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sábado, janeiro 31, 2026

Não basta matar os zombies


Ao longo dos anos e sobretudo no último mês tenho escrito aqui sobre os zombies

Os zombies são empresas que sobrevivem sem criar valor suficiente para se sustentarem, mantendo-se activas apenas graças a crédito barato, apoios públicos, tolerância fiscal ou adiamento sistemático de decisões difíceis.

Não geram capital suficiente para investir, inovar ou crescer, consomem recursos escassos (capital, pessoas, atenção) e bloqueiam a entrada de empresas novas ou melhores. Estão vivas do ponto de vista legal e estatístico, mas mortas do ponto de vista económico.

Estou sempre a pedir para deixarem as empresas (zombies) morrerem. O que acontece se os zombies morrerem? 

Se os zombies morrerem a produtividade do país aumenta. A produtividade é um rácio, se os zombies morrerem, o denominador diminui logo a produtividade cresce.

A produtividade como indicador estatístico cresce, mas o país real não melhora se apenas morrerem os zombies. A jogada tem de ser em dois tabuleiros:
  • deixar os zombies morrerem;
  • criar condições para que empresas mais produtivas anónimas, sem necessidade de contactos com o poder, apareçam. 
Ontem o FT publicou um artigo que vem ao encontro destes temas, "Growth Productivity uplift reflects loss of lower-paid jobs":
"Productivity growth has been in the doldrums for years. 
...
Economists differ on whether the latest data is promising or worrying because the main reason productivity has improved is low-paid jobs being cut.
These job losses have been centred on hospitality and retail, sectors that were especially hard hit by last year's increases in national insurance and the minimum wage.
...
Economists at the Resolution Foundation think-tank believe job losses at failing "zombie" companies could bode well for the future, if they "begin to make room for more and better jobs to be created". But, they admit: "We haven't seen it yet."
Saunders remains sceptical. "If you kill off the zombies. it's not creative destruction. It's just destruction.""

Matam-se os zombies ... e apenas temos silêncio ... e o que é o silêncio? Um sinal, como no conto dos mastins dos Baskerville, um sinal de que esse silêncio é relevante.

Esse silêncio sinaliza que a jogada "criar condições para que empresas mais produtivas anónimas, sem necessidade de contactos com o poder, apareçam" está a falhar. Por isso, este título "Não são elas que precisam de Portugal, Portugal é que precisa delas" e o que escrevi em "Descida do IRC é injusta".

O argumento de que a descida é “injusta” porque muitas empresas não pagam IRC parte de uma obsessão com as empresas existentes. É o mesmo erro conceptual que atravessa toda a discussão sobre produtividade. O problema nunca foi ajudar quem está; o problema é não criar condições para que apareçam empresas que hoje não existem — empresas capazes de pagar salários mais altos porque criam mais valor, não porque foram protegidas ou subsidiadas.

Enquanto não houver uma alteração real da composição da economia — aquilo a que chamo, recorrendo aos Flying Geese, subir para outras actividades — continuaremos presos a este jogo de ilusões estatísticas. Cortar empregos mal pagos não cria automaticamente empregos bons. Matar zombies não gera vida nova. E baixar impostos sem atrair empresas diferentes não muda o ADN do sistema.

"Se nós eliminarmos a empresa mais improdutiva, a produtividade do sector sobe muitíssimo"

Erik Reinert escreveu qualquer coisa como:

"As was so obvious to American economists around 1820, a nation - just as a person - still cannot break such vicious circles without changing professions."

Um país não consegue sair de círculos viciosos de pobreza apenas fazendo melhor o que já faz; tem de mudar de actividades, de sectores, de “profissões” económicas.

Que Munchau recentemente reescreveu como:
"It's no longer about how you do it; it's about what you do."

terça-feira, outubro 15, 2019

Produtividade e socialismo (Parte III)

Parte I e parte II.

Começo a escrever estas linhas ao entrar no Túnel do Marão, numa viagem que me vai levar a Bragança.

Primeiro li este artigo "Metade das empresas mais pequenas têm um gestor com o 9º ano ou menos" e fiz duas coisas:
  • Publiquei isto no Twitter

  • Deixei este comentário na parte II 
"Deixem as empresas morrer
Bons eram os Bavas e Salgados"
Depois, comecei a ler o Jornal de Negócios de ontem (obrigado @walternatez) onde encontrei, "Empresas Zombie empregam mais de 20% em vários setores". O que mais me surpreendeu foi ver a "doença tuga" plasmada tão abertamente:
"Concluiram que, em 2015, 6% do universo estudado eram empresas-zombies (em 2013 eram 8,5%).  O número actual parece baixo, mas a melbor forma de percebrer se estas empresas estão a prejudicar a economia não é pelo seu número. Há que avaliar o seu impacto no emprego e no capital.
.
E aqui a conclusão é prcocupante: "Em Portugal as empresas-zombie são responsáveis por uma parte significativa do emprego: em alguns sectores, mais de um em cada cinco trabalhadores estão empregados numa empresa-zombie; em particular em algumas regiões, esse número aumenta para um em cada três", lê-se no artigo.
.
O estudo mostra ainda que em certos sectores estas empresas chegam a deter 25% do capital tangível, isto é, do que pode ser medido, como edifícios, máquinas, equipamentos ou outros.
.
Daí que seja preciso cuidado na forma como se gere economicamente o problema das empresas-zombies. "Potenciar a saída dessas empresas menos produtivas é certamente relevante para o funcionamento eficiente da economia, mas é neessário considerar todas as suas implicações," frisam os autores do estudo."
O último sublinhado faz-me lembrar o quão diferente analizo a situação política portuguesa versua a espanhola. Aprendi com Nassim Taleb não neste artigo, mas em escritos mais antigos, isto:
"Why has seemingly stable Syria turned out to be the fragile regime, whereas always-in-turmoil Lebanon has so far proved robust? The answer is that prior to its civil war, Syria was exhibiting only pseudo-stability, its calm façade concealing deep structural vulnerabilities. Lebanon’s chaos, paradoxically, signaled strength."[Moi ici: O título do artigo diz tudo: "The Calm Before the Storm - Why Volatility Signals Stability, and Vice Versa"]
Esta é a "doença tuga", tão preocupados e concentrados na estabilidade como valor supremo e não conseguem ver que esta vai acumulando desequilibrios. Qunto mais tempo dura, maiores os desequilíbrios, mais dolorosa vai ser a sua correcção.

Quando se estuda a evolução da esperança de vida...
  • Em Portugal em 1960 a esperança média de vida rondava os 62, 8 anos;
  • Em Portugal em 2016 a esperança média de vida rondava os 81,1 anos.
Como é que se deu um ganho tão grande?
Por causa da baixa drástica da mortalidade infantil.

Ou seja, a produtividade crescerá uns cagagésimos com o esforço de melhoria nas empresas que já têm níveis de produtividade superiores e, poderá crescer muito mais com o desaparecimento das empresas-zombies.

Quando comparamos a produtividade média portuguesa com a de outros países esquecemos-nos destas empresas-zombies. Por isso, cometo o sacrilégio de apontar o dedo aos que não têm constância de propósito:


Assim, podemos acabar com esta simulação, por parte dos políticos, de preocupação com a baixa produtividade das empresas portuguesas. Aumentar a produtividade implicaria ousar deixar a economia funcionar e premiar os mais capazes.

Ter um gestor com o 9º ano não é cartão de menoridade. Afinal os primeiro-ministros e ministros das finanças que por três vezes levaram o país à falência tinham muito mais do que o 9º ano de escolaridade; afinal os banqueiros que "emprestaram" dinheiro com critérios-criativos tinham muito mais do que o 9º ano de escolaridade, afinal o ministro da economia sabia como tratar da produtividade, afinal os cursos de gestão em Harvard e na Suíça ensinam a aumentar a produtividade.

Tenho muito respeito pelos gestores, pelos proprietários das empresas, mesmo das empresas-zombies, gente com skin-in-the-game e que faz o melhor que pode, o melhor que sabe, o melhor que os deixam. Não tenho respeito nenhum pelos que os criticam sem skin-in-the-game, protegidos por um emprego no estado.

Tenho muito respeito pela propriedade privada.

Por isso, opto pela resposta de Popper à pergunta de Platão sobre: Quem deve governar a cidade?

A pergunta certa não é quem deve gerir as empresas. A pergunta certa é: como se facilita a morte das empresas-zombies?


BTW, a comunicação social está pejada de empresas-zombies, desde o Diário de Notícias, passando pela TSF e jornal i.

sábado, agosto 31, 2024

Em Portugal, a conversa de café é a norma (parte IV)

No final da parte III volto a insistir num conjunto de teclas que rotulo de  importantes e que costumo referir aqui no blogue sempre que falo em aumentar a produtividade do país:

Entretanto, encontrei essas mesmas teclas no FT de 29.08.2024 no artigo "Japan must slay its start-up zombies".

Sempre que penseo em empresas zombies penso num velho esquema que desenhei em 2008:
Quando se baixa o peço do dinheiro (juros baixos, apoios e subsídios) reduz-se a exigência de rentabilidade, reduz-se o risco, reduz-se a taxa de mortalidade das empresas, mesmo quando não ganham dinheiro, ou seja ficam zombies.

Se as empresas zombies não morrem, recursos escassos ficam agarrados a projectos condenados a rentabilidades medíocres. No agregado, é o país que não vê crescimento da produtividade. O crescimento da produtividade de um país precisa de "turbulência". Ou seja empresas morrem e libertam recursos para novas empresas.

"In a courageous bit of cross-platform marketing, the chief executive of Japanese investment bank Nomura has begun appearing in adverts for the country's most aggressive online job-seeking platform, Bizreach.

...

But the message underlying the adverts is unmistakable: corporate metabolism has resumed in Japan after a long dormancy. A system that once inefficiently hoarded human resources is now watching those self-deploy elsewhere. ...

After decades of resource misallocation, risk-aversion and stagnancy, Japan's job market looks more liquid. Critically, it feels like an environment where start-ups can aspire to recruiting the nation's best people, say managers at venture capital funds.

All this provides a strong tailwind for the Japanese government, which has invested a great deal of hope and funding into transforming the country's once anaemic start-up scene. It is, on one viewing, a grasp for panacea.

The ambitions are charged with the faith that start-ups can drive GDP growth and productivity, rescue the country from a long-term innovative tailspin and channel its talent in the right — or at least less wrong - direction. It has a belated, even desperate feel to it, but start-ups now seem to be Japan's core industrial policy.

...

Under heavy government pressure, Japan's three biggest banks have begun offering start-ups loans backed against current and future cash flow, breaking their entrepreneurialism crushing habit of only lending against hard collateral such as the property of a would-be start-up founder.

...

Looming over this success is a coming moment when, if it wants the private sector to come in as a big investor in its start-up market, Japan must confront what it means to have a working capitalist metabolism. [Moi ici: E Portugal também, sabem o que é que isto significa? Deixem as empresas morrer!!!] After decades of holding the cost of money as low as it can go, the country has shown a high tolerance for zombies and a low tolerance for carnage. If private money is to flow, that won't work this time.

A start-up-driven economy, [Moi ici: O Japão precisa de fazer a transição dolorosa para abandonar 40 anos de estagnação e aposta em start-ups. É o mesmo que Portugal precisa de fazer, mas como a Irlanda, como se ilustra na parte II, acredito que será mais rápido com investimento directo estrangeiro. Mas o ponto principal é que o Japão já percebeu que não é com as empresas actuais que dará o salto. Algo que é bem ilustrado pela figura dos "Flying Geese"] with lots of private investment, only works if participants and overseers accept that failure is as necessary a function of this metabolism as success. Investment in start-ups is driven by a promise of extraordinary returns, but that promise can only be kept if everyone is tested against a pressing threat of demise. For too long, Japan's deflationary economy and ultra-low interest rates meant that low profitability survival was a valid corporate option: that would never - and did neverbring in the VCs and risk capital.

But Japan is now normalising, and there is a real sense that things are going to break.[Moi ici: Conseguem imaginar como seria ver isto em Portugal? Conseguem imaginar como o discurso do "Ajudem-me, sou um coitadinho, sou uma vítima de uns maus" começava a acabar em prol de um pouco português "keep a stiff upper lip" mas pragmático equacionar se a situação é estrutural ou conjuntural]  The problem with an industrial policy, for all the good intentions, is that it draws legitimacy from the pledge of long-term nurture. Japan will soon see if it has a taste for state-backed destruction."

Imaginem uma conversa destas em Portugal... imaginem dizer ao filho de cinco anos:

"- A actuação do vosso ano na Festa de Natal do jardim-escola foi uma valente porcaria!"

Parte I, Parte II, Parte III e Parte IV.

sábado, março 31, 2018

Empresas zombie


Este esquema que me acompanha desde o Verão de 2008 ajuda a enquadrar "Zombie companies walk among us":
"For vampires, the weakness is garlic. For werewolves, it’s a silver bullet. And for zombies? Perhaps a rise in interest rates will do the trick.
...
The fundamental concern is that there are companies which should be dead, yet continue to lumber on, ruining things for everyone. It’s a vivid metaphor — perhaps a little too vivid — and it is likely to be tested over the months and years to come if, as almost everyone expects, central banks continue to raise interest rates back to what veterans might describe as “normal”.
...
 the tendency of low interest rates to sustain zombie companies.[Moi ici: Quanto mais baixas as taxas de juro menor a exigência de rentabilidade, menor a exigência de risco, menor a exigência de pureza estratégica]
...
low interest rates seem conducive to the existence of zombies, which they define as older companies that don’t make enough money to service their debts. As interest rates have fallen around the world, such zombies have become more prevalent and have also shown more endurance.
...
 It is necessary that the zombies must die, but that cannot be where the story ends."



sexta-feira, janeiro 16, 2009

Zombies - uma ameaça real

Este artigo da revista Business Week alerta para um perigo real, as empresas zombie "A New Menace to the Economy: 'Zombie' Debtors"
.
"zombies are debtors that have little hope of recovery but manage to avoid being wiped out thanks to support from their lenders or the government. Zombies suck life out of an economy by consuming tax money, capital, and labor that would be better deployed in growing companies and sectors. Meanwhile, by slashing prices to generate sales, zombie companies can drag healthier rivals into insolvency."
...
"Postponing the decision by supporting sick and healthy alike will only make the eventual pain greater and reduce growth. "If an institution is poorly managed and does not have a reasonable plan for working out its problems, they ought to go ahead and shoot it,""
...
"Protecting zombies can stunt long-term growth by blocking what economist Joseph Schumpeter called "creative destruction"—the painful but necessary reallocation of resources from declining companies and sectors to rising ones."
...
"When a big employer runs into trouble, it's tempting to keep it going at any cost. Economists call this "lemon socialism"—the investment of public money in the worst companies rather than the best. The impulse is misguided, says Yale University economics professor Eduardo M. Engel. "You don't want to protect the jobs," he says. "What you want to protect is workers' income during the transition from one job to another." "
.
Artigo após artigo, semana após semana, constato que afinal a minha visão das coisas não é assim tão básica Como eu olho para a crise

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Curiosidade do dia



Recordo muitas vezes uma frase que ouvi há mais de 10 anos:
"Um brasileiro é um português à solta"

Lembrei-me dela a propósito de: "Brazil: The heart of the 'zombie' economy in emerging markets":

"The results indicate that, on average, static ‘zombies’ account for 7.58% of firms and dynamic ‘zombies’ for 5.49% across emerging markets. Brazil consistently exhibits the highest shares, with 16.75% for static ‘zombies’ and 13.94% for dynamic ‘zombies’, approximately 2.3 times higher than the emerging market averages, confirming its status as the largest ‘zombieland’ in the group."

Sobre Portugal encontrei: "Revisitar as Empresas Zombie em Portugal (2008-2021)":

"em média anual entre 2008 e 2021, 4,8% dos recursos humanos e 5,8% do capital (ativos) estão aplicados em empresas zombie,"

quarta-feira, dezembro 19, 2018

Deixem as empresas morrer!

Há dias no parte I da série "Gabiche?" escrevi:
"Como é que o anónimo da província responde à pergunta sobre como se aumenta a produtividade?
.
Deixem as empresas morrer!"
Como não recordar este título de um postal de 2009: "Deixem as empresas morrer, se querem criar a economia do futuro, deixem de apoiar as empresas do passado"

Entretanto, comecei a ler um documento que o Rui Moreira me enviou. Nele encontro "Zombie Companies in Portugal - The non tradable sectors of Construction and Services" de Gabriel Osório de Barros, Filipe Bento Caires e Dora Xarepe Pereira.
"The present study shows that between 2008 and 2015, in the Portuguese non-tradable sectors of Construction and Services, between 5.2% (2008) and 12.5% (2013) of companies in the market were zombies.
.
We also confirm the theoretical predictions and previous empirical results that a greater zombie presence in Construction and Services has significant negative implications on healthy companies operating in the same sector, namely reducing investment and employment and increasing the productivity gap between companies more and less productive in each sector.
...
define zombie companies, characterizing them as companies with more than a decade of existence that do not generate sufficient revenues in their regular activity, persistently dependent on bank credit and that usually pay high wages considering the productivity of the sectors in which they operate. The productivity of these companies is much lower, contributing to decrease productivity in the different sectors where they are installed. This performance causes congestion and inefficiency in the market, among other factors, because'',
  • Encourages inefficient companies to remain in the market, since easy access to bank credit gives them the possibility to continue their activity; 
  • Attracting financial resources through the banking system reduces available credit and makes it impossible for viable companies to stay and progress; and 
  • Prevent the entry of new companies, willing to innovate and to be more productive."
...
These results indicate not only that the presence of zombies in these sectors of the Portuguese economy may have amplified the negative consequences of the crisis but also that they may be slowing the recovery of the economy, distorting the capture and application of resources by healthy companies. Taking into account all the companies studied, the implications for product growth and job creation (not destruction) are especially relevant at the aggregate level.
...
This result highlights two important issues. On one hand, the prevalence and persistence of zombie companies that, in normal conditions, would terminate activity causes a reduction in the level of productivity of the sectors and consequently in the economy, undermining their growth. On the other hand, new companies wanting to enter the market need to achieve higher levels of productivity to compensate for the reduction in market profitability caused by zombie congestion and to be able to compete with the most productive companies in their sector. This process perpetuates the productivity gap between zombies and non-zombies, while the former continue to be able to survive." 




domingo, janeiro 18, 2026

Quando até o Financial Times sussurra sobre a morte


Ao longo dos anos, tenho escrito aqui sobre a importância de subir na escala de valor e de deixar as empresas morrerem.

Houve um tempo em que até sugerir que a morte económica pudesse ser necessária era considerado moralmente inaceitável. Dizer que empresas deveriam falhar, que empregos deveriam desaparecer ou que sectores deveriam encolher era visto, no melhor dos casos, como insensível; no pior, como desumano.

Esse tabu começa a estalar agora.

Num artigo do passado dia 16 de Janeiro, o Financial Times coloca uma pergunta desconfortável: "Would a ‘mild zombie apocalypse’ be a good thing for the UK economy?" O simples facto de esta pergunta poder hoje ser feita, precisamente nesse jornal, já é significativo.

O ponto de partida do artigo é sólido e baseado em evidências empíricas. As diferenças de produtividade entre empresas são enormes. Como o texto assinala:

"turnover per employee is around 17 times higher in the top decile of construction companies than in the bottom decile."

Não se trata de uma diferença marginal; é um fosso estrutural. 

Mais importante ainda, o artigo reconhece algo que durante muito tempo foi politicamente incómodo dizer em voz alta: o crescimento da produtividade não resulta apenas da inovação e da difusão de novas ideias, mas também da saída:

"An important component [of productivity growth] has come from zombified companies and jobs shrinking away."

Esta é uma admissão relevante.

O artigo reconhece também que o Reino Unido, tal como muitas economias avançadas, se tornou pior a fazer este tipo de limpeza estrutural:

"Over the 2000s and 2010s the UK economy, along with many others, seemed to become worse at clearing out its zed heads."

A rotação de empregos entre empresas em declínio e em crescimento diminuiu, e a mobilidade sectorial abrandou. A economia tornou-se mais pegajosa, menos dinâmica, mais relutante em largar.

Existem, sugere o artigo, alguns sinais ainda tímidos de inversão.

"In 2024 job destruction from closing companies was at its highest rate since 2011."

Taxas de juro mais elevadas, o aumento dos preços da energia e subidas do salário mínimo poderão estar a pressionar as empresas mais fracas.

"Could higher interest rates, energy prices and minimum wages be clearing out zombified bits of the economy?"

Até aqui, tudo bem.

E, no entanto, apesar de todos os seus méritos, o artigo nunca ousa dizer claramente o que já sabe.

A linguagem do medo

O primeiro sinal está na linguagem. O apocalipse tem de ser “mild”. Os sinais são “early”. A avaliação da Resolution Foundation é cuidadosamente rodeada de reservas. Como a própria autora nota:

"I would probably emphasise the ‘early’ part of the Resolution Foundation’s assessment."

Cada ideia forte é suavizada antes de poder entrar na sala.

Isto não é acidental. Reflecte um profundo desconforto com a ideia de morte económica. O artigo anda à volta do tema, aponta para ele, chega mesmo a brincar:

"a bit of gore could be tolerable"

Mas nunca o encara de frente.

O segundo sinal está no enquadramento moral. As perdas de emprego são repetidamente descritas como devastadoras, e com razão. “Job losses can be devastating, and their victims deserve help,” insiste o artigo. Mas a repetição cumpre também outra função: funciona como um pedido de desculpa antecipado por sequer admitir o argumento.

A mensagem implícita parece ser: sabemos que isto pode ser necessário, mas por favor não pensem que somos desumanos por o dizer.

O terceiro sinal está no ponto onde o artigo pára.

A pergunta que fica por fazer

Perto do final, o Financial Times chega àquilo que é, de facto, o núcleo de todo o debate:

"For a truly happy ending, the cleared-out zombies need to be replaced by healthier humans."

Esta frase carrega muito peso. Reconhece que a destruição sem regeneração não resolve nada. Reconhece implicitamente que a saída é apenas metade da história.

Mas o artigo não coloca a pergunta óbvia que se segue.

Se o crescimento da produtividade depende em parte da saída, se a saída tem sido sistematicamente suprimida durante décadas, e se os zombies ocupam espaço que empresas mais saudáveis poderiam usar, então o verdadeiro enigma não é saber se a destruição é desagradável. Ela é-o sempre.

O verdadeiro enigma é este: O que é, exactamente, que tornou as economias modernas tão receosas de deixar morrer?

Que políticas, incentivos e hábitos institucionais transformaram o fracasso em algo a evitar a quase qualquer custo? Porque é que impedir a saída se tornou um objectivo implícito da gestão económica? E o que acontece a um sistema que suprime um dos seus próprios mecanismos de renovação?

O artigo do Financial Times aproxima-se destas perguntas, mas não as atravessa. Trata a zombificação como um efeito colateral lamentável, em vez de a reconhecer como o resultado previsível de escolhas feitas em nome da estabilidade.

Essa hesitação é compreensível. Nomear a morte como uma característica, e não como um defeito, do progresso económico continua a ser quase um tabu. Ainda hoje, tem de ser sussurrado, suavizado, rodeado de cautelas.

Mas, uma vez iniciado o sussurro, torna-se difícil travar o desdobrar da lógica.

Se o crescimento da produtividade depende da saída, se os sistemas se tornam rígidos quando a saída é bloqueada, e se os zombies persistem porque construímos instituições para os proteger, então o verdadeiro perigo pode não ser o de a destruição ir longe demais, mas o de não ir suficientemente longe.

É este o pensamento para o qual o artigo aponta, mas que ainda não consegue abraçar plenamente.

No próximo texto, quero abandonar os eufemismos e olhar directamente para o próprio mecanismo: porque é que a produtividade cresce por selecção, e não por esforço — e porque é que os sistemas que recusam a morte acabam por perder a capacidade de aprender.

Uma nota final

Ao longo deste artigo falei de morte económica, de zombies e de sistemas que perdem a capacidade de aprender.

Mas há uma alternativa clara entre desaparecer e sobreviver em estado comatoso: subir na escala de valor e voltar a criar vida económica real.

Ao longo dos últimos 30  anos tenho ajudado empresas a fazer precisamente isso — não com discursos inspiracionais, mas com uma abordagem estruturada que liga estratégia, processos e execução, combinando o Balanced Scorecard, a Teoria das Restrições e a abordagem por processos.

Se quiser perceber como uma empresa pode sair da lógica da sobrevivência, libertar capacidade, focar no que realmente cria valor e construir, de forma deliberada, o desempenho futuro, deixo aqui uma proposta concreta e os próximos passos.


quinta-feira, junho 25, 2020

I see zombies everywhere!

Em Outubro passado escrevi aqui no blogue em, "Produtividade e socialismo (parte III)", sobre as empresas zombies em Portugal, na altura supostamente seriam mais de 20%.

Já em Dezembro de 2018 tinha escrito aqui no blogue sobre o grito: "Deixem as empresas morrer!"

Já em Maio deste ano voltei ao tema com "E a zombificação?"

"Money has never been cheaper. Governments and central banks have acted quickly to make it both plentiful and accessible to support companies through the pandemic downturn. The cure, however, has a sting in its tail. As policymakers begin to unwind job retention schemes and other support measures the concern is that economic recovery will be held back by a proliferation of debt-laden companies shuffling across a corporate twilight zone: a whole generation of zombies.
...
Even before the Covid-19 crisis, a decade of low interest rates helped to fuel a rise in the number of “living dead”: companies unable to cover their debt-servicing costs from profits in the long term. 
...
The pandemic has created new ones. There are also fears of a proliferation of unviable “zombie jobs”, kept on life support through furlough schemes. People working in sectors struggling under strict social-distancing rules, such as hospitality and retail, are especially vulnerable.
...
Allowing zombie companies to limp along, unable to invest or repay their debts, comes at a cost to the wider economy. Research has shown these companies are a drag on productivity growth." 
BTW, desta vez não estou de acordo com Bruno Maçães e vamos deixar a realidade decidir quem tem razão. 

quinta-feira, novembro 21, 2024

Criar zombies e estagnar a economia


Esta semana umas viagens de comboio permitiram avançar na leitura dos capítulos sete "Contained Depression" e oito "The Zombie Economy" do livro de Phil Mullan, "Creative Destruction".

Nada de verdadeiramente novo nas conclusões face ao que se defende aqui no blogue há anos e anos. O que é verdadeiramente interessante são os gráficos a suportar as afirmações. Por exemplo, só relativamente aos Estados Unidos. O gráfico 7.1 ilustra a redução progressiva, recessão após recessão, da quebra do PIB (A volatilidade dos ciclos económicos tem-se vindo a reduzir desde os anos 1980, devido ao crescente controlo estatal e às políticas de estabilização. Isso diminuiu os efeitos disruptivos das crises, mas também retarda as transformações económicas necessárias para o crescimento), e o gráfico 7.5 que ilustra como, em cada ciclo económico, cada vez se perdem menos empregos mas também se criam menos novos empregos. 

A "estabilização" resulta num status quo de estagnação, no qual a capacidade produtiva e os empregos bem remunerados se deterioram lentamente. Esse modelo troca a possibilidade de disrupção económica por uma estagnação prolongada. Esta depressão contida, daí o título do capítulo, facilita a aceitação política e social de um "novo normal", onde crises contínuas são toleradas em troca de estabilidade imediata. Isso torna mais difícil superar o estado actual de estagnação económica

Estabilidade é obtida à custa de dinamismo económico. Uma das secções do capítulo é "The atrophy of economic dynamism": Taxas mais baixas de rotatividade de empresas, menos startups e um foco na estabilização em vez do crescimento levaram a uma estrutura económica ossificada que carece de vitalidade e inovação.

No capítulo 8 descreve-se a economia zombie. Uma economia onde empresas improdutivas continuam a operar devido a apoio estatal, como taxas de juros extremamente baixas e políticas que evitam falências. Isso impede o processo de destruição criativa necessário para revitalizar a economia. Como consequência as empresas mais produtivas enfrentam dificuldades para crescer, enquanto os novos negócios encontram barreiras à entrada devido à concorrência artificialmente mantida por empresas zombies.

A estagnação na criação de empregos e na adopção de tecnologias avançadas é exacerbada por esta dinâmica.

As políticas estatais contemporâneas dão prioridade à estabilização económica ao invés do crescimento, perpetuando uma economia estagnada. Essas intervenções, muitas vezes bem-intencionadas, inadvertidamente bloqueiam a renovação económica. E novidades aqui neste blogue? Esta abordagem sacrifica o crescimento e o progresso económico futuros por uma estabilidade superficial no presente. A zombificação económica, além de reduzir a produtividade, dificulta a criação de empregos de alta qualidade e bem remunerados.

A excessiva intervenção estatal, destinada a estabilizar as economias, levou à proliferação de “empresas zombie” – empresas improdutivas sustentadas por taxas de juro artificialmente baixas e políticas de tolerância. Estas empresas afastam concorrentes mais eficientes, retardando a inovação e a renovação económica. Embora estas políticas possam proteger os empregos a curto prazo, trocam o crescimento e a produtividade a longo prazo pela estagnação. Uma "economia zombie" suprime a reestruturação dinâmica, levando a um investimento mais fraco e à não criação de emprego.


Zombies

dolorosa

morrer empresas

apoios comunitários

sexta-feira, novembro 17, 2023

Depois não se venham queixar das empresas zombies (parte II)

Ontem publicamos aqui no blogue: "Depois não se venham queixar das empresas zombies". 

Volta e meia escrevo aqui sobre o país do absurdo. Querem mais um exemplo? O novo aeroporto de Lisboa. Às segundas, terças e quartas, empertigam-se porque já deveria estar construído e em operação, para às quintas, sextas e sábados protestarem contra o excesso de turismo e contra as alterações climáticas.

Às segundas, terças e quartas, empertigam-se porque temos demasiadas empresas zombies...

para às quintas, sextas e sábados, quando lhes começam a tremer as pernas, protestarem por causa da falta de apoios para elas.

Voltemos ao tema da parte I, a falta de mão-de-obra. Vai ser o novo normal.

Entretanto no NYT de quarta-feira passada encontro "Signs of a Lasting Labor Crunch"

"At Lake Champlain Chocolates, the owners take shifts stacking boxes in the warehouse. At Burlington Bagel Bakery, a sign in the window advertises wages starting at $25 an hour. Central Vermont Medical Center is training administrative employees to become nurses. Cabot Creamery is bringing workers from out of state to package its signature blocks of Cheddar cheese.

The root of the staffing challenge is simple: Vermont's population is rapidly aging. More than a fifth of Vermonters are 65 or older, and more than 35 percent are over 54, the age at which Americans typically begin to exit the work force. No state has a smaller share of its residents in their prime working years.

Vermont offers an early look at where the rest of the country could be headed

...

"All of these things point in the direction of prolonged labor scarcity," 

...

Employers are fighting over scarce workers, offering wage increases, signing bonuses and child care subsidies, alongside enticements such as free ski passes. [Moi ici:a diferença para a parte I é notória] When those tactics fail, many are limiting operating hours and scaling back product offerings.

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Long-run labor scarcity will look different from the acute shortages of the pandemic era. Businesses will find ways to adapt, either by paying workers more or by adapting their operations to require fewer of them. Those that can't adapt will lose ground to those that can.

"It's just going to be a new equilibrium," said Jacob Vigdor, an economist at the University of Washington, adding that businesses that built their operations on the availability of relatively cheap labor may struggle. [Moi ici: A quem caberá a carapuça?]

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"You may discover that that business model doesn't work for you anymore," he said. "There are going to be disruptions. There are going to be winners and losers." [Moi ici: Sinto tanta falta deste pragmatismo adulto carregado de bom senso... faz-me voltar ao piquenine e às formigas de 2006

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The winners are the workers. When workers are scarce, employers have an incentive to broaden their searches - considering people with less formal education, or those with disabilities and to give existing employees opportunities for advancement.

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Other businesses are finding their own ways to accommodate workers. Lake Champlain Chocolates, a high-end chocolate maker outside Burlington, has revamped its production schedule to reduce its reliance on seasonal help. It has also begun bringing former employees out of retirement, hiring them part-time during the holiday season.

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"We've adapted," said Allyson Myers, the company's marketing director. "Prepandemic we never would have said, oh, come and work in the fulfillment department one day a week or two days a week. We wouldn't have offered that as an option."

Then there is the most straightforward way to attract workers: paying them more. Lake Champlain has raised starting wages for its factory and retail workers 20 to 35 percent over the past two years.

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"We need to start looking at immigrants as a strategic resource, incredibly valuable parts of the economy,;" said Ron Hetrick, senior labor economist at Lightcast, a labor market data firm."

Na parte I temos o típico comportamento tuga em que o locus de controlo está no exterior (nós somos uns desgraçados, uns Calimeros, não temos agência, tem de ser alguém no exterior a resolver o nosso problema). Na parte II temos um discurso em que o locus de controlo está no interior.

segunda-feira, abril 30, 2018

No país dos zombies, porque não se morre...

Ontem sublinhei esta ideia de Pedro Arroja:
"A reforma - a capacidade para, ao longo do tempo, ir ajustando as instituições à realidade que vai mudando - é uma característica das culturas protestantes. De facto, o movimento protestante original ficou conhecido para a história como  "A Reforma". Portugal, pelo contrário, alinhou no movimento oposto, "A Contra-reforma".
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Reformar não é com os portugueses. Passam-se anos, décadas, às vezes séculos, e nada acontece, as instituições vão-se degradando, cada vez mais desajustadas da realidade e do mundo em que vivem, e nada muda."
Depois, recordei um postal recente de Nassim Taleb:
"Systems don’t learn because people learn individually –that’s the myth of modernity. Systems learn at the collective level by the mechanism of selection: by eliminating those elements that reduce the fitness of the whole, provided these have skin in the game.
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And in the absence of the filtering of skin in the game, the mechanisms of evolution fail: if someone else dies in your stead, the built up of asymmetric risks and misfitness will cause the system to eventually blow-up."
Depois ainda, por um acaso, cheguei a um outro texto de Taleb no livro Antifragile:
"For the economy to be antifragile and undergo what is called evolution, every single individual business must necessarily be fragile, exposed to breaking — evolution needs organisms (or their genes) to die when supplanted by others, in order to achieve improvement, or to avoid reproduction when they are not as fit as someone else"
O texto de Arroja continua assim:
"É preciso um acontecimento. De preferência dramático, E tem de estar centrado em pessoas. É então que até as mesas se viram. E as reformas que não se fizeram ao longo de anos, décadas, às vezes séculos, fazem-se então todas de uma vez, de forma brusca e radical que até parece uma revolução."[Moi ici: Aquele "will cause the system to eventually blow-up"]
Fazendo fé no tal Vintage Taleb, as reformas não acontecem porque não se deixa morrer o singular e por isso o colectivo sofre. O país dos incumbentes, o país dos zombies:


Não estamos a desejar a morte a ninguém, mas a protecção aos campeões nacionais, lembram-se deles? A protecção dos centros de decisão nacional, a protecção das empresas grandes porque empregam muita gente e das empresas pequenas porque empregam localmente distorce as forças evolutivas em presença.

terça-feira, outubro 12, 2021

Zombies, Ponzi e decisões difíceis

 

"Very few things scale forever.

The hardest moment to stop scaling our work is the moment when it’s working the best.

And that’s precisely the moment when we need to have the guts to stop making it bigger."

Não ser capaz de tomar esta decisão leva a zombies que vivem à custa de um esquema Ponzi.

"Go-to-market choices involve uncertainty because they are made within a system with many moving parts. ... committing to a single strategy is hard because it requires giving up all the other possibilities.

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Each choice naturally constrains others that follow. [Moi ici: Como não recordar o espaço de Minkowski] This process forces discipline because it comes with a strong internal logic that connects all elements."

1º trecho retirado de "Crowding the pan".

2º trecho retirado de "Big Picture Strategy- The Six Choices That Will Transform Your Business" De Marta Dapena Barón.

quinta-feira, janeiro 14, 2021

Zombies, confinamento e vida eterna

Num livro de ficção científica publicado em 1972 já se explicava o confinamento:

"an evil wizard called Cob, who had ‘an unmeasured desire for life’. He reduces the inhabitants of Earthsea to zombies by offering them eternal life."

 Trecho retirado de "It’s not Jung’s, it’s mine"

segunda-feira, setembro 26, 2016

O colapso de outra bolha continua

Na sequência deste postal "Curiosidade do dia" e do esquema nele incluído:
Dois desenvolvimentos que contribuem para o colapso de mais uma bolha:

BTW, a propósito da marcha dos zombies, atenção ao impacte que isto tem no preço do aço e ferro fundido exportado de Portugal. Até Julho de 2016, no acumulado do ano a queda das exportações supera os 100 milhões de euros.

quinta-feira, novembro 16, 2023

Depois não se venham queixar das empresas zombies

 "Seis em cada dez empresas portuguesas teve dificuldade em contratar pessoas com as competências adequadas às suas necessidades, uma questão que é transversal a todos os setores económicos. Este é mesmo o maior problema identificado pelas PME nacionais nas respostas a um inquérito da União Europeia, no qual reclamam incentivos fiscais, designadamente através da redução da TSU à Segurança Social, e ações de requalificação profissional. Subsídio diretos são também bem acolhidos."

Tendo em conta os sublinhados pergunto: É um problema de falta de mão de obra, ou um problema de incapacidade de pagar o nível salarial para atrair as pessoas?

Será que incentivos fiscais, acções de requalificação profissional e subsídios directos têm a ver com falta de mão de obra, ou são soro para manter empresas em coma?

Depois não se venham queixar das empresas zombies. Deixem as empresas morrer!

Trecho retirado de "PME querem incentivos fiscais para ajudar a combater a falta de mão-de-obra"

quarta-feira, dezembro 18, 2024

Não alimentem zombies...


 Ontem no JdN, "Um quarto das empresas está em falência técnica":

"Das mais de 500 mil sociedades em Portugal, mais de 25% têm capital próprio negativo. PME são as que mais pesam no valor negativo global. Baixo nível de autonomia financeira agrava riscos associados à descapitalização das empresas."

Deixem as empresas morrer! Não alimentem zombies porque eles acabam por infectar quem os alimenta. 

domingo, fevereiro 21, 2021

Descongelar não é o inverso de congelar - histerese

Lembro-me no meu Foust, no meu McCabe, velhos manuais de "heat & mass transfer", do fenómeno da  histerese.

A histerese acontece quando o estado de um sistema não é independente da sua história. A viagem de ida de A para B é diferente da tentativa de regresso de B para A.

Ontem escrevi sobre a missiva de António Saraiva... a certa altura ele diz:
“No final da crise, outros vão partir da pole position, porque tiveram ajudas reforçadas às suas estruturas empresariais, e nós partimos atrás.”

Isto significa que ele acredita que quando a economia descongelar vamos estar no ponto em que a começamos a congelar. Não o creio!

Sim, sexta-feira estive com empresários em Felgueiras que estão muito animados com as perspectivas, com as encomendas que têm caído. Eu não estou tão optimista.

Entretanto, ontem li este artigo no WSJ de quinta-feira passada, "Future Europe Task: Unlocking Economy":

"For nearly a year, large swaths of Europe’s economy have been in a deep freeze. Trillions in state-backed subsidies and inexpensive loans have kept businesses alive, while governments pay millions of furloughed workers to stay home. In much of Europe, layoffs or forced bankruptcies are banned. In pursuing such policies, European leaders have bet that, once the pandemic subsides, they can defrost the region’s $18 trillion economy, allowing businesses to fire up quickly and bring back workersIt’s an intentional effort to slow an economic deep clean, dubbed by many economists creative destruction.  This reflects a political choice: Europeans are generally less tolerant of the brutal adjustments required by the U.S. model of capitalism.

But as the pandemic drags on and Europe’s vaccine rollout is expected to stretch through the year and beyond, some policymakers, economists and business executives worry that mothballing the economy for so long will leave it struggling to adapt to the seismic business and social changes the crisis is driving. That could stall an economic recovery.

“Trying to freeze work where it was and how it was is in many cases a profound mistake, because it delays the corporate reorganizations, new investments and new hires that are necessary,” [Moi ici: Este é o meu grande receio. O contexto muda brutalmente e ninguém se prepara para o que aí vem embalados que estão nas canções dos governos e no "soma" chamado "lay-off"] said Carlo Bonomi, chairman of Confindustria, the Italian employers’ federation. While Europe keeps the economy in suspended animation, the U.S. is already creating new jobs and businesses.

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Bankruptcy gap [Segundo o última Barómetro Informa, nos últimos 12 meses a criação de empresas caiu 26,5%, o número de encerramentos caiu 22% e o número de insolvências manteve-se igual. Numa crise temos turbulência, há empresas novas a aparecer, empresas estabelecidas a falir ou encerrar, mas neste período estamos num aparente ponto morto. Aparente, porque entretanto o capital vai-se esvaindo. As empresas não morrem, mas viram zombies. E os zombies são perigosos, destroem o mercado das empresas saudáveis]

Europe registered far fewer business bankruptcies last year than in the previous five, while bankruptcies in the U.S. remained within the pre-pandemic range, according to data from the Bank for International Settlements. Applications to start new businesses in the U.S. rose 42% in the six months through September but declined slightly in France and Germany, according to Oxford Economics.

Worker productivity has risen in the U.S. but been flat or down in Germany, France, Italy and Spain, according to Deutsche Bank. Eliminating unviable jobs and businesses is responsible for about half of long-run productivity growth, some economists say. [Moi ici: A velha lição finlandesa que aprendi com Maliranta em 2007 "In essence, creative destruction means that low productivity plants are displaced by high productivity plants" e sintetizado por Nassim Taleb em 2018 com este vintage "Systems don’t learn because people learn individually – that’s the myth of modernity. Systems learn at the collective level by the mechanism of selection: by eliminating those elements that reduce the fitness of the whole, provided these have skin in the game." Reparem no paradoxo. Os governos apoiam as empresas para que elas se tornem mais produtivas, mas elas, ao receberem os apoios, agem como as raposas na Austrália. As raposas foram introduzidas na Austrália para acabarem com a praga de coelhos, também eles introduzidos pelos humanos. As raposas rapidamente perceberam que havia uma quantidade muito mais interessante e fáceis de apanhar que os coelhos. Assim que as empresas recebem os apoios o seu negócio passa a ser captar mais apoios - OK, conheço excepções]

The pandemic is accelerating a shift toward new digital business models and automation of processes. Some habits may stick, such as working and shopping from home, permanently reducing demand for certain services. If the economy looks very different in a couple of years, anything that delayed the adjustment would be costly. [Moi ici: O mundo descongelado será diferente do mundo pré-congelamento]

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At Germany’s Recaro Aircraft Seating GmbH, which makes seats for European, U.S. and Chinese airlines, sales fell 60% last year to about €300 million ($360 million). CEO Mark Hiller doesn’t expect sales to return to pre-crisis levels for five years.

Recaro cut about 30% of jobs at its factories in the U.S. and China, but in Germany it hasn’t reduced its workforce of roughly 1,100. Instead, it has tapped the government program, which pays its workers up to 87% of their salary, to a maximum of almost €5,000 a month, to stay home. Almost all of Recaro’s workforce is on furlough, working 40% fewer hours than normal.

Recaro has agreed not to lay off employees until at least mid-2023. The high cost and legal complexities of doing so in Europe deter many companies from cutting staff.

But job-retention schemes “can only bridge the gap until we’re back on a higher level,” Mr. Hiller said. “If we need to adapt to €300 million [sales] forever, it won’t work.”

Meanwhile, U.S. defense group Raytheon Technologies Corp. cut a fifth of the workforce in its commercial aerospace division after sales at a unit that competes with Recaro fell 26% last year. It doesn’t plan to hire all of the people back.

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Half of German companies have halted or delayed transformation and innovation projects because of furlough programs, according to a survey by Boston Consulting Group.

Job-retention schemes are “a little bit too easy. You can delay decisions and remain in your comfort zone as a manager,” said Karl Haeusgen, president of the German Mechanical Engineering Industry Association, a lobby group for a sector that employs around 1.3 million people.

Economists and business executives also say business subsidies could increase the share of “zombie” companies that struggle to earn enough over time to cover their debt servicing costs, and that can undercut prices charged by healthier competitorsIn Germany, the share of zombie companies could increase to 20% of all businesses this year from 7% before Covid, according to research by Creditreform, a German credit agency.

Alexander Alban, managing partner at German mechanical parts manufacturer Walter Schimmel GmbH, hustled last year to keep his business in the black—cutting staff, putting workers on furlough and canceling plans for a new factory— as he coped with a 25% decline in sales.

Price reductions 

Though demand fell, a third of that revenue drop was due to a roughly 12% fall in market prices, Mr. Alban said, as struggling local competitors using government support offered low prices to stay afloat.

“These zombie companies... run their business for a couple of months below costs,” Mr. Alban said. “They ruin the market. Afterwards, it’s very hard to get this business back. Usually it’s good if the market is cleaned.” 

In Italy, widespread use of job-retention schemes hurt labor productivity growth during the 2008-09 financial crisis, according to a 2018 paper by Giulia Giupponi of Bocconi University in Milan and Camille Landais, a professor at the London School of Economics. The least productive firms were three times more likely to tap the job-retention scheme than their stronger peers, the researchers found.

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Germany’s sweetened job furlough scheme has “crazy consequences,” said Friedrich Merz, a senior politician in Chancellor Angela Merkel’s Christian Democratic party. “Employees are kept in businesses even though they are needed in other places.” Still, some businesses say the European model is better in the long run."

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Zombies, outra vez e em todo o lado

O FT do passado dia 21 de Janeiro publicou "Two-speed China leaves 'zombie' groups behind". É interessante como o tema da zombificação percorre alguns jornais nestes dias. 

Há dias num tweet encontrei estes números:

Fiquei impressionado com os números da Itália, mas depois pesquisei a evolução do PIB per capita e percebeu-se a estagnação. O PIB sobe, mas a produtividade não, e isso quer dizer ... empobrecimento:


Analisemos o artigo:
"Once a homegrown automotive champion that sold everything from minibuses to sedans, today its loss-making non-BMW operations rank among China's thousands of so-called zombie enterprises, groups that do not generate enough profits to service their debt.
One of its old factories is now rubble, and the group, hit by cut-throat competition and restructured under a new state-owned entity, Shenyang Automobile, has shrunk to producing only Jinbeibranded minivans and components.
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illustrates the growing dichotomy between China's thriving trade-focused sector and its anaemic domestic economy. While China's world-conquering exporters and innovation clusters can make the country seem like an unblemished economic success, painful technology transitions and faltering domestic demand mean that for many businesses and citizens, these are times of hardship.
Cities such as Shenyang, which turned itself from a centre of heavy industry to an automotive hub during market reforms in the 1990s and 2000s, are struggling to evolve. Shenyang now wants to pivot into electronics and other industries but, like many provinces, is unwilling to let favoured businesses die.
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Zombie companies now account for more than 12 per cent of total registered companies, more than double the level in 2018 and nearly twice the global proportion,"

O artigo descreve uma China a duas velocidades. Por um lado, Pequim exibe sucesso tecnológico, força exportadora e grandes excedentes comerciais. Por outro, vastas regiões industriais e milhões de trabalhadores ficam para trás, presos a empresas “zombie”, margens em queda e ausência de mobilidade económica real.

As empresas zombie chinesas não são uma anomalia; são uma escolha política. Tal como na Europa, o sistema prefere manter a capacidade produtiva viva — mesmo improdutiva — a aceitar encerramentos, desemprego de curto prazo e a realocação de recursos. O problema é que, ao fazê-lo, congela o futuro. Capital, talento e energia ficam presos a actividades que já não geram valor económico suficiente.

As economias, tal como as empresas, podem sobreviver por algum tempo comprimindo custos e exportando a deflação. Mas, mais cedo ou mais tarde, entram num beco sem saída: as margens desaparecem, o investimento estagna, a qualidade degrada-se e a fragilidade aumenta.

A China descrita neste artigo não é apenas uma história chinesa. É um espelho ampliado do dilema que muitas economias industriais enfrentam quando evitam a pergunta difícil: onde, exactamente, estamos a criar valor — e para quem?

A China está a ganhar volume, não valor. E regressamos à Itália e ao resto da Europa… e ao Japão. 


segunda-feira, abril 30, 2018

Babel e zombies

"In March, Zara-owner Inditex reported its smallest gross profit margin in a decade; 56.3 percent in the 2017 fiscal year, compared with 57 percent in 2016. While comparable-store sales were still up 5 percent in the second half of 2017, it was the slowest growth the retailer has seen in three years.
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But the biggest problems facing fast fashion are not linked to social concerns. Today, perhaps the primary threats to fast fashion are digital and faster fashion.
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Last year, sales at the Manchester-based retailer Boohoo — which offers ultra-cheap, ultra-trendy clothes, mostly through e-commerce — were up 97 percent to £579.8 million, or about $800 million. (Boohoo also owns NastyGal and PrettyLittleThing.) Boohoo may be tiny compared to its more established competitors but its model could have serious impact.
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More than half of Boohoo’s products are made in the UK and it has invested in local websites and fulfillment warehouses, which means it can get product to its customer even faster, in many cases, than traditional fast fashion players, whose first-mover advantage is waning.
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At the same time, traditional fast fashion continues to lag in digital."
E que tal viajar a Maio de 2006 para ler o que se escrevia neste blogue?
"Preparando-se para pequenas quantidades, muita flexibilidade e em vez de duas épocas por ano… 52 épocas por ano."
E não me admiraria nada que a suckiness também tivesse responsabilidades no cartório. Os gigantes, por mais rápidos que sejam podem sempre ser ultrapassados por quem seja ainda mais rápido, mais focado e com uma melhor estória.

Pobres sociedades que protegem os incumbentes...



Trechos retirados de "Fast Fashion's Biggest Threat Is Faster Fashion"