segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Um caso de manual de fuga ao quadrante 1.

Em Outubro de 2024 escrevi "O foco certo". É um texto sobre por que a produtividade sustentável nasce de escolher mercados que valorizam a diferença, com foco no preço e no valor criado (numerador), e não apenas na redução de custos (denominador).

Agora volto ao campo na Inglaterra. O Sunday Times de ontem publicou "Grazingin a field near you, British wagyu is no longer a rare treat", um caso de manual de fuga ao quadrante 1.

O que é o quadrante 1?

O típico na agricultura portuguesa: Produzir carne bovina indiferenciada; Competir por custo, escala e eficiência (LOL); e Vender para um mercado em que o preço é imposto pelo comprador.

O que o wagyu faz de verdadeiramente diferente não é a forma como produz, mas a forma como é valorizado. O animal pode ser criado no Reino Unido, em explorações semelhantes às de qualquer outro bovino, mas o referencial usado para o avaliar não é britânico nem europeu — é japonês. É aí que tudo muda. O que está a ser vendido não é apenas carne, é uma ideia de excelência, um conjunto de critérios e uma história associados a uma tradição específica.

A partir desse momento, o preço deixa de ser determinado pelo custo médio do quilo de carne e passa a depender de outros factores: a textura da carne, o perfil de gordura, a experiência gastronómica que proporciona, a raridade percebida e a narrativa que a acompanha. O cliente já não está a comparar preços por quilo; está a comparar experiências e significados.

Isto é decisivo para compreender o caso do wagyu. Ele não ganha por ser mais eficiente nem por produzir mais barato. Ganha porque redefine aquilo que o cliente acredita estar a comprar. E mesmo quando começa a chegar a supermercados ou a formatos mais acessíveis, como hambúrgueres, continua vários patamares acima da carne indiferenciada. 

"Thompson is one of 950 British farmers who produce wagyu.

Go into almost any supermarket, gourmet butcher's or gastropub and you're likely to find wagyu. It is stocked at Waitrose, Lidl and Aldi. Last year, Burger King launched a wagyu burger. It is the fastestgrowing breed in Britain and has usurped Aberdeen Angus.

...

That farmers are turning to premium wagyu is partly down to dwindling prices for meat and dairy. Saunders says British wagyu can command an average of 20 per cent more than ordinary beef. For full-blood wagyu this goes up to ten times more."
Wagyu e wasabi dizem a mesma coisa aos agricultores (e aos industriais). Os dois casos desmontam a narrativa dominante:
  • “Temos de produzir mais”;

  • “Temos de ser mais eficientes”;

  • “Temos de baixar custos”;

Não. Temos de responder primeiro a outra pergunta: Que mercados valorizam algo que eu consigo fazer de forma distinta?

No wagyu:

  • o campo inglês deixa de competir com o Brasil ou a Irlanda;

  • passa a competir com um ideal japonês reinterpretado.

No wasabi:

  • Inglaterra deixa de competir com alface, rúcula ou espinafre;

  • passa a competir com uma montanha japonesa específica.

Isto é sair do Quadrante 1 sem mudar de sector, apenas de referencial de valor. O que ambos os artigos mostram é isto:

  • produtividade baseada no denominador esgota-se;

  • eficiência é defensiva;

  • valor é ofensivo.

Quem fica na commodity discute salários, energia e subsídios. Quem sobe na escala de valor discute identidade, narrativa, experiência e preço.

E isso vale para carne, wasabi, moldes, calçado, turismo, e indústria transformadora.

O campo é apenas o cenário. A peça é sempre a mesma.

domingo, fevereiro 08, 2026

Curiosidade do dia

 

Clubes nocturnos - Inovar é mudar de quadrante, não só de produto (parte XI)


É preciso estar sempre a fazer esforço para fugir do quadrante 1, ao mínimo sinal de descanso, volta-se a rolar para o quadrante 1 facilmente. Red Queen effect ao vivo e a cores.

É interessante como se podem encontrar exemplos sobre estratégia em todo o lado, ao vivo e a cores. 

Aqui escrevo sobre clubes nocturnos. Não os conheço nem os frequento, mas encontrei este artigo, "A revolução dos clubes noturnos", e desconfiei logo que seria sobre estratégia e não me enganei.
"A experiência noturna encontra-se num momento de profunda revolução. Acho que não preciso de o dizer. Todos nós que sempre gostámos de sair à noite, de beber um copo, dançar e de nos divertirmos já não o conseguimos fazer da mesma forma ou com o mesmo prazer, segundo os padrões a que nos habituámos. Parece que andamos sempre à procura de algo que já não existe e chegamos sempre a casa com a sensação de que perdemos o nosso precioso tempo. Por vários motivos que se complementam. Talvez a forma como vemos a noite esteja desatualizada, a oferta também mudou e por isso também os nossos hábitos se adaptam
...
Os clubes noturnos tornaram-se preguiçosos e é por isso que se diz que estão em vias de extinção. Diz-se não, a realidade é que por toda a Europa vão fechando cada vez mais discotecas ano após ano e novas aberturas são residuais. Porquê? Porque os espaços deixaram de apostar em conceitos diferenciadores, abdicaram das animações e das produções próprias, escolhem cada vez mais a mesma música sem que se possam distinguir através da curadoria musical, deixaram de se preocupar com o perfil do cliente e deixaram tudo nas mãos dos promotores. Descaracterizaram os lugares e “venderam-se” ao facilitismo e a quem lhes promete encher a casa, como se fosse um caixote ou um cabaz de compras. Isso fez com que as noite se tornassem todas iguais, monótonas, desenxabidas e pouco estimulantes. 
...
As discotecas e os clubes estão em crise? Estão. Mas não irão desaparecer, aliás antevejo que regressem com toda a força, começando através de nichos de mercado para evoluir depois. Só precisam de perceber onde erraram e apostar diferente nesta revolução que os projete para o futuro."

Aqueles dois sublinhados a amarelo são ouro. O primeiro, porque trata de um dos temas mais importantes no mundo da estratégia: determinar (eu escrevi "determinar"; quem me conhece sabe o quanto gosto de distinguir determinar de identificar) quem são os clientes-alvo. O segundo,  porque é também um dos meus ângulos de abordagem ao desafio de mudança de quadrante, o anichar

O artigo defende que as discotecas tradicionais estão em declínio porque deixaram de oferecer experiências diferenciadas, tornaram-se preguiçosas na curadoria, na animação e no conceito, e passaram a depender excessivamente de promotores. A mudança nos hábitos sociais, tecnológicos e de mobilidade acelerou essa crise, mas não a explica por completo. O autor argumenta que os clubes não vão desaparecer, mas só regressarão se aprenderem com os erros e apostarem em nichos e novos formatos vividos como “revolução” da noite.

Pelo que percebo do autor, isto não é uma crise de procura; é uma crise de proposta de valor. O texto desmonta bem a narrativa cómoda de “as pessoas já não saem”. Saem, só não saem para coisas banais. O problema não é a noite; é a falta de uma proposta memorável.

A ideia de regressar "pelos nichos" é correcta. Grandes modelos indiferenciados não se reinventam; são substituídos. A reconstrução faz-se sempre a partir de pequenos públicos exigentes. Seja nos clubes nocturnos ou na indústria.

Quando os clubes entregaram a curadoria, a experiência e a relação com o cliente aos promotores, deixaram de ser marcas e passaram a ser meros contentores logísticos. Isso é fatal em qualquer indústria criativa. Não se pode abdicar da identidade.

No fundo, este artigo é um retrato de um negócio preso no Quadrante 1:

  • Competição por volume ("encher a casa"); 
  • Indiferenciação total da oferta; 
  • Preço implícito como critério de decisão;
  • Substituibilidade extrema ("todas as noites iguais". Playlists iguais. Pessoas iguais. Emoções fracas. Memória zero.
Quando o autor fala de clubes tratados como "caixotes ou cabazes", está a descrever exactamente a comoditização. Na Parte II escrevi "O mercado premium não compra apenas azeite; compra significado." Foi exactamente isso que aconteceu à noite. Continuou a vender metros quadrados, decibéis e copos. Quando devia estar a vender experiência, narrativa e pertença.

A "revolução" de que ele fala não é tecnológica nem geracional - é estratégica:

  • passar de espaço para experiência;
  • de música genérica para curadoria;
  • de público indiferenciado para tribos;
  • de recorrência forçada para desejo

O texto acerta no diagnóstico, mas fica aquém na implicação mais dura: muitos destes clubes não vão transitar de quadrante; vão simplesmente desaparecer, porque não têm nem cultura, nem capital simbólico para isso.

E isso não é uma tragédia. É selecção estratégica. 

Quando se fala em "regressar pelos nichos", convém dizer as coisas como são: não é uma opção elegante — é a única saída possível.

Nenhuma organização faz um salto directo do Quadrante 1 para o Quadrante 4. O caminho começa sempre pequeno, exigente, quase invisível. Um público que não quer tudo. Quer aquilo.

O futuro não pertence a quem agrada a todos, mas a quem é claramente escolhido por alguns.


sábado, fevereiro 07, 2026

Curiosidade do dia


A última semana tem-me lembrado dos tempos da troika. E tal como nessa altura, vejo cada vez menos notícias.

É uma reacção instintiva. 

Naquela altura eu escrevia aqui sobre o cortisol.

Há dias em que ligo a televisão e tenho a sensação de que assisto a um ritual bem ensaiado. Depois da tempestade Kristin, apanhar um canal de notícias é receita para apanhar repórteres de microfone em riste, à procura não de quem explique, enquadre ou ajude a compreender o que aconteceu, mas de quem se queixe. Quanto mais indignada, revoltada ou injustiçada for a pessoa entrevistada, melhor. A queixa tornou-se conteúdo. A reclamação, matéria-prima editorial. (Até sorri quando, há dias, em Ereira, uma senhora trocou as voltas ao jornalista da CNN e, em vez de queixa, teve um discurso adulto e até de agradecimento a quem estava a trabalhar para minimizar os inconvenientes da situação.) 

À primeira vista, parece legítimo. As pessoas sofreram prejuízos, perderam bens e passaram por dificuldades. Dar-lhes voz soa a empatia. Mas há aqui algo mais profundo e mais preocupante. A exposição contínua à queixa, ao lamento, à narrativa de vitimização não é neutra. Nem para quem fala, nem para quem ouve.

A neurociência mostra-nos que reclamar não é apenas desabafar. Reclamar treina o cérebro. Cada queixa repetida reforça circuitos neuronais associados ao pensamento negativo. O cérebro aprende rapidamente: o que é usado com frequência torna-se o caminho preferencial. “Neurons that fire together, wire together.” E quanto mais curto for esse caminho, mais facilmente voltamos a ele — mesmo quando já não há tempestade nenhuma lá fora.

O problema agrava-se quando a queixa é contagiosa. Ouvir alguém reclamar durante longos períodos activa nos nossos cérebros os mesmos circuitos emocionais, por empatia (Mirror-Neurons) . Não é preciso reclamar para sofrer os efeitos; basta estar exposto. O resultado é um ambiente mental colectivo mais ansioso, mais pessimista, menos capaz de resolver problemas.

Há ainda o impacto fisiológico. Reclamar activa o cortisol, a hormona do stress (Stress is terrible for your body, too). Em doses pontuais, é útil. Em doses repetidas, é corrosiva: enfraquece o sistema imunitário, aumenta o risco cardiovascular, desgasta. Um noticiário inteiro, construído sobre indignação e queixa, funciona como uma injecção diária de stress em horário nobre.
"The stress hormone, cortisol, is public health enemy number one. Scientists have known for years that elevated cortisol levels: interfere with learning and memory, lower immune function and bone density, increase weight gain, blood pressure, cholesterol, heart disease… The list goes on and on.Chronic stress and elevated cortisol levels also increase risk for depression, mental illness, and lower life expectancy."
Nada disto significa ignorar o sofrimento real ou calar quem passa por dificuldades. Significa reconhecer que há uma diferença entre dar voz e alimentar um padrão. Entre informar e viciar. Entre ajudar as pessoas a elaborar o que viveram e treiná-las, sem querer, a permanecer nesse lugar.

Depois de uma tempestade, há estragos. Mas também há reconstrução, aprendizagem, responsabilidade partilhada, escolhas melhores para o futuro. Quando os media escolhem quase exclusivamente a lente da queixa, estão a fazer mais do que relatar factos: estão a ajudar a moldar cérebros, humores e atitudes.

E isso levanta uma pergunta: estaremos a informar uma sociedade adulta — ou a mantê-la presa a um modo infantil de relação com a realidade, em que reclamar substitui pensar e lamentar substitui agir?

BTW,  o evangelho da missa de quinta-feira estabelece a ponte para o sofrimento humano. Recordemos a postura católica face ao sofrimento. Na visão católica, o sofrimento não é negado, romantizado nem instrumentalizado, mas também não é absolutizado. Ele é reconhecido como parte inevitável da condição humana, num mundo imperfeito. O ponto decisivo está no que se faz com ele.

A fé cristã não propõe a queixa como resposta ao sofrimento, mas sim a transformação do sofrimento em caminho. Enquanto a lógica mediática contemporânea tende a fixar a pessoa no lugar da vítima — "o que me aconteceu", "o que perdi", "quem me deve", a postura católica olha para o sofrimento como uma ponte, não um beco sem saída. O sentido nasce quando o sofrimento é atravessado, não quando é repetido, amplificado ou exibido.

Surpreende a relação com o que a neurociência confirma hoje. A queixa repetida reforça circuitos de negatividade; a tradição cristã já intuía que ruminar o sofrimento endurece o coração. Não por castigo divino, mas por dinâmica humana. O coração fecha-se, a esperança retrai-se, a fé torna-se impossível porque já não há espaço interior.

Enquanto no mundo da queixa se pergunta "por que me aconteceu isto?", no mundo da fé somos convidados a perguntar "para onde posso ir a partir disto?"


Temos um problema de produtividade: a explicação "plausível" que falha no essencial.




Ontem, a newsletter "Semanada" publicada pelo ECO traz um artigo intitulado "Temos um problema de produtividade" de onde sublinho:
"A primeira má notícia é que pela primeira vez desde 2020 a produtividade do país diminuiu, com uma variação negativa de 1,3%. Isto porque o crescimento homólogo do emprego (3,2%) no ano passado foi superior à variação real do PIB (1,9%). Ou seja, apesar do aumento no número de pessoas a trabalhar, proporcionalmente produziu-se menos riqueza, como assinala uma análise divulgada pela consultora Randstad."

Num outro local, "Emprego bate recordes, mas produtividade entra em queda. "O mercado de trabalho enfrenta um desafio de eficiência", revela a Randstad". Apeteceu-me dizer: WTF!!!

"“Os dados do final de 2025 mostram-nos um mercado de trabalho que, embora robusto em volume, enfrenta um desafio de eficiência. O aumento dos contratos sem termo demonstra que as empresas estão, de facto, a esforçar-se por reter talento num cenário de escassez,” afirma Isabel Roseiro, Diretora de Marketing da Randstad Portugal. “Contudo, a queda na produtividade é um sinal de alerta. Para 2026, a prioridade das organizações não pode ser apenas contratar, mas sim investir na aceleração tecnológica e no upskilling das equipas. Só combinando talento qualificado com inovação conseguiremos transformar estes recordes de emprego em crescimento económico real e sustentável”"

O excerto da Randstad parece-me um bom exemplo de uma explicação "plausível" que falha no essencial.

Chamar a isto um "desafio de eficiência" é um desvio de foco. Não estamos, principalmente, perante um problema de “prioridade” (contratar vs. upskilling) nem perante um problema de "hoarding" de contratações. Estamos perante um problema de composição: a produtividade é um rácio, e o que está a acontecer é que o agregado nacional piora quando o crescimento do emprego se concentra em actividades/empresas onde o valor gerado por trabalhador (numerador) cresce pouco — ou até estagna — enquanto o sistema continua a "absorver" gente (denominador) em sectores de margens baixas e baixo valor acrescentado.

Dito de forma mais crua: não é "falta de eficiência" dos trabalhadores; é um modelo económico que está a transformar emprego em pouco valor. Se as empresas que nascem, e sobretudo as que crescem, forem sistematicamente as de menor margem e menor valor acrescentado, o denominador cresce mais depressa do que o numerador — e o resultado estatístico é inevitável, mesmo que haja investimento tecnológico pontual aqui e ali.

É por isso que, no meu texto "Não basta matar os zombies", insisto que “matar zombies” pode até melhorar a produtividade estatística, mas o país real não melhora sem a segunda jogada: criar condições para que apareçam (e cresçam) empresas mais produtivas. Caso contrário, temos apenas destruição ou rotação dentro do mesmo padrão, não uma trajectória de subida do numerador.

Nos textos "Dedicado aos candidatos socialistas à presidência da República Portuguesa" e "Não são elas que precisam da Alemanha; a Alemanha é que precisa delas" vêmos os mesmos sintomas: crescimento do emprego e redução da produtividade.

A newsletter também relaciona um eventual aumento da produtividade com a legislação laboral:

"Portugal precisa mesmo de fazer mais e melhor com os mesmos trabalhadores. Será que a reforma laboral proposta pelo Governo vai ajudar?

No anteprojeto de lei "Trabalho XXI" lê-se que entre os objetivos da legislação está a promoção do crescimento da produtividade e da competitividade, introduzindo alguma flexibilização com medidas como o ligeiro aumento dos prazos dos contratos a termo e sem termo, menos restrições ao outsourcing ou o regresso do banco de horas. Nada suficientemente disruptivo para ter um impacto com significado na produtividade."

 Tal como Alemanha em "Dedicado aos candidatos socialistas à presidência da República Portuguesa". Só que o autor ainda não percebeu que o foco não são as empresas que estão, são as que não estão como se refere em "Não são elas que precisam da Alemanha; a Alemanha é que precisa delas".

Subir na escala de valor e, como consequência, aumentar a produtividade, mais do que a corrida para o fundo que representa trabalhar só na eficiência, é precisamente o terreno em que tenho trabalhado (o lado Carlos consultor) ao longo dos últimos 30 anos: ajudar organizações a sair da lógica do volume, da eficiência defensiva e da sobrevivência reactiva, e a construir trajectórias sustentáveis de criação de valor. Não por meio de slogans, mas com uma abordagem estruturada que liga estratégia, execução e aprendizagem, combinando Balanced Scorecard, Teoria das Restrições e abordagem por processos.

Se fizer sentido explorar como a sua organização pode libertar capacidade, clarificar o que realmente cria valor para os seus clientes e desenhar conscientemente outro futuro, deixo aqui uma proposta concreta e os próximos passos.

Subir na escala de valor não é um acaso. É uma decisão — e um trabalho contínuo.

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

Curiosidade do dia

Ao longo dos anos tenho acompanhado o calvário da Johnson & Johnson:

Ainda me lembro de ler pela primeira vez o Credo da J&J, talvez num dos livros de Tom Peters sobre a busca da excelência. Fiquei surpreendido e bem impressionado. Depois, ao longo da última década, tem sido o que se vê.

O The Times de hoje publica "Johnson & Johnson case shows how shallow most corporate mission statements are":

"Today a group against Johnson & Johnson, the US pharmaceutical company, gets under way. Representing 3,000 individuals and families, KP Law alleges that J&J knowingly sold talcum powder contaminated with carcinogenic fibres, including asbestos, from 1965 to 2023, despite internal warnings and mounting evidence that taic was a danger to those dusting their babies' or their own bodies with the powder. Mrs Justice Hill is holding a directions hearing, the first step in what is likely to be a long legal process.

The company says it is confident a UK judge "will conclude talc-based Johnson's Baby Powder is safe, does not contain asbestos, and does not cause cancer?
...
Management writer Margaret Heffernan says in a brilliant newsletter about the lessons of J&J: "Purpose has become a smokescreen, a disguise. Pretending to, or encouraging a belief in, a higher value system beyond profit is a feint."
What was the point of J&J's credo if it failed to put warnings on talc, after its suppliers started placing cancer warnings on every bag of talc delivered?
Empty purpose statements aren't just the worst form of corporate guff, they are a distraction from the difficult job of making money while treating employees, suppliers and customers decently.
The only corporate purpose statements worth the paper they are written on are those that attempt honesty. Games Workshop's is: "To make the best fantasy miniatures in the world, to engage and inspire our customers, and to sell our products globally at a profit." Maybe it's not a coincidence that this is one of the most successful British companies of the past decade."

No artigo de 2011 que listo lá em cima escrevi:
"Desconfio sempre de empresas que estão, ou pretendem estar no campeonato da inovação e liderança tecnológica e se preocupam demasiado com a eficiência operacional."
A doença anglo-saxónica é terrível. Quando o foco deixa de ser o numerador… deita-se fora o Evangelho do Valor.

Um equívoco.

O WSJ publicou "U.S. Manufacturing Is in Retreat" a 04 de Fevereiro. O artigo começa assim:

"The manufacturing boom President Trump promised would usher in a golden age for the U.S. is going in reverse. After years of economic interventions by the Trump and Biden administrations, fewer people work in manufacturing than any point since the pandemic ended.

...

A White House spokesman noted that manufacturing productivity ticked upward in recent quarters and that workers' wage hikes outpaced inflation over the past year."

Com base na minha experiência, o artigo labora num equívoco: a ideia de que o “reshoring” é, acima de tudo, um fenómeno geográfico. Como se bastasse deslocar um ponto no mapa para fazer regressar um passado industrial que já não existe. Mesmo quando actividades produtivas regressam, regressam transformadas. Fábricas mais pequenas, altamente automatizadas, com muito menos pessoas e profundamente ligadas a cadeias globais de fornecedores, tecnologia e conhecimento. Não regressam para recriar a Detroit dos anos 60. Regressam para operar num sistema económico completamente diferente.

O verdadeiro “reshoring”, se quisermos usar o termo, é cognitivo. Está na forma como se desenham processos, como se integra tecnologia, como se pensa a produtividade e, sobretudo, como se cria valor para o cliente. É aí que muitas análises falham: continuam a medir sucesso industrial em número de trabalhadores ou metros quadrados construídos, quando o jogo já se joga noutro tabuleiro.

Este ponto liga directamente a algo que tenho defendido há muito tempo: subir na escala de valor quase nunca implica unidades produtivas maiores. Pelo contrário. Empresas que competem em valor — e não em custo — tendem a produzir menos, não mais. Não vivem de produção em massa, nem de economias de escala clássicas. Vivem de diferenciação, de conhecimento incorporado, de capacidade de resolver problemas específicos de clientes específicos.

Veja-se o contraste entre uma fábrica desenhada para produzir milhões de unidades indiferenciadas e uma unidade mais pequena que produz componentes críticos, personalizados, difíceis de substituir. A segunda emprega menos pessoas, ocupa menos espaço e aparece pouco nas estatísticas vistosas. Mas captura mais margem, é mais difícil de deslocar e está mais protegida da concorrência por custo. O seu negócio não é volume. É valor.

É por isso que a obsessão política com “trazer empregos industriais de volta” soa cada vez mais deslocada. Não porque o emprego não importe — importa, e muito — mas porque insistir numa lógica de quantidade impede a discussão sobre qualidade. Impede perguntar que tipo de indústria, com que papel na cadeia de valor e com que proposta económica.

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Serafim Riem.

Soube hoje da morte do Serafim Riem. E, com essa notícia, regressaram memórias antigas, de um tempo em que o ambientalismo em Portugal não era uma palavra da moda, nem um instrumento de carreira, mas um gesto concreto, feito de passos no terreno, frio nas mãos e tempo oferecido.

Conheci o Serafim em 1981 ou 1982. Era então um jovem estudante, com poucos meios e muita curiosidade. Fiz parte do pequeno grupo que, num Natal de 1983 ou 1984, no Gerês, apanhou e semeou cerca de dez mil bolotas de carvalho. Foi um gesto simples e profundamente simbólico: o acto fundador do que viria a ser a Quercus, legalizada apenas muitos meses depois. Não havia comunicados, nem câmaras, nem estratégia de imagem. Havia apenas convicção.

O Serafim tinha uma generosidade rara. Convidava-nos, aos fins-de-semana, a subir para o seu jipe Toyota e a ir ao Gerês à procura da águia-real, ao Douro e às serras de Gondomar, em busca do falcão-peregrino. Nunca nos cobrou um escudo. Dava tempo, conhecimento, entusiasmo e, sobretudo, exemplo. Para muitos de nós, foi aí que se aprendeu o que significava cuidar do território — não em abstracto, mas com os pés na terra.

Já há muito tempo que não falava com ele, embora acompanhasse os seus combates à distância, através do Facebook. Mantinha-se fiel a uma defesa genuína do ambiente, sem cedências ao aproveitamento pessoal nem ao ganho político. 

O movimento ambientalista sério, aquele que nasce da coerência entre discurso e prática, vai sentir a sua falta.

Que descanse em paz.


Curiosidade do dia

 

O The Times de 3 de Fevereiro publicou um artigo deprimente. O artigo é sobre a França, "France stuck in 'spiral leading to third-world status'".

"The French were founders of the European Union and for decades they were among its wealthiest citizens. They looked down on poorer peoples such as the Cypriots and the Italians, and considered the Germans their economic equals.

Today, however, France is in the EU's second division. For the third year running, its national wealth per head is below the bloc's average — and below that of Cyprus, according to figures from Eurostat, the statistics office.

The French are falling behind the north Europeans and are being caught up by those in the east. According to the Organisation for Economic Co-operation and Development, the Poles will be richer than them within ten years."

Não há nenhuma novidade, mas é deprimente constatar que a Alemanha, a Inglaterra e a França estão numa espiral negativa. E a França é a mais perigosa das três.

O caso francês mostra como não é preciso “falhar” para entrar em declínio, basta deixar de mudar num mundo que continua a mudar.

"France stuck in 'spiral leading to third-world status'

...

France is in the EU's second division.

...

Once among the wealthiest countries, France now risks falling behind."

O artigo argumenta que a França está presa numa trajetória de declínio relativo dentro da Europa, arriscando uma posição cada vez mais periférica em termos de rendimento, competitividade e influência económica. Apesar de continuar a ser uma grande economia, o país apresenta crescimento fraco, endividamento elevado, défices persistentes e incapacidade política crónica de implementar reformas estruturais.
"Political paralysis has made it extremely difficult to pass meaningful reforms.
...
The fragmented parliament has blocked efforts to tackle structural problems.
...
France's political system is struggling to produce decisions commensurate with its economic challenges."
Os dados mostram que a França já não converge com os países mais ricos da Europa e começa a ser ultrapassada por economias que antes estavam atrás. O problema não é apenas económico, mas institucional e político: um Estado pesado, despesa pública rígida, resistência social à reforma e um sistema político fragmentado que bloqueia decisões difíceis.
"Living standards have been protected by high levels of public spending.
...
The French state continues to cushion households from economic shocks.
...
This has come at the cost of rising debt and limited fiscal room."
O risco apontado não é um colapso súbito, mas sim uma espiral lenta de empobrecimento relativo, mascarada por um elevado nível de protecção social e por dívida pública crescente.
"The risk is not an abrupt collapse but a slow downward spiral.
...
Without reform, France risks a long-term decline in prosperity.
...
The country could drift into stagnation rather than crisis."


"Não são elas que precisam da Alemanha; a Alemanha é que precisa delas"

Mão amiga, ao longo dos últimos meses, tem-me enviado notícias sobre a desindustrialização da Alemanha.

Por exemplo:

Em paralelo, vou-me habituando a ler as versões traduzidas pelo Google do Handelsblatt. Fico impressionado com a quantidade de artigos que debatem temas como produtividade, competitividade e zombies. BTW, fiquei agradavelmente surpreendido com a sequência: primeiro, produtividade; depois, como consequência, competitividade. É mesmo isto. Primeiro, aumentar a produtividade à custa do numerador, subindo na escala de valor, ou seja, aposta na concorrência imperfeita. Depois, como consequência, a competitividade aumenta, não porque é mais barato, mas porque oferece mais valor.

Por exemplo, com base no Handelsblatt do dia 2 de Fevereiro, desenhei facilmente:
Na capa, o jornal traz a introdução a uma entrevista com o presidente do grupo parlamentar CDU/CSU, Jens Spahn, que apela a reformas: "As coisas precisam de se mover rapidamente." 

Ele diz que a Alemanha precisa de mudanças para avançar. "Não poderemos evitar as decisões necessárias por causa das datas das eleições." [Moi ici: Ai Montenegro, sei o que tens feito nos dois últimos anos …] Todas as decisões da coligação devem ser orientadas para promover o crescimento. "Se não fizermos a economia girar, esta coligação perderá a sua popularidade", disse o líder do grupo parlamentar CDU/CSU, referindo-se ao governo federal CDU/CSU-SPD. "Não fomos eleitos para gerir o declínio." O crescimento é "a salvação do destino da nossa nação".

Além disso, o político da CDU quer atrair empresários estrangeiros para a Alemanha com incentivos fiscais. Recordar o recente:
"Esse silêncio sinaliza que a jogada "criar condições para que empresas mais produtivas anónimas, sem necessidade de contactos com o poder, apareçam" está a falhar. Por isso, este título "Não são elas que precisam de Portugal, Portugal é que precisa delas" e o que escrevi em "Descida do IRC é injusta"."

Ou seja, Jens Spahn, se tivesse um blogue, escreveria: "Não são elas que precisam da Alemanha; a Alemanha é que precisa delas". 

E depois, (podemos recordar Portugal e, sobretudo, a Espanha), Jens Spahn sublinha que a Alemanha tem hoje um número recorde de pessoas empregadas, mas que isso não se traduz em aumento do volume total de trabalho nem em ganhos de produtividade. Este paradoxo revela um problema sistémico: o modelo económico já não transforma o emprego na criação de valor ao ritmo necessário.

O texto afasta explicitamente a narrativa de que os trabalhadores são "preguiçosos". Pelo contrário, reconhece que milhões de pessoas trabalham intensamente e fazem horas extras. 

É verdade: "trabalhar mais" é um falso remédio para problemas estruturais. Quando a produtividade não cresce, pedir mais horas é sintoma de falência do modelo, não uma solução. A produtividade não responde a incentivos morais; responde a capital, tecnologia e organização. 

Como toda a Europa Ocidental tem demonstrado, talvez com a excepção da Irlanda, emprego elevado sem produtividade crescente tende a resultar em estagnação salarial, compressão de margens, e fragilidade competitiva. O emprego deixa de ser motor de prosperidade e passa a ser um mecanismo de contenção social.

Só cito mais um artigo, "Keine Kompetenz für Industriepolitik“ (Beyond the obvious)".

O artigo argumenta que a Alemanha reconhece a sua crise industrial, mas não tem hoje capacidade política e institucional para executar uma política industrial eficaz. O problema não é a falta de diagnóstico nem a ausência de propostas — é a incapacidade de as concretizar de forma coerente, consistente e exigente.

O texto começa por sublinhar que os sinais da crise são evidentes: perda de competitividade industrial, atraso em tecnologias-chave (como IA, biotecnologia e robótica), custos energéticos elevados e uma sucessão de reformas adiadas em áreas críticas como energia, clima, política social e burocracia. Apesar disso, as decisões estratégicas continuam a ser empurradas para a frente, com investimentos prometidos, mas não executados.

Com base na análise do economista Enzo Weber, o artigo mostra que a economia alemã sofre de um défice de renovação: fora da indústria, mais de 7% dos trabalhadores estão em empresas criadas nos últimos cinco anos; na indústria, apenas cerca de 2%. Isto revela um sector industrial fechado sobre si próprio, com pouca entrada de novos actores e fraca destruição criativa — precisamente onde a produtividade e os salários são mais elevados.

O artigo recorre depois às ideias de Weber e Monika Schnitzer para defender que melhorar apenas as "condições de enquadramento" (impostos, energia, burocracia) é necessário, mas insuficiente. Dada a magnitude das transformações em curso — descarbonização, digitalização, tensões geopolíticas e exigências de defesa — o Estado não pode limitar-se a ser passivo. No entanto, intervir mal é tão perigoso quanto não intervir.

A proposta central é uma política industrial pró-competitiva, orientada não para proteger campeões nacionais ou estruturas existentes, mas para estimular concorrência, inovação e renovação estrutural.








quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Curiosidade do dia

 



Este vídeo de Peter Zeihan aborda algo que já tenho comentado com várias pessoas. A União Europeia anda entretida com encenações.

Fazer acordos com a Índia e o Mercosur?!?!

E os agricultores europeus deixam? E os agricultores indianos deixam? E a indústria brasileira deixa?

É uma espécie de peça de teatro ... 

Olha, faz lembrar o discurso de Carney em Davos...

As sociedades modernas aprendem a actuar como se acreditassem em coisas que, no fundo, sabem que não são verdade. Não porque sejam ingénuas, mas porque o sistema exige essa representação para continuar a funcionar sem conflito aberto.

Falar de grandes acordos com a Índia ou com o Mercosul não é tanto uma estratégia económica realista, é uma performance política.

Não se trata de uma mentira grosseira, mas de algo mais subtil — viver dentro de uma ficção funcional. Age-se como se o acordo fosse possível, desejável e iminente, porque admitir publicamente o contrário implicaria enfrentar conflitos reais, escolhas duras e perdas políticas imediatas


Equipamentos de ginásio - Inovar é mudar de quadrante, não só de produto (parte X)

Parte IParte IIParte III, Parte IV, Parte VParte VIParte VIIParte VIII e Parte IX.

O FT do passado dia 2 de Fevereiro publicou o artigo "'Showing up at the gym' is no longer enough". Numa segunda leitura, o que me entristeceu foi o ter recordado 2 ou 3 empresários portugueses que poderiam estar numa página do FT, tal como Nerio Alessandri, CEO da Technogym, se tivessem optado pelo quadrante 4. Assim, construíram negócios bem-sucedidos, mas entre os quadrantes 1 e 2, muito dependentes do volume. Tinham tudo para dar o salto, mas é o salto incomum em Portugal.

"Alessandri constructed Technogym's first bodybuilding machine in his garage in 1983. The company that began as a homemade solution to a local gym floor problem has become a top global manufacturer, employing more than 2,000 people and supplying sports teams and luxury fitness and wellness centres around the world.

...

Its most advanced machines sell for more than €20,000 each.

...

Beyond improving the visual appeal, Alessandri's main goal has been to integrate technology - such as sensors and real-time analytics - into the machines, turning Technogym from a traditional gym equipment maker into a data-driven wellness group targeting professional athletes.

...

Analysts say revenue growth has been driven by Technogym's premium positioning and global expansion, with high-profile events, such as the Olympic Games, boosting the brand's profile.

...

The company's transformation began in the late 1990s with a simple insight: that over time, fitness would no longer be defined by hardware alone.

Technogym founded MyWellness, a software company, in Seattle, and began embedding electronics and sensors into its equipment, [Moi ici: A fazer lembrar o "é meter código nisso"] turning them into interactive tools capable of measuring performance.

...

Data became a central element of the training experience.

Alessandri now aims to further leverage its technology and real-time analytics."

Durante anos, a indústria do fitness acreditou que o seu problema era técnico: melhores máquinas, mais funcionalidades, mais tecnologia, mais dados. A lógica era simples — e errada. Quando todos jogam o mesmo jogo, o preço torna-se o campo de batalha. E quando isso acontece, ninguém ganha.

É neste contexto que o caso da Technogym merece atenção. Não porque tenha "adoptado dados" ou "integrado software", mas porque percebeu algo muito mais fino: o problema que estava a tentar resolver já não era o mesmo.

"The company's transformation began in the late 1990s with a simple insight: that over time, fitness would no longer be defined by hardware alone."

a frase, quase discreta no artigo, marca o verdadeiro ponto de inflexão. Não é uma decisão tecnológica. É uma decisão de quadrante

O ponto de partida é familiar. Fabricar equipamento de ginásio é, por natureza, um negócio exposto à comoditização. Máquinas são comparáveis, copiáveis, escaláveis. Mesmo quando sofisticadas, acabam por ser reduzidas a folhas de especificações e negociações comerciais.

É exactamente o que descrevi no texto sobre ginásios: vender acesso, vender máquinas, vender “mais coisas incluídas” é permanecer no Quadrante 1 — produto actual, mercado actual, promessa implícita de custo/benefício.

A tecnologia, neste quadrante, tende a ser usada como add-on. Melhora o produto, mas não muda o jogo. É o Quadrante 2 em versão fitness: muda-se algo, mas o cliente continua a comprar exactamente a mesma coisa.

A Technogym percebeu cedo algo fundamental: o equipamento é o cavalo de Troia, não a fonte principal de valor.

O que distingue a Technogym não é ter sensores, cloud ou analytics. É ter recusado a tentação de "fazer melhores máquinas".

Em vez disso, fez uma pergunta diferente: o que é que o cliente realmente procura?

A resposta surge clara no artigo:

"We are entering a new era in which the concept of wellness will evolve, leading to a hyper-personalised experience based on data and monitoring and profiling through prediction."

Aqui, o produto deixa de ser o centro. O foco desloca-se para a experiência, para a continuidade, para a vida ao longo do tempo. Não é mais "treinar melhor". É viver melhor.

Este é o momento clássico de mudança de quadrante: o produto pode manter-se, mas o significado muda. Interessante, lembrei-me da primeira vez que escrevi sobre a Coloplast:

“There is no perfect product, because there is no perfect patient” and “It’s a good product, but it’s not right for everyone.”

Ao explorar os dados recolhidos pelos seus equipamentos, a Technogym não se limita a melhorar os planos de treino. O artigo é explícito:

“Technogym is looking to tap into this trend by dissecting customers’ health and workout data to identify any red flags for possible health problems.”

Isto já não é fitness. É prevenção, antecipação, longevidade. É sair do mercado das máquinas e entrar no território — muito mais exigente — da saúde, da confiança e da responsabilidade.

Tal como no azeite premium, no chocolate bean-to-bar ou no café de especialidade, o valor não nasce da tecnologia, mas da mudança de enquadramento. O que ontem era ginásio, hoje passa a ser infra-estrutura de um ecossistema de bem-estar.

"The idea was to treat wellness not simply as individual fitness, but as a holistic ecosystem."

Significa deixar de vender máquinas para começar a orquestrar relações de longo prazo.

Num mundo saturado de wearables e dashboards, a Technogym fez algo pouco comum: tratou os dados como matéria-prima estratégica, não como argumento de marketing.

Os dados permitem:

  • personalização profunda;
  • acompanhamento contínuo; 
  • identificação precoce de riscos; e
  • construção de legitimidade científica.

Mas também criam algo mais importante: barreiras invisíveis. Não tecnológicas — culturais, institucionais, relacionais. Tal como a Leica construiu comunidade e significado, a Technogym constrói confiança e autoridade. Constrói concorrência imperfeita.

Visto à luz da série “Inovar é mudar de quadrante”, o caso Technogym encaixa com clareza no Quadrante 4: novo produto (no sentido de proposta de valor), novo mercado, nova ambição.

Não é um salto táctico. É um reposicionamento estrutural:

  • menos dependência do volume;
  • mais dependência da credibilidade;
  • menos comparação directa;
  • mais disposição para pagar.

Quando o artigo afirma:

“Health is becoming the biggest desire for powerful people, the rich and the poor.”

está, implicitamente, a mostrar que o mercado já não é o fitness — é um desejo humano transversal, estrutural, não cíclico. É aqui que surgem margens, não por abuso, mas por diferenciação real.

A Technogym não venceu porque teve mais tecnologia. Venceu porque soube o que não fazer: não entrou numa corrida para baixar preços, não tentou ganhar pelo centro, não confundiu eficiência com estratégia.

Tal como noutros exemplos desta série, o produto não desaparece. Transforma-se em ponto de entrada. O valor desloca-se para onde há menos comparação e mais significado.

Num mundo obcecado com dados, a Technogym fez algo contra-intuitivo: usou dados para humanizar a proposta. E mostrou, uma vez mais, que inovar não é mudar de produto.

É mudar de quadrante.

terça-feira, fevereiro 03, 2026

Curiosidade do dia

Ontem vi este tweet (do João Miranda) e não pude deixar de o considerar interessante:

 

Mais um atestado de desconhecimento da realidade

Há textos que dizem tanto sobre o tema que abordam como sobre a forma como as redacções pensam economia em Portugal.

Na passada sexta-feira, o Expresso publicou uma peça com o título: "Preços dos sapatos em Portugal estão a cair há 17 anos."

O artigo apresenta dados correctos. A interpretação é que é problemática.

O que diz o artigo?

"São 17 anos com os preços do calçado para os consumidores lusos a recuar. Em termos acumulados, entre 2025 e 2008 — último ano em que a variação do IPC relativo ao calçado foi positiva — a queda é de 34%. No mesmo período, o índice geral de preços no consumidor em Portugal acumula uma subida de 33%. "Isto significa que, em termos reais [tendo em conta o impacto da inflação], o preço do calçado caiu para metade",

...

As importações portuguesas de calçado dispararam, aumentando mais de 80% face a 2008. E muitas vêm da Ásia, de países como a China, a Índia, a Indonésia e o Vietname. Mesmo quando vêm de países da União Europeia, trata-se maioritariamente de calçado produzido na Asia, que vai para esses Estados-membros e é revendido.

...

"Portugal produz e vende para o mundo, não tanto para o consumidor português. E exporta no topo dos preços mundiais", destaca a APICCAPS. Em média, um par de sapatos portugueses sai da fábrica a 27,57 dólares (€23,29 ao câmbio atual), "

Onde está a novidade? O problema não está nos dados. Está na ausência total de surpresa e, sobretudo, de reflexão.

Nas conservas (2020):

"Porque não olham para os números? Os portugueses importam produtos baratos e exportam os produtos mais caros. Olhando para os dados de 2016, o kg de conserva importada era cerca de 73% do kg de conserva exportada.

Esta associação em vez de ajudar os seus associados a subir na escala de valor, está a querer que se enterrem com descontos para ganhar quota de mercado interno. PORRA!!!
Quando é que esta gente percebe que volume e quota de mercado não é o objectivo. O objectivo é o lucro!"

No mobiliário (2012):

"Parece que alguma indústria portuguesa de mobiliário, incapaz de concorrer no seu próprio mercado interno, contra os preços muito baixos da concorrência asiática, teve como salvação o virar-se para o mercado externo. Contudo, livre de barreiras alfandegárias, a concorrência asiática também estava presente nesses mesmos mercados.

Como se explica o insucesso no mercado interno e o sucesso no mercado externo? 

No mercado interno não existe massa crítica de clientes capazes de suportarem empresas que se dediquem a produções em nichos e segmentos diferentes daqueles onde actuam as empresas asiáticas. No mercado externo as produções asiáticas dedicam-se a segmentos diferentes daqueles onde actuam as empresas portuguesas."

No calçado (2011) (aqui deixei uma parte inicial para ilustrar as baboseiras que pessoas em cargos de responsabilidade e que não resistiriam ao mais básico contraditório:

""Mais do que pôr a tónica nas exportações temos que ser fortes no mercado interno. Se não conseguirmos competir aqui dificilmente vamos competir noutros mercados", afirmou Carlos Tavares.

"As empresas portuguesas têm perdido quota no seu próprio mercado. Sem resolver esses problemas, dificilmente podem ter sucesso nos mercados externos", acrescentou o presidente da CMVM."

Esta abordagem é nova... qual o CV de Carlos Tavares? Qual a sua experiência de vida? O que o habilita a mandar estes bitaites sobre o que as PMEs exportadoras devem ou não fazer?

Aquilo que permite a estas PMEs serem suficientemente competitivas na exportação é, muitas vezes o que as impede de ser competitivas no mercado interno. Os consumidores do mercado interno têm um poder de compra muito diferente dos que consomem nos mercados externos. Por isso, escrevo e falo tantas vezes nas empresas que fazem by-pass ao país."

Acham pouca a ignorância de Carlos Tavares? Experimentem "Os loucos tomaram conta do jornal

Ainda sobre o calçado: "Dedicado ao bicicletas".

Há um padrão que a imprensa insiste em não ver. O artigo do Expresso de 2025 não revela uma “realidade nova”. Revela a persistência de uma má leitura antiga:

  • confundir preços baixos com problema económico;
  • tratar a queda de preços como falha industrial;
  • assumir implicitamente que “ganhar o mercado interno” é sempre desejável;
  • ignorar que exportar caro e importar barato é um sinal de subida na escala de valor, não de fraqueza.

A pergunta que raramente é feita não é: "Porque é que os preços do calçado caem em Portugal?"

É esta: "Que tipo de empresas queremos que sobrevivam — e em que quadrante?"

Enquanto a imprensa continuar a ler estes fenómenos com as lentes erradas — volume, quota, mercado interno como fetiche — continuará a produzir textos informativos, mas conceptualmente pobres.

E isso é um problema. Não para as empresas que já fizeram by-pass ao país, mas para o debate público, que insiste em confundir competitividade com low-cost.

Dedicado à redacção do Expresso, de 2015: "um atestado de desconhecimento da realidade" de onde retiro:

"As empresas nacionais têm de continuar a apostar nas exportações mas não por causa da baixa procura interna.

O nível de vida em Portugal não é alto. Por isso, os portugueses optam por comprar bens transaccionáveis baratos. Esses bens entram em Portugal, importados da Ásia a preços muito baixos, e levam a melhor sobre o "Made in Portugal". Por exemplo, Portugal exporta sapatos caros e importa sapatos asiáticos para consumo interno. Portugal exporta mobiliário caro e importa mobiliário asiático para consumo interno."

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Curiosidade do dia

No WSJ do passado dia 1 de Fevereiro, "Gavin Newsom on Wealth and Taxes":

"Well, well. California Gov. Gavin W. Newsom is experiencing an epiphany of sorts, as his state's billionaires vamoose to avoid getting clobbered by a union-backed wealth tax. He now admits that taxes affect where people choose to live and invest. Glory be.

...

As Mr. Newsom explained, the result of this exodus will be less income-tax revenue. "The impact of a one-time tax does not solve an ongoing structural challenge," the Governor said Thursday. "You would have a windfall one time, and then over the years, you would see a significant reduction in taxes because taxpayers will move."

By "structural challenge," he means recurring budget gaps caused by excessive spending."



Daqui:

"Failing to consider second- and third-order consequences is the cause of a lot of painfully bad decisions, and it is especially deadly when the first inferior option confirms your own biases. Never seize on the first available option, no matter how good it seems, before you've asked questions and explored."

Falta a Mariana do Bloco et al. 

Muita areia para a camioneta dos políticos europeus

Em 2021 escrevi aqui:

"Há muito que penso que os políticos começaram a falar cada vez mais do ambiente porque era algo que não lhes vinha cobrar. Por exemplo, um político pode propor políticas para reduzir défice, para reduzir filas de espera na Saúde, para aumentar salários, ... e todas essas políticas têm o inconveniente de, mais tarde ou mais cedo, virem cobrar através da comparação entre os resultados propostos versus os resultados obtidos. Já com o ambiente era diferente. Os políticos podiam falar do ambiente à boca cheia sem recear que ainda durante a mesma legislatura alguém lhes viesse pedir contas.

Julgo que a situação pode vir a alterar-se."

O WSJ da passada sexta-feira publicou "The Agonizing Decline of One of Europe's Core Industries" na sequência do que o FT tinha publicado na passada quarta-feira,  "Chemicals sector calls for Europe to act after 80% fall in investment", sobre o mesmo tema.

O artigo começa assim: 

"Cutting emissions can sometimes look like what economists call creative destruction, with green innovators supplanting polluters. It's painful when the destruction happens to you while somebody else (often in China) does the creating. [Moi ici: Destruição assimétrica, a destruição ocorre na Europa, enquanto a criação acontece noutros lugares, sobretudo na China.]

The auto sector is Exhibit A, but the anxiety doesn't end there. Take Europe's beleaguered chemicals industry. The sector employs well over a million people and provides the ingredients for all the stuff of modern life, from polyethylene packaging to phenol for painkillers. Its struggles offer a window onto Europe's predicament as it pursues environmental goals while adapting to a security-focused trade era."

E continua: 

"Energy costs aren't the only problem. Global overcapacity, driven by the rapid expansion of the Chinese chemicals industry, exposed European producers to an influx of cheap imports, just as energy costs jumped and demand slowed. A U.S.-EU trade deal struck last year would also expand market access for U.S. producers with far lower costs.

Climate policies are the other gripe. For now, heavily polluting sectors are protected from Europe's carbon prices to stop crucial industries from leaving the bloc. That is set to change this year, and fees are supposed to ratchet up over time.

...

Meanwhile, incentives for the use of green chemicals, produced from low-carbon hydrogen instead of fossil fuels, haven't been enough to spur the massive investments needed to overhaul the industry.

China is moving faster on that front, even as it churns out plain old polluting chemicals too."

A combinação de custos energéticos elevados, excesso de capacidade global, concorrência chinesa subsidiada, políticas climáticas mal sincronizadas e fraca resposta política europeia está a levar ao encerramento de fábricas, à venda de activos estratégicos e à perda de capacidade produtiva. Entre 2020 e 2025, mais de 25 milhões de toneladas de capacidade química foram encerradas na UE e no Reino Unido, com taxas de utilização persistentemente abaixo do nível económico sustentável.

O texto sublinha que, embora existam incentivos para químicos “verdes”, estes são insuficientes para compensar a perda de competitividade estrutural, num contexto em que a China avança simultaneamente na química poluente tradicional e na química de baixo carbono, apoiada por uma política industrial agressiva.

Parece que é muita areia para a camioneta dos políticos europeus:


Demasiados ovos no ar, demasiadas relações de causa-efeito para quem não está habituado.




 

domingo, fevereiro 01, 2026

Curiosidade do dia

Hoje, o The Sunday Times publica a coluna habitual do ex-primeiro-ministro inglês, Rishi Sunak, intitulada "Starmer is repeating my mistake: focus on growth, it's all that matters".

A certa altura pode ler-se:
"I must admit that, as prime minister, I didn't always put growth first. Early on, I watered down planning changes to appease MPs worried about the reaction in their constituencies."

Há algo de refrescante no texto de Rishi Sunak: um ex-primeiro-ministro que olha para trás e diz, sem rodeios, “errei”.

Lembrei-me logo de outra coluna de opinião, esta de Armindo Monteiro, presidente da CIP, intitulada "Da crise de lideranças ao alheamento das elites" e publicada pelo Dinheiro Vivo na passada sexta-feira. 

O contraste entre o artigo de Sunak e o de Armindo Monteiro é quase pedagógico. O presidente da CIP escreve longamente sobre a crise das lideranças, o alheamento das elites e a dependência dos fundos europeus… sempre na terceira pessoa. As elites são sempre "as outras". O problema está sempre "lá fora". O autor observa o fenómeno sempre a partir de fora, como se descrevesse um sistema no qual participa apenas como comentador atento.

A ironia maior é que a crítica à "soleira dos fundos europeus":

"Em Portugal, tardamos em definir uma estratégia que nos permita recuperar dos atrasos estruturais, melhorar a eficiência do Estado, reforçar a competitividade económica e aumentar a capacidade de inovação. Vivemos encostados à soleira dos fundos europeus, revelando a mesma incompetência política, a mesma pobreza de espírito, a mesma dependência do Estado que tanto encanitava Eça de Queirós."

soa estranhamente próxima daquilo que a própria Confederação Empresarial de Portugal promove diariamente no seu site e nos seus comunicados: mais avisos, mais programas, mais oportunidades, mais fundos.

Mais à frente pode ler-se:

"Aqui chegados, há que pedir responsabilidades às elites.  … Precisamos de verdadeiros líderes, que façam escolhas firmes e corajosas, que não tenham medo de ser impopulares, que criem ruturas com os poderes fáticos, que desfaçam os falsos consensos e as verdades adquiridas."

Quem são exactamente essas elites alheadas?

E mais importante: quem ficou de fora dessa categoria?

O texto denuncia a dependência do Estado, a pobreza de espírito, a ausência de visão estratégica e a incapacidade de pensar o longo prazo. Tudo certo. Mas depois basta uma pesquisa simples no Google — “CIP fundos europeus” — para descobrirmos que o sistema criticado não é apenas observado de fora. É frequentado, negociado, cofinanciado e, em vários momentos, legitimado.

Não é um pecado original. É um problema de coerência.

Criticar o modelo enquanto se opera confortavelmente dentro dele, beneficiando dos seus incentivos e da sua lógica, não é coragem. É retórica segura. É crítica sem risco. É exactamente o tipo de comportamento que o texto diz condenar.

Quantas vezes ouvimos a CIP partir a loiça junto do poder político de turno?


Sunak fala ao espelho. Olha para dentro, revê decisões, reconhece limites. O espelho não é confortável, mas é honesto: obriga a incluir-se no retrato.

O presidente da CIP escreve à janela. Observa o mundo lá fora, descreve o tempo, comenta a paisagem, identifica problemas reais — mas sempre do lado de dentro, protegido, sem que o reflexo apareça no vidro.

Dedicado aos candidatos socialistas à presidência da República Portuguesa


Não sei alemão, mas o Google Tradutor deu-me uma ajuda. 

O editorial do Handelsblatt da passada sexta-feira, 30 de Janeiro, é dedicado aos candidatos socialistas à presidência da República Portuguesa. 

O título do editorial é "Das Arbeitsrecht gefährdet Deutschlands Zukunft", ou seja, "A lei laboral põe em risco o futuro da Alemanha".

O editorial argumenta que o direito do trabalho alemão, concebido para garantir segurança num contexto económico estável, tornou-se hoje um travão à adaptação, à inovação e à produtividade. Num mundo em que os ciclos tecnológicos são curtos e a criação de valor exige mudanças rápidas, a rigidez associada ao despedimento, à reestruturação e à mobilidade laboral encarece a mudança e desincentiva o investimento.

O autor sustenta que esta rigidez não afecta apenas empresas individuais, mas também enfraquece a capacidade de renovação da economia como um todo, levando as empresas a optar por optimizações marginais dos produtos existentes em vez de apostar em novos modelos de negócio. O artigo contrapõe o modelo alemão ao modelo dinamarquês, no qual a segurança não resulta da protecção do posto de trabalho, mas da capacidade do trabalhador de encontrar rapidamente um novo emprego, apoiada por políticas activas de requalificação.

A conclusão é clara: a questão central já não é preservar empregos existentes, mas capacitar pessoas a se reinventarem continuamente, sob pena de comprometer o futuro económico do país.

Algumas ideias do artigo são:
  • O direito do trabalho alemão foi criado com boas intenções, num contexto histórico de estabilidade e crescimento previsível, mas transformou-se numa garantia contra o futuro, e não contra o risco. A rigidez laboral favorece uma economia de pequenos ajustes incrementais, quando o contexto actual exige grandes saltos tecnológicos e organizacionais.
  • Os processos de reestruturação que, noutros países, demoram semanas ou meses podem arrastar-se durante anos na Alemanha, consumindo tempo, capital e energia de gestão.
  • O elevado custo de despedir e reestruturar desincentiva o investimento em novas tecnologias, pois o risco de falhar é demasiado elevado.
  • Start-ups em países com legislação laboral rígida são avaliadas com desconto, pois os investidores antecipam custos elevados de ajustamento caso haja uma mudança de estratégia.
  • Quanto mais caro é falhar, menores são as experiências, o que reduz a inovação e, em última instância, a produtividade.
  • Este não é apenas um problema alemão; exemplos como a Austrália mostram que endurecer o direito do trabalho pode conduzir a menor produtividade e a um crescimento mais fraco dos salários. O modelo dinamarquês é apresentado como alternativa: segurança baseada na empregabilidade, não na preservação do posto de trabalho.
  • A verdadeira segurança económica resulta da capacidade de adaptação das pessoas, apoiada por políticas activas de emprego, formação contínua e rápida reintegração no mercado de trabalho. A pergunta decisiva não é "como proteger empregos", mas "como permitir que pessoas se reinventem repetidamente ao longo da vida profissional".
Apetece perguntar: o que é que os alemães sabem disto?

sábado, janeiro 31, 2026

Curiosidade do dia

 

Recordar "Sem água potável já em 2025"