A propósito de "Patrões alertam para a iminência de uma crise económica e exigem ao Governo o controlo de preços":
"Perante este cenário, as associações empresariais e agrícolas recusam propaganda vazia e exigem, com firmeza, responsabilidade política e respostas imediatas por parte do Governo. As comunidades, as populações, os agricultores e o tecido empresarial não podem continuar a esperar."
Há qualquer coisa de profundamente português nisto: empresários a falarem como campeões do mercado até ao exacto momento em que o mercado faz uma coisa desagradável, e então correm para o Estado a pedir controlo de preços, apoios a fundo perdido, gasóleo subsidiado, alívio fiscal e até programas públicos de compras conjuntas. Tudo isto, claro, em nome da livre iniciativa.
É o velho milagre nacional: um país ao mesmo tempo salazarista nos reflexos e socialista nas exigências. Salazarista porque continua a sonhar com a autoridade paternal que põe ordem, fixa preços e disciplina a realidade. Socialista porque, perante a dificuldade, a primeira ideia nunca é competir melhor, inovar ou diferenciar; é pedir ao Governo que distribua protecção, subsidie custos e corrija o mundo por decreto.
No fundo, não se pede um mercado. Pede-se uma espécie de quartel com tesouraria: mando firme, preços domesticados e o contribuinte de serviço à porta do armazém. Depois admiram-se de viver num país onde o capitalismo, mal apanha febre, pede logo uma cama no hospital público.
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