sexta-feira, fevereiro 06, 2026

Curiosidade do dia

Ao longo dos anos tenho acompanhado o calvário da Johnson & Johnson:

Ainda me lembro de ler pela primeira vez o Credo da J&J, talvez num dos livros de Tom Peters sobre a busca da excelência. Fiquei surpreendido e bem impressionado. Depois, ao longo da última década, tem sido o que se vê.

O The Times de hoje publica "Johnson & Johnson case shows how shallow most corporate mission statements are":

"Today a group against Johnson & Johnson, the US pharmaceutical company, gets under way. Representing 3,000 individuals and families, KP Law alleges that J&J knowingly sold talcum powder contaminated with carcinogenic fibres, including asbestos, from 1965 to 2023, despite internal warnings and mounting evidence that taic was a danger to those dusting their babies' or their own bodies with the powder. Mrs Justice Hill is holding a directions hearing, the first step in what is likely to be a long legal process.

The company says it is confident a UK judge "will conclude talc-based Johnson's Baby Powder is safe, does not contain asbestos, and does not cause cancer?
...
Management writer Margaret Heffernan says in a brilliant newsletter about the lessons of J&J: "Purpose has become a smokescreen, a disguise. Pretending to, or encouraging a belief in, a higher value system beyond profit is a feint."
What was the point of J&J's credo if it failed to put warnings on talc, after its suppliers started placing cancer warnings on every bag of talc delivered?
Empty purpose statements aren't just the worst form of corporate guff, they are a distraction from the difficult job of making money while treating employees, suppliers and customers decently.
The only corporate purpose statements worth the paper they are written on are those that attempt honesty. Games Workshop's is: "To make the best fantasy miniatures in the world, to engage and inspire our customers, and to sell our products globally at a profit." Maybe it's not a coincidence that this is one of the most successful British companies of the past decade."

No artigo de 2011 que listo lá em cima escrevi:
"Desconfio sempre de empresas que estão, ou pretendem estar no campeonato da inovação e liderança tecnológica e se preocupam demasiado com a eficiência operacional."
A doença anglo-saxónica é terrível. Quando o foco deixa de ser o numerador… deita-se fora o Evangelho do Valor.

Um equívoco.

O WSJ publicou "U.S. Manufacturing Is in Retreat" a 04 de Fevereiro. O artigo começa assim:

"The manufacturing boom President Trump promised would usher in a golden age for the U.S. is going in reverse. After years of economic interventions by the Trump and Biden administrations, fewer people work in manufacturing than any point since the pandemic ended.

...

A White House spokesman noted that manufacturing productivity ticked upward in recent quarters and that workers' wage hikes outpaced inflation over the past year."

Com base na minha experiência, o artigo labora num equívoco: a ideia de que o “reshoring” é, acima de tudo, um fenómeno geográfico. Como se bastasse deslocar um ponto no mapa para fazer regressar um passado industrial que já não existe. Mesmo quando actividades produtivas regressam, regressam transformadas. Fábricas mais pequenas, altamente automatizadas, com muito menos pessoas e profundamente ligadas a cadeias globais de fornecedores, tecnologia e conhecimento. Não regressam para recriar a Detroit dos anos 60. Regressam para operar num sistema económico completamente diferente.

O verdadeiro “reshoring”, se quisermos usar o termo, é cognitivo. Está na forma como se desenham processos, como se integra tecnologia, como se pensa a produtividade e, sobretudo, como se cria valor para o cliente. É aí que muitas análises falham: continuam a medir sucesso industrial em número de trabalhadores ou metros quadrados construídos, quando o jogo já se joga noutro tabuleiro.

Este ponto liga directamente a algo que tenho defendido há muito tempo: subir na escala de valor quase nunca implica unidades produtivas maiores. Pelo contrário. Empresas que competem em valor — e não em custo — tendem a produzir menos, não mais. Não vivem de produção em massa, nem de economias de escala clássicas. Vivem de diferenciação, de conhecimento incorporado, de capacidade de resolver problemas específicos de clientes específicos.

Veja-se o contraste entre uma fábrica desenhada para produzir milhões de unidades indiferenciadas e uma unidade mais pequena que produz componentes críticos, personalizados, difíceis de substituir. A segunda emprega menos pessoas, ocupa menos espaço e aparece pouco nas estatísticas vistosas. Mas captura mais margem, é mais difícil de deslocar e está mais protegida da concorrência por custo. O seu negócio não é volume. É valor.

É por isso que a obsessão política com “trazer empregos industriais de volta” soa cada vez mais deslocada. Não porque o emprego não importe — importa, e muito — mas porque insistir numa lógica de quantidade impede a discussão sobre qualidade. Impede perguntar que tipo de indústria, com que papel na cadeia de valor e com que proposta económica.

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Serafim Riem.

Soube hoje da morte do Serafim Riem. E, com essa notícia, regressaram memórias antigas, de um tempo em que o ambientalismo em Portugal não era uma palavra da moda, nem um instrumento de carreira, mas um gesto concreto, feito de passos no terreno, frio nas mãos e tempo oferecido.

Conheci o Serafim em 1981 ou 1982. Era então um jovem estudante, com poucos meios e muita curiosidade. Fiz parte do pequeno grupo que, num Natal de 1983 ou 1984, no Gerês, apanhou e semeou cerca de dez mil bolotas de carvalho. Foi um gesto simples e profundamente simbólico: o acto fundador do que viria a ser a Quercus, legalizada apenas muitos meses depois. Não havia comunicados, nem câmaras, nem estratégia de imagem. Havia apenas convicção.

O Serafim tinha uma generosidade rara. Convidava-nos, aos fins-de-semana, a subir para o seu jipe Toyota e a ir ao Gerês à procura da águia-real, ao Douro e às serras de Gondomar, em busca do falcão-peregrino. Nunca nos cobrou um escudo. Dava tempo, conhecimento, entusiasmo e, sobretudo, exemplo. Para muitos de nós, foi aí que se aprendeu o que significava cuidar do território — não em abstracto, mas com os pés na terra.

Já há muito tempo que não falava com ele, embora acompanhasse os seus combates à distância, através do Facebook. Mantinha-se fiel a uma defesa genuína do ambiente, sem cedências ao aproveitamento pessoal nem ao ganho político. 

O movimento ambientalista sério, aquele que nasce da coerência entre discurso e prática, vai sentir a sua falta.

Que descanse em paz.


Curiosidade do dia

 

O The Times de 3 de Fevereiro publicou um artigo deprimente. O artigo é sobre a França, "France stuck in 'spiral leading to third-world status'".

"The French were founders of the European Union and for decades they were among its wealthiest citizens. They looked down on poorer peoples such as the Cypriots and the Italians, and considered the Germans their economic equals.

Today, however, France is in the EU's second division. For the third year running, its national wealth per head is below the bloc's average — and below that of Cyprus, according to figures from Eurostat, the statistics office.

The French are falling behind the north Europeans and are being caught up by those in the east. According to the Organisation for Economic Co-operation and Development, the Poles will be richer than them within ten years."

Não há nenhuma novidade, mas é deprimente constatar que a Alemanha, a Inglaterra e a França estão numa espiral negativa. E a França é a mais perigosa das três.

O caso francês mostra como não é preciso “falhar” para entrar em declínio, basta deixar de mudar num mundo que continua a mudar.

"France stuck in 'spiral leading to third-world status'

...

France is in the EU's second division.

...

Once among the wealthiest countries, France now risks falling behind."

O artigo argumenta que a França está presa numa trajetória de declínio relativo dentro da Europa, arriscando uma posição cada vez mais periférica em termos de rendimento, competitividade e influência económica. Apesar de continuar a ser uma grande economia, o país apresenta crescimento fraco, endividamento elevado, défices persistentes e incapacidade política crónica de implementar reformas estruturais.
"Political paralysis has made it extremely difficult to pass meaningful reforms.
...
The fragmented parliament has blocked efforts to tackle structural problems.
...
France's political system is struggling to produce decisions commensurate with its economic challenges."
Os dados mostram que a França já não converge com os países mais ricos da Europa e começa a ser ultrapassada por economias que antes estavam atrás. O problema não é apenas económico, mas institucional e político: um Estado pesado, despesa pública rígida, resistência social à reforma e um sistema político fragmentado que bloqueia decisões difíceis.
"Living standards have been protected by high levels of public spending.
...
The French state continues to cushion households from economic shocks.
...
This has come at the cost of rising debt and limited fiscal room."
O risco apontado não é um colapso súbito, mas sim uma espiral lenta de empobrecimento relativo, mascarada por um elevado nível de protecção social e por dívida pública crescente.
"The risk is not an abrupt collapse but a slow downward spiral.
...
Without reform, France risks a long-term decline in prosperity.
...
The country could drift into stagnation rather than crisis."


"Não são elas que precisam da Alemanha; a Alemanha é que precisa delas"

Mão amiga, ao longo dos últimos meses, tem-me enviado notícias sobre a desindustrialização da Alemanha.

Por exemplo:

Em paralelo, vou-me habituando a ler as versões traduzidas pelo Google do Handelsblatt. Fico impressionado com a quantidade de artigos que debatem temas como produtividade, competitividade e zombies. BTW, fiquei agradavelmente surpreendido com a sequência: primeiro, produtividade; depois, como consequência, competitividade. É mesmo isto. Primeiro, aumentar a produtividade à custa do numerador, subindo na escala de valor, ou seja, aposta na concorrência imperfeita. Depois, como consequência, a competitividade aumenta, não porque é mais barato, mas porque oferece mais valor.

Por exemplo, com base no Handelsblatt do dia 2 de Fevereiro, desenhei facilmente:
Na capa, o jornal traz a introdução a uma entrevista com o presidente do grupo parlamentar CDU/CSU, Jens Spahn, que apela a reformas: "As coisas precisam de se mover rapidamente." 

Ele diz que a Alemanha precisa de mudanças para avançar. "Não poderemos evitar as decisões necessárias por causa das datas das eleições." [Moi ici: Ai Montenegro, sei o que tens feito nos dois últimos anos …] Todas as decisões da coligação devem ser orientadas para promover o crescimento. "Se não fizermos a economia girar, esta coligação perderá a sua popularidade", disse o líder do grupo parlamentar CDU/CSU, referindo-se ao governo federal CDU/CSU-SPD. "Não fomos eleitos para gerir o declínio." O crescimento é "a salvação do destino da nossa nação".

Além disso, o político da CDU quer atrair empresários estrangeiros para a Alemanha com incentivos fiscais. Recordar o recente:
"Esse silêncio sinaliza que a jogada "criar condições para que empresas mais produtivas anónimas, sem necessidade de contactos com o poder, apareçam" está a falhar. Por isso, este título "Não são elas que precisam de Portugal, Portugal é que precisa delas" e o que escrevi em "Descida do IRC é injusta"."

Ou seja, Jens Spahn, se tivesse um blogue, escreveria: "Não são elas que precisam da Alemanha; a Alemanha é que precisa delas". 

E depois, (podemos recordar Portugal e, sobretudo, a Espanha), Jens Spahn sublinha que a Alemanha tem hoje um número recorde de pessoas empregadas, mas que isso não se traduz em aumento do volume total de trabalho nem em ganhos de produtividade. Este paradoxo revela um problema sistémico: o modelo económico já não transforma o emprego na criação de valor ao ritmo necessário.

O texto afasta explicitamente a narrativa de que os trabalhadores são "preguiçosos". Pelo contrário, reconhece que milhões de pessoas trabalham intensamente e fazem horas extras. 

É verdade: "trabalhar mais" é um falso remédio para problemas estruturais. Quando a produtividade não cresce, pedir mais horas é sintoma de falência do modelo, não uma solução. A produtividade não responde a incentivos morais; responde a capital, tecnologia e organização. 

Como toda a Europa Ocidental tem demonstrado, talvez com a excepção da Irlanda, emprego elevado sem produtividade crescente tende a resultar em estagnação salarial, compressão de margens, e fragilidade competitiva. O emprego deixa de ser motor de prosperidade e passa a ser um mecanismo de contenção social.

Só cito mais um artigo, "Keine Kompetenz für Industriepolitik“ (Beyond the obvious)".

O artigo argumenta que a Alemanha reconhece a sua crise industrial, mas não tem hoje capacidade política e institucional para executar uma política industrial eficaz. O problema não é a falta de diagnóstico nem a ausência de propostas — é a incapacidade de as concretizar de forma coerente, consistente e exigente.

O texto começa por sublinhar que os sinais da crise são evidentes: perda de competitividade industrial, atraso em tecnologias-chave (como IA, biotecnologia e robótica), custos energéticos elevados e uma sucessão de reformas adiadas em áreas críticas como energia, clima, política social e burocracia. Apesar disso, as decisões estratégicas continuam a ser empurradas para a frente, com investimentos prometidos, mas não executados.

Com base na análise do economista Enzo Weber, o artigo mostra que a economia alemã sofre de um défice de renovação: fora da indústria, mais de 7% dos trabalhadores estão em empresas criadas nos últimos cinco anos; na indústria, apenas cerca de 2%. Isto revela um sector industrial fechado sobre si próprio, com pouca entrada de novos actores e fraca destruição criativa — precisamente onde a produtividade e os salários são mais elevados.

O artigo recorre depois às ideias de Weber e Monika Schnitzer para defender que melhorar apenas as "condições de enquadramento" (impostos, energia, burocracia) é necessário, mas insuficiente. Dada a magnitude das transformações em curso — descarbonização, digitalização, tensões geopolíticas e exigências de defesa — o Estado não pode limitar-se a ser passivo. No entanto, intervir mal é tão perigoso quanto não intervir.

A proposta central é uma política industrial pró-competitiva, orientada não para proteger campeões nacionais ou estruturas existentes, mas para estimular concorrência, inovação e renovação estrutural.








quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Curiosidade do dia

 



Este vídeo de Peter Zeihan aborda algo que já tenho comentado com várias pessoas. A União Europeia anda entretida com encenações.

Fazer acordos com a Índia e o Mercosur?!?!

E os agricultores europeus deixam? E os agricultores indianos deixam? E a indústria brasileira deixa?

É uma espécie de peça de teatro ... 

Olha, faz lembrar o discurso de Carney em Davos...

As sociedades modernas aprendem a actuar como se acreditassem em coisas que, no fundo, sabem que não são verdade. Não porque sejam ingénuas, mas porque o sistema exige essa representação para continuar a funcionar sem conflito aberto.

Falar de grandes acordos com a Índia ou com o Mercosul não é tanto uma estratégia económica realista, é uma performance política.

Não se trata de uma mentira grosseira, mas de algo mais subtil — viver dentro de uma ficção funcional. Age-se como se o acordo fosse possível, desejável e iminente, porque admitir publicamente o contrário implicaria enfrentar conflitos reais, escolhas duras e perdas políticas imediatas


Equipamentos de ginásio - Inovar é mudar de quadrante, não só de produto (parte X)

Parte IParte IIParte III, Parte IV, Parte VParte VIParte VIIParte VIII e Parte IX.

O FT do passado dia 2 de Fevereiro publicou o artigo "'Showing up at the gym' is no longer enough". Numa segunda leitura, o que me entristeceu foi o ter recordado 2 ou 3 empresários portugueses que poderiam estar numa página do FT, tal como Nerio Alessandri, CEO da Technogym, se tivessem optado pelo quadrante 4. Assim, construíram negócios bem-sucedidos, mas entre os quadrantes 1 e 2, muito dependentes do volume. Tinham tudo para dar o salto, mas é o salto incomum em Portugal.

"Alessandri constructed Technogym's first bodybuilding machine in his garage in 1983. The company that began as a homemade solution to a local gym floor problem has become a top global manufacturer, employing more than 2,000 people and supplying sports teams and luxury fitness and wellness centres around the world.

...

Its most advanced machines sell for more than €20,000 each.

...

Beyond improving the visual appeal, Alessandri's main goal has been to integrate technology - such as sensors and real-time analytics - into the machines, turning Technogym from a traditional gym equipment maker into a data-driven wellness group targeting professional athletes.

...

Analysts say revenue growth has been driven by Technogym's premium positioning and global expansion, with high-profile events, such as the Olympic Games, boosting the brand's profile.

...

The company's transformation began in the late 1990s with a simple insight: that over time, fitness would no longer be defined by hardware alone.

Technogym founded MyWellness, a software company, in Seattle, and began embedding electronics and sensors into its equipment, [Moi ici: A fazer lembrar o "é meter código nisso"] turning them into interactive tools capable of measuring performance.

...

Data became a central element of the training experience.

Alessandri now aims to further leverage its technology and real-time analytics."

Durante anos, a indústria do fitness acreditou que o seu problema era técnico: melhores máquinas, mais funcionalidades, mais tecnologia, mais dados. A lógica era simples — e errada. Quando todos jogam o mesmo jogo, o preço torna-se o campo de batalha. E quando isso acontece, ninguém ganha.

É neste contexto que o caso da Technogym merece atenção. Não porque tenha "adoptado dados" ou "integrado software", mas porque percebeu algo muito mais fino: o problema que estava a tentar resolver já não era o mesmo.

"The company's transformation began in the late 1990s with a simple insight: that over time, fitness would no longer be defined by hardware alone."

a frase, quase discreta no artigo, marca o verdadeiro ponto de inflexão. Não é uma decisão tecnológica. É uma decisão de quadrante

O ponto de partida é familiar. Fabricar equipamento de ginásio é, por natureza, um negócio exposto à comoditização. Máquinas são comparáveis, copiáveis, escaláveis. Mesmo quando sofisticadas, acabam por ser reduzidas a folhas de especificações e negociações comerciais.

É exactamente o que descrevi no texto sobre ginásios: vender acesso, vender máquinas, vender “mais coisas incluídas” é permanecer no Quadrante 1 — produto actual, mercado actual, promessa implícita de custo/benefício.

A tecnologia, neste quadrante, tende a ser usada como add-on. Melhora o produto, mas não muda o jogo. É o Quadrante 2 em versão fitness: muda-se algo, mas o cliente continua a comprar exactamente a mesma coisa.

A Technogym percebeu cedo algo fundamental: o equipamento é o cavalo de Troia, não a fonte principal de valor.

O que distingue a Technogym não é ter sensores, cloud ou analytics. É ter recusado a tentação de "fazer melhores máquinas".

Em vez disso, fez uma pergunta diferente: o que é que o cliente realmente procura?

A resposta surge clara no artigo:

"We are entering a new era in which the concept of wellness will evolve, leading to a hyper-personalised experience based on data and monitoring and profiling through prediction."

Aqui, o produto deixa de ser o centro. O foco desloca-se para a experiência, para a continuidade, para a vida ao longo do tempo. Não é mais "treinar melhor". É viver melhor.

Este é o momento clássico de mudança de quadrante: o produto pode manter-se, mas o significado muda. Interessante, lembrei-me da primeira vez que escrevi sobre a Coloplast:

“There is no perfect product, because there is no perfect patient” and “It’s a good product, but it’s not right for everyone.”

Ao explorar os dados recolhidos pelos seus equipamentos, a Technogym não se limita a melhorar os planos de treino. O artigo é explícito:

“Technogym is looking to tap into this trend by dissecting customers’ health and workout data to identify any red flags for possible health problems.”

Isto já não é fitness. É prevenção, antecipação, longevidade. É sair do mercado das máquinas e entrar no território — muito mais exigente — da saúde, da confiança e da responsabilidade.

Tal como no azeite premium, no chocolate bean-to-bar ou no café de especialidade, o valor não nasce da tecnologia, mas da mudança de enquadramento. O que ontem era ginásio, hoje passa a ser infra-estrutura de um ecossistema de bem-estar.

"The idea was to treat wellness not simply as individual fitness, but as a holistic ecosystem."

Significa deixar de vender máquinas para começar a orquestrar relações de longo prazo.

Num mundo saturado de wearables e dashboards, a Technogym fez algo pouco comum: tratou os dados como matéria-prima estratégica, não como argumento de marketing.

Os dados permitem:

  • personalização profunda;
  • acompanhamento contínuo; 
  • identificação precoce de riscos; e
  • construção de legitimidade científica.

Mas também criam algo mais importante: barreiras invisíveis. Não tecnológicas — culturais, institucionais, relacionais. Tal como a Leica construiu comunidade e significado, a Technogym constrói confiança e autoridade. Constrói concorrência imperfeita.

Visto à luz da série “Inovar é mudar de quadrante”, o caso Technogym encaixa com clareza no Quadrante 4: novo produto (no sentido de proposta de valor), novo mercado, nova ambição.

Não é um salto táctico. É um reposicionamento estrutural:

  • menos dependência do volume;
  • mais dependência da credibilidade;
  • menos comparação directa;
  • mais disposição para pagar.

Quando o artigo afirma:

“Health is becoming the biggest desire for powerful people, the rich and the poor.”

está, implicitamente, a mostrar que o mercado já não é o fitness — é um desejo humano transversal, estrutural, não cíclico. É aqui que surgem margens, não por abuso, mas por diferenciação real.

A Technogym não venceu porque teve mais tecnologia. Venceu porque soube o que não fazer: não entrou numa corrida para baixar preços, não tentou ganhar pelo centro, não confundiu eficiência com estratégia.

Tal como noutros exemplos desta série, o produto não desaparece. Transforma-se em ponto de entrada. O valor desloca-se para onde há menos comparação e mais significado.

Num mundo obcecado com dados, a Technogym fez algo contra-intuitivo: usou dados para humanizar a proposta. E mostrou, uma vez mais, que inovar não é mudar de produto.

É mudar de quadrante.

terça-feira, fevereiro 03, 2026

Curiosidade do dia

Ontem vi este tweet (do João Miranda) e não pude deixar de o considerar interessante:

 

Mais um atestado de desconhecimento da realidade

Há textos que dizem tanto sobre o tema que abordam como sobre a forma como as redacções pensam economia em Portugal.

Na passada sexta-feira, o Expresso publicou uma peça com o título: "Preços dos sapatos em Portugal estão a cair há 17 anos."

O artigo apresenta dados correctos. A interpretação é que é problemática.

O que diz o artigo?

"São 17 anos com os preços do calçado para os consumidores lusos a recuar. Em termos acumulados, entre 2025 e 2008 — último ano em que a variação do IPC relativo ao calçado foi positiva — a queda é de 34%. No mesmo período, o índice geral de preços no consumidor em Portugal acumula uma subida de 33%. "Isto significa que, em termos reais [tendo em conta o impacto da inflação], o preço do calçado caiu para metade",

...

As importações portuguesas de calçado dispararam, aumentando mais de 80% face a 2008. E muitas vêm da Ásia, de países como a China, a Índia, a Indonésia e o Vietname. Mesmo quando vêm de países da União Europeia, trata-se maioritariamente de calçado produzido na Asia, que vai para esses Estados-membros e é revendido.

...

"Portugal produz e vende para o mundo, não tanto para o consumidor português. E exporta no topo dos preços mundiais", destaca a APICCAPS. Em média, um par de sapatos portugueses sai da fábrica a 27,57 dólares (€23,29 ao câmbio atual), "

Onde está a novidade? O problema não está nos dados. Está na ausência total de surpresa e, sobretudo, de reflexão.

Nas conservas (2020):

"Porque não olham para os números? Os portugueses importam produtos baratos e exportam os produtos mais caros. Olhando para os dados de 2016, o kg de conserva importada era cerca de 73% do kg de conserva exportada.

Esta associação em vez de ajudar os seus associados a subir na escala de valor, está a querer que se enterrem com descontos para ganhar quota de mercado interno. PORRA!!!
Quando é que esta gente percebe que volume e quota de mercado não é o objectivo. O objectivo é o lucro!"

No mobiliário (2012):

"Parece que alguma indústria portuguesa de mobiliário, incapaz de concorrer no seu próprio mercado interno, contra os preços muito baixos da concorrência asiática, teve como salvação o virar-se para o mercado externo. Contudo, livre de barreiras alfandegárias, a concorrência asiática também estava presente nesses mesmos mercados.

Como se explica o insucesso no mercado interno e o sucesso no mercado externo? 

No mercado interno não existe massa crítica de clientes capazes de suportarem empresas que se dediquem a produções em nichos e segmentos diferentes daqueles onde actuam as empresas asiáticas. No mercado externo as produções asiáticas dedicam-se a segmentos diferentes daqueles onde actuam as empresas portuguesas."

No calçado (2011) (aqui deixei uma parte inicial para ilustrar as baboseiras que pessoas em cargos de responsabilidade e que não resistiriam ao mais básico contraditório:

""Mais do que pôr a tónica nas exportações temos que ser fortes no mercado interno. Se não conseguirmos competir aqui dificilmente vamos competir noutros mercados", afirmou Carlos Tavares.

"As empresas portuguesas têm perdido quota no seu próprio mercado. Sem resolver esses problemas, dificilmente podem ter sucesso nos mercados externos", acrescentou o presidente da CMVM."

Esta abordagem é nova... qual o CV de Carlos Tavares? Qual a sua experiência de vida? O que o habilita a mandar estes bitaites sobre o que as PMEs exportadoras devem ou não fazer?

Aquilo que permite a estas PMEs serem suficientemente competitivas na exportação é, muitas vezes o que as impede de ser competitivas no mercado interno. Os consumidores do mercado interno têm um poder de compra muito diferente dos que consomem nos mercados externos. Por isso, escrevo e falo tantas vezes nas empresas que fazem by-pass ao país."

Acham pouca a ignorância de Carlos Tavares? Experimentem "Os loucos tomaram conta do jornal

Ainda sobre o calçado: "Dedicado ao bicicletas".

Há um padrão que a imprensa insiste em não ver. O artigo do Expresso de 2025 não revela uma “realidade nova”. Revela a persistência de uma má leitura antiga:

  • confundir preços baixos com problema económico;
  • tratar a queda de preços como falha industrial;
  • assumir implicitamente que “ganhar o mercado interno” é sempre desejável;
  • ignorar que exportar caro e importar barato é um sinal de subida na escala de valor, não de fraqueza.

A pergunta que raramente é feita não é: "Porque é que os preços do calçado caem em Portugal?"

É esta: "Que tipo de empresas queremos que sobrevivam — e em que quadrante?"

Enquanto a imprensa continuar a ler estes fenómenos com as lentes erradas — volume, quota, mercado interno como fetiche — continuará a produzir textos informativos, mas conceptualmente pobres.

E isso é um problema. Não para as empresas que já fizeram by-pass ao país, mas para o debate público, que insiste em confundir competitividade com low-cost.

Dedicado à redacção do Expresso, de 2015: "um atestado de desconhecimento da realidade" de onde retiro:

"As empresas nacionais têm de continuar a apostar nas exportações mas não por causa da baixa procura interna.

O nível de vida em Portugal não é alto. Por isso, os portugueses optam por comprar bens transaccionáveis baratos. Esses bens entram em Portugal, importados da Ásia a preços muito baixos, e levam a melhor sobre o "Made in Portugal". Por exemplo, Portugal exporta sapatos caros e importa sapatos asiáticos para consumo interno. Portugal exporta mobiliário caro e importa mobiliário asiático para consumo interno."

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Curiosidade do dia

No WSJ do passado dia 1 de Fevereiro, "Gavin Newsom on Wealth and Taxes":

"Well, well. California Gov. Gavin W. Newsom is experiencing an epiphany of sorts, as his state's billionaires vamoose to avoid getting clobbered by a union-backed wealth tax. He now admits that taxes affect where people choose to live and invest. Glory be.

...

As Mr. Newsom explained, the result of this exodus will be less income-tax revenue. "The impact of a one-time tax does not solve an ongoing structural challenge," the Governor said Thursday. "You would have a windfall one time, and then over the years, you would see a significant reduction in taxes because taxpayers will move."

By "structural challenge," he means recurring budget gaps caused by excessive spending."



Daqui:

"Failing to consider second- and third-order consequences is the cause of a lot of painfully bad decisions, and it is especially deadly when the first inferior option confirms your own biases. Never seize on the first available option, no matter how good it seems, before you've asked questions and explored."

Falta a Mariana do Bloco et al. 

Muita areia para a camioneta dos políticos europeus

Em 2021 escrevi aqui:

"Há muito que penso que os políticos começaram a falar cada vez mais do ambiente porque era algo que não lhes vinha cobrar. Por exemplo, um político pode propor políticas para reduzir défice, para reduzir filas de espera na Saúde, para aumentar salários, ... e todas essas políticas têm o inconveniente de, mais tarde ou mais cedo, virem cobrar através da comparação entre os resultados propostos versus os resultados obtidos. Já com o ambiente era diferente. Os políticos podiam falar do ambiente à boca cheia sem recear que ainda durante a mesma legislatura alguém lhes viesse pedir contas.

Julgo que a situação pode vir a alterar-se."

O WSJ da passada sexta-feira publicou "The Agonizing Decline of One of Europe's Core Industries" na sequência do que o FT tinha publicado na passada quarta-feira,  "Chemicals sector calls for Europe to act after 80% fall in investment", sobre o mesmo tema.

O artigo começa assim: 

"Cutting emissions can sometimes look like what economists call creative destruction, with green innovators supplanting polluters. It's painful when the destruction happens to you while somebody else (often in China) does the creating. [Moi ici: Destruição assimétrica, a destruição ocorre na Europa, enquanto a criação acontece noutros lugares, sobretudo na China.]

The auto sector is Exhibit A, but the anxiety doesn't end there. Take Europe's beleaguered chemicals industry. The sector employs well over a million people and provides the ingredients for all the stuff of modern life, from polyethylene packaging to phenol for painkillers. Its struggles offer a window onto Europe's predicament as it pursues environmental goals while adapting to a security-focused trade era."

E continua: 

"Energy costs aren't the only problem. Global overcapacity, driven by the rapid expansion of the Chinese chemicals industry, exposed European producers to an influx of cheap imports, just as energy costs jumped and demand slowed. A U.S.-EU trade deal struck last year would also expand market access for U.S. producers with far lower costs.

Climate policies are the other gripe. For now, heavily polluting sectors are protected from Europe's carbon prices to stop crucial industries from leaving the bloc. That is set to change this year, and fees are supposed to ratchet up over time.

...

Meanwhile, incentives for the use of green chemicals, produced from low-carbon hydrogen instead of fossil fuels, haven't been enough to spur the massive investments needed to overhaul the industry.

China is moving faster on that front, even as it churns out plain old polluting chemicals too."

A combinação de custos energéticos elevados, excesso de capacidade global, concorrência chinesa subsidiada, políticas climáticas mal sincronizadas e fraca resposta política europeia está a levar ao encerramento de fábricas, à venda de activos estratégicos e à perda de capacidade produtiva. Entre 2020 e 2025, mais de 25 milhões de toneladas de capacidade química foram encerradas na UE e no Reino Unido, com taxas de utilização persistentemente abaixo do nível económico sustentável.

O texto sublinha que, embora existam incentivos para químicos “verdes”, estes são insuficientes para compensar a perda de competitividade estrutural, num contexto em que a China avança simultaneamente na química poluente tradicional e na química de baixo carbono, apoiada por uma política industrial agressiva.

Parece que é muita areia para a camioneta dos políticos europeus:


Demasiados ovos no ar, demasiadas relações de causa-efeito para quem não está habituado.




 

domingo, fevereiro 01, 2026

Curiosidade do dia

Hoje, o The Sunday Times publica a coluna habitual do ex-primeiro-ministro inglês, Rishi Sunak, intitulada "Starmer is repeating my mistake: focus on growth, it's all that matters".

A certa altura pode ler-se:
"I must admit that, as prime minister, I didn't always put growth first. Early on, I watered down planning changes to appease MPs worried about the reaction in their constituencies."

Há algo de refrescante no texto de Rishi Sunak: um ex-primeiro-ministro que olha para trás e diz, sem rodeios, “errei”.

Lembrei-me logo de outra coluna de opinião, esta de Armindo Monteiro, presidente da CIP, intitulada "Da crise de lideranças ao alheamento das elites" e publicada pelo Dinheiro Vivo na passada sexta-feira. 

O contraste entre o artigo de Sunak e o de Armindo Monteiro é quase pedagógico. O presidente da CIP escreve longamente sobre a crise das lideranças, o alheamento das elites e a dependência dos fundos europeus… sempre na terceira pessoa. As elites são sempre "as outras". O problema está sempre "lá fora". O autor observa o fenómeno sempre a partir de fora, como se descrevesse um sistema no qual participa apenas como comentador atento.

A ironia maior é que a crítica à "soleira dos fundos europeus":

"Em Portugal, tardamos em definir uma estratégia que nos permita recuperar dos atrasos estruturais, melhorar a eficiência do Estado, reforçar a competitividade económica e aumentar a capacidade de inovação. Vivemos encostados à soleira dos fundos europeus, revelando a mesma incompetência política, a mesma pobreza de espírito, a mesma dependência do Estado que tanto encanitava Eça de Queirós."

soa estranhamente próxima daquilo que a própria Confederação Empresarial de Portugal promove diariamente no seu site e nos seus comunicados: mais avisos, mais programas, mais oportunidades, mais fundos.

Mais à frente pode ler-se:

"Aqui chegados, há que pedir responsabilidades às elites.  … Precisamos de verdadeiros líderes, que façam escolhas firmes e corajosas, que não tenham medo de ser impopulares, que criem ruturas com os poderes fáticos, que desfaçam os falsos consensos e as verdades adquiridas."

Quem são exactamente essas elites alheadas?

E mais importante: quem ficou de fora dessa categoria?

O texto denuncia a dependência do Estado, a pobreza de espírito, a ausência de visão estratégica e a incapacidade de pensar o longo prazo. Tudo certo. Mas depois basta uma pesquisa simples no Google — “CIP fundos europeus” — para descobrirmos que o sistema criticado não é apenas observado de fora. É frequentado, negociado, cofinanciado e, em vários momentos, legitimado.

Não é um pecado original. É um problema de coerência.

Criticar o modelo enquanto se opera confortavelmente dentro dele, beneficiando dos seus incentivos e da sua lógica, não é coragem. É retórica segura. É crítica sem risco. É exactamente o tipo de comportamento que o texto diz condenar.

Quantas vezes ouvimos a CIP partir a loiça junto do poder político de turno?


Sunak fala ao espelho. Olha para dentro, revê decisões, reconhece limites. O espelho não é confortável, mas é honesto: obriga a incluir-se no retrato.

O presidente da CIP escreve à janela. Observa o mundo lá fora, descreve o tempo, comenta a paisagem, identifica problemas reais — mas sempre do lado de dentro, protegido, sem que o reflexo apareça no vidro.

Dedicado aos candidatos socialistas à presidência da República Portuguesa


Não sei alemão, mas o Google Tradutor deu-me uma ajuda. 

O editorial do Handelsblatt da passada sexta-feira, 30 de Janeiro, é dedicado aos candidatos socialistas à presidência da República Portuguesa. 

O título do editorial é "Das Arbeitsrecht gefährdet Deutschlands Zukunft", ou seja, "A lei laboral põe em risco o futuro da Alemanha".

O editorial argumenta que o direito do trabalho alemão, concebido para garantir segurança num contexto económico estável, tornou-se hoje um travão à adaptação, à inovação e à produtividade. Num mundo em que os ciclos tecnológicos são curtos e a criação de valor exige mudanças rápidas, a rigidez associada ao despedimento, à reestruturação e à mobilidade laboral encarece a mudança e desincentiva o investimento.

O autor sustenta que esta rigidez não afecta apenas empresas individuais, mas também enfraquece a capacidade de renovação da economia como um todo, levando as empresas a optar por optimizações marginais dos produtos existentes em vez de apostar em novos modelos de negócio. O artigo contrapõe o modelo alemão ao modelo dinamarquês, no qual a segurança não resulta da protecção do posto de trabalho, mas da capacidade do trabalhador de encontrar rapidamente um novo emprego, apoiada por políticas activas de requalificação.

A conclusão é clara: a questão central já não é preservar empregos existentes, mas capacitar pessoas a se reinventarem continuamente, sob pena de comprometer o futuro económico do país.

Algumas ideias do artigo são:
  • O direito do trabalho alemão foi criado com boas intenções, num contexto histórico de estabilidade e crescimento previsível, mas transformou-se numa garantia contra o futuro, e não contra o risco. A rigidez laboral favorece uma economia de pequenos ajustes incrementais, quando o contexto actual exige grandes saltos tecnológicos e organizacionais.
  • Os processos de reestruturação que, noutros países, demoram semanas ou meses podem arrastar-se durante anos na Alemanha, consumindo tempo, capital e energia de gestão.
  • O elevado custo de despedir e reestruturar desincentiva o investimento em novas tecnologias, pois o risco de falhar é demasiado elevado.
  • Start-ups em países com legislação laboral rígida são avaliadas com desconto, pois os investidores antecipam custos elevados de ajustamento caso haja uma mudança de estratégia.
  • Quanto mais caro é falhar, menores são as experiências, o que reduz a inovação e, em última instância, a produtividade.
  • Este não é apenas um problema alemão; exemplos como a Austrália mostram que endurecer o direito do trabalho pode conduzir a menor produtividade e a um crescimento mais fraco dos salários. O modelo dinamarquês é apresentado como alternativa: segurança baseada na empregabilidade, não na preservação do posto de trabalho.
  • A verdadeira segurança económica resulta da capacidade de adaptação das pessoas, apoiada por políticas activas de emprego, formação contínua e rápida reintegração no mercado de trabalho. A pergunta decisiva não é "como proteger empregos", mas "como permitir que pessoas se reinventem repetidamente ao longo da vida profissional".
Apetece perguntar: o que é que os alemães sabem disto?

sábado, janeiro 31, 2026

Curiosidade do dia

 

Recordar "Sem água potável já em 2025"



Não basta matar os zombies


Ao longo dos anos e sobretudo no último mês tenho escrito aqui sobre os zombies

Os zombies são empresas que sobrevivem sem criar valor suficiente para se sustentarem, mantendo-se activas apenas graças a crédito barato, apoios públicos, tolerância fiscal ou adiamento sistemático de decisões difíceis.

Não geram capital suficiente para investir, inovar ou crescer, consomem recursos escassos (capital, pessoas, atenção) e bloqueiam a entrada de empresas novas ou melhores. Estão vivas do ponto de vista legal e estatístico, mas mortas do ponto de vista económico.

Estou sempre a pedir para deixarem as empresas (zombies) morrerem. O que acontece se os zombies morrerem? 

Se os zombies morrerem a produtividade do país aumenta. A produtividade é um rácio, se os zombies morrerem, o denominador diminui logo a produtividade cresce.

A produtividade como indicador estatístico cresce, mas o país real não melhora se apenas morrerem os zombies. A jogada tem de ser em dois tabuleiros:
  • deixar os zombies morrerem;
  • criar condições para que empresas mais produtivas anónimas, sem necessidade de contactos com o poder, apareçam. 
Ontem o FT publicou um artigo que vem ao encontro destes temas, "Growth Productivity uplift reflects loss of lower-paid jobs":
"Productivity growth has been in the doldrums for years. 
...
Economists differ on whether the latest data is promising or worrying because the main reason productivity has improved is low-paid jobs being cut.
These job losses have been centred on hospitality and retail, sectors that were especially hard hit by last year's increases in national insurance and the minimum wage.
...
Economists at the Resolution Foundation think-tank believe job losses at failing "zombie" companies could bode well for the future, if they "begin to make room for more and better jobs to be created". But, they admit: "We haven't seen it yet."
Saunders remains sceptical. "If you kill off the zombies. it's not creative destruction. It's just destruction.""

Matam-se os zombies ... e apenas temos silêncio ... e o que é o silêncio? Um sinal, como no conto dos mastins dos Baskerville, um sinal de que esse silêncio é relevante.

Esse silêncio sinaliza que a jogada "criar condições para que empresas mais produtivas anónimas, sem necessidade de contactos com o poder, apareçam" está a falhar. Por isso, este título "Não são elas que precisam de Portugal, Portugal é que precisa delas" e o que escrevi em "Descida do IRC é injusta".

O argumento de que a descida é “injusta” porque muitas empresas não pagam IRC parte de uma obsessão com as empresas existentes. É o mesmo erro conceptual que atravessa toda a discussão sobre produtividade. O problema nunca foi ajudar quem está; o problema é não criar condições para que apareçam empresas que hoje não existem — empresas capazes de pagar salários mais altos porque criam mais valor, não porque foram protegidas ou subsidiadas.

Enquanto não houver uma alteração real da composição da economia — aquilo a que chamo, recorrendo aos Flying Geese, subir para outras actividades — continuaremos presos a este jogo de ilusões estatísticas. Cortar empregos mal pagos não cria automaticamente empregos bons. Matar zombies não gera vida nova. E baixar impostos sem atrair empresas diferentes não muda o ADN do sistema.

"Se nós eliminarmos a empresa mais improdutiva, a produtividade do sector sobe muitíssimo"

Erik Reinert escreveu qualquer coisa como:

"As was so obvious to American economists around 1820, a nation - just as a person - still cannot break such vicious circles without changing professions."

Um país não consegue sair de círculos viciosos de pobreza apenas fazendo melhor o que já faz; tem de mudar de actividades, de sectores, de “profissões” económicas.

Que Munchau recentemente reescreveu como:
"It's no longer about how you do it; it's about what you do."

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Curiosidade do dia

A propósito de Calimeros.


Quando ter um Plano Municipal de Emergência de Protecção Civil é um exercício administrativo.

Foco no valor, diversificação na exposição (parte III)

Na Parte I e na Parte II argumentei que a cláusula 4.1 da ISO 9001:2015 não é um requisito burocrático, mas um convite a ler o contexto com intenção estratégica. O artigo de Gillian Tett ajuda precisamente nisso: mostra que uma falha das lideranças é tratar a incerteza como um ruído temporário, quando ela se tornou estrutural.

É aqui que a revisão pela gestão (cláusula 9.3 da ISO 9001) ganha importância. Não como reunião para “picar o ponto”, mas como o momento em que a gestão pára, levanta a cabeça do dia-a-dia, sobe à varanda, e pergunta se o mundo mudou — e o que isso implica para a empresa.

Uma revisão do sistema bem feita não começa por indicadores nem por procedimentos. Começa por perguntas certas. Por exemplo:

Sobre os pressupostos (a parte que quase nunca se discute, a água do aquário em que nós somos os peixes)
  • Que pressupostos sobre o nosso mercado damos como adquiridos?
  • Que "normal" estaremos a assumir que pode já não existir?
  • Estamos a gerir os riscos dentro de um modelo que pode já estar obsoleto?
Sobre o contexto externo
  • Que mudanças políticas, regulatórias ou geopolíticas podem afectar o nosso negócio nos próximos 3–5 anos?
  • Que decisões governamentais (tarifas, incentivos, regras ambientais, compras públicas) podem alterar as condições de concorrência?
  • Estamos a tratar estas mudanças como ruído ou como sinais estratégicos?
Sobre o contexto económico e estrutural
  • O nosso modelo de negócio pressupõe o crescimento contínuo do mercado?
  • O que acontece se o mercado estagnar, fragmentar ou se tornar um jogo de soma zero?
  • Onde já estamos expostos a essa lógica sem o admitir?
Sobre as oportunidades (a parte esquecida da cláusula 4.1)
  • Que oportunidades podem surgir precisamente da instabilidade actual?
  • Quem perde quando o contexto muda — e quem pode ganhar?
  • Estamos posicionados para capturar valor num mundo menos previsível?
Sobre foco, dependência e fragilidade
  • Onde estamos excessivamente dependentes de um cliente, de um mercado ou de uma geografia?
  • Essa dependência resulta de uma escolha consciente ou de inércia histórica?
  • Que riscos do contexto tornam essa dependência mais perigosa hoje do que no passado?

Li o artigo do FT de ontem, "Chemicals sector calls for Europe to act after 80% fall in investment", e imaginei o cenário de uma empresa que fabrica e vende bombas centrífugas, aptas a operar em ambientes ATEX, para a indústria química europeia.

Pressupostos (a água do aquário que quase ninguém nomeia):

  • A indústria química europeia manterá capacidade produtiva relevante.
  • Os clientes continuarão a investir em activos industriais na Europa.
  • Segurança e conformidade ATEX continuarão a justificar prémio de preço.
  • O risco regulatório continuará a favorecer os fornecedores europeus.

Normal assumido: base industrial química europeia estável. Será razoável?!

Pergunta incómoda: E se o “normal” já for a desindustrialização progressiva?

Contexto externo

  • Encerramento e deslocalização de fábricas químicas na Europa.
  • Transferência de investimento para China, Médio Oriente, EUA.
  • Política industrial europeia lenta e errática.
  • Tensões geopolíticas a afectar cadeias de fornecimento e exportações.
  • Pressão ambiental e energética sobre os clientes.

Risco típico: tratar isto como um ciclo negativo, e não como uma ruptura estrutural.

Oportunidades (a parte esquecida da cláusula 4.1/6.1)

  • Aumento da aversão ao risco em ambientes ATEX.
  • Valorização de fiabilidade, certificação e histórico de segurança.
  • Necessidade de prolongar a vida útil de activos existentes.
  • Retrofit, manutenção avançada e serviços de engenharia.
  • Substituição de fornecedores baratos após incidentes ou falhas.

Quem ganha: quem reduz risco operacional e regulatório do cliente.

Foco, dependência e fragilidade

  • Dependência excessiva da indústria química europeia.
  • Dependência de poucos grandes clientes industriais.
  • Dependência de investimento novo, não de base instalada.
  • Dependência de um quadro regulatório europeu específico.

Fragilidade crítica se a base industrial continuar a encolher.

Será que estamos a gerir os riscos dentro de um modelo industrial europeu que pode estar a desaparecer?

Se a indústria química europeia investir menos durante a próxima década, como é que esta empresa continua a criar valor?

Não é de esperar respostas imediatas. Aliás, tenha medo delas. Discuta e deixe o tema marinar.

quinta-feira, janeiro 29, 2026

Curiosidade do dia

 À hora do almoço li "Presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos pede socorro: concelho vive "um dos piores momentos da sua história"":

"Segundo o autarca, o concelho tem "um rasto de destruição por todo o território". O concelho "não tem comunicações, não tem energia", tem, neste momento, "água nas freguesias para mais cerca de 12 horas" e "grandes dificuldades em termos daquilo que é a manutenção dos lares" de idosos, alertou.

"Estamos completamente isolados. Figueiró dos Vinhos considera-se completamente isolado do resto do distrito, da região e do país". ", declarou o presidente do município, apelando para que o Governo "olhe para este território e também consiga, de alguma forma, equacionar a possibilidade de decretar o estado de calamidade"."

Fico com a ideia de que está perdido.

Pergunto: a  Lei n.º 27/2006, que estabelece as bases da protecção civil, não atribui responsabilidades explícitas aos municípios?

Pergunto: as autarquias não são agentes de protecção civil com deveres de:

  • prevenção de riscos, 
  • planeamento, 
  • preparação, 
  • resposta e recuperação?

Não é verdade que cada município deve ter um Plano Municipal de Emergência de Protecção Civil, aprovado, articulado com os níveis distrital e nacional e sujeito ao parecer da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil.

Esses planos destinam-se precisamente a situações como a descrita no artigo: eventos meteorológicos extremos, isolamento do concelho, falhas de comunicações, cortes prolongados de energia e água,  e necessidade de realojamento.

Ou seja: o cenário de Figueiró dos Vinhos não é exótico nem inesperado do ponto de vista legal.

O artigo do Expresso não prova que não exista um plano, mas deixa-me com três hipóteses:

  • O plano existe, mas não foi desenhado para este tipo de evento combinado (meteorologia extrema + falha sistémica de comunicações + isolamento). 
  • O plano existe, mas não estava actualizado nem testado.
  • O plano existe "no papel", mas não orienta decisões reais. 
Cumpre o requisito legal, mas falha o propósito operacional.

Perguntas que nunca serão respondidas.



Foco no valor, diversificação na exposição (parte II)

Parte I.

A cláusula 4.1 da ISO 9001:2015 pede que a organização determine as questões externas e internas relevantes (o seu contexto) para o seu propósito e a sua direcção estratégica.

O que o artigo da Gillian Tett faz é exatamente isso ao nível macro:

  • identifica mudanças estruturais, não conjunturais;
  • distingue risco mensurável de incerteza profunda (Knightian uncertainty);
  • mostra como factores políticos, demográficos e geopolíticos alteram as regras do jogo, e não apenas os resultados;
  • alerta para padrões emergentes que invalidam pressupostos antigos.

Isto é a cláusula 4.1 em estado puro.

Não há listas. Não há relatórios.

Não há bullets normativos.

Há interpretação do contexto para orientar decisões futuras. O artigo mostra que o contexto não é uma mera descrição do mundo. É uma leitura do mundo com intenção estratégica. É tentar perceber o mundo em que se opera e usar esse conhecimento para tomar melhores decisões.

Costumo dizer que as organizações não estão protegidas dentro de uma estufa; são cascas de noz lançadas no oceano turbulento, e sem perceber a direcção do vento e das correntes… nada feito.

Na prática, muitas organizações tratam a cláusula 4.1 como:

  • um exercício inicial;
  • um capítulo “antes de começar a sério”;
  • uma fotografia estática do ambiente externo. Por exemplo, quantas empresas ainda incluem o covid como um factor externo vivo?

O artigo de Gillian Tett desmonta esta abordagem por contraste. O que o artigo faz (e as empresas raramente fazem):

  • questiona se os pressupostos antigos ainda são válidos;
  • identifica forças lentas, mas poderosas;
  • liga contexto a consequências práticas (política de soma zero, intervenção do Estado, mudança no comportamento dos consumidores e investidores).

O que muitas empresas fazem:

  • listam “instabilidade política” como risco genérico;
  • escrevem “concorrência elevada”;
  • referem “incerteza económica” — e seguem em frente como se nada tivesse mudado;

Isto cumpre o requisito, mas falha o propósito da cláusula 4.1.

O ponto mais importante do artigo é este:

“Ignoring upside risks is as dangerous as discounting downside ones.”

Traduzido para a ISO 9001, o contexto não serve apenas para identificar ameaças; também serve para detectar oportunidades que surgem quando o mundo muda.

A cláusula 4.1 não é uma cláusula de risco. 

É uma cláusula de orientação estratégica do sistema.

Apetece escrever uma parte III sobre o artigo e a revisão pela gestão…

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Curiosidade do dia



De vez em quando comento aqui o que aparece nos media sobre a Nike:
Agora encontro este artigo, "Nike layoffs: Hundreds of jobs cut in latest round as shoe giant embraces supply chain automation". Não se trata, em geral, de despedimentos em fábricas (que são maioritariamente externalizadas), mas sim de funções internas ligadas à gestão e orquestração da supply chain global. Sublinho em particular:
"The job cuts will primarily encompass positions at the company’s distribution centers in Mississippi and Tennessee. Nike has warehouses in those states that act as major hubs in the company’s supply chain. The distribution centers store the company’s inventory before shipping the products out to customers and retail partners.
...
Under former Nike CEO John Donahoe, the company moved away from wholesale partners in favor of direct selling, which necessitated a buildup of employees at its distribution centers. But ultimately, Nike’s lackluster sales demand could not support the number of employees at the distribution centers. Nike’s new CEO Elliott Hill has flipped its sales playbook, embracing wholesale partners again, and focusing on cutting costs to increase margins."
O título não joga bem estes trechos, mas adiante. O artigo deixou-me a recordar uma empresa de calçado muito boa, com um produto muito bom, com mão de obra muito jovem, e que me surpreendeu negativamente ao perceber a quantidade de mãos humanas empregadas para embalar um par, desde que saía da linha até que entrava num tapete transportador para seguir para o armazém.

BTW, nos jornais americanos praticamente todos os dias aparecem notícias de empresas a cortarem pessoal. Só hoje: a UPS, a Pinterest e algumas "mercearias" físicas da Amazon.