domingo, fevereiro 01, 2026

Curiosidade do dia

Hoje, o The Sunday Times publica a coluna habitual do ex-primeiro-ministro inglês, Rishi Sunak, intitulada "Starmer is repeating my mistake: focus on growth, it's all that matters".

A certa altura pode ler-se:
"I must admit that, as prime minister, I didn't always put growth first. Early on, I watered down planning changes to appease MPs worried about the reaction in their constituencies."

Há algo de refrescante no texto de Rishi Sunak: um ex-primeiro-ministro que olha para trás e diz, sem rodeios, “errei”.

Lembrei-me logo de outra coluna de opinião, esta de Armindo Monteiro, presidente da CIP, intitulada "Da crise de lideranças ao alheamento das elites" e publicada pelo Dinheiro Vivo na passada sexta-feira. 

O contraste entre o artigo de Sunak e o de Armindo Monteiro é quase pedagógico. O presidente da CIP escreve longamente sobre a crise das lideranças, o alheamento das elites e a dependência dos fundos europeus… sempre na terceira pessoa. As elites são sempre "as outras". O problema está sempre "lá fora". O autor observa o fenómeno sempre a partir de fora, como se descrevesse um sistema no qual participa apenas como comentador atento.

A ironia maior é que a crítica à "soleira dos fundos europeus":

"Em Portugal, tardamos em definir uma estratégia que nos permita recuperar dos atrasos estruturais, melhorar a eficiência do Estado, reforçar a competitividade económica e aumentar a capacidade de inovação. Vivemos encostados à soleira dos fundos europeus, revelando a mesma incompetência política, a mesma pobreza de espírito, a mesma dependência do Estado que tanto encanitava Eça de Queirós."

soa estranhamente próxima daquilo que a própria Confederação Empresarial de Portugal promove diariamente no seu site e nos seus comunicados: mais avisos, mais programas, mais oportunidades, mais fundos.

Mais à frente pode ler-se:

"Aqui chegados, há que pedir responsabilidades às elites.  … Precisamos de verdadeiros líderes, que façam escolhas firmes e corajosas, que não tenham medo de ser impopulares, que criem ruturas com os poderes fáticos, que desfaçam os falsos consensos e as verdades adquiridas."

Quem são exactamente essas elites alheadas?

E mais importante: quem ficou de fora dessa categoria?

O texto denuncia a dependência do Estado, a pobreza de espírito, a ausência de visão estratégica e a incapacidade de pensar o longo prazo. Tudo certo. Mas depois basta uma pesquisa simples no Google — “CIP fundos europeus” — para descobrirmos que o sistema criticado não é apenas observado de fora. É frequentado, negociado, cofinanciado e, em vários momentos, legitimado.

Não é um pecado original. É um problema de coerência.

Criticar o modelo enquanto se opera confortavelmente dentro dele, beneficiando dos seus incentivos e da sua lógica, não é coragem. É retórica segura. É crítica sem risco. É exactamente o tipo de comportamento que o texto diz condenar.

Quantas vezes ouvimos a CIP partir a loiça junto do poder político de turno?


Sunak fala ao espelho. Olha para dentro, revê decisões, reconhece limites. O espelho não é confortável, mas é honesto: obriga a incluir-se no retrato.

O presidente da CIP escreve à janela. Observa o mundo lá fora, descreve o tempo, comenta a paisagem, identifica problemas reais — mas sempre do lado de dentro, protegido, sem que o reflexo apareça no vidro.

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