Na Parte I e na Parte II argumentei que a cláusula 4.1 da ISO 9001:2015 não é um requisito burocrático, mas um convite a ler o contexto com intenção estratégica. O artigo de Gillian Tett ajuda precisamente nisso: mostra que uma falha das lideranças é tratar a incerteza como um ruído temporário, quando ela se tornou estrutural.
É aqui que a revisão pela gestão (cláusula 9.3 da ISO 9001) ganha importância. Não como reunião para “picar o ponto”, mas como o momento em que a gestão pára, levanta a cabeça do dia-a-dia, sobe à varanda, e pergunta se o mundo mudou — e o que isso implica para a empresa.
Uma revisão do sistema bem feita não começa por indicadores nem por procedimentos. Começa por perguntas certas. Por exemplo:
Sobre os pressupostos (a parte que quase nunca se discute, a água do aquário em que nós somos os peixes)- Que pressupostos sobre o nosso mercado damos como adquiridos?
- Que "normal" estaremos a assumir que pode já não existir?
- Estamos a gerir os riscos dentro de um modelo que pode já estar obsoleto?
- Que mudanças políticas, regulatórias ou geopolíticas podem afectar o nosso negócio nos próximos 3–5 anos?
- Que decisões governamentais (tarifas, incentivos, regras ambientais, compras públicas) podem alterar as condições de concorrência?
- Estamos a tratar estas mudanças como ruído ou como sinais estratégicos?
- O nosso modelo de negócio pressupõe o crescimento contínuo do mercado?
- O que acontece se o mercado estagnar, fragmentar ou se tornar um jogo de soma zero?
- Onde já estamos expostos a essa lógica sem o admitir?
- Que oportunidades podem surgir precisamente da instabilidade actual?
- Quem perde quando o contexto muda — e quem pode ganhar?
- Estamos posicionados para capturar valor num mundo menos previsível?
- Onde estamos excessivamente dependentes de um cliente, de um mercado ou de uma geografia?
- Essa dependência resulta de uma escolha consciente ou de inércia histórica?
- Que riscos do contexto tornam essa dependência mais perigosa hoje do que no passado?
Li o artigo do FT de ontem, "Chemicals sector calls for Europe to act after 80% fall in investment", e imaginei o cenário de uma empresa que fabrica e vende bombas centrífugas, aptas a operar em ambientes ATEX, para a indústria química europeia.
Pressupostos (a água do aquário que quase ninguém nomeia):
- A indústria química europeia manterá capacidade produtiva relevante.
- Os clientes continuarão a investir em activos industriais na Europa.
- Segurança e conformidade ATEX continuarão a justificar prémio de preço.
- O risco regulatório continuará a favorecer os fornecedores europeus.
Normal assumido: base industrial química europeia estável. Será razoável?!
Pergunta incómoda: E se o “normal” já for a desindustrialização progressiva?
Contexto externo
- Encerramento e deslocalização de fábricas químicas na Europa.
- Transferência de investimento para China, Médio Oriente, EUA.
- Política industrial europeia lenta e errática.
- Tensões geopolíticas a afectar cadeias de fornecimento e exportações.
- Pressão ambiental e energética sobre os clientes.
Risco típico: tratar isto como um ciclo negativo, e não como uma ruptura estrutural.
Oportunidades (a parte esquecida da cláusula 4.1/6.1)
- Aumento da aversão ao risco em ambientes ATEX.
- Valorização de fiabilidade, certificação e histórico de segurança.
- Necessidade de prolongar a vida útil de activos existentes.
- Retrofit, manutenção avançada e serviços de engenharia.
- Substituição de fornecedores baratos após incidentes ou falhas.
Quem ganha: quem reduz risco operacional e regulatório do cliente.
Foco, dependência e fragilidade
- Dependência excessiva da indústria química europeia.
- Dependência de poucos grandes clientes industriais.
- Dependência de investimento novo, não de base instalada.
- Dependência de um quadro regulatório europeu específico.
Fragilidade crítica se a base industrial continuar a encolher.
Será que estamos a gerir os riscos dentro de um modelo industrial europeu que pode estar a desaparecer?
Se a indústria química europeia investir menos durante a próxima década, como é que esta empresa continua a criar valor?
Não é de esperar respostas imediatas. Aliás, tenha medo delas. Discuta e deixe o tema marinar.
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