sexta-feira, maio 01, 2026
Curiosidade do dia
Pedem ao Estado que as ajude a não terem de mudar
Esta semana Roger Martin publicou "Strategic Stuckness":
"when a company is experiencing unsatisfactory, frustrating and/or painful results, but its management does little or nothing meaningful to change course."
No artigo, Roger Martin diz que a estratégia serve para ultrapassar a distância entre os resultados que a empresa obtém e os que desejava obter. Essa distância surge quando as escolhas da empresa deixam de estar bem ajustadas ao ambiente, aos clientes, aos concorrentes, à tecnologia, aos custos, à regulação, aos canais, à produtividade etc.
Mudar implica quase sempre perder alguma coisa: abandonar clientes, fechar actividades, mudar prioridades, sacrificar volume, reduzir ambição nalgumas áreas, aceitar dor no curto prazo. Quando a escolha parece demasiado dolorosa, muitos gestores não escolhem. Ficam com a situação actual, mesmo quando ela já é insatisfatória. O status quo torna-se uma anestesia estratégica.
Ora, em Portugal, cada vez mais empresas, em vez de enfrentar essa lacuna, fazem outra coisa: transformam um problema estratégico num pedido político.
Melhor ainda, lembrei-me de Spender e das fundições inglesas: muitas empresas não pedem ao Estado que as ajude a mudar. Pedem ao Estado que as ajude a não terem de mudar.
Há anos que lido com este tema e nunca tinha chegado a esta formulação sobre o papel dos apoios…
Por exemplo, o exemplo recente da restauração em Portugal, em vez de perguntarem: Que escolhas nós fizemos deixaram de funcionar?
E passam a perguntar: Que apoio, protecção, subsídio, excepção, incentivo, tarifa, moratória ou programa público pode aliviar esta dor?
E aqui está a ligação forte com Roger Martin: a empresa está “stuck”, mas em vez de usar a dor como sinal para adaptar as suas escolhas (stress is information), procura no Estado uma almofada para continuar como está.
A fórmula é esta, segundo Roger Martin: uma empresa está presa porque a mudança exige escolhas difíceis, incerteza e trade-offs dolorosos.
Versão estado-dependente: A empresa evita essas escolhas difíceis, pedindo ao Estado que neutralize a pressão que a obrigaria a mudar.
O problema deixa de ser: "A nossa proposta de valor está desalinhada com o mercado."
E passa a ser: "Precisamos de apoios para manter a actividade."
Isto é perigoso porque desloca a conversa da adaptação para a compensação. Põe o Estado a funcionar como uma anestesia estratégica. A empresa sente dor porque perdeu competitividade, porque tem baixa produtividade, porque serve clientes errados, porque tem tecnologia atrasada, porque vive de margens frágeis, porque não consegue atrair talento, porque não subiu na cadeia de valor. No entanto, em vez de tratar a causa, pede algo que reduza a dor. A anestesia pode ser necessária numa emergência. Mas se se prolonga, deixa de ser tratamento e passa a ser dependência.
Um apoio público torna-se perigoso quando serve apenas para manter de pé empresas que continuam sem resolver as suas escolhas fundamentais... o que se pode aprender com o trabalho de Spender sobre as fundições. Zombies.
Apoiar empresas pode fazer sentido. Apoiar a falta de adaptação é outra coisa.
A restauração portuguesa não precisa apenas de mais uma linha de apoio. Precisa de uma conversa mais adulta sobre produtividade, proposta de valor, gestão, escala, diferenciação e coragem empresarial. O Estado pode ajudar a atravessar uma ponte. Não deve transformar-se na margem em que a empresa fica eternamente encostada.
quinta-feira, abril 30, 2026
Curiosidade do dia
- sem incêndios, quem não recebe apoios?
- sem pobres, quem não recebe apoios?
- sem burocracia, quem perde emprego?
- sem medo, quem perde audiência?
- sem guerra cultural, quem perde relevância política?
"It is difficult to get a man to understand something, when his salary depends upon his not understanding it"
Não precisa ser grande; precisa ser difícil de substituir.
O FT do passado dia 28.04 publica o artigo "German group defies Trump's tariff war".
O artigo analisa o caso da empresa alemã Schraubenwerk Zerost, fabricante de parafusos e componentes industriais, que parecia estar entre as mais expostas à guerra tarifária de Donald Trump, mas acabou por resistir melhor do que se esperava.
"When the US president unveiled his "liberation day" tariffs in April 2025, the east German manufacturer - which sells industrial bolts and screws into the US - was facing a 20 per cent levy on its goods.
...
A year on, its exports to the US have held steady. The company's products in the "threaded screws and bolts" category had experienced one of the largest year-on-year tariff increases of any single product exported to the US in 2025, according to a data analysis by the FT. The surprising resilience of its trade with the US is a story that echoed across supply chains in 2025, a year in which the global economy defied early bleak projections to expand by 3.4 per cent, despite US tariffs hitting their highest levels since the second world war."
Apesar dos seus produtos terem sofrido uma das maiores subidas de tarifas efectivas nos EUA, as vendas para o mercado americano mantiveram-se estáveis. A explicação está no facto destes componentes serem baratos em relação ao valor final dos produtos onde são incorporados, mas críticos para o funcionamento de sectores como aeronáutica, eólica e maquinaria industrial.
Ou seja: quando uma peça custa pouco, mas é indispensável, os clientes tendem a absorver o aumento de preço em vez de mudar de fornecedor. O risco de mudar não compensa. A empresa não ganhou vantagem competitiva com as tarifas, mas também não foi destruída por elas. Adaptou-se, transferiu custos quando possível e aceitou que, se os clientes não suportassem esses custos, teriam de comprar directamente.
Isto deve ser daqueles artigos que dão a volta à cabeça dos Muggles, prisioneiros da doença anglo-saxónica. O valor estratégico de um produto não depende apenas do seu preço. Parafusos e porcas podem parecer produtos banais, mas quando fazem parte de aviões, turbinas e equipamentos industriais, tornam-se peças essenciais da cadeia de abastecimento e o risco de comprar mais barato algures é demasiado. Um recall pode fazer evaporar as poupanças de anos com um fornecedor menos seguro.
Uma PME deve procurar ser pequena no custo, mas grande na consequência. Um produto pode representar uma pequena fracção do custo total do cliente, mas ser essencial para a operação. Quando isso acontece, a PME ganha poder negocial. Não precisa ser grande; precisa ser difícil de substituir.
quarta-feira, abril 29, 2026
Curiosidade do dia
Germany ranks among the weakest EU performers in real private sector investment growth from 2000 to 2025 (+11.9%). Only Greece (−25.7%), Portugal (−1.1%), and Luxembourg (+1.0%) had lower growth. Highest private investment growth in Romania (+180.1%), Bulgaria, Malta, Lithuania pic.twitter.com/eH4BWrob8g
— Philipp Heimberger (@heimbergecon) April 28, 2026
O gráfico mostra a evolução acumulada do investimento privado real entre 2000 e 2025. Ou seja, mostra quanto cresceu, descontando a inflação, o investimento das empresas e do sector privado em máquinas, equipamentos, instalações, tecnologia e outros activos necessários para produzir mais e melhor.
A leitura para Portugal é… péssima. Em 25 anos, Portugal praticamente não saiu do lugar. Enquanto muitos países europeus aumentaram fortemente o investimento privado, Portugal aparece quase encostado ao zero, ao lado dos piores desempenhos do gráfico.
Isto é mais do que um mau número estatístico. É um sinal de profunda fragilidade. Uma economia que não investe não renova a sua capacidade produtiva, não moderniza suficientemente as empresas, não aumenta a produtividade como devia e fica presa a sectores de menor valor acrescentado.
O problema português não é apenas crescer pouco. É crescer sem mudar estruturalmente a base produtiva. Sem investimento privado forte, é difícil ter melhores salários, empresas mais competitivas e maior capacidade de criar riqueza no futuro.
Este gráfico devia incomodar-nos. Porque mostra que, durante um quarto de século, Portugal falou muito de convergência, competitividade e modernização, mas o investimento privado real ficou praticamente parado.
Enquanto a senhora gorda não canta...
"Group hopes new materials and high-end products can give its French plants an edge...tires developed there for the Moon buggy, endurance racing, and other high-spec products are the buttress the company is counting on to keep its plants in France alive, as Chinese rivals start to encroach on the industry....warning of a gulf in production costs with Asia that had made exporting mass-market products from Europe "virtually impossible".To fight back, Michelin is focusing on high-end production in France and also expanding its research into new areas, including polymer composites or materials used in sealants or to coat fabrics, with new investments worldwide.Although seemingly a niche market, these materials have applications spanning aviation to energy and construction, giving them "immense" potential,...Menegaux said focusing on cutting-edge technologies and high-value-added products was the only way of keeping manufacturing in France, given that the country's employment costs, inflation, and energy prices had "exploded" compared with Asia in the past six years."If we don't stay at this level of excellence, we'll disappear, he said."
terça-feira, abril 28, 2026
Curiosidade da noite
A propósito de direitos adquiridos e outras estórias, "El Gobierno alemán anuncia un drástico recorte del estado del bienestar para reducir el déficit y pagar el rearme".
A Alemanha rica está a descobrir que até um Estado social rico tem limites; Portugal continua, muitas vezes, a discutir o Estado social como se os direitos já prometidos fossem imunes à demografia, à produtividade, à defesa, à dívida e ao crescimento fraco.
Há uma ironia quase pedagógica nisto tudo: a Alemanha, país rico, industrial, produtivo e fiscalmente mais robusto do que Portugal, começa a admitir que o Estado social não cabe eternamente dentro da folha Excel; enquanto isso, em Portugal, o Chega descobre uma forma revolucionária de resolver o envelhecimento, a baixa produtividade e a pressão sobre a Segurança Social: pôr as pessoas a reformarem-se mais cedo. Berlim olha para a demografia e conclui que é preciso trabalhar mais, gastar melhor e cortar promessas insustentáveis; cá, a solução populista é prometer mais anos de pensão, menos anos de contribuições e deixar a conta para alguém que ainda não vota. É o velho milagre português: queremos direitos alemães, produtividade modesta e aritmética venezuelana.
Curiosidade do dia
- Curiosidade do dia 16.11.2025
- Curiosidade do dia 02.12.2025
"Há uma pergunta simples que devia estar escrita na parede de muitas salas de reunião: "E depois?""
Ou seja, que condições têm de estar garantidas para que este tipo de investimento não crie novas fragilidades? Cuidado com cheques em branco em nome da modernização.
E quando o normal desaparece?
- Prolongamento da guerra na Ucrânia
- Guerra no Médio Oriente
- Crise no Mar Vermelho e vulnerabilidade das rotas marítimas
- Regresso das tarifas e da guerra comercial
- Eventos climáticos extremos
- Aceleração da inteligência artificial
- Fragmentação tecnológica e geopolítica
- Fragilidade da economia chinesa
- ...
"That insight is Hyman Minsky's financial instability hypothesis: stability itself is destabilising. Periods of calm encourage the gradual accumulation of risk, while each successful intervention conditions markets to expect the next. The result is not irrational excess, but a system that adapts to the belief that severe shocks will be contained."
segunda-feira, abril 27, 2026
Curiosidade do dia
A "tese oficial" é a de que a produtividade em Portugal está estagnada devido ao labour hoarding.
Uma tese que não compro.
Assim como não explica a estagnação da produtividade na Inglaterra e na Alemanha.
Agora é em Espanha e também não. Ler "La paradoja del empleo y los salarios":
" En los últimos seis años, el número de personas asalariadas aumentó en más de 1,9 millones, un 10,9%. Ese incremento obliga a tener en cuenta el efecto composición. Si una parte significativa del nuevo empleo se ha concentrado en ocupaciones con productividad inferior a la media,"
E ainda "La factura de la baja productividad":
"España es la gran economía europea que más crece desde el Covid.
...
la mejor estrategia de crecimiento de un país es aquella basada en la mejora de productividad por hora trabajada. Y aquí es donde encontramos el eterno problema de la economía española, que reside en el elevado peso que en nuestro PIB tienen sectores de escaso valor añadido, como el turismo."
Não percebo porque é que a tese do labour hoarding ganhou raízes em Portugal.
Jogar bilhar como um amador: quando a solução de hoje cria o problema de amanhã
"Um jogador amador de bilhar concentra-se tanto na próxima jogada que se esquece de a fazer, preparando a outra que se seguirá."
Nas empresas acontece o mesmo. Muitas decisões são tomadas para resolver o problema que está à nossa frente, ocupando o prime time da nossa banda de atenção.
Atrasos? Compra-se software.
Falta de vendas? Entrega-se tudo a um distribuidor forte.
Custos altos? Automatiza-se.
Estrutura pesada? Externaliza-se.
Falta de tesouraria? Vai-se buscar financiamento.
Em abstracto, nada disto está errado. O problema começa quando a organização só pergunta: "Isto resolve o problema?" e esquece-se de perguntar: "Que problema novo estamos a criar?"
Porque quase toda a solução cria uma nova vulnerabilidade. Um novo software pode melhorar a coordenação, mas também pode criar dependência do fornecedor. Um distribuidor único pode acelerar as vendas, mas também aumentar a vulnerabilidade comercial. A automatização pode reduzir custos, mas enfraquecer o conhecimento humano crítico. A externalização pode aliviar a estrutura interna, mas pode reduzir o controlo. Uma nova linha de produto pode abrir mercado, mas também dispersar o foco. Um financiamento fácil pode resolver a tesouraria, mas pode instalar complacência.
Isto não é um argumento contra a mudança. É um argumento contra a ingenuidade. Gestão madura não é escolher entre agir e não agir. É perceber o preço estratégico de cada escolha.
No passado dia 20 o FT publicou o artigo "The annoyance economy isn't going anywhere" que ajuda a ver o outro lado do problema. A autora descreve a chamada annoyance economy, composta por subscrições difíceis de cancelar, chatbots inúteis, robocalls, taxas escondidas, processos administrativos intermináveis e experiências desenhadas para cansar o cliente. O artigo refere um relatório segundo o qual estes incómodos custam cerca de 165 mil milhões de dólares por ano só nos Estados Unidos.
O ponto interessante, para quem gere empresas, é este: muitas destas "soluções" nasceram como optimizações. Automatizar o atendimento parecia eficiente. Criar subscrições parecia facilitar a venda recorrente. Tornar o cancelamento menos imediato parecia melhorar a retenção. Introduzir taxas adicionais parecia aumentar a receita. Tudo isto pode melhorar as métricas de curto prazo. Mas, ao mesmo tempo, compram-se frustração, desconfiança, desgaste reputacional e perda futura de clientes.
É bilhar de amador com Excel.
A empresa olha para a métrica da frente (conversão, custo, retenção, produtividade aparente) e esquece a jogada seguinte: confiança, lealdade, simplicidade, reputação, capacidade de resposta. O cliente não desaparece logo. Primeiro, irrita-se. Depois desconfia. Depois, evita. Depois fala mal. Depois muda. Quando a organização percebe, já não está a resolver um problema operacional; está a tentar recuperar uma relação deteriorada, contaminada.
O mesmo acontece nas PME. Muitas entram em dificuldade não porque decidiram mal de forma óbvia, mas porque decidiram bem apenas para o problema imediato. Resolveram a dor visível e não viram a fragilidade invisível que estavam a comprar.
Por isso, antes de qualquer decisão importante, talvez valha a pena introduzir uma pequena disciplina de bilhar profissional. Não basta perguntar: "Qual é o benefício?" É preciso perguntar também: "Que dependência estamos a criar?", "Que risco estamos a concentrar?", "Que competência estamos a perder?", "Que liberdade de manobra estamos a reduzir?", "O que acontece se o contexto piorar?", "Como poderemos recuar se isto correr mal?"
A pergunta decisiva não é apenas se isto resolve o problema. A pergunta decisiva é: "E depois?"
Porque a maioria das empresas não perde o jogo na jogada que vê. Perde-o na jogada seguinte, aquela que não preparou.
domingo, abril 26, 2026
Curiosidade do dia
Robotics firms in Shenzhen by segment:
— Kyle Chan (@kyleichan) April 25, 2026
- Control systems: ~3,600
- Cloud “brain”: ~3,000
- Energy & communications systems: ~1,700
- Actuation systems: ~600
- Sensing/perception systems: ~550
- Drive systems: ~420
- Structural systems: ~330
- Transmission systems: ~160
From the… pic.twitter.com/Z9QkjaFU16
Isto é ainda mais incrível do que os números do Japão, que já era uma economia madura. Shenzhen, uau, .... faz-me lembrar Baltimore e o carro em 1919.
BTW, com a ajuda do título do artigo, "Don't collaborate, compete", o ChatGPT diz-me que o artigo foi publicado em 9 de Junho de 1990 e teria esta tabela:
| Indústria | Nº estimado de concorrentes japoneses |
|---|---|
| Automóveis | 9 |
| Pneus para camiões e autocarros | 5 |
| Camiões | 11 |
| Máquinas-ferramentas | 112 |
| Semicondutores | 34 |
| Auto equipment | 25 |
| Computadores pessoais | 16 |
| Câmaras | 15 |
| Copiadoras | 14 |
| Televisores | 15 |
| Videogravadores | 10 |
Investimento e estoicismo
"Não é o infortúnio que destrói o homem, é a falta de preparação para ele."
O caso da Youshoes é interessante precisamente porque não permite uma resposta simplista.
Investir em linhas robotizadas pode ser uma excelente decisão. Pode aumentar a produtividade, reduzir defeitos, melhorar prazos, diminuir dependência de mão-de-obra escassa e permitir à empresa trabalhar para clientes mais exigentes. Nesse caso, o investimento não se limita a uma máquina nova. É uma forma de ganhar força.
Mas também pode ser uma armadilha.
Se a linha robotizada implicar custos fixos elevados, prestações financeiras relevantes, manutenção especializada, necessidade de volume mínimo permanente e dependência de clientes que não pagam mais por essa capacidade, a empresa pode trocar flexibilidade pela aparência de modernização.
E aqui está a questão central: o problema não é investir. O problema é montar uma estrutura que só funciona se tudo correr bem.
No caso da Youshoes, a pergunta não deve ser apenas: "A robotização aumenta a eficiência?"
A pergunta mais séria é: "A robotização continua a ser sustentável se houver menos encomendas, pressão nos preços, subida do custo do dinheiro, dificuldade em contratar técnicos ou clientes a capturarem parte dos ganhos?"
Porque uma PME não morre apenas por falta de ambição. Também pode morrer por excesso de estrutura.
Há investimentos que tornam a empresa mais forte porque aumentam a capacidade real, a margem, a diferenciação, a rapidez e o poder de negociação. E há investimentos que tornam a empresa mais frágil, pois aumentam a dívida, os custos fixos e o break-even.
A diferença está no que acontece quando o terreno abana.
Se a robotização permitir à Youshoes subir na cadeia de valor, vender melhor, entregar mais depressa, reduzir desperdício e conquistar clientes que valorizam a produção europeia flexível, então pode ser um bom investimento.
Se servir apenas para produzir mais pares ao mesmo preço, para os mesmos clientes, com mais dívida e menos margem de manobra, então é modernização por fora e vulnerabilidade por dentro.
A lição para as PME é simples: crescimento bom é aquele que aumenta a liberdade estratégica. Crescimento mau é aquele que exige que o futuro seja perfeito.
Uma PME inteligente não pergunta apenas: "Quanto vou ganhar se isto correr bem?"
Também pergunta: "Quanto tempo aguento se isto correr pior do que o previsto?"
Porque há empresas que crescem e ficam mais fortes e outras que crescem e ficam mais frágeis.
À primeira vista, ambas parecem modernas. A diferença aparece quando chega a primeira curva.
sábado, abril 25, 2026
Curiosidade do dia
"A segurança no emprego como travão ao crescimentoComo a legislação laboral dificulta a transformação tecnológica de que a Alemanha tanto necessita"
"se o futuro é o anichamento, e é, e se sabe que, ao par do anichamento, está o encolhimento das empresas,"
Enquanto uns perguntam "como é que isto limita o nosso futuro?”, nós, portugueses, perguntamos "como é que isto fica mais aceitável no presente?".
E essa diferença, subtil mas decisiva, acaba por moldar tudo o resto.
O jogo mudou de nível. Passou de n para n+1.
E isso muda tudo.
Na Alemanha, a pergunta é simples: o que temos de fazer para jogar bem no nível n+1?
Não é confortável.
Implica mexer em regras, estruturas, hábitos.
Mas é aí que o jogo agora se joga.
Por cá, a conversa é outra.
Uns tentam defender o nível atual, o n-3, como se ainda fosse suficiente.
Outros acham mais seguro recuar para o n-4 ou n-5, onde as regras eram conhecidas. E há ainda quem, com ambição, proponha subir para o n-2, como se isso fosse progresso.
Mas não é.
Porque o jogo já não está lá.
E enquanto discutimos em que versão antiga queremos ficar, outros já estão a aprender as regras do nível seguinte.
Parvoíces de um ignorante, cínico, anónimo da província (parte II)
Li no JdN: "Vista Alegre com lucros de 4,7 milhões. Exporta 71% da produção".
Uma boa ocasião para recordar a velha máxima:
Lucro é sanidade. Volume é vaidade. Recordo 2024 e "Parvoíces de um ignorante, cínico, anónimo da província"
Eu, um ignorante cínico e anónimo da província, olho para os números e fico a pensar.
As receitas subiram para 144,3 milhões de euros. As exportações já valem 71% do volume de negócios. O grés cresceu 11,4% e chegou aos 62,9 milhões de euros. Muito bem. Palmas para o volume.
Mas depois começa a parte menos decorativa da história.
O EBITDA ficou em 27,7 milhões, apenas +1%. A margem EBITDA ficou em 19,2%. O resultado líquido foi de 4,7 milhões, apenas +4% face a 2024. Ou seja: mais vendas, mais exportação, mais grés, e mesmo assim uma progressão muito modesta no resultado final.
E eu lembro-me do que escrevi em 2024, quando a Vista Alegre vinha de um ano em que as vendas tinham caído quase 10%, mas o lucro tinha subido para 6,8 milhões, com uma aposta declarada nos produtos de marca, enquanto o grés representava quase 40% das vendas. Nessa altura, a dúvida era simples: quem subsidia quem naquela casa?
Agora, em 2025, o grés volta a puxar pelo volume. E eu, ignorante de província, volto a fazer uma pergunta deselegante: crescer onde e para quê, se o resultado continua sem grande brilho?
Porque uma empresa pode exportar muito, facturar muito, encher apresentações com percentagens vistosas e até impressionar distraídos. Mas se, no fim, com 144,3 milhões de vendas, entrega apenas 4,7 milhões de lucro, convém não confundir movimento com qualidade, nem actividade com criação de valor.
Em suma: a Vista Alegre teve em 2025 um ano de mais volume, mas não um ano de mais sanidade.
sexta-feira, abril 24, 2026
Curiosidade do dia
A propósito de "Patrões alertam para a iminência de uma crise económica e exigem ao Governo o controlo de preços":
"Perante este cenário, as associações empresariais e agrícolas recusam propaganda vazia e exigem, com firmeza, responsabilidade política e respostas imediatas por parte do Governo. As comunidades, as populações, os agricultores e o tecido empresarial não podem continuar a esperar."
Há qualquer coisa de profundamente português nisto: empresários a falarem como campeões do mercado até ao exacto momento em que o mercado faz uma coisa desagradável, e então correm para o Estado a pedir controlo de preços, apoios a fundo perdido, gasóleo subsidiado, alívio fiscal e até programas públicos de compras conjuntas. Tudo isto, claro, em nome da livre iniciativa.
É o velho milagre nacional: um país ao mesmo tempo salazarista nos reflexos e socialista nas exigências. Salazarista porque continua a sonhar com a autoridade paternal que põe ordem, fixa preços e disciplina a realidade. Socialista porque, perante a dificuldade, a primeira ideia nunca é competir melhor, inovar ou diferenciar; é pedir ao Governo que distribua protecção, subsidie custos e corrija o mundo por decreto.
No fundo, não se pede um mercado. Pede-se uma espécie de quartel com tesouraria: mando firme, preços domesticados e o contribuinte de serviço à porta do armazém. Depois admiram-se de viver num país onde o capitalismo, mal apanha febre, pede logo uma cama no hospital público.
Produtividade, competitividade, salários e magia.
"Figura 1: Os custos salariais por hora nos Países Baixos são mais baixos do que entre países semelhantes."Ao lado deste gráfico está um outro:
"Figura 2: O desenvolvimento da produtividade nos Países Baixos está estagnado há catorze anos."
- rapidez de resposta,
- flexibilidade produtiva,
- variedade da oferta,
- qualidade do produto,
- fiabilidade,
- poder de marca,
- poder de mercado.
quinta-feira, abril 23, 2026
Curiosidade do dia
A propósito desta Curiosidade do dia sobre um futuro com ginásios para a mente, mão amiga mandou-me este artigo, "Ivy League teacher makes students use typewriters to fight against Al-written work":
"Once each semester, Grit Matthias Phelps, a German language instructor at Cornell University, introduces her students to the raw feeling of typing without online assistance.
No screens, online dictionaries, spellcheckers, or delete keys.
The exercise started in spring 2023 as Phelps grew frustrated with the reality that students were using generative Al and online translation platforms to churn out grammatically perfect assignments.
...
"This might sound bad, but I was forced to actually think about the problem on my own instead of delegating to Al or Google search," he said."
Talvez a moda pegue.
Tenho 2 máquinas em casa.
Não confundir estabilidade aparente com solidez real
Há empresas que não caem por falta de vendas, nem por falta de trabalho, nem sequer por falta de competência técnica. Caem porque confundem tranquilidade com solidez, crescimento com força e solução com progresso.
E quando finalmente percebem a diferença, já perderam algo decisivo: os graus de liberdade, a margem de manobra.
Uma PME não vive apenas da conta de resultados. Vive também da sua capacidade de aguentar choques, corrigir trajectória, ganhar tempo, absorver erros e continuar de pé quando o contexto muda. É por isso que há decisões que parecem inteligentes no curto prazo, mas que vão cavando fragilidades por baixo do chão.
Por exemplo há:
- relações comerciais que parecem seguras apenas porque duram há muito tempo;
- clientes que parecem seguros porque são grandes;
- fornecedores que parecem seguros porque sempre entregaram;
- mercados que parecem seguros porque têm funcionado bem até agora.
No entanto, uma coisa é parecer estável. Outra é ser realmente sólido.
Uma PME pode ter uma facturação aceitável e, ao mesmo tempo, estar perigosamente exposta a um único cliente. Pode ter um fornecedor “de confiança” e, no entanto, depender quase totalmente dele. Pode achar que tem um bom negócio porque o volume cresce, quando na realidade está a perder liberdade estratégica mês após mês.
O maior risco nem sempre está no problema visível. Muitas vezes está na dependência silenciosa.
É por isso que uma gestão séria não olha apenas para o que está a correr bem. Olha também para aquilo que, se falhar, pode desorganizar tudo. Os estoicos defendiam que o teste da solidez não é a calma, e sim a turbulência. O que encaixa com a ideia de que uma empresa pode parecer estável porque:
- tem vendas regulares,
- um cliente grande,
- um fornecedor habitual,
- crédito disponível,
- processos que “parecem funcionar”.
Mas isso pode ser apenas estabilidade aparente. A solidez real só se vê quando há:
- atraso de pagamentos,
- quebra de procura,
- subida de custos,
- falha operacional,
- mudança de contexto.
Um estoico diria que não devemos confundir o que nos dá conforto hoje com o que nos sustenta amanhã.
- Se este cliente desaparecesse, quanto tempo resistiríamos?
- Se este fornecedor falhasse durante três semanas, o que aconteceria?
- Se os prazos de pagamento se agravassem, onde é que isso nos apertaria primeiro?
Temos alternativas reais ou apenas conforto psicológico?
Muitas PME vivem anos com uma fragilidade escondida e chamam-lhe normalidade. Até ao dia em que descobrem que aquilo a que chamavam estabilidade era apenas ausência temporária de problemas.
Recordo: a estabilidade é uma ilusão ou Debaixo da superfície calma e pacata.
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