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sábado, junho 13, 2026

Mongo e rentismo

O FT do passado dia 4 de Junho publicou o artigo "America's other' economy tells a different growth story".

O artigo defende que há duas economias americanas a funcionar em paralelo.
De um lado, está a economia visível, entusiasmante e celebrada: centros de dados, inteligência artificial, investimento tecnológico, equipamento informático, bolsa em alta e grandes empresas a puxarem pelo crescimento do PIB.
Do outro lado, está a “outra” economia: a dos bens de consumo do dia-a-dia. Essa economia está muito mais fraca.
"For a lens on this other economy, look to the consumer packaged goods industry. These companies sell goods we all need, from detergent to cereal, under strong brands and with sophisticated marketing. But they are growing at less than the rate of GDP. Data trom Adam Josephson of Sakonnet Research shows that average sales volumes at 15 of the largest US staples companies - CocaCola, Procter & Gamble, Hershey have been negative in 13 of the last 18 quarters. Including dividends, the S&P 500 household products and food products sectors have returned 2 and minus 6 per cent respectively over the past five years."
A explicação imediata gira em torno da economia. Os salários reais estão sob pressão, o consumo abrandou e grupos de rendimento médio e baixo começaram a cortar ou a mudar hábitos. No entanto:
"But it is the rise of alternative brands that hurts the most. E-commerce and social media have lowered the barriers to entry for "disrupter" or "insurgent" brands. Much of the retail industry has consolidated behind huge companies such as Walmart and Costco, while the perception that store brands like Costco's Kirkland label are of low quality has faded.
Nicolas Willemot, who leads the consumer products practice at Bain, argues that consumer spending in the US is growing, but store and insurgent brands capture 70 per cent of the growth. The big CPG players need to work harder at giving consumers what they want at the right price. But much of their attention in recent years has been taken up by cost-cutting and consolidation."

A economia cresce, mas não o faz de forma homogénea. O dinheiro, a atenção e a procura deslocam-se para pontos específicos do sistema. Uns ganham muito; outros ficam parados; outros perdem relevância enquanto continuam a parecer grandes.

No caso do artigo, as grandes marcas de bens de consumo foram construídas para um mundo de massas. Mongo é outra coisa.

Mongo é quando o mercado deixa de se comportar como uma média e passa a comportar-se como uma colecção de nichos, tribos, ocasiões, preferências, sensibilidades de preço e pequenas promessas de valor. O consumidor já não compra apenas "a marca". Compra conveniência, preço, identidade, saúde, autenticidade, origem, funcionalidade, estatuto, simplicidade, ou apenas "é suficientemente bom e custa menos".

É por isso que o artigo é interessante. O problema das grandes CPG não é apenas conjuntural. As marcas grandes ficam entaladas no meio. Demasiado caras para competir com a marca própria. Demasiado genéricas para competir com as marcas insurgentes. Demasiado grandes para ouvir sinais pequenos. Demasiado optimizadas para a eficiência para voltarem a aprender depressa.

Nos últimos dias tenho escrito sobre o rentismo, e este artigo também se ajusta bem a essa narrativa. As grandes CPG americanas parecem ter vivido durante anos da renda da marca. Acreditaram que o consumidor continuaria a pagar um prémio porque reconhecia o nome, confiava na embalagem, via o produto no supermercado e repetia o hábito. Mas Mongo, marcas próprias, redes sociais, e-commerce e novos comportamentos de consumo têm corroído essa renda.

quarta-feira, março 18, 2026

Que escolha?

O jornal El Economista de ontem publicou "El 57% de los españoles prioriza la compra de marca blanca".

"Un 70% seguiría eligiéndola aunque bajaran los precios 

El fenómeno de las enseñas del distribuidor se ha consolidado de forma estructural en España, donde un 57% de los consumidores ya aseguran que solo compran productos de marca blanca o que componen de forma mayoritaria sus cestas de la compra. 

...

 El estudio indica además que el 70% de los españoles mantendría o aumentaría su compra de marca de distribuidor ante una hipotética bajada de precios, mientras que solo un 16% volvería mayoritariamente a marcas de fabricante. Este porcentaje es aún mayor cuando se plantea un escenario de estabilidad de precios, en el que el 84% reconoce que no variaría o incluso reforzaría su nivel de compra de marcas blancas."

Uma PME pode ler estes dados de duas maneiras ao mesmo tempo: como sinal de perigo e como sinal de oportunidade.

O perigo é claro. Em Espanha, a marca branca deixou de ser apenas um refúgio de crise ou uma escolha táctica de preço. Para muitos consumidores, passou a ser um hábito estável, quase uma preferência normal. Isso muda o jogo. Se 70% continuariam a comprá-la mesmo com a descida de preços, então já não estamos apenas perante a sensibilidade ao preço. Estamos perante aceitação de qualidade suficiente, confiança no distribuidor e erosão do valor percebido de muitas marcas de fabricantes. Para uma PME que vive num espaço intermédio — nem é a mais barata, nem é claramente distinta — isto é uma ameaça séria. Pode ficar esmagada entre a eficiência da marca branca e a força das marcas realmente fortes.

Mas há também oportunidade. O crescimento da marca branca mostra que o consumidor está mais aberto a experimentar, a rever preconceitos e a aceitar novos mapas de valor. Para uma PME, isso abre três caminhos:

  • Pode fornecer marca branca, se tiver escala, consistência e disciplina operacional. 
  • Pode fugir da comparação directa, subindo de quadrante e oferecendo algo claramente diferente - em origem, formulação, desempenho, serviço, embalagem, especialização ou identidade. 
  • Ou pode ocupar nichos que a marca branca serve mal: pequenos lotes, segmentos específicos, resposta rápida, conhecimento técnico, história ou comunidade.

As ameaças principais são conhecidas: comoditização, pressão sobre as margens, maior poder do distribuidor e a ilusão de ter marca quando se tem apenas nome. A resposta começa por uma escolha clara: em que jogo a PME quer jogar? Fornecedor eficiente? Marca própria distintiva? O erro é ficar no limbo. Quando a marca branca deixa de ser plano B e passa a ser uma escolha confortável, a pergunta estratégica torna-se particularmente dura: somos apenas comparáveis ou preferíveis? É dessa resposta que depende grande parte do futuro.

domingo, novembro 10, 2024

Fugir da comoditização

No DN do passado dia 8 li "Crescimento das marcas "brancas" retirou dois mil milhões às de fabricante"

O texto destaca que, em cinco anos, as marcas próprias da distribuição passaram de uma quota de 32% para mais de 45% do mercado. Esse crescimento significativo mostra como os consumidores têm optado cada vez mais por produtos de marca branca, em parte devido ao preço mais baixo.

Esse crescimento das marcas brancas resultou numa perda de cerca de dois mil milhões de euros para as marcas de fabricantes, refletindo o impacte directo que as escolhas dos consumidores têm na rentabilidade das marcas tradicionais.

O artigo aponta que, com a inflação a subir, os consumidores começaram a mudar as suas escolhas, favorecendo produtos mais económicos, como as marcas brancas.

Os fabricantes tentam estratégias para reconquistar a preferência dos consumidores, mas enfrentam dificuldades significativas devido ao poder de mercado e à competitividade das marcas brancas.

E as PMEs como devem actuar?

  • Devem destacar a qualidade, exclusividade e benefícios adicionais dos seus produtos em vez de competir apenas pelo preço. Investir em produtos que proporcionem experiências superiores ou que se diferenciem de marcas brancas pode ajudar a justificar um preço mais alto e criar lealdade à marca.
  • Têm de inovar e diferenciar os produtos para que os consumidores vejam valor em escolher a marca, mesmo que o preço seja mais elevado. O texto indica que as marcas brancas ganharam terreno, em parte, devido a uma busca por alternativas mais baratas; assim, oferecer algo que estas marcas não consigam replicar facilmente pode ser uma vantagem. Por exemplo, ainda ontem naveguei por uma prateleira com umas dez opções de diferentes marcas de maionese. Desisti, estava interessado numa com azeite e não no que me era oferecido com óleo de girassol ou óleo de colza.
  • Devem investir em estratégias de branding que reforcem a imagem da marca como uma opção premium ou com características únicas e desviar a atenção da comparação de preços e criar uma percepção de valor superior.

Evitar a competição pelo preço mais baixo e criar um nicho próprio que se baseia em qualidade e características únicas, afastando-se da dependência do mercado dominado pelas marcas brancas é fundamental.

terça-feira, março 22, 2022

Alguma coisa vai mal



Ontem, ao folhear na diagonal o jornal Público do dia fui surpreendido por este título ""Produtos alimentares com marca têm mais dificuldade" em passar aumentos ao mercado".

Quem é que proferiu tal afirmação? 
Jorge Tomás Henriques, Presidente da FIPA, a Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares.

Com que então produtos alimentares com marca têm mais dificuldade em passar aumentos ao mercado? Quer dizer que é mais fácil aos produtos de marca branca passar aumentos ao mercado?
"Toda esta disrupção na cadeia de abastecimento é uma conjugação de factores que designei de tempestade perfeita, porque na realidade tudo se abateu, em simultâneo, sobre uma indústria que estava a crescer nas suas exportações e fez um ano com 14%. Porque, simultaneamente, o aumento destes custos não foi transferido, com excepção de alguns que são absolutamente incontornáveis, nomeadamente aqueles que não têm marca.
Porque todos os produtos assentes numa marca têm muito mais dificuldade na passagem ao mercado destes aumentos."

Alguma coisa vai mal numa marca que tem mais dificuldade em aumentar preços do que uma não-marca.

Ouso dizer que um dos papéis de uma marca é o de poder praticar preços superiores, porque é diferente, porque responsabiliza, porque salienta, …