O FT do passado Sábado publicou um artigo de Gillian Tett, "What business should be thinking about post-Davos", um artigo muito rico que merece mais do que um postal aqui no blogue.
Primeiro, sobre o que é o artigo. A autora argumenta que o principal erro das lideranças empresariais perante o actual contexto global é tratar a incerteza como um ruído temporário, em vez de a assumir como uma característica estrutural do sistema.
"Some historical eras are shaped by measurable risks; others are plagued by unfathomable uncertainty."
Partindo da distinção clássica de Frank Knight entre risco mensurável e incerteza radical, a autora defende que estamos a entrar num período marcado por:
- rupturas geopolíticas,
"We face geopolitical "rupture". In practice, that means the three 'P's' of populism, protectionism and extreme patriotism have reappeared in ways reminiscent of the interwar years."
- nacionalismo económico,
- populismo e intervenção crescente do Estado
"We should brace for rising government intervention, framed as patriotic and populist capitalism."Tudo factores que não cabem nos modelos tradicionais de risco usados pelas empresas.
O artigo identifica quatro grandes lições para executivos e investidores após Davos: aceitar a ruptura geopolítica, reconhecer a ascensão de um capitalismo patriótico e intervencionista, evitar o confinamento em "echo chambers" intelectuais
"Nobody can afford to stay in a cosy echo chamber."
e, por fim, não cair num pessimismo paralisante que ignore oportunidades emergentes. A mensagem central é clara: ignorar riscos positivos ("upside risks") pode ser tão perigoso como ignorar riscos negativos.
"For executives or investors, ignoring upside risks is as dangerous as discounting downside ones."
A autora conclui que a reacção racional não é pânico nem imobilismo, mas abertura, imaginação e diversificação.
"The only rational response to the turmoil is to diversify madly, leave your echo chamber and embrace imagination about the future."
Duas linhas de reflexão que me ocorrem são, relacionar o artigo com:
- o que quer dizer "to diversify madly"; e
- a análise de contexto requerida pela ISO 9001
Num mundo de incerteza, é importante ter flexibilidade, mas será que isso quer dizer menor "pureza" estratégica?
Focar é sempre escolher — e escolher é sempre excluir. Recordar de-caedere.
O artigo da Gillian Tett não contradiz isso. Pelo contrário, dá-lhe contexto macro; vivemos num mundo de incerteza knightiana, não de risco calculável; choques geopolíticos, políticos e regulatórios são estruturais, não excepcionais. Logo, qualquer foco aumenta a exposição a eventos que não controlamos.
Diversificar ou focar?
Focar nos clientes-alvo e aumentar o risco, ou focar nos clientes-alvo e diversificar a geografia — ou o quê? Diversificar clientes?
Há três tipos de foco que não devemos confundir
- Foco no cliente-alvo (ou proposta de valor)
- Foco num mercado/geografia
- Foco operacional (capacidade, activos, estrutura)
Quando estes três focos coincidem rigidamente, o risco explode.
Olhando para:
"Ignoring upside risks is as dangerous as discounting downside ones."
"The only rational response is to diversify madly."
Julgo que ela não está a advogar a dispersão estratégica, mas a defender a diversificação inteligente face à incerteza.
A pergunta não é: Foco ou diversifico?
A pergunta correcta é: Em que dimensão posso focar sem me tornar frágil noutras? Onde posso ser específico sem ficar dependente?
Dimensão 1 - Clientes-alvo/Proposta de valor: FOCO
Em mundos instáveis, quem não é distintivo é esmagado, competir por custo ou comoditização é um suicídio. Há que apostar num foco forte no:
- tipo de problema que a empresa resolve;
- tipo de cliente-alvo;
- tipo de valor criado.
Isto não se diversifica sem perder identidade.
Dimensão 2 - Geografia/mercado: DIVERSIFICAÇÃO CONTROLADA
A política e a geopolítica afectam os mercados de forma assimétrica, os choques são regionais antes de serem globais. Aqui, diversificar reduz risco:
- mesmos clientes-alvo;
- mesma proposta de valor;
- contextos geográficos distintos.
Não é dispersão. É redundância estratégica.
Dimensão 3 - Configuração operacional: MODULARIDADE
Num mundo de incerteza, as estruturas rígidas quebram; já as estruturas modulares são capazes de adaptar-se.
O truque não é fazer tudo em todo o lado, mas replicar capacidades, manter opções abertas e evitar apostas irreversíveis.
O artigo no blogue referia: "Não há almoços grátis. Toda a escolha tem um custo."
O artigo acrescenta: "Num mundo de incerteza profunda, o custo de escolher mal aumenta brutalmente."
A convergência é esta:
- Foco no valor.
- Diversificação na exposição.
- Flexibilidade na execução.
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