terça-feira, abril 28, 2026

Curiosidade do dia



Acerca dos centros de dados recordo:
No passado dia 14 de Janeiro, o FT publicou "Microsoft to 'pay its way' on AI centres" e no dia 18 de Janeiro, The Sunday Times publicou "Will the AI dream be ended by smalltown USA?".

Praticamente todas as semanas nos jornais internacionais aparecem artigos a descrever a crescente resistência de comunidades locais nos EUA à instalação de grandes data centres, impulsionados pela corrida à inteligência artificial. Aquilo que durante anos foi apresentado como "infra-estrutura limpa, invisível e criadora de valor" começa agora a ser visto, a nível local, como uma indústria extractiva moderna: intensiva em energia, água e território, com benefícios económicos locais limitados e custos muito concentrados.

E o que fazem os governos portugueses? Em vez de cuidado e exigência, escancaram as portas. Ontem, Ricardo Arroja convidava a ler "A falta de energia está a emperrar a economia".

Numa veia irónico-humorística apetece-me perguntar se DLM também é amigo do actual primeiro-ministro. E já agora, na mesma veia, apetece perguntar se a Resolução do Conselho de Ministros n.° 70/2026, de 13 de abril também foi escrita por algum escritório de advogados.

Por exemplo, o Governo quer mapear terrenos adequados, obter previamente licenciamentos urbanísticos, fazer avaliações ambientais aplicáveis em modelo simplificado, construir infra-estruturas básicas e assegurar condições de ligação à rede eléctrica. Isto é apresentado como uma forma de reduzir o “time-to-power” e o “time-to-market” dos projectos.

O plano diz que quer simplificar os licenciamentos, reduzir os tempos de decisão e criar zonas pré-instaladas com avaliações ambientais em modelo simplificado. Portanto, há o risco de tratar a água e a energia como se fossem problemas já resolvidos pela tecnologia. O texto parece optimista quanto ao arrefecimento sem consumo de água, à água do mar e à eficiência energética.

Portugal deve querer centros de dados, mas não deve vender energia barata, território pré-licenciado, fundos públicos e prioridade administrativa sem exigir contrapartidas duras.

Essas contrapartidas deviam incluir, pelo menos: energia adicional e demonstravelmente renovável; metas públicas de eficiência energética; limites claros ao consumo de água doce; transparência sobre impactes cumulativos; partilha real de benefícios com comunidades locais; obrigações de reversibilidade; concursos abertos; ausência de privilégios opacos; e prova de valor acrescentado líquido para o país. Claro que é pedir muito.

O problema não é apoiar centros de dados. O problema é apoiar centros de dados como se fossem automaticamente desenvolvimento económico, quando podem ser apenas grandes consumidores de energia, água, solo, fundos públicos e atenção política.

"Há uma pergunta simples que devia estar escrita na parede de muitas salas de reunião: "E depois?""

Ou seja, que condições têm de estar garantidas para que este tipo de investimento não crie novas fragilidades? Cuidado com cheques em branco em nome da modernização.


P.S. Ah! Nem de propósito, o FT de hoje publica "The great American data centre divide". O ponto central é que a infra-estrutura invisível da IA tem impactos muito visíveis: consumo de electricidade, necessidade de arrefecimento, pressão sobre as redes locais, utilização de água e ocupação de território. Muitas destas instalações estão a deslocar-se para zonas rurais porque há terrenos disponíveis, acesso a energia e incentivos públicos. Mas é precisamente aí que cresce a resistência.


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