O JN de hoje traz um artigo sobre o panorama dos fabricantes portugueses de componentes automóveis que, sobretudo, exportam para as fábricas da Alemanha e da Espanha que estão a produzir cada vez menos automóveis, não só pela concorrência asiática, mas também pela evolução demográfica.
Numa coluna à parte, o jornal entrevista um dirigente sindical dos trabalhadores do sector automóvel. O dirigente começa com um discurso baseado em factos, impossível de rebater, sobre a transformação em curso imposta pela electrificação automóvel e pela concorrência asiática. Por fim, o jornal pergunta:
"Onde estão os maiores riscos para os trabalhadores?
No setor dos componentes, onde encontramos muita subcontratação e trabalho temporário, além de salários mais baixos e níveis elevados de flexibilização. São empresas que dependem muito mais das flutuações da produção dos grandes fabricantes.
O que deve ser feito perante esta transformação?
É preciso impedir que os trabalhadores sejam o elo mais fraco e que essa transformação não seja feita à custa dos postos de trabalho e das condições laborais."
Come on!!! Se os fabricantes europeus produzirem menos automóveis, se a electrificação eliminar componentes e simplificar as cadeias de fornecimento e se a concorrência asiática conquistar mercado, haverá inevitavelmente menos encomendas para algumas empresas portuguesas. E, quando desaparece a procura, não há declaração sindical, lei ou subsídio capazes de conservar indefinidamente todos os postos de trabalho e todas as condições anteriores.
Perante uma transformação desta dimensão, todos serão afectados: accionistas perderão capital, empresas fecharão ou terão de mudar, trabalhadores perderão funções e regiões poderão ver desaparecer actividades inteiras. A pergunta séria seria outra: que empresas ainda têm futuro, que novas competências serão necessárias, que trabalhadores podem ser reconvertidos e como facilitar rapidamente a passagem para actividades mais produtivas?
Impedir que a realidade tenha consequências não é uma política. Gostaria, por isso, de saber qual é exactamente a alternativa deste dirigente: manter artificialmente empresas sem encomendas, proibir despedimentos até elas falirem ou pedir ao contribuinte que pague para conservar uma estrutura industrial que o mercado deixou de sustentar?
Estamos cada vez mais invadidos por um discurso do tipo Miss Mundo...


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