domingo, fevereiro 16, 2025

Dedicado a Macron et al.

 
"in 1960, Penn Central railroad missed their chance to build a successful airline. Trains had been the dominant form of long-haul travel for a century, but the airplane was now arriving as a faster, higher-status form of connection and transport.
Like Western Union before it, dominant companies like Penn Central could have made the move to the new wave. But, as Ted Levitt helped us understand in Marketing Myopia, they thought they were in the business of trains, not transportation.
They defended the system they were familiar with instead of building a system for the future.
In all of these cases, the bullies aren't being irrational. They're simply having trouble expressing what they actually want. They mistakenly believe that what they do is more important than why they do it."
Recordar de 2011: "Engaging emergence"

Muitas pequenas e médias empresas (PME) sucumbem a um erro fatal: a resistência à mudança. Presas a modelos mentais ultrapassados e a um apego emocional ao "modo como sempre fizemos as coisas", acabam por defender um sistema obsoleto em vez de abraçar o futuro. 

O mercado muda, os clientes evoluem, e as empresas que insistem em ignorar estes sinais acabam por ser esmagadas. A mudança pode ser dolorosa, mas fugir dela é suicídio empresarial.

Muitas PME enfrentam mudanças forçadas pelo mercado ou por grandes clientes e encaram isso como um obstáculo, em vez de uma oportunidade. Mas há uma questão essencial que os gestores precisam de colocar:

  • Esta mudança é passageira ou veio para ficar?

Se for pontual, pode ser tratada como um contratempo. Mas se for estrutural, resistir é inútil. Em vez de lutar contra o inevitável, a empresa deve adaptar-se rapidamente e transformar o que parecia uma ameaça numa vantagem competitiva. Empresas que abraçam a mudança crescem; as que resistem definham.

As empresas que prosperam são aquelas que compreendem que a mudança não é um fardo, mas uma vantagem. O sucesso não vem de evitar dificuldades, mas de as usar como trampolins para o crescimento. Evitar desafios apenas gera frustração; enfrentá-los com estratégia transforma obstáculos em degraus rumo ao sucesso.

O mundo não vai abrandar para esperar pelas PME que se recusam a evoluir. O cliente não tem pena de empresas ultrapassadas. Quem insiste em proteger o passado, em vez de construir o futuro, está fadado a desaparecer. Quem abraça a mudança, encontra nela a sua maior força.

A escolha está nas mãos dos gestores: adaptar-se e prosperar ou resistir e desaparecer.

Recordar os recentes:

Trecho retirado de "What is Strategy" de Seth Godin.

sábado, fevereiro 15, 2025

Curiosidade do dia

A propósito de "Número de funcionários públicos bate recorde no primeiro ano de Montenegro":

"A Administração Pública terminou o ano de 2024 com quase 754 mil postos de trabalho, de acordo com a síntese estatística divulgada esta sexta-feira. É o valor mais elevado desde, pelo menos, 2011. Tanto em cadeia, como em termos homólogos, registou-se um aumento de 1%.

"A 31 de dezembro de 2024, o emprego no setor das administrações públicas situou-se em 753.850 postos de trabalho, o que representou um aumento de 1,0% (+7.581 postos de trabalho) face ao trimestre anterior. Em relação ao trimestre homólogo, o aumento foi de 1,0% (+7.476 postos de trabalho)", informa a Direção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP), numa síntese divulgada esta sexta-feira."

O número de funcionários públicos atingiu um novo recorde! Quem diria? Apesar da inteligência artificial, do digital, da internet, dos automatismos, do Simplex, e até da esperança de um dia vivermos numa administração pública mais eficiente... o monstro continua a crescer, imparável, insaciável, inabalável.

Enquanto no sector privado se pede "fazer mais com menos", no estado o lema parece ser "fazer o mesmo, ou menos, com mais". Mais funcionários, mais impostos, mais despesa, mais burocracia, mais departamentos inúteis, mais papelada carimbada por três chefes e cinco adjuntos de coordenador principal.

E nós, os contribuintes líquidos? Continuamos a patrocinar a festa, mas sem convite. 

Daqui a uns anos, quando o próximo governo anunciar um novo "choque tecnológico", podemos ter esperança de que… contratem ainda mais gente para "implementar a digitalização".

Portugal: um país onde até a simplificação se faz com um departamento novo e mais uns quantos assessores.

🥂 Brindemos à eficiência do sector público! (Mas pagamos nós, claro.) 

"a problem money may be unable to solve"

A propósito de "It's no longer about how you do it; it's about what you do" mão amiga fez-me chegar cópia do artigo "Money Alone Can't Stop Europe's Industrial Twilight" publicado no passado dia 13 na revista "Politico Europe".

O exemplo do encerramento de uma fábrica da Michelin em Cholet é apresentado no artigo como exemplo. Apesar dos milhões de euros em subsídios e incentivos fiscais, empresas como a Michelin continuam a encerrar fábricas na Europa e a transferir a produção para países com menores custos. O encerramento da fábrica da Michelin em Cholet é um sintoma da desindustrialização europeia, que não é resolvida apenas com incentivos financeiros.

"Despite Michelin receiving millions of euros in government assistance, management said the factory in this small French city could no longer compete with its Asian rivals."

O governo francês gastou milhares de milhões de euros para apoiar a indústria, mas os resultados são decepcionantes. Entre 2020 e 2022, a França gastou 27 mil milhões de euros por ano em apoio financeiro ao sector industrial, o desemprego parou de cair e estabilizou nos 7%, mas as fábricas continuam a encerrar.

"Between 2020 and 2022, France spent approximately €27 billion per year in financial support to the industrial sector, according to a recent report by France's court of auditors."

O problema central não é a falta de subsídios, mas sim a dificuldade estrutural da Europa em competir globalmente, especialmente em sectores de baixo valor acrescentado. Macron prometeu revitalizar a indústria, mas os empregos continuam a desaparecer porque a Europa não resolve os desafios de produtividade e inovação.

"The fate of the workers in Cholet, one of two factories Michelin closed in France last year, offers an illustration of a problem money may be unable to solve."

Este "a problem money may be unable to solve" tem tudo a ver com o "It's no longer about how you do it; it's about what you do." Enquanto a Europa tenta proteger indústrias tradicionais, Taiwan e outras economias asiáticas investem fortemente em inovação e tecnologia de ponta. Empresas como a Michelin alegam que não podem competir porque produzem bens pouco diferenciados e enfrentam concorrência feroz da Ásia.

"They told us that the Chinese are stealing our jobs, but this is totally false," said Jacques Roux, a Michelin worker and the picket line."

A União Europeia continua a apostar em subsídios generosos e regras proteccionistas para tentar salvar sectores industriais tradicionais. Um novo pacote de estímulos planeado para Fevereiro inclui o relaxamento de regras de ajuda estatal, mostrando que Bruxelas ainda acredita que a solução é apenas financeira, e não estrutural. 

"As Brussels launches an effort to make the European economy more competitive by slashing regulation and ramping up public spending - a new package of measures is due on Feb. 26."

No entanto, como o artigo mostra, o encerramento da Michelin e a crise industrial na Europa demonstram que despejar dinheiro não resolve a falta de competitividade global da indústria europeia. O que é necessário não é mais subsídios, mas sim uma estratégia clara para reposicionar a Europa em sectores de alto valor acrescentado, como Taiwan faz com a TSMC.

Ou seja, Bruxelas está como Portugal. Os salários dos trabalhadores dos sectores tradicionais só podem aumentar se houver novos sectores a reformular a média, basta recordar o exemplo do barbeiro de Londres.

Entretanto, outra mão amiga ontem fez-me chegar "TSMC plans to build a 1-nm gigafab in Taiwan". É outro campeonato.

Enquanto a França e o resto da Europa tenta manter empregos em indústrias que já não são competitivas, Taiwan está focada no que faz a diferença na economia global - semicondutores de última geração.

A TSMC, ao investir no fabrico de chips de 1 nm, está a consolidar a sua posição como insubstituível na cadeia de valor global. Isto não é apenas sobre como produzir chips, mas sobre o que está a ser produzido. Do you get the point?

O sucesso de Taiwan não vem de subsídios sem estratégia, mas de investimento pesado em I&D, talento e tecnologia de ponta.

O artigo sobre a Michelin mostra que a Europa está encalhada numa lógica de subsídios que não aumenta a produtividade, não cria empregos sustentáveis e atrasa a evolução porque o subsídio vai resolvendo, vai zombificando mais e mais.

A França e a Europa está a tentar proteger o passado; Taiwan está a construir o futuro. Again: "It's no longer about how you do it; it's about what you do".

Tudo a ver com os gansos voadores.

sexta-feira, fevereiro 14, 2025

Curiosidade do dia

Está tudo ligado!

Na última página do JN de ontem aparece um daqueles barómetros que mede a percepção da redação sobre algumas pessoas. Este barómetro chama-se "Sobe e Desce".

Quem é que aparece a subir? Pedro Duarte, ministro dos assuntos parlamentares.

Estranho, um jornal mainstream a avaliar positivamente um ministro do lado direito do parlamento!

Ah! Não deve ter nada a ver com "Governo desembolsa 55 milhões de euros com pacote para a comunicação social"

You scratch my back, I'll scratch yours?




"It's no longer about how you do it; it's about what you do."

 
"Germany's current economic malaise differs in one important respect from those of previous periods. If companies become uncompetitive, the government can cut taxes, introduce labour reforms or manipulate the exchange rate. But if you are a specialist in making gas heaters or diesel engines, your problem today is not cost, but the product itself. If people are forced to install heat pumps instead of gas heaters, or forced to buy electric cars after the 2035 cut-off for the production of fuel-driven cars in the EU, you have a different problem. While German car makers are still competitive in their classic product range, they cannot compete against the Chinese in electric cars. It's no longer about how you do it; it's about what you do."

Peço desculpa por me repetir. 

"it's about what you do" ... isto tem tudo a ver com o não convidar a "DVD leadership team" para as reuniões sobre o futuro. Tem um papel a desempenhar no presente, mas não pode ser o motor do futuro. Convidá-la para as reuniões sobre o futuro é correr o risco da preocupação ser sobre como manter o status da "DVD leadership team", como proteger os postos de trabalho, como partilhar recursos escassos para construir o futuro com a "DVD leadership team".

Por isso aquele postal de Janeiro de 2022, "Não são elas que precisam de Portugal, Portugal é que precisa delas." Por isso a referência aos mastins dos Baskerville. Os ausentes, os que não aparecem, quando o mainstream pede às empresas existentes, uma espécie de "DVD leadership team", que tragam o desempenho do futuro desejado (salto de produtividade).

Por exemplo, no JdN de 12 de Fevereiro de 2025 encontrei "Armindo Monteiro "O mundo está a mudar e cada bloco económico está a pensar em si"":

À pergunta: "E porque é que os salários não sobem?" a resposta termina assim:

"Com as taxas de IRC que temos, com o investimento público que não acontece - só ocorre à custa do PRR -, não há investimento em Portugal.

Tem de haver investimento público." 

Sem comentários.

À pergunta: "Quais seriam as 3 medidas que podiam fazer mexer o ponteiro na produtividade, o segredo para salários mais altos e mais crescimento?" leio:

"...

Investimento. A segunda é a qualificação. Precisamos de projetos empresariais que cativem, sobretudo os mais jovens, para viverem em Portugal. É importante que os empresários consigam oferecer não apenas postos de trabalho, mas projetos de carreira. A nossa economia ainda não fez essa alteração que permite oferecer empregos em que as pessoas se sintam realizadas.

Mas isso não é bem uma medida. É um sonho...

Mas há soluções, como ligar as universidades às empresas e vice-versa. As boas empresas e as boas universidades já conseguiram quebrar essas barreiras, mas ainda não são a globalidade. Ainda continua a haver [essa barreira], sobretudo nas empresas de reduzida dimensão, sem capacidade de inovação. São estas que nós temos de motivar e conseguir que invistam no seu "core business," em vez de estarem a olhar para a carga burocrática."

O foco nas empresas existentes, na "DVD leadership team". Quando é que vão perceber que elas não podem fazer essa entrega? E não é porque os empresários sejam burros... voltar ao texto inicial sobre a Alemanha - "It's no longer about how you do it; it's about what you do."

BTW, quanto à imigração, algo mencionado por Armindo Monteiro, gostava de poder publicar aqui os tweets que andam a ser publicados com os esquemas usados para contratar na restauração. Ilustram muito bem porque tem de haver um caudal permanente de imigrantes iludidos, segundo os empregadores.

Trecho inicial retirado de "Kaput - The End of the German Miracle" de Wolfgang Munchau 

quinta-feira, fevereiro 13, 2025

Curiosidade do dia

"Quis custodiet ipsos custodes?" nunca fez tanto sentido. 

No jornal The Guardian do passado dia 10 encontrei "Watchdog chief spent public cash on luxury hotels while on business courses in France"

"The CCRC says Kneller, as chief executive and accounting officer, is "responsible for safeguarding the public funds allocated to us, and for ensuring propriety and regularity in the handling of those public funds". One staff member said there was a clear "conflict of interest" in Kneller being sent on courses at an institution that Pitcher was involved in "at a location that is vastly more expensive than very similar courses available in the UK"."

O Criminal Cases Review Commission (CCRC), é uma entidade que deveria zelar pelo uso correcto dos fundos públicos e pela justiça, está a ser acusada de permitir que seu próprio chefe, Helen Kneller, gastasse dinheiro público em hotéis de luxo enquanto participava em cursos em França. A ironia fica ainda mais evidente porque Kneller, como chefe-executiva e responsável pelas contas da CCRC, tinha a obrigação de proteger esses fundos e garantir que fossem usados de forma ética e regular.

Parece que em vez de combater desperdício e incompetência, os próprios líderes da CCRC estariam envolvidos nesses problemas. 

Nem de propósito no JdN de hoje:

"funcionários públicos transformaram-se numa classe que se serve a si própria às custas dos impostos dos trabalhadores do setor privado."

Trecho retirado de "Quando é que começamos a falar da burocracia estatal?

Nota: Os que não metem baixa e têm de manter a burocracia à tona têm a minha solidariedade.

Qual é mesmo a missão?



Este artigo publicado pelo ECO, "Tarifas de Trump 'ceifam' produtores de milho em Portugal" deixou-me a matutar. Há algumas coisas que não batem certo.

Logo no começo do artigo temos:
"A imposição de tarifas aduaneiras por parte da nova administração americana, liderada por Donald Trump, é uma nova ameaça para o negócio dos produtores de milho em Portugal, que falam num "fator potenciador de enorme instabilidade e volatilidade nos mercados mundiais de commodities agrícolas."

Pergunto com sinceridade: Um aumento de instabilidade e volatilidade nos mercados mundiais de commodities agrícolas não é positivo para os produtores portugueses? Pode ser negativo para quem importa e comercializa, mas para quem produz, é uma oportunidade para ter um preço mais elevado.

Durante o artigo temos:

"Portugal tem um grau de autoaprovisionamento em milho de cerca de 25%, o que coloca o país entre os Estados-membros da União Europeia mais desprotegidos - só os Países Baixos, Chipre e Malta têm uma percentagem inferior. E igualmente "face à situação geopolítica que se vive em certas latitudes, algumas das quais na fronteira do espaço europeu", ", como é o caso da guerra na Ucrânia, o presidente da Associação Nacional dos Produtores de Milho e Sorgo (ANPROMIS) alerta que é "extremamente perigosa esta excessiva exposição face ao exterior"."

Pergunto com sinceridade: Qual é o papel da ANPROMIS, procurar o melhor para os seus sócios ou estar preocupada com o grau de autoaprovisionamento em milho? Ou será que o que quer é apoios comunitários  para os produtores? Será que o modelo da UE baseado nos contribuintes alemães tem pernas para continuar a andar? Recordo o que escrevo aqui no blogue há vários anos:

"os agricultores têm de deixar de se ver como os responsáveis por alimentar o mundo, têm sim de se ver como responsáveis pela alimentação dos seus clientes."

No final do artigo temos:

"Questionado sobre a capacidade exportadora dos produtores portugueses, o presidente da ANPROMIS reconhece que apenas existe um “limitado número de negócios com Espanha” no milho para a alimentação humana (gritz). Precisamente um segmento de “produtos com mais qualidade e para novos mercados” que Jorge Neves destaca como tendo maior potencial para os produtores nacionais em resposta à “conjuntura atual [que] exige cada vez mais uma adaptação constante”."

Durante grande parte do artigo, a ANPROMIS e os produtores defendem a necessidade de apoiar a produção de milho commodity (um produto de baixa margem e alta concorrência internacional), argumentando que a dependência externa é arriscada. No entanto, no final, o próprio presidente da associação admite que há maior potencial no milho de mais qualidade e para novos mercados.

Isto sugere um possível conflito de interesses ou falta de clareza na estratégia do sector:

  • Por um lado, pede-se subsídios e apoios para a produção de milho commodity, uma cultura altamente volátil e sujeita à concorrência global.
  • Por outro, reconhece-se que o futuro pode estar em nichos de maior valor acrescentado.

Se os produtores portugueses têm dificuldades em competir no mercado de milho commodity, talvez fosse mais estratégico apostar desde já em produtos diferenciados em vez de tentar sustentar artificialmente um sector que enfrenta tantas dificuldades.

Qual é mesmo a missão da ANPROMIS?

Depois de escrever isto e de dar o título fui fazer uma caminhada, e voltei a pensar nesta tensão entre manter o negócio como está e esperar que os alemães paguem a conta, ou mudar de vida.

Claro que é mais cómodo esperar que os alemães paguem a conta do que enveredar pela incerteza da mudança. 

O problema é que os alemães vão deixar de pagar a conta, é inevitável:

A Alemanha está a enfrentar uma grave crise demográfica. A sua taxa de natalidade tem vindo a diminuir e está abaixo do nível de substituição há quase 70 anos. Isto significa que, durante décadas, não nasceram jovens suficientes para sustentar a força de trabalho.

Agora, ao entrarmos na próxima década, a situação está a atingir um ponto crítico. A última geração considerável de trabalhadores na Alemanha está prestes a reformar-se em grande número. Como resultado, a Alemanha, que tem sido há muito tempo a espinha dorsal financeira da União Europeia, poderá já não conseguir apoiar a economia europeia como fez no passado. Em vez de contribuir com fundos, a Alemanha poderá tornar-se num país que necessita de apoio financeiro da União Europeia. Se isto acontecer, mudará significativamente o panorama económico da Europa.

quarta-feira, fevereiro 12, 2025

Curiosidade do dia

""É muito importante aquilo que está na cabeça dos portugueses, porque aqui, como na segurança, o que interessa não é a segurança em abstracto, nem a corrupção que existe ou não existe, é qual é a imagem que as pessoas têm acerca da corrupção e acerca da segurança, porque é essa percepção que gera insegurança e é essa percepção que gera maior ou menor confiança no combate à corrupção", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa."

Humm!


Marcelo numa fase Potemkin?

A frase dita por Marcelo Rebelo de Sousa parece sublinhar que a percepção das pessoas sobre a corrupção e a segurança é mais importante do que a realidade objectiva desses problemas. E este tipo de racional levanta algumas questões:

  • Ao afirmar que o que importa não é a segurança "em abstracto" nem a corrupção "que existe ou não existe", mas sim a imagem que as pessoas têm sobre esses temas, pode parecer que a realidade concreta desses problemas é secundária. No entanto, a corrupção e a insegurança são problemas reais, independentemente da percepção popular.
  • A ideia de que a insegurança e a confiança no combate à corrupção derivam mais da percepção do que dos factos pode ser interpretada como uma forma de desviar a atenção da acção concreta necessária para resolver esses problemas. É evidente que a percepção pública tem um impacte na sociedade, mas essa percepção deve basear-se em factos reais, e não o contrário.

Por vezes, estas figuras descuidam-se e revelam mais do que queriam ou gostariam. Se o que realmente importa é a percepção das pessoas, e não a realidade objectiva, então há uma abertura para que a estratégia do regime se concentre mais em moldar a opinião pública do que em resolver problemas concretos. Isso pode ser visto como uma forma de governar através da narrativa, em vez de através de políticas eficazes. 

E o que temos vivido ao longo dos anos?

Balanço das exportações de 2024

Cá vai a minha tabela para o ano de 2024.


O panorama ao fim dos 12 meses acabou muito melhor do que eu pensava no final do primeiro semestre. No entanto, 


Interessante o crescimento das exportações para a Alemanha, apesar desta estar em recessão. Será que estamos a ganhar quota de mercado à custa de preços mais baixos que outros países?
"O mercado que mais contribuiu para o acréscimo global das exportações de bens em 2024 foi a Alemanha, que passou de terceiro para segundo principal destino dos bens nacionais. Conquistou um peso de 12,3% no total exportado, face aos 10,7% de 2023. As exportações para a Alemanha aumentaram 17,8% (mais 1.478 milhões), devido sobretudo a "fornecimentos industriais, material de transporte e máquinas e aparelhos".

Não acham interessante o elevado crescimento do desemprego nos sectores do têxtil e do calçado para afinal terem uma quebra só à volta dos 5%? Fico com a pulga atrás da orelha com:

"Do total de 79.285 milhões de euros em exportações de bens em 2024, 75.912 milhões resultaram ocorreram com transferência de propriedade. Em comparação com o ano anterior, foram mais 1,7%. Já as exportações com vista a ou na sequência de trabalhos por encomenda (sem transferência de propriedade) representaram 4,3% do total das exportações, o que corresponde a um acréscimo de 26,7% face ao ano anterior."  

Estas exportações sem transferência de propriedade acontecem quando um produto é enviado para outro país para ser transformado, montado ou finalizado, mas a posse continua na empresa portuguesa que a enviou. Julgo que isto significa subcontratação, talvez em Marrocos.

Já agora, a propósito deste artigo "Exportações de calçado deverão ter caído 6,5% em 2024 para 1.702 milhões de euros":

"O ano que terminou foi muito difícil no plano externo. Por um lado, é notório um abrandamento dos principais mercados internacionais, nomeadamente Alemanha e França, que afetou os principais protagonistas do setor, e as nossas empresas. Depois, começa a ser percetível a estratégia do setor de diversificar a oferta de produtos, ainda que muitas vezes recorrendo à subcontratação no exterior, a exemplo do que já fazem os nossos principais concorrentes internacionais”, afirma, citado em comunicado, o presidente da APICCAPS, Luís Onofre."

 

 

terça-feira, fevereiro 11, 2025

Curiosidade do dia

 
"Of all the entrepreneurs in Germany, Mülheim was the home of the country's most successful - and most secretive. Karl Albrecht was the elder of two brothers who, in 1946, took over their mother's grocery store in the neighbouring city of Essen. After the introduction of the Deutschmark in 1948, the two brothers invented a new retail concept - the discount store, with a limited range and very low prices. They called it Aldi, which stood for Albrecht Discount.
...
The Albrechts never gave interviews. By the time Karl died, at the age of ninety-four, in 2014, he was not only the richest man in Germany, and number twenty in the world, he had also never met a German chancellor in his lifetime. He, like much of his generation of entrepreneurs, did not owe his success to politics."

Sublinhar isto no prólogo de um livro não augura nada de bom. 

Trechos retirados de "Kaput - The End of the German Miracle" de Wolfgang Munchau 


Coragem para enfrentar a realidade

A ISO 9001 determina que as organizações sigam a abordagem por processos. Quantas empresas a seguem realmente? Quantas empresas apenas se limitam a desenhar um "boneco" com uns processos manhosos para meter no manual da qualidade, mostrar ao auditor e nunca mais o usar? 

A implementação de um modelo baseado na abordagem por processos é, em teoria, um caminho natural para a melhoria organizacional. No entanto, na prática, a esmagadora maioria das empresas e consultores enfrentam desafios que transformam essa potencial melhoria numa mera promessa por cumprir.

A experiência de um consultor na implementação da ISO 9001 pode assemelhar-se à parábola do semeador (Mt 13, 1-9):

  • Uma minoria das empresas - talvez menos de 10% - representa o solo fértil — gestores verdadeiramente comprometidos, vontade genuína de melhorar, métricas levadas a sério. Só aqui o trabalho do consultor faz verdadeira diferença.
  • A maioria das empresas apenas pretende o "papel" — o certificado — e isso é legítimo. Afinal, a ISO 9001 também é um requisito comercial. Mas sem uma cultura de melhoria, os processos permanecem no papel e as mudanças estruturais jamais se concretizam.
  • E depois também há os consultores que, por falta de conhecimento ou tempo, fazem apenas o mínimo indispensável, entregando um sistema concebido para passar auditorias, mas sem qualquer impacte real no desempenho de uma organização. 

Raramente um consultor ISO 9001 tem a sorte de encontrar uma empresa predisposta a melhorar a sério. 

A abordagem por processos é uma alavanca para a melhoria que, lamentavelmente, em 90% dos casos, não chega sequer a ser accionada. A vasta maioria das empresas desenha um mapa de processos e elabora fluxogramas porque pensa que a norma exige, e não porque pretende utilizá-los para optimizar as operações.

A melhoria não acontece só porque existe um modelo. Ela exige algo mais: análise rigorosa dos problemas, medição efectiva do desempenho e, acima de tudo, uma vontade de enfrentar os desafios identificados.

A ISO 9001 fala em medição e monitorização, mas que destino se dá a essa informação? KPIs são registados religiosamente, mas raramente alguém actua sobre os números.

  • O prazo médio de entrega aumentou? "A culpa é do mercado."
  • A taxa de devoluções disparou? "A culpa é dos clientes que estão mais exigentes."
  • Os custos operacionais subiram? "A culpa é da inflação."

O diagnóstico está feito, mas as desculpas servem de escudo. Identificam-se sintomas, mas raramente se atacam as causas. 

Raramente um consultor tem a sorte de encontrar uma empresa verdadeiramente predisposta a melhorar que pergunta: porquê? 

Porquê o desempenho actual? 

É extraordinariamente aliciante, é profundamente motivador quando se chega a esta fase. Analisamos os números do desempenho, examinamos os sintomas, debruçamo-nos sobre as dores, escrutinamos as queixas e procuramos causas.

Depois, analisamos o(s) processo(s) onde esses sintomas se manifestam e essas causas têm origem. Não há acasos, os resultados indesejados são um produto perfeitamente natural decorrente da forma como se trabalha. Se não se gosta dos resultados, tem de se mudar o que se faz. Assim, determinamos acções para atacar esses sintomas e eliminar essas causas. Definimos as alterações necessárias no(s) processo(s), ou seja, onde actuar e qual o impacte esperado.

Preparamos um projecto com um plano claro de implementação. Quem faz o quê, até quando e com que recursos. Defendemos um pitch junto de quem tem autoridade e pode validar a mudança proposta. E avançamos para a mudança da realidade (esperemos!).

O grande problema? A esmagadora maioria das empresas e gestores esconde-se atrás da burocracia. Até há quem desconfie que os esforços de melhoria são uma espécie de "Cavalo de Tróia" que abre uma "Caixa de Pandora" plena de consequências difíceis de controlar. As mudanças implicam esforço, riscos e, em alguns casos, confronto com hábitos profundamente enraizados. Mas sem acção concreta, a melhoria é impossível. A abordagem por processos não pode ser um mero exercício de estilo ou um conjunto de documentos elaborados para agradar ao auditor. A missão é clara:

  • Este é o problema → Diagnóstico real e fundamentado em factos.
  • Aqui está a prova → KPIs e dados concretos que demonstram a necessidade de mudança. 
  • Este é o critério de sucesso → Como vamos medir se a mudança trouxe melhorias efectivas (KPIs).
  • Mãos à obra.

Se isto for bem executado, então sim, a abordagem por processos deixa de ser uma exigência normativa e transforma-se num verdadeiro motor de melhoria. Mas para isso, é preciso muito mais do que relatórios e reuniões. É preciso coragem para enfrentar a realidade e, acima de tudo, agir.

BTW, viram os Super-Dragões encostados à parede? Não acham revelador o silêncio dos histéricos de há dias apenas? Nas empresas, como na política há gente que tem medo dos factos, pode-se descobrir que afinal não são perfeitos, gente que prefere o domínio da retórica e da oratória.

segunda-feira, fevereiro 10, 2025

Curiosidade do dia

Hoje reparei na capa do "jornal" Público de ontem:

"Defesa fora do défice? Comissão analisa opções

Bruxelas disposta a excluir investimentos em defesa do cálculo do défice para governos poderem aumentar despesas militares"

Sorri ...

Lembrei-me que há uns anos ouvi que um dos truques de António Costa para aumentar os gastos de Portugal na defesa foi: obrigar os militares, suportados pelo orçamento de estado, a pagarem renda ao estado pelos quarteis que ocupam. Lindo.

Já agora, se os governos de turno desviam a linha do Norte para um aeroporto para maquilhar o custo do dito cujo ... imaginem o que poderá passar a ser contabilizado como despesa militar.

O céu é o limite. Agora, a guerra não é só um negócio – é também um expediente orçamental. Entre quarteis alugados a si próprios e aeroportos que, quem sabe, um dia serão considerados bases estratégicas de defesa, abre-se um novo mundo de possibilidades para engenharias financeiras.

Hoje é a defesa fora do défice. Amanhã, talvez a cultura, a educação, ou até as rotundas, ciclovias, e passadiços desde que um ministro qualquer consiga invocar a "segurança nacional" com a devida cara de pau. Se o dinheiro não chega, que se refaçam as regras. No final, pouco importa a lógica – o que interessa é que a conta nunca falhe para quem está no poder.

O jogo não é apenas sobre jogar


"Adam Mastraonni describes the pre-scientific history of man as one in which people were sure that Zeus (or perhaps his daughter, Dike) controlled random events. When people roll the dice, Zeus is controlling the outcome. 

...

No one is controlling the dice, but if we're smart, we can choose a set of dice that are more likely to get us what we seek. Loaded dice and a stacked deck can be found if we look for them."

Há muitos anos que escrevo sobre a batota, "loaded dice", aqui no blogue. E o que é a concorrência imperfeita senão uma forma de fazer batota para fugir das condições "ideais" que beneficiam os que têm mais escala. No mundo dos negócios, a manipulação consciente das probabilidades é precisamente o que separa os que apenas jogam dos que realmente ganham. A concorrência perfeita é uma ilusão teórica que beneficia aqueles que já têm vantagem estrutural, seja pela escala, pelo acesso a recursos ou pelo domínio das regras do mercado. Para os que não têm essa vantagem, jogar com os dados "limpos" significa aceitar um jogo viciado desde o início – e é aqui que entra a necessidade de "fazer batota", ou melhor, de encontrar maneiras legítimas e criativas de alterar as condições do jogo. Ninguém controla os dados – mas podemos escolher um conjunto de dados que aumente as nossas probabilidades de sucesso.

Afinal, o jogo não é apenas sobre jogar: é sobre saber como o jogo realmente funciona. Nunca esquecer: "Lesson #1: Do not play a strictly dominated strategy".

Recordo desde 2007:

 

domingo, fevereiro 09, 2025

Curiosidade do dia

A secretária-geral da AHRESP tem boa imprensa por isso não encontro nenhuma crítica a esta estória.

No semanário Expresso num artigo intitulado "Adeus, empregado de mesa. Olá, assistente de sala" podem ler-se coisas que se fossem ditas por outra pessoa seriam motivo para escárnio e maldizer. 

"Uma das profissões mais mal amadas no turismo, a de empregado de mesa, terminou oficialmente, e deu lugar ao novo cargo de 'assistente de sala'. Esta alteração, que resultou do acordo para a negociação do contrato coletivo de trabalho entre a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) e o Sindicato dos Trabalhadores do Sector de Serviços (Sitese), faz parte de um esforço para a valorização de carreiras num negócio onde só a função de chefe parece ser sexy.

"Ninguém quer ser empregado de mesa, que também é um comunicador, tem competências que vão muito além da distribuição de pratos ao cliente" , frisa Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP, considerando "redutora" a designação que "conferia a estes trabalhadores uma perceção errada, de subserviência, o que em nada se coaduna com a sua real importância, eles são a cara do restaurante."

É fascinante como, em Portugal, se acredita piamente no poder mágico da semântica para resolver problemas estruturais. A restauração paga mal, exige horários ingratos e oferece perspectivas de carreira limitadas, mas não faz mal - mudamos o nome e, de repente, tudo fica apelativo!

Afinal, quem não adoraria trocar um salário miserável e clientes mal-humorados por um título sonante? "Assistente de sala" soa quase a algo saído de um qualquer departamento de luxo, talvez até com direito a um crachá reluzente. Mas, surpresa das surpresas, o prato continua a ter de ser posto na mesa, a gorjeta continua a ser incerta, e a precariedade continua a ser a rainha do sector. Mas não sejamos cínicos. Com esta mudança visionária, quem sabe se, na próxima revisão do contrato colectivo, não poderemos aspirar a "Gestor de Experiência Gastronómica"? Assim, pelo menos, quando for altura de emigrar para um país onde este trabalho seja devidamente pago, o CV ficará mais bonito. 

Nota 1: A restauração paga mal, exige horários ingratos e oferece perspetivas de carreira limitadas – não porque os patrões sejam vilões de histórias de exploração laboral, mas porque a própria natureza do negócio não permite muito mais. Os custos fixos são elevados, as margens de lucro são apertadas e, numa economia onde os consumidores procuram o preço mais baixo, a capacidade para aumentar salários sem comprometer a viabilidade do negócio é reduzida. Muitos restaurantes operam com dificuldades financeiras constantes, tentando equilibrar preços competitivos com os custos de matéria-prima, rendas elevadas e uma carga fiscal pesada. Além disso, a sazonalidade torna difícil a criação de contratos estáveis. No Verão e durante as épocas festivas, a procura dispara e exige equipas reforçadas, mas nos meses baixos, muitos estabelecimentos lutam para cobrir despesas, tornando inviável a contratação a termo incerto.

Nota 2: A propósito de algo que se lê no artigo, "Imigrantes são mais de 30% da força de trabalho", fico admirado. Só? Recordo "Imigrantes: efeitos positivos e negativos", a dependência da mão-de-obra imigrante de baixo custo pode suprimir os salários não só dos imigrantes, mas também dos trabalhadores locais, conduzindo potencialmente a um abandono da profissão pelos trabalhadores locais, e os imigrantes também não ficam por muito tempo, basta ler as últimas linhas deste postal recente, "Zombies à espera de um qualquer Milei num futuro ainda distante mas certo"

Não é só sobre crescer, mas sobre tornar-se indispensável



Conheço uma PME que está a fazer o seu caminho de forma positiva até agora. Acompanho o seu CEO nos últimos anos e por duas vezes ele procurou criar parcerias com empresas estrangeiras.

Quando ele me falava das negociações para essas parcerias eu perguntava sempre, o que é que empresas muito maiores têm a ganhar em trabalhar convosco? Nunca conseguimos uma resposta clara. Essas parcerias nunca chegaram a dar frutos. 

Agora leio:
"Trust leads to trust. Influence creates influence. The network effect is the dynamic of our time, and most of us don't even notice it.
The value of a network goes up exponentially as more people engage with it.
People don't engage with your network because it's good for you. They do it because it's good for them. The network effect challenges system architects to create assets that provide value for users that increase when they invite their colleagues to join in.
...
It's not only the fax machine, or Fight Club, or Alcoholics Anonymous. The network effect powers any system that deserves it.
This isn't a competition of effort or obvious performance metrics. The work doesn't get the network effect it deserves based on how much you insist on people joining you. Instead, networks catch on because the network being built is attractive, sticky, and persistent. Does it work better for me if my friends join in?
Networks create value for those who choose to join them, and part of that value comes from the status and affiliation bump that evangelists of the system receive.
People only invite others to join a network if they benefit from doing so.
If you don't begin with a network effect as a significant benefit for users, it's almost impossible to build it in later."

Há muitos anos que trabalho estas "networks" com as PMEs, por exemplo, de 2007: "Subir na escala de valor"

Um erro comum em muitas PMEs: focam-se na sua necessidade de crescer e procuram parceiros maiores sem uma proposta de valor clara sobre o que esses parceiros têm a ganhar. No entanto, os ecossistemas bem-sucedidos são aqueles que criam um efeito de rede natural - em que cada novo participante torna a rede mais valiosa para os outros.

Boas networks, bons ecossistemas não se vendem, tornam-se inevitáveis. Se uma PME quer atrair parceiros estratégicos, precisa criar um modelo onde a participação traga benefícios imediatos e exponenciais. Seja pelo conhecimento partilhado, pelo acesso a mercados ou pelo reforço de reputação e influência, o valor da rede tem de ser evidente desde o primeiro momento.

No fundo, construir um ecossistema empresarial não é só sobre crescer, mas sobre tornar-se indispensável.

Trechos retirados de de "What is Strategy" de Seth Godin.


sábado, fevereiro 08, 2025

Curiosidade do dia

Por favor, continuem a usar o fax senão o Sr. Rodrigues fica sem emprego.

Faz segunda-feira um mês que comecei a usar aqui a poderosa imagem metafórica:

"They stopped inviting the DVD leadership team to meetings" 

Esta é a quarta vez que a volto a usar.

Hoje no "jornal" Público aparece o artigo "Governo integra vários organismos das Finanças em três novas autoridades". Depois num destaque pode ler-se:

"Sindicatos saíram da reunião com a garantia de que não haverá redução do número de trabalhadores" 

No texto lê-se que o governo pretende fundir e reorganizar diversas direcções-gerais e organismos dependentes do Ministério das Finanças, criando três novas autoridades com responsabilidades específicas na gestão orçamental, financeira e da administração pública. A fusão e reorganização desses organismos visam melhorar a eficácia e a especialização da administração pública.

É extraordinário:

  • presumo que a criação das novas autoridades com responsabilidades mais bem definidas pode eliminar redundâncias existentes entre os organismos que serão fundidos;
  • presumo que com o avanço da tecnologia, muitos processos administrativos podem ser optimizados ou automatizados, reduzindo a necessidade de trabalho manual;
  • presumo que ao unificar entidades, o trabalho pode ser redistribuído de forma mais eficiente entre os funcionários, evitando sobreposição de funções.
No entanto, o governo garantiu que não haverá cortes de postos de trabalho, possivelmente por razões políticas e sindicais. 

No postal de 10 de Janeiro último, "Portugal, Netflix e produtividade" escrevi:

"A decisão estratégica de Reed Hastings e Ted Sarandos de excluir a "DVD leadership team" das reuniões não foi apenas prática, mas simbolicamente poderosa. Eles reconheceram que, para avançar, era essencial abrir espaço para ideias alinhadas com o futuro, mesmo que isso significasse sacrificar o presente. Da mesma forma, Portugal precisa deixar morrer (deixar morrer não é o mesmo que matar) empresas ou modelos que não têm futuro, para realocar recursos e criar espaço para negócios inovadores, especializados e de maior produtividade.

Essa transição não é fácil, seja para empresas, seja para economias. Envolve perdas, dor, mudanças e resistência, mas é a única forma de garantir um "metabolismo económico" saudável, em que novas empresas possam surgir e substituir as antigas."

E assim continua a grande tradição portuguesa da "reestruturação sem reestruturação", onde a palavra mágica "fusão" significa apenas empilhar organismos uns em cima dos outros, sem nunca tocar no verdadeiro tabu: a redução do quadro de pessoal.

Criam-se três novas autoridades, prometem-se sinergias, eficiência e especialização... mas que ninguém se assuste: nem um único funcionário será dispensado. Porque, como todos sabemos, o problema da administração pública portuguesa nunca foi o excesso de pessoas a desempenhar funções redundantes, mas sim a falta de cargos suficientemente pomposos para todos.

Na prática, a metáfora da "DVD leadership team" continua mais viva do que nunca, mas em Portugal há uma diferença crucial: ninguém se esqueceu de convidar "DVD leadership team" para as reuniões. Aliás, provavelmente acabaram de lhes dar gabinetes novos nas tais 'três novas autoridades', onde, com um pouco de sorte, passarão a receber um suplemento remuneratório pelo incómodo da mudança. É o tipo de reforma que garante que tudo muda para que tudo fique exactamente na mesma. E, claro, com um ligeiro aumento de despesa pelo caminho - porque cortar gastos enquanto se 'aumenta a eficiência' seria um conceito demasiado inovador para o nosso metabolismo económico.

Lembrei-me do caso real de uma jovem cheia de pedalada que ao começar a trabalhar numa empresa grande e tradicional, enviou uma série de e-mails para fornecedores e parceiros, para iniciar assuntos relacionados com o seu posto de trabalho. Depois, foi surpreendida por uma administrativa a pedir para não repetir esse procedimento, para não esvaziar de conteúdo o seu posto de trabalho, toda a correspondência teria de passar por ela. Estávamos já na segunda década do século XXI.

Outra vez: Uma estratégia nunca é eterna

"This leads to Schumpeter's creative destruction. Any strategy, scaled big enough, cannot be sustained, and it will be replaced by a new set of conditions, players, and rules.
In other words: Every successful organization will fail unless it becomes something different before it does."

Nenhuma estratégia de sucesso dura para sempre. Quando uma abordagem se torna dominante, ela desgasta-se e torna-se ineficiente, abrindo espaço para novos modelos e players. A velha poesia de Beinhocker: "Uma estratégia nunca é eterna":

“Likewise, we cannot say any single strategy in the Prisioner’s Dilemma ecology was a winner. .

Lindgren’s model showed that once in a while, a particular strategy would rise up, dominate the game for a while, have its day in the sun, and then inevitably be brought down by some innovative competitor. Sometimes, several strategies shared the limelight, battling for “market share” control of the game board, and then an outsider would come in and bring them all down. During other periods, two strategies working as a symbiotic pair would rise up together – but then if one got into trouble, both collapsed.”

We discovered that there is no one best strategy; rather, the evolutionary process creates an ecosystem of strategies – an ecosystem that changes over time in Schumpeterian gales of creative destruction.”

Ainda esta semana no postal "Quando se esquece a razão de ser..." citamos:

""Well-established companies should ask themselves a simple question, says McGrath: "Who in the company is in the business of looking after its future?

"In most of the companies I work with, it's in between the head of innovation, with no power, and the C-suite, where it isn't taken really seriously. And I think that's a problem.""

Depois, vêm queixar-se dos chineses, dos concorrentes desleais, dos consumidores, dos clientes, do governo, dos trabalhadores ... 

Texto inicial retirado de "What is Strategy" de Seth Godin.

sexta-feira, fevereiro 07, 2025

Curiosidade do dia

Ainda não terminei a leitura de "What is Strategy" de Seth Godin, no entanto dei uma espreitadela ao prólogo do livro "Kaput - The End of the German Miracle" de Wolfgang Munchau e sublinhei:


Aquele "And, like all tragedies, this one begins during the good times" é tão verdadeiro. Recordar a lição dos sapos e salamandras que aprendi naquelas sessões de jogging na minha querida e saudosa Estarreja.



O choque chinês aka "China Shock"

No WSJ do passado dia 5 de Fevereiro em "How 'China Shock' Upended U.S. Workers" um artigo que alinha com o que ao longo dos anos escrevemos aqui ao dizer que o problema não era o euro, mas a China: O choque chinês, não o euro.

Algumas notas do artigo sobre o denominado "China Shock" - o grande aumento de importações chinesas nos Estados Unidos a partir do início dos anos 2000 - e como isso afectou profundamente as comunidades industriais norte-americanas. Eis as principais ideias:

  • A entrada da China na Organização Mundial do Comércio (WTO) e a consequente abertura para exportações chinesas baratas conduziram a uma rápida mudança na indústria dos EUA.
  • Comunidades industriais (especialmente no Southeaste partes do Midwest) foram fortemente atingidas, com muitos trabalhadores a perderem os seus empregos.
  • Havia a expectativa inicial de que o acesso a produtos chineses baratos beneficiaria os consumidores e que a transição económica seria gerível. Contudo, os efeitos negativos sobre o emprego, os salários e as condições de vida revelaram-se bem mais profundos do que se previa.
  • Uma investigação recente aprofunda o impacte de longo prazo nas regiões atingidas, demonstrando que mesmo após alguma recuperação económica local, muitos trabalhadores que perderam emprego na indústria não conseguiram reposicionar-se adequadamente. 
  • Em algumas localidades, surgiram sectores alternativos como saúde, educação, retalho e restauração. As taxas de emprego até recuperaram, mas principalmente devido a postos de trabalho não relacionados com a indústria. As dificuldades enfrentadas por estas comunidades contribuíram para a insatisfação com a globalização e influenciaram o cenário político, ajudando a explicar a mudança do estado de espírito eleitoral que culminou na eleição de Donald Trump.
  • Os trabalhadores afectados (sobretudo os menos qualificados, incluindo muitos homens brancos ou negros sem ensino superior completo) raramente se reintegraram nestes novos sectores e enfrentaram maior instabilidade e salários mais baixos. A investigação destaca ainda que muitas famílias sofreram impactes de longa duração, como aumento da pobreza infantil, maior número de famílias monoparentais e queda no padrão de vida dos afectados.
Em resumo, o texto expõe como a vaga de importações chinesas transformou a economia dos EUA, aprofundando desigualdades e prejudicando trabalhadores da indústria, mesmo com alguma recuperação das cidades onde viviam, muitas vidas e carreiras foram permanentemente alteradas.

Esta semana no Think Tank, Jorge Marrão disse algo que aprendi com Erik Reinert:


Recordo Reinert escrever que uma das razões para a Guerra Civil foi a de criar tarifas alfandegárias elevadas para proteger a nascente indústria do Norte da poderosa indústria britânica. O Sul não queria tarifas para poder continuar a exportar livremente a sua produção agrícola.

quinta-feira, fevereiro 06, 2025

Curiosidade do dia

 

Entretanto, no DN, "Lidl atribui salário de entrada de 900 euros a novos trabalhadores":

"O Lidl começou a pagar, desde janeiro, um salário base de entrada de 900 euros, mais cerca de 200 euros de subsídio de alimentação, adiantou a cadeia de supermercados em comunicado hoje divulgado." 

Recordo muitas vezes a foto da Herdmar. O salário dos trabalhadores e o lucro para investir no futuro de qualquer negócio decorre da capacidade de receita que se consegue com o que se produz. Quando os salários crescem mais do que a produtividade (no fundo a margem após custos) começa o nosso conhecido empobrecimento.

O presidente da ANIVEC, não o conheço, disse aquela frase "já recebem bem, ganhando entre os 1000/1200€" não porque seja um torturador, mas porque o negócio não permite mais. Essa é a lição daquela figura dos "Flying Geese":

"O Japão não ficou rico a produzir vestuário de forma muito, muito eficiente. Taiwan não ficou rica a produzir rádios de bolso de forma muito, muito eficiente."

O presidente da ANIVEC, como muitos outros portugueses, habituados ao locus de controlo no exterior (a falta de mão de obra é culpa do Estado), devia reflectir na parte do meio do vídeo de Peterson que referi esta semana. 

No pensamento dos antigos Israelitas, a relação entre Deus e o seu povo era vista como um pacto: se obedecessem às leis divinas, receberiam bênçãos; se desobedecessem, sofreriam consequências. 

Por isso, quando acontecia algum infortúnio, eles tendiam a assumir que a culpa era deles, resultado de alguma falha ou desvio no cumprimento das regras divinas, em vez de responsabilizarem Deus ou outras forças externas. Esta forma de pensar levava-os a uma atitude de autocrítica: examinavam a própria conduta, à procura de pecados ou injustiças que tivessem cometido, para assim corrigirem o seu comportamento e voltarem a cumprir a vontade de Deus. Como acreditavam num Deus único, não existia a ideia de várias divindades que pudessem estar em disputa; daí que a explicação dada para os problemas normalmente se centrasse no povo, na sua falta de fidelidade ou no incumprimento da lei, em vez de se atribuir a culpa a seres ou poderes alheios.

Há dias escrevi que a melhor forma de uma empresa dar saltos de produtividade passa por ... mudar de clientes. Agora complemento, a forma mais rápida de um trabalhador aumentar de salário é ... mudar de sector de actividade. Recordar a costureira do Vale do Ave, continuou a costurar mas deixou de costurar camisas em Barcelos e foi para a Alemanha costurar air-bags..