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sexta-feira, setembro 25, 2026

Acerca do custo do dinheiro (parte IV)

Parte I e parte II e parte II +1/2 e parte III. 

"Kier Group is to pull out of building houses and instead focus on projects such as nuclear power stations and hospitals in response to Britain's subdued property market.

...

The FTSE 250 construction group confirmed yesterday that there will be "no investment in new property developments" 

...

"We are building a stronger, more focused Kier, concentrating our expertise, resources and talent where we can create the greatest value," Stuart Togwell, chief executive, said."

A Kier toma a decisão numa altura em que apresenta crescimento dos resultados, o que reforça a leitura de escolha estratégica, e não apenas de retirada forçada. No último exercício, a facturação cresceu 6,8% e os lucros antes de impostos subiram 7,3%.

Durante anos, a pergunta parecia ser "há dinheiro para fazer isto?". Com dinheiro barato, ou com uma parte da conta paga por terceiros, muitas vezes havia. Agora regressa uma pergunta mais exigente: "entre tudo o que poderíamos fazer, é aqui que estes recursos criam mais valor?". A Kier respondeu deixando de investir em novos empreendimentos imobiliários. Portugal terá de responder à mesma pergunta se os fundos europeus diminuírem. E cada PME terá de responder quando decidir que clientes servir, que encomendas aceitar e onde empatar o seu capital.

Vai acabar o:


Alguns ainda não perceberam: "German minister slams Costa over EU budget, says he has 'completely lost touch with reality'"

Trechos retirados de "Kier quits housebuilding as property decline bites" publicado a 16 de Setembro no The Times.

Nota: A Kier é um dos maiores grupos britânicos de construção e infra-estruturas. Constrói escolas e estações ferroviárias e executa projectos nas áreas da água, energia e defesa.

domingo, setembro 20, 2026

Acerca do custo do dinheiro (parte III)

Parte I e parte II.

No JdN do passado dia 10 li que o primeiro-ministro português está firmemente contra cortes no orçamento europeu. No Twitter, li que tanto a AfD quanto o chanceler Merz querem limitar os pagamentos da Alemanha à UE.

Quando Berlim fecha a torneira...

Na Parte II deixei um balão alemão a encher. Entretanto, começou a ouvir-se o ar lá dentro.

Num vídeo que circula no Twitter, Alice Weidel, líder da AfD, reclama uma redução significativa dos pagamentos da Alemanha à União Europeia. Alega que quase mil milhões de euros seguem semanalmente para Bruxelas e remata com a frase politicamente perfeita: "Queremos o nosso dinheiro de volta".

O rigor da conta interessa menos do que a eficácia do enquadramento. As contribuições são visíveis; os benefícios do mercado único, das cadeias de fornecimento e dos mercados abertos às empresas alemãs são muito mais difíceis de pôr num cartaz.

Seria tentador arrumar o assunto na gaveta AfD. O problema é que Friedrich Merz também quer reduzir o próximo orçamento europeu, embora por outras razões e com outra linguagem. O chanceler considera "incomportável" a proposta da Comissão, próxima de dois biliões de euros para 2028-2034, e pede cortes de centenas de milhares de milhões. Quer que todas as áreas contribuam para a redução e rejeita novo endividamento conjunto da União Europeia.

Não é a mesma política. Mas a direcção orçamental é a mesma: a maior economia e o maior contribuinte líquido da União querem travar a factura de Bruxelas (também li que Meloni mandou Costa dar uma volta quando ele falou em mais impostos europeus).

E isto acontece quando a pressão interna aumenta. No primeiro semestre de 2026, a Alemanha registou 12 812 insolvências empresariais, mais 6,7% do que um ano antes e o valor mais elevado para um primeiro semestre desde 2013. Só em Junho, o aumento homólogo foi de 15,8%.

Os números não significam que a Alemanha esteja à beira da falência, significam que o custo político de enviar dinheiro para Bruxelas está a subir. Cada empresa que fecha permite apresentar mais facilmente um euro transferido para a União como um euro retirado à indústria, às infra-estruturas, à defesa ou ao contribuinte alemão. E a subida da AfD torna mais difícil a Merz parecer generoso na mesa europeia.

É aqui que o balão alemão chega a Portugal.

O Jornal de Negócios noticiou que Luís Montenegro preparava uma "oposição firme" a cortes que prejudiquem a convergência portuguesa. O confronto está resumido: quem mais paga quer pagar menos; quem ainda está a convergir precisa que a torneira não feche. Como o quadro financeiro plurianual exige unanimidade, a negociação será dura.


R1 - A Alemanha procura aliviar a pressão interna cortando a contribuição europeia; porém, menos investimento e procura na UE podem voltar a fragilizar as empresas alemãs.

Mas o que tem isto a ver com o custo do dinheiro?

Muito. Um apoio europeu não é literalmente dinheiro grátis, mas reduz drasticamente o custo efectivo de financiar um projecto. Se Bruxelas suporta uma parte do investimento, Portugal precisa de mobilizar menos impostos, menos dívida e menos capital privado. Quando essa parcela diminui, o mesmo projecto só avança se o Estado substituir o dinheiro por receita nacional, pedir emprestado, cortar noutra despesa ou convencer investidores privados a exigir um retorno.

A Euribor pode não mexer um único ponto base e, ainda assim, o dinheiro pode tornar-se mais caro. A rejeição alemã de novo endividamento europeu conjunto é ainda mais importante. A dívida comum distribui risco e permite financiar prioridades em conjunto. Sem ela, uma parte maior do esforço regressa aos balanços nacionais. E aí o preço volta a depender da dívida, do crescimento e do risco de cada país. Portugal não se financia nas mesmas condições que a Alemanha.


R2 - Menos fundos europeus são o impulso inicial. Depois, dívida, risco, investimento e crescimento podem manter o ciclo em funcionamento por si próprios.

Pode formar-se outro ciclo: menos fundos europeus conduzem a menos investimento público ou a mais financiamento nacional; menos investimento produtivo limita a produtividade e o crescimento; menor crescimento reduz a base fiscal e a capacidade para amortecer crises; menor robustez aumenta o prémio de risco e encarece o financiamento seguinte.

Há ainda o canal da procura. Mais insolvências e menor dinamismo alemão significam menos encomendas nas cadeias industriais europeias, menor confiança e maior pressão sobre fornecedores. As empresas portuguesas recebem o choque por duas vias: têm menos apoio ao investimento e encontram clientes mais cautelosos.


R3 - Uma quebra das encomendas alemãs reduz receitas e capacidade de investir; menor investimento deteriora competitividade e torna ainda mais difícil recuperar encomendas.

É verdade que uma Alemanha fraca poderá levar o BCE a baixar taxas. Esse seria um efeito compensador. Mas juros mais baixos não substituem um apoio, não eliminam o prémio de risco português nem devolvem uma encomenda perdida.

Montenegro faz bem em negociar com firmeza. Porém, "oposição firme" não é uma estratégia económica. Portugal deve preparar-se para um mundo com menos dinheiro europeu: proteger a coesão, concentrar fundos em investimento que aumente produtividade, evitar despesas permanentes suportadas por receitas temporárias e abandonar projectos cuja principal virtude é haver Bruxelas para os pagar.

Durante anos, discutimos como gastar o dinheiro europeu. Talvez esteja a chegar o momento de discutir como convergir quando ele deixar de chegar com a mesma facilidade.


B1 - É o principal travão sob controlo português: melhorar a selecção e execução do investimento aumenta a produtividade e robustez, reduzindo depois o risco e o custo do capital. Os outros são a actuação do BCE e a negociação europeia.

O dinheiro europeu não é grátis, mas o seu desaparecimento terá um preço, e esse preço pode subir antes da Euribor mexer um único ponto base.


Parte I e Parte II.


sábado, setembro 12, 2026

Acerca do custo do dinheiro (parte II)

Parte I.

Na Parte I fiquei pelos Estados Unidos. A bola de neve da dívida pública americana, o crowding out e a possibilidade de uma taxa das obrigações americanas a 10 anos acima dos 5% começar a retirar oxigénio ao gigantesco investimento em inteligência artificial. A questão agora é outra: o que é que isto tem a ver connosco?

Portugal não precisa de começar a gastar descontroladamente, nem de ver a sua dívida entrar numa trajectória explosiva, para ser afectado. O dinheiro circula num sistema. Se o activo que serve de referência ao custo do dinheiro a longo prazo no mundo passa a oferecer 5% praticamente sem risco, todos os outros candidatos ao mesmo capital têm de responder. Estados, empresas, fundos de investimento, projectos imobiliários, fábricas, parques energéticos ou centros de dados passam a competir com essa alternativa.


Nunca me esqueço do exemplo da câmara do Porto. Durante a crise da dívida soberana, a Câmara do Porto podia ter boas contas e uma gestão financeira prudente e, ainda assim, não escapar ao país onde estava localizada. Em Março de 2011, a Fitch baixou o rating do Porto de A+ para A-, na sequência da descida do rating da República. Poucos dias depois, voltou a baixar Porto, Lisboa e Cascais para BBB-, deixando explicitamente claro que não tinha detectado uma deterioração significativa das finanças municipais: o problema era os critérios da agência não permitirem que aqueles municípios tivessem uma classificação superior à do soberano.

É um exemplo que nunca esqueci. Podemos fazer tudo bem e, mesmo assim, sermos contaminados pelo ecossistema financeiro em que estamos inseridos. Anos mais tarde, quando o rating da República melhorou, a Fitch voltou a explicar que a classificação do Porto estava limitada pela classificação do Estado português. 

É isso que procuro representar no ciclo que se segue:

Condições financeiras globais mais restritivas tendem a aumentar o custo do financiamento em Portugal.  Capital mais caro reduz o número de investimentos que passam o teste da rentabilidade. Menos investimento hoje significa menos capacidade, tecnologia e produtividade amanhã. E uma economia que cresce menos fica, por sua vez, mais sensível ao custo da dívida.

Há um segundo ciclo, talvez ainda mais fácil de perceber. Se juros elevados travarem o investimento americano, fizerem cair as bolsas ou obrigarem a uma correcção dos enormes investimentos associados à IA, o efeito não fica nos Estados Unidos. Menor crescimento mundial significa menor procura. E menor procura externa chega a Portugal através das exportações, do turismo, do investimento estrangeiro e das expectativas das empresas.

Durante muitos anos habituámo-nos a um mundo em que dinheiro muito barato permitia financiar projectos que talvez nunca devessem ter saído do PowerPoint. Com capital mais caro, investidores e bancos são obrigados a fazer perguntas incómodas: Quem vai comprar? Quanto vai pagar? Que retorno produzirá este activo? Quanta electricidade existe realmente? O projecto cria valor ou depende apenas de continuar a existir dinheiro barato?

É isso que procuro representar na parte superior esquerda da figura. Condições financeiras globais mais restritivas tendem a aumentar o custo do financiamento em Portugal. Não de forma mecânica — temos o BCE, o euro e o risco próprio da República — mas a direcção da pressão é esta. Capital mais caro reduz o número de investimentos que passam o teste da rentabilidade. Menos investimento hoje significa menos capacidade, tecnologia e produtividade amanhã. E uma economia que cresce menos fica, por sua vez, mais sensível ao custo da dívida.

Talvez isso venha a ser particularmente importante no caso dos centros de dados. Portugal tem assistido ao anúncio de investimentos gigantescos associados à explosão da IA. Se Sharma na Parte I tiver razão, as obrigações americanas a 5% podem funcionar como um gigantesco teste de stress. Alguns projectos continuarão perfeitamente racionais. Outros talvez revelem que a sua viabilidade dependia bastante mais do custo do dinheiro do que das histórias contadas à volta da inteligência artificial.

É um outro ciclo: 

É bom voltar à lição da Câmara do Porto: não conseguimos escolher o preço do dinheiro do mundo em que vivemos. Podemos, isso sim, escolher quão robustos queremos ser quando esse preço mudar.

Ainda vou escrever uma parte III por causa do balão alemão que está a encher e é capaz de resultar em menos fundos europeus.

quarta-feira, setembro 09, 2026

Acerca do custo do dinheiro (parte I)

Uma das coisas que me dá gosto fazer é pegar num texto escrito e tentar traduzi-lo para ciclos/loops de dinâmica de sistemas para tentar perceber as implicações de coisas que não vemos nesta jogada, mas ficam implícitas como consequências naturais prováveis do que está a acontecer agora. Recordo o que fiz com um texto de Edward Hugh em 2009.

Ontem, o FT publicou um artigo que me despertou para desenhar mais uns ciclos, "Why a US debt binge is starting to matter", de Ruchir Sharma.



2 ciclos que se reforçam, são autocatalíticos: 
  • R1 - a bola de neve da dívida; e
  • R2 - a euforia da IA
2 ciclos que balanceiam:
  • B1 - o crowding out; e
  • B2 - o travão do custo do dinheiro
"Runaway debt is starting to matter, triggering a global sell-off in government bonds last month. And the first material impact could be that higher interest rates on US bonds short-circuit the AI boom.
...
In recent decades, the government role shifted to providing constant stimulus, even in good times. Long after 2008, it continued to rapidly run up debts. This decade, the US has consistently run budget deficits of around 6 per cent of GDP - more than twice the average of earlier decades.
For much of this period, households and corporations avoided taking on too much new debt. It was only in the last year that tech hyperscalers began racking it up to finance the massive AI infrastructure build-out as their cash surpluses dwindled. Their debt levels, though, are still manageable for such large companies.
The substantial borrowing excesses in this cycle have so far piled up on government books. And problems begin where excesses run deepest.
A critical warning comes from interest payments on public debt, which in the last five years have more than doubled to over 3 per cent of GDP. 
...
My research now suggests the marker to watch is the yield on 10-year US Treasury bonds, the global benchmark for long-term borrowing costs, which is now at 4.8 per cent. When it decisively breaches 5 per cent, the upper end of its range since the dotcom period, the Al bubble could pop. This breach would signal the start of a new era of tighter money, in which Al mega projects will be harder to fund. When Big Tech must compete for capital with a government paying a yield of more than 5 per cent on bonds - which matches an inflation expectations-adjusted return of over 2.5 per cent many will find themselves crowded out of the debt markets."

Se um investidor consegue obter mais de 5% numa obrigação americana sem risco, muitos projectos empresariais têm de proporcionar retornos bastante superiores para justificar o risco. O financiamento torna-se mais difícil precisamente quando as empresas de IA necessitam de centenas de milhares de milhões para centros de dados, chips, energia e redes.

Vou tentar desenhar um segundo conjunto de ciclos, relacionado com  com o impacte disto em Portugal.




sábado, junho 27, 2026

Uma PME pode crescer e empobrecer ao mesmo tempo



A HBR publicou "The End of Cheap Capital". Alguns sublinhados:

"As the era of cheap capital comes to an end, executives will need to relearn the discipline of rigorous capital allocation.

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Between 2008 and 2020, the after-tax cost of borrowing for many large companies hovered at or below inflation—making debt, in real terms, effectively free.

...

As capital becomes more expensive, executives will need to relearn what earlier generations understood well: rigorous capital allocation matters. So does the tight linkage between strategy, financial performance, and value creation.

...

Years of extraordinarily cheap capital changed managerial behavior. Companies became more tolerant of low-return investments, investors rewarded growth over profitability, and many executives relied heavily on performance measures that ignored the cost of capital altogether. Cheap capital often masked weak underlying economics. But with capital costs returning to more historically normal levels, leaders will need to start managing for value once again,

...

The relationship between economic profit and value points to an important truth: not all growth creates value. Only growth that generates returns above the cost of capital does that. Investments that merely earn the cost of capital are value-neutral, while investments that fail to cover their cost of capital destroy value—no matter how quickly revenues grow."

Durante anos, muitas empresas habituaram-se a viver com dívida como se fosse uma componente normal da paisagem: crédito bancário, linhas de apoio, renegociações, moratórias, tesouraria sempre no limite. Enquanto o capital era barato, a pergunta incómoda podia ser adiada: este investimento cria mesmo valor ou apenas aumenta o movimento?

Agora a pergunta voltou.

Não basta crescer. Não basta facturar mais. Não basta comprar máquinas, abrir mercados, aumentar capacidade ou lançar novos produtos. A questão decisiva é outra: o retorno gerado cobre o custo do capital usado para o obter?

Uma PME pode crescer e empobrecer ao mesmo tempo. Pode aumentar vendas e destruir margem. Pode ganhar encomendas e perder dinheiro no fundo de maneio. Pode investir para responder a clientes maiores e ficar mais vulnerável por causa de prazos, stocks, desperdício, retrabalho ou baixa produtividade.

O novo ciclo exige disciplina antiga: escolher melhor os projectos, medir o retorno, proteger a margem, reduzir o capital empatado, negociar preços com base em valor e não apenas em custo, e ligar a estratégia a números. Para muitas PME portuguesas, a gestão do futuro não passará por “vender mais”. Será aprender a distinguir o crescimento que cria valor do crescimento que apenas aumenta o risco.

quinta-feira, novembro 23, 2023

Canários na mina

Há dias citei:

"A boa notícia é que vamos assistir à morte das empresas zombie dependentes de taxas de juro artificialmente baixas"

Agora, começo a reparar outros canários na mina.

Por exemplo, no FT de ontem em "The looming threat of fiscal crises" Martin Wolf escreve:

"It is unquestionable that public debt has reached high levels by past standards.

...

So, is public debt disaster looming? If so, will there be defaults, inflation, financial repression (forcible attempts to keep debt cheap), or some combination of all three? If none of these is to happen, what must be done?

...

If governments are going to avoid the risks of a debt explosion and are also not going to resort to surprise inflation or financial repression, they will have to tighten what are mostly still ultra-loose fiscal policies. But will they dare to do so in ageing societies, with slowly growing economies and expanding defence burdens?"

Por exemplo, no WSJ de ontem em "Interest Payments Are Walloping Government Budgets":



"The world spent the past decade-plus taking advantage of rock-bottom interest rates to binge on debt. An unprecedented bill is coming due.

Governments are expected to spend a net $2 trillion paying interest on their debt this year as higher interest rates make borrowing more expensive, up more than 10% from 2022, according to an analysis of International Monetary Fund data by research consulting firm Teal Insights and a separate analysis by Fitch Ratings. By 2027, it could top $3 trillion, Teal Insights says. The surge in interest costs leaves governments with difficult choices."

Como li há dias no Twitter, sempre que o PS "foge" do governo... é um sinal de que tempos negros se avizinham.

 

sábado, maio 27, 2023

Palco e bastidores

Muita conversa no palco sobre economia, mas nos bastidores a fuga continua, "Endividamento da economia aumenta para 335% do PIB. Atinge o valor mais elevado de sempre":

"Em março, o endividamento do setor não financeiro (administrações públicas, empresas e particulares) aumentou 99,29 milhões de euros, para o valor recorde de 802,1 mil milhões de euros, o equivalente a 335% do PIB. Há um ano, esse rácio era de 329%; em dezembro era de 332%."

Recuo a 2013:

"A luz que ilumina também produz a sombra que oculta. Esta não é a primeira crise de dívida da História, mas terá uma resolução mais complexa e demorada porque tanto as taxas de crescimento do produto como as taxas de inflação são agora muito baixas, não favorecendo o resgate da dívida pelo crescimento, nem a desvalorização da dívida pela ilusão monetária. É o paradoxo da luz e da sombra: a dívida que foi contraída para estimular o crescimento é o que se traduz agora em aumento de impostos, em aumento de encargos financeiros e em impossibilidade de crescimento. E não se quis ver que o credor ocupa sem precisar de combater." 

ADENDA das 10h30:


 

quinta-feira, fevereiro 04, 2021

Assar sardinhas com fósforos

 

Em cada vez mais sectores de actividade produzir é o mais fácil. Ao longo dos anos fui escrevendo:

Ontem encontrei um delirio de quem não torra dinheiro seu:

"Na reabertura da oficina de Guifões, em janeiro de 2020, o primeiro-ministro e o ministro das Infraestruturas estiveram de acordo no sonho de pôr Portugal no clube dos produtores de comboios no futuro, à imagem do que fez o país com a indústria automóvel nas últimas décadas. [Moi ici: Acham que a indústria automóvel assenta em empresas portuguesas? Pensamento infantil!]
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A ambição de António Costa e de Pedro Nuno Santos pode ganhar um novo impulso nos próximos anos graças à bazuca europeia, desejou esta terça-feira o presidente da CP, Nuno Freitas, durante um debate remoto da conferência da Plataforma Ferroviária Portuguesa. [Moi ici: Portanto, dinheiro da bazuca para torrar num sonho... um sonho que durará o tempo que durar o dinheiro. Assar sardinhas com fósforos]
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"Portugal tem todas as capacidades para fabricar comboios. Há negócio e temos mão-de-obra mais barata do que na Europa Central", salientou o gestor ferroviário. [Moi ici: Com que então fabricar comboios é mão-de-obra barata. Fabricar comboios é produzir... E organização? E eficiência? E competitividade? E ganhar concursos internacionais para fornecer a CP? Acham que o dinheiro da bazuca serve para produzir para uma reserva protegida da concorrência exterior? Acham que reconstruir carruagens com 80 ou 50 anos é o mesmo que fabricar comboios?]
...
O argumento financeiro também pode jogar a favor de uma fábrica de comboios portuguesa. Portugal precisa de comprar mais de 250 comboios nos próximos 20 anos "só para manter a oferta atual". Isto corresponde a mais de 1000 carruagens. [Moi ici: Acham que na União Europeia a compra de comboios pode ser feita impedindo concorrentes profissonais de concorrer?]
...
"A grande dificuldade é integrar este investimento nas atuais regras comunitárias, que são muito limitadas a nível da concorrência, e que limitam o investimento público e privado."" [Moi ici: Pois... Se não fosse tão grave este delírio com a torrefacção de dinheiro a assar sardinhas com fósforos até me ria. Gente que torra dinheiro sem skin-in-the-game é perigosa. Imaginam o que está por trás daquele... "que são muito limitadas a nível da concorrência"]
Lembram-se dos 2,5 milhões de euros despejados na CEiia para desenvolver um ventilador? Tão espertos, nem sabiam que os dispositivos médicos têm de ser certificados!!! Engonharam qualquer coisa, confiaram em qualquer coisa!!! Desviaram para canto!!!


quinta-feira, novembro 05, 2015

Mais tempo e mais dinheiro, não era?

Ora vejamos:

  • Défice mais baixo e abaixo de 3% V
  • Dívida pública a cair V
  • Crescimento do PIB revisto em alta V
  • Excedente das contas externas a aumentar V
  • Desemprego revisto em baixa V
Hmmm 

sábado, junho 06, 2015

Limpinho, limpinho, limpinho

"Um regime económico baseado na dívida é diferente do regime económico estruturado pelo capital. O capital vale mais do que o seu valor actual, porque nele está inscrito o padrão de relações económicas, sociais e políticas que permitiram no passado a sua acumulação e que contém a potencialidade de continuar a gerar mais capital no futuro. A dívida revela que foi gerada por um padrão de relações que é inviável, pelo que só tem interesse como via de entrada para quem, tendo capital, quiser impor a dominação e a subordinação, é uma canga que se põe ao pescoço.
 .
Na estimativa de Francisco Louçã, a dívida de toda a economia portuguesa será de 702 mil milhões de euros, quatro vezes o PIB, a que corresponde uma dívida por habitante de 70 mil euros. É melhor descobrir esta realidade tarde do que nunca, mas já não chega a tempo de evitar as consequências. Quando a esfera da dívida interfere na articulação das esferas económica, social e política, tudo fica distorcido e perturbado e as relações em que se baseiam as decisões já não podem insistir nas ilusões do passado."
Trecho retirado de "A canga e o pescoço"

terça-feira, maio 19, 2015

Coisas que metem medo



Rápido, para que serve o sector da Construção num país?
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Para resolver problemas concretos de pessoas concretas na microeconomia?
Instrumento para ajudar pessoas concretas na microeconomia a atingirem os seus objectivos?
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Ou instrumento para governos maquilharem números macroeconómicos sem sustentabilidade autónoma?
"O secretário-geral do PS, António Costa, considerou hoje que o setor da construção é "vital" para o crescimento económico e defendeu que é necessário um amplo consenso nacional em torno do objetivo da reabilitação urbana.
...
nenhum país pode crescer “deixando colapsar o setor da construção civil, que perdeu desde 2008 37 mil empresas e 260 mil trabalhadores, e apostando exclusivamente nos bens transacionáveis”"
BTW, recordar:

BTW, recordar a evolução demográfica...
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Trechos retirados de "Costa diz que nenhum país cresce se deixar colapsar setor da construção"

segunda-feira, março 09, 2015

Recuar à nossa primeira década do Século XXI

Ler:
"A plausible hypothesis is that the big, steeply-hierarchical bureaucracies that we have inherited from the 20th Century are faced with a fundamental shift in power in the marketplace from seller to buyer, and are unable to cope the continuous innovation needed to prosper in this new context. [Moi ici: No nosso caso foi o efeito do choque chinês que arrasou o nosso sector transaccionável] As a result, they resort to the artificial means of financial engineering and share buybacks, aided by the “government cocaine” of seemingly endless supplies of cheap money.
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The result is a House of Cards economy in which apparent prosperity masks hidden risks. Ultra-low global interest rates drive market participants into riskier assets, while low interest rates encourage using greater leverage. The underlying problem? We don’t know where all the leverage is buried and will only find out after the fact, as we should have learned from the increasingly severe financial crashes over the last few decades.
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The current low level of corporate defaults, supported by free government money and financial engineering, can’t last forever."
É, de certa forma, recuar à primeira década da economia portuguesa do século XXI e rever a orgia despesista na economia não-transaccionável.
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Trechos retirados de "Our House Of Cards Economy"

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Enfim, a treta do costume

"O projecto ferroviário português de alta velocidade cancelado em 2012, um investimento superior a 11,6 mil milhões de euros, não teria "viabilidade financeira", de acordo com a auditoria do Tribunal de Contas (TdC),
...
"Os riscos de procura relevantes recairiam sobre a CP e a REFER, empresas públicas economicamente deficitárias. Em contrapartida, os pagamentos pela disponibilidade da infra-estrutura às concessionárias gozariam de estabilidade, característica típica das rendas", alerta o relatório do TdC."
Estou a ouvir uns tótós argumentarem que o dinheiro dos fundos europeus se perdeu por não terem sido aproveitados nesta obra.
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Enfim, a treta do costume.
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terça-feira, novembro 11, 2014

Rumo à Sildávia? As tentações são muito fortes

A troika foi uma forma de cortar esta espiral viciosa rumo à Sildávia?
"Your country is falling apart. Unemployment and inflation are sky high. World war is on the horizon, and there are riots in the streets. But never fear: An election is coming up! The incumbent will be thrown out for his failed policies. And the challengers will surely have the bright new ideas the country needs to turn itself around.
Or will they? Perhaps amidst all this the confusion, the people will hand the reins of power over to irresponsible demagogues, and conditions will go from bad to worse. This worry is hardly far-fetched. When do the "crazies" start to get a serious political hearing? Only after a country is already going down the drain.
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If we look around the world, there is a lot of circumstantial evidence that bad performance is not self-correcting.
...
A society can get stuck in an "idea trap," where bad ideas lead to bad policy, bad policy leads to bad growth, and bad growth cements bad ideas.
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Once you fall into this trap, all it often takes is common sense to get out. But when people are desperate, common sense gets even less common than usual."
Recomendo a leitura completa de "The Idea Trap"

Recordar a Sildávia:


sábado, novembro 08, 2014

Afinal, abrir e tapar buracos aumenta o PIB

Um tweet do Paulo Peres remeteu-me para este artigo "Comissão Europeia corta projecções para a zona euro" e comecei a relacioná-lo com o tema do crescimento político do PIB.
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No mundo das empresas, um tema muito batido é o do crescimento pelo crescimento, "growth for growth's sake". Ás vezes, percebemos que uma empresa está a crescer, até está a crescer muito mas esse crescimento não é saudável, não é sustentável. Com os países é a mesma coisa, um país pode ter, anos a fio, crescimento do seu PIB e, no entanto, tal crescimento ser "canceroso", ser doentio, ser insustentável.
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Não basta olhar para os números do PIB, é preciso olhar para o que está na sua base. Afinal, abrir e tapar buracos aumenta o PIB

sexta-feira, novembro 07, 2014

"não é a produção que cria o consumo"

O tema neste blogue é recorrente:
  • Mongo e a arte, e a co-criação versus o vómito industrial;
  • o ganhar dinheiro como consequência versus o ganhar dinheiro como o objectivo;
  • a visão outside-in versus a postura inside-out;
  • a visão bottom-up versus a postura top-down.
Qualquer negócio tem de pensar em quem são os seus clientes-alvo e, o que é que tem de fazer para os seduzir, satisfazer e fidelizar.
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Carlos Albuquerque no JdN em "A teoria antes da prática", explica como os keynesianos olham para o desafio das empresas:
"Continuamos a receber os argumentos de origem keynesiana sobre a crise. O problema da falta de consumo. A perversidade do aumento da poupança. A necessidade de estimular a procura. A solução no investimento público. E no tão falado multiplicador que fará milagres com as despesas públicas. Dizem, mesmo que se conteste a sua realidade e sustentabilidade. E mesmo que possa nem se saber bem como financiar tudo isto.
 .
A contestação a esta argumentação é muito relevante. E encontra-se especialmente nas correntes não intervencionistas. Que incentivam a poupança como elemento fundamental do investimento. Consideram que as crises resultam de políticas que favorecem os maus investimentos. Entendem os défices do Estado como formas de transferência intergeracional de riqueza. Contestam a dimensão do Estado por a entenderem como a fonte de criação de assimetrias de distribuição de riqueza. E relevam que não é a produção que cria o consumo, mas sim a satisfação das necessidades dos consumidores que origina a produção."
Acreditar que é a produção que cria o consumo é voltar ao tempo em que a oferta era inferior à procura, é voltar ao tempo do auge da produção em massa...
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ACORDEM!!!
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Estamos em Mongo!!!

terça-feira, agosto 26, 2014

E voltam as erecções psicológicas

Pelos vistos as palavras de Draghi estão a provocar erecções psicológicas em muita gente que não aprendeu nada.
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Os Luís "atirem dinheiro para cima dos problemas" Delgado deste mundo salivam logo perante a possibilidade de voltarem à orgia despesista (afinal a orgia continua e continua, bem feito para os tansos que compram bilhetes do tesouro e outras tretas emitidas pelo estado português).
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E recuo a Maio de 2009. E rejeito a postura do amador a jogar bilhar, que só pensa na próxima jogada, e procuro ver as jogadas seguintes. Trecho que se segue retirado de entrevista de Wim Kok, ex-primeiro-ministro holandês, ao Público e publicada a 17 de Maio de 2009:

"As medidas tomadas até agora de estímulo à economia são as mais correctas?
Sim. Não se trata apenas de colocar dinheiro na economia, mas de pensar como vamos pagar as dívidas assim que os mercados começarem a funcionar. Neste aspecto, vejo algumas diferenças na União Europeia. Penso que a Alemanha e os países escandinavos estão mais inclinados a considerar o futuro e a pensar no que devem fazer quando chegar a recuperação. Não quero especificar, mas alguns países põem muito ênfase no "estímulo, estímulo, estímulo" e não conseguem saber se essas medidas vão funcionar quando a economia crescer. E alguns desses países já têm défices elevados.
Como Portugal.
Sim. Penso que é preciso fazer um equilíbrio entre os pacotes de estímulos e as medidas que é preciso tomar depois da crise. Se isso não acontecer, haverá problemas durante muito tempo. Aumentar a dívida não será um problema apenas para o Governo, os cidadão terão de a pagar de uma forma ou de outra."
Condenados a repetirmos-nos:

quarta-feira, agosto 20, 2014

O toque anti-Midas

"Depois a alquimia do crescimento. Como num prato de 5 estrelas. Junta-se conhecimento económico. Cria-se o centro da inteligência e competitividade. Mostra-se em dossiês de suporte. Juntam-se subsídios em vinha de alho. Apresentações bonitas a cores. Promotores e avaliadores com QI elevado. E temos a alquimia do costume. Défice em vez de crescimento. Sines fantasmagórico do século passado. Autoestradas vazias. Parques desportivos sem atletas. Endividamento das empresas públicas. Projetos de formação profissional vazios. Sempre com resultado negativo. Porque sempre fora dos mercados. E das necessidades dos consumidores. Não geram crescimento. E deixam enormes dívidas para o futuro. Que continuamos a pagar."

Trecho retirado de "A alquimia do crescimento"

quinta-feira, julho 10, 2014

“I Think the Government’s Likely to Collapse Under Its Own Weight.”

"We agree that this is very possible. Government is so large, so out of control, so unaccountable, and so expensive it is indeed likely to collapse one day. Less in a dramatic heap of rubble and more of a slow rusting rot. But perhaps a dramatic heap."
Trecho retirado daqui.


"Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado."
                                                                             Benito Mussolini