terça-feira, janeiro 20, 2026

Curiosidade do dia

Há tempos recordei aqui a questão da atitude "Cristiano Ronaldo" referida na mensagem de Natal do primeiro-ministro:

"e BTW, mostrar que não é só uma questão de atitude à la Cristiano Ronaldo, mas isso fica para postal futuro."

No FT do passado dia 10 de Janeiro encontrei mais um bom artigo de Janan Ganesh, "The myth of 'mindset'".

Ganesh critica a obsessão contemporânea com mindset, "mentalidade", atitude,  e carácter como explicações universais para o sucesso e o fracasso; no desporto, na vida profissional, na cultura e até na política. 

"The idea that Arsenal have had enough of the stuff to win in the past but failed due to weak character … is hugely popular nonsense."

Usando o exemplo do Arsenal e do discurso recorrente em torno da sua “falta de mentalidade”, o autor desmonta o que considera ser uma narrativa confortável, mas profundamente enganadora. 

O argumento central é que talento e capacidade importam muito mais do que gostamos de admitir, e que insistir excessivamente na psicologia individual serve, muitas vezes, para evitar falar de factores estruturais, técnicos ou simplesmente de sorte. Ao fazê-lo, cria-se uma moralização do fracasso: se alguém não tem sucesso, é porque “não quis o suficiente”.

"If mindset is the key, you have to believe that unsuccessful people are deficient in character."

Se aceitarmos que tudo depende da atitude, então quem falha é visto como alguém com defeitos de carácter. Problemas técnicos transformam-se em falhas pessoais. Ganesh alerta para o lado desumanizador desta visão. Ignorar talento, contexto, origem ou acaso é uma forma de transformar desigualdades reais em culpa individual — algo que já está a contaminar o discurso político e social.

O texto é incómodo porque tira uma desculpa fácil à gestão, à liderança e à política: a ideia de que tudo se resolve com atitude. Pelo contrário, aproxima-se mais de uma visão séria da estratégia. Reconhecer limites não é pessimismo; é o primeiro passo para decidir melhor.

"If mindset is the key, you have to believe that unsuccessful people are deficient in character."

É precisamente aqui que o discurso de Montenegro encaixa — não por má intenção, mas por lógica implícita. Ao usar Cristiano Ronaldo como modelo a imitar, o primeiro-ministro convoca uma narrativa poderosa e emocionalmente eficaz: esforço, disciplina, ambição, resiliência. Tudo qualidades reais e admiráveis. O problema não está no exemplo individual, mas na generalização política. Quando um líder político sugere que um país progride se todos “imitarem” um caso absolutamente excepcional, o foco sai das condições estruturais e passa para a psicologia individual.

Ganesh ajuda a perceber o risco disso. Cristiano Ronaldo não é apenas fruto de trabalho árduo. É também um caso raríssimo de talento físico e mental, identificado cedo e desenvolvido num sistema que lhe deu oportunidades únicas. Transformar esse percurso numa metáfora para um país inteiro é, no mínimo, enganador. No limite, leva à mesma conclusão desumanizadora: se todos podem chegar lá, quem não chega é porque não se esforçou ou não teve “mentalidade”.

Do ponto de vista estratégico, a lição é simples. Países, tal como organizações, não mudam com apelos morais. Mudam com escolhas difíceis sobre educação, produtividade, estrutura económica, incentivos, capital e instituições. Substituir esse debate por discursos sobre atitude é confortável, mas inútil.

Há ainda um segundo efeito, mais subtil, que Ganesh identifica e que o discurso político tende a ignorar: a obsessão com carácter individual desresponsabiliza os sistemas. Recordar o clássico "erro humano, que desculpabiliza as organizações". Se o problema é falta de “mentalidade”, então não precisamos de falar seriamente sobre desenho de políticas públicas, qualidade das instituições, falhas de mercado ou limites do modelo económico. A psicologia ocupa o lugar da política — tal como, nas empresas, a “liderança inspiradora” ocupa o lugar da estratégia.

Visto assim, o texto de Ganesh funciona quase como um comentário involuntário ao discurso de Montenegro. Não nega o valor do esforço nem da ambição; nega apenas que eles sejam explicação suficiente. E lembra algo essencial para qualquer líder: exemplos individuais inspiram, mas não substituem diagnósticos colectivos.

Talvez o verdadeiro serviço público não seja pedir aos portugueses que imitem Cristiano Ronaldo, mas garantir que o país não exija de cada cidadão que seja um milagre estatístico para conseguir uma vida digna. Isso, sim, seria uma conclusão muito mais próxima do humanismo que Ganesh defende — e de uma estratégia séria para o futuro.

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