segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Muita areia para a camioneta dos políticos europeus

Em 2021 escrevi aqui:

"Há muito que penso que os políticos começaram a falar cada vez mais do ambiente porque era algo que não lhes vinha cobrar. Por exemplo, um político pode propor políticas para reduzir défice, para reduzir filas de espera na Saúde, para aumentar salários, ... e todas essas políticas têm o inconveniente de, mais tarde ou mais cedo, virem cobrar através da comparação entre os resultados propostos versus os resultados obtidos. Já com o ambiente era diferente. Os políticos podiam falar do ambiente à boca cheia sem recear que ainda durante a mesma legislatura alguém lhes viesse pedir contas.

Julgo que a situação pode vir a alterar-se."

O WSJ da passada sexta-feira publicou "The Agonizing Decline of One of Europe's Core Industries" na sequência do que o FT tinha publicado na passada quarta-feira,  "Chemicals sector calls for Europe to act after 80% fall in investment", sobre o mesmo tema.

O artigo começa assim: 

"Cutting emissions can sometimes look like what economists call creative destruction, with green innovators supplanting polluters. It's painful when the destruction happens to you while somebody else (often in China) does the creating. [Moi ici: Destruição assimétrica, a destruição ocorre na Europa, enquanto a criação acontece noutros lugares, sobretudo na China.]

The auto sector is Exhibit A, but the anxiety doesn't end there. Take Europe's beleaguered chemicals industry. The sector employs well over a million people and provides the ingredients for all the stuff of modern life, from polyethylene packaging to phenol for painkillers. Its struggles offer a window onto Europe's predicament as it pursues environmental goals while adapting to a security-focused trade era."

E continua: 

"Energy costs aren't the only problem. Global overcapacity, driven by the rapid expansion of the Chinese chemicals industry, exposed European producers to an influx of cheap imports, just as energy costs jumped and demand slowed. A U.S.-EU trade deal struck last year would also expand market access for U.S. producers with far lower costs.

Climate policies are the other gripe. For now, heavily polluting sectors are protected from Europe's carbon prices to stop crucial industries from leaving the bloc. That is set to change this year, and fees are supposed to ratchet up over time.

...

Meanwhile, incentives for the use of green chemicals, produced from low-carbon hydrogen instead of fossil fuels, haven't been enough to spur the massive investments needed to overhaul the industry.

China is moving faster on that front, even as it churns out plain old polluting chemicals too."

A combinação de custos energéticos elevados, excesso de capacidade global, concorrência chinesa subsidiada, políticas climáticas mal sincronizadas e fraca resposta política europeia está a levar ao encerramento de fábricas, à venda de activos estratégicos e à perda de capacidade produtiva. Entre 2020 e 2025, mais de 25 milhões de toneladas de capacidade química foram encerradas na UE e no Reino Unido, com taxas de utilização persistentemente abaixo do nível económico sustentável.

O texto sublinha que, embora existam incentivos para químicos “verdes”, estes são insuficientes para compensar a perda de competitividade estrutural, num contexto em que a China avança simultaneamente na química poluente tradicional e na química de baixo carbono, apoiada por uma política industrial agressiva.

Parece que é muita areia para a camioneta dos políticos europeus:


Demasiados ovos no ar, demasiadas relações de causa-efeito para quem não está habituado.




 

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