Há dois dias, no postal "Curiosidade do dia", celebrei um avanço extraordinário: uma mulher que perdera grande parte da capacidade de falar conseguia conversar através de um implante cerebral. O meu lado mais cínico imaginou logo o entusiasmo de certos militares e responsáveis por agências de espionagem perante a possibilidade futura de aceder ao que alguém pensa sem depender da sua vontade de falar.
Ontem, o The Times publicou "Mind-reading' AI tool can see what you see" acrescenta outra peça a esta reflexão. O sistema Brain-IT consegue:
"recreate, with uncanny accuracy, images that people are viewing"
a partir da actividade cerebral registada por ressonância magnética funcional. E há um pormenor significativo: onde anteriores sistemas exigiam dezenas de horas de aprendizagem para cada pessoa, a investigadora explica que:
"our model needs only one hour".
A hipótese seguinte é ainda mais sugestiva:
"The AI can produce an image that closely resembles the one being viewed by the person whose brain is being scanned, whether it is a face, a piece of fruit, a landscape or a scene such as a baseball game.
"It's possible that in the future we may even be able to read dreams,'"
Por enquanto, o resultado demonstrado é a reconstrução de imagens observadas, num contexto experimental; a leitura de sonhos permanece uma possibilidade futura. Mas a aproximação entre os dois casos merece atenção: num deles, a pessoa usa a tecnologia para comunicar; no outro, a tecnologia infere aquilo que a pessoa está a ver.
Dar voz a quem a perdeu é uma conquista magnífica. A possibilidade de estas capacidades evoluírem para revelar conteúdos mentais sem consentimento coloca uma questão diferente: quem decidirá o que pode ser revelado?
Continuo a celebrar o progresso, enquanto espero que a expressão "recolha de informação assistida por inteligência artificial" permaneça apenas uma ironia de blogue.
BTW, ando a ouvir o podcast "The Rest is History" sobre o período do Terror em França pós-1789 e a ficar impressionado com os acontecimentos descritos. E, é fácil imaginar uma reconstrução produzida por IA vir a ser confundida com um testemunho do próprio cérebro. Num eventual uso coercivo, o perigo não seria apenas obter informação privada; seria também atribuir autoridade a uma inferência que pode estar errada.
%2016.51.jpeg)

Sem comentários:
Enviar um comentário