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sexta-feira, janeiro 30, 2026

Foco no valor, diversificação na exposição (parte III)

Na Parte I e na Parte II argumentei que a cláusula 4.1 da ISO 9001:2015 não é um requisito burocrático, mas um convite a ler o contexto com intenção estratégica. O artigo de Gillian Tett ajuda precisamente nisso: mostra que uma falha das lideranças é tratar a incerteza como um ruído temporário, quando ela se tornou estrutural.

É aqui que a revisão pela gestão (cláusula 9.3 da ISO 9001) ganha importância. Não como reunião para “picar o ponto”, mas como o momento em que a gestão pára, levanta a cabeça do dia-a-dia, sobe à varanda, e pergunta se o mundo mudou — e o que isso implica para a empresa.

Uma revisão do sistema bem feita não começa por indicadores nem por procedimentos. Começa por perguntas certas. Por exemplo:

Sobre os pressupostos (a parte que quase nunca se discute, a água do aquário em que nós somos os peixes)
  • Que pressupostos sobre o nosso mercado damos como adquiridos?
  • Que "normal" estaremos a assumir que pode já não existir?
  • Estamos a gerir os riscos dentro de um modelo que pode já estar obsoleto?
Sobre o contexto externo
  • Que mudanças políticas, regulatórias ou geopolíticas podem afectar o nosso negócio nos próximos 3–5 anos?
  • Que decisões governamentais (tarifas, incentivos, regras ambientais, compras públicas) podem alterar as condições de concorrência?
  • Estamos a tratar estas mudanças como ruído ou como sinais estratégicos?
Sobre o contexto económico e estrutural
  • O nosso modelo de negócio pressupõe o crescimento contínuo do mercado?
  • O que acontece se o mercado estagnar, fragmentar ou se tornar um jogo de soma zero?
  • Onde já estamos expostos a essa lógica sem o admitir?
Sobre as oportunidades (a parte esquecida da cláusula 4.1)
  • Que oportunidades podem surgir precisamente da instabilidade actual?
  • Quem perde quando o contexto muda — e quem pode ganhar?
  • Estamos posicionados para capturar valor num mundo menos previsível?
Sobre foco, dependência e fragilidade
  • Onde estamos excessivamente dependentes de um cliente, de um mercado ou de uma geografia?
  • Essa dependência resulta de uma escolha consciente ou de inércia histórica?
  • Que riscos do contexto tornam essa dependência mais perigosa hoje do que no passado?

Li o artigo do FT de ontem, "Chemicals sector calls for Europe to act after 80% fall in investment", e imaginei o cenário de uma empresa que fabrica e vende bombas centrífugas, aptas a operar em ambientes ATEX, para a indústria química europeia.

Pressupostos (a água do aquário que quase ninguém nomeia):

  • A indústria química europeia manterá capacidade produtiva relevante.
  • Os clientes continuarão a investir em activos industriais na Europa.
  • Segurança e conformidade ATEX continuarão a justificar prémio de preço.
  • O risco regulatório continuará a favorecer os fornecedores europeus.

Normal assumido: base industrial química europeia estável. Será razoável?!

Pergunta incómoda: E se o “normal” já for a desindustrialização progressiva?

Contexto externo

  • Encerramento e deslocalização de fábricas químicas na Europa.
  • Transferência de investimento para China, Médio Oriente, EUA.
  • Política industrial europeia lenta e errática.
  • Tensões geopolíticas a afectar cadeias de fornecimento e exportações.
  • Pressão ambiental e energética sobre os clientes.

Risco típico: tratar isto como um ciclo negativo, e não como uma ruptura estrutural.

Oportunidades (a parte esquecida da cláusula 4.1/6.1)

  • Aumento da aversão ao risco em ambientes ATEX.
  • Valorização de fiabilidade, certificação e histórico de segurança.
  • Necessidade de prolongar a vida útil de activos existentes.
  • Retrofit, manutenção avançada e serviços de engenharia.
  • Substituição de fornecedores baratos após incidentes ou falhas.

Quem ganha: quem reduz risco operacional e regulatório do cliente.

Foco, dependência e fragilidade

  • Dependência excessiva da indústria química europeia.
  • Dependência de poucos grandes clientes industriais.
  • Dependência de investimento novo, não de base instalada.
  • Dependência de um quadro regulatório europeu específico.

Fragilidade crítica se a base industrial continuar a encolher.

Será que estamos a gerir os riscos dentro de um modelo industrial europeu que pode estar a desaparecer?

Se a indústria química europeia investir menos durante a próxima década, como é que esta empresa continua a criar valor?

Não é de esperar respostas imediatas. Aliás, tenha medo delas. Discuta e deixe o tema marinar.

sábado, janeiro 17, 2026

Revisão pela gestão - quando a realidade entra na sala (parte VII)

Parte Iparte IIparte III, parte IV, parte Vparte VI aparte VI b e parte VII.

Quando animo o workshop associado a este ISO 9001 Lead Implementer Course. A certa altura apresento esta imagem ...

... e faço o mea-culpa pelo tempo em que me comportava, como consultor, como alguém que acreditava que os dados e a análise eram suficientes para gerar a mudança.

No livro The Heart of Change, John Kotter conta uma história simples, mas profundamente reveladora, sobre algo que a maioria dos sistemas de gestão continua a ignorar.

Numa grande empresa industrial existia um problema crónico nas compras. A organização adquiria uma quantidade excessiva de modelos diferentes de luvas, a múltiplos fornecedores, com preços muito distintos para produtos praticamente iguais. Os custos eram elevados, as ineficiências evidentes. Os dados existiam e os relatórios mostravam-no com clareza.

E, no entanto, nada mudava.

A gestão tinha analisado os números. Tinha reflectido sobre os relatórios. Mas não existia urgência. Não existia desconforto suficiente para decidir. Não existia movimento.

O responsável pelas compras decidiu então fazer algo diferente. Em vez de preparar mais uma apresentação, trouxe a realidade para dentro da sala. Reuniu um exemplar de cada tipo de luva comprada pela empresa, etiquetou-as com o fornecedor e o respectivo custo unitário e dispôs centenas de luvas sobre a mesa da sala de reuniões.

Quando os membros da gestão de topo entraram na sala, não viram gráficos nem indicadores. Viram desordem, redundância e diferenças de preço absurdas para produtos quase idênticos. O impacto foi imediato.

Kotter resume aqui uma ideia central sobre como a mudança realmente acontece. Primeiro é preciso ver o problema de forma concreta e tangível. Depois, é inevitável sentir algo — surpresa, desconforto, indignação. Só então a mudança se torna possível e, muitas vezes, rápida.

Este ponto contrasta com a lógica dominante em muitas Revisões pela Gestão, quer no âmbito da ISO 9001 quer da ISO 14001. A sequência implícita costuma ser racional e elegante: analisar, reflectir, mudar. O problema é que esta sequência, por si só, raramente gera acção.

A análise, quando permanece abstracta, não incomoda. A reflexão, quando não envolve emoção, mantém-se educada. E a educação excessiva é inimiga da mudança.

As Revisões do Sistema não foram pensadas para serem seminários técnicos ou exercícios académicos. Foram concebidas para criar movimento. E o movimento raramente começa com melhores argumentos ou gráficos mais sofisticados. Começa quando a realidade se torna visível e quando alguém sente, de forma inequívoca, que continuar assim já não é aceitável.

A implicação é simples e desconfortável. Se tudo for reduzido a dashboards, semáforos e apresentações em PowerPoint, a gestão pode compreender o sistema, mas dificilmente o sentirá. E aquilo que não se sente, quase nunca se muda.

Por vezes, o contributo mais poderoso para uma Revisão pela Gestão não é mais um indicador, mas um objecto em cima da mesa: um produto rejeitado, uma reclamação de cliente lida em voz alta, um conjunto de retrabalhos acumulados, um incidente ambiental reconstruído passo a passo. Recordo a reacção de estupefacção de um Director Geral perante a foto de uma má, muito má, prática ambiental na sua empresa:

- Isto é na minha empresa?

- De quando é isto?

Quando os líderes conseguem ver a realidade e sentir as suas consequências, as decisões tendem a surgir com rapidez.

A mudança não começa no Excel.

Começa quando a realidade entra na sala.

E talvez esta seja uma das lições mais práticas e humanas de John Kotter — uma lição que as Revisões pela Gestão ganhariam muito em levar a sério.


sábado, janeiro 10, 2026

Revisão pela gestão - cuidado com quem fala primeiro (parte VII)

Parte Iparte IIparte III, parte IV, parte V e parte VI a e parte VI b.

Quem fala primeiro decide mais do que parece.

Em muitas revisões pela gestão, o momento decisivo ocorre nos primeiros minutos. Não quando se analisam indicadores, mas quando alguém — quase sempre da gestão de topo — fala cedo demais. A partir daí, a reunião continua. Mas o espaço real de decisão encolhe.

Não por má-fé, mas por dinâmica humana. Num contexto hierárquico, a primeira opinião funciona como âncora. Define o enquadramento, sinaliza o que é aceitável e condiciona o que será dito a seguir. As discordâncias tornam-se cautelosas, as alternativas transformam-se em nuances e o silêncio começa a ser confundido com concordância. O grupo parece alinhado — mas está apenas sincronizado. 

Escrevi o parágrafo anterior e pensei num David Attenborough a fazer um documentário sobre o comportamento humano numa reunião de trabalho marcada pelo contexto hierárquico. Conseguem imaginá-lo a sussurrar-nos algo como: observados à distância, os subordinados ajustam-se com rapidez notável. Escutam com atenção não apenas as palavras, mas o tom, as pausas, a disposição do dia. Procuram sinais: um franzir de sobrolho, um suspiro, um sorriso breve. Em poucos segundos, avaliam para que lado a gestão de topo acordou naquela manhã. A partir daí, calibram a postura, afinam o discurso, suavizam a discordância ou silenciam-na por completo. Não é cálculo frio; é adaptação. Um comportamento aprendido, repetido e refinado ao longo do tempo ... essencial para sobreviver no ecossistema da hierarquia.

Num artigo anterior, defendi que substituir tópicos por perguntas muda a natureza da revisão pela gestão. Este texto aprofunda o porquê no plano humano. As perguntas não são apenas uma técnica de agenda; são também, ou podem ser, um mecanismo de protecção da conversa. Mantêm o espaço aberto quando, de outra forma, seria fechado pela primeira opinião forte.

Se a segurança psicológica determina se a verdade entra na sala, a estrutura da conversa determina que verdade entra. E aqui o papel do líder é crítico. Não apenas como decisor, mas também como guardião do espaço. Quando o líder fala cedo, a reunião transforma-se numa confirmação da sua posição. Quando adia a sua opinião, cria espaço para que outras perspectivas, incluindo as incómodas, sobretudo essas, possam emergir.

Há erros clássicos que se repetem: a opinião precoce da gestão de topo; reuniões dominadas por dois ou três; o silêncio interpretado como alinhamento. Nada disto viola formalmente a ISO 9001. Mas tudo isto pode esvaziar a reunião de revisão pela gestão daquilo que a norma realmente procura: decisões informadas que melhorem o sistema.

Perguntas adiam conclusões, suspendem hierarquias por instantes e convidam à exploração antes da avaliação. Funcionam como travão natural à convergência prematura.

No fim, uma boa acta não prova que houve boa decisão. Prova apenas que algo foi registado. A qualidade da decisão nasce antes — no modo como a conversa foi estruturada e no espaço que foi criado para pensar em conjunto.

Na próxima revisão pela gestão, vale a pena reparar: quem falou primeiro? E porquê? Muitas vezes, a decisão já estava lá.


sábado, janeiro 03, 2026

Revisão pela gestão - antes dos indicadores: é seguro dizer a verdade? (parte VI b)

Parte Iparte IIparte III, parte IV, parte V e parte VI a.


A boa notícia é que não é preciso transformar a revisão pela gestão numa sessão terapêutica para construir segurança. Basta introduzir práticas simples - práticas que podem começar já na próxima reunião.

 

Antes da reunião, pede-se uma página de realidade: "O que gera preocupação?", "O que não sabemos ainda?", "O que pode correr mal nos próximos meses?". E pede-se leitura prévia. A reunião não é para explicar slides, é para tomar decisões. Quem chega sem ter lido e começa "do zero" está, na prática, a fazer perder tempo a todos.

 

Durante a reunião, o líder impõe uma regra a si próprio: fazer perguntas antes de emitir opiniões. Primeiro, perceber bem o problema. Só depois avaliar e decidir. Ajuda também começar com quinze minutos de problemas à vista: riscos, falhas, surpresas, assuntos incómodos. Não para apontar dedos, nem para castigar alguém, mas para evitar que a organização seja castigada pela realidade por ser apanhada desprevenida.

 

Outra prática é dar voz logo no início a quem fala menos. Uma rodada curta: "O que o preocupa?", "O que não está a ser discutido?". 

 

E, talvez o mais importante, normalizar o "não sei". Há organizações onde admitir incerteza é visto como fraqueza. Mas, em gestão, a incerteza é um dado. Fingir certeza é que é fraqueza e costuma sair caro.

 

Depois da reunião, há um teste simples: o dia seguinte. Se alguém trouxe uma realidade difícil, a liderança reforçou esse comportamento — ou deixou que o mensageiro pagasse um preço? A cultura mede-se muito menos no que se diz em sala e muito mais no que acontece depois.

 

Tudo isto liga-se directamente à essência da ISO 9001. A norma pede decisões informadas e melhoria do sistema. Mas, sem acesso à realidade, "considerar entradas" transforma-se numa formalidade. Uma acta impecável não compensa uma realidade escondida.

 

A revisão pela gestão pode ser o lugar mais seguro da organização: o lugar onde a verdade é bem-vinda porque é útil. Quando isso acontece, os indicadores deixam de ser maquilhagem passam a ser instrumentos (Talvez por isso as empresas com metas inferiores à capacidade da empresa para tudo ficar sempre bem. Por exemplo, desempenho médio anual de uma operação: Eficiência de 79%. Meta para o ano seguinte: Eficiência de 65%). E a reunião deixa de ser um ritual conforme para se tornar aquilo que deveria ser: um acto de direcção.

 

No próximo texto, continuo por aqui: quem fala primeiro, quem fala mais e como isso decide metade do resultado — antes de qualquer indicador ser analisado.

quarta-feira, dezembro 31, 2025

Revisão pela gestão - antes dos indicadores: é seguro dizer a verdade? (parte VI a)


Um soundbyte sobre revisões pela gestão que encontrei há tempos é:
"Most management reviews fail not because of data... but because of silence."

E esta frase é uma boa justificação para o tema deste postal - antes dos indicadores: é seguro dizer a verdade? Uma pena escrever este texto sem uma troca de opiniões com o meu parceiro das conversas oxigenadoras, alguém que leva muito a sério o tema da segurança da opinião (além da outra segurança).

Há revisões pela gestão que parecem exemplares. Tudo corre com fluidez. Os indicadores estão quase todos verdes. As apresentações são claras. A acta fica impecável. A reunião termina a horas. As pessoas saem com a sensação de dever cumprido.

Já estive em revisões pela gestão que mais parecem um carrossel de apresentações defensivas. As diferentes chefias de departamento sucedem-se em intervenções curtas, cronometradas, conscientes de que o seu papel não é pensar em conjunto, mas "passar no exame". O ambiente lembra o estudante inseguro perante um exame oral conduzido por um catedrático que aprecia reprovar alunos para reforçar a sua aura de rigor. O objectivo implícito não é compreender o sistema, mas sim sobreviver à exposição.

Nota-se, no momento em que regressam ao lugar, um suspiro fundo, como se lhes tivessem retirado toneladas dos ombros. Nota-se também nos que se sentem subitamente sortudos porque, nessa reunião em particular, a conversa se alongou em temas anteriores e já quase não sobra tempo para “o seu ponto”. Quando uma revisão pela gestão é vivida como um teste individual, o sistema desaparece de cena — e a verdade, por instinto de autoprotecção, fica à porta da sala.

E, meses depois, a organização é surpreendida por um problema que "ninguém viu". Ou melhor: alguém viu. Viu cedo. Comentou com um colega. Sugeriu uma cautela. Mas não trouxe o tema para a sala onde se decide. Não por falta de dados — mas por falta de segurança.

Quando isso acontece, o problema não está no painel de indicadores. Está no ambiente. Está na cultura invisível que decide o que pode ser dito, como pode ser dito, e com que consequências.

Uma revisão pela gestão (cláusula 9.3) exige decisões informadas. Mas informação não é apenas um conjunto de números e gráficos. Informação é também aquilo que as pessoas sabem e hesitam em dizer: o risco que cresce em silêncio, a falha que se repetiu, a reclamação que foi "resolvida" mas não ficou clara, a dúvida que ninguém quer assumir em público.

E aqui entra uma ideia simples, mas desconfortável: a qualidade da revisão pela gestão depende da qualidade da verdade que entra na sala. E a verdade só entra inteira quando é seguro trazê-la.

Julgo que se chama "segurança psicológica" a isto: a possibilidade real de dizer o que correu mal, o que preocupa, o que não se sabe, sem medo de humilhação, retaliação ou julgamento apressado. Não é um conceito "soft". É uma condição operacional para que a gestão possa ver o que precisa de ver.

Quando essa segurança não existe, a revisão pela gestão pode sofrer três distorções típicas.

A primeira é a filtragem antes da reunião. Os relatórios chegam polidos. As frases são neutras. As causas são vagas. O tom é optimista. O que é crítico fica de fora - não porque não existe, mas porque alguém decidiu, prudentemente, que "não é o momento" ou que "não vale a pena levantar ondas".

A segunda distorção é o silêncio durante a reunião. Os participantes ouvem, assentem, tiram notas. Mas a pergunta que interessa fica por fazer. A discordância fica por expressar. A incerteza é escondida atrás de palavras seguras. O resultado é uma reunião com aparência de alinhamento, mas na substância, evasão.

A terceira distorção é a conformidade aparente. Há decisões, há planos, há responsabilidades. Mas a base dessas decisões não foi a realidade - foi uma versão aceitável da realidade. A organização aprende, assim, uma lição perigosa: aprende a parecer bem, em vez de aprender a ser melhor.

É aqui que o papel da liderança se torna decisivo. E não apenas pelo que a liderança decide, mas pelo modo como reage.

Há gestos pequenos que, repetidos, matam a segurança sem que ninguém os nomeie. Um comentário irónico ("como é possível isto acontecer?"). Um suspiro de impaciência. Uma interrupção para "explicar". A pressa em encontrar culpados ("quem aprovou?", "quem deixou passar?"). O hábito de valorizar quem traz boas notícias e desvalorizar quem traz problemas.

A reacção instintiva do líder é, muitas vezes, o maior risco da reunião.


Por isso gosto da metáfora de "subir à varanda". Antes de mergulhar nos detalhes, a gestão de topo precisa de ganhar distância emocional. Precisa de escolher, deliberadamente, uma postura: curiosidade antes de julgamento; perguntas antes de conclusões; realidade antes de reputação. Isto não é psicologia aplicada: é disciplina de liderança.

A boa notícia é que não é preciso transformar a revisão pela gestão numa sessão terapêutica para construir segurança. Basta introduzir práticas simples - práticas que podem começar já na próxima reunião.

Continua.

Post Scriptum: Isto faz-me lembrar este livro e a estória em Berlim-Este (na RDA) que termina com "O que é feito do camarada Hans?". O que faz todo o sentido, as três distorções descritas acima fazem parte do cenário de qualquer reunião numa ditadura violenta. 



sábado, dezembro 13, 2025

Revisão pela gestão - elevar a qualidade da informação (parte V)

Parte Iparte IIparte III e parte IV.

A revisão pela gestão é, em teoria, um dos momentos mais importantes do sistema de gestão: o processo em que a organização pára para pensar, interpretar o que aconteceu, aprender e ajustar o rumo.

Na prática, porém, demasiadas revisões transformam-se num ritual burocrático, saturado de tabelas, valores soltos e apresentações intermináveis — precisamente aquilo que não ajuda uma equipa de gestão a decidir.

Uma revisão eficaz depende, acima de tudo, da qualidade da informação que se prepara e inclui no relatório.

E a qualidade da informação melhora drasticamente quando se fazem duas coisas bem: trazer narrativas e usar dados visuais que revelam tendências.

A maioria das revisões falha porque as pessoas chegam à reunião "armadas" com as tabelas incluídas no relatório.

Mas números sozinhos são mudos: mostram sintomas, não causas.
A gestão precisa de explicações, não apenas de valores.
Uma narrativa bem construída responde a quatro perguntas simples:
  • O que aconteceu realmente?
  • Por que aconteceu?
  • O que aprendemos?
  • O que vamos fazer diferente? É preciso fazer diferente?
Os gráficos mostram que o indicador subiu ou desceu; a narrativa explica porquê — e é essa explicação que sustenta decisões responsáveis.

Narrativas transformam a revisão de um exercício de contabilidade num momento de aprendizagem organizacional. Os números informam; as narrativas esclarecem.

Um livro que muito me influenciou nos anos 90 foi  “Keeping Score - using the right metrics to drive world-class performance” de Mark G. Brown. Nesse livro, nunca mais esqueci, o autor lista três erros fatais na apresentação de resultados:
  • usar tabelas em vez de gráficos;
  • mostrar apenas o último valor; e
  • ignorar metas ou referenciais.
Os três erros têm um denominador comum: apagam o contexto.
E sem contexto, a revisão pela gestão transforma-se numa lotaria emocional — no estilo "herói num mês, enforcado no seguinte". Uma montanha-russa de emoções:


As tabelas podem ser precisas, mas são péssimas para revelar padrões.
Em contrapartida, um gráfico bem construído mostra em segundos aquilo que uma tabela nos esconde em minutos:
  • tendência;
  • sazonalidade;
  • variação;
  • estabilidade ou instabilidade do sistema; e
  • relação entre indicadores.
Os indicadores são apresentados num dashboard. E um dashboard eficaz deve caber num único olhar — nunca num interminável scrolling, como Stephen Few explica de forma magistral. O recurso a sparklines permite mostrar o essencial — tendência, ponto actual, variação — numa linha discreta, elegante e compacta. Esta técnica permite ver o conjunto completo de indicadores num único ecrã ou numa folha A4. É aqui que se cumpre o ideal de Few: simultaneidade de visão, o momento em que começamos a ver relações, não apenas valores.

O que deve conter cada indicador apresentado na revisão?
  • 12-24 meses de histórico.
  • Limites, metas ou referencias.
  • Linha de tendência.
  • Relações com outros indicadores.
  • Simplicidade visual: menos cor, mais sinal.
Este ponto é crítico: demasiadas cores transformam-se em ruído. A famosa "árvore de Natal" não ilumina decisões — apenas cansa a vista. Substituir os semáforos verdes/vermelhos por uma paleta mais neutra (pastel?) aumenta a legibilidade e reduz distracções.

Sem tendência, não há entendimento; sem entendimento, não há boas decisões.

A última síntese visual indispensável para uma revisão de qualidade é a carta de controlo — a ferramenta que impede a organização de cair na “bipolaridade militante” (herói/enforcado).

As cartas de controlo individuais (I-charts) revelam três informações essenciais:
  • Se a variação é aleatória ou estrutural.
  • Se o processo está estável ou instável.
  • Se vale a pena agir… ou se devemos deixar o sistema trabalhar.
Sem cartas de controlo, cada subida ou descida parece um acontecimento sobrenatural — um verdadeiro raio disparado do alto do Olimpo.


Mas a carta diz-nos a verdade que muitos gestores não querem ouvir: “O processo só consegue dar isto. O resto é fantasia.”

E aqui entra a lição do funil de Deming:
  • agir sobre o ruído destrói a estabilidade;
  • agir sobre o sinal é a essência da melhoria.
Nenhuma organização melhora só porque viu números.

Melhora quando compreende o comportamento do seu sistema. Quando isto acontece, a revisão deixa de ser um conjunto de "slides para cumprir a norma" e passa a ser um momento estratégico de verdade.
E só então, nesse instante em que o sistema fala e a gestão escuta, começam as decisões que constroem o futuro.

quarta-feira, dezembro 10, 2025

Revisão pela gestão - um espaço para decidir, não para apresentar (parte IV)

Parte Iparte II e parte III.

A revisão pela gestão prevista na ISO 9001:2015 é, por definição, um espaço de avaliação, reflexão e decisão. No entanto, em muitas organizações, a reunião transforma-se numa sequência interminável de apresentações, gráficos, explicações técnicas e leituras de relatórios. O que deveria ser um momento de liderança estratégica converte-se num exercício de transmissão de informação — precisamente aquilo que não acrescenta valor quando se está a gerir um sistema da qualidade.

A ISO 9001 é muito clara: as entradas do 9.3.2 devem ser consideradas, isto é, analisadas, sintetizadas e preparadas antes da reunião. Num webinar sobre a revisão pela gestão, costumo dizer: "Meeting time is too expensive and should be used wisely." A reunião não existe para fazer apresentações; existe para tomar decisões.

E para que a reunião seja um espaço de decisão, há uma condição essencial: toda a informação deve ser distribuída com antecedência, e todos os participantes devem chegar à reunião tendo estudado essa informação. Isto é o que permite que o tempo colectivo seja usado para interpretar, decidir e orientar o futuro do sistema — e não para ouvir o que poderia ter sido lido antes.

Preparação prévia: o segredo para libertar a reunião. O ponto 2 do fluxograma lá em cima.

A qualidade da revisão depende mais do trabalho realizado antes da reunião do que do que ocorre durante a reunião. O processo é simples:
  1. Os responsáveis preparam todas as entradas da cláusula 9.3.2, com análise, síntese e tendências, e não apenas dados brutos. Não afoguemos a gestão de topo em dados. Temos de lhes dar significado, não números.
  2. Esta informação é enviada com antecedência suficiente (muito difícil em Portugal).
  3. É solicitado (e exigido) que todos os participantes a estudem cuidadosamente.
  4. A agenda é construída não com tópicos, mas com perguntas que exigem decisões.
  5. A reunião discute apenas o que precisa ser decidido.
O grande erro é tentar "fazer tudo numa reunião": apresentar dados, explicar, analisar, interpretar e decidir (e até planear as acções que implementam as decisões). Quando isto acontece, a reunião torna-se pesada, longa e, muitas vezes, inconclusiva. A gestão vai para casa com resmas de slides; o sistema fica na mesma.

Há anos li que Jeff Bezos introduziu na Amazon uma prática famosa para lidar com um problema universal: pessoas que chegam às reuniões sem ter lido a documentação previamente. Em vez de transformar a reunião numa aula improvisada, Bezos instituiu os 15 minutos de silêncio no início de cada reunião estratégica.

Funciona assim:
  • A documentação é distribuída antes; todos deveriam lê-la.
  • Mas como alguns chegam “em branco”, a reunião começa com 15 minutos de silêncio absoluto.
  • Cada pessoa lê a documentação final novamente, desta vez sem interrupções.
  • Só depois se começa a discutir — e já em cima de informação partilhada.
É simples, eficaz e profundamente alinhado com o espírito da ISO 9001: todos têm acesso aos factos, todos têm entendimento comum e a reunião avança directamente para a tomada de decisões.

Este pequeno truque elimina dois problemas clássicos:
  • as reuniões que se tornam apresentações;
  • e os participantes que opinam sem conhecer os dados.
Adoptar esta prática numa revisão pela gestão é transformar a reunião num momento de inteligência colectiva e não num desfile de slides.

O valor real da revisão do sistema não está em apresentar informação; está em decidir: que processos precisam de ser repensados, que riscos aumentaram e exigem acção, que recursos são necessários, que prioridades mudaram, que lições do passado influenciam o futuro.

Quando a reunião se liberta de apresentações, cria espaço para perguntas difíceis, para interpretações cruzadas, para aprendizagem organizacional e, sobretudo, para decisões alinhadas com a estratégia e o contexto.

Uma revisão pela gestão que se limita a apresentar dados não cumpre o propósito da ISO 9001; uma revisão que produz decisões claras, responsáveis e prazos definidos cumpre-o plenamente.

A revisão do sistema é um dos raros momentos em que a organização pára para pensar. Não desperdiçar esse espaço com apresentações é um teste de maturidade. A liderança reúne-se para tomar decisões estratégicas, não para ouvir.



segunda-feira, dezembro 08, 2025

Revisão pela gestão - preparar tudo, rever só o necessário (parte III)


Preparar tudo, discutir só o necessário: a lógica da cláusula 9.3.2

Quando a norma diz que a revisão pela gestão deve ser “planeada e realizada tendo em consideração” um conjunto alargado de entradas, está a pedir algo muito concreto: todas as entradas devem ser preparadas, analisadas e disponibilizadas à gestão antes da reunião. 

No momento da preparação da revisão, a organização deve produzir informação clara, bem analisada e bem pensada sobre tudo o que a norma lista na cláusula 9.3.2: auditorias, desempenho de processos, satisfação do cliente, reclamações, acções correctivas, adequação de recursos, contexto externo e interno, partes interessadas, riscos e oportunidades, entre outros. Este trabalho é obrigatório e independente do que será discutido, ou não, na reunião. Pode fazer parte de um relatório para a revisão do sistema.

Mas uma coisa é preparar informações sobre tudo; outra, muito diferente, é discutir tudo em reunião.
É aqui que muitas organizações desperdiçam tempo e energia — confundem a obrigação de preparar informação com a de ocupar a agenda. O resultado é uma revisão pesada, longa, dispersa e quase sempre improdutiva.

A ISO 9001 não exige isso. A norma pede que as entradas sejam consideradas; não diz que todas devem ser tratadas oralmente, nem que todas exigem decisão.

A solução inteligente: preparar 100%, discutir 20%. A prática mais eficaz — e totalmente conforme com a norma — é a seguinte:
  • Preparar toda a informação prevista na cláusula 9.3.2 num relatório para a revisão do sistema;
  • Analisar, sintetizar, apresentar tendências e disponibilizar tudo à gestão de topo antes da reunião.
Este trabalho garante a conformidade documental e permite que a gestão tenha uma visão completa do sistema. Depois, vem a preparação da agenda. E a informação do relatório deve ser utilizada para construir a agenda de forma selectiva

A agenda não deve ser uma lista de tópicos — deve ser uma lista de perguntas que exigem decisões.
Se um item foi analisado no relatório e não requer mudança, acção ou decisão, não precisa de ocupar tempo de reunião.

É apenas registado no relatório como "considerado sem necessidade de acção".

Há que concentrar a reunião apenas no que exige direcção, decisão ou mudança.

Depois, na acta da reunião registam-se que entradas geraram decisão — e quais não.

A norma exige evidência de consideração, não debate de cada parágrafo da cláusula 9.3.2. Registar que um item foi analisado (no relatório) e não exige acção é plenamente conforme — e, de facto, é uma boa prática.

Esta abordagem cria as condições para melhores reuniões de revisão, porque evita  que fiquem reduzidas a um exercício de “checklist” sem reflexão real. Ao separar claramente "informação que deve ser preparada" de "informação que deve ser debatida", a organização protege o tempo da gestão de topo e aumenta a qualidade das decisões.

A revisão deixa de ser uma descarga de dados e passa a ser um momento estratégico, onde a gestão responde a perguntas como:
  • O que precisa de mudar no sistema para continuar eficaz e adequado?
  • Que riscos se tornaram críticos este ano?
  • Que capacidades precisamos para o próximo ciclo?
  • Que processos deixaram de servir o futuro?
Não esquecer: A norma obriga-nos a olhar para tudo, mas não a discutir tudo. A organização cumpre a ISO 9001 quando prepara e analisa todas as entradas da cláusula 9.3.2, documenta que foram consideradas, selecciona para a reunião apenas os pontos que exigem decisões e centra a agenda em perguntas que obrigam a agir.

É a combinação de rigor documental e foco estratégico que transforma uma revisão pela gestão numa ferramenta de liderança — e não num ritual anual de apresentação de dados.



sábado, dezembro 06, 2025

Revisão pela gestão - questões em vez de tópicos (parte II)

Uma revisão pela gestão eficaz começa muito antes da reunião ter lugar. Começa pelo modo como a agenda é construída. A ISO 9001 exige decisões informadas, análise crítica e foco no futuro — mas muitas agendas continuam a ser meras listas de tópicos, como "Auditorias", "Reclamações", "Indicadores" ou "Objectivos". Tópicos assim não dizem nada sobre o porquê de cada ponto estar ali (parece que estão ali apenas porque fazem parte da cláusula 9.3.2), nem sobre o que se espera decidir. Resultado: reuniões longas, dispersas, reactivas e pobres em conclusões.

Há um modo simples e poderoso de transformar tudo isto: escrever a agenda como perguntas, não como tópicos. A diferença parece subtil, mas tem um efeito profundo na clareza, na participação e na tomada de decisão.

As perguntas exigem clareza de propósito. Um tópico como "Indicadores do processo comercial" não revela o motivo da discussão. Mas uma pergunta como "Que decisões devemos tomar sobre o desempenho do processo comercial no último ano?" esclarece de imediato o objectivo. A equipa deixa de vaguear. O foco impõe-se.

Uma pergunta dá direcção; um tópico apenas apresenta uma intenção vaga.

As perguntas definem o tipo de conversa esperado. Quando a agenda apresenta apenas tópicos, ninguém sabe se o propósito é informar, analisar, discutir ou aprovar. As perguntas eliminam a ambiguidade:
  • “Que riscos precisamos considerar antes de aprovar este objectivo?”
ou
  • “Que opções temos para resolver esta não conformidade recorrente?”
Assim, todos chegam à reunião preparados para o nível de reflexão adequado.

As perguntas aumentam a participação. Perante um tópico abstracto, muitos adoptam a atitude passiva do "vamos ver o que acontece". As perguntas fazem o contrário: obrigam o cérebro a procurar uma resposta e, por isso, convidam à participação. Gera-se um contributo mais rico, mais concentrado e mais colectivo.

Perguntas puxam pela inteligência da equipa; tópicos deixam a inteligência adormecida.

As perguntas encurtam reuniões e evitam dispersões. Cada ponto pode ser encerrado com uma simples verificação: "Respondemos a esta pergunta?"

Se sim, avança-se. Se não, clarifica-se o que falta. Desta forma, evitam-se divagações, repetições e discussões paralelas — aquelas que transformam uma revisão pela gestão numa maratona sem rumo.

As perguntas revelam pressupostos escondidos. Uma lista de tópicos raramente obriga alguém a explicitar o raciocínio. Uma pergunta, pelo contrário, impõe a exposição das premissas.

Um exemplo simples:
Tópico — “Recursos e orçamento”
Pergunta — “Quais são as limitações reais de recursos para o próximo ano e que pressupostos estamos a fazer?”
A segunda formulação torna visível aquilo que a primeira esconde. E só quando se revelam os pressupostos é possível tomar boas decisões — exactamente o que a ISO 9001 exige.

Exemplos práticos na ISO 9001. Aqui fica uma tradução directa para o contexto da revisão do sistema pela gestão:





quinta-feira, dezembro 04, 2025

Revisão pela gestão - vamos todos subir à varanda?



Em Maio de 2024 descobri uma metáfora que tenho usado muitas vezes:
"The biggest obstacle we face when we're dealing with conflict isn't what we think it is. We usually think it's the 'other' sitting across from us at the table — a difficult individual, organization or nation. But I've found the biggest obstacle to getting what I want in any situation is even closer than that: It's me. It's us. It's on our side of the table.
The problem lies with our natural human tendency to react - to act and speak without thinking, in ways that are contrary to what we want to achieve. As the old saying goes, 'When you are angry, you will make the best speech you will ever regret. Either we attack or avoid, which doesn't solve the problem, or we accommodate and give in.
The secret is to do the opposite, which is where the metaphor of going to the balcony comes in. It means pausing and taking a step back from the situation. I counsel people to imagine themselves standing on a balcony overlooking a stage on which the conflict in question is taking place. The balcony is a place of calm, control and perspective. It's a place where you can see the bigger picture. Doing this work within ourselves is the key precondition for getting to yes for all involved."

Uma revisão pela gestão (cláusula 9.3 da ISO 9001) eficaz exige exactamente aquilo que quase nenhuma organização faz: subir à varanda (balcony) antes de entrar no detalhe. A metáfora de William Ury ajuda a traduzir o espírito da ISO 9001 porque descreve o movimento essencial que a norma pede — ganhar distância para ver o sistema como um todo. Sem varanda não há visão; sem visão não há gestão.

Na varanda vê-se o "bigger picture". E é precisamente isso que as cláusulas 4.1, 4.2 e 9.3.1 solicitam: começar por observar o contexto externo, as partes interessadas, as tendências de mercado, a tecnologia emergente, os riscos que crescem e as oportunidades que despontam. 

Uma revisão pela gestão não pode começar no ruído das não conformidades e dos indicadores; tem de começar com perguntas que levantem a cabeça da organização: O que mudou à nossa volta? O que é que o mercado nos está a dizer? O que realmente aprendemos sobre os nossos clientes nos últimos doze meses? Quando esta perspectiva não existe, a revisão reduz-se a um relatório anual — e perde o seu poder transformador. Ficamos presos no passado.

Subir à varanda também serve para sair da defensiva. Enquanto estamos "no palco", a tendência natural é reagir, justificar, encontrar culpados ou transformar decisões estratégicas em discussões operacionais. A ISO 9001 pede o contrário: decisões baseadas em factos, análise serena, foco no sistema. Na varanda, os dados deixam de ser munição e passam a ser informação neutra. Deixa-se de perguntar "quem errou?" e passa-se a perguntar “o que este resultado revela sobre o nosso sistema?” É um deslocamento subtil, mas decisivo: transforma a revisão num exercício de aprendizagem, não num tribunal interno. Na varanda, os dados iluminam; no palco, os dados queimam.

Da varanda nasce outra disciplina essencial: decidir. A revisão pela gestão não existe para "fazer o ponto da situação" (e meu Deus, como isto é comum); existe para orientar o futuro do sistema. Ury lembra-nos que só quando observamos o padrão e afastamos o ruído é que a decisão se clarifica. E é isso que a cláusula 9.3.3 pede: quais mudanças do sistema são necessárias? Que riscos exigem resposta? Que capacidades precisamos desenvolver? Que processos precisam de ser redesenhados? Quando a gestão sobe à varanda, deixa de ver indicadores soltos e passa a ver o sistema vivo que eles descrevem. O papel da revisão não é recolher números; é decidir o próximo passo.

A varanda ainda cria espaço para pensar em interesses, e não em posições. Uma posição é "temos muitas reclamações". Um interesse é "os nossos clientes estão a sentir falhas num momento crítico do seu ciclo produtivo". As posições discutem-se; os interesses resolvem-se. Este movimento, de sintomas para causas e de posições para intenções, é o que torna uma revisão verdadeiramente orientada para a melhoria contínua. Na varanda, deixamos de discutir quem tem razão e passamos a descobrir o que é importante.

Por fim, a varanda abre o horizonte: tira a gestão do curto prazo e coloca-a no futuro. Uma revisão feita no palco fica presa nos volumes do ano ou do trimestre, nas reclamações recentes, nas urgências do dia a dia. Mas a varanda devolve perspectiva. E a pergunta central da ISO 9001 reaparece com força: está o nosso sistema preparado para o futuro? É na varanda que surgem questões raras, mas essenciais: o nosso modelo de processos continua adequado? Temos competências para as tecnologias que vêm aí? O que os nossos clientes valorizarão daqui a dois anos? Estamos a monitorizar o que é relevante ou apenas o que é fácil de medir? Estas perguntas são as que distinguem uma revisão burocrática de uma revisão estratégica. Gestão de topo sem varanda é gestão de curto prazo.

No fundo, a metáfora de William Ury sintetiza o que a ISO 9001 pretende: uma revisão pela gestão que observa o sistema como um todo, e não o palco de cada problema isolado. Talvez a melhor forma de começar qualquer revisão seja mesmo dizer explicitamente: 

- Antes de discutirmos os indicadores, vamos todos subir à varanda.

 

quarta-feira, novembro 26, 2025

Tem um Frankenstein?

 Há tempos, usei esta imagem:


E outra parecida, para promover umas sessões de coaching sobre sistemas de gestão. Na "landing page" escrevi:
"Procedures written years ago — by people who've already left.
Too much paperwork nobody reads.
Too little connection between what’s written and what’s done."
Era — e continua a ser — o retrato fiel de muitas organizações.

Os procedimentos foram escritos aquando da implementação inicial do Sistema de Gestão da Qualidade: uma espécie de "instalação 1.0". O tempo passou, o contexto mudou, as pessoas que conheciam o sistema saíram, e aquilo que era claro e útil começou a encher-se de pequenas camadas: anexos, remendos, excepções, atalhos, práticas antigas que ninguém usa, mas que continuam lá, fossilizadas.
"Layering over, not uninstalling."
Acrescenta-se. Nunca se remove. Até que, imperceptivelmente, o sistema transforma-se num monstro: pesado, incoerente, difícil de seguir, impossível de explicar.

A imagem do Frankenstein é perfeita exactamente por isto: cada parte foi, em algum momento, adicionada com a melhor das intenções. Mas o resultado final? Uma criatura desajeitada, lenta, disforme e incapaz de cumprir o papel para o qual foi criada.

A coincidência que não é coincidência. Na passada segunda-feira, Roger Martin publicou “Revisiting Management Systems – The Nervous System of Strategy”.

E é curioso como o seu argumento é exactamente o que tenho visto e escrito ao longo dos anos — mas dito com a clareza conceptual que só ele tem. Martin explica que os sistemas de gestão, quando não são mantidos, acumulam camadas — regras, procedimentos, políticas e artefactos que já não se encaixam entre si:
“Management systems tend to accumulate over time like barnacles on the hull of a ship.”
Barnacles. Cracas presas ao casco de um navio.
E tal como as cracas tornam o barco mais lento, instável e ineficiente, os sistemas de gestão cobertos de resíduos do passado transformam-se em máquinas de fricção. Não ajudam — atrapalham.
O resultado?

Desvio estratégico. Lentidão. Capacidade de execução reduzida. E uma sensação difusa de que a organização está sempre atrasada, sempre presa, sempre a entrar em reuniões para discutir o que "já devia estar a funcionar".

Martin resume numa frase aquilo que qualquer consultor, auditor ou gestor sente todos os dias:
"In this way, if the WTP/HTW choice is the heart of strategy, then MHC are the muscles and EMS its nervous system — the network of signals, incentives, and feedback loops that translate strategic intent into coherent, day-to-day action."
Ou seja: O sistema nervoso tem de fazer com que os músculos trabalhem ao serviço do coração.

Traduzido para a realidade das organizações:
  • O sistema tem de reflectir a realidade, não uma ficção confortável.
  • O sistema tem de orientar as decisões, não de as bloquear em nome de uma conformidade bacoca.
  • O sistema tem de simplificar a acção, não de adicionar camadas de complexidade.
  • O sistema tem de ligar a execução ao que realmente interessa — a estratégia, o propósito, a criação de valor.
Um SGQ que não faz isto é apenas papel. Papel morto. Papel que assusta, se arrasta e olha para nós com aquele ar de Frankenstein institucional.

O que Martin chama “barnacles”, eu vejo todos os dias como:
  • procedimentos com 20 páginas quando bastariam 2; 
  • instruções escritas há 10 anos por pessoas que já nem lembramos;
  • práticas que mudaram no chão de fábrica mas continuam no papel;
  • auditorias internas feitas como checklists automáticas;
  • equipas que já não acreditam no sistema porque o sistema já não acredita nelas.
No fundo, tanto Martin como eu estamos a dizer a mesma coisa: Um sistema de gestão deve ser vivo. Respirar.
Atualizar-se. Acompanhar a mudança.
Ser uma ferramenta de clareza — nunca de confusão.
E se isso não está a acontecer?
Então não tem um sistema de gestão.
Tem um Frankenstein.

quarta-feira, novembro 12, 2025

A melhoria não é o problema: o que falta à ISO 9001 (parte III)


Via Rory Sutherland cheguei a este vídeo: 


A ideia é:
“You can have something brilliant, but if people don’t believe in it or it’s not credible or there’s no conviction, you’ll still fail to sell it.”

O Ed Sheeran Peep Show demonstra o absurdo de confiar apenas no valor intrínseco do produto. Ed Sheeran está ali; o "produto" é perfeito. Mas a forma como é apresentado (numa barraca duvidosa, por um tipo de chapéu e ar suspeitos) anula o valor percebido.

O público não acredita, não confia, não entra.

É exactamente o que denuncio nas empresas que vivem em modo "ISO 9001 = produto conforme" e chega:
  • Produzem algo bom, tecnicamente correcto.
  • Mas não criam valor percebido, porque não ligam o produto à estratégia, ao cliente certo, à experiência ou à história que o mercado entende e valoriza.
O erro é o mesmo: confundir a qualidade técnica com o sucesso comercial.

E relaciono com o texto recente que escrevi aqui, “A melhoria não é o problema: o que falta à ISO 9001 (parte II)
"Veja-se a cláusula 8.2, que trata da determinação de requisitos relativos a produtos e serviços. O texto é praticamente mudo sobre algo decisivo numa lógica de gestão: a necessidade de escolher clientes-alvo, de procurar e conquistar os clientes certos. A norma continua presa à ideia de “cumprir os requisitos do cliente”, como se todos os clientes fossem iguais e como se não houvesse escolhas estratégicas a fazer."
Nesse texto, explico que a norma ficou presa a uma lógica de garantir que o produto cumpre requisitos, mas não incentiva a pensar sobre quem é o cliente certo, o valor que procura e como chegar a ele.

O Peep Show oferece o mesmo produto (Ed Sheeran) a todos — sem escolher público, sem criar contexto, sem pensar em who it’s for. É a versão empírica da minha crítica à cláusula 8.2: um sistema que verifica se o produto “cumpre requisitos”, mas não se questiona se está a ser oferecido às pessoas certas, de forma convincente e com uma proposta de valor clara.

Rory mostra que a confiança é emocional e contextual. Mesmo quando o produto é “brilhante”, sem credibilidade percebida, não há compra. Do mesmo modo, a conformidade ISO garante apenas que o produto “não falha” — mas não garante que alguém queira comprá-lo.

Mas sem equacionar quem é o cliente-alvo.
  • O que é um produto conforme? 
  • Qual é o canal adequado?
  • Qual é a mensagem?


domingo, novembro 02, 2025

A melhoria não é o problema: o que falta à ISO 9001 (parte II)

Parte I gerou uma troca de ideias. Um leitor comentou, com razão, que, pelo que eu escrevia, parecia decorrer que os auditores deveriam ter formação em gestão de empresas para compreender a estratégia e os projectos de melhoria.


É um ponto interessante, mas não creio que seja assim. Essa formação extra não faria mal, é certo, mas o papel do auditor não é avaliar se a estratégia é boa ou má. O apetite pelo risco e as escolhas estratégicas pertencem à gestão. O papel do auditor é outro: avaliar se a política da qualidade está alinhada com a orientação estratégica da organização, se os objectivos traduzem essa política e se os projectos de melhoria fazem sentido para alcançá-los.

O papel do auditor é verificar a coerência, não julgar escolhas.
O auditor não é um consultor nem um gestor-sombra. O seu trabalho não é discutir se a organização devia apostar noutro mercado ou adoptar outro posicionamento.

O seu papel é confirmar se o sistema de gestão tem lógica interna:
  • Se a política expressa uma direcção clara e coerente com o que a empresa declara ser a sua orientação; 
  • Se os objectivos traduzem essa direcção em resultados concretos e mensuráveis; e
  • Se os projectos de melhoria estão efectivamente ligados a esses objectivos. (Já agora, não ajuda nada que a ISO 9001 não considere obrigatório ter estes planos por escrito)
Quando o auditor avalia esta coerência, está a cumprir a função mais nobre da auditoria: verificar se a organização faz o que diz e se o que diz faz sentido à luz do seu rumo.

Uma ferramenta simples ajuda muito nesta tarefa: o teste de reversão de Roger Martin.
A ideia é esta — uma boa política implica uma escolha. E toda a escolha implica um “não”.
O auditor pode testá-lo perguntando: “O inverso desta política também poderia ser verdade?”
Se sim, há uma escolha real. 
Se não, a política é genérica e não orienta nada.

Durante a auditoria, em vez de pedir apenas o texto da política, o auditor pode seguir três perguntas simples:
  1. A política identifica uma direcção concreta? (ou é uma lista de boas intenções?) 
  2. Os objectivos derivam dessa direcção? (ou foram definidos porque "a norma pede"?) 
  3. Os projectos de melhoria ajudam a atingir esses objectivos? (ou são acções dispersas?)
A auditoria da qualidade não deve avaliar se a estratégia é acertada, mas sim se o sistema a traduz com coerência. O auditor é, antes de tudo, o guardião dessa coerência interna entre propósito, objectivos e melhoria. Quando cumpre bem esse papel, a auditoria deixa de ser um ritual de conformidade e transforma-se num exercício de inteligência organizacional.

sábado, novembro 01, 2025

A melhoria não é o problema: o que falta à ISO 9001


Christopher Paris escreveu recentemente que a introdução do conceito de "improvement" na ISO 9001:2000 ajudou a estragar a norma, em "Why the Addition of "Improvement" Helped Ruin ISO 9001". 


A sua tese é simples: até então, a ISO 9001 servia para conferir confiança aos clientes de que os fornecedores conseguiam cumprir consistentemente os requisitos. Ao introduzir a melhoria contínua, os autores criaram algo difícil de auditar, subjectivo, que retirou clareza e desviou a norma do seu propósito inicial.

Concordo que a norma perdeu clareza, mas não acredito que o problema esteja na ideia de melhoria. O problema está noutro ponto: o mundo mudou e a excelência operacional deixou de ser suficiente para garantir o sucesso do negócio. A norma não tem sabido salientar este ponto com a devida ênfase, e isso percebe-se muito bem na forma como a política da qualidade é escrita, comunicada e frequentemente auditada, como um texto genérico, desligado da verdadeira orientação estratégica da organização.

Nos anos 80 e 90, falar de qualidade era falar de Garantia da Qualidade. O foco estava em garantir, objectivamente, que o fornecedor produzia peças conformes. O jogo competitivo era claro: reduzir defeitos, aumentar eficiência, controlar custos. Num mundo em que a excelência operacional fazia a diferença, a certificação ISO 9001 era uma poderosa credencial.

Com a ISO 9001:2000, o conceito evoluiu para o de Gestão da Qualidade. A definição de sistema de gestão é explícita: trata-se de “estabelecer políticas e objectivos e trabalhar para alcançar esses objectivos”. Isto deslocou o foco do presente (o produto ou serviço está OK) para o futuro — a organização deve gerir-se como um sistema, considerar o contexto, antecipar riscos e planear mudanças.

Convém também recordar a origem da ISO 9001. A norma foi criada não para auditorias de terceira parte, mas para que os clientes pudessem auditar os seus fornecedores e, dessa forma, assegurar-se da conformidade dos produtos adquiridos. A certificação por entidades independentes só se generalizou mais tarde. Essa génese explica muito do seu desenho inicial: verificar se o fornecedor era capaz de atender aos requisitos do cliente, ponto final. O foco era o controlo, não a estratégia.

Essa herança ainda hoje se sente. Veja-se a cláusula 8.2, que trata da determinação de requisitos relativos a produtos e serviços. O texto é praticamente mudo sobre algo decisivo numa lógica de gestão: a necessidade de escolher clientes-alvo, de procurar e conquistar os clientes certos. A norma continua presa à ideia de “cumprir os requisitos do cliente”, como se todos os clientes fossem iguais e como se não houvesse escolhas estratégicas a fazer.

Já em 1996, Michael Porter alertava para o perigo de confundir a eficiência operacional com a estratégia. Os japoneses tinham revolucionado a gestão com qualidade total, kaizen e normalização, mas ao competir todos com os mesmos métodos, ficaram presos numa “armadilha de eficiência” — todos iguais, todos competindo pelo preço.

Nos meus textos sobre a “cristalização” e a mudança de paradigma que levou ao fim da minha marca Redsigma, desenvolvi esta ideia: houve uma altura em que reduzir a variabilidade e apostar na normalização bastava para diferenciar. Mas isso esgotou-se. Quando o mundo foi invadido por produtos chineses a preços muito competitivos, a excelência operacional não foi suficiente para assegurar o sucesso do negócio. Agora, o sucesso não vem da uniformidade, mas da capacidade de criar variedade, diferenciação e valor.

É aqui que a ISO 9001 falha em ser explícita. Ao falar da política da qualidade, dos objectivos e da melhoria, a norma não sublinha suficientemente que a qualidade deve ser entendida como criação de valor no futuro, e não apenas como garantia de eficiência no presente.

Na prática, isto traduz-se em políticas de qualidade redigidas de forma genérica, que não expressam escolhas estratégicas, e em auditorias que verificam a conformidade documental, mas não questionam se a política realmente orienta a organização para o futuro.

O que está em causa não é retirar o conceito de melhoria da norma. Pelo contrário: a melhoria é essencial, mas deve ser entendida como a ponte entre a eficiência operacional e a diferenciação estratégica.

A norma deveria reforçar que:
  • A Garantia da Qualidade continua a ser necessária — garantir os requisitos vigentes é a base.
  • A Gestão da Qualidade só tem sentido se for usada para preparar a organização para o futuro — ligar o contexto, os riscos, as oportunidades e as escolhas estratégicas.
  • A política da qualidade deve deixar de ser uma formalidade e passar a ser a tradução clara da direcção da empresa, onde se vê como pretende criar valor e diferenciar-se.
A ISO 9001 não se perdeu por ter introduzido a melhoria. Perdeu relevância porque não tem sabido ligar-se de forma clara à realidade de que a excelência operacional, por si só, já não garante sucesso. O desafio hoje não é apenas fazer bem o que todos fazem, mas escolher onde ser diferente, onde criar valor, onde apostar recursos.

Uma boa norma de gestão da qualidade deve ajudar as organizações a percorrer esse caminho. Se não o fizer, ficará condenada a um papel cada vez mais burocrático, longe das decisões que realmente definem o futuro das empresas.

Uma das razões para recentemente ter lançado este curso Turn Your Quality Policy Into a Strategic Compass.

quarta-feira, outubro 29, 2025

Pode ser muito mais do que treta

A propósito de "Bosch avança com lay-off na fábrica de Braga após centenas de despedimentos"

"Estrangulada por falta de chips, a fábrica da Bosch de Braga, a maior do país do grupo alemão, vai avançar para lay-off na próxima semana, mandando para casa a maioria dos cerca de 3.300 trabalhadores, avança o Negócios."

Muitas vezes ouço dizer que a análise de contexto e a análise de riscos organizacionais, exigidas pela ISO 9001, são pura burocracia. Um exercício formal, sem utilidade prática. Mas basta abrir os jornais para perceber como estas ferramentas podem ser vitais para a sobrevivência de uma empresa.

Veja-se este exemplo da Bosch em Braga.

A fábrica, por falta de chips, avança para o lay-off da maioria dos seus 3.300 trabalhadores. A produção fica parada por tempo indeterminado.

A origem do problema não está na fábrica de Braga, nem nos trabalhadores, nem nos processos internos. Está fora: uma crise geopolítica envolvendo a Nexperia, fornecedora de semicondutores. O governo holandês interveio na empresa por questões de propriedade intelectual; o governo chinês respondeu com restrições à exportação. Resultado: chips bloqueados, cadeias de fornecimento estranguladas e a Bosch em Braga parada.

Ora, é exactamente aqui que entram as cláusulas da ISO 9001 que muitos consideram “treta”:

  • Análise de contexto (cláusulas 4.1 e 4.2): uma organização deve identificar factores externos que podem influenciar a sua capacidade de cumprir os objectivos. Neste caso, a dependência de fornecedores críticos de chips, localizados em regiões vulneráveis a tensões políticas, seria um factor de peso.
  • Análise de riscos e oportunidades (cláusula 6.1): a empresa deveria avaliar a probabilidade de interrupção no fornecimento de semicondutores e o impacto devastador que tal interrupção teria na produção. Isto obrigaria a pensar em medidas: diversificação de fornecedores, contratos alternativos, stocks de segurança, planos de contingência para suspender e retomar a produção.
  • Objectivos da qualidade (cláusula 6.2): não faz sentido definir metas de entrega e produtividade desligadas da realidade externa. Se não se consideram os riscos da cadeia de abastecimento, os objectivos ficam sempre em risco de não serem cumpridos.

Este exemplo mostra que a ISO 9001 não se resume a garantir produtos conformes. Ela obriga as organizações a olhar para fora, a ler os sinais do contexto e a antecipar riscos.

No fundo, é uma questão de resiliência. Quem encara a ISO 9001 como burocracia perde a oportunidade de usá-la como radar e bússola. Quem a leva a sério tem mais hipóteses de resistir a choques, proteger empregos e garantir futuro.

A qualidade não está apenas no produto que sai da linha. Está também na capacidade de uma organização se preparar para o inesperado. 

Quer evitar que a sua empresa seja apanhada de surpresa por factores externos como os que afectaram a Bosch em Braga?

Posso ajudar a sua organização a fazer uma análise estruturada de contexto e de riscos, transformando o que parece ser apenas burocracia da ISO 9001 numa ferramenta prática de resiliência e tomada de decisão.

Se a sua empresa precisa de alinhar objectivos com a realidade do mercado, antecipar riscos críticos e preparar-se para o inesperado, fale comigo. Não sou bruxo, mas ando nisto há muitos anos e este blogue é a evidência do que faço e analiso.