quinta-feira, janeiro 29, 2026

Foco no valor, diversificação na exposição (parte II)

Parte I.

A cláusula 4.1 da ISO 9001:2015 pede que a organização determine as questões externas e internas relevantes (o seu contexto) para o seu propósito e a sua direcção estratégica.

O que o artigo da Gillian Tett faz é exatamente isso ao nível macro:

  • identifica mudanças estruturais, não conjunturais;
  • distingue risco mensurável de incerteza profunda (Knightian uncertainty);
  • mostra como factores políticos, demográficos e geopolíticos alteram as regras do jogo, e não apenas os resultados;
  • alerta para padrões emergentes que invalidam pressupostos antigos.

Isto é a cláusula 4.1 em estado puro.

Não há listas. Não há relatórios.

Não há bullets normativos.

Há interpretação do contexto para orientar decisões futuras. O artigo mostra que o contexto não é uma mera descrição do mundo. É uma leitura do mundo com intenção estratégica. É tentar perceber o mundo em que se opera e usar esse conhecimento para tomar melhores decisões.

Costumo dizer que as organizações não estão protegidas dentro de uma estufa; são cascas de noz lançadas no oceano turbulento, e sem perceber a direcção do vento e das correntes… nada feito.

Na prática, muitas organizações tratam a cláusula 4.1 como:

  • um exercício inicial;
  • um capítulo “antes de começar a sério”;
  • uma fotografia estática do ambiente externo. Por exemplo, quantas empresas ainda incluem o covid como um factor externo vivo?

O artigo de Gillian Tett desmonta esta abordagem por contraste. O que o artigo faz (e as empresas raramente fazem):

  • questiona se os pressupostos antigos ainda são válidos;
  • identifica forças lentas, mas poderosas;
  • liga contexto a consequências práticas (política de soma zero, intervenção do Estado, mudança no comportamento dos consumidores e investidores).

O que muitas empresas fazem:

  • listam “instabilidade política” como risco genérico;
  • escrevem “concorrência elevada”;
  • referem “incerteza económica” — e seguem em frente como se nada tivesse mudado;

Isto cumpre o requisito, mas falha o propósito da cláusula 4.1.

O ponto mais importante do artigo é este:

“Ignoring upside risks is as dangerous as discounting downside ones.”

Traduzido para a ISO 9001, o contexto não serve apenas para identificar ameaças; também serve para detectar oportunidades que surgem quando o mundo muda.

A cláusula 4.1 não é uma cláusula de risco. 

É uma cláusula de orientação estratégica do sistema.

Apetece escrever uma parte III sobre o artigo e a revisão pela gestão…

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