Li o artigo "Manufacturing Is Not Leaving the Rich World". Alguns sublinhados:
"Policymakers, politicians, journalists, and other influencers must realize that manufacturing in rich countries is not declining. High-income countries continue to add more value-added in manufacturing than middle- or low-income countries. The world's richest countries are also the world's largest manufacturers. [Moi ici: Isto apoia a minha tese de que a indústria não desapareceu dos países ricos; apenas mudou de natureza. Menos volume, menos mão-de-obra directa, mais valor acrescentado, mais tecnologia e mais conhecimento incorporado]
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So, while manufacturing's declining share of a country's employment and GDP are important indicators, they are not the whole picture. Manufacturing jobs may decrease because of automation and other technologies as well as increased labor productivity. And faster growth in other sectors may cause manufacturing's share of the GDP to decline. [Moi ici: Este é talvez o ponto mais próximo dos meus postais: menos emprego industrial não significa necessariamente menos indústria. Pode significar automação, produtividade superior e actividades com maior valor acrescentado por trabalhador]
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Decisions like reshoring or nearshoring production or finding new suppliers in new countries are costly to execute and hard to reverse. They also have long-term consequences. Knowing that factories in the rich world have a viable future may directly influence these decisions. For example, executives can consider upgrading the strategic roles of their factories in rich countries by investing in them instead of assuming that these factories are in the wrong place." [Moi ici: As fábricas dos países ricos não devem tentar ser versões caras de fábricas low-cost; devem assumir papéis estratégicos diferentes: inovação, flexibilidade, qualidade, proximidade a clientes sofisticados, produtos técnicos, prototipagem, séries curtas e know-how difícil de copiar]
Ferdows desmonta a ideia simplista de que a produção industrial saiu do mundo rico. O que ele mostra é algo diferente: os países de rendimento elevado continuam a produzir mais valor acrescentado industrial do que os de baixo e médio rendimento, incluindo a China, e continuam atractivos para o investimento industrial. Ao mesmo tempo, têm menos empregos industriais, porque a produção é mais automatizada, mais produtiva e mais intensiva em conhecimento.
Isto encaixa directamente na minha tese de 2013:
não se pode confundir menos trabalhadores na indústria com menos indústria. Pode haver menos gente na fábrica e, ainda assim, mais valor criado. Aliás, é precisamente esse o ponto doloroso da subida na escala de valor: produzir melhor, mais caro, com mais know-how incorporado, para clientes mais exigentes, normalmente implica menos volume e menos mão-de-obra directa.
Tenho escrito aqui no blogue, ao longo dos anos, que esta lógica aparece no caso do têxtil português: quando salários e custos sobem mais do que a produtividade física, os preços unitários têm de subir; as empresas de produtos básicos não conseguem competir com a Ásia, a Turquia ou Marrocos; as que sobrevivem são as que sobem na escala de valor, ficam mais pequenas e precisam de menos trabalhadores. Recordar o anichar.
Ferdows ajuda a corrigir a narrativa política. O problema não é trazer a indústria de volta, como se fosse possível recriar fábricas antigas, grandes, cheias de trabalhadores e assentes no volume. O problema é decidir que tipo de indústria ainda faz sentido nos países caros. E a resposta é: indústria com tecnologia, conhecimento, diferenciação, qualidade, propriedade intelectual, serviços associados, relação com o cliente e capacidade de resolver problemas difíceis.
É por isso que os exemplos da Michelin, do calçado inglês, dos nichos e dos têxteis técnicos japoneses fazem sentido. A Michelin não tenta defender produção em França com pneus massificados baratos; tenta defender com pneus de competição, aeroespaciais, novos materiais, polímeros e compósitos. Ou seja, baixo volume relativo, elevada complexidade, elevado valor acrescentado e barreiras à entrada.
A indústria não foge necessariamente dos países ricos; foge dos modelos de negócio pobres.
Os países desenvolvidos não perderam a indústria; perderam a ilusão de que podiam continuar a competir em volume contra países low-cost.
O que Ferdows acrescenta aos meus textos é a escala macro, de "big picture". Eu tenho mostrado, através de casos concretos, que empresas e sectores sobrevivem quando anicham, quando sobem na escala de valor e aceitam encolher. Ferdows mostra que, ao nível global, essa transformação não é uma excepção: é uma das razões pelas quais os países ricos continuam a ser grandes produtores industriais.
A implicação estratégica é dura, mas clara: para Portugal, proteger a indústria não deve significar prolongar artificialmente a vida de empresas presas ao preço baixo. Deve significar criar condições para que mais empresas façam a travessia rumo a produtos, serviços e relações de maior valor. Menos "quantos empregos industriais temos?" e mais "quanto valor industrial criamos por pessoa, por empresa e por unidade de capital?".
Aliás, o último texto de Dominique Standbrook no The Times do passado dia 23, "Why Labour still can't shake off its ghosts of the 1970s", inclui este trecho impressionante:
"To be fair to [Tony] Benn, his commitments were deeply held, which meant he was deaf to advice even from his putative allies. In one diary entry from the summer of 1974, he recorded a conversation with the most powerful union boss in Britain, the Transport and General Workers' Union leader Jack Jones, who was commonly portrayed by the tabloids as a fanatical Marxist. "Nationalisation is no good. People don't want it," Jones told him. "Well," Benn replied, "we may have no alternatives if firms go bust." Jones said: "You don't want to do that. You don't want to save every lame duck.""
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