terça-feira, março 04, 2025

Inequality and risk preference

Um tema interessante, a relação entre desigualdade e risco e a relação entre insatisfação económica e risco. 

"Using a globally representative data set on risk preference in 76 countries, we empirically document that the distribution of income in a country has a positive and significant link with the preference for risk." (página 191)
"At both the individual and country-level, we find a precise, stable estimate that indicates higher inequality is significantly associated with a greater degree of risk taking." (página 194) [Moi ici: Quanto maior a desigualdade, mais as pessoas arriscam. Em países onde há uma diferença muito grande entre ricos e pobres, as pessoas tendem a estar mais dispostas a correr riscos]
...
"We find evidence of a steeper gradient between willingness to take risks and inequality for cognitively more able individuals who likely have a better assessment of inequality and for those who are dissatisfied with their income." (página 191)
"Perceptions likely deviate from objective reality through a kaleidoscope of individual biases and imperfect information, all of which determine the extent to which we 'experience inequality' (Roth & Wohlfart, 2018)." (página 194) [Moi ici: Quem tem mais consciência da desigualdade arrisca mais. Pessoas que conseguem perceber melhor as diferenças de rendimento na sociedade (geralmente aquelas com maior aptidão matemática ou educação) são ainda mais propensas a correr riscos quando vivem num ambiente muito desigual]
...
"We also consider that the effect of inequality on individuals is by no means homogeneous. We hypothesise that the risk preference of individuals who are better placed to read or interpret the objective degree of inequality should be more affected." (página 195)
"We next investigate what role income plays in determining how inequality can affect risk preferences. Satisfaction with own-income is likely a salient point of reference where individuals react to inequality differently. That is, when an individual is satisfied with their current level of income, we expect changes in the level of inequality to have no effect on their appetite for risk taking." (página 211) [Moi ici: Quem está insatisfeito com o seu dinheiro arrisca ainda mais. Se uma pessoa sente que ganha pouco e está tendo dificuldades financeiras, a desigualdade faz com que ela se sinta ainda mais para trás, e isso aumenta a vontade de assumir riscos para tentar mudar a sua situação]

E recuo a 2007 e a este gráfico:

 

Trechos retirados de "Inequality and risk preference" publicado por Journal of Risk and Uncertainty (2024) 69:191-217 


segunda-feira, março 03, 2025

Curiosidade do dia

"O atual Governo, liderado por Luís Montenegro, assume que quer "consolidar" a marca dos 50%, mas reconhece que tal não será fácil. "Não é nada mau se, nos próximos anos, consolidarmos esse patamar dos 50%", referiu o ministro da Economia, Pedro Reis, numa entrevista conjunta ao Negóciose Público em abril do ano passado, durante a primeira visita oficial ao exterior: Contudo, destacou que, mais importante do que ter uma "meta ambiciosa". ", é garantir "mais valor acrescentado nas exportações"."

O texto acima aparece no JdN de hoje num artigo intitulado "Peso das exportações no PIB cai pelo segundo ano seguido"

O artigo aborda a queda do peso das exportações portuguesas no PIB pelo segundo ano consecutivo. Em 2024, as exportações representaram 46,6% do PIB, um valor inferior aos 50% atingidos em 2022 e abaixo do nível de 2023. A diminuição é atribuída à queda nos preços das mercadorias exportadas e à menor procura externa.

A diminuição do preço das mercadorias exportadas reflecte a influência da inflação, e reflecte a dolorosa realidade de dependermos muito da exportação de commodities com baixo valor acrescentado.

Concordo com o ministro Pedro Reis acerca da importância de "é garantir "mais valor acrescentado nas exportações". Só que tal não se obtém por decreto e, seguramente, não se obtém sem uma transição dolorosa.

Os incumbentes têm aversão a testar o novo. Resta-nos criar condições para minimizar a transição dolorosa.

Let that sink in ...



A aversão à novidade

Numa longa e saborosa conversa telefónica recente recomendei a leitura destes dois postais:

Agora, ao escrever este postal recordo um outro, "Qual é mesmo a missão?", onde escrevi:
"Se os produtores portugueses têm dificuldades em competir no mercado de milho commodity, talvez fosse mais estratégico apostar desde já em produtos diferenciados em vez de tentar sustentar artificialmente um sector que enfrenta tantas dificuldades."

O ponto comum em todos eles é a permanência no carreiro actual e a dificuldade, a aversão à mudança, a aversão ao desconhecido.

Agora ao ler o prefácio do livro "Uncertainty and Enterprise" de Amar Bhidé" encontro "novelty aversion" e "Knightian uncertainty".

A aversão à novidade refere-se a uma tendência na tomada de decisões em que os indivíduos evitam opções novas ou desconhecidas, mesmo quando estas podem ser benéficas. Este enviesamento surge de uma preferência pelo conhecido e previsível em detrimento do incerto e desconhecido. 

A incerteza Knightiana (nome dado em homenagem ao economista Frank Knight) descreve um tipo de incerteza em que a probabilidade dos resultados é desconhecida ou incalculável. Ao contrário dos riscos mensuráveis (onde as probabilidades podem ser atribuídas), a incerteza Knightiana envolve situações em que a falta de informação torna impossível determinar probabilidades.

Ambos os conceitos giram em torno do desconforto com o desconhecido. A aversão à novidade é uma reação comportamental à incerteza Knightiana, pois as pessoas frequentemente evitam novas opções porque não conseguem estimar os riscos envolvidos. Em ambos os casos, os indivíduos podem hesitar ou recusar-se a envolver-se em situações incertas devido à falta de probabilidades claras. Tanto a aversão à novidade como as respostas à incerteza Knightiana levam as pessoas a favorecer escolhas familiares e estabelecidas em detrimento de alternativas desconhecidas.

Na agricultura e em muitas indústrias (por exemplo, finanças, medicina, tecnologia) há uma adopção lenta de inovações devido tanto à aversão à novidade como à incerteza em torno de novos métodos ou produtos. Essencialmente, a aversão à novidade é uma das formas pelas quais as pessoas reagem à incerteza Knightiana.

domingo, março 02, 2025

Curiosidade do dia

"Export success is not linked to character, but to an economic model. When a country relies on exports for its livelihood, it will not see Vladimir Putin for who he is, but as the guy who speaks fluent German, with old-school manners, who dances with the Austrian foreign minister at her wedding. This is what a structurally high current-account surplus does to people. They end up inviting a dictator to their wedding, or making him godfather to their children, as Gerhard Schröder did."

Trecho retirado do capítulo 5 de "Kaput - The End of the German Miracle" de Wolfgang Munchau.

O contexto a mudar

Interessante, o capítulo 5 de "Kaput - The End of the German Miracle" de Wolfgang Munchau, intitulado "Breaking the brake".

O brake é a chamada Schuldenbremse (freio da dívida), regra que limita severamente a capacidade do governo de contrair novas dívidas. Ele argumenta que essa restrição orçamental tem levado a uma falta crónica de investimentos públicos, prejudicando o crescimento económico e a competitividade da Alemanha a longo prazo. BTW, Münchau explora como a aplicação rígida do freio da dívida e outras políticas de austeridade contribuíram para a fragmentação política do país e a ascensão dos partidos populistas.

Entretanto no jornal The Times de ontem, no artigo "Merz prepares to move fast and break Germany's spending rules" pode ler-se:

"He [Moi ici: Merz] is also in a race against time to identify a way of paying for Germany's biggest rearmament in 70 years as the price for a seat at the head of the table. The scale of the task is colossal. If Germany is to reach Nato's new de facto benchmark and spend 3 per cent of its GDP on defence, it will need to find at least another €70 billion a year.

The cost of building enough military capacity for true independence from the US would be €615 billion, the Dezernat Zukunft think tank estimated. In parallel with the coalition talks, Merz is attacking the problem with a characteristically unorthodox gambit. His plan is to borrow as much as €200 billion through a mechanism known as a Sondervermögen (special fund). The pot of money would be kept off the regular balance sheet and so would not technically breach Germany's constitutional "debt brake" on government borrowing

...

Instead, he proposes to ram the change through the outgoing Bundestag, which has not yet been dissolved and can theoretically be kept on life support for about another three weeks. The SPD is expected to hold out for loosening the debt brake itself, which would open the doors for a splurge on schools, transport and green schemes. Here the party is in good company. The rule, which was written into the constitution in 2009 during the eurozone crisis, used to be an overwhelmingly popular symbol of German prudence, nicknamed the "black zero".

Debt brake reform is now championed by such unlikely figures as the president of Germany's central bank and Merkel, the chancellor who created the instrument in the first place.

A poll last month ago found 55 per cent of Germans, and the same proportion of CDU-CSU voters, wish to see the debt brake softened or abolished."

De acordo com o capítulo 3 do livro de Munchau nada garante que o dinheiro público não vai ser utilizado como soro para manter vivos os zombies do costume.

sábado, março 01, 2025

Curiosidade do dia

"I say I'm surprised at how relaxed he seems to be about the destruction of the United States Agency for International Development (USAID). Musk's "wood chipper" analogy, with its echo of the body-disposing scene in Fargo, struck me as purposefully cruel.
That may be, Lomborg counters, but finite resources should be spent efficiently. "It's like a menu. We're not saying you can't have the most expensive stuff. We're just saying if you order the caviar and the champagne, you won't have as much money left over," he says, motioning to the waiter for a second glass of bubbly (Sprite Zero).
In his drive for efficiency, Lomborg seeks to identify policies that, according to his think-tank, generate returns of at least $15 for every dollar spent. Some aid passes his test, but most does not. A small proportion is frivolous, he says, citing German funding of Peruvian bike lanes and a £200,000 British grant for all-female Chinese opera.
"It's not that I'm against female opera in Shanghai, it's just that, given children die of malaria and some are getting terrible education, I think we need to have a sense of priority. I think we've kind of lost that in the development community. [Moi ici: Faz-me lembrar o familiar que ao serviço da SSVP encontrava "pobres" que queriam um smartphone, mas não em segunda mão, nem um fatela, tinha de ser novo e de marca... e arranjavam-no, para meu escândalo]
...
He pushes back. "Tipping points are good bogeymen. There's a lot of potential things that can go wrong," he says, mentioning meteors that might crash into Earth, cell phones that might rot our brains and bioterrorists who might paralyse our cities. "But you can't spend on everything." Potential catastrophes are fundraising tools, he says. "I make up a scary scenario. Now give me all your money."
...
Numbers, he concedes, do not always capture reality. One of his 12 best policies is to encourage high-skilled immigration. The maths are fairly simple. If a person moves from a low-wage economy to a high-wage one, their income can go up 15 times or more for doing the same job - whether it's working in McDonald's or as a brain surgeon.
But the maths run into real-world political and cultural problems. "If you bring two billion more people to the west, that will probably change the west - and not all for the good. That's why a lot of democracies are going to say no.'"

Trechos retirados de "You can't spend on everything" (Lunch with the FT Bjorn Lomborg) no FT de hoje.

E depois ...


O capítulo 4 de "Kaput - The End of the German Miracle" de Wolfgang Munchau, intitulado "The China Syndrome" é sobre a evolução da relação entre a Alemanha e a China. A China foi de principal mercado a principal concorrente.

Entre 2005 e 2020, a Alemanha passou por um renascimento económico baseado na sua estratégia neo-mercantilista, onde a China desempenhou um papel fundamental como mercado para produtos industriais alemães, especialmente nos sectores automóvel e de engenharia.

Inicialmente, a China era vista como um mercado em expansão para bens e maquinaria alemã. No entanto, ao longo dos anos, a China não só comprou a tecnologia alemã, como também começou a desenvolver as suas próprias indústrias e, em alguns sectores, superou a Alemanha.

O comércio bilateral deixou de ser vantajoso para a Alemanha, pois a China passou de um grande consumidor de tecnologia alemã para uma competidora directa, especialmente nos sectores automóvel, solar e de manufactura.

Enquanto outros países estavam a diversificar os seus mercados, a Alemanha continuou a sua aposta na China, sem um plano de contingência para reduzir a sua vulnerabilidade a mudanças geopolíticas e à concorrência industrial chinesa.

E depois, ...

"En France, depuis la crise sanitaire, la filière automobile a perdu près de 40.000 emplois au cœur du tissu industriel de nos régions. Sur la même période, la Chine est devenue le premier producteur mondial, puis le premier exportateur mondial. En optant pour le tout-électrique dès 2035, Bruxelles a fait le choix d'une technologie unique dominée par nos concurrents chinois : un véhicule électrique sur quatre vendus en Europe est désormais importé de Chine."

sexta-feira, fevereiro 28, 2025

Curiosidade do dia

Interessante olhar para os números do IEFP ...

Em Janeiro de 2023 havia 17939 desempregados no sector da "Construção", em Janeiro de 2025 o número vai em 19065 desempregados.

Em Janeiro de 2023 havia 31723 desempregados no sector do "Alojamento, restauração e similares", em Janeiro de 2025 o número vai em 38362 desempregados.

Alguém sabe explicar o que se passa?

Quem tem coragem para ter esta conversa olhos nos olhos?


Mão amiga fez-me chegar às mãos recorte do jornal "Barcelos Popular" com o artigo "Rombo no sector têxtil faz exportações reduzirem 12% em Barcelos" onde basicamente se repete o comunicado da Associação Comercial e Industrial de Barcelos (ACIB).

Recordo os temas:
Com base no conteúdo das páginas 2 e 3 do Barcelos Popular, fica evidente que a ACIB enfatiza a necessidade de intervenção pública para sustentar um sector têxtil em declínio. Enquanto a narrativa enaltece a região como um motor de empreendedorismo e capacidade industrial, paradoxalmente, reivindica subsídios para manter empresas cuja produtividade e competitividade são questionáveis.

A questão central reside na incoerência entre o discurso e a acção: defende-se o aumento da produtividade e da inovação, mas, simultaneamente, solicita-se financiamento público para sustentar empresas que, por razões estruturais ou de modelo de negócio ultrapassado, não conseguem manter a sua viabilidade. No contexto de uma União Europeia que privilegia a sustentabilidade económica e boas condições de vida, insistir na manutenção de um sector pouco competitivo à custa dos contribuintes parece ser uma estratégia míope.

Resta saber se a associação tem uma visão de futuro que vá além da dependência do Estado ou se continuará a perpetuar um ciclo de subsidiação sem uma estratégia real de adaptação e modernização. O locus de controlo está, claramente, no exterior, mas é crucial que se invista em soluções de longo prazo em vez de insistir numa lógica de curto prazo que já demonstrou falhas.

A forte dependência de subsídios e apoios públicos pode ter implicações sérias na produtividade e competitividade de longo prazo da economia de Barcelos. Se as empresas locais se habituarem a recorrer a ajudas externas sempre que enfrentam dificuldades, corre-se o risco de enfraquecer os incentivos à eficiência e à inovação. Uma economia que sobrevive à base de subsídios pode cair na armadilha de adiar ajustes necessários, criando empresas menos produtivas ou "zombies" mantidas artificialmente. 

No caso em análise, a ACIB insiste que as "empresas precisam de apoios, infraestruturas e acções colectivas bem executadas" para enfrentar a crise. Sem dúvida, infraestruturas melhores e colaboração podem aumentar a competitividade (por exemplo, melhor logística e cooperação sectorial). No entanto, se os apoios financeiros servirem apenas para cobrir prejuízos ou prolongar a vida de modelos de negócio ultrapassados, a competitividade e produtividade estrutural da região tende a estagnar ou deteriorar-se. É duro, mas aquele título de há dias, "It's no longer about how you do it; it's about what you do," mostra como é difícil ou quase impossível que os apoios pedidos ajudem a resolver a situação.

Quem tem coragem para ter esta conversa olhos nos olhos?

Ontem de manhã vi este tweet na mouche:

A Teoria do Cavalo Morto é uma metáfora que se refere ao acto de continuar a investir tempo, esforço ou recursos em algo que claramente já falhou ou não tem mais hipóteses de sucesso. A expressão vem do ditado:

"When you discover that you are riding a dead horse, the best strategy is to dismount."

Ou seja, se um cavalo está morto, não adianta continuar a montá-lo – o mais lógico é aceitar a realidade e seguir em frente. No contexto empresarial, a metáfora é usada para descrever situações onde empresas, governos ou pessoas insistem em estratégias, projectos ou modelos de negócios falidos em vez de mudarem de abordagem.

quinta-feira, fevereiro 27, 2025

Curiosidade do dia


Hoje a primeira página do Público traz "Há 176 novos hotéis previstos para os grandes centros. Porto suplanta Lisboa" e a primeira página do DN traz "Preços do aluguer de carros afundam 15% por excesso de oferta."

Lembrei-me logo da Tragédia dos Comuns, que em bom português deve ser a Tragédia dos Baldios. 

Tempo para recordar este artigo de 2007 "'Tragedy of the commons' in the tourism accommodation industry" e este trecho:
"Results from the study show that open access generally leads to both economic and environmental overexploitation, that is 'the tragedy of the commons'. This also affects the overall tourism industry since tourism accommodation and environmental quality perform central roles. This ultimately leads to mass tourism characterized by tourists with low willingness to pay."

Relacionar este sublinhado com o que aparece no DN via JdN:

"O preço a pagar pelo aluguer de um carro desceu 15% no ano passado, avança esta quinta-feira o Diário de Notícias. A descida reflete o aumento do número de veículos disponibilizados pelas "rent-a-car", que tem levado a uma excesso de oferta enquanto a procura, sobretudo de turistas, arrefeceu.

O desequilíbrio entre a oferta e a procura foi implacável com as receitas das empresas. "Foi o pior ano de sempre para o setor, excluindo o período da pandemia", diz o secretário-geral da Associação dos Industriais de Aluguer de Automóveis sem Condutor (ARAC), Joaquim Robalo de Almeida, sublinhando que, como fazer férias em Portugal ficou mais caro, "as rent-a-car são um dos primeiros serviços a ficar para trás""

Nope, os turistas é que têm menos poder de compra.

O mesmo vai acontecer aos hotéis, então teremos o sector, com enorme poder nos media e com ligações poderosas ao sistema político, a pedir para que os contribuintes impeçam um sector "tão importante para o país" de fechar portas.

Again, recordar as salamandras da minha querida e saudosa Estarreja:

"Será que as empresas também não sofrem mais com o rescaldo dos exageros cometidos no tempo das vacas gordas do que com as tribulações dos tempos de vacas magras?"

E Yogi Berra:

"Nobody goes to that restaurant anymore because it's too crowded." 


Um corporativismo estrutural

O capítulo 3 de "Kaput - The End of the German Miracle" de Wolfgang Munchau, intitulado "Low on Energy" é algo nojento.

O autor faz uma descrição bastante crítica e, diria até, repugnante da promiscuidade entre políticos e o sector empresarial na Alemanha. Ele descreve um sistema onde ex-políticos se tornam lobistas influentes, enquanto políticos no poder garantem favores a empresas que, mais tarde, retribuem com cargos e privilégios. (Escrevo isto e recordo as imagens na TV da passada quarta-feira em que um lobista defendia a manutenção da TAP nas mãos do estado)

Exemplos disso incluem:

  • Gerhard Schröder não apenas facilitou os acordos energéticos com a Rússia enquanto chanceler, mas logo após sair do cargo, tornou-se executivo da Nord Stream, financiada pela Gazprom. Ou seja, negociou a dependência energética alemã com Moscovo e depois foi recompensado com um cargo altamente lucrativo. 
  • Karl-Theodor zu Guttenberg, ex-ministro da Defesa, reinventou-se como lobista após um escândalo de plágio e chegou a interceder junto a Angela Merkel em favor da fraudulenta Wirecard, empresa que colapsou num dos maiores escândalos financeiros da Alemanha.
  • WestLB, Landesbanken e o cartel da Renânia do Norte-Vestfália: políticos e banqueiros entrelaçaram-se num esquema de suporte às indústrias tradicionais de carvão e aço, garantindo subsídios e protecção a negócios falidos por décadas, sem inovação real.

Münchau argumenta que esse sistema não é apenas uma questão de corrupção explícita, mas de um corporativismo estrutural, onde a política é vista como uma extensão do sector empresarial. Isso leva a políticas públicas viciadas, que protegem indústrias grandes e evitam mudanças estruturais necessárias. O colapso da Wirecard e os escândalos envolvendo bancos regionais (Landesbanken) mostram como essa cultura de conivência prejudicou a economia alemã, que hoje enfrenta um cenário de estagnação e crise.
Em resumo, a descrição de Münchau é nojenta no sentido de expor um sistema político completamente capturado por interesses privados, onde a "economia de mercado" é, na verdade, um jogo fechado entre velhos amigos que trocam favores - e o contribuinte alemão paga a conta.

Só um cheirinho:
"After he came to power, he would pull off another stunt, similar to that of Salzgitter. The following year, he personally intervened to stave off the looming bankruptcy of Holzmann, a large construction company based in Frankfurt. It was a big success. Workers of the company sang chants praising the chancellor. He did not just bang heads together. He used the state-owned KfW bank to provide a €150-million loan and a €100-million loan guarantee that served as an anchor for the financial packages with the various other banks used by the company. The banks would then chip in €200 million. That still was not enough because the company went bankrupt eventually, but it worked for Schröder politically, giving him a reputation for caring about jobs. I saw Schröder as an early populist. During the Holzmann crisis, he accused the creditor banks of 'thinking more about their business than securing the company and the jobs' - as though banks would ever do anything else."

Acerca do retalho

No WSJ de ontem em "Retailers Are Suffering, but There Is No 'Apocalypse' Yet" podia ler-se:

"Other than 2020, when the pandemic crippled in-person shopping, last year had the most U.S. retail bankruptcies since 2017, according to S&P Global Market Intelligence. 2025 hasn't started off promisingly either: Retail sales in January surprised economists with their biggest drop in nearly two years.

There were mitigating factors like cold weather and wildfires, but it is hard to shake the sense that forecasters also are missing other issues they can read about in the newspaper.

...

News of the retail industry's demise has been greatly exaggerated before, of course. Six years ago, before the pandemic, analysts at UBS warned of an "apocalypse" of store closures because of tariffs and e-commerce. Landlords are experiencing the exact opposite-rising rents and low vacancy-especially as more people spend a weekday or two near home."

Entretanto, no mesmo jornal no dia 24 de Fevereiro em "Stores Suffer as Online Retail Rules" podia ler-se:

"E-commerce didn't kill bricks-and-mortar stores, but it made them worse. Much worse.

Physical stores today are understaffed and full of inconveniences such as locked shelves and self-checkout lines. Now, add one more gripe to the list: not enough stuff.

If you have ever trekked to a store only to be told the item you are looking for is out of stock but can be ordered online, you aren't alone.

...

The internet ushered in a new era of shopping nirvana, in which consumers could order whatever they wanted from the comfort of their couch. It also has siphoned money and merchandise away from brick-and-mortar stores, turning buzzy emporiums into dilapidated mausoleums. Retailers have vastly expanded the breadth of products they sell online to better compete with Amazon.com, making the offerings in their physical stores feel paltry by comparison.

Retail CEOs like to say they want customers to shop however they want-either online, in stores or a combination of the two. The reality is that they make more money when customers buy from physical stores because packing and shipping expenses eat into online profits.

...

Nearly three-quarters of consumers prefer shopping in physical stores, but only 9% are satisfied with the store experience.

Chief among their complaints is a lack of product variety and availability in stores,

...

"Retailers have pivoted too hard to e-commerce and neglected the in-store experience, and that has got to swing back," said Don Hendricks, chief executive of department store chain Belk."


Os dois artigos do Wall Street Journal abordam a situação do retalho físico nos EUA sob perspectivas diferentes, mas que se complementam. O primeiro foca-se na resistência do sector, destacando que, apesar do aumento de falências no retalho e da queda inesperada nas vendas em Janeiro de 2025, o cenário ainda não representa um "apocalipse". Embora sinta que o artigo "culpa" a situação económica pelo mau desempenho. Já o segundo artigo aponta para a deterioração da experiência de compra em lojas físicas, em grande parte devido ao foco excessivo no comércio electrónico.

O comércio electrónico transformou o retalho, enquanto o primeiro destaca que as lojas ainda resistem, o segundo mostra que essa transição teve efeitos negativos, como stocks reduzidos e lojas menos atraentes.

O paradoxo central é que, mesmo com a predominância do comércio electrónico, muitos consumidores ainda preferem comprar em lojas físicas, mas a má experiência afasta-os.

O caminho para o sector pode passar por um ajuste de estratégia, reforçando a atractividade das lojas físicas enquanto mantém a competitividade online.

Interessante acrescentar um terceiro artigo, "Amazon can't figure out physical stores":

""I don't think they really understand retail," Nick Egelanian, president of retail-advisory firm SiteWorks Retail, told The Journal. "Running warehouses and shipping stuff efficiently is not the same as greeting a customer and saying, 'May I help you?'"

Acabo a pensar nos treinadores de futebol que são como o Dick Dastarly, focam-se mais nos advsersários concorrentes do que no seu modelo de jogo nos clientes. 

quarta-feira, fevereiro 26, 2025

Curiosidade do dia



Suspeito que esta "Curiosidade do dia" está relacionada com este tipo de fenómeno:

"Nos últimos 10 anos o país perdeu 117 mil estudantes. No mesmo período o sistema educativo passou a ter mais 9 mil professores. E 40% das escolas apresentam turmas com 15 alunos e 26% têm menos de 10 alunos. No entanto, volta e meia ouve-se falar em falta de professores. Como explicar este paradoxo? Péssima gestão do sistema público de ensino. Problemas que começam no ministério, a nível central, e que terminam nas escolas (que não têm autonomia e parece que nunca ouviram falar no termo "gestão").

Pergunta: o leitor está surpreendido? Não, certo? Qualquer cidadão com dois dedos de testa pergunta como é que com menos alunos e mais professores há falta de professores...

Pergunta seguinte: o sistema é reformável? Provavelmente não."

BTW, nestes tempos de Zooms e Teams vocês lembram-se da Nicole e do Patapoufe nas tardes da televisão portuguesa? 

Treco retirado de "Como dar cabo da escola pública" no JdN de hoje. 

Surpreendidos pelo sucesso

Nesta "Curiosidade do dia" do passado dia 23 escrevi:

"Vai ser a repetição da migração que aconteceu com o têxtil e calçado francês e alemão a caminho de Portugal."

Entretanto, no JdN do passado dia 24 encontro, "Saúde bate recorde e exporta 4 mil milhões com ajuda alemã": 

"O Health Cluster Portugal, que agrega empresas, universidades, associações e outras entidades do setor, ainda não dispõe de dados que expliquem o inusitado aumento de 295% das vendas à Alemanha."

Parece que o Health Cluster Portugal foi surpreendido pelo próprio sucesso! Só no final do ano é que se aperceberam de um aumento de 295% nas vendas? Será que ninguém notou o crescimento ao longo dos meses? Nenhuma curiosidade em investigar? Nenhuma análise intermédia? Muito conveniente. Ou muito estranho. Ou ambas as coisas. 

Isto lembra a típica revisão pela gestão (cláusula 9.3 da ISO 9001): faz-se uma vez por ano, quando os números já são passado e a única coisa que resta é justificar ou lamentar. Indicadores lagging no seu esplendor! A gestão descobre o que aconteceu, mas tarde demais para influenciar o que acontece. O que custa perceber que indicadores leading e análises mais frequentes são mais úteis para actuar a tempo?

Quantas empresas caem nesta armadilha? Olham para o espelho retrovisor e não para o caminho à frente. Depois admiram-se que as decisões estratégicas sejam sempre reactivas. E assim se gere... ou melhor, assim se observa. 

terça-feira, fevereiro 25, 2025

Curiosidade do dia

Mão amiga fez-me chegar este eloquente elemento gráfico:

O gráfico animado pode ser encontrado aqui.


Do cavalo ao carro eléctrico

Ontem, durante a caminhada matinal, tive a oportunidade de ler cerca de metade do segundo capítulo de  "Kaput - The End of the German Miracle" de Wolfgang Munchau. O título é "Neuland". Não, não é sobre a minha marca preferida de marcadores, é sobre a internet e o digital. Em 2013 Merkel terá chamado à internet de "Neuland" como nós na Idade Média usávamos o termo "Terra Incógnita".

O capítulo é outra surpresa. Primeiro o autor defende porque é que a Alemanha é um país digital-unfriendly (em 2020 só 33% dos alunos tinha acesso à internet na escola. BTW, "teachers, as a profession, are among the first to warn about the negative consequences of digitalisation"). Depois, apresenta números que mostram o divórcio dos estudantes alemães com o estudo universitário dos cursos de engenharia, ciência e matemática. Depois, aborda o tema da fraca infraestrutura de suporte ao uso da internet:

"My favourite story about Germany's slow internet came from the deepest Sauerland, a region of rolling hills and dense forests to the south-east of Dortmund. A photographer needed to send a large photo collection to a printer that was 10 kilometres away. The total data volume was 4.5 gigabytes, which is about the size of an average movie. He organised a race - between an internet upload and his horse. He burnt his photos on to a DVD and gave his computer a twenty-minute head start because he had to get the horse ready. The horse not only won the race, but, after riding home and feeding the horse, the photographer found the internet transmission was still uploading."

Depois, o capítulo começa a embrenhar-se no desempenho da indústria automóvel alemã e o seu horror ao carro eléctrico. Até mudei a cor do sublinhado no livro ao chegar a este trecho. Juro que escrevi "Quando o gigante cai: Empresas e nações em risco" antes de ler isto:

"Small countries often have industries that dominate everything. Large countries are more diversified. The US has a very strong high-tech sector, but it constitutes less than 10 per cent of the entire economy. It is hard to calculate the share of the car industry in German GDP. We know that cars and car components make up some 16 per cent of exports, having peaked at 19 per cent in 2016. My favourite measure is value added - because it disentangles the complex supply chains and isolates those parts of manufacturing activity done in the country. According to Germany's Federal Statistics Office, the German car industry alone constitutes almost 20 per cent of the value added in the entire industrial sector - this is massive for a single industry.

The memorable quote by Charles Wilson, President Eisenhower's defence secretary, comes to mind, here: What is good for GM is good for America. That was the 1950s. Nobody in the US would say that anymore, not even about Google or Apple. But they are still saying the equivalent in Germany. The German version has many names: there is Volkswagen, which also owns Audi and Porsche; Mercedes; and BMW. International car makers also have car plants in Germany: Ford, Opel, and nowadays even Tesla.

Of the forty companies now in the German DAX stock index, seven are from the car industry. The industry employs 786,000 people directly. Their future is not looking too bright. Many will lose their jobs, especially in supplier industries. The problem is a skills mismatch. A fuel-driven car is a mechanical-engineering product. An electric vehicle is a digital device at heart. Its engine only has a fraction of the parts of a fuel engine - and they are different parts.
...
There are many problems with corporatist constructs. The biggest one is that when the industry starts to decline, so will the country.
This whole corporatist world lived under the illusion of control - they believed they were in charge and would remain in charge forever. The reality is that, while they were asleep at the wheel in Berlin, Wolfsburg, Stuttgart and Munich, China was busy creating an entire new industry from scratch. The Chinese managed to come from nowhere to become the world's largest car exporter in just a few years."

Volto a mudar de cor no sublinhado aqui acerca da transição para o carro eléctrico:

"What is happening here is not a technical evolution. The electric car works differently and is made by different people. Remember the typewriters? We know how that story ended. Desktop computers and laptops, and the availability of cheap high-quality printers, killed the typewriter industry within a few years. Smartphones, with their sophisticated Al-driven photo software, killed the market for consumer cameras, along with GPS devices, watches, compasses and many more paraphernalia people used to schlep around. When that happens, not only does the product change, but so does the producer. The German car makers are the typewriter champions of our times.

As they used to say in the 1970s: the world will always need typewriters. Until recently, many believed the world would always buy German cars."

Depois, algo que conhecemos muito bem no nosso país:

"The Chinese had increased their market share in Europe from zero to 8 per cent by 2023. The European Commission calculated that this share would go up to 15 per cent by 2025 and has therefore announced protective tariffs of up to 38.1 per cent on imported Chinese electric cars from July 2024.

This is the playbook of how industries decline. After they have manoeuvred themselves into a corner, they start to call for subsidies and for trade barriers. The consequence will be that EU consumers will pay higher prices for the same product compared to Chinese." 

Sabem o que costumo escrever aqui acerca do futuro do calçado e do têxtil? Nichos. 

"I am not saying that the German car industry will go from a hundred to zero in five years. Germany will still produce cars. But the industry will employ fewer people. And, more importantly, German companies will not dominate the industry as they did in the past. Tesla and the Chinese are the global market leaders.

...

I am reminded of what happened to the manual watch industry after the arrival of digital and smart watches. Rolex is still making money, because the product is not simply a watch, but jewellery. The status-symbol end of the car market may well be the biggest niche for Germany, and a profitable one. But it is small."

segunda-feira, fevereiro 24, 2025

Curiosidade do dia


No livro "hat is Strategy" de Seth Godin sublinhei o trecho:
""If only" is a trap.
If the constraints went away, you'd be playing a totally different game, because your competitors would see their constraints lifted as well.
Constraints are a gift because they bring us something to lean against, and they give us the chance to focus.
Sometimes, the situation changes, and constraints are lifted. In those moments, we need to be hyper-aware of the new possibilities. The rest of the time, instead of cursing the boundaries, we can celebrate them.
The most interesting strategies happen at the edges, and the edges exist because that's where the constraints are."

Sem constrangimentos não pode existir concorrência imperfeita e, em condições equitativas, "level playing field", apenas os mais fortes prevalecem.

Lembrei-me deste trecho ao ler o artigo "Strategy in an Era of Abundant Expertise - How to thrive when AI makes knowledge and know-how cheaper and easier to access" publicado pela Harvard Business Review (January-February 2025).

E agora lembrei-me da citação ali ao lado:

"When something is commoditized, an adjacent market becomes valuable"

Pois:

"1. Which aspects of the problem we now solve for customers will customers use AI to solve themselves?

...

2. Which types of expertise that we currently possess will need to evolve most if we are to remain ahead of AI's capabilities?

...

3. Which assets can we build or augment to enhance our ability to stay competitive as AI advances?"


O canário na mina


O primeiro capítulo de "Kaput - The End of the German Miracle" de Wolfgang Munchau  , "The Canary", foi uma relevação para mim.

O autor defende que o sistema bancário corporativista da Alemanha, base do seu modelo neomercantilista focado em exportações e na indústria tradicional, [Moi ici: Basta reler o texto do JdN do passado dia 21 de Fevereiro, página 8, "Quanto mais a Alemanha exportar, melhor para Portugal"] entrou em colapso, antecipando problemas futuros na economia alemã. 

Historicamente, este sistema dividia-se em três pilares: bancos privados, como o Deutsche Bank e o Commerzbank, bancos estatais (Landesbanken), que apoiavam políticas económicas regionais, e bancos cooperativos (Sparkassen), voltados para o financiamento local, caracterizando-se por ser fortemente estatal e descentralizado, funcionando como um subsidio à indústria. Os Landesbanken, essenciais para financiar sectores como o aço e a energia, eram influenciados por interesses políticos, como no caso da WestLB, que se tornou um instrumento de clientelismo na Renânia do Norte-Vestfália. Na busca por lucros, estes bancos arriscaram em investimentos internacionais de alto risco e, durante a crise de 2008, sofreram perdas enormes com hipotecas subprime nos EUA, levando à dissolução da WestLB em 2012 e ao fim do modelo de finanças públicas que sustentava o neomercantilismo. Este colapso revelou as fragilidades estruturais na economia alemã, como a excessiva dependência de indústrias tradicionais, a falta de investimento em inovação e digitalização e a inexistência de um mercado de capitais eficiente para startups, mantendo o país preso a um modelo do século XX, enquanto nações como os EUA e a China progrediam na digitalização.

O autor compara os Landesbanken a "o canário na mina de carvão", um sinal precoce do colapso do modelo económico alemão. A falência desses bancos revelou as fraquezas estruturais da economia alemã e seu fracasso em se adaptar às mudanças tecnológicas e geopolíticas. Münchau argumenta que a Alemanha não diversificou sua economia e ignorou tendências tecnológicas cruciais, o que a deixou vulnerável em um mundo cada vez mais digitalizado.

"The German economy remains reluctant to diversify into new sectors, and so it continues to be dependent on industries that are long past their prime.
...
One of the reasons Germany is missing out on high-tech companies is lack of finance. Germany has more than its fair share of talented researchers. But the financial systems cannot support them.
...
The biggest problem, as I see it, is political selection bias. The state banks were ultimately backward-looking, and not geared towards company start-ups.
...
Like most things in life, the Landesbanken system did not fail in theory, it failed in practice. The defenders of the system argued that the state served as a hedge against excessive risk-taking by private banks. But it was the Landesbanken that ended up taking the most reckless risks."

domingo, fevereiro 23, 2025

Curiosidade do dia

No JN de hoje, "Exportações de calçado sobem em volume mas caem em valor": onde se pode ler:
"Portugal exportou 68 milhões de pares de calçado para 170 países em 2024, um crescimento de 3,9% em volume, mas uma quebra de 5,4% em valor face a 2023, para 1.724 milhões de euros, segundo o INE. A Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos destaca que este recuo compara com uma perda de 8,2% do maior concorrente de Portugal, a Itália, e uma quebra de 7% do maior produtor mundial, a China."

Vender mais e receber menos pode ser explicado por:

  • vender peças mais baratas e cortar na margem;
  • vender peças mais baratas e recorrer à subcontratação no exterior;   
  • vender menos calçado de couro (mais caro) e vender mais calçado de outros materiais.
Entretanto, no JdN de sexta-feira passada em ""Impacto será positivo seja qual for o resultado das eleições"" pode ler-se:
"PME alemãs querem investir 
O responsável acredita também que o investimento direto germânico em Portugal vai crescer. "Vemos muito interesse de empresas alemãs em trabalhar mais com a indústria portuguesa. Há dias tivemos cá uma delegação de compradores de empresas importantes da Alemanha, organizamos mais de 90 reuniões com possíveis fornecedores portugueses e o "feedback" alemão foi muito positivo, superou as expectativas", avança. "Vemos mais investimento de empresas alemãs. Dizem que a mão de obra em Portugal é ótima, que a infraestrutura é boa". Estou seguro que o comércio e os investimentos alemães em Portugal vão crescer". ", estima."

Vai ser a repetição da migração que aconteceu com o têxtil e calçado francês e alemão a caminho de Portugal. Por sua vez, as empresas portuguesas do nível de produtividade anterior ou fecham ou deslocalizam. Flying Geese ao vivo e a cores:

Por exemplo, se a Alemanha for o país A e Portugal for o país B, então, Marrocos será o país C.


Quando o gigante cai: Empresas e nações em risco

Esta semana, durante a minha habitual conversa com o meu parceiro das chamadas "conversas oxigenadoras", falámos sobre os perigos da dependência excessiva. Começámos por discutir uma empresa que vive à sombra de um único cliente grande. Imaginem uma pequena ou média empresa (PME) que, de repente, é escolhida por uma gigante para ser fornecedora regular. Cresce rapidamente, adapta-se às exigências desse cliente, mas acaba prisioneira da relação. Não é o Euromilhões que parece à primeira vista.

Os riscos são claros. Se o cliente reduzir pedidos, atrasar pagamentos ou romper o contrato, a empresa enfrenta uma crise financeira imediata. O poder de negociação fica desigual: a gigante impõe preços baixos, prazos longos ou condições difíceis — como se viu recentemente num e-mail da Simoldes aos seus fornecedores mais pequenos. Sem alternativas, aumentar lucros torna-se quase impossível. Pior, o foco num só cliente trava a inovação e a busca por novos mercados. A empresa especializa-se tanto que, se o cliente desaparecer, adaptar-se a outros torna-se um desafio. A longo prazo, o crescimento estagna e atrair investidores fica mais difícil. Um colapso é um risco real. Uma vida sem autonomia estratégica.

Enquanto reflectia sobre isto ao almoço na sexta-feira, ocorreu-me uma ideia: e se aplicarmos esta lógica a uma escala maior? O que acontece a um país cuja economia depende de poucas empresas dominantes? Pensei num Portugal com cinco ou seis Autoeuropas, onde um punhado de gigantes controla sectores estratégicos e sustenta grande parte do PIB. As fragilidades saltam à vista.

Se uma dessas empresas/sectores tropeçar — por dificuldades financeiras, perda de competitividade ou deslocalização —, o impacto no país pode ser devastador. Economias concentradas em sectores como o turismo, a indústria automóvel ou o petróleo ficam mais expostas a crises globais. Essas gigantes influenciam políticas públicas, limitam a concorrência e dificultam o surgimento de novos negócios. Despedimentos em massa afectam o emprego nacional, e trabalhadores especializados podem ficar sem opções. As PME, por sua vez, lutam por crédito e apoios, já que os recursos se concentram nos grandes. Se os lucros dessas empresas caem, as receitas fiscais também, forçando o governo a oferecer incentivos para as manter, mesmo que sejam insustentáveis.

A analogia entre uma PME dependente e um país refém de poucas empresas é reveladora. Veja-se a Alemanha: outrora um modelo de sucesso, hoje enfrenta um declínio económico, como noticiou o Wall Street Journal a 21 de fevereiro, "Germany Goes From Model to Broken Economy". A sua indústria encolheu, os custos subiram, as exportações caíram. Faltou diversificação e coragem para mudar, dizem os analistas. Será um exemplo perfeito desta dependência?

"A decade ago, Germany was the model nation. Its economy hadn't just withstood the ascendance of China; it was thriving in its wake. Its balanced public finances stood out in a world of huge government debt. And while British and U.S. lawmakers were caught up in the culture wars, German politicians continued to practice the art of compromise.
Today, Germany has gone from paragon to pariah. Its economic model is broken, its self-confidence shattered and its political landscape fractured. Europe's former growth engine has shrunk for two years in a row, erasing any recovery made since the Covid-19 pandemic. Its manufacturing output is down about 10% over the same period and its companies, squeezed between rising costs and falling exports, are shedding thousands of jobs a month. 
...
There are external causes for this malaise, from the war in Ukraine to U.S. protectionism and China's economic slowdown.
Yet some analysts, economists and historians think Berlin mismanaged its response. The reason: the preference for the status quo over change, for reaction over action and for caution over risk.
This is partly the wage of success. As long as Germany's economy was growing, brushing aside the financial crisis and the eurozone debt crisis, there was no pressure to course-correct, said historian Timothy Garton Ash, author of "Homelands," a history of Europe in the past 50 years."

Recordo o meu último trabalho por conta de outrem. Em apenas um ano, a empresa passou a produzir num dia o que antes fazia em duas semanas. Cresceu, sim, mas ficou quase totalmente dependente de um cliente. Os outros tornaram-se um estorvo. É uma lição simples, mas poderosa: depender de poucos, seja numa empresa ou numa nação, é jogar com o equilíbrio na ponta de uma faca. Será que Portugal — ou mesmo a Alemanha — pode diversificar antes que o fio se parta?