"I must admit that, as prime minister, I didn't always put growth first. Early on, I watered down planning changes to appease MPs worried about the reaction in their constituencies."
Há algo de refrescante no texto de Rishi Sunak: um ex-primeiro-ministro que olha para trás e diz, sem rodeios, “errei”.
Lembrei-me logo de outra coluna de opinião, esta de Armindo Monteiro, presidente da CIP, intitulada "Da crise de lideranças ao alheamento das elites" e publicada pelo Dinheiro Vivo na passada sexta-feira.
O contraste entre o artigo de Sunak e o de Armindo Monteiro é quase pedagógico. O presidente da CIP escreve longamente sobre a crise das lideranças, o alheamento das elites e a dependência dos fundos europeus… sempre na terceira pessoa. As elites são sempre "as outras". O problema está sempre "lá fora". O autor observa o fenómeno sempre a partir de fora, como se descrevesse um sistema no qual participa apenas como comentador atento.
A ironia maior é que a crítica à "soleira dos fundos europeus":
"Em Portugal, tardamos em definir uma estratégia que nos permita recuperar dos atrasos estruturais, melhorar a eficiência do Estado, reforçar a competitividade económica e aumentar a capacidade de inovação. Vivemos encostados à soleira dos fundos europeus, revelando a mesma incompetência política, a mesma pobreza de espírito, a mesma dependência do Estado que tanto encanitava Eça de Queirós."
soa estranhamente próxima daquilo que a própria Confederação Empresarial de Portugal promove diariamente no seu site e nos seus comunicados: mais avisos, mais programas, mais oportunidades, mais fundos.
Mais à frente pode ler-se:
"Aqui chegados, há que pedir responsabilidades às elites. … Precisamos de verdadeiros líderes, que façam escolhas firmes e corajosas, que não tenham medo de ser impopulares, que criem ruturas com os poderes fáticos, que desfaçam os falsos consensos e as verdades adquiridas."
Quem são exactamente essas elites alheadas?
E mais importante: quem ficou de fora dessa categoria?
O texto denuncia a dependência do Estado, a pobreza de espírito, a ausência de visão estratégica e a incapacidade de pensar o longo prazo. Tudo certo. Mas depois basta uma pesquisa simples no Google — “CIP fundos europeus” — para descobrirmos que o sistema criticado não é apenas observado de fora. É frequentado, negociado, cofinanciado e, em vários momentos, legitimado.
Não é um pecado original. É um problema de coerência.
Criticar o modelo enquanto se opera confortavelmente dentro dele, beneficiando dos seus incentivos e da sua lógica, não é coragem. É retórica segura. É crítica sem risco. É exactamente o tipo de comportamento que o texto diz condenar.
Quantas vezes ouvimos a CIP partir a loiça junto do poder político de turno?


Sem comentários:
Enviar um comentário