A propósito de "Ricardo Paes Mamede: "O meu principal receio é que Portugal se torne uma 'Flórida' da Europa"", saúdo Ricardo Paes Mamede por colocar no centro da discussão a composição da economia portuguesa. Na notícia da TSF que apresenta a sua entrevista, defende-se a necessidade de "aproveitar as competências que já existem para diversificar a estrutura produtiva e construir uma economia menos dependente". Concordo. A produtividade também depende daquilo que produzimos, dos clientes que servimos e do valor que conseguimos criar para eles. Melhorar a eficiência das actividades existentes é necessário; fazer crescer actividades de maior valor acrescentado também.
A minha divergência começa quando passamos da necessidade de transformação à confiança na capacidade do Estado para a orientar. Saber que precisamos de uma composição diferente da economia não significa saber antecipadamente qual deve ser essa composição. Muito menos significa que um Governo disponha do conhecimento necessário para escolher as melhores apostas. As oportunidades são específicas, o conhecimento está disperso e as preferências dos clientes mudam. Um sector considerado estratégico pode acolher negócios sem futuro; uma actividade aparentemente banal pode dar origem a uma empresa extraordinária.
Confio mais num processo de descoberta empresarial: muitas experiências, empresários que arriscam, clientes que escolhem e recursos que se deslocam para quem demonstra capacidade de criar valor. Os empresários também erram. A questão é permitir corrigir os erros e abandonar as apostas falhadas. Quando uma aposta se transforma numa bandeira política, reconhecer o fracasso pode tornar-se muito mais difícil.
Concordo com a necessidade de alterar a composição da economia. Não retiro daí que o Governo saiba qual deve ser a composição seguinte.

