sexta-feira, julho 10, 2026
Qual é o mecanismo que vai fazer o sistema melhorar?
domingo, maio 31, 2026
Que riscos e que oportunidades?
""Made in China" is becoming "made by China" —all over the world.Faced with higher Western tariffs and weak demand at home, many Chinese factories are moving abroad, making everything from appliances to automobiles everywhere from North and South America to Eastern Europe."
As empresas chinesas estão a criar fábricas fora da China para manter acesso aos mercados globais. Isto muda a natureza da globalização chinesa: já não é só exportação de bens; é exportação de ecossistemas industriais.
Cada PME deve fazer uma análise simples: onde é que a nova capacidade chinesa pode ameaçar o seu negócio? E onde é que pode criar oportunidades?
Pode ameaçar produtos standard, componentes simples, fabrico indiferenciado ou margens já frágeis. Mas pode criar oportunidades em manutenção, automação, moldes, metalomecânica especializada, embalagem, logística, serviços técnicos, adaptação local, reparação, compliance, engenharia aplicada e pequenas séries complexas.
Quando a China exporta fábricas, exporta também uma nova pressão competitiva. As PME portuguesas que ficarem à espera serão empurradas. As que se reposicionarem cedo podem encontrar espaço nas novas cadeias industriais.
Usemos a cláusula 4.1 da ISO 9001:
A expansão das fábricas chinesas para a Europa não é apenas uma notícia económica. Para uma PME portuguesa pode significar:
- mais concorrência em preço;
- clientes internacionais a mudar fornecedores;
- novas fábricas na Europa a precisar de fornecedores locais;
- pressão sobre as margens;
- novas exigências de qualidade, prazo, rastreabilidade e compliance;
- oportunidades em nichos técnicos, manutenção, engenharia, componentes, automação, logística ou serviços especializados.
segunda-feira, maio 25, 2026
A política da qualidade ainda fala com a empresa de hoje?
Ao ver o nome de Simon Wardley, recordei imediatamente os seus mapas e a sua forma de olhar para a evolução das organizações, dos mercados e das tecnologias. Recordei também a sua distinção entre pioneers, settlers e town planners: pessoas e lógicas diferentes, necessárias em momentos diferentes, consoante o grau de novidade, incerteza, maturidade e consolidação do contexto.
Essa associação levou-me a uma reflexão sobre o verdadeiro carrossel de emoções que muitas empresas viveram nos últimos dez anos.
Mercados que pareciam estáveis deixaram de o ser. Cadeias de abastecimento foram redesenhadas. A energia, a geopolítica, as tarifas, a tecnologia, a inteligência artificial, os custos, os clientes e os concorrentes alteraram profundamente o tabuleiro competitivo.
Há dez anos, por exemplo, a economia alemã ainda era vista como uma referência industrial quase inabalável. Hoje, vários dos seus sectores enfrentam dificuldades estruturais. Noutros países e noutros sectores industriais, as alterações de contexto têm sido igualmente profundas. Ainda há dias lia sobre o impacte das tarifas dos Estados Unidos e do Vietname na competitividade do mobiliário chinês.
Tudo isto me levou a uma pergunta simples.
Quantas empresas certificadas segundo a ISO 9001 têm uma política da qualidade, supostamente alinhada com a orientação estratégica da organização, que não é revista de forma séria há mais de cinco anos?
Suspeito que muitas.
Talvez a maioria.
Claro que muitos dirão: "Negócio é uma coisa, sistema da qualidade é outra".
Aceito a distinção. Se uma empresa quer apenas ter um certificado ISO 9001 porque um cliente o exige e o obtém de forma legal, nada tenho a dizer. É uma opção legítima.
Mas não é dessas organizações que estou a falar.
Estou a pensar nas organizações que querem mais do que um certificado. Organizações que querem usar o sistema da qualidade como uma ferramenta de gestão, e não apenas como uma formalidade comercial. Organizações que percebem que a política da qualidade não deve ser uma frase bonita colocada numa parede, mas uma declaração viva sobre o que a empresa quer ser, como quer competir, que valor quer entregar e que compromissos assume perante clientes, colaboradores e outras partes interessadas.
Porque, se o contexto mudou profundamente, se os clientes mudaram, se os riscos mudaram, se a tecnologia mudou, se a inteligência artificial começa a alterar a forma como o trabalho é feito e o valor é criado, se a empresa já não compete no mesmo mundo em que competia há cinco ou dez anos, então talvez a política da qualidade também não deva continuar exactamente igual.
A ISO 9001 não pede uma política decorativa, pede uma política apropriada ao propósito e ao contexto da organização, e que apoie a sua orientação estratégica.
Isto é mais exigente do que parece. Obriga a direcção a olhar para a política da qualidade não como um texto institucional, mas como uma síntese de escolhas. Que clientes queremos servir? Que promessa queremos fazer ao mercado? Que capacidades temos de desenvolver? Que riscos temos de controlar? Que tipo de organização precisamos de ser para continuar relevante?
Uma política da qualidade que não muda há anos pode não estar errada. Mas merece ser questionada.
Ainda descreve a empresa que somos? Ainda ajuda a orientar decisões? Ainda faz sentido perante os clientes, os mercados, as tecnologias e os riscos actuais? Ou continua a falar com a empresa que existia há cinco anos?
Num mundo em que o contexto muda cada vez mais depressa, talvez uma das perguntas mais úteis numa revisão do sistema de gestão da qualidade seja esta:
A nossa política da qualidade ainda fala com o negócio real de hoje?
sábado, maio 02, 2026
ISO 9001, para reflexão
O Handelsblatt publicou, no passado dia 7 de Abril, um artigo com um título sugestivo: “Deutschlands Digitalproblem: Viele Projekte, wenig Produkte” - o problema digital da Alemanha: muitos projectos, poucos produtos.
A ideia central é simples e poderosa: o problema não está na falta de ideias, mas nos mecanismos que deveriam transformar invenções em soluções usadas em larga escala.
Um projecto tem início, fim, orçamento e entrega final.
Um produto tem utilizadores, ciclo de vida, manutenção, evolução e impacte real.
Na lógica do projecto, escreve-se a candidatura, desenvolve-se o software, entrega-se o relatório final e encerra-se o trabalho. Se depois ninguém reutilizar a solução, se ela não for transferida para outros contextos, se não gerar impacte, isso raramente é tratado como fracasso. Simplesmente, não fazia parte do plano.
Na lógica do produto, a pergunta é outra: quem usa isto, para quê, com que frequência, que problema resolve, que valor cria e como vai melhorar ao longo do tempo?
Ao ler isto, pensei em muitos sistemas de gestão da qualidade certificados.
Talvez parte das críticas à ISO 9001 nasça precisamente daqui: muitos sistemas são implementados como projectos de certificação, quando deveriam ser desenvolvidos como produtos internos de gestão.
Digo isto também com algum desconforto profissional. Como consultor, não me interessa apenas ajudar uma organização a obter um certificado. Isso pode ser importante, naturalmente. Mas não chega.
O que verdadeiramente me interessa é perceber se o sistema ficou útil depois da auditoria. Se ajuda a empresa a decidir melhor, a reduzir erros, a cumprir melhor os requisitos dos clientes, a aprender com problemas, a controlar alterações, a melhorar processos e a ganhar disciplina de gestão.
Quando o sistema é tratado como projecto, a pergunta dominante é: O que falta fazer para passar na auditoria?
Quando é tratado como produto, a pergunta muda: Quem vai usar isto, para quê, e que problema ajuda a resolver?
Esta diferença muda tudo.
Um SGQ tratado como projecto tende a produzir documentos, procedimentos, registos, mapas, indicadores e evidências.
Um SGQ tratado como produto tem de produzir utilização.
Tem de ser usado pela direcção, pelos responsáveis de processo, pelas equipas operacionais, pelas compras, pelo comercial, pela produção e pela qualidade. Tem de estar ligado à forma como a organização trabalha, decide, aprende e melhora.
O problema não é haver documentação. O problema é a documentação existir para ser mostrada e não para ser usada.
O problema não é haver indicadores. O problema é ninguém tomar decisões com base neles.
O problema não é haver auditorias internas. O problema é elas não gerarem aprendizagem.
O problema não é haver acções correctivas. O problema é fechá-las sem mudar verdadeiramente a forma de trabalhar.
Por isso, cada vez mais, penso que o teste essencial de um sistema de gestão não é apenas perguntar se ele cumpre a norma.
A pergunta mais difícil é outra: Se a auditoria externa desaparecesse amanhã, a empresa continuaria a querer usar este sistema?
Se a resposta for sim, talvez tenhamos criado algo com valor. Se a resposta for não, talvez tenhamos apenas terminado um projecto. E esta é uma responsabilidade séria para quem implementa, mantém ou audita sistemas de gestão.
A certificação pode ser o ponto de chegada de um projecto. Mas a eficácia do sistema só começa verdadeiramente a ser provada depois, quando a organização o usa sem estar a representar para o auditor.
No fundo, um sistema de gestão da qualidade devia ser visto como um produto interno de gestão: com utilizadores reais, necessidades reais, melhoria contínua e impacto mensurável.
Porque um bom sistema não é aquele que sobrevive à auditoria. É aquele que ajuda a empresa a sobreviver melhor à realidade.
sexta-feira, janeiro 30, 2026
Foco no valor, diversificação na exposição (parte III)
Na Parte I e na Parte II argumentei que a cláusula 4.1 da ISO 9001:2015 não é um requisito burocrático, mas um convite a ler o contexto com intenção estratégica. O artigo de Gillian Tett ajuda precisamente nisso: mostra que uma falha das lideranças é tratar a incerteza como um ruído temporário, quando ela se tornou estrutural.
É aqui que a revisão pela gestão (cláusula 9.3 da ISO 9001) ganha importância. Não como reunião para “picar o ponto”, mas como o momento em que a gestão pára, levanta a cabeça do dia-a-dia, sobe à varanda, e pergunta se o mundo mudou — e o que isso implica para a empresa.
Uma revisão do sistema bem feita não começa por indicadores nem por procedimentos. Começa por perguntas certas. Por exemplo:
Sobre os pressupostos (a parte que quase nunca se discute, a água do aquário em que nós somos os peixes)- Que pressupostos sobre o nosso mercado damos como adquiridos?
- Que "normal" estaremos a assumir que pode já não existir?
- Estamos a gerir os riscos dentro de um modelo que pode já estar obsoleto?
- Que mudanças políticas, regulatórias ou geopolíticas podem afectar o nosso negócio nos próximos 3–5 anos?
- Que decisões governamentais (tarifas, incentivos, regras ambientais, compras públicas) podem alterar as condições de concorrência?
- Estamos a tratar estas mudanças como ruído ou como sinais estratégicos?
- O nosso modelo de negócio pressupõe o crescimento contínuo do mercado?
- O que acontece se o mercado estagnar, fragmentar ou se tornar um jogo de soma zero?
- Onde já estamos expostos a essa lógica sem o admitir?
- Que oportunidades podem surgir precisamente da instabilidade actual?
- Quem perde quando o contexto muda — e quem pode ganhar?
- Estamos posicionados para capturar valor num mundo menos previsível?
- Onde estamos excessivamente dependentes de um cliente, de um mercado ou de uma geografia?
- Essa dependência resulta de uma escolha consciente ou de inércia histórica?
- Que riscos do contexto tornam essa dependência mais perigosa hoje do que no passado?
Li o artigo do FT de ontem, "Chemicals sector calls for Europe to act after 80% fall in investment", e imaginei o cenário de uma empresa que fabrica e vende bombas centrífugas, aptas a operar em ambientes ATEX, para a indústria química europeia.
Pressupostos (a água do aquário que quase ninguém nomeia):
- A indústria química europeia manterá capacidade produtiva relevante.
- Os clientes continuarão a investir em activos industriais na Europa.
- Segurança e conformidade ATEX continuarão a justificar prémio de preço.
- O risco regulatório continuará a favorecer os fornecedores europeus.
Normal assumido: base industrial química europeia estável. Será razoável?!
Pergunta incómoda: E se o “normal” já for a desindustrialização progressiva?
Contexto externo
- Encerramento e deslocalização de fábricas químicas na Europa.
- Transferência de investimento para China, Médio Oriente, EUA.
- Política industrial europeia lenta e errática.
- Tensões geopolíticas a afectar cadeias de fornecimento e exportações.
- Pressão ambiental e energética sobre os clientes.
Risco típico: tratar isto como um ciclo negativo, e não como uma ruptura estrutural.
Oportunidades (a parte esquecida da cláusula 4.1/6.1)
- Aumento da aversão ao risco em ambientes ATEX.
- Valorização de fiabilidade, certificação e histórico de segurança.
- Necessidade de prolongar a vida útil de activos existentes.
- Retrofit, manutenção avançada e serviços de engenharia.
- Substituição de fornecedores baratos após incidentes ou falhas.
Quem ganha: quem reduz risco operacional e regulatório do cliente.
Foco, dependência e fragilidade
- Dependência excessiva da indústria química europeia.
- Dependência de poucos grandes clientes industriais.
- Dependência de investimento novo, não de base instalada.
- Dependência de um quadro regulatório europeu específico.
Fragilidade crítica se a base industrial continuar a encolher.
Será que estamos a gerir os riscos dentro de um modelo industrial europeu que pode estar a desaparecer?
Se a indústria química europeia investir menos durante a próxima década, como é que esta empresa continua a criar valor?
Não é de esperar respostas imediatas. Aliás, tenha medo delas. Discuta e deixe o tema marinar.
sábado, janeiro 17, 2026
Revisão pela gestão - quando a realidade entra na sala (parte VII)
Parte I, parte II, parte III, parte IV, parte V, parte VI a, parte VI b e parte VII.
Quando animo o workshop associado a este ISO 9001 Lead Implementer Course. A certa altura apresento esta imagem ...
... e faço o mea-culpa pelo tempo em que me comportava, como consultor, como alguém que acreditava que os dados e a análise eram suficientes para gerar a mudança.No livro The Heart of Change, John Kotter conta uma história simples, mas profundamente reveladora, sobre algo que a maioria dos sistemas de gestão continua a ignorar.
Numa grande empresa industrial existia um problema crónico nas compras. A organização adquiria uma quantidade excessiva de modelos diferentes de luvas, a múltiplos fornecedores, com preços muito distintos para produtos praticamente iguais. Os custos eram elevados, as ineficiências evidentes. Os dados existiam e os relatórios mostravam-no com clareza.
E, no entanto, nada mudava.
A gestão tinha analisado os números. Tinha reflectido sobre os relatórios. Mas não existia urgência. Não existia desconforto suficiente para decidir. Não existia movimento.
O responsável pelas compras decidiu então fazer algo diferente. Em vez de preparar mais uma apresentação, trouxe a realidade para dentro da sala. Reuniu um exemplar de cada tipo de luva comprada pela empresa, etiquetou-as com o fornecedor e o respectivo custo unitário e dispôs centenas de luvas sobre a mesa da sala de reuniões.
Quando os membros da gestão de topo entraram na sala, não viram gráficos nem indicadores. Viram desordem, redundância e diferenças de preço absurdas para produtos quase idênticos. O impacto foi imediato.
Kotter resume aqui uma ideia central sobre como a mudança realmente acontece. Primeiro é preciso ver o problema de forma concreta e tangível. Depois, é inevitável sentir algo — surpresa, desconforto, indignação. Só então a mudança se torna possível e, muitas vezes, rápida.
Este ponto contrasta com a lógica dominante em muitas Revisões pela Gestão, quer no âmbito da ISO 9001 quer da ISO 14001. A sequência implícita costuma ser racional e elegante: analisar, reflectir, mudar. O problema é que esta sequência, por si só, raramente gera acção.
A análise, quando permanece abstracta, não incomoda. A reflexão, quando não envolve emoção, mantém-se educada. E a educação excessiva é inimiga da mudança.
As Revisões do Sistema não foram pensadas para serem seminários técnicos ou exercícios académicos. Foram concebidas para criar movimento. E o movimento raramente começa com melhores argumentos ou gráficos mais sofisticados. Começa quando a realidade se torna visível e quando alguém sente, de forma inequívoca, que continuar assim já não é aceitável.
A implicação é simples e desconfortável. Se tudo for reduzido a dashboards, semáforos e apresentações em PowerPoint, a gestão pode compreender o sistema, mas dificilmente o sentirá. E aquilo que não se sente, quase nunca se muda.
Por vezes, o contributo mais poderoso para uma Revisão pela Gestão não é mais um indicador, mas um objecto em cima da mesa: um produto rejeitado, uma reclamação de cliente lida em voz alta, um conjunto de retrabalhos acumulados, um incidente ambiental reconstruído passo a passo. Recordo a reacção de estupefacção de um Director Geral perante a foto de uma má, muito má, prática ambiental na sua empresa:
- Isto é na minha empresa?
- De quando é isto?
Quando os líderes conseguem ver a realidade e sentir as suas consequências, as decisões tendem a surgir com rapidez.
A mudança não começa no Excel.
Começa quando a realidade entra na sala.
E talvez esta seja uma das lições mais práticas e humanas de John Kotter — uma lição que as Revisões pela Gestão ganhariam muito em levar a sério.
sábado, janeiro 10, 2026
Revisão pela gestão - cuidado com quem fala primeiro (parte VII)
Não por má-fé, mas por dinâmica humana. Num contexto hierárquico, a primeira opinião funciona como âncora. Define o enquadramento, sinaliza o que é aceitável e condiciona o que será dito a seguir. As discordâncias tornam-se cautelosas, as alternativas transformam-se em nuances e o silêncio começa a ser confundido com concordância. O grupo parece alinhado — mas está apenas sincronizado.
Escrevi o parágrafo anterior e pensei num David Attenborough a fazer um documentário sobre o comportamento humano numa reunião de trabalho marcada pelo contexto hierárquico. Conseguem imaginá-lo a sussurrar-nos algo como: observados à distância, os subordinados ajustam-se com rapidez notável. Escutam com atenção não apenas as palavras, mas o tom, as pausas, a disposição do dia. Procuram sinais: um franzir de sobrolho, um suspiro, um sorriso breve. Em poucos segundos, avaliam para que lado a gestão de topo acordou naquela manhã. A partir daí, calibram a postura, afinam o discurso, suavizam a discordância ou silenciam-na por completo. Não é cálculo frio; é adaptação. Um comportamento aprendido, repetido e refinado ao longo do tempo ... essencial para sobreviver no ecossistema da hierarquia.
Num artigo anterior, defendi que substituir tópicos por perguntas muda a natureza da revisão pela gestão. Este texto aprofunda o porquê no plano humano. As perguntas não são apenas uma técnica de agenda; são também, ou podem ser, um mecanismo de protecção da conversa. Mantêm o espaço aberto quando, de outra forma, seria fechado pela primeira opinião forte.
Se a segurança psicológica determina se a verdade entra na sala, a estrutura da conversa determina que verdade entra. E aqui o papel do líder é crítico. Não apenas como decisor, mas também como guardião do espaço. Quando o líder fala cedo, a reunião transforma-se numa confirmação da sua posição. Quando adia a sua opinião, cria espaço para que outras perspectivas, incluindo as incómodas, sobretudo essas, possam emergir.
Há erros clássicos que se repetem: a opinião precoce da gestão de topo; reuniões dominadas por dois ou três; o silêncio interpretado como alinhamento. Nada disto viola formalmente a ISO 9001. Mas tudo isto pode esvaziar a reunião de revisão pela gestão daquilo que a norma realmente procura: decisões informadas que melhorem o sistema.
Perguntas adiam conclusões, suspendem hierarquias por instantes e convidam à exploração antes da avaliação. Funcionam como travão natural à convergência prematura.
No fim, uma boa acta não prova que houve boa decisão. Prova apenas que algo foi registado. A qualidade da decisão nasce antes — no modo como a conversa foi estruturada e no espaço que foi criado para pensar em conjunto.
Na próxima revisão pela gestão, vale a pena reparar: quem falou primeiro? E porquê? Muitas vezes, a decisão já estava lá.
sábado, janeiro 03, 2026
Revisão pela gestão - antes dos indicadores: é seguro dizer a verdade? (parte VI b)
A boa notícia é que não é preciso transformar a revisão pela gestão numa sessão terapêutica para construir segurança. Basta introduzir práticas simples - práticas que podem começar já na próxima reunião.
Antes da reunião, pede-se uma página de realidade: "O que gera preocupação?", "O que não sabemos ainda?", "O que pode correr mal nos próximos meses?". E pede-se leitura prévia. A reunião não é para explicar slides, é para tomar decisões. Quem chega sem ter lido e começa "do zero" está, na prática, a fazer perder tempo a todos.
Durante a reunião, o líder impõe uma regra a si próprio: fazer perguntas antes de emitir opiniões. Primeiro, perceber bem o problema. Só depois avaliar e decidir. Ajuda também começar com quinze minutos de problemas à vista: riscos, falhas, surpresas, assuntos incómodos. Não para apontar dedos, nem para castigar alguém, mas para evitar que a organização seja castigada pela realidade por ser apanhada desprevenida.
Outra prática é dar voz logo no início a quem fala menos. Uma rodada curta: "O que o preocupa?", "O que não está a ser discutido?".
E, talvez o mais importante, normalizar o "não sei". Há organizações onde admitir incerteza é visto como fraqueza. Mas, em gestão, a incerteza é um dado. Fingir certeza é que é fraqueza e costuma sair caro.
Depois da reunião, há um teste simples: o dia seguinte. Se alguém trouxe uma realidade difícil, a liderança reforçou esse comportamento — ou deixou que o mensageiro pagasse um preço? A cultura mede-se muito menos no que se diz em sala e muito mais no que acontece depois.
Tudo isto liga-se directamente à essência da ISO 9001. A norma pede decisões informadas e melhoria do sistema. Mas, sem acesso à realidade, "considerar entradas" transforma-se numa formalidade. Uma acta impecável não compensa uma realidade escondida.
A revisão pela gestão pode ser o lugar mais seguro da organização: o lugar onde a verdade é bem-vinda porque é útil. Quando isso acontece, os indicadores deixam de ser maquilhagem e passam a ser instrumentos (Talvez por isso as empresas com metas inferiores à capacidade da empresa para tudo ficar sempre bem. Por exemplo, desempenho médio anual de uma operação: Eficiência de 79%. Meta para o ano seguinte: Eficiência de 65%). E a reunião deixa de ser um ritual conforme para se tornar aquilo que deveria ser: um acto de direcção.
No próximo texto, continuo por aqui: quem fala primeiro, quem fala mais e como isso decide metade do resultado — antes de qualquer indicador ser analisado.
quarta-feira, dezembro 31, 2025
Revisão pela gestão - antes dos indicadores: é seguro dizer a verdade? (parte VI a)
"Most management reviews fail not because of data... but because of silence."
sábado, dezembro 13, 2025
Revisão pela gestão - elevar a qualidade da informação (parte V)
- O que aconteceu realmente?
- Por que aconteceu?
- O que aprendemos?
- O que vamos fazer diferente? É preciso fazer diferente?
- usar tabelas em vez de gráficos;
- mostrar apenas o último valor; e
- ignorar metas ou referenciais.
- tendência;
- sazonalidade;
- variação;
- estabilidade ou instabilidade do sistema; e
- relação entre indicadores.
- 12-24 meses de histórico.
- Limites, metas ou referencias.
- Linha de tendência.
- Relações com outros indicadores.
- Simplicidade visual: menos cor, mais sinal.
- Se a variação é aleatória ou estrutural.
- Se o processo está estável ou instável.
- Se vale a pena agir… ou se devemos deixar o sistema trabalhar.
- agir sobre o ruído destrói a estabilidade;
- agir sobre o sinal é a essência da melhoria.
quarta-feira, dezembro 10, 2025
Revisão pela gestão - um espaço para decidir, não para apresentar (parte IV)
Parte I, parte II e parte III.
- Os responsáveis preparam todas as entradas da cláusula 9.3.2, com análise, síntese e tendências, e não apenas dados brutos. Não afoguemos a gestão de topo em dados. Temos de lhes dar significado, não números.
- Esta informação é enviada com antecedência suficiente (muito difícil em Portugal).
- É solicitado (e exigido) que todos os participantes a estudem cuidadosamente.
- A agenda é construída não com tópicos, mas com perguntas que exigem decisões.
- A reunião discute apenas o que precisa ser decidido.
- A documentação é distribuída antes; todos deveriam lê-la.
- Mas como alguns chegam “em branco”, a reunião começa com 15 minutos de silêncio absoluto.
- Cada pessoa lê a documentação final novamente, desta vez sem interrupções.
- Só depois se começa a discutir — e já em cima de informação partilhada.
- as reuniões que se tornam apresentações;
- e os participantes que opinam sem conhecer os dados.
segunda-feira, dezembro 08, 2025
Revisão pela gestão - preparar tudo, rever só o necessário (parte III)
- Preparar toda a informação prevista na cláusula 9.3.2 num relatório para a revisão do sistema;
- Analisar, sintetizar, apresentar tendências e disponibilizar tudo à gestão de topo antes da reunião.
- O que precisa de mudar no sistema para continuar eficaz e adequado?
- Que riscos se tornaram críticos este ano?
- Que capacidades precisamos para o próximo ciclo?
- Que processos deixaram de servir o futuro?
sábado, dezembro 06, 2025
Revisão pela gestão - questões em vez de tópicos (parte II)
Uma revisão pela gestão eficaz começa muito antes da reunião ter lugar. Começa pelo modo como a agenda é construída. A ISO 9001 exige decisões informadas, análise crítica e foco no futuro — mas muitas agendas continuam a ser meras listas de tópicos, como "Auditorias", "Reclamações", "Indicadores" ou "Objectivos". Tópicos assim não dizem nada sobre o porquê de cada ponto estar ali (parece que estão ali apenas porque fazem parte da cláusula 9.3.2), nem sobre o que se espera decidir. Resultado: reuniões longas, dispersas, reactivas e pobres em conclusões.
- “Que riscos precisamos considerar antes de aprovar este objectivo?”
- “Que opções temos para resolver esta não conformidade recorrente?”
quinta-feira, dezembro 04, 2025
Revisão pela gestão - vamos todos subir à varanda?
"The biggest obstacle we face when we're dealing with conflict isn't what we think it is. We usually think it's the 'other' sitting across from us at the table — a difficult individual, organization or nation. But I've found the biggest obstacle to getting what I want in any situation is even closer than that: It's me. It's us. It's on our side of the table.The problem lies with our natural human tendency to react - to act and speak without thinking, in ways that are contrary to what we want to achieve. As the old saying goes, 'When you are angry, you will make the best speech you will ever regret. Either we attack or avoid, which doesn't solve the problem, or we accommodate and give in.The secret is to do the opposite, which is where the metaphor of going to the balcony comes in. It means pausing and taking a step back from the situation. I counsel people to imagine themselves standing on a balcony overlooking a stage on which the conflict in question is taking place. The balcony is a place of calm, control and perspective. It's a place where you can see the bigger picture. Doing this work within ourselves is the key precondition for getting to yes for all involved."
Uma revisão pela gestão (cláusula 9.3 da ISO 9001) eficaz exige exactamente aquilo que quase nenhuma organização faz: subir à varanda (balcony) antes de entrar no detalhe. A metáfora de William Ury ajuda a traduzir o espírito da ISO 9001 porque descreve o movimento essencial que a norma pede — ganhar distância para ver o sistema como um todo. Sem varanda não há visão; sem visão não há gestão.
Na varanda vê-se o "bigger picture". E é precisamente isso que as cláusulas 4.1, 4.2 e 9.3.1 solicitam: começar por observar o contexto externo, as partes interessadas, as tendências de mercado, a tecnologia emergente, os riscos que crescem e as oportunidades que despontam.
Uma revisão pela gestão não pode começar no ruído das não conformidades e dos indicadores; tem de começar com perguntas que levantem a cabeça da organização: O que mudou à nossa volta? O que é que o mercado nos está a dizer? O que realmente aprendemos sobre os nossos clientes nos últimos doze meses? Quando esta perspectiva não existe, a revisão reduz-se a um relatório anual — e perde o seu poder transformador. Ficamos presos no passado.
Subir à varanda também serve para sair da defensiva. Enquanto estamos "no palco", a tendência natural é reagir, justificar, encontrar culpados ou transformar decisões estratégicas em discussões operacionais. A ISO 9001 pede o contrário: decisões baseadas em factos, análise serena, foco no sistema. Na varanda, os dados deixam de ser munição e passam a ser informação neutra. Deixa-se de perguntar "quem errou?" e passa-se a perguntar “o que este resultado revela sobre o nosso sistema?” É um deslocamento subtil, mas decisivo: transforma a revisão num exercício de aprendizagem, não num tribunal interno. Na varanda, os dados iluminam; no palco, os dados queimam.
Da varanda nasce outra disciplina essencial: decidir. A revisão pela gestão não existe para "fazer o ponto da situação" (e meu Deus, como isto é comum); existe para orientar o futuro do sistema. Ury lembra-nos que só quando observamos o padrão e afastamos o ruído é que a decisão se clarifica. E é isso que a cláusula 9.3.3 pede: quais mudanças do sistema são necessárias? Que riscos exigem resposta? Que capacidades precisamos desenvolver? Que processos precisam de ser redesenhados? Quando a gestão sobe à varanda, deixa de ver indicadores soltos e passa a ver o sistema vivo que eles descrevem. O papel da revisão não é recolher números; é decidir o próximo passo.
A varanda ainda cria espaço para pensar em interesses, e não em posições. Uma posição é "temos muitas reclamações". Um interesse é "os nossos clientes estão a sentir falhas num momento crítico do seu ciclo produtivo". As posições discutem-se; os interesses resolvem-se. Este movimento, de sintomas para causas e de posições para intenções, é o que torna uma revisão verdadeiramente orientada para a melhoria contínua. Na varanda, deixamos de discutir quem tem razão e passamos a descobrir o que é importante.
Por fim, a varanda abre o horizonte: tira a gestão do curto prazo e coloca-a no futuro. Uma revisão feita no palco fica presa nos volumes do ano ou do trimestre, nas reclamações recentes, nas urgências do dia a dia. Mas a varanda devolve perspectiva. E a pergunta central da ISO 9001 reaparece com força: está o nosso sistema preparado para o futuro? É na varanda que surgem questões raras, mas essenciais: o nosso modelo de processos continua adequado? Temos competências para as tecnologias que vêm aí? O que os nossos clientes valorizarão daqui a dois anos? Estamos a monitorizar o que é relevante ou apenas o que é fácil de medir? Estas perguntas são as que distinguem uma revisão burocrática de uma revisão estratégica. Gestão de topo sem varanda é gestão de curto prazo.
No fundo, a metáfora de William Ury sintetiza o que a ISO 9001 pretende: uma revisão pela gestão que observa o sistema como um todo, e não o palco de cada problema isolado. Talvez a melhor forma de começar qualquer revisão seja mesmo dizer explicitamente:
- Antes de discutirmos os indicadores, vamos todos subir à varanda.
quarta-feira, novembro 26, 2025
Tem um Frankenstein?
Há tempos, usei esta imagem:
"Procedures written years ago — by people who've already left.Too much paperwork nobody reads.Too little connection between what’s written and what’s done."
"Layering over, not uninstalling."
“Management systems tend to accumulate over time like barnacles on the hull of a ship.”
"In this way, if the WTP/HTW choice is the heart of strategy, then MHC are the muscles and EMS its nervous system — the network of signals, incentives, and feedback loops that translate strategic intent into coherent, day-to-day action."
- O sistema tem de reflectir a realidade, não uma ficção confortável.
- O sistema tem de orientar as decisões, não de as bloquear em nome de uma conformidade bacoca.
- O sistema tem de simplificar a acção, não de adicionar camadas de complexidade.
- O sistema tem de ligar a execução ao que realmente interessa — a estratégia, o propósito, a criação de valor.
- procedimentos com 20 páginas quando bastariam 2;
- instruções escritas há 10 anos por pessoas que já nem lembramos;
- práticas que mudaram no chão de fábrica mas continuam no papel;
- auditorias internas feitas como checklists automáticas;
- equipas que já não acreditam no sistema porque o sistema já não acredita nelas.
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