domingo, agosto 02, 2026

Chegar antes das normas


O WSJ de ontem publicou um artigo, "Move Fast and Regulate Later The Paradox of China's Economic Dynamism".

O artigo aborda um aparente paradoxo: como é que a China consegue produzir empresas tão dinâmicas? A resposta do autor está, em grande medida, na sequência dos acontecimentos. Na China, muitas empresas são autorizadas a experimentar, crescer e ganhar escala em zonas regulamentares cinzentas. Se contribuírem para o crescimento económico, o emprego ou as prioridades estratégicas do Estado, a regulamentação tende a chegar mais tarde.

Nos Estados Unidos, e sobretudo na Europa, o problema tende a ser o inverso. A acumulação de regras, autorizações, procedimentos e custos de conformidade pode impedir que uma empresa chegue sequer ao mercado. Cada nova camada de regulamentação pode ter uma justificação legítima, frequentemente resultante de danos reais. Contudo, o seu efeito cumulativo acaba por criar uma muralha.

Este trecho:
"Dynamism occurs when newcomers can innovate before lawyers-or regulators-arrive."

As grandes empresas conseguem suportar departamentos jurídicos, especialistas em conformidade, ensaios, certificações e processos de autorização que se prolongam durante anos. Uma pequena empresa com uma ideia, um protótipo e pouco capital pode ficar excluída antes de ter oportunidade de demonstrar o valor da sua inovação.

A regulamentação passa então a funcionar como protecção dos incumbentes. Não necessariamente porque estes tenham concebido todas as regras em seu benefício, mas porque são os únicos com escala suficiente para absorver os respectivos custos. Recordo a 1ª Lei de Pereira da Cruz.

Esta leitura fez-me recordar uma empresa com a qual trabalhei há alguns anos. Operava num sector regulamentado, com normas que estabeleciam requisitos para a qualidade dos produtos, e a sua proposta de valor assentava na inovação.

Costumava dizer-lhes que tinham de estar permanentemente à frente dos criadores das normas no desenvolvimento de novos produtos.

Não se tratava, naturalmente, de ignorar requisitos legais, qualidade ou segurança. Tratava-se de compreender o significado estratégico da própria existência de uma norma de produto.

Quando é possível publicar uma norma, isso significa geralmente que o produto ou a tecnologia já atingiu um grau apreciável de maturidade. Já existe experiência suficiente para estabilizar conceitos, características, métodos de ensaio, níveis de desempenho e requisitos mínimos. Aquilo que começou por ser conhecimento exclusivo de alguns pioneiros pode finalmente ser descrito, medido, ensinado e reproduzido por muitos. Recordo o funil de Roger Martin.

A normalização reduz a incerteza, aumenta a confiança dos clientes, facilita as transacções e ajuda a alargar o mercado. Mas também torna os produtos mais facilmente comparáveis. Os compradores podem elaborar especificações comuns, os concorrentes sabem quais os requisitos mínimos que devem cumprir e parte do conhecimento acumulado pelos pioneiros fica codificada e acessível.

A norma anuncia, assim, não o princípio da novidade, mas a maturidade do produto e o seu caminho para a comoditização.

Para uma empresa cuja proposta de valor assenta na inovação, esperar que a norma diga o que deve desenvolver é chegar tarde. Quando os normalizadores conseguem descrever com precisão a geração actual do produto, a empresa inovadora já deveria estar a trabalhar na geração seguinte.

O dinamismo económico nasce, em grande parte, no intervalo entre a criação de uma possibilidade nova e a sua codificação regulamentar ou normativa. É nesse espaço que se experimenta, que se aprende, que se descobrem utilizações e que se constroem novos mercados. Se fecharmos antecipadamente esse espaço, podemos proteger-nos de alguns riscos, mas também podemos impedir que as soluções cheguem a nascer.




sábado, agosto 01, 2026

Curiosidade do dia

Acerca da ciência:
"I am safer in my little place, making my comments, making my statements. They’re made-up stories.

What is a made-up story?

My telling you my belief system is a made-up story. This is really an important idea. I thought that everything written in a book was true. [Moi ici: Recordo esta conversa sobre um clube de leitura] As soon as the publications came out, as soon as I could go to PubMed, I thought those things written down were absolute truths.

And then you stay in medicine for 30 years and you realise the things that you were taught are not true anymore. [Moi ici: Faz-me lembrar uma conversa há mais de 40 anos em que alguem me contava que o que tinha aprendido num aula na semana anterior tinha sido desmenbtido na semana seguinte por factos novos] Well, that means they made up those stories. They do a scientific experiment. You and I are looking at the data, but there’s always a conclusion: “My conclusions from this data are…” Those are always made-up stories. And, in fact, they’re always humans making up stories.
...
And then I began to realise they made up those stories. That was their best guess. That is every single person who sits on this side of the table. It’s their best guess. All of us are—or you wouldn’t have us on here. Very enthusiastic about our guess.

But it’s very important to realise that every belief system means you see the world through that, but it always has blinders. There are things that you won’t be able to see because of it as well."

Produtividade, o lado menos confortável

Mão amiga fez-me chegar este artigo "Mais férias ou melhores empresas?"

"Dados da Pordata, revelados este ano, deram conta de que a produtividade média por trabalhador, em 2024, era, em Portugal, de 48 mil euros, quando na UE a média era de 74 mil euros. Isto coloca Portugal na parte inferior do ranking europeu, muito distante dos líderes (Irlanda 194 mil euros, Luxemburgo 152 mil euros, Bélgica 110 mil euros), sobretudo devido a questões estruturais: temos demasiadas microempresas, poucas empresas de alto crescimento, investimento genericamente insuficiente em I&D e digitalização, acesso limitado a financiamento de risco e, como o FMI não se cansa de repetir, um nível de burocracia que reduz velocidade e escala."

O artigo termina com a enumeração habitual das soluções: mais I&D e digitalização, melhor acesso a capital de risco, menos burocracia e um número maior de empresas de elevado crescimento.

Esta visão da produtividade permite que todos concordem sem que identifiquem quem arcará com os custos da transformação. A mudança da estrutura económica exige que algumas empresas cresçam enquanto outras percam dimensão ou encerrem. O capital acompanha as actividades com melhores perspectivas, deixando de financiar as restantes. Certas competências ganham valor, outras deixam de ser procuradas e alguns empregos desaparecem antes dos trabalhadores encontrarem novas oportunidades.

A afirmação de que Portugal tem demasiadas microempresas e poucas empresas de elevado crescimento contém, por isso, uma consequência que raramente é assumida. O tecido empresarial português terá de mudar através da criação de empresas, do crescimento das mais produtivas e do encerramento das que deixaram de gerar valor suficiente.

A autora trabalha num sector sujeito a essa pressão. Os jornais perderam leitores, receitas publicitárias e a capacidade de cobrar pela informação que produzem. Várias empresas de comunicação têm prolongado a sua actividade através de reestruturações sucessivas, injecções de capital, venda de activos, renegociação de dívidas, despedimentos, apoios públicos e conteúdos patrocinados. Perante esta realidade, é legítimo perguntar se a preservação de algumas dessas empresas estará a reter recursos que poderiam alimentar novos modelos de produção jornalística.

A expressão "melhores empresas" costuma ser entendida como um apelo a ajudar as empresas existentes a investir, a digitalizar-se e a melhorar a produtividade. Algumas enfrentam um problema mais profundo. Quando os clientes deixaram de atribuir valor suficiente ao que lhes é oferecido, a digitalização limita-se a tornar mais eficiente a produção de algo que já perdeu procura.

Defender que Portugal precisa de melhores empresas exige aceitar todo o processo de renovação empresarial. O capital, a tecnologia e os apoios podem ajudar organizações viáveis a crescer. Quando uma empresa permanece incapaz de gerar resultados, o seu encerramento liberta trabalhadores, conhecimento, capital e espaço de mercado para modelos capazes de criar mais valor. Esta exigência aplica-se também a quem dirige uma publicação integrada num grupo que acumula anos de resultados negativos.