A economia, ao contrário do que muitos pensam, não se move em revoluções constantes. Move-se em equilíbrios pontuados; longos períodos de estabilidade, interrompidos por mudanças rápidas e profundas. O termo é emprestado da biologia evolutiva: durante muito tempo, nada muda; depois, tudo muda de repente.
As empresas, embaladas por esse falso conforto, tendem a adormecer no quadrante onde sempre estiveram:
Quadrante 1
Produto actual, mercado actual.
O que fazemos. Para quem o fazemos.
Mas quando o mundo muda - por novos concorrentes, novas exigências dos clientes, novas regulações ou rupturas tecnológicas - é preciso decidir para onde saltar:
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Saltar para o Quadrante 3: novo mercado, mesmo produto
Em 2012, numa feira transmontana, uma artesã queixava-se de não vender colchas de linho. Talvez o problema não fosse o produto, mas sim onde o tentava vender. Na
altura escrevi:
“Talvez precisasse de frequentar outras feiras, noutros países. Talvez precisasse de divulgar os seus produtos na internet. Talvez precisasse de os expor nas quintas de turismo rural que florescem no Verão entre a Beira-Alta e Trás-os-Montes.”
É o salto clássico para o quadrante 3: procurar nova procura sem mudar a essência da oferta.
Saltar para o Quadrante 4: novo produto, novo mercado
Em 2013, contei a história da transformação do
burel de Manteigas. Um tecido rústico, tradicional, reinventado por uma designer belga e apresentado ao mundo com uma nova linguagem, um novo design e novas funções.
O tecido não mudou. Mas o que se fazia com ele, sim.
Passou-se de cobertores a design. De Manteigas ao Japão.
Foi um salto de quadrante — e de ambição — sem perder autenticidade.
E o Quadrante 2? Novo produto, mesmo cliente?
Aqui o caminho é menos claro. Algumas hipóteses:
- Um produtor de fruta que muda para práticas biológicas, sem o cliente se aperceber.
- Um fabricante que melhora a fórmula do seu produto, mantendo a marca e a embalagem.
Mas, sem educar o cliente, provar a vantagem e reconfigurar a percepção, esse salto tende a ser invisível. É mudar de roupa no escuro: talvez seja importante, mas ninguém nota.
E quando se tenta, por exemplo, vender um vinho mais caro ao mesmo cliente, sem convencê-lo da diferença, arrisca-se o insucesso.
Não basta mudar o produto. É preciso mudar a percepção.
Por isso, sair do quadrante 1, em qualquer direcção, quase sempre implica:
- mudar de canais,
- mudar a comunicação,
- mudar a equipa comercial, e
- mudar a forma como o cliente vê o produto.
Especialmente se falarmos de PMEs, que não podem competir em preço, é essencial que a mudança traga valor percebido e margens maiores.
O problema do equilíbrio pontuado é este: quando o abalo chega, já é tarde para começar a pensar.
Mais vale preparar o salto enquanto ainda se tem margem para o fazer em segurança.
Amanhã, um exemplo com azeite.
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