quinta-feira, outubro 08, 2026

Produtividade, salários e horas trabalhadas


O algoritmo mandou-me este tweet:

Concordo com a parte factual:

"Nothing better explains Germany's demise than the comparison with Switzerland. Switzerland has much higher salaries and a stronger currency, yet it keeps growing and its industry thrives while German industrial production implodes. The reason is simple, Swiss productivity keeps rising, holding labor costs stable."

Quanto ao resto tenho de discordar:

"In Germany, salaries rise without productivity growth, making products more expensive. 

No one in Europe works fewer hours than the Germans. They no longer value hard work and productivity. Instead, they listen to populists offering simple solutions, left redistribution and "tax the rich" nonsense, or the far-right blaming immigrants for everything. 

It starts with values and mindset. Either Germans start working hard again, or they will keep losing the prosperity the world once admired."

O resto fez-me lembrar dois textos:

Voltemos à equação da produtividade:
O erro do tweet é considerar o numerador como constante. Se o que produzimos não se altera, como se aumenta a produtividade? Aumentando a eficiência: reduzindo os custos dos recursos ou aumentando a quantidade das saídas por unidade de tempo é o "working hard again". 

Aquela afirmação "salaries rise without productivity growth, making products more expensive" até seria interessante de estudar a fundo, porque penso que há um outro factor em jogo e que contribui para a baixa da produtividade porque baixa o valor do que os alemães produzem. O efeito de Kano:
Quando não se sobe na escala de valor, quando não se inova mais rápido do que a média do mercado, o que produzimos vai-se comoditizando e o preço premium inicial vai-se corroendo. Por isso, o numerador vai ficando mais pequeno. E se recordarmos Marn e Rosiello:
Aumentar/reduzir o preço tem um impacte muito mais forte na rentabilidade, no lucro, do que aumentar/reduzir o custo. Sei que é contraintuitivo, mas se fizerem as contas, têm uma surpresa.

Quando o tweet diz "salaries rise without productivity growth, making products more expensive" aquele "more expensive" não é aumento do preço, até pode não ser aumento do custo unitário, e é muitas vezes redução do preço por pressão da concorrência.

Utilizando dados da OCDE relativos a 2025, o salário médio bruto anual, equivalente a tempo inteiro em euros ao câmbio médio de 2025 na Suíça foi ≈104 946 € e na Alemanha foi 54840 €.

O PIB por hora trabalhada preços constantes de 2020 - dólares PPC, foi na Suíça de a 90,52/h e de 83,36/h na Alemanha.

O problema não é o trabalhar muitas ou poucas horas, mas a não subida na escala de valor. E quando não se sobe... o mais provável é descer (Red Queen Effect). Por fim, o "tax the rich et al" é uma consequência do surgimento da mentalidade de "jogo de soma nula" porque o sentimento de prosperidade vai-se esvaindo:
Nota: Vamos à fórmula de cálculo dos "unit labour costs":

 ULC = Custo do trabalho por hora / Produção por hora

Nesta equação, não esquecer que a produção por hora pode aumentar porque se produziu mais quantidade, ou porque o que se produziu tem um valor acrescentado maior. Esta segunda hipótese é praticamente ignorada por quem aborda o tema da produtividade.

Sem comentários: