Há coincidências interessantes.
"Francisco Palma cultiva 260 hectares de cereais na região de Beja e alimenta 140 vacas aleitantes...."O custo de produção aumentou muitíssimo" e o pior é que o agricultor não está a conseguir vender mais cara a produção e repassar esse agravamento de custos no produto final. "Não, não se consegue, não são os agricultores que ditam os preços, os agricultores estão sempre dependentes do mercado", nomeadamente nos cereais, desde logo porque "o mercado está a ser pressionado com a vinda dos cereais da Ucrânia ou Brasil"...Na produção de frutas e legumes, o caso é mais grave. É a própria competitividade com a vizinha Espanha que está em causa, avisa o presidente da Portugal Fresh,...Mas, neste momento, "os agricultores portugueses não conseguem competir com Espanha, diz o presidente da Portugal Fresh, que segue na próxima semana para Madrid com 50 entidades (entre elas, 30 empresas exportadoras) para a feira Fruit Attraction."Espanha invade-nos com produtos", diz Gonçalo Andrade, avisando que, no primeiro semestre de 2026, a balança comercial com o país vizinho nas frutas e legumes já está "em 424 milhões de euros negativos, quando, em 2022, estava em 227 milhões negativos". [Moi ici: Estranho, em Agosto passado a mesma Portugal Fresh culpava as depressões Ingrid, Joseph e Kristin que destruíram culturas, danificaram estufas e inutilizaram sistemas de rega, por reduzirem a quantidade de produto disponível para exportação]...Álvaro Mendonça e Moura lembra que, "antes desta crise [no Médio Oriente], já havia uma grande discrepância em matéria de competitividade, porque os agricultores espanhóis há muito tempo que beneficiam de uma energia mais barata". E "uma vantagem que já tinham antes da crise, mas que esta veio agravar, porque o Governo espanhol tem dado um apoio substancial aos agricultores e o Governo português não enveredou por esse caminho."
A crise actual agrava fragilidades anteriores e compensar custos não resolve um modelo de produção sem condições para competir. Vejo oportunismo na forma como a CAP transforma a crise dos factores de produção numa reivindicação de mais dinheiro público. A subida dos custos pode agravar dificuldades reais, mas interessa perceber quantas dessas dificuldades já existiam antes da crise.
Nas produções indiferenciadas, comoditizadas, em que o comprador escolhe sobretudo pelo preço, a escala, a produtividade e o custo por unidade são decisivos. Uma exploração que não dispõe dessas condições precisa de encontrar formas de ganhar escala, mudar o que produz ou procurar clientes que valorizem outros atributos. Um subsídio pode aliviar a tesouraria; a alteração dessa posição competitiva exige outras decisões.
Antes de reclamar dinheiro para "recuperar competitividade", a CAP deveria explicar que competitividade pretende recuperar. Que produções eram economicamente viáveis antes deste aumento dos custos? Quais dependiam já de apoios? Que mudanças permitirão reduzir essa dependência?
É aqui que regressamos às gaiolas. Se o dinheiro público servir apenas para conservar uma produção sem escala, indiferenciada e dependente de compradores que decidem o preço, estaremos a financiar a permanência dentro da gaiola. Apoiar a transformação exige discutir organização, produtividade, produtos, clientes e canais comerciais, e aceitar que preservar todas as produções existentes pode ser uma má utilização de recursos escassos.
Iliteracia estratégica por um lado e incapacidade de dizer que a Festa de Natal foi uma porcaria por outro.
O fracasso económico faz parte do processo de renovação. As falências e as recessões permitem libertar recursos de empresas ineficientes e criar espaço para novas actividades. A tentativa de eliminar todo o insucesso acaba por bloquear a transformação da economia e criar zombies atrás de zombies. A protecção permanente enfraquece os incentivos para inovar. Os estímulos contínuos, as taxas de juro artificialmente baixas e os resgates permitem que empresas e projectos pouco viáveis sobrevivam. Em vez de procurar vantagens através da inovação, torna-se mais atractivo assegurar apoio governamental: os ganhos ficam privados e os riscos são transferidos para a sociedade.


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