quinta-feira, janeiro 01, 2026

Quando a crise é sempre dos outros


Começar um ano novo com um tema velho e bem entranhado na cultura portuguesa.

O DN a 29 de Dezembro publicou "Restauração teve ano negro. Quebra de 20% no Natal e revéillon agrava encerramentos". Um artigo sobre o "ano negro" da restauração portuguesa que descreve uma realidade dura: mais de mil restaurantes encerrados, uma quebra de 20% no Natal e no réveillon, um verão anémico, custos elevados, clientes mais contidos e um sector exausto.

Tudo isto pode ser factual. Tudo isto é sério.

Mas há algo mais profundo e mais preocupante que atravessa o texto como um fio invisível: a ideia de que a saída está fora. No Governo. No IVA. Nas condições macro. Nunca, ou quase nunca, nas escolhas feitas dentro das organizações.

É uma narrativa conhecida, muito portuguesa e confortável.

Quando a procura cai, a culpa é do poder de compra. Quando os custos sobem, a culpa é da inflação. Quando os clientes escolhem alternativas, a culpa é dos supermercados, dos hotéis, das quintas de eventos. E quando o modelo deixa de funcionar, a resposta natural é pedir que o papá-Estado intervenha.

Este é o retrato clássico de um locus de controlo externo: a convicção de que o destino do negócio depende sobretudo de forças externas, sobre as quais os gestores e líderes podem fazer pouco ou nada.

O problema é que esta mentalidade não explica apenas a crise. Ela amplifica-a porque, quando a acção é sempre esperada de fora, a adaptação interna atrasa-se. Quando a solução é sempre fiscal ou política, as decisões estratégicas difíceis ficam por tomar. E quando a sobrevivência depende de uma medida governamental, o modelo de negócio já está, na prática, esgotado.

O próprio artigo dá pistas claras disso, ainda que sem o assumir. Os clientes continuam a sair de casa e a gastar, mas escolhem formatos diferentes: propostas fechadas, experiências integradas, preços previsíveis, menor atrito. O dinheiro não desapareceu; mudou de lugar. (Interessante, esta semana tive uma conversa sobre o calçado e em que se afirmava o mesmo. O consumo, a necessidade, mantém-se, mas o consumidor mudou.)

Ainda assim, a leitura dominante não é "o cliente mudou". É “o cliente perdeu poder de compra”.

Nada disto se resolve com IVA a 6%. A redução do IVA pode aliviar as tesourarias no curto prazo. Pode ganhar tempo. Mais tempo para fazer o quê? Meu Deus, recuo 20 anos, "À espera da retoma". Se for apenas para prolongar modelos que já não alinham com o comportamento do cliente, o problema não é a falta de apoio, é a falta de mudança.

Há uma diferença essencial entre uma crise exógena e o esgotamento de um modelo de negócio.
O que o sector da restauração enfrenta hoje parece muito mais a segunda. E isso não se resolve com pedidos de apoio. Resolve-se com escolhas.

Escolhas sobre o jogo em que se quer competir. Sobre o tipo de cliente que se quer servir. Sobre a relação entre preço, experiência, simplicidade e previsibilidade. Sobre produtividade, engenharia de menus e desenho das operações.

Nada disto é fácil. Mas tudo isto está dentro da esfera de controlo dos gestores e líderes.

Enquanto a narrativa dominante continuar a colocar a solução quase exclusivamente no Governo, o sector arrisca-se a perder algo mais do que restaurantes. Arrisca-se a perder agência. E sem agência, não há estratégia — apenas espera.

A crise é real. Mas a resposta não pode ser apenas externa. Porque, quando tudo depende do que o Governo fizer, o que fica por fazer dentro da organização é sempre demasiado.