domingo, novembro 07, 2021

Percebem porque vão faltar cada vez mais trabalhadores?

Let this sink in:

"Em 2020, 50% das vendas de moda e vestuário na Europa foram feitas com desconto de preço e a indústria têxtil portuguesa surge como um dos suportes destas campanhas agressivas, uma vez que pratica os preços mais baixos do continente, segundo um estudo da Fashion Value intitulado ‘Pricing Report’. Do outro lado da tabela está a Itália.

Independentemente de outos segmentos do mercado, onde a indústria portuguesa também dá cartas, e tomando como ponto de partida o vestuário mais básico – uma t-shirt em algodão e umas calças jeans – o estudo indica que “na Europa Ocidental, Portugal é um dos países mais baratos, com menos de sete euros para uma t-shirt e pouco mais de 19 euros para umas calças jeans”. A Itália encabeça a lista dos mais caros, “com quase 40 euros para umas calças jeans e 15 euros para uma t-shirt básica em algodão”."(fonte)

O título do artigo é "PORTUGAL NO TOPO DA INDÚSTRIA LOW COST EUROPEIA". 

No topo porquê? Temos os salários mais baixos? Nope!


Temos empresas grandes capazes de ganhos de escala? Nope!
Temos empresas automatizadas e muito organizadas? Nope!

Nenhum país enriquece a vender commodities, a menos que seja o campeão da concorrência perfeita. Parece que em vez de treparmos as árvores estamos a descer na escala de valor.

Os apoios e subsídios são usados para isto... isto faz-me lembrar a interpretação de Jordan Petersson acerca de Mateus 6, 24-34. O que casa bem com a tal citação que referi há dias: 
"nature evolves away from constraints, not toward goals"
Quando não se tem uma direcção responde-se a estímulos, foge-se dos obstáculos, não se projecta um futuro, vive-se, mas não se afirma.


Não critico quem o faz. Quem faz, faz o que pode e sabe. Quem faz, faz muito mais que intelectuais que não levantam o rabo do sofá.

Critico quem não percebe a importância de criar condições para que capital estrangeiro venha infectar o país com o spill-over de projectos que apostem na concorrência imperfeita



sábado, novembro 06, 2021

"colonies are nations specializing in bad trade"

Ontem referi isto:

[Moi ici: Escreverei mais tarde sobre como isto se relaciona com a notícia recente das 14 concessões para exploração mineira, e com o objectivo da Galp de ser responsável pela produção de 30% do hidróxido de lítio na Europa]

 Presumo que muitos milhões de euros dos contribuintes entrarão nestas negociatas feitas às escondidas.  Não se fiquem só pela exploração mineira, acrescentem-lhe a ideia de produzir hidrogénio para o vender na Holanda. Esta semana tive a oportunidade de ler:

"The American Civil War is a prototype conflict between free traders and raw materials exporters (the South) on the one hand and the industrializing class (the North) on the other. Today's poor countries are the nations where the South' has won the political conflicts and civil wars. Opening up too early for free trade makes the South' the political winners."

Trecho retirado de "How Rich Countries Got Rich and Why Poor Countries Stay Poor" de Erik S. Reinert.

Do mesmo livro sublinho:

"It became increasingly clear to me that the mechanisms of wealth and poverty had, during several historical periods, been much better understood than they are today. My 1980 Ph.D. thesis attempted to check the validity of Antonio Serra's seventeenth-century theory of development and underdevelopment. Serra is a very important person in this account because he was the first economist to produce a theory of uneven economic development in 1613, his Breve trattato or `Brief treatise'. Very little is known of Serra's life apart from the fact that he was a jurist who wrote a book when he was in jail in Naples. He sought to explain why his home town of Naples remained so poor in spite of its bountiful natural resources, while Venice, precariously built on a swamp, was at the very centre of the world's economy. The key, he argued, was that Venetians, barred from cultivating the land like the Neapolitans, had been forced to rely on their industry to make a living, harnessing the increasing returns to scale offered by manufacturing activities. In Serra's view the key to economic development was to have a large number of different economic activities, all subject to the falling costs of increasing returns. Paradoxically, being poor in natural resources could be a key to becoming wealthy.

...

In the early 1700s a rule of thumb developed for economic policy in bilateral trade, a rule that rapidly spread throughout Europe. When a country exported raw materials and imported industrial goods, this was considered bad trade. When the same country imported raw materials and exported industrial goods, this was considered good trade

...

colonies are nations specializing in bad trade, in exporting raw materials and importing high technology goods, whether these are industrial goods or from a knowledge-intensive service sector."

Depois não se queixem de não sairmos da cepa torta. 

sexta-feira, novembro 05, 2021

"apenas teremos alternância, não alternativa"

"Ireland had joined the European Community in 1973, and massive EC funds had floated into its agricultural sector. However, this had created over-capacity and highly indebted farmers in a very difficult market. [Moi ici: Escreverei mais tarde sobre como isto se relaciona com a notícia recente das 14 concessões para exploração mineira, e com o objectivo da Galp de ser responsável pela produção de 30% do hidróxido de lítio na Europa]

...

[Moi ici: A 9 de Janeiro de 1980 o primeiro-ministro irlandês, Charles Haughey, proferiu à nação o discurso que se segue ...] I wish to talk to you this evening about the state of the nation's affairs and the picture I have to paint is not, unfortunately, a very cheerful one. The figures which are just now becoming available to us show one thing very clearly. As a community we are living way beyond our means ... we have been living at a rate which is simply not justifiable by the amount of goods and services we are producing. To make up the difference we have been borrowing enormous amounts of money, borrowing at a rate which just cannot continue. A few simple figures will make this very clear ... we will just have to reorganize government spending so that we can only undertake those things we can afford."

Como não recordar Peres Metelo e o seu:

"vivemos abaixo das necessidades da economia"

Conhecem algum político português no activo capaz de fazer um discurso similar a esta nação endividada e estagnada numa rotunda há cerca de 20 anos? Nogueira Leite no JdN de ontem citou:

"a economia portuguesa está hoje 75 por cento abaixo do nível que registaria caso tivesse continuado a crescer desde 2002 de acordo com a tendência prévia a esse momento"

Ganhe esquerda, ou ganhe direita, apenas teremos alternância, não alternativa. Alternativa implica olhar olhos nos olhos e dizer coisas que os eleitores não vão gostar de ouvir.

Trechos retirados de "How Rich Countries Got Rich and Why Poor Countries Stay Poor" de Erik S. Reinert.

"coisas que me fazem confusão"

Não sou partidário de medidas proteccionistas, mas há coisas que me fazem confusão, "L’armée française choisit des pulls chinois plutôt que des pulls "Made in Tarn", l'Armée dément"

quinta-feira, novembro 04, 2021

"pedir dinheiro emprestado para importar "

À atenção dos que acham que pedir dinheiro emprestado para importar é um modo de vida sustentável:

"Spain as a frightening example of what not to do

From the mid-1500s the theatre of Europe provided further elucidation in economic theory and policy, setting an example of what a country should not do. Spain had long been an important industrial state. `In Europe, to describe the best silk one once said "the quality of Granada". To describe the best textiles one once said "the quality of Segovia",' wrote a Portuguese economist in the 1700s. By then Spanish manufacturing industry was history and the mechanisms that had diminished its manufacturing capacity and its wealth in tandem were eagerly studied across Europe. Their conclusions on what had happened were virtually unanimous.

The discovery of the Americas led to immense quantities of gold and silver flowing into Spain. These huge fortunes were not invested in productive systems but actually led to the de-industrialization of the country. The landowners primarily profited from the `funnel of gold' from the Americas, as they had a monopoly on the export of oil and wine to the growing markets of the New World. The supply of such goods is highly inelastic, and subject to diminishing rather than increasing returns. To increase production, particularly to make new olive trees yield as old ones, takes a long time. This expansion would produce the opposite of increasing returns, that is, diminishing returns which cause the cost of production per unit to rise rather than fall. The result of the increased demand was consequently a sharp increase in the price of agricultural products. At the same time, nobility owning land were exempt from paying most taxes, so the tax burden fell increasingly on the artisans and manufacturers. Their competitiveness was, on the other hand, already being squeezed by the rapid rise of prices of agricultural goods in Spain. This undid the synergies and division of labour in Spanish cities, causing a de-industrialization from which Spain only finally recovered in the nineteenth century. Successful states protected manufacturing industry, unsuccessful Spain protected agriculture to the extent that it killed manufacturing.

...

We find the following observation in Giovanni Botero's work on what causes the wealth of cities: `Such is the power of industry that no mine of silver or gold in New Spain or Peru can compare with it, and the duties from the merchandise of Milan are worth more to the Catholic King than the mines of Potosi and Jalisco." Italy is a country in which ... there is no important gold or silver mine, and so is France: yet both countries are rich in money and treasure thanks to industry.'

In various forms, the statement that manufacturing was the real gold mine is found all over Europe from the late 1500s through the 1700s. After Botero we find this expressed by Tommaso Campanella (1602) and Antonio Genovesi (in the 1750s) in Italy, by Geronimo de Uztariz in Spain (1724/1751) and by Anders Berch (1747), the first economics professor outside Germany, in Sweden: `The real gold mines are the manufacturing industries'."

Trecho retirado de "How Rich Countries Got Rich and Why Poor Countries Stay Poor" de Erik S. Reinert.

De volta à concorrência imperfeita

De volta à concorrência imperfeita:

"A small city-state devoid of resources but with a huge hinterland, like Hong Kong, may get rich in the same `natural' way as Venice and Holland did. Studying the inner mechanisms of such states, however, makes it clear that the principle of wealth creation - from the cost of a taxi licence in Hong Kong to the city's huge corporations - is not perfect competition, but rent seeking, that is, profiting from imperfect rather than from perfect competition."

Trecho retirado de "How Rich Countries Got Rich and Why Poor Countries Stay Poor" de Erik S. Reinert.

quarta-feira, novembro 03, 2021

Falta de trabalhadores? E salários? Back to Cavaco, Setembro de 1992

No JdN de ontem um artigo de 2 páginas intitulado “Mobiliário desespera à procura de 5 mil trabalhadores”.

Um tema relacionado com alguns postais publicados aqui no blog na última semana:
Sublinhei algumas passagens do artigo e criei o mapa que se segue:




O que é que um cenário destes está a pedir:
  • Aumento dos preços, o aumento da procura por mobiliário nacional é um sintoma de que a relação qualidade/preço está desequilibrada;
  • Aumento dos salários para atrair mais gente para o sector.
Ali ao lado na coluna das citações há uma que gosto muito:

"nature evolves away from constraints, not toward goals"
O meu lado ingénuo e optimista escreveu aqui no blogue:
“Quando a falta de trabalhadores obriga os salários a subirem mais do que a produtividade, as empresas começam a trilhar um caminho perigoso. A minha visão optimista apontou logo a alternativa, subir na escala de valor para que a produtividade aumente mais depressa do que os salários. Ainda recentemente escrevi "Mudar e anichar"”
O título do postal onde escrevi este trecho foi “Uma bofetada que recebo como um aviso”.

Porquê bofetada? Por causa da minha ingenuidade, por causa das raposas trazidas para caçar coelhos australianos. Qual a forma de resolver o cenário lá de cima sem subir na escala de valor e sem aumentar salários? Importar trabalhadores da Ásia.

Assim, abro a porta a outras citações do texto do JdN:



Julgo que estas últimas citações vêm tornar a situação menos linear. E para complicar as coisas acrescento outra que me faz espécie:
Vamos pegar nos dados apresentados no artigo. Por exemplo, Grupo Laskasas, com 435 trabalhadores e a facturar 24 milhões de euros. O que dá cerca de 55 mil euros por trabalhador. Comparemos com a facturação média do sector do calçado em 2018 dividida pelo número de trabalhadores do sector em 2018, cerca de 50 mil euros. Conclusão: custa-me a crer que o sector do mobiliário possa pagar salários elevados.

Pena que o JdN não tenha entrevistado trabalhadores para ter uma visão mais abrangente do contexto.

Custa-me a crer que não haja interessados em entrar numa profissão que pode vir a pagar 2 mil euros por mês limpos. Reparem na resposta à pergunta. O jornalista mostra surpresa por a esse preço não se conseguirem contratar pessoas. E na resposta o presidente da associação do sector explica que não se encontram porque o sector paga bem... há aqui qualquer coisa que não consigo processar. Parece ao nível do antigo presidente da câmara de Guimarães em 2008.

Sinto-me invadido por um pessimismo ao estilo de Cavaco a 25 de Setembro de 1992.

terça-feira, novembro 02, 2021

A propósio da bazuca

Anda muita gente preocupada com o risco do dinheiro da bazuca não poder ser aplicado.
Anda muita gente iludida com os dinheiros europeus, não critico quem a eles recorre, surpreende-me é  haver tanta gente que acha que fazem a diferença.

Em Novembro de 2015 escrevi este texto, "Apesar das boas intenções", sobre o uso de subsidios e apoios em empresas inglesas nos anos 80. O meu consciente já se tinha esquecido do texto. Contudo, o meu inconsciente volta e meia faz emergir no palco da minha mente a ideia de que muitos destes apoios são contraproducentes:
"By and large, the inability to distinguish the A and B groups rendered these grants socially counter-productive. The funds flowed selectively into the least viable part of the industry, preventing change, and subsidized competition with the A-group, so slowing its growth."

Na sequência da minha última conversa oxigenadora escrevi aqui no blog:

"Ontem, o meu parceiro das conversas oxigenadoras disse-me que esta história do PRR e do dinheiro da UE para projectos é uma espécie de economia de planos quinquenais. São apresentados projectos feitos em nome das empresas e depois, quem escolhe o que passa e não passa não é o mercado, é uma comissão que avalia os projectos. Quantos empresários, se tivessem o capital consigo, aplicariam o dinheiro nos projectos que apresentam? Quase nenhum, remata ele!"

Vamos lá ver o que acontece ao dinheiro dos subsídios:

Se a empresa tem uma estratégia incorrecta, duas coisas podem acontecer, ou não tem capital ou tem subsídio:

  • Se não tem capital, queima o capital dos sócios e depois fecha,
  • Se recebe o subsídio torra o dinheiro e, ou fecha, ou espera pelo novo subsídio (outra espécie de Ponzi)
Se a empresa tem uma estratégia incorrecta e não a altera, porquê meter lá dinheiro? A estratégia anterior demonstrou a sua falência. A sério, parte importante do subsídio é para ser usado para apoiar a empresa a competir pelo preço de forma artificial.

Se a empresa tem uma estratégia correcta, duas coisas podem acontecer, ou não tem capital ou tem subsídio:

  • Se não tem capital, continua a fazer o seu caminho de forma lenta e segura,
  • Se recebe o subsídio tem hipótese de tirar vantagem do contexto e acelerar o seu crescimento. 

O que dizia o meu parceiro das conversas oxigenadoras na última conversa? Repito:

"Ontem, o meu parceiro das conversas oxigenadoras disse-me que esta história do PRR e do dinheiro da UE para projectos é uma espécie de economia de planos quinquenais. São apresentados projectos feitos em nome das empresas e depois, quem escolhe o que passa e não passa não é o mercado, é uma comissão que avalia os projectos."

Estão a pensar que a comissão que escolhe os projectos é corrupta? E na Inglaterra dos anos 80, também foi isso que aconteceu?  

segunda-feira, novembro 01, 2021

Percebem como isto é deprimente?

No caderno de economia do último Expresso encontrei este esquema:

Lembram-se dos títulos todos lampeiros dos jornais sobre o roubarmos empresas à Lituânia e à Polónia?

É o mesmo fenómeno dos anos 60 e 70 quando as fábricas de calçado e de têxteis fechavam na Alemanha e na França para virem para Portugal, só que agora são as da Polónia e Lituânia, em breve mandam para cá as da Roménia.

Percebem como isto é deprimente? 

domingo, outubro 31, 2021

Mea culpa

O postal de ontem, "Subam os preços!", gerou alguma troca de comentários no Facebook. A certa altura prometi este postal com alguma dose de "mea-culpa".

Existe a Microeconomia e a Macroeconomia.

O meu mundo é o mundo da Micreconomia, é nele que trabalho a apoiar empresas e, ao desenvolver esse trabalho, quase sempre visto a camisola e sinto-me parte da equipa. Nutro simpatia por quem não se encosta, por quem não opta pelo mais fácil e luta pela sua independência. Como a larga maioria dos licenciados e doutorados não empreende, quem está à frente destas empresas é, normalmente, alguém que deixou os estudos cedo e começou a trabalhar e algures avançou para a criação de uma empresa. 

O meu mundo é, muitas vezes, o mundo dos sectores tradicionais. Um mundo sistematicamente condenado à morte pela Academia, pelos jornalistas e comentadores económicos, mas que teima em resistir. PMEs que segundo as sebentas das universidades deviam estar mortas, mas que continuam vivas e a maioria não são zombies, para ser zombie é preciso ter acesso aos corredores e carpetes do poder. Julgo que a Academia falha nas suas previsões porque parte do principio que para ser competitivo há que ser produtivo, ideia que vem da economia do século XX. No entanto, porque existe a concorrência imperfeita, é possível ser competitivo, ainda que pouco produtivo.

Porque acredito na concorrência imperfeita, porque estou solidário com esta raça de gente, sempre aqui combati os que nos media dizem que estas empresas "são de segunda".

No entanto, nos últimos anos alguns factores têm-se conjugado para aumentar a minha preocupação acerca das PMEs:

  • o aumento do salário mínimo 
  • a pressão demográfica
  • a sereia da emigração

Neste postal de Dezembro de 2018 escrevi sobre o uso do salário mínimo para matar as empresas competitivas, mas não produtivas. Quanto mais PMEs competitivas mas não produtivas morrerem mais cresce a produtividade agregada do país. E foi no final de 2018 que comecei a ler nos media tradicionais uma versão diferente do jogo do gato e do rato, o jogo da produtividade e salários. Até aí o canon era o citado pelo então ministro Teixeira dos Santos:

"Temos de melhorar a produtividade do trabalho (com formação, inovações, melhoria na gestão), mas também a disciplina salarial com a fixação dos salários para que acompanhe a produtividade”, resumiu o titular da pasta das Finanças."(Junho de 2010)

A partir de 2018, comecei a ler, sobretudo via Avelino de Jesus, uma outra versão:

"A melhoria da produtividade (de que depende o crescimento da economia) está muito dependente da melhoria dos salários, pelo impulso que imprimem à eliminação das empresas e sectores menos produtivos e ao triunfo dos mais eficientes. Nas economias dinâmicas são os salários que empurram a produtividade e não o contrário como - com demasiada frequência - se ouve dizer.

...

A ideia de que há um bolo que se produz e que depois se distribui (sendo que o salário está rigidamente limitado pelo tamanho do bolo produzido) pulula com vigor esmagador pela economia vulgar; é a alquimia que se apresenta para justificar a moderação das exigências salariais.

Mas, na verdade, o salário e o produto mantêm uma relação dinâmica. O salário determina a formação do produto, tanto na sua dimensão como na estrutura. A pressão salarial tem importantes e virtuosos efeitos sobre a produtividade e o crescimento, criando estímulos imprescindíveis para os empresários efectuarem as escolhas mais virtuosas sobre as tecnologias e os sectores de investimento."

Isto na altura senti como um virar da maré. Por isso, na passada sexta-feira quando ouvi as palavras do presidente da CIP sobre salários e produtividade na rádio Observador confesso que sorri com a ingenuidade dele perante esta corrente. Ainda está em 2010 e com Teixeira dos Santos. Será que não se apercebeu da nova fase?

Claro que a teoria de Avelino de Jesus tem um ponto fraco: "nas economias dinâmicas". A economia portuguesa não é dinâmica. Lembram-se da chapada? E volto ao pensamento sistémico e ao arquétipo da "corrida ao armamento". Aumenta-se o salário mínimo? Recorre-se à contratação de serviços ao Bangladesh!!! Viva Odemira.

Por um lado, esta pressão do salário mínimo e, por outro lado, a crescente pressão emigratória em busca de melhores salários (vejo-a todas as semanas num local de pleno emprego como é Felgueiras. Agora até a França está com"labour supply bottlenecks" o que é um sorvedouro para quem tem familiares por lá), tornam o desafio do aumento da produtividade cada vez mais importante e urgente. O impacte da Macroeconomia.

No entanto, o desafio do aumento da produtividade não passa pelas lições das sebentas de Economia, baseadas no século XX, como tão bem escreveu Esko Kilpi em 2015 e registei aqui. Por isso, não concordei com os economistas do encontro na Junqueira, pregados à sebenta do século XX. Aumentar a produtividade com a receita do século XX é possível? Sim, é seguir a lição irlandesa para captar investimento estrangeiro e queimar etapas, porque "os macacos não voam" e não têm capital.

Não subir preços é acelerar o encerramento das empresas dos sectores tradicionais. Agora trata-se de aproveitar a conjuntura, mas é preciso trabalhar para os aumentar de forma estrutural, sob pena de não conseguir contratar ninguém daqui a 10 anos, a não ser operários bangladeshis ao serviço de empresa bangladeshi a prestar serviço numa empresa portuguesa.

Entretanto, Reinert veio chamar-me a atenção para isto tudo de uma forma pragmática:

"As private citizens, economists realize that the choice of economic activity will largely determine the living standard of their children. On an international level, the same economists are unable to sustain that same opinion because their toolbox is pitched at such a high level of abstraction that virtually no tools are available to distinguish qualitatively between economic activities. At this level, standard economic theory `proves' that an imaginary nation of shoeshine boys and people washing dishes will achieve the same wealth as a nation consisting of lawyers and stockbrokers."

Não precisamos de fazer destas PMEs párias a abater, como tantas vezes académicos sem skin-in-the-game proclamam, mas temos de perceber que a produtividade vai ser fundamental para a sobrevivência. Não por causa do mercado, mas dos governos, da demografia e da emigração.

Trecho retirado de "How Rich Countries Got Rich and Why Poor Countries Stay Poor" de Erik S. Reinert.

sábado, outubro 30, 2021

Subam os preços!

Vivemos tempos que eu nunca pensei viver. Parece que voltamos ao tempo em que a oferta é menor do que a procura. Ontem estive numa empresa que está a triplicar as vendas de 2020 e 2020 tinha sido melhor do que 2019. Outra, está a ser inundada de pedidos de clientes novos de Espanha. A minha reacção instintiva foi: subam os preços!!! 

E o que senti em resposta foi um olhar de receio: 

"Reasons not to raise prices.

Most businesses will go through extreme measures to delay or avoid raising prices. There are several reasons for this:

...

Competitive pressure

In hyper-competitive markets with ample supply, raising prices may drive away customers. This is common in transportation, hospitality, and commodities. However, if your industry is currently experiencing supply shortages, you are more likely to lose market share from product shortages than from price increases. In that case, you are better off governing demand through price increases.

...

Fear

The #1 reason small businesses do not raise prices is fear. People are uncomfortable with change, and altering pricing is a big change. Pricing is more than a financial decision: pricing changes your brand, marketing, operations, and sales. It alienates some customers and attracts others. To change pricing is so scary, most businesses will go years between price adjustments.

How price increases impact your business.

Pricing affects nearly every part of your business. Small price increases of less than 5% may not cause much disruption

...

Your branding shifts to a premium focus.

With higher prices, you signal to the market your goods or services are higher quality than the competition. Your marketing needs to shift to embrace this positioning. 

...

You lose cheap customers.

Every business has customers who expect a lot but want to pay little. Raising your prices naturally weeds out the cheap customers, saving your customer service and sales team many headaches! The downside is you might also weed out a small business customer you love to work with who now can no longer afford your brand.

Operations shifts from volume-focus to quality-focus. [Moi ici: Esta é, talvez, a mudança mais difícil de entranhar... recordar os anfíbios]

Low-price businesses are focused on volume and efficiency. High-price businesses are focused on quality, timeliness, and experience. To meet the expectations of your new premium customers, you will need to shift your staff's focus. [Moi ici: Eu concentrar-me-ia mais nos decisores, antes de ir aos operacionais

...

Should you raise your prices?

The right pricing strategy will depend on your business and your industry. I recommend performing a full competitive pricing analysis to determine the best course of action. If you do not have the time or resources for a full pricing analysis, here's a rule of thumb:

If there are shortages in your industry, you should raise prices."

BTW, não pretendo passar a mensagem, julgo que este blogue com quase 20 anos é testemunha disso, de que a relação entre fornecedor e cliente/consumidor tem de ser uma guerra, mas o mindset da imprensa é a favor dos clientes/consumidores. Recordar o que recomendo aos agricultores: deixar de pensar que existem para aliviar a fome no mundo, ninguém lhes paga por isso.

Trechos retirados de "Why it's Time to Think About Raising Your Prices"

sexta-feira, outubro 29, 2021

"Perfect markets are for the poor"

Continuo a leitura de "How Rich Countries Got Rich and Why Poor Countries Stay Poor" de Erik S. Reinert

"Europeans observed early on that generalized wealth was found only in areas where agriculture was absent or only played a marginal role, and came to be seen as an unintended by-product when many diverse branches of manufacturing were brought together in large cities. Once these mechanisms were understood, wise economic policy could spread wealth outside these few 'naturally wealthy' areas. Policies of emulation could, indeed, also spread wealth to formerly poor and feudal agricultural areas, but they involved massive market interventions. For laggard nations market interventions and wise economic policies could substitute for the natural and geographical advantages that produced the first wealthy states. We can further imagine that export taxes on raw materials and import taxes on finished products were originally means for raising revenues in poor nations, but that a by-product of these measures was to increase wealth through the growth of domestic manufacturing capacity. [Moi ici: Há aqui qualquer coisa que julgo ser verdade no que Reinert escreve acerca da origem da riqueza. No entanto, torço o nariz à solução que ele propõe, pelo menos para Portugal. A Irlanda deu o salto com uma intervenção estatal longe de "export taxes on raw materials and import taxes on finished products". Um país sem capital e sem experiência não pode voar, só trepar. A única forma de voar é atrair capital e know-how]

...

Thus rivalry, war and emulation in Europe created a dynamic system of imperfect competition and increasing returns. New knowledge and innovations spread in the economy as increased profits and increased wages, and as larger bases for government taxation. European economic policy was based for centuries on the conviction that the introduction of a manufacturing sector would solve the fundamental economic problems of the time, creating much-needed employment, profits, higher wages, a larger tax base and a better circulation of the currency. ... Standard textbook economics which seeks to understand economic development in terms of frictionless `perfect markets' totally misses the point. Perfect markets are for the poor. It is equally futile to try to understand this development in terms of what economists refer to as `market failure'. Compared to textbook economics, economic development is a giant failure of perfect markets."

Alguns textos sobre a concorrência perfeita:

quinta-feira, outubro 28, 2021

Para reflexão

No The Wall Street Journal de ontem:

"A major home builder is teaming with a Texas startup to create a community of 100 3-D printed homes near Austin, gearing up for what would be by far the biggest development of this type of housing in the U.S. 

Lennar Corp. and construction-technology firm Icon are poised to start building next year at a site in the Austin metro area, the companies said. While Icon and others have built 3-D printed housing before, this effort will test the technology’s ability to churn out homes and generate buyer demand on a much larger scale.

...

Skilled tradesmen are a dying breed,” said Eric Feder, president of LenX, Lennar’s venture-capital and innovation unit. “So there have to be alternative building solutions to help with this labor deficit.”"


quarta-feira, outubro 27, 2021

Moi ici: Let that sink in deep!!!

Há muitos anos que uso a assinatura "promotor da concorrência imperfeita".

Hoje, comecei a leitura de "How Rich Countries Got Rich and Why Poor Countries Stay Poor" de Erik S. Reinert, publicado em 2007.

Já este ano li grande parte de um livro do mesmo Reinert que achei fascinante, "The Visionary Realism of German Economics: From the Thirty Years' War to the Cold War".

Há anos li "Why Nations Fail" de Acemoglu e Robinson e considerei que a hipótese dos autores tem razão de ser. Reinert tem outra base, vamos ler.

Entretanto, nas primeiras páginas de Reinert apanho:

"At this point it is necessary to introduce and explain two sets of key terms that describe the differences between the economic activities that typically dominate the poor countries and those that dominate the rich countries: `perfect' and `imperfect' competition and `increasing' and `diminishing' returns.

`Perfect competition' or `commodity competition' means that the producer cannot influence the price of what he produces, he is facing a `perfect' market and literally reads in the newspaper what the market is willing to pay. ... Perfect competition and diminishing returns are assumed to be the normal state of affairs in standard textbook economics.

...

Rich countries display generalized imperfect competition, activities subject to increasing returns, and, as I gradually began to understand, all have become rich in exactly the same way, through policies steering them away from raw materials and diminishing returns activities into manufacturing, where the opposite laws tend to operate."

BTW:

"The logic that died with the Berlin Wall was that it is better to have an inefficient manufacturing sector than not to have a manufacturing sector at all, and such an approach has led to falling real wages in many countries in Eastern Europe, Asia, Africa and Latin America."[Moi ici: Let that sink in deep!!!]

terça-feira, outubro 26, 2021

Números

Ontem recebi um e-mail com esta mensagem:

É tão estranho isto...

Tenho um problema com a comunicação das leituras, ligo ao serviço de apoio telefónico que o resolve corrigindo a situação. Contudo, o problema de fundo não foi resolvido, mais de seis meses sem leituras feitas pela empresa e algoritmos de estimativa de consumos desfasados da realidade da minha empresa.

Quando até o fundador do NPS anda a lutar para que as empresas não o utilizem como o utilizam ...

O inquérito, que me recusei a preencher já no segundo ecrã, é todo virado para o contacto telefónico. Sorry!

segunda-feira, outubro 25, 2021

O contexto é sempre importante!

O contexto é sempre importante!

No entanto, os últimos 18 meses fizeram do contexto um tema quente: covid19, confinamentos, economias congeladas, disrupção de cadeias de abastecimento, bloqueio do canal de Suez, aumento dos custos das matérias-primas, escassez de matérias-primas, aumento dos custos de energia, ...

Este artigo da Bloomberg Business Week é sintomático, "Paintmakers Are Running Out of the Color Blue":

  • "Dutch paint maker Akzo Nobel NV is running out of ingredients to make some shades of blue"
  • "Akzo Nobel is having trouble sourcing the tinplate used to make metal cans, forcing the Amsterdam-based company to ship empty pots from one country to another for filling"
  • "It also called a force majeure on deliveries of some exterior wall paints because an additive needed to make them waterproof is unavailable."
Este outro, "Americans Are Quitting Jobs at Record Rates: Labor Department", remete para o contexto interno. Nos últimos meses uma constante, empresas que se queixam de perderem trabalhadores que decidem emigrar.

Mais fontes:

domingo, outubro 24, 2021

Dizer não mais vezes

Revi-me nesta mensagem e na dificuldade em dizer não mais vezes, "The Focus to Say No". Válido para pessoas e para empresas:

"The most powerful skill you’ve never been taught is focus.

We all have the same number of hours in a week. The difference is how we use them.

...

The difference between average results and exceptional ones is what you avoid. You can do anything, but you can’t do everything.

...

While saying yes consume time, saying no creates time.

Saying no is hard. 

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People think focus means saying yes to the thing you’ve got to focus on. But that’s not what it means at all. It means saying no to the hundred other good ideas that there are. You have to pick carefully. I’m actually as proud of the things we haven’t done as the things I have done. Innovation is saying ‘no’ to 1,000 things."

sábado, outubro 23, 2021

"Sellers Without Sgmentation"

"The primary objective of segmentation through data analytics is to identify the profile of your most successful and profitable existing customers. Your sales force employees might think they know who these customers are, but chances are they’re mostly relying on intuition and experience."
Trechos retirados de "Pricing Strategy Implementation - Translating Pricing Strategy into Results" de Andreas Hinterhuber e Stephan M. Liozu.


 

quinta-feira, outubro 21, 2021

Let that sink in deep

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quarta-feira, outubro 20, 2021