sábado, fevereiro 21, 2026

A Alemanha e a produtividade (parte I)

No passado dia 9 de Fevereiro o FT publicou o artigo "The truth about the 'blue-collar boom' in a tough labour market" de onde retirei os gráficos abaixo:

Se olharmos com atenção para os dois gráficos, perceberemos melhor porque é que a produtividade na Alemanha está a enfraquecer.

O primeiro gráfico mostra uma tendência de longo prazo: nas grandes economias ocidentais, o peso dos empregos na indústria e na construção vem a cair há décadas. A Alemanha continua a ser mais industrial do que o Reino Unido ou os Estados Unidos, mas também ela perdeu muito peso desde os anos 80. Nessa altura, a indústria e a construção representavam mais de 40% do emprego. Hoje estão perto de metade disso.

Isto é relevante porque, em média, a indústria é mais produtiva do que muitos sectores de serviços. Um trabalhador industrial, com máquinas, tecnologia e escala, tende a gerar mais valor por hora do que um trabalhador em actividades menos intensivas em capital e inovação. Quando a economia se desloca estruturalmente para sectores menos produtivos, a produtividade média começa inevitavelmente a abrandar.

O segundo gráfico mostra o que aconteceu desde 2019 e, aqui, a mudança é ainda mais clara. A Alemanha perdeu cerca de meio milhão de empregos industriais. No entanto, o emprego total aumentou. Ou seja, a economia não está a destruir trabalho no conjunto. Está a substituir o trabalho industrial por o de outros sectores.

E onde é que o emprego cresceu? Sobretudo nos serviços públicos, como educação, saúde, comércio, transportes e hotelaria. São sectores importantes para a sociedade, mas, em média, geram menos valor por trabalhador do que a indústria tradicional alemã exportadora.

É aqui que está o ponto central. A produtividade mede, de forma simples, o valor que cada trabalhador produz. Se se perdem empregos em sectores altamente produtivos e se ganham empregos em sectores menos produtivos, a média cai. Mesmo que o PIB cresça um pouco. Mesmo que o desemprego desça. A estrutura da economia muda — e isso tem consequências.

A Alemanha continua a trabalhar. Continua a empregar pessoas. Mas está a mudar o tipo de emprego que cria. E se essa transição não for acompanhada por novos sectores de elevado valor acrescentado — tecnologia avançada, inovação industrial, novos produtos globais — então a produtividade não cresce. Fica estagnada. Ou recua.

No fundo, não é apenas uma questão de quantidade de emprego. É uma questão de qualidade económica do emprego. E é isso que estes gráficos mostram de forma muito clara.


O incrível é que para dar a volta a isto os alemães querem seguir o exemplo português dos campeões nacionais. 

Continua. 

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