A cláusula 4.1 da ISO 9001:2015 pede que a organização determine as questões externas e internas relevantes (o seu contexto) para o seu propósito e a sua direcção estratégica.
O que o artigo da Gillian Tett faz é exatamente isso ao nível macro:
- identifica mudanças estruturais, não conjunturais;
- distingue risco mensurável de incerteza profunda (Knightian uncertainty);
- mostra como factores políticos, demográficos e geopolíticos alteram as regras do jogo, e não apenas os resultados;
- alerta para padrões emergentes que invalidam pressupostos antigos.
Isto é a cláusula 4.1 em estado puro.
Não há listas. Não há relatórios.
Não há bullets normativos.
Há interpretação do contexto para orientar decisões futuras. O artigo mostra que o contexto não é uma mera descrição do mundo. É uma leitura do mundo com intenção estratégica. É tentar perceber o mundo em que se opera e usar esse conhecimento para tomar melhores decisões.
Costumo dizer que as organizações não estão protegidas dentro de uma estufa; são cascas de noz lançadas no oceano turbulento, e sem perceber a direcção do vento e das correntes… nada feito.
Na prática, muitas organizações tratam a cláusula 4.1 como:
- um exercício inicial;
- um capítulo “antes de começar a sério”;
- uma fotografia estática do ambiente externo. Por exemplo, quantas empresas ainda incluem o covid como um factor externo vivo?
O artigo de Gillian Tett desmonta esta abordagem por contraste. O que o artigo faz (e as empresas raramente fazem):
- questiona se os pressupostos antigos ainda são válidos;
- identifica forças lentas, mas poderosas;
- liga contexto a consequências práticas (política de soma zero, intervenção do Estado, mudança no comportamento dos consumidores e investidores).
O que muitas empresas fazem:
- listam “instabilidade política” como risco genérico;
- escrevem “concorrência elevada”;
- referem “incerteza económica” — e seguem em frente como se nada tivesse mudado;
Isto cumpre o requisito, mas falha o propósito da cláusula 4.1.
O ponto mais importante do artigo é este:
“Ignoring upside risks is as dangerous as discounting downside ones.”
Traduzido para a ISO 9001, o contexto não serve apenas para identificar ameaças; também serve para detectar oportunidades que surgem quando o mundo muda.
A cláusula 4.1 não é uma cláusula de risco.
É uma cláusula de orientação estratégica do sistema.
Apetece escrever uma parte III sobre o artigo e a revisão pela gestão…
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