Retirado do FT do passado dia 15 de Setembro:
quarta-feira, setembro 17, 2025
Curiosidade do dia
Portugal e Panasonic - as semelhanças
"Rivals Hitachi, Sony and NEC have been rewarded for executing painful transformations, each surging six times in value over a decade, while Toshiba was sold in 2023 for $15bn to Japan Industrial Partners. In contrast, the market value of Panasonic has languished for the past 10 years at about ¥3.75tn ($25bn)."
Falta visão e estratégia clara:
"We’ve talked with them but they don’t make any decisions. They’re siloed,” said a private equity executive in Japan. “We don’t have a clear picture of how that company will transform itself. It’s drifting."
Ontem à hora do almoço fui buscar uns livros entregues num ponto de recolha, enquanto regressava a pé ao escritório, folheei um deles e li um subcapítulo "Your best thinking five years ago is your baggage today." Encaixa bem com:
"Yet the legacy of successes in the 1980s and founder Konosuke Matsushita’s ingrained ‘water tap’ philosophy — to make products as abundant as water to capture a large share of the market — has made it hard for the company to evolve. Ogawa added: ‘Making that mindset shift is extremely difficult.’
...
Atul Goyal, analyst at Jefferies, said Panasonic's "real transformation begins when they decide what businesses they're good at" and prioritise allocating capital to areas of high-tech manufacturing competence.
One big decision shaping Panasonic's future will be the extent to which it offloads or halts the low-margin consumer electronics that made it a household name. Panasonic was attempting a "China cost, China speed and Japanese quality" revival, said Ogawa. [Moi ici: Como cá se faz com a importação de paletes de mão de obra barata e se adia a subida na escala de valor]
Neil Newman, head of strategy at Astris Advisory, has no doubt that Panasonic can push into new areas such as AI but he said the issue was "they always bring their baggage with them". [Moi ici: Vêem a ligação ao subcapítulo do livro. Weird!!! Não há coincidências, todos os acasos são significativos]
"Either they risk everything on a real restructuring and get rid of the consumer electronics," said Newman. "Or they just don't... and never set the world alight but risk gradual decline towards vulnerability and obscurity." [Moi ici: Conseguem a ver a ligação à "DVD leadership team", tão clara que até dói fisicamente]
terça-feira, setembro 16, 2025
Curiosidade do dia
"É preciso ser muito míope para não perceber que está a crescer na nossa sociedade, nas nossas cidades, um sentimento larvar contra o turismo, os turistas e os agentes (privados, mas também públicos) que o promovem.E não é preciso ser muito inteligente para perceber que esse sentimento cedo ou tarde, tal como aconteceu noutras paragens, vai acabar por se transformar em ação social e por consequência desta em ação política. Não sei se essa explosão súbita do descontentamento se dará já nestas autárquicas, mas sei que é uma questão de tempo....Infelizmente para os próprios, os agentes do setor parecem caminhar sonâmbulos.Ou muito me engano ou vão arrepender-se mais cedo do que imaginam de não estarem a liderar esta agenda. O descontentamento existe e está aí para quem queira estar minimamente atento. Em muitos outros temas, as forças políticas extremistas já deram mais do que prova da sua capacidade de cavalgar frustrações, irritações e anseios com soluções ilusórias e contraproducentes. O setor do turismo não ficará imune para sempre a essa tentação.Como em qualquer outro setor da economia, a autorregulação é quase sempre uma resposta melhor e mais inteligente (porque gerida por quem conhece os problemas a fundo) do que a regulação exógena, sobretudo quando pensada à pressa e para resolver problemas que se acumularam por miopia ou desleixo ao ponto da insustentabilidade.Talvez esteja na altura de alguém acordar."
Come on, Pedro Norton acha que o o agente típico do setor do turismo é como os espalhadores de bosta de Estarreja. Think again.
Penso que muitos serão como os gafanhotos da Big Agro: quando deixar de dar "deitam abaixo o pau do circo e levam a tenda para outro lado, como gafanhotos."
O aviso de Pedro Norton não deixa de ser um convite à lucidez: ou o sector desperta e lidera o caminho, com medidas próprias e inteligentes, ou arrisca-se a ser surpreendido por uma regulação externa e reactiva, que virá num clima de conflito e ressentimento.
A questão central não é se o debate vai acontecer, mas quem o vai conduzir. E se os agentes do turismo continuarem a “caminhar sonâmbulos”, dificilmente escaparão às consequências.
Um OVNI
No livro "Through the Looking-Glass, and What Alice Found There" Lewis Carroll, no Capítulo 2 - "The Garden of Live Flowers", Alice encontra a Rainha Vermelha (Red Queen).
- A Rainha pega na mão de Alice e começam a correr lado a lado.
- Depois de correrem intensamente, Alice percebe que continuam no mesmo lugar.
- É aí que a Rainha explica a famosa ideia: "Now, here, you see, it takes all the running you can do, to keep in the same place. If you want to get somewhere else, you must run at least twice as fast as that!"
Na biologia, o biólogo Leigh Van Valen (1973) usou a metáfora para formular a Red Queen Hypothesis:
- As espécies precisam de evoluir continuamente, não para ganhar vantagem, mas simplesmente para sobreviver num ambiente em que todas as outras também evoluem.
- Exemplo clássico: a corrida evolutiva entre predadores e presas (a gazela corre mais depressa para escapar, o leão precisa correr mais depressa para caçar).
Na economia a "corrida da Red Queen" tornou-se uma metáfora para situações em que o esforço é constante, mas o ganho líquido é nulo — porque todos estão a mover-se ao mesmo tempo.
- Concorrência internacional: países investem continuamente em inovação só para não perderem quota de mercado.
- Empresas em mercados maduros: precisam de melhorar produtividade, reduzir custos e lançar novos produtos só para manter a posição.
- Trabalhadores: têm de se qualificar continuamente apenas para não ficarem para trás.
É uma descrição viva daquilo a que chamamos "correr para ficar no mesmo sítio".
Estão a ver onde isto nos leva ... podia escrever sobre os produtores de uva no Douro, mas vou fixar-me no sector automóvel e no têxtil e calçado.
Primeiro o sector automóvel, em Março passado citei aqui num postal:
"São diferenças "impossíveis de cobrir por via do aumento da produtividade" [Moi ici: Aqui produtividade como aumento de eficiência, como redução de custos, como redução do denominador da produtividade. O que se segue é um exemplo ao vivo e a cores daquilo a que chamo há muito tempo o jogo do gato e do rato.], assume a administração, depois de comparar o salário bruto médio mensal nas suas fábricas nestes países e a respetiva evolução desde 2019. Em Ovar, o valor passou de €808 para €1303, enquanto a Roménia apresenta valores de €464 em 2019 e de €821 em 2025. Na Bulgária, o salário subiu de €361 para €583, em Marrocos saltou dos €284 para os €362, e na Tunísia aumentou dos €163 para os €284. No Egito, onde só há dados do atual exercício, o valor é de €136.""
No Domingo à noite no LinkedIn mão amiga tinha-me enviado isto:
O que é isto senão outro exemplo ao vivo e a cores da teoria dos Flying Geese:O país A deixa de ser competitivo (e aqui uso a palavra competitividade com toda propriedade) e o grosso da produção [escrever aqui ou têxtil, ou calçado, ou automóvel, ou ...] passa para o país B porque é mais barato. Mas o país A, ao evoluir na horizontal, da esquerda para a direita, ganha produtividade. E produtividade à custa do numerador e não do denominador, ou seja, ganhos muito superiores que ultrapassam as migalhas da melhoria da eficiência, como aprendi com Marn e Rosiello.
Começou na Alemanha (A), passou para Portugal (B) e está a passar para Marrocos et al (C). Recordar os relatos em primeira mão de Abril passado. Só não acontece mais depressa por causa do, peço desculpa pela palavra que vou usar, mas é para impressionar com a caricatura, suborno que os governos, com benesses fiscais e fundos comunitários, fazem para que a Autoeuropa atrase a decisão de sair.
Passemos ao calçado e têxtil.
Ontem na capa do JN, "Calçado e têxtil despedem mil trabalhadores numa semana"
BTW, o calçado tem tudo a ganhar em afastar-se da colagem que lhe querem fazer ao têxtil. O têxtil é muito Caím, o problema nunca é dele, é sempre dos outros, dos chineses, dos paquistaneses, dos trabalhadores, dos políticos, em suma dos maus.
BTW, com um título destes "Calçado e têxtil despedem mil trabalhadores numa semana" como conseguem seduzir jovens atentos para o sector? Lembram-se do que escrevi aqui a propósito de:
"A industria é forte, mas precisamos de começar pela educação e formação. E fundamental tornar este setor atrativo para as camadas mais jovens...
"Portugal tem um problema crónico de recursos humanos. A pirâmide etária está invertida e sem jovens a renovação torna-se difícil."
"O grande problema é não conseguir que os funcionários atuais, cada vez mais próximos da reforma, tenham seguidores na empresa, porque os admitidos não estão disponíveis para aprender o ofício."
Também podemos recuar a Novembro de 2016 e a "É verdade, não é impunemente que se diz mal".
Não tenho analisado aqui os números mensais das exportações, mas tive curiosidade em ver como vão as exportações do têxtil e do calçado (primeiros sete meses de 2025 versus primeiros sete meses de 2024) e fiquei admirado. As exportações em 2025 são cerca de 99,8% das de 2024. Ou seja, não foi o mercado externo que colapsou. O problema estará nas margens: os custos sobem (energia, matérias-primas, salários), mas as empresas não conseguem aumentar preços. Resultado: o sistema implode por dentro.
Recordar de Fevereiro passado:
"Portugal exportou 68 milhões de pares de calçado para 170 países em 2024, um crescimento de 3,9% em volume, mas uma quebra de 5,4% em valor face a 2023, para 1.724 milhões de euros, segundo o INE."
Recordar de Abril passado, "Competitivos, mas frágeis: o custo invisível de competir sem diferenciação"
Um OVNI, foi o que chamei a um candidato autárquico que conheço pessoalmente e que vi na RTP com um discurso diferente de todos os outros candidatos.
Conhece mais alguém que fale de produtividade como aqui neste blogue? Pois, outro OVNI... só ganho inimigos.
segunda-feira, setembro 15, 2025
Curiosidade do dia
Esta manhã junto à estação de caminho de ferro de Valadares.
Ao longe ainda pensei que eram os cidadãos que estavam a portar-se mal, mas de perto percebi que os contentores já estão cheios.
Esta fotografia, tirada hoje de manhã em Vila Nova de Gaia, mostra um problema que não é apenas estético: ecopontos rodeados de cartão, embalagens e sacos cheios, resíduos com elevado potencial de reciclagem que acabam amontoados no espaço público.
Se a recolha selectiva não funciona - seja por falta de frequência, insuficiência de capacidade ou falha de coordenação entre entidades - a confiança dos cidadãos esgota-se rapidamente. Para quê separar, se depois os resíduos ficam abandonados junto ao contentor?
A gestão de resíduos urbanos não é apenas um serviço de higiene. É um teste à credibilidade das políticas ambientais e ao compromisso com as metas de reciclagem que o país assumiu perante a União Europeia. Cada ecoponto cheio demais, cada recolha em atraso é uma oportunidade perdida de recuperar materiais e de reforçar a confiança pública.
O problema que esta imagem revela não é local, é sistémico: se queremos aumentar as taxas de reciclagem, não basta apelar ao comportamento dos cidadãos. É preciso garantir que a logística da recolha acompanha o esforço de separação. Caso contrário, transformamos uma boa intenção num gesto inútil.
Faz-me lembrar um desenho do Quino.
No primeiro boneco está alguém, em frente a algo semelhante ao que havia na estação dos correios na Praça do Município no Porto há muitos anos, indeciso sobre que ranhura escolher para colocar a carta que tem nas mãos.
No segundo boneco vêmos as traseiras daquela parede com as ranhuras e verificamos que todas elas encaminham as cartas para o mesmo sítio.
Cuidado com esta gente à frente de empresas (parte II)
“It should be possible for someone working in a call center to earn six figures quite easily.”
domingo, setembro 14, 2025
Curiosidade do dia
"What do Theresa May and Andy Burnham have in common with Michel Barnier, François Bayrou and Emmanuel Macron? All five were admirably honest with the public about the trade-offs inherent in financing an ageing society, and all five were duly punished for their candour by the public, the press, opposition politicians or all three.The past two decades of French and British politics are a graveyard of proposals to slow the upward ratchet of spending on growing elderly populations....Not only do French pensioners get larger cheques from the government than their counterparts anywhere else in the west, they start getting them several years earlier. The result is a situation in which over-65s now have higher average incomes than the working age population - unique both internationally and in France's own history. Even the rumour of threats to this arrangement is met with mass public outrage and opposition from left and right....In a particularly stunning statistic highlighted by French political analyst François Valentin, pensions play such an outsized role in the country's public finances that they accounted for one-sixth of the ministry of defence budget last year, and without them France would not meet Nato's 2 per cent target for military spending. [Moi ici: Isto tem o seu lado caricato]...Voters often accuse politicians of fiscal sleight of hand, but here they are complicit in presuming ever larger pension cheques can be conjured like rabbits from a hat. At some point, both groups must confront mathematical reality."
Anichar, ao vivo e a cores
- Portugal . 80 milhões de pares
- Reino Unido - 5 milhoes de pares
""We make around 100,000 pairs of Goodyear welted shoes at our factory every year," says James Fox, head of marketing and ecommerce at Crockett & Jones. "Currently, we get between 8,000 and 10,000 pairs of shoes back for repair from our customers annually."..."Just under half the people who buy from us send shoes back for refurbishment," says Little. "They do it five or six times. Then we have a range called Back on the Road where we take battered shoes that might be 20 years old, patch them up and add a new sole. When we've got 100 pairs, we have an online sale. They sell out within the hour.""
sábado, setembro 13, 2025
Curiosidade do dia
- Que problemas sociais existem hoje que o Estado não consegue resolver bem?
- Que papel único podemos assumir que faça sentido neste novo contexto?
- Acompanhamento de proximidade (solidão, sentido de pertença) - algo que apoios financeiros não resolvem.
- Resposta rápida e flexível a situações onde a burocracia estatal é lenta.
- Criação de comunidades de cuidado mútuo, não apenas de prestação de apoios.
What you see is all there is.[The eyes cannot see what the mind does not know.We only see what our mind allows us to see.The eye sees only what the mind is prepared to comprehend.]What the mind is prepared to comprehend is all there is.
Música para os meus ouvidos e os outros
"Os 544,65 milhões de euros em vinho de Portugal enviados para o estrangeiro nos primeiros sete meses deste ano ficaram 0,5% abaixo do registo homólogo. Até se compraram mais litros (+2,7%), mas a um valor médio inferior. Caiu de 2,73 para 2,65 euros no espaço de um ano (-3,16%), com a "forte redução do preço médio nos EUA a contribuir decisivamente para a descida do preço médio global das exportações portuguesas de vinho", enquadra Falcão.Até 2030, a meta fixada pela ViniPortugal passa por alcançar 1,2 mil milhões de euros em exportações e aumentar o preço médio para 3.19 euros por litro. O líder da organização diz ao ECO que mantém esses objetivos, embora "naturalmente [esteja] a rever e a ajustar a estratégia de promoção para dar resposta aos novos desafios e circunstâncias de mercado"."
sexta-feira, setembro 12, 2025
Curiosidade do dia
"Gone is the era of counting down the days until you turn 65 and can enjoy a quiet retirement in the pub or on the golf course.A growing cohort of people are instead working well into their seventies and eighties, a report by Bupa has found, driven by a desire to stave off dementia and loneliness in old age.One in four over-55s believe working past retirement age will help them to live longer and workplaces are being encouraged to do more to retain these older staff....A survey of 8,000 adults found that half of over-55s believed working past retirement age would help to keep their brains active and one in four believed it could help them to live longer.Some 13 per cent of over-50s have already returned to work after retirement and one in five said they would consider doing so. These people report a stronger sense of purpose and improved mental and physical health. John Shipton, 94, works three mornings a week on the checkouts at Waitrose's Exeter branch. He retired from full-time work as a maintenance controller at 65 but applied for his job at Waitrose at the age of 80.Shipton told The Times that the "pleasure of working" kept him going, adding: "Interactions with other people are so important in your life. It stops you going completely bananas.""
Eu que nunca pensei em reformar-me e me sinto um marciano ao lado de tanta gente com menos de 60 anos que aspira, que sonha com a reforma, agradeço a solidariedade destes ingleses.
Não são elas que precisam de Portugal, é Portugal que precisa delas (Parte VI)
"US drugmaker Merck has scrapped a £1bn London research centre and will lay off more than 100 scientific staff, as the industry accuses ministers of making the UK uncompetitive and paying too little for medicines.Merck, known as MSD in Europe, told the Financial Times that it would move the research activity to existing sites, mainly in the US, where the Trump administration is pressuring pharmaceutical companies to invest more."Simply put, the UK is not internationally competitive," the group said. The move to scrap the research centre in King's Cross - which was already under construction and set to open in 2027 - and lay off 125 scientists and support staff is a blow to Sir Keir Starmer's government."
Em postais anteriores, por exemplo, na série "Não são elas que precisam de Portugal, Portugal é que precisa delas" tenho insistido: Portugal não sobe na escala de valor com as empresas que já cá estão (produzimos 22€/hora). Sobe se conseguir atrair aquelas que ainda não estão, as que operam com níveis de produtividade próximos dos 400 €/hora, como aconteceu na Irlanda.
Para que essas empresas escolham Portugal, é preciso criar condições claras: talento, infra-estruturas, estabilidade institucional… e também um enquadramento fiscal atractivo. O IRC não pode ser visto como uma prenda às empresas locais, como discuti em "A descida do IRC é injusta". O IRC é uma alavanca estratégica para que multinacionais com alta produtividade decidam instalar aqui os seus centros de decisão, fábricas, laboratórios ou hubs de desenvolvimento.
quinta-feira, setembro 11, 2025
Curiosidade do dia
"delivery of one of the largest infrastructure projects roughly on time and close to budget.""There have been no deaths, serious injuries, major contract disputes or surprises on time or cost.""Tideway will be studied for decades as an exemplar case of how to deliver multibillion infrastructure programmes."
Esta última citação, "Tideway will be studied for decades as an exemplar case of how to deliver multibillion infrastructure programmes," fez-me recuar a 2023 e à "The Iron Law of Megaprojects" de Flyvbjerg:
- 47.9% are delivered on budget.
- 8.5% are delivered on budget and on time.
- 0.5% are delivered on budget, on time and with the projected benefits.
e coragem para dizer a verdade?
- pode significar enriquecer via produtividade,
- mas também pode servir para justificar cortes salariais, como no Uganda, onde "competitividade" se tornou sinónimo de empobrecimento
- salários baixos passam a ser vistos como condição de sobrevivência;
- como não há ganhos de produtividade, bons salários parecem incompatíveis com a competitividade;
- o sector deixa de atrair talento jovem, reforçando o círculo vicioso.
- Competitividade sem produtividade = empobrecimento.
- Para pagar bons salários é preciso atacar o numerador (inovação, tecnologia, novos modelos de negócio, produtos de maior valor acrescentado).
- Se se insiste no denominador, Portugal arrisca transformar a "força" do calçado (artesanato + tradição) numa armadilha de baixos salários e envelhecimento da força de trabalho.
"A indústria é forte, mas precisamos de começar pela educação e formação. É fundamental tornar este setor atrativo para as camadas mais jovens...""Portugal tem um problema crónico de recursos humanos. A pirâmide etária está invertida e sem jovens a renovação torna-se difícil.""O grande problema é não conseguir que os funcionários atuais, cada vez mais próximos da reforma, tenham seguidores na empresa, porque os admitidos não estão disponíveis para aprender o ofício.""Alguém convencionou que era duro e mal pago... O ofício é nobre."
Aquele "Alguém convencionou que era duro e mal pago" tira-me do sério... e como é que as pessoas pagam a renda ou o empréstimo da casa?
quarta-feira, setembro 10, 2025
Curiosidade do dia
Hoje, por volta das 7h00 da manhã, junto à estação de caminho de ferro de Valadares. A Infraestruturas de Portugal gosta de marcar, vedar, delimitar territórios num: "Isto é meu!"
Já cuidar do espaço... isso é secundário. Toda a gente sabe que o espaço não gera comportamentos ...
Recordo Julho de 2024:
"Hoje, percebi mais um sintoma do que é viver na Suíça. A pintura periódica das paredes dos humildes túneis das passagens para peões nas estações de caminho de ferro."
E, Agosto de 2023 na praia da Madalena:
"Abençoados os que cuidam, criam, restauram."
"Toda a gente sabe que o espaço não gera comportamentos..."
Pois… foi exatamente essa convicção que durante anos deixou estações, praças e bairros ao abandono.
Mas desde Wilson & Kelling (1982), "Broken Windows: The Police and Neighborhood Safety." The Atlantic Monthly, com a célebre “broken windows theory”, sabemos o contrário: um espaço cuidado gera comportamentos de respeito; um espaço degradado abre caminho ao desleixo, ao vandalismo e à insegurança.
Nova Iorque, nos anos 1990, foi um caso paradigmático. A limpeza sistemática dos graffiti no metro — todos os dias, sem falhar — não foi apenas estética: foi uma mensagem. "Aqui cuida-se, aqui há regras, aqui vale a pena respeitar." O resultado foi uma mudança cultural que ajudou a transformar a percepção de segurança na cidade.
E depois olho para Valadares, às 7h00 da manhã, com ervas a crescer num espaço abandonado pela Infraestruturas de Portugal, e penso:
O espaço não gera comportamentos? Gera, sim.
Gera pressa em passar, gera descuido, gera indiferença.
Tal como, em contraste, a Suíça e a praia da Madalena onde uma simples mão de tinta num bar de praia inspira respeito, pertença, até orgulho.
Ironia das ironias: o espaço não gera comportamentos... mas todos nós nos comportamos de acordo com o espaço que encontramos.
Vanity metrics é para egos
"Até que ponto este tipo de concursos, historicamente, desafiou, desafia, motivou, motiva, empresas e trabalhadores a esmerar-se, a desenvolver, a inovar, a diferenciar-se.E por cá, temos esta tradição? Podemos promovê-la?"
"Este azeite competiu e ganhou. O Risca Grande Virgem Extra venceu o primeiro prémio do Concurso de Azeites Biológicos da BIOFACH 2009 em Nuremberga, na Alemanha."
"Servir nichos ou segmentos premium exige foco, diferenciação, qualidade e uma proposta de valor clara. Mas é aí que reside a oportunidade: ao subir na escala de valor, uma PME pode transformar um mercado saturado numa arena mais controlada, mais rentável e menos dependente da guerra do preço."
terça-feira, setembro 09, 2025
Curiosidade do dia
15/ As a result of Ukraine building a tech navy, Russia has lost 1/3 of its Black Sea Fleet, which has been damaged or destroyed. pic.twitter.com/fQxUbY8wLL
— David Kirichenko (@DVKirichenko) May 14, 2025
Faz-me uma espécie ver políticos e militares tão entretidos em investir nas armas para combater a guerra anterior, enquanto a Ucrânia mostra como essas ideias estão obsoletas.
... ou a focar para crescer?
"By September 1997, Apple was two months from bankruptcy. Steve Jobs, who had cofounded the company in 1976, agreed to return to serve on a reconstructed board of directors and to be interim CEO....What he did was both obvious and, at the same time, unexpected. He shrunk Apple to a scale and scope suitable to the reality of its being a niche producer in the highly competitive personal computer business. He cut Apple back to a core that could survive....Jobs cut all of the desktop models—there were fifteen—back to one. He cut all portable and handheld models back to one laptop. He completely cut out all the printers and other peripherals. He cut development engineers. He cut software development. He cut distributors and cut out five of the company’s six national retailers. He cut out virtually all manufacturing, moving it offshore to Taiwan. With a simpler product line manufactured in Asia, he cut inventory by more than 80 percent. A new Web store sold Apple’s products directly to consumers, cutting out distributors and dealers."
Agora leio "If You Think Downsizing Might Save Your Company, Think Again":
"We found that downsizing firms were twice as likely to declare bankruptcy as firms that did not downsize. While downsizing may be capable of producing positive outcomes, such as saving money in the short term, it puts firms on a negative path that makes bankruptcy more likely. While not always fatal, downsizing does increase the chances that a firm will declare bankruptcy in the future.
Given this finding, we sought to understand why some firms were able to survive the negative effects of downsizing while some were not. We speculated that examining firms’ remaining resources could shed light on this question. Accordingly, we examined intangible resources (captured through Tobin’s q,a measure of the value of the firm not captured by its balance sheets), financial resources, and physical resources."
Gostava que o artigo estudasse as empresas que tiveram sucesso após o encolhimento. Encolher e manter o modelo de negócio é uma coisa. Encolher e mudar de modelo de negócio é uma coisa completamente diferente.
As PME precisam de clareza: cortar custos para sobreviver no mesmo modelo pode ser o caminho para o abismo; encolher para focar, repensar e transformar pode ser o início de um renascimento.
E a sua empresa? Está a cortar para resistir… ou a focar para crescer?
Recordar "Crise no setor têxtil: Polopiqué vai despedir 300 trabalhadores e Stampdyeing com salários em atraso" ou "Dezenas de funcionários de fábrica têxtil em Santo Tirso protestam contra salários em atraso"
segunda-feira, setembro 08, 2025
Curiosidade do dia
No The Times de hoje encontrei, "Coffee lovers buzzing over beans grown in Catalonia."
O artigo relata uma novidade surpreendente: a produção de café em Catalunha, algo até há pouco considerado impossível por se tratar de uma cultura tipicamente tropical. Juan Giraldez e Eva Prat, dois entusiastas de café, conseguiram criar uma plantação em Sant Vicenç de Torelló, a norte de Barcelona, onde as temperaturas vão de -3°C no inverno a 42°C no verão. Após quase dez anos de experiências, germinação difícil e "evolução forçada" das plantas, obtiveram a primeira colheita simbólica de 1,5 kg de grãos.
O projeto demonstra que a Europa, tradicionalmente consumidora, pode também vir a ser produtora de café. Apesar de os volumes ainda serem muito reduzidos, a ambição é chegar a dezenas de toneladas anuais. Para além da produção agrícola, há um simbolismo maior: mostrar que a adaptação às mudanças climáticas e às pressões económicas globais pode abrir espaço a novas culturas em territórios antes impensáveis. O artigo sublinha ainda o carácter quase artesanal da produção, a ligação da família ao projecto e a importância de diversificar numa altura em que os custos e os preços mundiais do café estão em alta.
No ano passado, na terra do meu pai, próximo de Condeixa (Coimbra), comeram-se mangas bem doces nascidas na terra.
Voltando ao café. O simbolismo é enorme. Numa altura em que os preços do café no mercado mundial estão em alta, em que a dependência de importações é uma fragilidade, dois empreendedores decidiram olhar para o que tinham — um clima desafiante, solos exigentes, conhecimento agrícola — e perguntaram: e se tentássemos?
Este exemplo catalão liga-se de forma directa ao que já escrevi aqui: “E se começássemos a experimentar responsavelmente?”.
No Douro continuamos presos à monocultura da vinha, repetidamente a pedir apoios sempre que o mercado aperta. Falta-nos a coragem de olhar para as nossas encostas e perguntar: será que apenas a vinha pode dar vida a este território?
Há culturas de nicho — como a estêva, a sempre-viva, a sálvia ou a calêndula — com enorme procura na perfumaria, cosmética e indústria farmacêutica. Estão adaptadas ao nosso clima e solos pobres. Mas permanecem ignoradas, enquanto se insiste em socializar as perdas de uma monocultura em crise.
O café catalão mostra-nos que não é preciso esperar por subsídios, nem seguir a cartilha única.
"The project has taken eight years, two of study and six of cultivation, and €700,000 in investment — all without public subsidies."
É preciso experimentar com disciplina, aceitar o risco, aprender com os erros, e persistir até abrir novos caminhos.
Se dois agricultores conseguiram fazer nascer café onde parecia impossível, não poderemos nós, no Douro, dar nova vida à estêva e a tantas outras culturas de alto valor?
Talvez o futuro passe menos por empobrecer alegremente — e mais por experimentar responsavelmente.
"People say we are mad, Giraldez said. "But we say, why not? Sometimes the edge is where the most beautiful things happen."
Ousar olhar para o nicho - o poder dos números
- 1% do mercado (segmento de luxo) concentra 15% do orçamento disponível;
- 9% do mercado (segmento de nicho) concentra 45%; e
- os 90% restantes (mercado de massa) ficam com apenas 40%.
- Nos Estados Unidos, a Moody's Analytics mostrou que os 10% do topo são responsáveis por quase metade de todo o consumo privado, quando nos anos 90 eram apenas um terço.
"The gulf between wealthy Americans – those whose households earn $250,000 or more – and lower and middle earners is growing. According to data from Moody’s Analytics, the top 10% account for 50% of consumer spending and one-third of GDP; in the 1990s, the wealthiest in the US accounted for one-third of spending."
- Em marketing digital, fenómenos semelhantes surgem: em certas plataformas de e-commerce, menos de 1% dos clientes pode representar mais de 60% da facturação. Na indústria dos jogos gratuitos, os chamados whales (jogadores "baleia") são menos de 1% mas podem gerar metade da receita total.
"The executives of a major media brand were recently shocked after reviewing an engagement audit conducted by our product team: only 2% of users were generating 50% of the site's total pageviews! For a billion-dollar retail client, a mere 1% of customers were driving 67% of its annual revenue.1%, not 20%.These findings beg an important question for marketers: shouldn't we be focusing our efforts only on those customers that are of vital importance? Shouldn't we be determining which customers bring us the most value, double down on them, and delegate the rest?"
- A conhecida regra de Pareto 80/20 já ensinava isto há décadas: uma minoria de clientes responde pela maioria das vendas. Hoje, em muitos sectores, essa proporção tornou-se ainda mais acentuada.
- Se competir apenas no mercado de massa, estará a lutar num oceano barulhento, onde 90% dos clientes disputam apenas 40% do orçamento disponível.
- Se ousar olhar para o nicho ou até para o luxo, encontrará menos clientes, mas clientes com muito mais poder de compra.
domingo, setembro 07, 2025
Curiosidade do dia
No JdN de sexta-feira, "Especialistas afastam impacto no turismo após acidente."
No DN de sexta-feira, "Turismo pede conclusões rápidas e admite que imagem da cidade sai beliscada."
É como um funicular, uma opinião sobe e outra opinião desce... weird. Como me dizia o parceiro das conversas oxigenadoras na passada sexta-feira, não há factos, só opiniões, só entretenimento.
Slogans versus comportamentos
"A consistent pattern emerged: many leaders treat culture as a communication strategy. They believe it lives in messaging—in the articulation of purpose, the rollout of values, the tone of internal campaigns. But culture doesn't shift because a new narrative is introduced. It shifts when systems change. When leaders take personal risks. When norms are not just declared but demonstrated....What we found was striking: culture doesn't fail because it's forgotten. It fails because it's misunderstood. It's treated as branding, not behavior. As output, not infrastructure. And when that happens— even the most well-meaning efforts can erode the very trust they're meant to build....In companies where senior leaders changed how they led—how they ran meetings, gave feedback, made decisions, and responded to challenge—trust scores rose by an average of 26%, even in the absence of a branded campaign. Asone executive told us, “We didn’t write our values—we reverse-engineered them fromhow we wanted to behave.” Another senior leader put it simply: “We didn’t announce aculture shift. We just started acting like it mattered.”...The strongest cultural signals are those that involve visible, personal risk. That might mean changing how incentives work. It might mean enforcing values even when it means losing a top performer. It might mean sharing decision-making power that used to sit solely at the top. Without that cost, values remain performative — they read as theatre, not truth.Employees aren't waiting for leaders to be perfect. They're waiting for them to be consistent-especially when it's inconvenient. Choose one declared value. Then ask: where would living this value cost us — power, money, speed, control? Then, take one visible action in that direction and be consistent."
Estes trechos captam na perfeição algo que tantas vezes é esquecido: a cultura não vive em slogans, mas em comportamentos consistentes. Gostei em particular da ideia de "reverse-engineering" dos valores a partir da forma como queremos agir. É um lembrete poderoso de que a cultura se constrói no risco visível, na coerência diária e nas escolhas difíceis — não em campanhas internas.
Trechos retirados de "To Change Company Culture, Focus on Systems-Not Communication"
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