quarta-feira, julho 23, 2025

Curiosidade do dia

No JN de hoje "Matosinhos calcula custos da operação do metrobus após adjudicar a obra."

Sim, é mesmo isso:

"A Câmara de Matosinhos vai realizar um estudo económico-financeiro para determinar os custos da operação do metrobus, cuja obra para a ligação entre o mercado municipal e o aeroporto já foi adjudicada. A Oposição critica a realização tardia desta avaliação, considerando que deveria ter sido acautelada antes da adjudicação da empreitada."

Lucas 14, 28-30:

"Se algum de vós quiser construir uma torre, não começará primeiro por se sentar e fazer os cálculos do que vai gastar, para ver se tem possibilidade de a acabar? Isto para que não aconteça que comece a construir e a não possa acabar. Não faltará então quem faça troça dele e diga: “Este começou a construir, mas não conseguiu chegar ao fim.”" 

Pobres contribuintes. 

O retorno das fábricas



Ontem no NYT um artigo, "Return of Factories May Revive Downtowns", na linha do que tenho escrito aqui no blogue com os marcadores: Makers e Mongo.

O artigo explora como cidades e comunidades nos EUA estão a reformular as regras de urbanismo e a promover o renascimento de centros urbanos através do apoio a pequenos fabricantes locais, os makers. Esta tendência visa recuperar espaços urbanos abandonados, dinamizar economias locais e promover o comércio de proximidade, através da flexibilização do uso de solo para permitir oficinas, pequenas unidades de produção e espaços colaborativos.
"Cities and small towns have tried to revitalize their downtowns by rolling back certain rules and requirements to help promote new developments and bring life to empty streets.
Now, they're returning to an earlier era, when craftspeople such as food makers, woodworkers and apparel designers were integral parts of neighborhood life, and economic activity revolved around them.
...
Over the past decade, hundreds of U.S. cities and small towns have revised their land-use codes to allow small-scale producers - from coffee roasters to makers of jewelry and furniture - in downtowns and neighborhoods. Many small producers started to disappear from those areas around the turn of the 20th century with the advent of mass production; as large-scale factories generated enormous waste and pollution, cities restricted them near residences. Now, most of the businesses allowed to operate under the new rules employ between one and 30 people.
Much of the reason for the recent efforts is that local officials see an opportunity in the maker economy, which grew during the pandemic,
...
The maker economy "can sound boutique, niche," said Will Holman, executive director at Open Works. But in Baltimore, "a postindustrial city with grim problems," there is a laser focus on economic development and community resilience, he said.
"People don't realize how quickly makers could start to replace manufacturing for a wide array of consumer goods — to relocalize production not in a nationalistic pro-Trump way but in a very real way," Mr. Holman added."

 Claro que tentar copiar estes movimentos genuínos com dinheiro fácil de subsídios europeus, como relata Carlos Albuquerque no JdN de ontem só dará asneira.

terça-feira, julho 22, 2025

Curiosidade do dia


 

Leio esta série de tweets e penso nos milhões de euros que se vão gastar na Defesa para combater a última guerra e não a próxima.

O seu dia

Pintura de Harold Copping.

A tentativa do ChatGPT não a consegue superar:


Prefiro a expressão de Maria Madalena na interpretação de Copping.

A crise de autenticidade

Entretanto, em "Opinion: The Big Luxury Simulation Is Over": 

"Whereas luxury once meant beautifully crafted objects, it became about storytelling. Instead of luxury goods, brands retooled to deliver luxury narratives. And as long as their products signalled luxury, they realised they could cut corners on quality to boost margins and meet growing demand without alienating shoppers.

...

This strategy has proved stunningly successful, especially with people who grew up in a world of simulacra, conditioned to consume markers of goods more than the goods themselves. As Dana Thomas noted in "Deluxe: How Luxury Lost Its Luster" (2007), "Consumers don't buy luxury branded items for what they are, but for what they represent." On social media as in the street, what mattered were symbols of luxury.

But fast-forward to the present and it appears this logic has its limits. 

...

Last year, when Dior was taken to task for the use of a sweatshop labour in its supply chain, Italian prosecutors alleged the brand paid little more than €50 euros a piece for bags which retailed for more than €2500 each. Now LVMH stablemate Loro Piana has been pulled up by the same probe. Such stories make the luxury industry look like a scam selling empty signifiers to suckers.

It's no surprise that sales of superfakes - low-cost, high-fidelity replicas mostly made in China and sold directly to customers via WhatsApp groups and social media - have rocketed, driven by a new attitude to counterfeits. Whereas owning a fake once came with a sense of shame, now it's seen as a savvy move. Why risk feeling stupid for buying subpar, overpriced goods, when you can game the system?"

 Entretanto no WSJ do passado dia 14 de Julho, "'Superfake' Bags Take Sales From Real Thing":

"Counterfeiters have perfected the knockoff handbagand it is disrupting the economics of the luxury industry. Fake purses have always been around, but they were the cheap and plasticky kind that could be picked up for a few bucks from a sidewalk seller. A new generation of "superfakes," as they are known in the industry, look as good as the real thing and cost anywhere from $500 to $5,000. Counterfeiters take your order through encrypted services such as WhatsApp or Telegram, give real-time customer service and deliver the goods straight to your door in a branded box.

They pay social-media influencers to promote illicit goods directly to American and European consumers. The technique is proving so good at sanitizing counterfeiters' shady image that the language used to talk about the bags is changing. The word "fake" isn't used anymore. Instead, fans call the purses replicas, mirror bags, superclones or 1:1s ("one to ones").

In a red flag for luxury brands, young shoppers are embracing the superfakes."

O que emerge destes três textos é um retrato da crise de autenticidade da indústria do luxo, onde a promessa de excelência foi trocada por margens, storytelling e exploração laboral — e onde a resposta dos consumidores mais jovens não é a indignação moral, mas sim o pragmatismo: se é tudo fachada, então vale mais pagar pela ilusão bem feita. 

A lição é clara: o luxo que corta na qualidade, na ética e na transparência está a criar o seu próprio coveiro. E esse coveiro é um público informado, desiludido e disposto a contornar o sistema.

segunda-feira, julho 21, 2025

Curiosidade do dia

No passado dia 13 de Julho o jornal The Times publicou um artigo intitulado "Don't force all 16-year-olds to stay at school, get the state to pay their wages, says key adviser".

O artigo aborda uma proposta de Paul Gregg, conselheiro do governo britânico em políticas de mercado de trabalho, para enfrentar o aumento da inactividade económica entre os jovens no Reino Unido. Gregg defende que os jovens entre os 16 e os 17 anos que abandonam a escola sem qualificações adequadas deveriam ser integrados em programas de trabalho com remuneração simbólica paga pelo Estado. Esta medida visa combater o risco crescente de marginalização laboral e social de uma geração inteira, cuja ligação ao mundo do trabalho está a enfraquecer.

"The welfare bill is on track to hit £100 billion by 2030. At the peak last year, 9.3 million people were neither in work nor looking for a job - a rise of 713,000 since Covid.

This included 872,000 16 to 24-year-olds not in employment, education or training, known as Neets.

Gregg said the rising number of young people leaving education and going straight onto benefits was a "ticking time bomb".

His solution is to give them a job with their wages paid by the state. "For this kind of group, 16, or 17, I believe that we need to be saying that if you're offering a job with training that the state will meet the wage costs," he said, stressing he was speaking in a personal capacity.

...

with more than 1,000 people a day signing up for personal independence payments (PIPs), even the most ardent critic of the policy understands that doing nothing is not an option given the precarious state of the country's finances. New figures by the Centre for Social Justice think tank found that people on sickness benefits will soon receive £2,500 more a year than a minimum wage worker."

BTW, relacionar com o título no JN do passado dia 15 de Julho, "Todos os meses há mais mil pobres com deficiência a pedir ajuda ao Estado."

 

E isto não é fácil



Em 1990 em conversa com um japonês que trabalhava na Yazaki Saltano, em Arcozelo-Gaia, fixei que ele dizia que um construtor automóvel japonês demorava 3 anos a percorrer o ciclo de vida do desenvolvimento de um carro enquanto que no Ocidente demorávamos 5 anos.

Também em 1990 James Womack publicou o livro "The Machine That Changed the World", cheguei a ir ouvi-lo numa apresentação que fez no Porto aí por volta de 1995, onde relatou o quão os construtores automóveis americanos estavam atrás dos japoneses.

Recordei tudo isso ao ler "French carmaker leverages its relatively small scale to focus on nimbleness and simplicity" no FT do passado dia 18.07.

Nele encontrei esta comparação sobre o ciclo de vida do desenvolvimento de um carro. O gráfico mostra que os construtores chineses demoram em média 20 meses a desenvolver um novo modelo — metade dos 40 meses dos construtores ocidentais. 


Segundo o artigo a Renault está a adoptar uma abordagem mais ágil e simplificada no desenvolvimento de novos modelos eléctricos, inspirando-se na rapidez dos construtores chineses. O objectivo é reduzir o tempo de desenvolvimento para menos de dois anos por modelo — metade do tempo habitual — usando menos componentes, inteligência artificial e simulações digitais. 

"Renault is preparing more than 20 new models that will each be developed in less than two years

...

... dismantling and studying vehicles made by BYD and other Chinese carmakers... learning from joint venture partners in China...

...

Renault… will release an all-electric new Twingo next year, after two years of development… The Dacia minicar was developed in just 16 months…"

E isto não é fácil.  

domingo, julho 20, 2025

Curiosidade do dia

 


A propósito de medir a satisfação dos clientes



Neste vídeo:

Por volta do minuto oito e meio esta pérola que merece reflexão:
"The problem with market research is that people don’t feel what they think, they don’t say what they think, and they don’t do what they say. Understanding what people truly feel is incredibly difficult
We’re beginning to develop tools to measure emotion more accurately, but until those are reliable, don’t rely too heavily on people to tell you what they want, because they often don’t know themselves. The parts of the brain responsible for feelings aren’t well connected to the parts responsible for speech. A lot of psychology — and certainly a lot of business strategy — rests on the flawed assumption that people have conscious access to their unconscious motivations and desires. But the truth is: they don’t. These drivers are opaque to introspection. People can't explain them because they genuinely don't understand them at a conscious level."

sábado, julho 19, 2025

Curiosidade do dia


Ontem, no The Times, um artigo muito interessante e com o qual julgo que quase todos se podem rever, "Good srvce was in short supply at the car hire desk."

As experiências que os clientes têm com serviços não dependem do sistema, da organização, mas sim das pessoas que encontramos — e podem ser maravilhosas ou absurdas. Não há um padrão de ouro — tudo varia com a pessoa que está ao balcão, seja num hospital, companhia aérea ou balcão de aluguer de carros.
"Depends who you get.
That's always been my view. About the NHS, social services, the helpline, the person on the gate in the hi-viz jacket. There is no social contract, there is no gold standard. Just individuals with variations of competence, kindness or concern. Your experience depends on a random interaction.
...
So when you do get someone prepared to look beyond a clipboard or computer, it feels like a victory for humanity."


Maturidade, inteligência e birras


Julgo que foi na quarta-feira, ao final do dia, que num jornal televisivo vi imagens de produtores de vinho do Douro a cortarem a estrada nacional 2 próximo da cidade da Régua.

Foi uma cena triste. 

Triste porque tinham um discurso emotivo e pouco racional. Um dizia que o Douro vinhateiro era um tesouro, outro recusava o conselho dos que dizem que vinhas têm de ser arrancadas e novas culturas encontradas, outro exigia aumento do benefício, outro ...

Triste porque o seu presente não tem futuro, mas ao mesmo tempo recusam mudar, recusam assumir a liderança da sua vida e optam por agenciar terceiros com a responsabilidade de lhes resolver os problemas, mas sem implicar sacrifícios.

Tão diferente do que encontrei num artigo do NYT do passado dia 17 de Julho que mão amiga me enviou, "Move Over, Curds. Whey, and Its Protein Punch, Is the New Big Cheese."

O artigo descreve a transformação da indústria de laticínios no Wisconsin, nos EUA, com foco na crescente valorização do soro de leite (whey) — outrora considerado um resíduo — como um produto de elevado valor proteico. Relata-se a história da quinta Norm-E-Lane e da queijaria Nasonville Dairy, mostrando como ambas se adaptaram a esta mudança. O boom recente do whey, alimentado por tendências de saúde e novos medicamentos contra a obesidade, gerou oportunidades económicas significativas, mas também trouxe riscos de saturação do mercado. O artigo sublinha a importância da adaptação rápida, da diversificação de produtos e do realismo económico por parte dos produtores. Sim, do realismo económico por parte dos produtores... o que aumenta a tristeza da cena passada na Régua.
"Ken Heiman is a certified Master Cheesemaker, one of four who ensure that the Cheddar, Gouda and other cheeses made at Nasonville Dairy in Marshfield, Wis., taste great.
But as proud as he is of his cheese, Mr. Heiman knows that his company's profitability these days is thanks less to Colby than it is to whey, the liquid byproduct of making cheese that helps to satisfy America's seemingly insatiable appetite for added protein.
Nasonville Dairy produces around 150,000 pounds of cheese a day, but just breaks even on most of it, especially the 40-pound blocks of Cheddar that are a cheesemaker's stock in trade. What increasingly keeps the lights on is whey.
"We ought to be thanking people who are buying whey protein at Aldi's," said Mr. Heiman, who, in addition to being a Master Cheesemaker, is Nasonville's chief executive. "It definitely enhances the bottom line."
Whey is so valuable because it can deliver a lot of protein in a small caloric package, especially as exhortations to consume more protein have popped up everywhere over the last two decades.
...
[Moi ici: A evolução do soro de leite: de resíduo a produto valioso. O preço desde 2020 triplicou. When Mr. Heiman, 72, began his career in the 1960s, it was pumped down a river, spread on a field, or fed to pigs. In other words, it was waste, and the only goal was to get rid of it as cheaply as possible.
Times have changed. "In the last decade or so, there are times when cheese is the byproduct of cheese production, and the cheese plants make more money off the whey production," said Mike McCully, a dairy industry consultant.
...
[Moi ici: Os produtores não controlam o preço do leite — são price takers] Still, the Meissners have little control over what they are paid for their milk. They are what economists call price takers, not price makers.
Milk is not priced like other commodities. Most milk in the United States is sold to dairy coops. The minimum price that farmers receive is set by the federal government - a system set up in the 1930s to bolster milk producers - and changes monthly depending on the various market forces hitting all milk products (cheeses, butter, yogurt, whey, etc.). Even farmers, like the Meissners, who sell their milk directly to cheese producers, get essentially the co-op price for their milk.
«There is not a lot of wiggle room of shopping around these days," Josh Meissner said."
...
[Moi ici: Agora entra a parte do realismo] The boom will eventually end. A glut of new cheese and whey plants are being built, and like fluid milk and Cheddar cheese before it, high-protein whey will become a commodity.
Norm-E-Lane and Nasonville Dairy are already looking over the horizon.
Emmett Meissner has begun raising Angus steers, taking advantage of historically high beef prices and customers' interest in knowing more about where their beef comes from. Mr. Heiman is pushing his specialty cheeses, like the ghost pepper Jack, that the bigger, more streamlined factories cannot make.
"The curse of any commodity business," Mr. Bozic said, "is that you cannot have extraordinary profits forever."
...
[Moi ici: Já antes Mr Heiman tinha dito no artigo] Although Nasonville is the largest cheesemaker in Wood County, in the heart of America's dairyland, he says it can't compete with West Coast dairies, where multinational conglomerates have built massive cheese plants.
"If you are making the same kind of cheese they make, you're roadkill," he said. "Those guys have efficiency that just spooks you."" [Moi ici: Daí o foco na produção de "specialty cheeses ... that the bigger, more streamlined factories cannot make"] 

É impossível não reconhecer a maturidade e a inteligência de quem não faz birra com as regras do jogo, mas observa o mercado com atenção, reconhece oportunidades (mesmo que passageiras), e age depressa para tirar partido delas.

Esta postura é o oposto da resignação ou da queixa. É uma atitude que junta realismo económico com iniciativa prática. Eles sabem que a rentabilidade extraordinária não dura — e por isso não se acomodam: já estão a preparar o passo seguinte enquanto o mercado ainda parece promissor.

No fundo, é disto que se faz a boa gestão: capacidade de observar, agir sem demora, aproveitar o ciclo em alta e preparar a próxima jogada. É a combinação de prudência com audácia, de pé no chão com olhos no horizonte. Um exemplo que muitos gestores — de qualquer sector — deviam seguir.

sexta-feira, julho 18, 2025

Curiosidade do dia

 
"Há, o mercado brasileiro, por exemplo. E quando hoje rasgamos as vestes pelas ameaças da Administração Trump, esquecemo-nos que o Brasil já impõe taxas superiores a 100%."

Trecho retirado de "Esquecemo--nos que o Brasil já impõe taxas superiores a 100%" publicado no jornal Público do passado dia 15 de Julho. 

Como uma doença crónica

O último capítulo, "Changing for Good", do livro "The Science of Getting from Where You Are to Where You Want to Be" de Katy Milkman ainda nos consegue surpreender com uns bons trechos:

"Stumped, I called my friend Kevin Volpp, a star economist and medical doctor who helped build one of the most successful applied behavioral economics research groups in the world.

I wanted Kevin's perspective. Why did he think we'd been so unsuccessful at making behavior change stick?

Kevin offered up some unforgettable words of wisdom: "When we diagnose someone with diabetes, we don't put them on insulin for a month, take them off of it, and expect them to be cured." In medicine, doctors recognize that chronic diseases require a lifetime of treatment. Why do we assume that behavior change is any different?

I felt like slapping myself in the forehead.

...

Study after study (mine included) has shown that achieving transformative behavior change is more like treating a chronic disease than curing a rash. You can't just slap a little ointment on it and expect it to clear up forever. The internal obstacles that stand in the way of change, which I've described in this book -obstacles such as temptation, forgetfulness, underconfidence, and laziness— are like the symptoms of a chronic disease. They won't just go away once you've started "treating" them. They're human nature and require constant vigilance.

...

The key is to treat change as a chronic problem, not a temporary one, just as Kevin suggested.

When you use the tools in this book to overcome whatever internal obstacles you face on your journey to create change, recognize that you’ll want to use them not once or twice or for a month or for a year or two, but permanently. Or, at least, until you no longer want to achieve whatever it is you set out to achieve in the first place."

A mudança de comportamento não é uma intervenção pontual, mas um processo contínuo, tal como o tratamento de uma doença crónica. É um alerta contra a ingenuidade com que muitas vezes encaramos a mudança, seja a nível pessoal, organizacional ou social. A ideia de que basta um “programa de mudança”, uma formação ou um plano de acção com começo, meio e fim para transformar comportamentos ignora o papel persistente de factores como a tentação, a inércia, o esquecimento ou a auto-sabotagem. Esses obstáculos não desaparecem: são parte da condição humana.

A mensagem final é clara: manter a mudança exige manutenção. Tal como nas organizações, onde a melhoria contínua não se alcança com auditorias esporádicas, mas com sistemas e rotinas consistentes, também na vida pessoal é preciso tratar a mudança como um compromisso de longo prazo. E, talvez, aceitar que nunca está realmente “feita”. 

quinta-feira, julho 17, 2025

Curiosidade do dia

"Magical thinking has been the default proposition across the public sector for many years and we are only now gaining a full sense of the damage this nonsense has caused. The Peggie case is but a microcosm of the macro failings apparent across a public sector where immovable stupidity meets unstoppable incompetence."

Depois queixam-se que as pessoas desconfiam da ciência...

"The stupidity displayed by NHS Fife throughout this saga would put halfwits to shame. On Wednesday Isla Bumba, the health board's head of "Equalities and Human Rights", told the tribunal that she could not be sure of her own sex. "No one knows what their chromosomes are," she said, a development which may surprise any woman who has, say, given birth." 

Trechos retirados de "The rot that led to the Sandie Peggie case goes right to the top

Competir num mundo Mongo com um modelo anti-Mongo



O parceiro das conversas oxigenadoras recomendou-me a escuta deste podcast com Carlos Mendes Gonçalves.

O Grupo Mendes Gonçalves tem registado crescimento sustentado, com aproximadamente 30 % das vendas feitas internacionalmente, presença em mais de 22 países e crescimento anual na faixa de +20%.
O foco estratégico assenta numa diversificação constante de produtos (até 50 novos lançamentos por ano) e a inovação contínua tem sido fundamental para a competitividade global

Nesse mesmo dia, 15.07, tinha lido no FT, "Buffett comes out on top from Kraft Heinz flop". 

Há anos que escrevo aqui sobre a Kraft Heinz:
A Kraft Heinz, nas mãos da 3G Capital, cortou custos com violência (20% dos trabalhadores e 40% dos overheads), mas esqueceu-se de investir em marcas e inovação. Resultado: vendas em queda durante seis trimestres, desvalorização bolsista massiva e marcas ocas. Como escrevi, em Fevereiro de 2019, “não se corta caminho para o crescimento” – e a Kraft Heinz é exemplo disso.

Nos textos “Mongo é inevitável” e “A defesa da suckiness”, mostro que os gigantes tendem a degenerar numa busca doentia por eficiência e escala, que os cega ao valor emocional, à diversidade, e à criação de tribos apaixonadas.

A Kraft Heinz tentou competir num mundo Mongo com um modelo anti-Mongo — volume, uniformidade, centralização e frugalidade. Quando finalmente começaram a lançar 20 variedades de ketchup, era tarde demais e feito com ADN errado: cada nova versão trazia complexidade, mas sem alma. As pequenas marcas de nicho estavam já a conquistar corações.

Escrevo sobre marcas que viram carcaças e da dificuldade em “fingir autenticidade”, o caso Kraft Heinz ilustra esse paradoxo: marcas poderosas (Kraft, Heinz) que já não criam desejo, apenas reconhecimento vazio. Os consumidores tornaram-se ketchup-curious, mas fieis a novos sabores com identidade, não à nostalgia empacotada.

O colapso da Kraft Heinz é o espelho perfeito das minhas reflexões. Mostra como:
  • cortar custos sem repensar o modelo leva ao esvaziamento das marcas;
  • a lógica da eficiência é incompatível com a lógica do encantamento emocional;
  • a fidelidade do consumidor pós-Mongo constrói-se com identidade, não com volume;
  • e o verdadeiro valor nasce de se aceitar a imperfeição, a diversidade, e a emoção - não da padronização "perfeita" do século XX.
Buffett saiu a ganhar porque é mais dono de finanças do que de marcas. Mas o modelo da 3G Capital é uma lição do que não fazer num mundo onde o consumidor escolhe sentir. 

quarta-feira, julho 16, 2025

Curiosidade do dia

"Janudi Perera spent all spring looking for a retail job, but had no luck.
So the college sophomore in Queens, N.Y., did what many around her do when a situation doesn't go their way: She paid a witch on Etsy to cast a spell.
"The job market is terrible, I'm not getting any responses, so why not help myself out?" said Perera. "And if it doesn't work out, then oh well, it was only $15."
Perera said some of her friends bought Etsy spells during finals. She isn't an ardent believer in witchcraft but does believe in manifesting, the ritual of envisioning desired outcomes.
The day the Etsy witch cast the spell, Perera said she got a job offer from Whole Foods, where she's now a store shopper. Was it magic?
Witchcraft and spellwork have become an online cottage industry."

Na primeira página do WSJ de hoje.

Portugal, o que é que se está a fazer ou a planear fazer?


Há um ditado atribuído a Confúcio que diz algo como:

"O homem inteligente aprende com os seus próprios erros. O sábio aprende com os erros dos outros."

Ainda há dias recordei o ICI-man e a sua frase que nunca me abandona

"Planning is an unnatural process; it is much more fun to do something. And the nicest thing about not planning is that failure comes as a complete surprise rather than being preceded by a period of worry and depression."


Depois, recordei os rinocerontes cinzentos e os fragilistas:

"Os fragilistas partem do princípio que o pior não vai acontecer e, por isso, desenham planos que acabam por ser irrealistas ou pouco resilientes. Depois, quando as coisas acontecem, chega a hora de culpar os outros pelos problemas que não souberam prever, não quiseram prever, ou que ajudaram a criar."

"O fragilismo espera sempre o melhor do futuro, não prevê sobressaltos. Acredita que os astros se vão alinhar em nosso favor, não vê necessidade de precaução, just in case."

Também posso recuar ao Evangelho segundo São Lucas 14, 28-33:

"Quem de vós, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, se mostre incapaz de a concluir e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo:

‘Esse homem começou a edificar, mas não foi capaz de concluir’.

E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro a considerar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem contra ele com vinte mil? Aliás, enquanto o outro ainda está longe, manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz."

Entretanto, no FT da passada segunda-feira podia ler-se, "Rising demand forces Dutch to ration electricity". O artigo relata como os Países Baixos enfrentam um racionamento da electricidade devido à crescente procura motivada pela transição energética e electrificação da economia. Com mais de 11.000 empresas à espera de ligação à rede, o sistema eléctrico holandês está a atingir os seus limites. A situação está a forçar o governo, operadores e empresas a repensar planos de investimento e a procurar novas soluções, desde tarifas diferenciadas por hora até campanhas de sensibilização sobre consumo energético. O artigo alerta que esta crise energética é um aviso para outros países europeus que estão no mesmo caminho de descarbonização.

"More than 11,000 businesses are waiting for electricity network connections… On top of that are public buildings such as hospitals and fire stations as well as thousands of new homes.

...

Everything is going electric and electricity infrastructure needs to grow massively everywhere.

...

Lengthy waits for connections were holding up economic growth and could force businesses to rethink their investment plans.

...

To fix the overcrowded electricity system... the country needs to increase capacity until 2030 by an average of €4bn a year... The Hague has also put out a 'more conscious use of energy' advertising campaign.

...

The Dutch example is a warning... other countries should 'definitely' see the Dutch example as a warning."

Portugal, o que é que se está a fazer ou a planear fazer?

terça-feira, julho 15, 2025

Curiosidade do dia

Interessante!!!

No passado dia 7 numa reunião usei este mesmo termo "sicofantismo" acerca dos LLMs. 

Escrevemos um erro no prompt e eles (os LLMs) usam-no acriticamente e nunca nos contradizem, ecoam passivamente os nossos erros (utilizadores) em vez de desafiar as falsas suposições — muito à semelhança da lisonja sem sinceridade.

Compromissos versus realidade


Foi com alguma perplexidade que ouvi na TV e li no JN, "Descargas do rio Onda foram feitas pela Lactogal", as descargas ilegais da Lactogal no rio Onda. 

Como pode uma empresa que se afirma "amiga do ambiente" e que cultiva uma imagem pública de responsabilidade social e sustentabilidade estar no centro de um caso tão grave de poluição? A morte de peixes e aves, bem como a interdição de banhos nas praias de Angeiras e Labruge, são consequências directas e inaceitáveis desta conduta.

Mais chocante ainda é a reacção da própria empresa, que admite não ter solução para tratar todos os efluentes que produz, ao mesmo tempo que aponta o dedo à APA por dificuldades burocráticas. Segundo o artigo, “as águas residuais geradas no processo industrial são ‘orgânicas e biodegradáveis’, porém ‘requerem tratamento adequado’”. Ora, se a Lactogal não tem capacidade instalada para tratar os seus próprios resíduos, como pode continuar a operar com esta regularidade? Portanto, pela reacção da empresa podemos presumir que o aconteceu não foi um acidente?

Vale a pena recordar que no site da empresa se pode ler:
"Como consequência do elevado consumo de água nos vários processos produtivos da nossa indústria resulta a produção de efluente industrial. A Lactogal possui, nas suas unidades industriais, estações de tratamento de efluente industrial que obedecem a elevados padrões de monitorização e descarga de água tratada em meio hídrico. As estações de tratamento de efluentes industriais (ETEl) têm vindo a ser alvo de grandes investimentos, tendo em vista a otimização do processo nos resultados do tratamento do efluente.
Todo o efluente da empresa é enviado para estações de tratamento de efluentes industriais sendo, depois, rejeitado em meio hídrico. Também o rácio de produção específica de efluente (m3 de efluente produzido / m3 de leite processado) tem vindo a reduzir ao longo dos anos, resultado de otimizações efetuadas ao nível dos processos produtivos."
Vale a pena recordar que o Presidente do Conselho de Administração em Maio de 2024 assinou uma "POLÍTICA DOS SISTEMAS DE GESTÃO" onde assume o compromisso:
"Identificar e avaliar periodicamente os impactes ambientais, procurando a melhoria contínua do desempenho ambiental das suas atividades, dentro de uma estratégia de proteção do ambiente, prevenção da poluição e gestão responsável de recursos naturais;"

segunda-feira, julho 14, 2025

Curiosidade do dia






Ontem ao final da tarde, na paróquia da Madalena, em Vila Nova de Gaia, viveu-se um momento bonito, e raro, de comunhão entre arte, talento e comunidade. Um concerto, "Sons de Esperança" de música clássica e religiosa, organizado por gente da casa, mostrou que não é preciso sair da freguesia para se ouvir qualidade.

Mal ouvi os primeiros acordes de "Air on the G String" dei por bem empregue o meu tempo. Depois, "Quia Respexit" do "Magnificat, depois o resultado da dedicação de vários jovens com o violino e o orgão. Os músicos tocaram com alma e entrega, e houve interpretações (Coro Jovens e Coro "Vozes de Fermúcia") que, sinceramente, não ficariam mal em palcos mais formais. 

A igreja estava quase cheia. A música uniu-nos e provou, mais uma vez, que a beleza não está só nas grandes salas de concerto, mas também nos gestos de quem oferece o melhor de si, de forma desinteressada.

Foi uma hora e meia inspiradora. Que venham mais assim.

Exportações - os primeiros cinco meses de 2025



Exportações portuguesas - Janeiro a Maio 2025: sinal misto, com farmacêuticos e aeronaves a puxar pelo total.
A evolução homóloga dos primeiros cinco meses de 2025 apresenta um quadro semelhante ao observado até Abril: 9 sectores com variações positivas e 9 sectores com variações negativas. Em termos globais, regista-se uma ligeira recuperação (+1,8%) face ao mesmo período de 2024.

O sector farmacêutico destaca-se novamente, com um crescimento homólogo superior a 150%, mantendo o perfil errático mas estruturalmente ascendente que já tínhamos identificado. As exportações de aeronaves continuam também a surpreender, crescendo mais de 45% e reforçando o papel deste sector na estratégia de reindustrialização qualificada.

Máquinas e equipamentos mantêm o bom ritmo de crescimento (+8,5%), enquanto a fruta regista um sólido +21,7%, confirmando a vitalidade de algumas cadeias agroindustriais.

No lado negativo, merece destaque a quebra acentuada nas exportações de combustíveis (-19,2%), ferro fundido (-9,3%) e produtos hortícolas (-4,3%). O mobiliário também contrai (-4,7%), dando continuidade a uma tendência que tem vindo a consolidar-se.

O sector da óptica apresenta nova quebra, acumulando dois meses consecutivos de desempenho negativo após uma série longa de crescimentos. 

O calçado inverte a tendência negativa do início do ano, com um ligeiro crescimento (+4,5%), o que pode indicar recuperação.

domingo, julho 13, 2025

Curiosidade do dia


Recordo: O contrário de uma estratégia é outra estratégia 

"Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és"


O ditado popular reza assim: "Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és."

As avós estão sempre preocupadas com quem os netos passam o tempo.

Entretanto, no sétimo capítulo (Conformity) de "The Science of Getting from Where You Are to Where You Want to Be" de Katy Milkman encontrei:
"We feel like misfits when we stand out from the crowd.
...
the logic behind the herd behavior is different. No one is worried about fitting in. Rather, we suspect other people have noticed something dangerous that we missed. Sometimes, other peoples’ decisions reflect valuable information
...
how important it is to be in good company when you hope to achieve big goals and how harmful it can be to have peers who aren’t high achievers. A growing body of evidence suggests that the people you’ve spent time with have been shaping your behavior your whole life, often without your knowledge.
...
we found that encouraging people to copy and paste one another’s best life hacks motivated both more exercise and better class preparation in adults who wanted to work out more and college students seeking to improve their grades, respectively.
...
When we’re unsure of ourselves, a powerful way the people around us can help boost our capacity and confidence is by showing us what’s possible. Often, in fact, we’re more influenced by observation than by advice.
...
These studies highlight that the closer we are to someone and the more their situation resembles our own, the more likely we are to be influenced by their behavior, even if the behavior is merely described rather than directly observed.* They also speak to the power of using norms as a tool of influence. Describing what’s typical can be an effective way to help large groups change their behaviors for the better."

sábado, julho 12, 2025

Curiosidade do dia

 

"Ivar Giaever might not have won the Nobel Prize in Physics if a job recruiter at General Electric had known the difference between the educational grading systems of the United States and Norway. It was 1956, and he was applying for a position at the General Electric Research Laboratory in Schenectady, N.Y. The interviewer looked at his grades, from the Norwegian Institute of Technology in Trondheim, where Dr. Giaever (pronounced JAY-ver) had studied mechanical engineering, and was impressed: The young applicant had scored 4.0 marks in math and physics. The recruiter congratulated him.
But what the recruiter didn't know was that in Norway, the best grade was a 1.0, not a 4.0, the top grade in American schools. In fact, a 4.0 in Norway was barely passing - something like a D on American report cards. In reality, his academic record in Norway had been anything but impressive.
He did not want to be dishonest, Dr. Giaever would say in recounting the episode with some amusement over the years, but he also did not correct the interviewer. He got the job."

Em 1973 Ivar Giaever ganhou um Premio Nobel.

Trecho retirado do NYT do passado dia 10 de Julho. 

Pena não ser complementada com criatividade

 


"Daimler Truck said it expects to cut around 5,000 jobs in Germany over the next five years as it shifts production of Mercedes-Benz trucks to a more cost-effective country.
The German truck maker said the decision is part of its previously announced European cost-saving plan of more than €1 billion, equivalent to $1.17 billion, with the job cuts likely to be made through natural attrition, expanded early retirement options and targeted severance packages."
Que futuro têm as economias baseadas em indústrias "avançadas" quando os seus próprios "campeões" deixam o país por razões de custo? 

Será que é inevitável que o foco deixe de ser a inovação e passe a ser o custo?

Recordo o estudo feito sobre o valor, para os relógios analógicos, do Made in Switzerland ...

A decisão de deslocalizar por razões de custo pode ignorar valores intangíveis e não mensuráveis, como a reputação da marca ligada à engenharia alemã, a confiança do consumidor, ou o capital simbólico de ter os produtos feitos num país com prestígio industrial.

Neste blogue não temos informação suficiente, mas gostamos de seguir algumas regras heurísticas. Por exemplo, melhor do que optimizar a eficiência, é trabalhar para optimizar a marca, o significado. Claro que não ajustar durante as vacas gordas torna inevitável, mais tarde, uma fase de austeridade. Pena não ser complementada com criatividade para subir na escala de valor.  



Trecho retirado de "Daimler Truck Plans To Cut 5,000 Jobs In Germany" publicado no WSJ do passado dia 9 de Julho.

sexta-feira, julho 11, 2025

Curiosidade do dia



O ICI-man (Sir John Harvey-Jones) dizia:
"Planning is an unnatural process; it is much more fun to do something. And the nicest thing about not planning is that failure comes as a complete surprise rather than being preceded by a period of worry and depression."

A propósito de "Pensões em Portugal vão exigir 40% da receita fiscal e contributiva até 2050":

"Com a redução da população ativa associada ao envelhecimento e a perspetiva de estabilização na carga fiscal, Portugal estará, dentro de duas décadas e meia, no topo da lista dos países da União Europeia cujas finanças públicas vão enfrentar maior pressão com os custos de pensões, apenas atrás de Espanha, noticia o Jornal de Negócios (acesso pago).

De acordo com o mais recente relatório anual sobre fiscalidade da Comissão Europeia, o pagamento de pensões deverá consumir, em 2050, um pouco mais do que 40% da receita fiscal e contributiva do país, ou seja, quatro em cada dez euros recebidos pela Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) e pela Segurança Social."

 

Racionalidade contra o imobilismo

A propósito de "Symington: "A responsabilidade de resolver o problema dos excedentes no Douro não pode ser nossa"".

A família Symington, uma das mais influentes na produção de vinho do Porto, voltou a levantar a voz -  desta vez com a serenidade racional (é um dos principais sentimentos que transpira do artigo) de quem olha para os números e não para as nostalgias. O diagnóstico é claro: o sistema que regulou o sector durante décadas está em colapso. Há um excesso estrutural de produção, a procura está em declínio, e insistir no modelo actual é alimentar uma ilusão insustentável.

Este alerta não é novo. Há mais de uma década que os Symington chamam a atenção para o desequilíbrio entre oferta e procura. No entanto, o sistema político e institucional tem preferido medidas paliativas e actuações de curto-prazo: apoio ao armazenamento, destilação de crise, incentivos que adiam mas não resolvem. E quanto mais se adia ... mais cresce a insustentabilidade.

A crítica não é feita de forma leviana. A empresa afirma com lucidez que não pode continuar a comprar vinho que não consegue vender — seria um suicídio empresarial. A responsabilidade de sustentar o sistema não pode recair sobre as empresas.

Neste contexto, leis como a do Terço, que obrigam à manutenção de elevados níveis de stock, revelam-se desadequadas face à nova realidade. A quebra do consumo global, particularmente de vinho tinto, afecta de forma brutal o modelo produtivo da região do Douro.

A proposta da Symington é dura, mas honesta: é preciso permitir o abandono parcial e voluntário de vinha, reestruturar a produção em torno das parcelas mais produtivas e rentáveis, e deixar cair o mito de que tudo pode continuar como antes.

É preferível enfrentar agora uma transição difícil do que assistir ao colapso inevitável de um sistema sustentado em negação. A perplexidade da família Symington perante a recusa dos decisores em aceitar esta realidade deveria ecoar com força no sector.

quinta-feira, julho 10, 2025

Curiosidade do dia

 

Reforçar a crença na capacidade de mudar.

Mais um trecho interessante retirado de "The Science of Getting from Where You Are to Where You Want to Be" de Katy Milkman:

"It’s common to give out advice when we see someone struggling to achieve a goal. We often think guidance is just the thing they’re looking for, whether they ask for it or not.
...
when it came to being more successful, people had plenty of good ideas for how to do it. Even underperforming salespeople, C students, unemployed job seekers, and spendthrifts struggling to save consistently offered smart strategies for improving their circumstances. Students made suggestions ranging from the mundane ("Turn off your phone when you're studying") to the creative ("Put candy at the bottom of a worksheet, and when you finish, you can eat it"). People with money problems advised "Don't pay with a credit card." Job seekers suggested keeping résumés up-to-date and carrying them at all times. Almost everyone knew what to do to overcome their problems; they just weren't doing it.
Lauren began to suspect that this failure to act wasn't related to a lack of knowledge, but rather to self-doubt what the legendary Stanford psychologist Al Bandura has called "a lack of self-efficacy." Self-efficacy is a person's confidence in their ability to control their own behavior, motivation, and social circumstances. ... goal strivers are sometimes plagued by insecurity. In fact, a lack of self-efficacy can prevent us from setting goals in the first place.
...
Research confirms the obvious: when we don't believe we have the capacity to change, we don't make as much progress changing.
...
Too often, we assume that the obstacle to change in others is ignorance, and so we offer advice to mend that gap. But what if the problem isn’t ignorance but confidence—and our unsolicited wisdom isn’t making things better but worse?
...
prompting goal seekers to offer advice led them to feel more motivated than when they were given the very same caliber of advice.
...
being asked to give advice conveyed to people that more was expected of them, boosting their confidence."
O problema não é falta de conhecimento.
O problema é não acreditar que se consegue aplicar esse conhecimento com sucesso. Por isso, muitas intervenções eficazes não se centram em ensinar mais, mas em reforçar a crença na capacidade de mudar.

quarta-feira, julho 09, 2025

Curiosidade do dia

não estou sozinho (recordar a necessidade de medir a produtividade do sector doméstico e do sector estrangeiro). 

Sem dados acerca do futuro


Há anos aqui no blogue comecei a falar no "optimismo não documentado," por exemplo:
Ontem, Roger Martin publicou um artigo, "Going on the Offensive with Creative Strategy", que está relacionado com o tema:
"My message was that in modern business, creatives are dooming themselves to high failure rates by accepting the dominant premise of modern business, which is that by objectively analyzing the past, you can predict the future.
...
In business, all ideas are subjected to the premise that we should only take an action for which data analysis confirms will garner the necessary revenues in the future to justify the investment required by the action. Analytics are taught that their job is to enforce this premise strictly and pervasively — any deviation is reprehensible and dangerous.
...
The problem is that analytics are taught a fundamental logical fallacy. To make decisions, they are taught to use a methodology that implicitly assumes that the future will be identical to the past while we definitively know that in business, the future is rarely identical to the past. But analytics enforce a methodology that assumes it is.
That is the single biggest problem in the modern practice of management.
...
The object of strategy is an integrated set of choices that compels desired customer action. But companies do not control customers: they will do whatever they wish. Analyzing past data to forecast the future behavior of people you don't control is a fantasy exercise.
...
If you are a creative, understand that you live in a business world completely dominated by analytics. It is an era - that took shape about fifty years and still dominants today — on which we will look back fifty years from now and wonder what were we thinking? And what on earth were we teaching?
It will probably take another twenty years for the current dominant business premise to be seen as utterly ridiculous."

O conceito de "optimismo não documentado" é a decisão de agir com convicção mesmo sem garantias estatísticas. É o risco de investir num caminho novo, sem “benchmarks”, baseado em algo que ainda não foi medido, mas que faz sentido. Ou como Martin escreve:

“Analyzing past data to forecast the future behavior of people you don't control is a fantasy exercise.”

E, como diria Rory, é justamente nas decisões que não podem ser sustentadas por dados históricos — porque criam o futuro em vez de o prolongar — que reside a verdadeira inovação. O que por sua vez se relaciona com a opinião de Phil Mullan acerca dos governos e do seu medo acerca da inovação verdadeira. BTW, Seth Godin também não é meigo:

"Certainty is another word for stalling."

terça-feira, julho 08, 2025

Curiosidade do dia



Ontem o FT publicou mais um texto de Martin Wolf, "Roots of the British malaise lie in a sick economy".

Wolf identifica três falhas fundamentais no Reino Unido: política, estado e economia — e não hesita em dizer qual é a mais crítica:

"The UK suffers from three failures: failing politics; a failing state; and a failing economy. Of these, the last is much the most important."

Mesmo reconhecendo que o Reino Unido continua a ser, comparado com muitos países, uma democracia funcional e com um nível de vida elevado, o colunista não poupa críticas à estagnação económica e à incapacidade política para a contrariar:

"The problem is that the economy does not provide a rising standard of living or the expected quality of public services at politically acceptable levels of taxation."

Na semana passada a minha irmã, que vive em Inglaterra, teve de ir a Leicester. Lá, recorreu a um taxi conduzido por um somali. O somali disse-lhe que só não regressava à Somália por causa dos muitos filhos que vivem em Inglaterra, porque na sua parte natal na Somália a vida, na opinião dele, é melhor do que em Leicester. Aliás, a mulher dele está actualmente de férias na Somália. (BTW, a minha irmã perguntou-lhe se a Somália não era perigosa, ao que ele respondeu, que tudo depende da zona... e a minha irmã que vive numa zona calma e pacata do condado de Somerset percebeu).

Os dados falam por si:

"Real disposable income per head rose by just 14 per cent between the third quarters of 2007 and 2024." ...

"Trend growth of GDP per head in the UK had been 2.5 per cent a year from 1990 to 2007; then, between 2008 and 2025, it was just 0.7 per cent."

Wolf sublinha que a produtividade é o verdadeiro calcanhar de Aquiles:

"The UK's stagnant productivity is a big worry. When economies cease to grow, everything becomes zero-sum."

Mais preocupante ainda, segundo o autor, é o facto desta ilusão de crescimento ter sido alimentada por uma bolha de crédito fácil.

A consequência política desta estagnação? Charlatanismo de um lado e timidez do outro.

"By and large, [responses) have fallen into two categories: charlatanism and timidity."

Wolf reconhece em Keir Starmer integridade, mas não a coragem necessária:

"Keir Starmer is not a charlatan. But he has not been prepared to take on the burden of leadership that current conditions require."

Os jornais ingleses têm sido bastante críticos de Starmer, mas consideram o partido ainda pior pela incapacidade de reformar o país.

Não é preciso muito esforço para ver nesta descrição um espelho da realidade portuguesa. A produtividade tem sido o parente pobre do debate político. Tal como no Reino Unido, confunde-se crescimento com financiamento externo ou ciclos de fundos comunitários, e evita-se fazer o verdadeiro debate: o que produzimos? Como produzimos? A que preço e com que valor?

Neste podcast, Rory Sunderland, por volta do minuto 46 diz:

"Our audience, Rory, is made up of marketers: CMOs and marketing leaders driving innovation within their organizations and brands. In addition to the two points you've already mentioned, they're also looking to uncover 'white space' or 'blue sky' opportunities to create the next level of value. Because if you only focus on what currently exists, you end up over-optimizing for the past. The result? You shrink and become completely non-resilient.

Exactly. This reflects the classic explore-exploit trade-off, which I believe is a fundamental principle of life. It's about what proportion of resources you allocate to exploring new ideas versus exploiting what you already know works.

You'll know this concept from media planning-the 70/20/10 model, right?

70% of your spend goes to proven strategies, 20% to things you believe will work but aren't yet fully tested, and 10% to high-risk experimentation-things you don't yet know if they'll work at all.

In practice, however, it's always that 10% that gets cut first. And not because it doesn't pay off, but because it doesn't reliably pay off.

Exactly. We've created a business environment where predictability is valued more than profit. People would rather have a consistent 3% return than a 50% chance of making 30%.""

Tal como escreve Wolf:

"When economies cease to grow, everything becomes zero-sum."

Em Portugal, isso traduz-se numa economia onde todos se sentem a perder - trabalhadores com salários baixos, empresas sem margens, estado com serviços a degradar-se e impostos sufocantes. 

Martin Wolf propõe investir "intellectual resources" numa nova estratégia de crescimento.

O mesmo é válido para Portugal. Não há "bazucas" que nos salvem se não formos capazes de gerar crescimento sustentável com base em produtividade.