sábado, fevereiro 28, 2026

Curiosidade do dia

Julgo que já escrevi isto aqui no blogue, mas vou repetir-me.

Houve um tempo em que eu tinha vergonha de muitos governantes portugueses, com afirmações e políticas capazes de merecer a zombaria de qualquer observador externo isento. Algo na linha do que Otelo dizia: "Queremos acabar com os ricos." 

Afirmações e políticas tanto de governantes de direita quanto de esquerda.

 Antes do 25 de Abril houve um ministro dos Negócios Estrangeiros, julgo que se chamava Rapazote, que dizia que certas políticas de Inglaterra não eram possíveis em Portugal porque nos separavam "400 anos de relvados". Onde isso já vai...

Depois do afundamento da qualidade dos políticos ingleses, depois da desgraça para a Espanha que tem sido nos últimos anos, depois da degradação francesa, é tão triste, mesmo desesperante, ouvir as afirmações do chanceler Merz...

Li algures que nunca fez nada mais na vida além da política; terá acabado os estudos aos 29 anos e, depois, foi para a carreira política. Pelo que ele diz, ele acredita que o problema da Alemanha pode ser resolvido:

Apostando no denominador da equação; mais horas de trabalho a fazer o mesmo. Tão arcaico, tão ao nível dos engenheiros do PRONACI.

Além de errar o alvo, só alimenta os extremos: uns dizem que é o regresso do capitalismo pré-Marx, que via o welfare state como um inimigo; outros dizem que a Alemanha gasta o dinheiro nas modomias para os imigrantes e, por isso, tem falta de dinheiro.


É simplesmente desesperante ver mais um país europeu entregue a este nível de políticos.





Uma especulação de anónimo da província



Quinta-feira passada, o FT publicou um artigo intitulado "Thirst for sales - Diageo inches towards price repositioning".

O artigo descreve a mudança estratégica da Diageo sob o novo CEO, Sir Dave Lewis. Após anos de aposta na "premiumização" - vender menos volume, mas com marcas cada vez mais caras - a empresa enfrenta queda nas vendas, sobretudo nos EUA e na China, e decidiu ajustar preços para recuperar consumidores.
"Diageo's new chief executive Sir Dave Lewis has cut the group's dividend and signalled he will lower prices to win back consumers, marking a departure from the drinks maker's longstanding focus on its high-end brands."
A empresa cortou dividendos para ganhar flexibilidade financeira e investir. O desempenho recente foi fraco, com queda nas vendas orgânicas e pressão sobre o preço das acções. A estratégia passa agora por "price repositioning", reforço do serviço ao cliente e correção de falhas operacionais, como rupturas de stock (nomeadamente Guinness).

A mudança reflecte o impacto da redução do rendimento disponível dos consumidores e uma possível limitação estrutural da estratégia puramente premium.
"Lewis said that while weight-loss drugs and changing attitudes towards spirits were affecting sales, the biggest challenge was the squeeze on disposable incomes, particularly in the US."

Não é o meu tema aqui, mas não posso deixar de sublinhar: o novo CEO da Diageo é um antigo CEO da Tesco. O que é que eu já escrevi sobre isto aqui? Se se tem um ADN de cost-cutting e se vai para uma empresa que aposta no premium... vai dar barraca.

O meu tema aqui é a justificação para a quebra nas vendas "the biggest challenge was the squeeze on disposable incomes". Confesso que me veio outra justificação quando pensei em "premium + conglomerado"; pensei: se calhar a "premiumização" da última década foi muitas vezes construída com storytelling, packaging sofisticado, edições limitadas e aquisições de marcas artesanais.

Mas muitos consumidores sabem que a marca artesanal foi comprada por um gigante,  que a narrativa é marketing estruturado, que o produto faz parte de uma máquina financeira global. Quando o consumidor começa a sentir que o "craft" é coreografado, algo muda.

Premium vive de identidade, ritual, história e cultura. Se a história parece fabricada, o premium enfraquece.

O premium verdadeiro nasce em empresas com obsessão pelo produto, relações amorosas com o produto, cultura interna forte, ligação real com as comunidades e coerência de longo prazo. O "premium fabricado" nasce de aquisições, de rebranding, de pricing power explorado e de engenharia financeira. O consumidor moderno é sofisticado; percebe a diferença.

Termino com "Authenticity: What Consumers Really Want". Na economia actual, as pessoas não compram apenas produtos ou serviços — compram o que percebem como autêntico. 

Segundo Pine e Gilmore, vivemos rodeados de:

  • marketing encenado,
  • marcas hiper-construídas,
  • experiências coreografadas; e
  • narrativas fabricadas.

Quanto mais artificial se torna o mundo, mais as pessoas procuram o que lhes parece real.

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Curiosidade do dia

A ISO/DIS 9001:2025 introduziu uma pequena nuance na cláusula 4.2, relativa às partes interessadas. 

A versão de 2015 diz:
"...  a organização deve determinar: 
a) as partes interessadas que são relevantes para o sistema de gestão da qualidade; 
b) os requisitos destas partes interessadas que são relevantes para o sistema de gestão da qualidade."
A versão de 2025 (é apenas um draft) diz:
"The organization shall determine: 
a) the interested parties that are relevant to the quality management system; 
b) the relevant requirements of these interested parties; 
c) which of these requirements will be addressed through the quality management system."
Parece pouco, mas é muito; é a base da estratégia. Escolher aquilo a que se dá atenção.

Como costumo dizer: os clientes têm a última palavra, são eles que decidem trocar o seu dinheiro pela proposta do fornecedor, mas o fornecedor tem a primeira palavra. Que tipo de clientes posso e quero servir? Os clientes não são todos iguais, alguns valorizam certos aspectos em detrimento de outros, mas outros clientes têm uma opinião diferente sobre os mesmos aspectos.

Perguntei ao ChatGPT qual a evolução da saúde económico-financeira da Ryanair. E a resposta foi:
"A Ryanair atravessou quatro fases claras: sofreu perdas significativas durante a pandemia, recuperou fortemente entre 2022 e 2023 com crescimento expressivo de receitas e passageiros, viu o lucro pressionado em 2024-25 devido a descida de tarifas e aumento de custos, e voltou a reforçar claramente a rentabilidade em 2025-26, com forte subida do lucro e melhoria das margens. Mantém uma estrutura financeira sólida, boa liquidez e rating de investimento, o que lhe dá resiliência num sector volátil. Em síntese: continua financeiramente robusta, competitiva no controlo de custos e bem posicionada para crescer, apesar das oscilações normais do mercado aéreo."

Entretanto, hoje o The Times publica "Ryanair named Britain's worst short-haul airline":
"Ryanair has been voted the worst shorthaul airline in the UK as passengers complained about its poor customer service, difficult booking process and uncomfortable seats.
It is the second year in a row in last place for the airline, Europe's largest, according to travellers taking part in an annual Which? survey.
...
Which? consumer group polled 5,518 passengers who flew economy from the UK during the 12 months to November, asking them to score the booking process, boarding, customer service, comfort, food, cleanliness and value for money. It also looked at punctuality.
...
Ryanair scored poorly in most categories. Passengers said its seats were
"awful" and cited "dirty" aircraft. It also had poor customer service and communication, they said. However, it was on time for 73 per cent of flights."
Fazendo a ponte para as PME. Muitas PME, quase todas, têm recursos escassos mas querem crescer. Por isso, aceitam servir todos os tipos de clientes... depois, perdem foco, deixam de ser conhecidas por algo em particular, são vulgares. 

Recordo que faz todo o sentido ter clientes, ou potenciais clientes que nos odeiam. Uma lição com Justin Bieber.

P.S.: Claro, a senhora gorda é que dita quando termina a opera.



Uma aula de estratégia


O FT de ontem publicou "Lens maker Rayner finds the vision to achieve a remarkable revival", um artigo sobre o renascimento da Rayner, uma fabricante britânica de lentes intraoculares para cirurgia de cataratas. Fundada no início do século XX e ligada ao pioneiro Sir Harold Ridley (primeiro implante de lente artificial em 1949), a empresa entrou em declínio, com lojas físicas pouco rentáveis e perda de relevância num mercado dominado por gigantes como a Alcon e a Johnson & Johnson.

A viragem ocorreu quando a gestão decidiu vender os activos menos estratégicos (as lojas) e concentrar-se exclusivamente na produção de lentes, com apoio de fundos de private equity. A empresa investiu em inovação, foco industrial e aquisições estratégicas, o que aumentou significativamente o seu valor. Apesar de continuar pequena face aos líderes globais, está a crescer rapidamente e a reforçar a sua posição competitiva.

Ao longo dos anos tenho escrito aqui no blogue, muitas vezes, sobre os que gastam tanta energia a defender o passado que não têm recursos para abraçar o futuro. Por exemplo, em "Por que é que calçado e têxtil têm tido desempenhos tão diferentes?" escrevi em Março de 2013:
"O têxtil tem gasto demasiado tempo e outros recursos a defender o passado, a pedir proteccionismo... não lhe sobra tempo para abraçar o futuro."
Pois bem, o artigo inclui uma frase que é praticamente uma aula de estratégia:
"to be decisive when managing a company that has both good and bad assets. Much of Rayner's heritage lay with its stores - the company was founded in 1910 as a retail optician - but they were steadily losing their value. Selling the properties helped Clover [Moi ici: O CEO] to reinvest in another division with far greater potential."
E faço a ponte para as PME, muitas misturam:
  • negócios históricos pouco rentáveis;
  • activos emocionais;
  • divisões com futuro limitado; e
  • áreas com verdadeiro potencial.
A incapacidade de se separar uns dos outros trava o crescimento. A Rayner cresceu quando deixou de proteger o passado.

A empresa começou como retalhista, mas o verdadeiro potencial estava na tecnologia médica. Assim, ao vender as lojas, libertou capital e atenção (recordo "Qual é o recurso mais escasso?"). 

Para as PME, a pergunta estratégica é simples: Onde está realmente o activo de maior potencial?


quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Curiosidade do dia

Às vezes tenho a sensação de que estou a ver o filme ao contrário.

O Chega apresenta-se como liberal nas palavras e estatista nas propostas. Quem proclama menos Estado enquanto defende empresas públicas estratégicas. Quem fala em baixar impostos e portagens, mas ao mesmo tempo promete novas despesas, como se o orçamento fosse elástico. Quem invoque a disciplina das contas e, no parágrafo seguinte, descubra uma nova utilização "criativa" de fundos que supostamente têm destino próprio.

E depois, há o momento alto: citar um antigo governante como referência, Passos, ao mesmo tempo em que se combate precisamente aquilo que esse governante defende hoje, mais rapidez nas reformas estruturais.

Talvez não seja incoerência. Talvez seja apenas política em modo "colagem selectiva": aproveita-se a frase, ignora-se o contexto, recicla-se a imagem.

Ou talvez o problema seja meu. Talvez eu ainda esteja à procura de coerência num guião escrito para o curto prazo, com aplauso fácil e imediato, e não de consistência de longo prazo.

Afinal, pode ser que o filme não tenha sido trocado. Pode ser que o argumento seja mesmo esse.

P.S.: Comecei a ler um livro que talvez seja útil para a Iniciativa Liberal

Outro discurso

Ouvi recentemente a conversa de David Senra com Jason Fried e fiquei com uma sensação rara: alguém a falar de negócios sem repetir o script habitual.

Num tempo em que o discurso dominante gira à volta de crescimento rápido, capital de risco, equipas enormes e "escala a qualquer custo", Jason Fried fala de outra coisa. Fala de empresas pequenas, focadas, lucrativas. Fala de controlo de custos. Fala de independência. Fala de fazer menos - mas melhor.

Para muitos empresários de PME, isto pode ser libertador.

Nem todas as empresas precisam de ser unicórnios. Nem todas precisam de investidores. Nem todas precisam de crescer 30% ao ano para serem bem-sucedidas. Há outras vias. Há modelos assentes em simplicidade, disciplina, produto sólido e decisões tomadas com calma.

Num mundo onde os media amplificam sempre os mesmos exemplos, as grandes tecnológicas, as rondas milionárias, as histórias de crescimento explosivo, ouvir uma voz diferente ajuda a recentrar. Ajuda a perceber que há espaço para construir negócios sustentáveis, rentáveis e alinhados com a vida que queremos ter.

Para muitos empresários portugueses, especialmente em PME, talvez a maior utilidade não esteja em copiar o modelo das gigantes. Está em perceber que não são obrigados a fazê-lo. Recordo "Cuidado com o título".



quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Curiosidade do dia

No Japão, há quem pague cerca de 2.000 ienes por 30 minutos dentro de um caixão. Não é humor negro. É uma experiência desenhada para "acalmar os nervos", ouvir música, meditar e, paradoxalmente, sair de lá com mais vontade de viver.

O artigo de hoje do The Times, "Stressed? Now you can rest in peace, descreve como a empresa Grave Tokyo transforma o que, noutras culturas, seria tabu absoluto numa experiência estética e quase terapêutica. Caixões decorados com flores, manga, caveiras estilizadas. Sessões em centros comerciais. Uma morte ensaiada para aliviar a ansiedade da vida moderna.

O choque cultural é inevitável. No Ocidente, escondemos a morte. No Japão, ela pode ser enquadrada, desenhada e consumida com sofisticação visual e controlo emocional. Não é apenas excentricidade. É design aplicado ao medo.

E talvez haja aqui algo mais profundo. Tal como no filme recente "Rental Family" (que, por acaso, começa com um morto dentro de um caixão durante os elogios fúnebres; depois, percebemos que o morto afinal está vivo e tudo não passa de um serviço), onde se alugam relações humanas para preencher vazios emocionais, também aqui se “aluga” a própria morte por meia hora. Não para morrer, mas para sentir.

Isto não é apenas uma curiosidade cultural. É mais um sinal da economia das experiências a avançar para territórios cada vez mais íntimos. Quando tudo é abundante, até o confronto simbólico com o fim se torna um serviço premium.

O Japão continua a lembrar-nos: onde vemos desconforto, alguém pode ver valor.




Anos 80 e falta de pessoal?

Recentemente tive a oportunidade de consultar a tese de doutoramento de J.-C. Spender, publicada como monografia intitulada "Industry Recipes - An Enquiry into the Nature and Sources of Managerial Judgement". E fui reler o capítulo "The Iron Founders" que esteve na origem deste postal de 2015, "Apesar das boas intenções".

E deparei-me com um tema interessante. A monografia foi publicada em 1989; o trabalho de campo deve ter sido realizado na segunda metade da década de 80. Como relatei no postal de 2015, ele entrevistou pessoas de 19 empresas de fundição na Inglaterra; a partir daí, construiu 2 clusters, A e B.
"No cluster A estão as fundições que encontraram uma via para o futuro apostando em produtos especializados, em mais tecnologia na produção e no desenvolvimento de relações especiais com clientes com exigências tecnológicas elevadas e boas perspectivas de futuro.

O cluster A dedica-se a nichos e não está preocupado com a evolução global do mercado.

O cluster B está sobretudo preocupado com a evolução global do mercado, preocupado com a falta de pessoal interessado em trabalhar no sector e com a progressiva mecanização dos processos tradicionais."

Sublinhei algo que perpassa muito mais nitidamente ao ler o capítulo da monografia. 

Interessante: nos anos 80, ninguém falava de demografia ou de envelhecimento da população; ninguém fala de falta de mão de obra e, aqui, neste exemplo, já encontramos o tema no cluster B. Só vem reforçar a ideia de que o tema é mais sobre a importação de paletes de mão de obra barata.

Outro tema interessante tem a ver com a assinatura da minha empresa: "Promotores da concorrência imperfeita"

"The foundry's technology is flexible enough, in a purely technical sense, for it to be applied to almost any part of the grey iron market, as the story of the doorknobs (Case 2) illustrates. The most efficient foundries should be able to capture more business, exploit economies of scale and expand using a very competitive strategy. Yet it is clear that these managers are working hard to avoid this kind of competition. Indeed they know that the customers who send work out for competitive bid, and then choose suppliers on price alone, are to be avoided. But the founders compete instead for the right to serve their customers in the way that panders to the customer's belief that his work is special, that he differs from his other engineering competitors."

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Curiosidade do dia


O The Times de hoje publica "Bloated human resources sector 'costs firms billions'".

Começo por salientar:
""[Excessive regulation] makes businesses more risk averse and focused on ticking bureaucratic boxes rather than delivering for their customers."

E depois queixamo-nos do fraco crescimento da produtividade... 

"Policy Exchange said the HR industry in the UK was, proportionally, 60 percent larger than in the United States. It said that "misallocation of labour" was costing the economy £l0 billion a year more than if the UK's HR industry was proportionally similar to the US.

Between 2011 and 2023 there was an 83 per cent rise in the number of people in HR in the UK, outpacing the 13.5 per cent rise in the broader workforce."

O artigo aponta para algo maior do que um simples aumento de custos. Mostra uma tendência recente dos ingleses (e da UE) de tentar resolver todos os problemas com mais regras, mais departamentos e mais processos.

Quando surge uma tensão social ou um risco reputacional, a resposta é criar políticas, relatórios, códigos de conduta. Tudo isto parece lógico. E é. O problema é que a realidade não funciona apenas com lógica e regulamentos. Pessoas, cultura, valores e identidade não se organizam como uma folha de Excel.

Se a resposta a cada problema é acrescentar mais estrutura, o sistema começa a ficar pesado. Gasta-se mais energia a cumprir procedimentos do que a cumprir a missão.

A Igreja Anglicana é um exemplo claro. Ao tentar gerir conflitos profundos por meio de comissões e reformas administrativas, acabou por tornar as divisões ainda mais visíveis. Havia questões de fé e identidade que não se resolviam com processos.

A racionalidade é importante. Mas quando tudo é tratado como um problema técnico, acumulam-se desajustes. E, aos poucos, a organização pode perder força, clareza e vitalidade.

 

 

A Inglaterra e a produtividade

Depois de Portugal:

Depois da Alemanha:

Agora é a vez da Inglaterra. O FT publicou ontem um artigo intitulado "Low-productivity companies make up record slice of economy".

O artigo aborda um problema profundo na economia britânica. Hoje existem muito mais empresas com baixa produtividade do que há trinta anos, e elas representam uma parte maior da economia. É verdade que o número total de empresas aumentou bastante. Mas o crescimento foi mais forte entre as empresas menos eficientes do que entre as mais produtivas.

O resultado é simples: a produtividade média do país vem crescendo pouco, sobretudo desde a crise financeira de 2008-09. O relatório sugere que é preciso enfrentar esta "cauda longa" de empresas pouco produtivas e promover mais renovação no tecido empresarial (algo que faria o ministro Castro Almeida ter uma síncope), ou seja, deixar que as empresas menos eficientes deem lugar a outras mais dinâmicas. Actualmente, o crescimento depende demasiado de um pequeno grupo de empresas de alto desempenho, enquanto muitas outras puxam a média para baixo.

"In 2023, some 873,000 companies registered productivity below the 25th percentile, a measure of the least efficient, almost double the 444,500 recorded in 1997, according to research by the Boston Consulting Group.

The increase was above the 70 per cent rise to 2.4mn in the total number of businesses over the 26 years.

In the same period, the number of businesses with productivity above the 75th percentile rose just 62 per cent to 502,500, with mean output per worker for the bottom 6 per cent of firms below 1997 levels."

Percebem a enormidade daquela justificação do "hoarding de trabalhadores" para justificar a baixa da produtividade em Portugal?





segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Curiosidade do dia

Um exemplo ao vivo e a cores do que é a teoria dos Flying Geese:

Perguntei ao ChatGPT qual era o salário mínimo na Lituânia e em Portugal em 2005 e em 2025 (numa base de 12 meses) e obtive:


Ou seja, entre 2005 e 2025, o salário mínimo na Lituânia cresceu 616% enquanto em Portugal cresceu 132%. No entanto, ainda mais interessante é que em 2025 o salário mínimo lituano representa cerca de 47% do salário médio bruto do país, já o salário mínimo português representa cerca de 60% do salário médio bruto do país.

Uma das razões para o crescimento mais rápido dos salários lituanos foi... a emigração.

Quando a economia cresce, mas, apesar disso, há emigração (sobretudo de jovens) e não há uma política de portas abertas para receber imigrantes, o poder negocial dos trabalhadores aumenta. O salário mínimo torna-se um instrumento de retenção. Portugal compensa o envelhecimento com imigração crescente, o que reduz essa pressão.

E volto à alegria dos jornais com o roubo de um fabricante de meias à Lituânia. Percebem como isto é deprimente?

Entretanto, hoje no The Times, "Lithuania defeats baby blues despite a plunging birthrate". O artigo descreve o paradoxo demográfico da Lituânia: apesar de enfrentar uma das mais baixas taxas de natalidade da União Europeia e uma forte perda populacional desde o fim da Guerra Fria, o país revela sinais inesperados de recuperação social e económica. Depois de décadas marcadas por emigração em massa, sobretudo após a adesão à UE em 2004, a saída de cidadãos abrandou e o fluxo de regresso tem aumentado. A economia ganhou dinamismo, impulsionada por sectores como a tecnologia e a indústria, e o país regista níveis elevados de satisfação e optimismo entre a população jovem.
"Despite all this, an EU poll published a fortnight ago put the Lithuanians near the top of every table measuring optimism about the future of the world, their country and their own families. According to another survey, a record 88 per cent of the population say they are broadly content with their lot. Meanwhile, in 2024 the country's under-30s were found to have the highest life satisfaction levels on the planet."

Já agora, o que é a teoria dos Flying Geese?

A teoria dos Flying Geese é uma forma simples de explicar como os países se desenvolvem ao longo do tempo. A imagem é a de um grupo de gansos a voar em "V": há um na frente e os outros seguem atrás, em fila. Na economia acontece algo semelhante. Um país começa por produzir bens mais simples e intensivos em mão-de-obra. À medida que ganha experiência, tecnologia e riqueza, os salários sobem. Quando isso acontece, deixa de ser competitivo nesses produtos básicos e passa para actividades mais sofisticadas, com maior valor acrescentado. As actividades mais simples “voam” então para países que estão numa fase anterior de desenvolvimento, onde os custos ainda são mais baixos.

A lógica económica por trás desta teoria é directa: quando os salários aumentam, as empresas precisam de produzir bens e serviços mais complexos para justificar esses custos. Se não o fizerem, perdem competitividade. Por isso, o desenvolvimento é visto como uma sequência de etapas, em que cada país sobe gradualmente na escala de valor enquanto outros ocupam o espaço deixado para trás. Esta ideia é importante porque mostra que o crescimento sustentável depende da capacidade de evoluir. Não basta crescer; é preciso transformar a estrutura económica. Caso contrário, um país pode ficar preso num ponto intermédio, com salários mais altos, mas sem a sofisticação produtiva necessária para os sustentar.


O problema é que alguns países estão mais preocupados com a redistribuição do que com a criação de riqueza. 

A competição deixou de ser apenas tecnológica e passou a ser sistémica

Mão amiga enviou-me na passada Sexta-feira um artigo que se alinha perfeitamente com o que temos publicado aqui recentemente acerca da situação da Alemanha por um lado, e acerca da necessidade de subir na escala de valor, "Mechanical engineers expect loss of technological leadership".

É impressionante ler artigos como este e recordar "Hidden Champions", mas mais incrível é ser sugado pela metáfora da Rainha Vermelha no País das Maravilhas… tão ilustrativa.

No livro “Through the Looking-Glass”, há uma cena simples, mas poderosa. Alice corre de mão dada com a Rainha Vermelha. Correm com toda a força. O vento bate-lhes na cara, o cenário parece mover-se, tudo indica que avançaram muito. Mas quando param… estão exactamente no mesmo sítio.

Confusa, Alice comenta isso. E a Rainha responde algo assim: aqui é preciso correr o máximo que conseguires só para ficares onde estás. Se quiseres ir para outro lugar, tens de correr pelo menos duas vezes mais depressa.

A imagem é quase cómica, mas profundamente moderna.
Nos mercados actuais acontece o mesmo. As empresas investem, inovam, optimizam, melhoram processos, reduzem custos. Trabalham mais, mais depressa, com mais tecnologia. E ainda assim, muitas vezes, apenas conseguem manter a posição. Porque os concorrentes também estão a correr. Porque surgem novos actores. Porque a tecnologia muda as regras. Porque o valor desloca-se.

Basta não apostar a sério na corrida; basta confiar demasiado na tradição para se ficar para trás.
"More than half of German machine and plant manufacturers expect to lose their technological leadership abroad.
...
53 percent of German machine and plant manufacturers assume that the technology leadership will be taken over by foreign countries in the future or has already been taken over, mainly by competitors from China and the USA. 
...
According to their own assessment, seven out of ten companies would be severely or very strongly affected (70 percent). 
...
Around two-thirds intensify or plan cooperation with universities and research institutions (66 percent).
The same number wants to focus more on niches in the future, another 14 percent are already strongly focused on niches today. 
...
The fact that a majority of mechanical engineers expect the loss of technological leadership would have been considered unthinkable a few years ago. 
...
Almost all machine and plant manufacturers surveyed believe that it is likely that Chinese companies will push more strongly into the European market in the coming years (93 percent)."

Por um lado estão a perder a venda de máquinas novas, e a prestação de serviços pós-venda para terceiros digitais:

"29 percent of machine and plant manufacturers also report significant or limited financial disadvantages because maintenance and support services are increasingly being taken over by third-party providers - for example through the use of artificial intelligence, automation or digital platforms."

Isto faz-me recuar a 1988 e ao meu primeiro contacto com uma empresa alemã (muito bons tecnicamente, mas avessos à mínima customização), e agora perceber que a competição deixou de ser tecnológica e passou a ser sistémica. Não é apenas China vs Alemanha.

É (Hardware + Software + Plataforma + Modelo de serviço) contra Excelência técnica isolada.

Quem controla o ecossistema (dados, software, manutenção, financiamento, modelo comercial) controla a rentabilidade futura.






domingo, fevereiro 22, 2026

Curiosidade do dia

iPod.

Durante o meu jogging gosto de ouvir podcasts. Há muito que deixei de os ouvir no Youtube, saturado de publicidade; ainda os vou ouvindo no Spotify, mas confesso que já pensei em voltar aos velhos leitores de mp3.

Quando pesquisava leitores de mp3, fui surpreendido por algo fora do meu radar: o regresso do iPod.

Mais de três anos após a Apple o ter descontinuado, as pesquisas por "iPod" voltaram a subir e as vendas de modelos recondicionados crescem a dois dígitos ao ano.

Há iPods "vintage" a esgotar a centenas de dólares e comunidades inteiras dedicadas a restaurar, modificar e aumentar a capacidade destes pequenos leitores de mp3.

Porquê este regresso? 

Tal como o vinil, o iPod representa uma reacção ao excesso. Excesso de notificações, de algoritmos, de escolha infinita. Num mundo em que o streaming nos oferece "toda a música do mundo", muitos começam a preferir "a sua própria biblioteca de música".

Um dispositivo sem Wi-Fi, sem anúncios, sem feed infinito, que faz uma coisa — e faz-la bem: tocar música.

Há aqui um padrão interessante. O vinil obriga-nos a ouvir um álbum do princípio ao fim. O iPod obriga-nos a escolher, a sincronizar, a decidir o que merece ocupar aqueles gigabytes finitos. Em ambos os casos, há fricção. E essa fricção devolve valor à experiência.

Num tempo de subscrições em que quase nada é verdadeiramente "nosso", possuir os ficheiros, organizar a própria biblioteca e carregar um objecto dedicado à música torna-se quase um acto de rebeldia.

Não é apenas nostalgia. É uma procura de controlo, intenção e foco.




Demografia e produtividade

O WSJ da passada Sexta-feira publicou "Can Germany Reclaim Its Destiny Despite Its Demography?"

Se lermos este artigo com calma, percebemos que ele não está verdadeiramente a falar de demografia. Está a falar de produtividade. A demografia é o pano de fundo; a produtividade é o enredo principal.

Há muito que escrevo e defendo ideias muito próximas das deste artigo, e fora do mainstream. Recordo que o mainstream defende que a incorporação de mão de obra barata em empregos de baixa produtividade é a solução.

O texto começa por criar a sensação de urgência: 
"A rapidly aging population puts the country - and therefore Europe - on a path toward a growth cliff."
A imagem é forte: um penhasco no crescimento, um abismo. Mas, logo a seguir, o argumento desloca-se para o que realmente importa. Se a população em idade activa diminui, a equação é clara: 
"If the working-age share of the population is declining, the productivity of each worker must increase at a faster pace to generate the same level of per capita output."
 Ou seja, menos trabalhadores não significam necessariamente menos riqueza. Significam apenas que cada trabalhador terá de produzir mais valor. O próprio artigo quantifica essa exigência: para manter o ritmo histórico de crescimento per capita, "labor productivity will have to increase by 1.8% a year in coming decades." A demografia não é destino; é uma pressão que obriga a uma escolha estratégica.

O problema é que essa escolha não está a ser feita. O texto é bastante directo: 
"productivity growth has all but collapsed since the pandemic." 
E vai mais longe ao identificar a raiz da fragilidade: 
"The problem stems from a failure to invest in new technologies, especially in service fields." 
A crise demográfica não cria o problema, apenas o expõe. O verdadeiro risco está na "unwillingness on the part of hundreds of thousands of businesses of all sizes to boost their productivity," que transforma uma transição demográfica num choque económico. Se as empresas não investem, não digitalizam, não reorganizam processos e não aumentam o valor gerado por trabalhador, então qualquer envelhecimento populacional torna-se uma ameaça amplificada.

É por isso que o artigo praticamente ignora soluções de natalidade e aponta noutra direcção: 
"The solution is easy to state and hard to implement: unlock productivity growth." 
E isso exige reformas estruturais: 
"Tax reform to encourage entrepreneurship, entitlement reforms to reward more work, regulatory reforms to reduce business costs and expand markets." 
A mensagem implícita é clara: não é uma questão de ter mais bebés, mas de melhorar incentivos, aumentar investimento e remover travões institucionais. O próprio texto desmonta a frase feita "demographics is destiny", ao afirmar que "Demographics is destiny isn't quite right." O destino depende das escolhas.

No fundo, o artigo sugere algo simples, mas exigente. A Alemanha não está condenada pelo envelhecimento. Está desafiada a aumentar a produtividade. Se o fizer, a demografia será uma variável administrável. Se não o fizer, o "growth cliff" deixará de ser uma metáfora e passará a ser uma realidade económica.

Já agora, é interessante que Martin Wolf, no FT do dia 18, tenha escrito, na sua coluna, algo em linha com este artigo. Lidos em conjunto, os dois textos dizem algo interessante: os países não ficam pobres por terem poucos bebés, nem ricos por terem muitos. Ficam estagnados quando deixam de aumentar o valor gerado por trabalhador. A demografia expõe. A produtividade decide.

sábado, fevereiro 21, 2026

Curiosidade do dia

Encontrei este texto no Twitter: "Insistir em políticas erradas é estupidez!"

É esquisito, mesmo!

O estado quer que as empresas invistam mais em ciência e inovação. Por isso, atribui benefícios fiscais ao investimento em I&D.

Até aqui, parece uma boa ideia.

Agora vem a parte mais weird, se é que percebi o texto. Segundo um relatório da OCDE, Portugal é o país que mais gasta em benefícios fiscais para incentivar I&D (em percentagem do PIB) e é um dos países onde as empresas menos investem realmente em I&D (e a falta que ela faz para a subida na escala de valor e aumento da produtividade).

Ou seja, Portugal está em primeiro lugar na ajuda… mas muito atrás no resultado.

O texto diz que as empresas portuguesas investem cerca de 1,06% do PIB em I&D (ou seja, um pouco mais de metade da média da OCDE), mas o Estado português gasta o dobro da média da OCDE em incentivos fiscais.

E compara com Israel. Portugal gasta cinco vezes mais em apoios, mas as empresas israelitas investem cinco vezes mais do que as portuguesas.

Se um sistema custa muito dinheiro público e, mesmo assim, não produz resultados, algo não está bem concebido.

O texto sugere que:

  • Ou os incentivos não estão a funcionar como deveriam,

  • Ou estão a ser mal utilizados,

  • Ou o problema não é falta de incentivos, mas algo mais profundo (como burocracia, falta de estratégia, cultura empresarial, dimensão das empresas, etc.).

Não sei porquê isto faz-me lembrar uma frase que vi há tempos num balneário do Estádio do Dragão:

"Se treinas mal e te preparaste mal, estás preparado para falhar." 

O autor do texto diz que “a racionalidade está ausente” desta estória, parece que estamos a gastar muito dinheiro sem pensar bem se está a produzir o efeito desejado.

Portugal está a dar muitos “descontos nos impostos” para incentivar a inovação, mas as empresas continuam a inovar pouco. É como dar prémios a quem promete treinar… mas depois ninguém melhora a performance.

A Alemanha e a produtividade (parte I)

No passado dia 9 de Fevereiro o FT publicou o artigo "The truth about the 'blue-collar boom' in a tough labour market" de onde retirei os gráficos abaixo:

Se olharmos com atenção para os dois gráficos, perceberemos melhor porque é que a produtividade na Alemanha está a enfraquecer.

O primeiro gráfico mostra uma tendência de longo prazo: nas grandes economias ocidentais, o peso dos empregos na indústria e na construção vem a cair há décadas. A Alemanha continua a ser mais industrial do que o Reino Unido ou os Estados Unidos, mas também ela perdeu muito peso desde os anos 80. Nessa altura, a indústria e a construção representavam mais de 40% do emprego. Hoje estão perto de metade disso.

Isto é relevante porque, em média, a indústria é mais produtiva do que muitos sectores de serviços. Um trabalhador industrial, com máquinas, tecnologia e escala, tende a gerar mais valor por hora do que um trabalhador em actividades menos intensivas em capital e inovação. Quando a economia se desloca estruturalmente para sectores menos produtivos, a produtividade média começa inevitavelmente a abrandar.

O segundo gráfico mostra o que aconteceu desde 2019 e, aqui, a mudança é ainda mais clara. A Alemanha perdeu cerca de meio milhão de empregos industriais. No entanto, o emprego total aumentou. Ou seja, a economia não está a destruir trabalho no conjunto. Está a substituir o trabalho industrial por o de outros sectores.

E onde é que o emprego cresceu? Sobretudo nos serviços públicos, como educação, saúde, comércio, transportes e hotelaria. São sectores importantes para a sociedade, mas, em média, geram menos valor por trabalhador do que a indústria tradicional alemã exportadora.

É aqui que está o ponto central. A produtividade mede, de forma simples, o valor que cada trabalhador produz. Se se perdem empregos em sectores altamente produtivos e se ganham empregos em sectores menos produtivos, a média cai. Mesmo que o PIB cresça um pouco. Mesmo que o desemprego desça. A estrutura da economia muda — e isso tem consequências.

A Alemanha continua a trabalhar. Continua a empregar pessoas. Mas está a mudar o tipo de emprego que cria. E se essa transição não for acompanhada por novos sectores de elevado valor acrescentado — tecnologia avançada, inovação industrial, novos produtos globais — então a produtividade não cresce. Fica estagnada. Ou recua.

No fundo, não é apenas uma questão de quantidade de emprego. É uma questão de qualidade económica do emprego. E é isso que estes gráficos mostram de forma muito clara.


O incrível é que para dar a volta a isto os alemães querem seguir o exemplo português dos campeões nacionais. 

Continua. 

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Curiosidade do dia


A propósito de "Portugueses estão a pagar mais 52,2% de impostos do que em 2016" há qualquer coisa de comovente no espírito nacional.

Todos os sectores pedem apoios. Todas as empresas exigem "medidas excepcionais".

Todos os empresários defendem o mercado; até ao dia em que precisam de socializar os prejuízos. E depois há os socialistas de direita e os socialistas de esquerda. Uns inventam subsídios estratégicos, outros cortam portagens. No fim, todos contribuem para a mesma obra-prima: mais despesa, mais redistribuição, mais engenharia fiscal.

E eis que surge a surpresa colectiva, em 2025: 
"cada cidadão paga, em média, 6.728,73 euros em impostos"

Mas talvez seja apenas coincidência. Também nos diz que estamos a pagar "mais 52,2% do que em 2016". Provavelmente culpa do Passos.

Persistência é uma virtude. 

No meio disto tudo, há um consenso admirável: ninguém quer pagar mais impostos. Só que todos querem que o Estado pague mais coisas.

Queremos energia subsidiada, indústria protegida, empresas resgatadas, salários defendidos, serviços públicos reforçados — mas sem o pequeno incómodo da factura. É quase poético.

Nacionalizam-se prejuízos, privatizam-se lucros, multiplicam-se programas, linhas de apoio, fundos europeus, incentivos verdes, incentivos digitais, incentivos estratégicos — e depois ficamos espantados quando a carga fiscal bate recordes.

Talvez um dia descubramos esta inovação disruptiva: não é possível ter mais despesas estruturais com menos receita estrutural.

Até lá, continuaremos a pedir apoios… e a pagar a conta com surpresa genuína.

Existe saída da comoditização, em todos os sectores?

A propósito de "... vem aí uma revolução na UE.

O Ricardo Igreja comentou: 

"A minha pergunta é a seguinte. Existe saída da comoditização, em todos os sectores? Percebo e aceito a necessidade de adaptabilidade e evolução na escala de valor, mas, e não sendo possível? Ou fica implícito que essa subida na escala de valor estará sempre disponível, ainda que por descobrir? A perda em padrão de vida não será inevitável, pelo menos a curto/médio prazo? Não contesto a ideia, mas por vezes a saída não é óbvia, ainda para mais tentando manter o nível de vida anterior/status quo."

A pergunta é séria e merece uma resposta igualmente séria.

A saída da comoditização não é automática; é possível em todos os sectores, mas não é possível para todas as empresas de um sector. E, sim, em muitos casos, há perda do padrão de vida no curto prazo. A história económica mostra-nos isso repetidamente. Olhando de forma fria e estratégica, vejo quatro possibilidades.

O esquema dos Flying Geese ilustra o que acontece a nível agregado num páis para cada sector, a evolução de um sector não é na horizontal:

Ainda assim ainda existem empresas japonesas no sector têxtil bem-sucedidas  e empresas de calçado inglesas (nichos ou produtos técnicos)

A primeira é subir na escala de valor. Procurar um novo mercado, um novo segmento ou um novo produto em que a comparação deixe de ser exclusivamente baseada no preço. Quando o produto é altamente comparável, o cliente escolhe o preço. Quando há diferenciação real, o cliente escolhe valor. Este movimento implica investimento, risco e tempo. Nem todas as empresas conseguem fazê-lo, e algumas chegam tarde demais. Recordar que há menos clientes nos nichos, mas cada um com orçamento muito maior.

A segunda possibilidade é manter o mesmo produto, mas mudar a proposta de valor. O caso da Xiameter, criada pela Dow Corning, ilustra bem esta via. Perante a comoditização do silicone, a empresa criou uma segunda marca, vendida exclusivamente online, sem assistência técnica, sem customização e com processos simplificados, dirigida a clientes que queriam apenas preço e volume. Ao mesmo tempo, preservou a marca principal para aplicações complexas, engenharia e inovação. Não mudou o produto; mudou o modelo de negócio e segmentou o mercado. Aceitou a margem baixa onde o cliente só quer preço e protegeu margem onde há valor. É uma forma inteligente de jogar em dois tabuleiros.

A terceira possibilidade é sair e fechar. Nem todas as empresas de um sector têm saída estrutural. Energia demasiado cara, escala impossível ou tecnologia obsoleta podem tornar um negócio inviável. A história europeia tem exemplos claros disso. Quando isso acontece, há perdas, pelo menos durante uma geração. É duro, mas faz parte da dinâmica económica.

A quarta possibilidade é sair e mudar de sector. A Nokia começou na pasta de papel e borracha antes de chegar às telecomunicações. A Sony evoluiu da electrónica para se tornar, sobretudo, uma empresa de entretenimento e videojogos. Aqui falamos de reinvenção profunda, que exige capital, visão e coragem estratégica (e muita experimentação, ou abertura aos resultados da experimentação).

Existe saída da comoditização para todos em todos os sectores? Não. Existe saída para algumas empresas, alguns segmentos e alguns modelos. Mas não para todos ao mesmo tempo. A subida na escala de valor está teoricamente disponível, mas não é automática nem indolor. Exige abandonar o status quo, aceitar risco e, muitas vezes, atravessar um período de transição difícil.

O verdadeiro perigo surge quando o debate se limita a factores externos, energia, tarifas, concorrência asiática, e ignora a dimensão estratégica interna (um exemplo português recente, gostava de investigar bem o que se passa neste sector). Quando o foco é apenas defensivo, a mudança acaba por ser imposta. E quando é imposta, costuma ser mais brusca.

A questão estratégica não é se a saída é óbvia. Quase nunca é. A questão é qual das quatro decisões estamos dispostos a enfrentar.

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Curiosidade do dia

A propósito deste erro:

Resolvi ir pesquisar os números das exportações portuguesas para o ano de 2025 (segundo o INE)

EUA - (-13,4%)
Reino Unido - 2,2%
Suíça - 0,8%
China - 2,5%
Turquia - 32,5%
Noruega - 15,6%
Japão - (-6,7%)
México - (-1,7%)

Já que estamos com a mão na massa:

Alemanha - 14,5%
França - 0,1%
Bélgica - 0,9%
Itália - (-1,0%)
Países Baixos - (-6,9%)
Suécia - 0,1%



... vem aí uma revolução na UE.

O Handelsblatt do passado dia 18 de Fevereiro publica o artigo "Metallbetriebe sehen „keine Perspektive mehr"" (Empresas metalúrgicas "já não vêem qualquer perspectiva").

Um artigo que dá que pensar porque tudo nele assenta num locus de controlo externo. Nunca pensei em ver isto na Alemanha e escarrapachado num jornal alemão. Recordo de 2011:

"O efeito do locus de controlo no interior é que gera depois o resto, o estar atento às oportunidades que se podem co-criar no mercado"

O artigo analisa a deterioração da competitividade da indústria metalúrgica alemã. Custos energéticos elevados (energia e CO2), incerteza geopolítica (tarifas incluídas) e tensões comerciais (produtos made in Asia 20 a 30% mais baratos) estão a corroer as margens e o investimento. Ou seja, o problema é enquadrado como exógeno.

Sim, é verdade: o poder político (apoiado pela indústria, não esquecer) tomou decisões que tornaram a energia muito cara na Alemanha, mas os patrões da metalurgia estão focados em defender o status-quo, o quadrante 1. 

O ponto mais importante para mim é este, base para tudo o resto:

"Ahnliche Produkte könnten in China oder Indien deutlich günstiger hergestellt werden, sodass sie auf den europäischen Markt mit Preisen kommen, die 20 bis 30 Prozent unter denen deutscher Anbieter liegen."

Produtos semelhantes podem ser fabricados na China ou na Índia a preços consideravelmente mais baixos, entrando no mercado europeu com valores 20 a 30 por cento inferiores aos dos fornecedores alemães."

O verdadeiro risco não é a energia, e sim a comoditização. O sector está altamente exposto porque produz bens comparáveis. Por isso, os concorrentes asiáticos produzem 20-30% mais barato.  O cliente escolhe preço. Quanto mais próximo do "commodity game", maior a vulnerabilidade. 

A única solução é a subida na escala de valor, arranjar diferenciação, fugir da comoditização.

O artigo menciona a palavra competitividade 5 vezes e, nem uma vez, a palavra produtividade. Essa ausência é, por si só, um dado estratégico. Altura para recordar Erik Reinert e o Uganda:

"The sad thing in Europe is that the term competitiveness is increasingly used in the Ugandan sense, coupled with `labour market flexibility' (which invariable means flexibility downwards). In order to be `competitive' we must lower our standards of living."

Por isso, coloco aquela imagem no quadrante do aumento da competitividade sem aumento de produtividade.

Subir na escala de valor, mudar de quadrante, tem tudo a ver com o aumento da produtividade e não com a preocupação com a competitividade. 

Se o motor económico da Europa está com este mindset… vem aí uma revolução na UE.