sexta-feira, setembro 26, 2025

Arbitrage: o segredo dos que ousam ver o que os outros não vêem

 

"My father ran a small business. The great thing about growing up in a small business—whether it’s a shop, a café, or a restaurant—is that if you’ve got a family business, it’s like getting a free MBA. You automatically start to notice things.
The entrepreneurial mindset is very different from the bureaucratic mindset. The bureaucratic mindset hates outliers and surprising information because it disrupts their mental model. They tend to react with hostility to what you might call counterintuitive information—just like the original behavioral economists were shunned by mainstream economists for messing with the neatness of their artificial models.
The entrepreneurial mindset is the complete opposite. When it notices something weird, it immediately starts looking for an arbitrage opportunity. In contrast, the governmental or bureaucratic mindset says, “I must maintain consistency so I can avoid blame for my decisions. I must preserve fidelity to the model I use to justify my activities, to create a spurious veneer of rationality around everything I do—all with the ultimate aim of avoiding blame and responsibility.”
The entrepreneurial mindset says: “What the hell is going on there? Wait a second... If I know this and nobody else does, there's a market opportunity here.”"

 

A cultura burocrática não quer aprender. Quer proteger-se.

Esta frase, inspirada na transcrição acima, ajuda a expor um dos maiores bloqueios à eficácia dos sistemas de gestão: o medo de enfrentar o estranho, o inesperado, o que não encaixa nos modelos mentais existentes.

A ISO 9001 fala de liderança (5.1.1), de cultura da qualidade, de avaliação de riscos e oportunidades (6.1), de acção correctiva e melhoria (10.2 e 10.3). Mas o que acontece, na prática, quando aparece um dado fora do esperado?

Quando algo não encaixa nos nossos planos, dashboards e procedimentos? Numa cultura empreendedora, alguém pára e pergunta:
-"O que é que se passa aqui? Será que isto é uma oportunidade? Podemos aprender com isto?"
Numa cultura burocrática, a reacção típica é:
"Isto está fora do plano. Vamos arquivar. Fingir que não vimos."

A ISO 9001 pede explicitamente que as organizações determinem e avaliem oportunidades, com o mesmo rigor com que avaliam riscos. Mas quase ninguém o faz.

Porquê?
Porque ver oportunidades exige desconforto. Exige aceitar o "weird".
É preciso ver padrões onde outros só vêem ruído.
É preciso estar atento a falhas no modelo dominante.
É preciso fazer perguntas inconvenientes:
  • E se o cliente não quiser o que sempre quis?
  • E se este desvio for sinal de mudança de comportamento, não de erro?
A maior parte das empresas, mesmo certificadas, confunde oportunidade com melhoria interna. Automatizar um formulário não é aproveitar uma oportunidade. É, no máximo, reduzir desperdício.

Oportunidade, em termos económicos, é arbitrage.

É ver uma diferença de valor entre dois mundos.
É perceber que há algo disponível, barato, subvalorizado — e que pode ser transformado em algo que alguém valoriza mais.
Mas para isso... é preciso ver.
É preciso aceitar que o inesperado pode ser o sinal.

Grande parte da mentalidade empresarial — sobretudo anglo-saxónica — está enraizada num modelo de competição perfeita: mais eficiência, mais corte de custos, mais concorrência, mais pressão para o preço mais baixo.

Este modelo não valoriza o estranho. Valoriza a normalização.
Procura escala, não nuance.
Procura replicar, não reinventar.
Procura "compliance", não surpresa.

Resultado?
Quando aparece uma arbitrage - uma diferença de valor percebido - quem a aproveita não é a multinacional nem o governo, mas o pequeno agente periférico que tem a coragem (ou a liberdade) de ver o que os outros ignoram.

É ingénuo esperar que a inovação venha de quem precisa de justificar todas as suas decisões com base num modelo estável e previsível. O funcionário público, o gestor de grande empresa, o auditor de gabinete - todos são formatados para manter a coerência, não para detectar o estranho.

Quem vê o estranho como "bug" nunca o vai aproveitar como "feature". A arbitrage exige curiosidade.
Exige desconfiar dos consensos.
Exige sistemas de gestão que permitam olhar para uma não conformidade e dizer:
- "Não vamos só corrigir. Vamos explorar."
- "Isto pode ser o princípio de uma ideia nova, não o fim de um desvio."

Um sistema de gestão da qualidade eficaz não serve para garantir previsibilidade.
Serve para garantir aprendizagem rápida e acção inteligente.
O estranho, o inesperado, o fora do plano — tudo isso pode ser ruído.

Mas pode também ser ouro.

Depende de quem olha.
Depende de que cultura se tem.

Depende de se estás a usar a ISO 9001 como escudo contra a realidade - ou como lente para vê-la melhor.

quinta-feira, setembro 25, 2025

Curiosidade do dia



Depois dos automóveis... serão os camiões eléctricos?

O que aconteceu com os automóveis poderá repetir-se nos veículos pesados. Primeiro foram os carros: a China aproveitou a transição tecnológica para os motores eléctricos e, em poucos anos, conseguiu conquistar quota global, colocando-se lado a lado com gigantes tradicionais europeus, japoneses e norte-americanos.

Agora o movimento chega aos camiões. A Sany, que já produz dezenas de milhares de camiões eléctricos por ano e investe fortemente em fábricas, baterias, carregamento e condução autónoma, mostra que o mesmo guião pode estar em curso no segmento de transporte pesado. Enquanto na Europa ainda se discute infraestrutura de carregamento e custos de transição, a China acelera com escala, custos mais baixos e uma política industrial consistente.

A questão é inevitável: vão ser os camiões eléctricos a próxima frente de conquista da indústria chinesa?

Para os fabricantes europeus, o dilema é semelhante ao que viveram com os automóveis. Ou ficam presos ao modelo tradicional, protegendo fábricas e cadeias de valor construídas em torno do motor de combustão, ou usam esta transição como alavanca para inovar, diferenciando-se em áreas como tecnologia de baterias, software, serviços de mobilidade, logística inteligente ou integração com redes de energia. Fiquei logo a pensar no peso da bagagem.

O tempo joga contra quem espera. A experiência dos automóveis mostra que a hesitação custa caro. A Europa tem engenharia, tem marcas com reputação, tem redes logísticas sofisticadas e ... muita bagagem.

No FT de hoje, "Sany's electric trucks power latest Chinese assault on global sector":
"China's biggest electric-truck maker says it is targeting growth overseas in a fresh challenge to the global auto industry as Chinese production of high-tech, low-cost, battery-powered heavy goods vehicles booms.
Liang Linhe, who leads the electric trucking division of Sany Group, a construction and mining equipment behemoth, expects about half the group's sales to come from overseas markets by 2030 - up from about 10 per cent this year.
"We are already seeing the rapid development of the overseas market," he told the Financial Times in an interview, adding that the "biggest challenge" was that many countries' electricity infrastructure lagged behind that of China.
The Chinese group launched its electric truck business in 2021 and has won a market share of about 16 per cent domestically.
The group expects annual sales of about 30,000 electric trucks for this year, mostly in China.
It has opened an electric-truck factory in South Africa this year, is scouting for land in Brazil for a second overseas operation and has begun selling its vehicles in Europe.
...
Industry executives predicted that electric trucks will have a 50 per cent market share within three years in China.
...
Sany, Liang added, invested about 8 per cent of its revenues into research and development for Changsha's battery production, solar-powered battery swapping and charging networks across China, as well as driverless technology."

O contexto é fundamental

Mão amiga mandou-me estas fotos de uma loja em Berlim.

Queijos:

Azeite:

Uma das coisas que se aprende no pricing é que o preço é contextual. Recordo o que sugeri aos meus vizinhos de então na Murtosa:
"O meu conselho inicial era para situar o preço das trutas fumadas em lata junto do salmão fumado a 3,5€ as 100 ou 150g em vez das latas de sardinhas a 0,60€. Esse conselho motivado pela percepção de que o preço é contextual, aqui é reforçado por uma outra percepção, o JTBD da truta fumada se calhar está mais próximo do JTBD do salmão fumado do que o JTBD das conservas de sardinha ou cavala."
Um dos exemplos negativos que recordo é de um certo Carnaval, outro é a Claire's, tudo aqui: Percepções de valor.

Subir na escala de valor exige mais do que melhorar o produto; exige transformar a forma como ele chega ao mercado. Os canais de distribuição clássicos, que tratam o nosso produto como plancton, na metáfora de Seth Godin, não são compatíveis com um posicionamento de diferenciação e premium. 

A distribuição não pode ser um afterthought. Se quisermos jogar no campeonato de Berlim, não basta pensar no output da nossa produção; temos de focar-nos no input na vida do cliente — ou melhor, no outcome que o produto gera na sua experiência, no seu imaginário, no seu dia a dia. Só assim o preço deixa de ser comparado ao das sardinhas e passa a ser situado ao lado do salmão fumado.

P.S. - Aquela apresentação é qualquer coisa. Aquilo não é uma loja, é um templo.

quarta-feira, setembro 24, 2025

Curiosidade do dia

A curva de Laffer ao vivo e a cores no The Times de hoje em "Bitter irony as Reeves loses out after raising alcohol duty":
"Tax receipts from the sales of beer, wine and spirit have fallen sharply since the decision to raise alcohol duty.
The sum since April is down £220 million compared with the same period last year, HMRC figures show. Wine had the steepest decline, with revenues down 6 per cent year on year. Revenue from spirits and beer were down 5 per cent and 2.5 per cent respectively. Cider bucked the trend, rising 10 per cent."
A lógica é simples, quando os impostos são baixos, aumentá-los tende a gerar mais receita, mas, a partir de certo ponto, um aumento excessivo da carga fiscal desincentiva o consumo ou desloca-o para alternativas mais baratas, fazendo com que a receita total do estado caia.

O governo britânico aumentou o imposto sobre o álcool (3,6% em linha com a inflação e novas regras para taxar o vinho pela graduação alcoólica). Resultado: desde abril, a receita caiu £220 milhões em comparação com o ano anterior, apesar do aumento da taxa.

Ou seja, o aumento do imposto não compensou a redução do consumo — a receita global caiu. Isto confirma a regra: se a taxa sobe demasiado, a base tributária (neste caso o consumo) encolhe de tal forma que a receita desce.


Estratégia industrial ... mais socialismo



No passado dia 17 de Setembro o FT trazia um artigo de Andy Haldane, ex-economista-chefe do Banco de Inglaterra, "Industrial strategy needs more than stars."
"Industrial strategies are all the rage around the world. The prompt for this newfound passion has been the combination of lacklustre growth in many western economies and the apparent success of such strategies in stimulating growth in much of Asia, from South Korea to Singapore.
The resulting plans come in many flavours. But one feature common to them all is their focus on a set of "superstar" sectors. Strategy is about making choices so that support can be provided at scale. In a tight fiscal environment, backing only those sectors with the greatest potential sounds like a prudent and purposive way to stimulate growth." [Moi ici: Lembro-me de Pedro Nuno Santos ter avançado algo deste tipo quando subiu a número um do PS]

Haldane chama a atenção para a chamada “everyday economy”: saúde, educação, retalho, hotelaria, distribuição, construção. É aí que trabalha a maioria dos britânicos, mas é aí que a política industrial raramente olha. Apostar apenas nas indústrias da moda não gera inclusão nem resolve problemas de bem-estar. Pior: mantém o vício do Estado em querer substituir o mercado na escolha de vencedores.

Escrevi várias vezes sobre este tema. Em Picking winners (2017) critiquei a tentação recorrente dos governos de tentar proteger empresas ou sectores “estratégicos”. A história mostra que quase sempre sai caro: congela a inovação, atrasa a renovação natural do tecido empresarial e deixa recursos presos em modelos ultrapassados.

Em Big Man economy (2007) recordava como a ideia de salvar empresas decadentes impede a entrada de novos actores mais ágeis e inovadores. A economia precisa de destruição criativa — de deixar morrer os que não se adaptam para que novos surjam. Nunca esquecer Daniel bessa e aquele tenebroso aviso:

"faltou sempre o dinheiro que o "Portugal profundo" preferiu gastar na "ajuda" a "empresas em situação económica difícil"

Ontem, quase que escrevi que aquela notícia:

"German conglomerate Thyssenkrupp has announced that it has received a non-binding offer to acquire its steel division, Thyssenkrupp Steel Europe (TKSE), from Indian group Jindal Steel International, part of the Naveen Jindal Group." 

Seria motivo para manifestações, debates na assembleia, jantares emotivos, tudo para salvar mais um campeão nacional. 

Em In a stagnant economy (2021) sublinhava que, quando os governos se dedicam a sustentar campeões escolhidos, o resultado é estagnação. O mercado é um mecanismo de descoberta. Não há planos quinquenais nem gabinetes ministeriais capazes de antecipar que empresas vão ser bem-sucedidas daqui a dez anos.

O que Haldane mostra — a ilusão de que os sectores “superstar” vão sustentar tudo — é, no fundo, a mesma lógica do socialismo económico: substituir a selecção natural do mercado por escolhas políticas. Os resultados estão à vista: recursos mal alocados, produtividade baixa, crescimento anémico.

A alternativa não é não fazer nada. O papel do Estado deve ser outro: proteger as pessoas, não as empresas. Em 2008 em "Como eu olho para a crise" escrevi:

"Eu, que não tenho a informação que têm os governos, e que não tenho medo de eleições que não disputo, proporia uma receita diferente.

Apoio mínimo às empresas de qualquer sector, os consumidores que decidam quem tem direito a sobreviver como empresa.

Em contrapartida, apoio máximo às pessoas e sobretudo aos desempregados."

Garantir um “chão seguro” e, sobretudo, reconstruir escadas de oportunidade, de progressão — oportunidades de requalificação, mobilidade social, infraestruturas locais que permitam às pessoas reinventar-se quando as empresas desaparecem. É aqui que o investimento público faz sentido: não para escolher vencedores, mas para permitir que o mercado faça a selecção natural, sabendo que os trabalhadores não ficam presos sem saída.

terça-feira, setembro 23, 2025

Curiosidade do dia

O mundo a rodar e a mudar.

O tal de punctuated equilibrium: longos períodos de estabilidade, interrompidos por momentos em que a mudança se torna urgente e necessária.


"German conglomerate Thyssenkrupp has announced that it has received a non-binding offer to acquire its steel division, Thyssenkrupp Steel Europe (TKSE), from Indian group Jindal Steel International, part of the Naveen Jindal Group. This marks a new stage in years of attempts to spin off the steel business, which remains Germany's largest steel producer with annual sales of €10.7 billion, Reuters reports." (Fonte aqui e mais aqui)

Thyssenkrupp. Décadas como gigante estável do aço na Alemanha, e agora a venda da sua divisão siderúrgica já não é apenas uma hipótese — tornou-se inevitável.

No fundo, nada de novo. O Eclesiastes já o dizia há milhares de anos: “Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu.”

E nos anos 60, os Byrds cantaram-no em "Turn, Turn, Turn".

A lição? Estratégia não é desenhar equilíbrios eternos. É reconhecer quando chegou o tempo de mudar.

 

Uma caldeirada



No passado Domingo o JN trazia dois artigos que achei muito estranhos:
  • Importar alimentos de todo o Mundo custa 750 milhões por mês
  • Do bacalhau aos insetos: os produtos que chegam de várias origens
Qual é a mensagem?

Por um lado, faz-me lembrar aqueles que não percebem os custos de oportunidade e querem que os produtores portugueses se dediquem a produzir para o mercado nacional para substituir importações. Uma das maiores estupidezes económicas.

Recordo daqui:
"Produzir para substituir importações consumidas no país é quase sempre um erro, como relato no caso das conservas. Portugueses são pobres, importam sapatos baratos. Portugueses exportam sapatos caros. É quase impossível sustentar empresas portuguesas a produzir artigos para portugueses porque os portugueses não os poderiam pagar. Mas mesmo na substituição das importações também há que ter prudência, recordo o caso das fundições e a Autoeuropa."

Por outro lado, o secretário-geral da CAP faz afirmações contraditórias. Primeiro, faz uma afirmação que me surpreende porque faz todo o sentido:

"É comercialmente vantajoso exportar os nossos produtos, a preços altos, colocando-nos inclusive abaixo da procura interna"

Ou seja, para quem vende, é mais lucrativo exportar certos produtos agrícolas portugueses (porque os preços internacionais são mais altos). Como consequência, esses produtos ficam em falta no mercado interno ou ficam a preços mais elevados. Resultado: a procura interna não é satisfeita, porque as empresas preferem vender para fora em vez de abastecer o mercado português. 

Recordo o que costumo escrever aqui com frequência

"a função do agricultor não é alimentar a sociedade, a função do agricultor é ganhar dinheiro através da prática da agricultura. A sociedade não quer saber dos agricultores, quer produtos agrícolas baratos nem que venham da Ucrânia (escrevi isto em 2019). Por isso, o agricultor não deve ser trouxa e deve trabalhar para quem valoriza o fruto da sua actividade."

Mas o secretário-geral da CAP também mostra o lado de agricultor funcionário-público encapotado:

"refere Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). "Portugal não sabe o que fazer da agricultura."

Luís Mira acha que "Portugal não sabe o que fazer da agricultura", como se Portugal fosse um agricultor distraído que não estudou o manual de instruções. Como se a agricultura fosse um jogo de tabuleiro em que o governo segura as peças todas e a CAP estivesse sentada a ver, impotente, sem agência nem voz. Talvez tenha razão: se o papel da CAP se resume a disputar o campeonato dos subsídios da PAC, então é natural que não saiba o que fazer da agricultura - saberá apenas o que fazer das candidaturas. O problema é confundir o país com um agricultor e a estratégia agrícola com a tabela de ajudas de Bruxelas. O Portugal agricultor deveria ser o somatório de decisões de agentes individuais e não o resultado de um decisor num gabinete ministerial que nunca borrou as botas na lama.

Por fim, o artigo termina com uma mensagem críptica para não afectar a mente dos leitores habituados à mensagem habitual do jornal:

"Luís Goulão, professor no Instituto Superior de Agronomia, alerta que outra lacuna na política agrícola, que terá efeitos na produção, está na "retirada de substâncias ativas de proteção de culturas sem alternativa a curto prazo", [Moi ici: Eu traduzo, refere-se a pesticidas, fungicidas e herbicidas]", com perdas na ordem dos 500 milhões de euros, como na vinha ou no tomate industrial."

No fim, o artigo mais parece uma caldeirada: mistura dados alarmistas sobre importações, afirmações contraditórias de dirigentes da CAP, ironias sobre estratégia nacional e queixas técnicas sobre pesticidas. Tanta contradição junta não é inocente - serve, talvez, para confundir o leitor e disfarçar a verdadeira mensagem de fundo. E esta, especulo eu, é simples: preparar o terreno da opinião pública para a velha exigência de sempre, garantir água barata, paga pelos contribuintes, para sustentar as culturas intensivas que alimentam o negócio de alguns. 

Eu não sou comunista, mas sei que produção apaparicada pelo estado com dinheiro dos contribuintes é um erro económico, ponto.

Lembra-me o Hélder d'O Insurgente e os últimos homens independentes de Portugal. Um abraço.

segunda-feira, setembro 22, 2025

Curiosidade do dia

No fim de semana, centenas de pessoas saíram à rua em 15 localidades do país para dizer basta à monocultura do eucalipto e aos incêndios que ela alimenta. Não foram multidões de estádios, foram cidadãos conscientes, da Lousã ao Porto, que exigiram respeito pela floresta, pelos animais e pelas comunidades que vivem com medo das chamas. Uma afirmação cívica necessária, num país que continua a varrer para debaixo do tapete os custos ambientais e sociais de um modelo florestal insustentável.

O eucalipto é rentável porque os seus impactes — erosão, perda de biodiversidade, risco acrescido de incêndios, desertificação — são pagos por todos nós. São externalidades negativas que ficam fora da conta de exploração das celuloses e dos grandes promotores da monocultura. Em economia, este é o exemplo clássico de falha de mercado: quando quem lucra não paga o preço total do que causa, transfere para a sociedade os seus custos.

É aqui que devia estar a proposta política: internalizar as externalidades. Quer plantar eucalipto? Então que pague um imposto proporcional ao risco de incêndio, à pressão sobre os recursos hídricos, à perda de solos férteis. Que esse valor alimente um fundo de prevenção e compensação, para financiar a reflorestação com espécies autóctones, a gestão activa da paisagem e o apoio às comunidades locais.




Pequenas e ágeis

"For the last 150 years, big companies who have been able to afford big factories were the only ones able to deliver it. Not any more, not in this global, digital, connected economy.

New global small teams can also deliver high quality at a lower cost in many niches. Small teams can source products and ideas faster and more cheaply over the internet than big businesses can. The success of Uber and Airbnb has shown that owning an asset isn't required anymore. Being the person or company that coordinates a tribe of people is more valuable.

Small enterprise can access big factories when they need to, but don't have the overhead when they aren't using them. Smaller is lean but powerful in this economy. Small and lean is faster, more dynamic, cheaper and more flexible. Small is more fun. Small can look very big now. Best of all, small cares.

Small, lean enterprises give the feeling that they are making things for a special type of person rather than a market. Rather than buying things that everyone has, you can have unique things that were made for people just like you."
O mundo económico é cada vez menos um mundo onde todos competem pelo memo pico, e cada vez mais um mundo de muitos e variados picos. Um mundo de nichos. O que chamo de Mongo. Mongo não é para gigantes.

Uma das dificuldades para os incumbentes transitarem da mentalidade do século XX para Mongo é a dimensão. Servir nichos não requer uma dimensão tão grande e encolher é visto como sinal de fracasso.

Recordar:

Trecho retirado de "Key Person of Influence: The Five-Step Method to become one of the most highly valued and highly paid people in your industry" de Daniel Priestley.

domingo, setembro 21, 2025

O poder do pensamento positivo



Mão amiga mandou-me um artigo interessante “You’re Only as Old as You Think” publicado pelo que parece ser uma revista chamada BBC Science Focus.

O artigo de David Robson, "You're Only as Old as You Think", explora como as nossas atitudes em relação ao envelhecimento podem influenciar não apenas o bem-estar psicológico, mas também a saúde física e até a longevidade. 

Baseado em várias décadas de investigação científica, o artigo mostra que crenças positivas sobre envelhecer podem prolongar a vida em até 7,5 anos, enquanto visões negativas podem acelerar doenças, declínio cognitivo e perda de autonomia. 
"Levy has found that people’s cortisol levels [Moi ici: Já escrevi e escrevi sobre o perigo do cortisol gerado pelo comentáriado] rise by roughly 40 per cent from their 50th to 80th birthdays if they have negative attitudes to ageing.
...
Someone with a rosier view of ageing lived for around 7.5 more years than those who were more pessimistic."
O autor argumenta que o idadismo deve ser tratado como qualquer outra forma de preconceito e que uma mudança cultural é necessária para promover envelhecimento saudável e inclusivo.
"Your attitude towards ageing can reduce the toll time takes on your brain and body. It’s a statement that sounds ridiculous, but the science backs it up.
...
Extraordinary claims require extraordinary evidence, though, and few are as extraordinary as this. But many scientists from across the world are coming to the same conclusion: your mindset can shape your biology."

sábado, setembro 20, 2025

Curiosidade do dia


Há dias li no JdN, "Crise em França "pode ter um impacto positivo na economia portuguesa"".

Confesso que achei o título estranho. O argumento é que, mesmo com os riscos associados, Portugal está numa boa posição para captar investimento francês, tanto no investimento directo estrangeiro como na expansão de empresas francesas já presentes no país.

A alternativa ao turismo canceroso


Há dias escrevi aqui sobre o desenvolvimento canceroso do turismo.

Qual a alternativa? A mesma que para os outros sectores de actividade, subir na escala de valor.

Nunca me esqueço deste exemplo, "inGamba", ou do meu sonho, nunca realizado, com o casamento entre o birdwatching e a posta mirandesa (na Gabriela).

Recentemente, 17.09, encontrei no FT um artigo que fez recordar isto tudo e mais, "Goodwood earns its place in the global luxury experience race".

O artigo descreve como o Goodwood Revival, um evento automóvel de três dias em West Sussex, Inglaterra, se consolidou como um dos principais encontros de carros clássicos e experiências de luxo no mundo. 

A partir da visão empreendedora de Charles Gordon Lennox, 11.º duque de Richmond, Goodwood transformou-se num polo de entretenimento global, com corridas, festivais de velocidade, música e moda, atraindo mais de 100 mil visitantes internacionais por ano e gerando receitas significativas. A ambição do duque é posicionar Goodwood como a “leading luxury experience brand”, mas o desafio é equilibrar expansão global com a preservação da autenticidade do lugar.

“The 70-year-old duke’s ambition meets his sense of caution, based on duty to hand over the estate in good shape to his heir Charlie March.” [Moi ici: A fazer lembrar os espalhadores de bosta de Estarreja]
O texto sobre Goodwood mostra um exemplo de gestão consciente das externalidades do turismo e do entretenimento de luxo. O duque percebe que há limites para crescer sem destruir a autenticidade do lugar, e opta por um equilíbrio entre espetáculo, comunidade e sustentabilidade.

O caminho não é mais volume, mas mais valor — como inGamba, ou no exemplo do birdwatching e da posta mirandesa.

O que me leva a 2006 e à "experience economy" de Pine & Gilmore.


O valor acrescentado já não está em vender um produto ou um serviço, mas em criar experiências memoráveis, autênticas, que envolvem emocionalmente o cliente.

Por exemplo, o Goodwood Revival não é apenas um evento automóvel: é uma imersão cultural e sensorial onde os visitantes “entram num filme”.
“The amazing thing is, they all feel they are part of it, they are in the movie.”
A alternativa ao turismo de volume é investir em nichos de experiência premium, que além de criarem mais valor económico, reduzem os efeitos perversos das externalidades.



sexta-feira, setembro 19, 2025

Curiosidade do dia

Sinal dos tempos: "China ultrapassa Alemanha no ranking da inovação. Portugal mantém 31.° lugar"

A Suíça continua a liderar o Global Innovation Index (GII), seguida pela Suécia e pelos Estados Unidos. A China entrou pela primeira vez no top 10 do ranking e ultrapassou a Alemanha. Portugal mantém-se no 31.º lugar entre 139 economias analisadas pela World Intellectual Property Organization (WIPO). 

O artigo menciona que, embora Portugal esteja estável na posição, há sinais de travagem no investimento em Investigação & Desenvolvimento (I&D).

Interessante, há dias li:

"O país é também um dos países que oferece mais incentivos fiscais às empresas, nomeadamente pequenas e médias empresas, para investigação e desenvolvimento (I&D), de acordo com o relatório, ao lado de França e da Polónia."

De sublinhar a evolução da China, bom para quebrar estereótipos.

Perguntas sem resposta

Encontrei a política da qualidade que se segue na internet. É de uma empresa certificada.

"A XXXXX está empenhada em disponibilizar produtos e serviços aos seus clientes, que não se restrinjam à satisfação das necessidades, mas superem as expectativas, enquadrados por uma rápida evolução tecnológica, exigências de mercado cada vez maiores e uma elevada competitividade.

Todos os requisitos legais, regulamentares e a melhoria contínua da eficácia do Sistema de Gestão de Qualidade são assegurados de acordo com a norma NP EN ISO 9001:2015.

Desta forma, destacamos alguns dos princípios da nossa Política da Qualidade:

• Existir uma interação permanente com o cliente e partes interessadas, de forma a antecipar e adequar as suas necessidades e expectativas mas também conhecer a sua opinião sobre a qualidade dos produtos e serviços fornecidos;

Assegurar junto dos nossos parceiros de negócio, relações de benefício mútuo no sentido de proporcionar um crescimento conjunto;

Existirem mecanismos de gestão adequados para garantir o funcionamento de um Sistema de Gestão de Qualidade e a sua contínua melhoria; e procurar sempre novas soluções que possibilitem reforçar a empresa, tanto ao nível organizacional como pessoal, com vista a cumprir os objetivos estratégicos traçados;

• Promover junto dos colaboradores a motivação e participação ativa nos processos, estímulo da capacidade de iniciativa, trabalho em equipa, responsabilização pelo fazer bem, a formação profissional e a elevada competência técnica e humana;

• Fomentar o desenvolvimento de atividades que permitam concretizar a política da qualidade e melhorar continuamente a eficácia do Sistema de Gestão de Qualidade."

Pergunto com sinceridade:

  • Cumpre os requisitos da ISO 9001:2015?
  • Qual a orientação estratégica desta organização?
  • Quais as escolhas difíceis que esta organização faz para servir os seus clientes?

Políticas que são "Mais vale ser risco e com saúde do que pobre e doentio" são o que há mais neste mundo, chamo-lhes políticas-catequese.

A origem da palavra decidir é elucidativa.

quinta-feira, setembro 18, 2025

Curiosidade do dia

Esta semana no LinkedIn encontrei esta lista:


E fiquei-me logo pela primeira afirmação da lista:

"Um líder torna os problemas visíveis!"

E lembrei-me do ilusionista-mor, do mestre em esconder problemas: o ex-primeiro-ministro António Costa.

Como é que o sistema político português e europeu o premiou? Vocês sabem. Os portugueses até lhe deram uma maioria absoluta. Podem limpar as mãos à parede.

Os líderes a sério tornam os problemas visíveis.

Os alemães, por estes dias, estão constantemente a falar do problema da sustentabilidade das pensões e reformas. Interessante, o tema por cá não existe, os gurus acham que as paletes de imigrantes com salários baixos vão pagar as reformas e pensões da geração do Maio de 68, as que se seguem não interessam, são uma minoria eleitoral. Mas interessante mesmo porque li há anos:

"O Eurostat publicou ontem um relatório que faz soar o alarme. Por este andar, em 2050 nenhum outro país da União Europeia (UE) terá uma população tão envelhecida como Portugal. Um dos maiores desafios é segurá-la no mercado de trabalho."

Hoje no The Times, "Reform welfare state or face ruin, Germany warned."

O artigo descreve a crise iminente do sistema de pensões alemão. 

O governo enfrenta uma despesa pública insustentável, já acima dos 400 mil milhões de euros por ano, que ameaça crescer muito mais na próxima década. As previsões indicam que em 2030 haverá apenas um trabalhador ativo por cada pensionista, o que pressiona o sistema. 

Economistas e políticos discutem medidas dolorosas: mais impostos, idade de reforma mais elevada, cortes nas prestações. O debate é intenso e urgente, com propostas como um "imposto de solidariedade boomer" ou a imposição de obrigações de serviço social aos reformados mais saudáveis. 

"profound and urgent need for reform to ensure that the country could afford its pensions.

...

They include a 'boomer solidarity tax' under which the richest 20 per cent of baby boomer households would pay an additional levy... [Moi ici: Por cá apoplexias em 3, 2, 1...

An obligatory spell of caring for the elderly, minding small children or similar work immediately after retirement would, Fratzscher suggested, be a 'small step to bring a bit more balance back to the solidarity in our society!"

Desconfio que nós por cá, em vez de projectar o futuro, preferimos confiar que “a Europa há de mandar uns fundos” para tapar os buracos. Em Portugal seria suicídio político falar em aumentar a idade da reforma ou cortar pensões. O mais fácil é fingir que o problema não existe. Em resumo: Portugal não discute porque prefere manter o mito da “sustentabilidade assegurada até 2060” que se escreve em relatórios oficiais, e assim todos dormem descansados — até ao dia em que a realidade, como sempre, bater à porta.


Não são elas que precisam de Portugal, é Portugal que precisa delas (Parte VII)



No FT da passada terça-feira, este artigo "N Ireland tech boosted by hard-drive investment."

O artigo descreve o investimento da Seagate em Londonderry, Irlanda do Norte, num projecto de I&D de 5 anos avaliado em £150 milhões, destinado a desenvolver discos rígidos com capacidade até 100 terabytes. Este investimento coloca a região no mapa global da inovação tecnológica, ao mesmo tempo que beneficia da posição única da Irlanda do Norte no pós-Brexit, com acesso tanto ao mercado britânico como ao europeu. O texto destaca ainda o papel do investimento directo estrangeiro (IDE), em particular de empresas norte-americanas, como motor de inovação e crescimento, e a oportunidade de reforçar sectores de alto valor acrescentado.

Não encontrei uma única referência no artigo à palavra "produtividade". No entanto, o texto, todo ele, é sobre o aumento da produtividade. E ainda por cima, da forma mais impactante, através da subida na escala de valor, ou seja, através do numerador da equação da produtividade. 

O investimento em tecnologia de ponta, como discos de 100 terabytes, não se traduz apenas em mais produção, mas em produção com maior intensidade tecnológica e maior valor acrescentado por unidade de trabalho.

A Irlanda do Norte deixa de ser apenas fornecedora de componentes básicos para posicionar-se na fronteira tecnológica mundial (storage de última geração, cibersegurança, defesa, aeroespacial). Isto é precisamente o salto de escala de valor que costumo sublinhar — sair da competição pelo preço para competir pela sofisticação e pela inovação.

O artigo mostra como o IDE é decisivo para criar massa crítica tecnológica, atrair talento e integrar a região em cadeias globais de valor.


quarta-feira, setembro 17, 2025

ISO 9001:2015 vs. ISO DIS 9001:2025 - Main differences

 🚀 Novo artigo publicadoISO 9001:2015 vs. ISO DIS 9001:2025 — Principais Diferenças

Para quem trabalha com Sistemas de Gestão da Qualidade, este artigo pode ser útil. Destaco as diferenças mais relevantes que se esperam na próxima revisão da ISO 9001, comparando a versão de 2015 com a actual Draft International Standard (DIS):

✅ Maior ênfase na liderança, cultura, ética e comportamento organizacional
✅ Gestão de riscos e oportunidades mais robusta — não apenas determinar, mas também avaliar (embora praticamente todas as empresas já fizessem a avaliação)
✅ Requisitos alargados sobre sensibilização, conhecimento organizacional e comunicação com clientes

⚠️ Naturalmente, até à fase FDIS estas diferenças ainda podem evoluir. Não é preciso agir de imediato — mas analisar o que aí vem não fará mal nenhum e só poderá deixar alguém melhor preparado.


Curiosidade do dia

Retirado do FT do passado dia 15 de Setembro:


Conversar sobre os temas, qualquer tema, suportado em números, faz toda a diferença. Tudo o resto é conversa de café.




Portugal e Panasonic - as semelhanças


Ontem no FT um exemplo ao vivo e a cores do que escrevíamos sobre o Red Queen Effect na economia em "Panasonic nears a turning point in its reinvention race"

Por um lado, os rivais transformaram-se mas a Panasonic ficou para trás:
"Rivals Hitachi, Sony and NEC have been rewarded for executing painful transformations, each surging six times in value over a decade, while Toshiba was sold in 2023 for $15bn to Japan Industrial Partners. In contrast, the market value of Panasonic has languished for the past 10 years at about ¥3.75tn ($25bn)."

Falta visão e estratégia clara:

"We’ve talked with them but they don’t make any decisions. They’re siloed,” said a private equity executive in Japan. “We don’t have a clear picture of how that company will transform itself. It’s drifting."

Ontem à hora do almoço fui buscar uns livros entregues num ponto de recolha, enquanto regressava a pé ao escritório, folheei um deles e li um subcapítulo "Your best thinking five years ago is your baggage today." Encaixa bem com:

"Yet the legacy of successes in the 1980s and founder Konosuke Matsushita’s ingrained ‘water tap’ philosophy — to make products as abundant as water to capture a large share of the market — has made it hard for the company to evolve. Ogawa added: ‘Making that mindset shift is extremely difficult.’

...

Atul Goyal, analyst at Jefferies, said Panasonic's "real transformation begins when they decide what businesses they're good at" and prioritise allocating capital to areas of high-tech manufacturing competence.

One big decision shaping Panasonic's future will be the extent to which it offloads or halts the low-margin consumer electronics that made it a household name. Panasonic was attempting a "China cost, China speed and Japanese quality" revival, said Ogawa. [Moi ici: Como cá se faz com a importação de paletes de mão de obra barata e se adia a subida na escala de valor]

Neil Newman, head of strategy at Astris Advisory, has no doubt that Panasonic can push into new areas such as AI but he said the issue was "they always bring their baggage with them". [Moi ici: Vêem a ligação ao subcapítulo do livro. Weird!!! Não há coincidências, todos os acasos são significativos]

"Either they risk everything on a real restructuring and get rid of the consumer electronics," said Newman. "Or they just don't... and never set the world alight but risk gradual decline towards vulnerability and obscurity." [Moi ici: Conseguem a ver a ligação à "DVD leadership team", tão clara que até dói fisicamente]

terça-feira, setembro 16, 2025

Curiosidade do dia



Faz hoje uma semana o jornal Público trazia um texto de opinião que merece reflexão, "Vamos discutir as externalidades do turismo nas autárquicas?", de Pedro Norton.
"É preciso ser muito míope para não perceber que está a crescer na nossa sociedade, nas nossas cidades, um sentimento larvar contra o turismo, os turistas e os agentes (privados, mas também públicos) que o promovem.
E não é preciso ser muito inteligente para perceber que esse sentimento cedo ou tarde, tal como aconteceu noutras paragens, vai acabar por se transformar em ação social e por consequência desta em ação política. Não sei se essa explosão súbita do descontentamento se dará já nestas autárquicas, mas sei que é uma questão de tempo.
...
Infelizmente para os próprios, os agentes do setor parecem caminhar sonâmbulos.
Ou muito me engano ou vão arrepender-se mais cedo do que imaginam de não estarem a liderar esta agenda. O descontentamento existe e está aí para quem queira estar minimamente atento. Em muitos outros temas, as forças políticas extremistas já deram mais do que prova da sua capacidade de cavalgar frustrações, irritações e anseios com soluções ilusórias e contraproducentes. O setor do turismo não ficará imune para sempre a essa tentação.
Como em qualquer outro setor da economia, a autorregulação é quase sempre uma resposta melhor e mais inteligente (porque gerida por quem conhece os problemas a fundo) do que a regulação exógena, sobretudo quando pensada à pressa e para resolver problemas que se acumularam por miopia ou desleixo ao ponto da insustentabilidade.
Talvez esteja na altura de alguém acordar."

Come on, Pedro Norton acha que o o agente típico do setor do turismo é como os espalhadores de bosta de Estarreja. Think again.

Penso que muitos serão como os gafanhotos da Big Agro: quando deixar de dar "deitam abaixo o pau do circo e levam a tenda para outro lado, como gafanhotos."

O aviso de Pedro Norton não deixa de ser um convite à lucidez: ou o sector desperta e lidera o caminho, com medidas próprias e inteligentes, ou arrisca-se a ser surpreendido por uma regulação externa e reactiva, que virá num clima de conflito e ressentimento.

A questão central não é se o debate vai acontecer, mas quem o vai conduzir. E se os agentes do turismo continuarem a “caminhar sonâmbulos”, dificilmente escaparão às consequências.