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terça-feira, setembro 29, 2026

Curiosidade do dia

O algoritmo do Twitter apresentou-me este tweet:

Fez-me logo pensar no pecado de omissão que referi em "Keep dreaming... ou nightmaring". Filipe de Bottom cai no mesmo erro de Alexandre Relvas, acreditar que a baixa produtividade de Portugal é culpa de quem está no mercado... tem de descobrir a metáfora dos mastins dos Baskerville.

Como escrevi em «Keep dreaming... ou nightmaring», a produtividade de um país depende também da composição da sua economia. As empresas actuais podem melhorar e algumas podem mudar de rumo. O salto que procuramos exige, porém, que cresçam empresas capazes de ocupar outras posições nas cadeias de valor, incluindo, sobretudo, empresas que ainda não estão em Portugal.

E volto a outro grande influenciador do meu pensamento, Erik Reinert, e aos seus exemplos, do Haiti como produtor de bolas de basebol, ou à metade da cidade que vive de lavar pratos e engraxar sapatos:

"As was so obvious to American economists around 1820, a nation - just as a person - still cannot break such vicious circles without changing professions."

Como é que Filipe de Bottom pode comparar a produtividade dos portugueses a trabalhar em Portugal com a produtividade dos portugueses no estrangeiro, esquecendo que eles, como a costureira do Vale do Ave, vão produzir para empresas que estão em negócios diferentes, com maior valor acrescentado. Não é honesto comparar laranjas com limões.


Os culpados versus a cadeira vazia.

A autoflagelação performativa tem uma vantagem: a plateia aplaude o "somos nós" e ninguém olha para a cadeira vazia. Enquanto se pensar em "somos nós", continuará a fazer sentido para os políticos despejarem milhões em apoios e subsídios, dados, recebidos e aplicados de forma séria (escrevo isto sem ironia), mas inglória, porque nunca permitirão dar o salto de produtividade de que o país precisa.


quinta-feira, setembro 24, 2026

Keep dreaming... ou nightmaring

7 meses depois, o anónimo da província vê a sua explicação tornar-se mainstream.

Em Fevereiro passado, este anónimo da província publicou um postal e um vídeo com um título um bocadinho comprido: "Temos um problema de produtividade: a explicação plausível que falha no essencial."

Nesse vídeo, parti de um artigo publicado pelo ECO, baseado numa análise da Randstad. O emprego em Portugal tinha crescido 3,2%, enquanto o PIB tinha crescido apenas 1,9%. Portanto, havia mais pessoas a trabalhar, mas o valor produzido não estava a crescer ao mesmo ritmo. 

Até aqui, tudo bem. São factos, são números. A minha surpresa começou com a explicação dada para o fenómeno. Segundo a Randstad, o mercado de trabalho enfrentava um "desafio de eficiência".

Segundo a Randstad, as empresas estariam a contratar ou a reter trabalhadores, mesmo sem terem trabalho suficiente para eles, a Randstad usava o termo "hoarding", porque receavam não conseguir recrutá-los no futuro. E, perante a queda da produtividade, a solução proposta era investir em tecnologia e no famoso upskilling das equipas.

Foi nessa altura que me apeteceu dizer: “What the fuck?”

Ontem li que os alemães dizem que "Costa [is] losing touch 'with reality'". A mim também me surpreendeu que alguém possa desconhecer tanto o tecido empresarial português que possa acreditar em "labor hoarding", um bom exemplo de "losing touch 'with reality".

As empresas portuguesas, muitas delas com margens reduzidas, dificuldades financeiras e falta de encomendas, estariam a acumular trabalhadores que não precisavam, só porque talvez viessem a precisar deles no futuro? 

Pareceu-me uma explicação absurda formulada com palavras sofisticadas, mas que falhava no essencial. O erro era confundir aquilo que se passa dentro de uma empresa com aquilo que acontece no conjunto da economia. Numa empresa concreta, a produtividade pode diminuir porque aumentou o número de trabalhadores sem que a produção tenha aumentado. A empresa pode ter capacidade desaproveitada, processos ineficientes ou pessoas sem trabalho suficiente, mas, quando falamos da produtividade de um país, temos de olhar também para a composição da economia.

Temos de perguntar:

  • Em que sectores está a crescer o emprego?
  • Que tipo de empresas está a contratar?
  • Quanto valor geram essas empresas por cada trabalhador?

Foi isso que procurei explicar no vídeo de Fevereiro.

Imagine-se que temos dois tipos de empresas. As empresas do tipo A trabalham com margens baixas, têm reduzido valor acrescentado e competem sobretudo através do preço, do volume e dos baixos custos. Mas são estas empresas que estão a criar emprego. 

Depois temos as empresas do tipo B. Têm margens mais elevadas, maior valor acrescentado, mais tecnologia, mais conhecimento e maior capacidade para pagar bons salários. O problema é que estas empresas são poucas, não existem em número suficiente ou não estão a crescer.

Se o emprego aumentar sobretudo nas empresas do tipo A, a produtividade agregada do país pode cair sem que os trabalhadores tenham ficado menos eficientes e sem que cada empresa tenha necessariamente piorado. É um efeito de composição.

O denominador, o número de trabalhadores ou de horas trabalhadas, cresce mais depressa do que o numerador, o valor criado. E o resultado estatístico é inevitável.

7 meses depois, o ECO publica uma nova notícia: "Produtividade de Portugal face à União Europeia é mais baixa do que em 2000."

E o que diz agora o ECO, com base num relatório da Business Roundtable Portugal? Diz isto:

"O crescimento português assentou sobretudo na mobilização de mais trabalho e menos no aumento do valor gerado por cada trabalhador."

E acrescenta:

"Uma parte significativa dos novos empregos foi criada em setores intensivos em mão-de-obra e com menor valor acrescentado bruto por trabalhador."

Ora aí está. É precisamente o problema de composição de que falei em Fevereiro. 

Desta vez, temos números. Entre 2011 e 2024 foram criados em Portugal cerca de 684 mil postos de trabalho. Mais de 60% desses postos de trabalho surgiram em sectores cujo valor acrescentado por trabalhador era de apenas 31,7 mil euros. Estamos a falar de actividades administrativas, alojamento e restauração, agricultura e pescas. Entretanto, os 81 mil empregos criados nas tecnologias de informação e comunicação geraram um valor acrescentado por trabalhador de 61,8 mil euros. Quase o dobro.

Temos, portanto, mais emprego, mas grande parte desse emprego está a ser criado nos sectores que geram menos valor por trabalhador. A taxa de emprego portuguesa aumentou de 63,4%, em 2013, para 79,6%.

É uma evolução impressionante.

Portugal tem hoje uma taxa de emprego superior à média da União Europeia. No entanto, a produtividade por hora trabalhada caiu para 66,9% da média europeia. Estamos mais longe da média europeia do que estávamos no ano 2000. E descemos do 17.º para o 24.º lugar entre os 27 Estados-membros.

Portanto, a economia portuguesa conseguiu mobilizar mais pessoas para trabalhar. O que não conseguiu foi transformar esse aumento do trabalho num aumento equivalente da criação de valor. Não se trata simplesmente de trabalhadores menos eficientes. Não se trata principalmente de empresas que acumulam trabalhadores porque receiam não conseguir contratá-los no futuro. E também não se resolve automaticamente com mais umas acções de formação ou com a compra de mais tecnologia.

Podemos dar muita formação às pessoas. Podemos fazer muito upskilling. Mas depois temos de perguntar:

  • Onde vão essas pessoas aplicar as novas competências?
  • Em empresas que continuam a competir pelo baixo custo?
  • Em actividades com margens reduzidas?

Em sectores onde o principal argumento comercial continua a ser o preço?

Se a economia não criar empresas capazes de utilizar essas competências, acontecem duas coisas. Ou as pessoas qualificadas ficam subaproveitadas, ou vão trabalhar para outros países onde as suas competências conseguem gerar mais valor.

Há dias coloquei esta pergunta, mas não obtive resposta:


Isto é quase como numa sociedade capitalista dizer mal do capitalismo; é fácil. É fácil dizer que "A culpa da falta de produtividade não é dos trabalhadores" porque é verdade, mas se não dissermos mais nada pecamos por omissão. Fica implícito que a culpa é dos malvados dos patrões, e não é.

Por isso costumo recorrer à história do cão dos Baskerville. Sherlock Holmes resolveu o mistério por causa do cão que não ladrou. O mais importante não era aquilo que estava presente. Era aquilo que faltava. Na economia portuguesa, também precisamos de olhar para as empresas que faltam.

Faltam empresas com maior valor acrescentado, daí a metáfora da cadeira vazia na Concertação Social. Faltam empresas mais intensivas em conhecimento e em capital. Faltam empresas internacionalizadas, capazes de desenvolver produtos próprios, construir marcas e ocupar posições mais valorizadas nas cadeias de valor. Faltam, sobretudo, empresas capazes de crescer sem dependerem permanentemente de salários baixos.

O próprio relatório agora divulgado reconhece a necessidade de fazer a transição de um modelo assente em serviços intensivos em mão-de-obra para uma economia mais orientada para o conhecimento técnico, a indústria e a tecnologia. Também recomenda mais investimento, mais capital por trabalhador, digitalização, automatização, internacionalização e maior dimensão empresarial.

Tudo isso é importante, mas convém não voltar a confundir eficiência com criação de valor. Uma empresa pode automatizar uma actividade de baixo valor e tornar-se mais eficiente. Isso não significa que tenha passado a criar muito mais valor. Pode continuar a produzir o mesmo produto indiferenciado, para o mesmo mercado, enfrentando a mesma concorrência pelo preço.

E quando o relatório reconhece aquela lenga-lenga repetida há anos:

"a necessidade de fazer a transição de um modelo assente em serviços intensivos em mão-de-obra para uma economia mais orientada para o conhecimento técnico, a indústria e a tecnologia. Também recomenda mais investimento, mais capital por trabalhador, digitalização, automatização, internacionalização e maior dimensão empresarial."

Os incautos vão pensar que se as empresas existentes fizerem isto vão aumentar a sua produtividade. E vão, de 66,9% da média europeia para 67,5 ou para 68,1. É só fazer as contas, mas é mesmo. Tudo torna-se mais simples se em vez da economia pensarmos numa empresa concreta.

Os incautos vão pensar que temos de ajudar a DVD leadership team a criar o mundo do streaming. Os incautos vão pensar que  Japão ficou rico com uma economia baseada no têxtil:

Os incautos vão acreditar que a produtividade portuguesa atingirá a média europeia se:
"Outro entrave ao aumento da produtividade apontado é a reduzida dimensão das empresas. 
...
O aumento da produtividade passa ainda por melhorar a competitividade energética, ajudar as empresas a ganhar escala e “fazer a transição de um modelo de serviços, baseados na mão de obra intensiva, para uma economia focada no conhecimento técnico, na indústria e na tecnologia"
Keep dreaming... ou nightmaring



sexta-feira, setembro 18, 2026

A cadeira vazia da Concertação Social (Parte I)


O FT da passada Quinta-feira publicou um pequeno artigo, "Switzerland has turned fierce tax competition into a national sport", que gerou uma reacção em cadeia na minha mente e me levou a relacionar:
Comecemos pelo artigo do Público. Os sindicatos querem aumentar o salário mínimo, a CIP não:
"Numa resposta por escrito, a confederação liderada por Armindo Monteiro lembra, contudo, que "o objectivo estabelecido para a evolução da produtividade está muito longe de ser atingido". É por isso que defende que "a revisão do acordo deverá incidir não sobre um aumento da ambição no que respeita ao aumento do salário mínimo ou do salário médio, mas sobre o reforço das políticas públicas que promovam o aumento da produtividade da economia portuguesa"."

Isto pôs-me a pensar num tema que já abordei aqui no blogue várias vezes: Aumentar salários por decisão administrativa não cria automaticamente produtividade, mas esperar primeiro pela produtividade também pode perpetuar salários baixos, reduzindo os incentivos ao investimento, à qualificação e à reorganização. Se nos focarmos na economia que existe é aquilo a que chamo há muitos anos de: o jogo do gato e do rato. 

A metáfora do "jogo do gato e do rato" descreve a perseguição interminável entre salários e produtividade quando se parte do princípio de que a empresa continuará a produzir essencialmente os mesmos produtos, aos mesmos preços. A produtividade aumenta através de mais eficiência, mais unidades por hora ou redução de custos; depois, os salários sobem e absorvem esses ganhos, fazendo reaparecer o problema da competitividade. Segue-se nova pressão para reduzir custos ou aumentar a produção, à qual sucede nova pressão salarial. Produtividade e salários perseguem-se mutuamente, disputando uma margem limitada.

A forma de abandonar este jogo não é correr mais depressa dentro da mesma lógica, mas aumentar o valor criado: mudar o que se produz, subir na escala de valor, diferenciar, inovar e conseguir preços superiores. Quando a produtividade cresce pelo "numerador", pelo valor gerado, torna-se possível pagar melhores salários sem perder competitividade. A relação deixa de ser uma guerra distributiva entre salários e custos e pode transformar-se numa dinâmica em que empresas e trabalhadores ganham simultaneamente. 

A CIP escreve "o reforço das políticas públicas que promovam o aumento da produtividade da economia portuguesa." O que dá azo a uma pergunta muito importante: a quem compete aumentar a produtividade da economia portuguesa?

Às empresas ... e ao governo de turno.

Às empresas compete actuar simultaneamente sobre tecnologia, competências, gestão, escala, investimento e subida na escala de valor. 

Ao governo compete actuar sobre a composição da economia (não sobre a treta do tempo da troika (aqui e aqui) que anda a tentar Merz).

O que representa a Concertação Social? A Concertação Social está ocupada com o cão que ladra

À mesa estão o Governo, as confederações patronais e as centrais sindicais. Todos representam legitimamente quem já existe:

  • os trabalhadores actualmente empregados;
  • as empresas actualmente em actividade;
  • os sectores actualmente dominantes;
  • os modelos de negócio actualmente praticados.

A discussão acaba, portanto, concentrada na passagem do salário mínimo de 920 para 970, 1020 ou 1100 euros, na inflação, nos custos das empresas e nos apoios públicos à produtividade (WTF?!?!?!).

É uma discussão necessária, mas trata sobretudo da distribuição do valor produzido pela economia actual. Não responde à pergunta dos mastins dos Baskerville: Onde estão as empresas que não precisam de ser convencidas, pressionadas ou subsidiadas para pagar mais do que o salário mínimo, porque cada trabalhador gera muito mais valor?

O problema não é necessariamente os empresários presentes, que fazem o melhor que podem dentro dos respectivos mercados, produtos e modelos de negócio. O que devia inquietar-nos é "o silêncio das empresas ausentes": actividades de elevado valor acrescentado, centros de decisão, capital, conhecimento e procura por trabalho qualificado.

Em "Portugal, Netflix e produtividade", a Netflix percebeu que a equipa responsável pelo negócio dos DVD não era a mais indicada para conceber o futuro do streaming. Não porque fosse incompetente, mas porque as suas competências, métricas, receitas, carreiras e identidade estavam ligadas ao modelo anterior.

A Concertação Social enfrenta o mesmo problema estrutural:

  • os sindicatos representam os empregos existentes;
  • as confederações representam as empresas existentes;
  • os ministérios administram a estrutura existente;
  • todos têm incentivos para preservar o que existe e repartir melhor os seus resultados.

Pedir a este grupo que conceba uma economia radicalmente diferente é, em parte, pedir à DVD leadership team que desenhe o futuro da Netflix.

O resultado tende a ser um compromisso em torno do modelo presente: aumentar salários, compensar empresas, atribuir apoios (recordo o Reino do Absurdo, ou o País do Chapeleiro Louco), financiar formação e acrescentar novas obrigações administrativas. Pode melhorar o DVD; não cria necessariamente o streaming. E isto é mesmo VERDADE! Cada apoio do governo para aumentar a produtividade é, na prática, um apoio do governo para manter a produtividade baixa, porque não incentiva as empresas a fazê-lo através da escala de valor. Pensem nisso.

Surge então um ciclo que se auto-reforça:

empresas de baixo valor → baixa capacidade salarial → pressão para aumentar o salário mínimo → apoios para proteger as empresas fragilizadas → preservação da estrutura produtiva → persistência da baixa produtividade.

O aumento do salário mínimo poderia obrigar à modernização, à mudança de modelo ou à saída das empresas inviáveis, mas, se cada aumento for acompanhado por medidas destinadas a impedir essa selecção e reafectação de recursos, conserva-se precisamente a estrutura que gera salários baixos. E é preciso cuidado com esta engenharia social-económica, porque: quem é que sabe calibrar o rácio adequado entre morte natural e assassinato?

Nestas reuniões da Concertação Social, as empresas parecem pensar que o aumento da produtividade não é da sua responsabilidade; é antes algo que decorre das benesses do governo de turno. E os sindicatos também não sentem qualquer temperança nas suas propostas porque acreditam que o governo de turno, de direita ou de esquerda, acabará por apoiar as empresas em dificuldade.

Então, qual é o papel do governo acerca da produtividade? Trabalhar a composição da economia. 

O leitor não estava à espera desta???!!!

Ninguém fala nisto! O que é que um anónimo da província sabe sobre produtividade? Ao menos não vem dizer que a produtividade baixa porque há hoarding de trabalhadores! 

Dizer que a produtividade baixa porque as empresas estão a fazer "hoarding de trabalhadores" é típico, arrisco dizer, da mentalidade das fotos: a realidade é o presente. E isso leva-nos ao PS de Alexandra Leitão. Nunca me esqueço desta expressão "Descida do IRC é injusta" e do que ela significa.

A frase de Alexandra Leitão, a descida do IRC seria injusta porque 40% das empresas não o pagam, é quase uma demonstração perfeita da violação da Regra do Mastim dos Baskerville.

A análise concentra-se exclusivamente nas empresas presentes:

  • quantas pagam IRC;
  • que empresas beneficiariam da descida;
  • que empresas já têm lucros;
  • como se distribui o benefício imediato.

Mas não pergunta:

  • Que empresas poderiam ser criadas?
  • Que empresas poderiam crescer?
  • Que sedes poderiam instalar-se em Portugal?
  • Que investimentos escolheram Espanha, Irlanda, Países Baixos ou Polónia?
  • Que empresas não acumularam capital suficiente para mudar de dimensão?
  • Que actividades de maior valor nunca chegaram a aparecer?

Os 40% que não pagam IRC estão nas estatísticas. As empresas que não vieram para Portugal não estão. E porque não estão, também não entram no raciocínio político. O argumento parte da estrutura produtiva actual como se ela fosse fixa. Se apenas 60% das empresas pagam IRC, conclui-se que uma descida favorece essas empresas e exclui as restantes. Mas a questão estratégica é saber se a fiscalidade pode alterar o número de empresas lucrativas, a acumulação de capital, o crescimento das empresas, a localização de novas actividades e, sobretudo, o peso relativo das empresas de elevada produtividade.

A política fiscal não deve ser avaliada apenas pela distribuição de um benefício entre os incumbentes. Deve também ser avaliada pela estrutura produtiva que ajuda a criar.

Nesta cultura económica do PS, que é afinal a cultura dominante em Portugal, a empresa com lucros é vista como aquela que não precisa de ajuda, enquanto a empresa sem lucros aparece como merecedora de apoio. O resultado pode ser uma selecção às avessas:
  • tributa-se progressivamente quem acumula capital e cresce;
  • subsidia-se quem não consegue sobreviver autonomamente (lembram-se do Chapeleiro Louco que menciono acima? As empresas que mais beneficiaram desse apoio foram a SONAE e a Jerónimo Martins) ;
  • conservam-se empresas de baixa produtividade;
  • impede-se a libertação de recursos para novas actividades (a tão querida zombificação);
  • esquece-se quem nunca chegou a entrar no mercado.

Não significa que todas as empresas com prejuízos devam fechar nem que qualquer descida do IRC seja boa. Significa que apoiar indefinidamente empresas inviáveis pode conservar a estrutura produtiva que explica a baixa produtividade portuguesa.

A oposição fundamental não é simplesmente entre impostos altos e impostos baixos. É entre duas formas de olhar para a economia: a do PS e a minha (Regra dos mastins dos Baskerville):

O PS olha para as empresas que pagam IRC e pergunta se é justo cobrar-lhes menos. A Regra do Mastim dos Baskerville manda olhar para as empresas que não pagam IRC porque não existem, não cresceram ou escolheram outro país. 

Este exemplo inglês da semana passada ilustra bem o que estou a tentar transmitir. Perante a ameaça de mais um raide fiscal o terceiro maior contribuinte do Reino Unido no ano passado decidiu mudar-se para a Grécia. Assim, os £330 milhões que ele pagava, e que correspondem ao imposto sobre o rendimento pago por cerca de 40 mil contribuintes médios, vão desaparecer. Agora imaginem isto ao contrário... Não se iludam, a produtividade irlandesa não está baseada em empresas irlandesas.

O problema da produtividade portuguesa não é apenas aquilo que as empresas presentes possam fazer mal. É, sobretudo, aquilo que as empresas ausentes nunca chegaram a fazer cá. 

Bom, só me falta ligar esta reflexão ao artigo do FT sobre a Suíça, esse país bonito, trabalhador, orgulhoso e cuidado onde vive a minha filha e está a nascer-me uma neta. Fica para a parte II




segunda-feira, setembro 07, 2026

Outra estrutura produtiva


Mão amiga fez-me chegar um recorte do JE com uma entrevista com Armindo Monteiro, "Armindo Monteiro: "E urgente provocar um sobressalto na nação produtiva"".

Lamento, mas este anónimo da província tem uma opinião diferente da do presidente da CIP.

Eis algo em que concordo com Armindo Monteiro, a baixa produtividade portuguesa não resulta dos portugueses trabalharem pouco ou mal. Resulta sobretudo do perfil da economia e da reduzida capacidade de criar valor em cada hora de trabalho. O que ele diz:
"O grande desafio que se coloca a Portugal é o desafio da produtividade. Em Portugal o Salário líquido típico é de 980 euros (salário mediano) que compara com aproximadamente 1800 euros líquidos na média europeia. Portugal tem uma produtividade de 29 euros por hora. A Alemanha tem mais do dobro de Portugal, atingindo os 63 euros. No final de cada dia de trabalho, a Alemanha produziu mais 272 euros que Portugal. Ao fim de um dia de trabalho, na Europa, em média, são gerados mais 120 euros que em Portugal e isso explica muito da nossa crónica dificuldade em transformarmos Portugal num país prospero para todos."
Esta diferença resulta, segundo ele, de vários problemas que se reforçam mutuamente:
  • "Temos muitas empresas pequenas e pouco capitalizadas."
  • "Na economia portuguesa existe um forte peso de sectores de baixo valor acrescentado como é o caso do turismo e da restauração que têm um peso muito grande no emprego."
Monteiro considera, portanto, esgotado o modelo económico assente em baixos salários, baixo valor acrescentado e reprodução das actividades existentes.

Estes trechos que se seguem são aqueles em que começo a divergir dele:
  • "A mudança tem de começar nos próprios empresários, os quais têm de apostar em negócios mais sofisticados, integrados em cadeias de valor mais ricas e mais complexas."
  • "Em Portugal ainda temos um ecossistema empresarial culturalmente avesso ao risco e punitivo com o erro."
Depois, vamos para onde divirjo a sério dele:
  • "É urgente provocar um sobressalto da Nação Produtiva, através da valorização do trabalho, do investimento nas empresas e da redução da burocracia estatal, através da simplificação administrativa."
  • "“Portugal a horas”, ou seja, um Estado que entrega aos cidadãos e às empresas aquilo a que está legalmente obrigado, a tempo. O cumprimento desta prioridade seria o catalisador para um leque mais alargado de reformas – concorrência e neutralidade regulatória, uma administração meritocrática, reguladores e empresas públicas reformados, uma fiscalidade mais simples e favorável ao investimento, custos urbanísticos e de licenciamento mais baixos, e I&D aplicada concentrada nos setores transacionáveis."
Portanto, Monteiro acredita que o que é preciso é termos grandes empresas de [calçado, têxtil, metalomecânica, mobiliário, ...] para termos mais produtividade e ficarmos como os alemães. Sorry, isso nunca vai acontecer. Recordar St. Louis. 

Monteiro acredita que com um sobressalto a "Nação Produtiva" conseguirá dar o salto de produtividade que não deu até aqui. Monteiro, pela posição que ocupa, não pode dizer outra coisa. Monteiro acredita que a DVD leadership team consegue dar o salto; eu não. E não consegue, não por falta de vontade, mas o que produz não permite muito mais.

Há muito tempo que uso a metáfora dos mastins dos Baskerville. O problema da produtividade baixa não é culpa de quem está no terreno e dá o seu melhor; o problema da produtividade baixa é de quem não está no  terreno, de quem não existe. 


Por isso, "É urgente provocar um sobressalto da Nação Produtiva, através da valorização do trabalho, do investimento nas empresas", claro que este é o discurso que se espera de um presidente da CIP. Discurso que abre portas a apoios, subsídios e fundos europeus. É o mesmo discurso de Alexandre Relvas, acreditar que o salto na produtividade da Irlanda foi feito por irlandeses. 
    Portugal não fechará o diferencial europeu apenas tornando um pouco melhores as empresas que já tem. Precisa de criar, fazer crescer e atrair as empresas que ainda não tem; de deslocar capital e trabalho para actividades em que cada hora possa gerar muito mais valor; e de aceitar que nem todos os sectores, empresas ou modelos de negócio conseguem dar o mesmo salto.

    O problema da produtividade portuguesa não são os mastins dos Baskerville que estão no terreno e não correm suficientemente depressa. São os mastins que não estão lá. O verdadeiro sobressalto não consiste em pedir à actual Nação Produtiva que faça mais do mesmo com maior entusiasmo. Consiste em construir outra estrutura produtiva.



    segunda-feira, junho 22, 2026

    Da catequese moral, à pergunta que nunca é feita


    Sábado li "La productividad por ocupado encadena un año completo de descensos en España".

    Podemos ler o artigo e concluir o que ele diz de forma negativa sobre a economia espanhola. No entanto, lembremo-nos de que Portugal ainda produz menos euros por hora trabalhada do que Espanha e também está na mesma trajectória de evolução negativa.

    Primeiro, os sintomas:
    "La productividad por ocupado ya encadena cuatro caídas trimestrales consecutivas, ya que en los tres primeros meses de 2026 descendió un -0,1% respecto al mismo periodo de 2025, según el Informe de Coyuntura Económica correspondiente a junio elaborado por el Instituto de Estudios Económicos (IEE).

    Estas caídas la alejan de los niveles alcanzados antes de la pandemia. "En concreto, la productividad por ocupado en el primer trimestre es un 3,4% inferior a la de finales de 2019", explica el informe."

    Depois, as recomendações, segundo o Banco de Espanha:

    ""consolidar y ampliar los avances logrados exigirá abordar retos estructurales aún pendientes, entre los que destacan la fragmentación y la complejidad regulatoria a nivel regional —que sigue limitando la unidad de mercado y la reasignación eficiente de recursos—, y, al mismo tiempo, aprovechar la adopción de la inteligencia artificial como una oportunidad para impulsar el dinamismo de la productividad empresarial"." 

    São as mesmas que costumo ouvir por cá: empresas pequenas, burocracia, fraca adopção tecnológica, maus incentivos ao crescimento e falta de profissionalização da gestão. 

    Como explicar isto ... as recomendações não são idiotas, são úteis, mas não resolvem o problema, porque os ganhos de produtividade que geram são baseados no aumento da eficiência.

    Vamos ao que falta neste artigo e em quase todos os artigos que se escrevem sobre produtividade.

    No artigo, ao falar-se de "Las ganancias en productividad" há um link para um outro artigo "Patronal y sindicatos identifican un cambio "de fondo" en el avance de la productividad desde 2021" publicado há menos de um mês.

    Os dois artigos olham para a mesma realidade, mas escolhem métricas, períodos e fontes institucionais diferentes. O resultado é quase esquizofrénico: num artigo, Espanha parece estar a mudar de pele; no outro, parece estar a perder músculo. Por isso, escrevo sobre a metáfora da Netflix e do "DVD leadership team". 

    Estes artigos falam muito sobre a produtividade na estrutura existente e pouco sobre a mudança da própria estrutura produtiva.

    Ou seja, a pergunta dominante é: Como fazer as empresas actuais produzirem mais por hora, por trabalhador ou por euro investido?

    Mas a pergunta mais estratégica seria outra: Em que actividades, sectores, cadeias de valor e posições competitivas deve a economia estar daqui a 10 ou 20 anos?


    Essa diferença é decisiva. Por isso, escrevo sobre os mastins dos Baskerville.

    Por isso, nunca mais esqueci a teoria dos Flying Geese. A teoria dos Flying Geese introduz uma lógica que o artigo típico sobre produtividade não aborda. Não olha apenas para a produtividade média das empresas existentes. Olha para a forma como as economias sobem degraus: começam em actividades mais simples, acumulam capacidades, passam para actividades mais complexas, e deixam para outras economias as actividades que já não sustentam salários mais altos.

    A pergunta deixa de ser apenas: Como tornar mais eficiente o que já fazemos?

    E passa a ser: Que actividades devemos aprender a fazer a seguir?

    Isto é muito diferente. Uma economia pode aumentar a eficiência em sectores de baixo valor acrescentado e, mesmo assim, continuar pobre relativamente às economias que dominam sectores com mais aprendizagem, escala, tecnologia, marcas, engenharia e poder de fixação de preços.

    A crítica que eu faço aos artigos como estes é que tratam a produtividade como se fosse sobretudo uma variável que melhora com mais educação, mais investimento, menos burocracia, mais IA e melhor gestão.

    Isso é verdade, mas incompleto.

    Falta uma teoria sobre para onde deve migrar a estrutura produtiva. Falta perguntar que sectores devem crescer, que actividades devem perder peso, que cadeias de valor devem ser conquistadas, que capacidades devem ser protegidas ou desenvolvidas, e que tipo de empresas o país quer multiplicar.

    Sem isso, a produtividade vira uma espécie de catequese moral: as empresas têm de ser melhores, os trabalhadores têm de ser mais qualificados, o Estado tem de atrapalhar menos. Tudo certo. Mas falta a pergunta mais incómoda: melhorar para fazer exactamente o quê?

    Em vez de perguntar que estrutura produtiva temos, em que sectores estamos, que capacidades acumulamos, quem controla a marca, a tecnologia, o canal e a margem, a conversa fica muitas vezes reduzida a frases como:

    As empresas têm de ser mais produtivas.

    Os trabalhadores têm de ser mais qualificados.

    O Estado tem de criar menos burocracia.

    É preciso inovar mais.

    É preciso adoptar IA.

    Tudo isto pode ser verdade, mas evita a pergunta mais difícil: mesmo que sejamos mais eficientes, estamos nas actividades certas para gerar salários altos e valor acrescentado elevado?

    Essa é a pergunta que a teoria dos Flying Geese e Erik Reinert obrigam a pôr em cima da mesa.

    Uma pergunta que quer patrões, quer sindicatos, quer políticos, não querem ouvir porque põe em causa o status-quo e abre a porta ao fecho de empresas não como uma desgraça, mas como um acontecimento normal em economia (como sempre foi, antes da sua politização).


    Emvez disso temos a zombificação.




    terça-feira, abril 21, 2026

    Quando o labour hoarding não chega para explicar (parte I)

    Li com atenção a explicação avançada pelo CFP para a combinação, hoje tão discutida, de emprego robusto, salários a crescer e produtividade quase estagnada. A ideia é conhecida: perante dificuldades persistentes de recrutamento, muitas empresas preferem reter pessoas mesmo quando a actividade abranda. O texto fala, por isso, em labour hoarding, isto é, na tendência das empresas para "reterem os seus trabalhadores" e em "dificuldade em contratar pessoal qualificado" como factor que alimenta esse comportamento. 

    Em muitos contextos, sobretudo quando os choques são percebidos como temporários, uma empresa pode achar mais racional suportar durante algum tempo um excesso de capacidade laboral do que correr o risco de perder pessoas e não as conseguir voltar a contratar mais tarde. O próprio CFP liga esse mecanismo à resiliência do emprego e ao fraco crescimento da produtividade aparente do trabalho. 

    Mas o facto de uma explicação ser plausível não significa que seja a mais forte. E foi precisamente aí que comecei a ter dúvidas.

    A minha primeira reserva é simples: o labour hoarding é uma explicação interna à empresa. Ajuda a perceber porque pode uma empresa individual manter mais trabalhadores do que o volume de actividade justificaria num dado momento. Mas o que estamos a observar pode não resultar apenas, nem sobretudo, desse comportamento. Pode resultar de algo mais profundo: uma alteração na composição da economia.

    Dito de outro modo: a produtividade agregada de um país pode enfraquecer não só porque as empresas retêm pessoas "a mais", mas também porque o crescimento do emprego acontece relativamente mais em actividades de menor valor acrescentado por trabalhador do que em actividades de maior valor acrescentado. Neste caso, o problema já não é apenas conjuntural. É estrutural. Não está apenas na prudência das empresas. Está no tipo de economia que cresce.

    Foi por isso que, desde o início, me pareceram decisivas três perguntas.

    • Primeira: em que sectores está a crescer mais o emprego?
    • Segunda: o valor acrescentado nesses sectores cresce ao mesmo ritmo?
    • Terceira: a produtividade está a cair dentro dos sectores, ou o problema está sobretudo na deslocação do emprego para sectores menos produtivos?

    Estas perguntas importam porque distinguem duas histórias muito diferentes. Numa, temos empresas a proteger talento escasso durante uma travagem temporária. Noutra, temos uma economia que continua a criar emprego, sim, mas fá-lo sobretudo em actividades cujo contributo médio para o valor acrescentado é menor. A primeira história fala de retenção defensiva. A segunda fala de especialização económica.

    Entretanto, ao olhar para o estudo da Informa D&B sobre o desempenho das empresas em Portugal, encontrei um gráfico que, a meu ver, enfraquece bastante a leitura forte do labour hoarding. Refiro-me ao gráfico da parte inferior da página 7, que cruza a evolução do volume de negócios com a evolução do número de empregados. 

    Este gráfico merece ser lido com atenção.

    Segundo a Informa D&B, 41% das empresas estão no quadrante da "Eficiência": aumentam o volume de negócios sem aumentarem o número de empregados. 14% estão em "Expansão": crescem simultaneamente em facturação e em emprego. 8% "mantêm-se". 31% estão em "Contracção". E apenas 6% aparecem em "Vulnerabilidade", o quadrante em que o emprego sobe sem crescimento do volume de negócios. 

    Ora, se o labour hoarding fosse a explicação dominante da fotografia actual, esperaríamos ver muito mais empresas concentradas precisamente nesse espaço de vulnerabilidade: empresas a segurar ou aumentar emprego sem correspondente crescimento da actividade. Mas não é isso que o gráfico mostra. O que ele mostra, por número de empresas, é quase o oposto: o grupo mais numeroso é o das empresas que conseguem crescer sem reforçar o emprego. 

    Há, aliás, um detalhe importante no próprio gráfico da página 7 da Informa D&B. As empresas colocadas no quadrante da "Expansão", isto é, as que aumentam simultaneamente a facturação e o número de empregados,  "concentram-se sobretudo nos setores da Construção e Alojamento e restauração". Este ponto merece atenção especial. Não estamos a falar, em primeira linha, de sectores geralmente associados a níveis muito elevados de produtividade por trabalhador, sofisticação tecnológica ou forte criação de valor acrescentado. Pelo contrário, estamos perante actividades que, no debate económico, surgem frequentemente associadas a produtividade relativamente baixa. Isso torna ainda mais plausível a hipótese de que uma parte relevante da fraqueza da produtividade agregada resulte não tanto de labour hoarding, mas da composição do crescimento do emprego e da actividade. 

    Isto não elimina totalmente a hipótese de labour hoarding. Convém ser justo. O gráfico não mede valor acrescentado, mede volume de negócios. Também não pesa as empresas pelo número de trabalhadores, o que significa que uma minoria de empresas pode ter um peso desproporcionado no emprego total. E além disso, o gráfico mostra direcções de evolução, não intensidades. Tudo isso é verdade.

    Mas, mesmo com essas cautelas, ele diz-nos alguma coisa importante: não estamos perante uma evidência clara de que o tecido empresarial português esteja, em massa, a acumular mão-de-obra para lá do que a actividade justifica. Pelo contrário, a distribuição sugere um quadro mais heterogéneo e menos favorável à tese de que o labour hoarding seja a principal chave para explicar o problema da produtividade. 

    Há mais. O mesmo estudo da Informa D&B mostra que o crescimento do emprego em 2024 foi transversal, mas com contributo muito significativo da Construção e do Retalho, que em conjunto representaram mais de um terço do aumento global do emprego. Mostra também que as Indústrias, apesar de concentrarem o maior número de empregados, tiveram o menor crescimento do emprego, apenas 0,7%. 

    Este ponto é particularmente relevante. Porque ele abre precisamente a porta à explicação que me parece mais promissora: talvez uma parte importante do problema não esteja em empresas a "guardar" trabalhadores, mas no facto de o emprego estar a crescer mais em sectores cuja produtividade média, escala, intensidade tecnológica ou capacidade de geração de valor acrescentado não puxam pela economia da mesma forma que outros sectores puxariam.

    É aqui que a discussão ganha espessura. Uma economia pode parecer vibrante porque cria emprego. Pode até parecer socialmente saudável porque reduz o desemprego e aumenta os salários. Mas isso não resolve, por si só, a questão decisiva: que tipo de emprego está a ser criado, em que sectores, com que intensidade de capital, com que capacidade de aprendizagem, com que potencial de exportação e com que valor acrescentado por trabalhador?

    Sem essa pergunta, a conversa sobre produtividade fica demasiado curta. E o conceito de labour hoarding corre o risco de funcionar como uma explicação confortável: suficientemente sofisticada para parecer convincente, mas talvez demasiado estreita para captar o que realmente se passa.

    A minha conclusão, por isso, é prudente, mas clara.

    O labour hoarding pode existir. Em certos sectores e em certas empresas, provavelmente existe mesmo. Pode explicar uma parte da resiliência do emprego no curto prazo. Mas não vejo boas razões para o tomar, sem mais, como explicação principal. Quando olhamos para a composição sectorial do crescimento e, sobretudo, para o gráfico da página 7 da Informa D&B, a leitura que emerge é outra: talvez o problema esteja menos em empresas a reter trabalhadores em excesso e mais no facto de estarmos a criar emprego numa estrutura económica que não gera valor acrescentado ao mesmo ritmo.

    E isso muda bastante a natureza do debate.

    Porque, nesse caso, o problema não se resolve apenas com a normalização do ciclo, nem com a esperança de que as empresas “larguem” o excesso de mão-de-obra quando a incerteza passar. Resolve-se, ou não se resolve, ao nível muito mais difícil da especialização da economia, da qualidade do investimento, da sofisticação empresarial e da capacidade de deslocar recursos para actividades que criem mais valor por pessoa empregada.

    No fundo, a questão não é apenas saber se Portugal está a empregar mais gente. A questão é saber onde a está a empregar, para fazer o quê, e com que capacidade de transformar esse esforço em valor económico duradouro.

    O postal já está a ficar longo, tenho de escrever uma sequela para ligar à Netflix, às festas de Natal nos jardins-escola, aos mastins dos Baskerville. Sim, porque o problema não é dos presentes, não é dos trabalhadores, nem destes empresários, eles dão o melhor que podem e sabem. O problema é dos que não estão; dos que não aparecem.

    sábado, janeiro 31, 2026

    Não basta matar os zombies


    Ao longo dos anos e sobretudo no último mês tenho escrito aqui sobre os zombies. 

    Os zombies são empresas que sobrevivem sem criar valor suficiente para se sustentarem, mantendo-se activas apenas graças a crédito barato, apoios públicos, tolerância fiscal ou adiamento sistemático de decisões difíceis.

    Não geram capital suficiente para investir, inovar ou crescer, consomem recursos escassos (capital, pessoas, atenção) e bloqueiam a entrada de empresas novas ou melhores. Estão vivas do ponto de vista legal e estatístico, mas mortas do ponto de vista económico.

    Estou sempre a pedir para deixarem as empresas (zombies) morrerem. O que acontece se os zombies morrerem? 

    Se os zombies morrerem a produtividade do país aumenta. A produtividade é um rácio, se os zombies morrerem, o denominador diminui logo a produtividade cresce.

    A produtividade como indicador estatístico cresce, mas o país real não melhora se apenas morrerem os zombies. A jogada tem de ser em dois tabuleiros:
    • deixar os zombies morrerem;
    • criar condições para que empresas mais produtivas anónimas, sem necessidade de contactos com o poder, apareçam. 
    Ontem o FT publicou um artigo que vem ao encontro destes temas, "Growth Productivity uplift reflects loss of lower-paid jobs":
    "Productivity growth has been in the doldrums for years. 
    ...
    Economists differ on whether the latest data is promising or worrying because the main reason productivity has improved is low-paid jobs being cut.
    These job losses have been centred on hospitality and retail, sectors that were especially hard hit by last year's increases in national insurance and the minimum wage.
    ...
    Economists at the Resolution Foundation think-tank believe job losses at failing "zombie" companies could bode well for the future, if they "begin to make room for more and better jobs to be created". But, they admit: "We haven't seen it yet."
    Saunders remains sceptical. "If you kill off the zombies. it's not creative destruction. It's just destruction.""

    Matam-se os zombies ... e apenas temos silêncio ... e o que é o silêncio? Um sinal, como no conto dos mastins dos Baskerville, um sinal de que esse silêncio é relevante.

    Esse silêncio sinaliza que a jogada "criar condições para que empresas mais produtivas anónimas, sem necessidade de contactos com o poder, apareçam" está a falhar. Por isso, este título "Não são elas que precisam de Portugal, Portugal é que precisa delas" e o que escrevi em "Descida do IRC é injusta".

    O argumento de que a descida é “injusta” porque muitas empresas não pagam IRC parte de uma obsessão com as empresas existentes. É o mesmo erro conceptual que atravessa toda a discussão sobre produtividade. O problema nunca foi ajudar quem está; o problema é não criar condições para que apareçam empresas que hoje não existem — empresas capazes de pagar salários mais altos porque criam mais valor, não porque foram protegidas ou subsidiadas.

    Enquanto não houver uma alteração real da composição da economia — aquilo a que chamo, recorrendo aos Flying Geese, subir para outras actividades — continuaremos presos a este jogo de ilusões estatísticas. Cortar empregos mal pagos não cria automaticamente empregos bons. Matar zombies não gera vida nova. E baixar impostos sem atrair empresas diferentes não muda o ADN do sistema.

    "Se nós eliminarmos a empresa mais improdutiva, a produtividade do sector sobe muitíssimo"

    Erik Reinert escreveu qualquer coisa como:

    "As was so obvious to American economists around 1820, a nation - just as a person - still cannot break such vicious circles without changing professions."

    Um país não consegue sair de círculos viciosos de pobreza apenas fazendo melhor o que já faz; tem de mudar de actividades, de sectores, de “profissões” económicas.

    Que Munchau recentemente reescreveu como:
    "It's no longer about how you do it; it's about what you do."

    terça-feira, dezembro 09, 2025

    Curiosidade do dia

    Apesar do mérito conjuntural, lamento não poder acompanhar o senhor ministro neste entusiasmo.

    Os dados obrigam-nos a uma leitura mais prudente — e, sobretudo, mais estrutural.

    Segundo a Conta Satélite do Turismo de 2024, o consumo turístico no território económico já representa 16,6% do PIB, e o contributo total do turismo atinge 11,9% do PIB. Nunca o turismo teve tanto peso na economia portuguesa, ultrapassando largamente o período pré-pandemia, quando rondava os 8% a 9%. Estamos agora entre os países europeus mais dependentes deste sector, ao lado da Grécia e da Croácia.

    Este desempenho é extraordinário. Mas é precisamente isso que deve preocupar-nos.

    O turismo é, por natureza, um sector altamente volátil. Depende do rendimento e da confiança dos nossos principais mercados emissores, das condições geopolíticas globais, do preço dos combustíveis, das alterações climáticas, da estabilidade das companhias aéreas, da imagem internacional do país — e, como aprendemos em 2020, pode colapsar quase da noite para o dia.

    Quando uma economia cresce sobretudo graças ao turismo, o PIB sobe, as estatísticas sorriem e as manchetes multiplicam-se. Mas, por baixo dessa superfície brilhante, instala-se uma fragilidade estrutural: a economia fica dependente de um único motor, que trabalha com combustível instável.

    O turismo cria emprego, sim. Mas continua a ser um sector predominantemente de baixos salários, baixa produtividade e forte sazonalidade. Não é daqui que virá a transformação estrutural de que Portugal precisa há décadas: mais conhecimento, mais tecnologia, mais indústria sofisticada, mais inovação. Não é daqui que virão empresas com capacidade de pagar salários significativamente superiores à média nacional.

    O verdadeiro problema não é o turismo estar a crescer — é o que não está a crescer ao mesmo ritmo. Os meus mastins dos Baskerville. A indústria transformadora continua frágil, o investimento empresarial teima em não convergir com o europeu, a produtividade avança ao ritmo de caracol e sectores de maior valor acrescentado continuam a ser excepção, e não regra.

    Portugal não pode confundir a euforia conjuntural com a solidez estrutural.

    Celebrar um bom ano económico é legítimo; mas construir uma economia resiliente exige outra conversa.

    O turismo, por melhor que esteja, não pode ser o nosso desígnio económico. Não há país desenvolvido cuja prosperidade assente maioritariamente num sector tão exposto a choques externos. E quanto mais Portugal subir no turismo, maior será a queda quando o ciclo virar — e ele irá virar.

    O ministro celebra o dia de hoje.

    Eu preocupo-me com o dia de amanhã.

    Portugal merece ambição, não conformismo. Merece uma estratégia económica que reduza a dependência de um sector vulnerável e que aposte, de forma séria, consistente e contínua, em sectores capazes de aumentar a produtividade, gerar conhecimento e criar valor duradouro.

    O turismo é importante.

    Mas não pode ser — e muito menos deve ser celebrado como — a solução para todos os nossos problemas económicos.

    Enquanto essa distinção não for acompanhada de um verdadeiro caminho de transformação estrutural, lamento: não posso acompanhar o senhor ministro no seu regozijo.


    quinta-feira, julho 24, 2025

    Curiosidade do dia

     

    O final da gravação aponta directamente para a nossa metáfora dos mastins dos Baskerville. O problema nunca são os que estão, são os que não estão, os que não se manifestam, os que não fazem barulho porque não estão cá.

    quarta-feira, junho 18, 2025

    Curiosidade do dia



    Temos de perguntar: Por que não ladram os mastins dos Baskerville? 

    quinta-feira, março 06, 2025

    A China e a receita Irlandesa


    Mão amiga mandou-me uma cópia de um artigo que vai merecer mais do que um postal aqui no blogue, "China has embraced creative destruction, says Tom Orlik" publicado no número de Março de 2025 da Bloomberg Businessweek.

    Primeiro, recordar estes números sobre algumas produtividades por hora em euros:
    No artigo da Bloomberg Businessweek encontramos este gráfico eloquente:


    O gráfico mostra a evolução da contribuição de dois sectores para o PIB da China: o sector imobiliário (linha preta, em queda) e o sector de alta tecnologia (linha vermelha, em crescimento). Prevê-se que, por volta de 2026, o sector de alta tecnologia ultrapasse o imobiliário em termos de contribuição para o PIB.

    E de que é que falamos quando falamos em Teoria dos Flying Geese?

    A Teoria dos Flying Geese descreve um padrão em que países seguem uma sequência de industrialização, movendo-se de sectores menos sofisticados para sectores mais avançados. O gráfico acima ilustra como a China está a migrar de uma economia baseada na construção civil, no betão tão querido dos nossos políticos, para uma economia mais tecnológica, seguindo os passos de países como o Japão e a Coreia do Sul.

    A China já terceiriza parte da sua produção de baixo valor (como têxteis e manufactura simples) para alguns países do Sudeste Asiático, como o Vietname, Bangladesh e Indonésia. Enquanto isso, foca-se cada vez mais na produção de chips, inteligência artificial, eletrónica avançada e robótica, subindo na hierarquia global da inovação.

    O gráfico acima ilustra a Teoria dos Flying Geese e também ilustra como se aumenta a sério a produtividade de um país.

    O crescimento do sector de alta tecnologia implica maior produtividade, pois esse sector gera muito mais valor acrescentado por trabalhador e por unidade de capital investido. Enquanto a construção civil depende de grandes volumes de matéria-prima e mão de obra intensiva, o sector de tecnologia avança com inovação e eficiência. Isso reflecte uma mudança estrutural na economia chinesa, orientada para indústrias mais avançadas.

    "O Japão não ficou rico a produzir vestuário de forma muito, muito eficiente. Taiwan não ficou rica a produzir rádios de bolso de forma muito, muito eficiente."

    Qual o impacte da evolução do gráfico acima nos salários e nível de vida dos chineses? O sector de alta tecnologia paga salários mais elevados do que o sector imobiliário e a manufactura tradicional, pois exige trabalhadores mais qualificados. A crescente procura por engenheiros, programadores e cientistas de dados impulsiona os rendimentos dessas profissões.

    Que melhor ilustração para a frase ""It's no longer about how you do it; it's about what you do.""? Que melhor ilustração para a diferença entre trabalhar o denominador (melhorar a eficiência) ou trabalhar o numerador da equação da produtividade:


    Por que nos admiramos? É a mesma receita que a seguida pela Irlanda. Acham que a "DVD leadership team" tem voto na matéria?

    Por cá temos um gráfico semelhante para o turismo, por exemplo. Acham que é um sector que contribui para o aumento da produtividade agregada do país? Acham mesmo? Mas atenção, as pessoas do turismo estão a fazer a sua parte, o problema são os ausentes, os mastins dos Baskerville.

    Finalizo com uma citação de 2007:

    "It is widely believed that restructuring has boosted productivity by displacing low-skilled workers and creating jobs for the high skilled."

    Mas, e como isto é profundo:

    "In essence, creative destruction means that low productivity plants are displaced by high productivity plants."


    terça-feira, fevereiro 18, 2025

    Curiosidade do dia

    "The digital giants of today are companies that were founded relatively recently. It was not Smith Corona, the US typewriter company, that invented the PC. Smith Corona tried to integrate the computer into its typewriters and was rather good at it. But it could not think beyond the typewriter. [Moi ici: Quando se convida a "DVD leadership team" para as reuniões sobre o futuro do negócio ... fica-se preso ao passado] Its strategy worked well, up to the late 1980s - until it didn't.

    Germany has a Smith Corona problem. It has been hanging on to old technologies and old companies for too long. Innovation was inextricably linked to existing companies. [Moi ici: O que relato para Portugal quando escrevo sobre os ausentes, os mastins dos Baskerville, que não ladram] Innovation was defined by what VW, BMW and Mercedes decide to innovate. That, too, worked until it didn't.

    The digital world, by contrast, is a world of start-ups. Start-ups need support - in the form of a strong capital market - and mostly need to be left alone and not encumbered by bureaucracy. Germany offers a great support network for existing companies, but not for start-ups. It lacks a modern venture capital industry. Subsidies are geared towards large companies with legal departments, not to entrepreneurs whose mind is focused on their business. The problem with bureaucracy is that large companies find ways to manage it. Small companies do not."[Moi ici: E agora regressem à Junqueira e à fixação com as empresas grandes só porque sim. BTW, eu em 2013 ainda não tinha descoberto a teoria dos Flying Geese. Eu ainda acreditava que os Geese podiam ser a solução. E são se pensarmos em competitividade, não são se pensarmos em produtividade. E competitividade sem produtividade é ... empobrecimento]




    sexta-feira, fevereiro 14, 2025

    "It's no longer about how you do it; it's about what you do."

     
    "Germany's current economic malaise differs in one important respect from those of previous periods. If companies become uncompetitive, the government can cut taxes, introduce labour reforms or manipulate the exchange rate. But if you are a specialist in making gas heaters or diesel engines, your problem today is not cost, but the product itself. If people are forced to install heat pumps instead of gas heaters, or forced to buy electric cars after the 2035 cut-off for the production of fuel-driven cars in the EU, you have a different problem. While German car makers are still competitive in their classic product range, they cannot compete against the Chinese in electric cars. It's no longer about how you do it; it's about what you do."

    Peço desculpa por me repetir. 

    "it's about what you do" ... isto tem tudo a ver com o não convidar a "DVD leadership team" para as reuniões sobre o futuro. Tem um papel a desempenhar no presente, mas não pode ser o motor do futuro. Convidá-la para as reuniões sobre o futuro é correr o risco da preocupação ser sobre como manter o status da "DVD leadership team", como proteger os postos de trabalho, como partilhar recursos escassos para construir o futuro com a "DVD leadership team".

    Por isso aquele postal de Janeiro de 2022, "Não são elas que precisam de Portugal, Portugal é que precisa delas." Por isso a referência aos mastins dos Baskerville. Os ausentes, os que não aparecem, quando o mainstream pede às empresas existentes, uma espécie de "DVD leadership team", que tragam o desempenho do futuro desejado (salto de produtividade).

    Por exemplo, no JdN de 12 de Fevereiro de 2025 encontrei "Armindo Monteiro "O mundo está a mudar e cada bloco económico está a pensar em si"":

    À pergunta: "E porque é que os salários não sobem?" a resposta termina assim:

    "Com as taxas de IRC que temos, com o investimento público que não acontece - só ocorre à custa do PRR -, não há investimento em Portugal.

    Tem de haver investimento público." 

    Sem comentários.

    À pergunta: "Quais seriam as 3 medidas que podiam fazer mexer o ponteiro na produtividade, o segredo para salários mais altos e mais crescimento?" leio:

    "...

    Investimento. A segunda é a qualificação. Precisamos de projetos empresariais que cativem, sobretudo os mais jovens, para viverem em Portugal. É importante que os empresários consigam oferecer não apenas postos de trabalho, mas projetos de carreira. A nossa economia ainda não fez essa alteração que permite oferecer empregos em que as pessoas se sintam realizadas.

    Mas isso não é bem uma medida. É um sonho...

    Mas há soluções, como ligar as universidades às empresas e vice-versa. As boas empresas e as boas universidades já conseguiram quebrar essas barreiras, mas ainda não são a globalidade. Ainda continua a haver [essa barreira], sobretudo nas empresas de reduzida dimensão, sem capacidade de inovação. São estas que nós temos de motivar e conseguir que invistam no seu "core business," em vez de estarem a olhar para a carga burocrática."

    O foco nas empresas existentes, na "DVD leadership team". Quando é que vão perceber que elas não podem fazer essa entrega? E não é porque os empresários sejam burros... voltar ao texto inicial sobre a Alemanha - "It's no longer about how you do it; it's about what you do."

    BTW, quanto à imigração, algo mencionado por Armindo Monteiro, gostava de poder publicar aqui os tweets que andam a ser publicados com os esquemas usados para contratar na restauração. Ilustram muito bem porque tem de haver um caudal permanente de imigrantes iludidos, segundo os empregadores.

    Trecho inicial retirado de "Kaput - The End of the German Miracle" de Wolfgang Munchau 

    sábado, fevereiro 01, 2025

    Zombies à espera de um qualquer Milei num futuro ainda distante mas certo

    Primeiro, recordo aqui do blogue (Setembro de 2024) acerca da diferença entre a produtividade americana e europeia:

    Segundo, recordo aqui do blogue (Agosto de 2024) o que os predadores do estado gostam mesmo:
    Há dias no Twitter Nassim Taleb ilustrou bem o que se passa na Europa:

    Ainda no Twitter, este túnel é uma metáfora do que se passa na Europa (aka planeta LV-426). A sério, que melhor ilustração para a frase memorável de Hudson:

    "That's it, man. Game over, man! Game over!" 

    Terceiro, a Comissão Europeia é como muitas empresas, perante um problema saltam dos sintomas para um plano, um plano grandioso apresentado com fanfarra. O mito do grande planeador, do grande geometra. Roger Martin disse tudo neste tweet:

    Sim, é verdade a melhoria segue o ciclo PDCA, mas antes dele há outro ciclo, o ciclo SDCA. É preciso perceber a situação antes de saltar para uma solução miraculosa ... e errada.

    Quarto, falarem-me em competitividade quando o problema é produtividade, faz-me suspeitar que os incumbentes do DVD leadership team da Netflix estão à mesa a garantir que recebem uma fatia generosa do bolo. Focar na competitividade é focar no empobrecimento se não trabalharmos a produtividade. Há anos que uso este esquema:


    BTW, Mullan descreve bem esta economia zombie que vai ter de apodrecer mais e mais até chegarmos a um momento Milei. 


    Empobrecimento é isto, "Há 900 mil trabalhadores em pobreza absoluta em Portugal".  Acho graça, até começar a chorar, quando leio:
    "As associações defendem mais apoios do Governo, principalmente para as famílias carenciadas."
    Ou seja, apoios indirectos às empresas para continuarem a manter o status-quo. Impressionante, tudo podre. Lembrem-se das paletes de imigrantes.


    Acham que isto acontece por acaso?

    Ah, sim! Mais apoios indiretos às empresas para manterem este magnífico status quo. E ainda nos perguntamos porque é que até os imigrantes paquistaneses decidem que Portugal não é assim tão encantador? Deve ser do clima...

    Extraordinário: