ingredient. "They want something that smells like lime or ginger or they want a certain color because it's for a wedding," she says. "We produce what they want."
...
Because customers find many products unfamiliar, Papa sends them home with samples before they buy."



Trechos retirados de "These Companies' Inventories Pick Up Where Amazon's Leaves Off"

quinta-feira, maio 03, 2018

Como se compete num mundo de Amazons e Zalandos et al? (parte II)

Parte I.

A parte I terminou desta forma:
"Como se compete num mundo de Amazons e Zalandos et al? Criando um mundo alternativo, apostando em Mongo. Em Mongo faz todo o sentido trabalhar um ecossistema, fazer um jogo de longa duração, envolver mais actores.
.
O que é que o sector tem feito nos últimos anos? Promover a marca Portugal! Como é que isso pode ser usado?"
Entretanto encontrei um artigo muito, muito bom que ajuda a  começar a responder ao título pergunta do postal, "How Fashion Can Fight Amazon". O artigo é mesmo muito bom e merece uma leitura bem mastigada:
"Yet, despite all these recent achievements, innovations and accolades, there are some adjectives that I can’t ever recall hearing mentioned in the same sentence as Amazon. Conspicuous by their absence in most commentary on the internet giant are words like fun, beautiful and joyous. You’ll very rarely, if ever, hear Amazon described in these terms.
.
And that’s no coincidence. Amazon isn’t a fun experience. Friends don’t meet for dinner and then go on an Amazon shopping spree. People don’t take selfies of themselves ordering things on Amazon.
...
As for beauty, Amazon is about as aesthetically pleasing as a wood chipper. But, like a wood-chipper, Amazon is purpose-built, not for beauty but for efficiency, expediency and volume.
.
And, regardless of its early success, I have yet to hear anyone recount stories about what a “joy” it is to shop using Echo. Nor can I recall anyone giddily running from one room to another pushing their Dash Buttons. The point of these technologies is not to elicit joy but rather to eliminate altogether any consciousness of shopping.
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Amazon is a passionless yet wickedly effective means of consuming. They’ve taken what used to be a sometimes painful, arduous multi-site online buying experience and literally brought it down to one-stop and zero clicks with Alexa. It is the all-you-can-eat buffet of consumerism. It’s the Wikipedia of shopping, which is to say that whatever you’re looking for is probably there but getting it is never what you’d call a memorable experience.
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And so, as "cheap" is to Louis Vuitton, Fendi and Rolex, fun is to Amazon — it’s simply not in the brand’s DNA. Nor was it ever intended to be. Jeff Bezos never set out to create a delightful shopping experience. Amazon is quite simply the shortest distance between wanting and getting."
Se segue este blogue com regularidade já sabe como eu penso: se a Amazon faz isto e é muito boa, fará algum sentido ir torrar dinheiro a competir no mesmo campeonato que ela? Como me posso diferenciar da Amazon? Por que tenho de entrar no negócio da venda, quando sou um produtor?
Voltaremos a isto numa outra parte.
"So, if truly great retail can be considered fine art (which I fully believe it should be) then Amazon is the paint-by-numbers equivalent. It’s fast, easy and simple but about as artistic as Dogs Playing Poker. In other words, Amazon has — to its credit — reduced shopping to a science, but in doing so has also sapped it of its aesthetic, social, kinetic and human joy.
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And it's this one tiny yet glaring chink in Amazon's seemingly impenetrable suit of armour that may just offer their competitors an opportunity to inflict a small wound, or at least save themselves from outright annihilation. Using art to counter Amazon’s science, retailers may just stand a chance of surviving, if not thriving in their shadow."
E aqui começa a minha incomodidade com a parte I. Num mundo de ecossistemas avança-se sozinho com um site, sem trabalhar a estória, sem criar carisma, sem fazer sonhar, sem desenhar e alimentar a experiência:
"Don’t build stores. Build stories..
Ultimately as humans we acquire products but we invest emotionally in stories. The world doesn’t need another concrete commercial real estate box with racks, registers and shelving, or another cold, catalogue-like website. It needs physical and online shopping places that celebrate unique brand stories. It needs enchanted spaces and installations that promote interactions with products. It needs powerful experiences that engage on every sensory level. Great retail must be nothing less than a form of performance art where the cost of admission is a purchase only-too-gladly made.[Moi ici: Por favor voltar a trás e reler com calma uma e outra vez este último sublinhado]
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Don’t conduct commerce. Create community.
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Building a tightly connected community of customers who are galvanised by a common passion, place, idea or interest is the surest way to cultivate a sense of community and an atmosphere of fun. Doing so raises your stores and websites beyond the level of commerce and into the realm of becoming powerful places for communal gathering.
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Don’t sell mass. Sell me.[Moi ici: Meu Deus!!! Como isto é acerca de Mongo, como isto é um problema para os gigantes atolados na sua suckiness e desejosos de nos verem como plancton]
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Mass is the realm of Amazon, which has little interest in personalising products. Personalisation costs time, money and effort — all of which dilute Amazon’s competitive advantages of selection, speed and affordability. So, find a means of personalising and customising products and solutions for your customers. This can be by leveraging clientele data, using technology to offer personalised solutions, or by offering bespoke and customised options, replete with concierge levels of service. Regardless of how you achieve it, it’s essential to leave every customer feeling that your store, your products and your staff were there especially for them.
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Don’t measure sales. Measure experiences."
Vêem algo disto na parte I? Eu vejo uma espécie de Lefties para vender os restos que não se conseguiram despachar.

Continua.

domingo, abril 29, 2018

Como se compete num mundo de Amazons e Zalandos et al?

A propósito disto e disto.
"As exportações portuguesas estão a crescer, e as da indústria transformadora também, mas as do setor-chave da fileira da moda, como o calçado e o vestuário, estão a cair 1,7% e 2,7%, respetivamente. [Moi ici: Interessante como as más notícias voam muito mais depressa que as boas. O tempo que as boas notícias demoraram a chegar ao mainstream... recordar André Macedo em 2008]
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Mas Fortunato Frederico, o maior industrial de calçado do país, alerta que o setor “precisa de encontrar um novo paradigma” porque o do passado “já não serve”.
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Foi isso que Fortunato Frederico destacou, na presença do primeiro-ministro, quando, na semana passada, inaugurou a sua mais recente aposta: a Overcube, a nova plataforma de vendas online da Kyaia, para as marcas do grupo e não só. Um investimento de um milhão de euros, que permitiu a contratação de 20 quadros “altamente qualificados”, número que deverá ser reforçado até ao final do ano, diz o empresário, com mais oito ou dez pessoas.   “O ano arrancou muito frouxo. Antigamente havia crises conjunturais que conseguíamos identificar, agora sente-se que há uma mudança estrutural, mas não conseguimos apontar-lhe verdadeiramente uma causa. Só sabemos que os negócios não fluem como fluíam. [Moi ici: Excelente descrição dos sintomas que sinto] É uma loja que fecha aqui, outra ali, mas não é, sequer, exclusivo de Portugal”,[Moi ici: A evolução do retalho e a ascensão do online]
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“Desde 2010 que a Foreva deu sempre prejuízo. Se fosse um empresário que não tivesse qualquer outro negócio, já tinha falido”, argumenta. E lembra a mudança de hábitos dos consumidores: “É a tal mudança estrutural, as pessoas valorizam muito mais ir passar férias ou almoçar e jantar fora do que comprar sapatos.
[Moi ici: Recordar, "Even the Chinese are tilting a bit from having to being"]E como toda a gente usa é desportivos, esse é o negócio das marcas internacionais, que os trazem da China.” Solução? “Temos de repensar se vamos procurar novos mercados ou se vamos reforçar as equipas naqueles em que estamos”"(fonte)
Nisto tudo há uma coisa em que fico a pensar:
Perante a erosão do modelo da figura I, estão a querer evoluir para o modelo da figura II. Por causa disso vão gastar um milhão para competir no campeonato das Amazons e Zalandos et al. Aposto que o dinheiro vem de fundos comunitários e, por isso, vai custar menos a gastar. E, por isso, não vão investir em reflectir sobre o desafio que têm em cima da mesa e como podem competir sem ser no mesmo campo das Amazons e Zalandos et al.

Será que gastar 1 milhão é suficiente para fazer o fogo de artifício que deixe o site da Overcube na memória?

Como se compete num mundo de Amazons e Zalandos et al? Criando um mundo alternativo, apostando em Mongo. Em Mongo faz todo o sentido trabalhar um ecossistema, fazer um jogo de longa duração, envolver mais actores.

O que é que o sector tem feito nos últimos anos? Promover a marca Portugal! Como é que isso pode ser usado?

Continua.