Ontem, ao ler no The New York Times, "A Maine Town, Once Dependent on a Paper Mill, Tries to Move On", sobre a história de Madison, uma pequena localidade do estado do Maine nos EUA, a minha mente voou para Portugal... Durante décadas, Madison viveu à sombra de uma fábrica de papel. A fábrica empregava mais de 200 pessoas (numa localidade com cerca de 4700 habitantes), representava 46% das receitas fiscais da vila e ajudava a definir a identidade da comunidade. Depois, em 2016, fechou. Não desapareceram apenas os empregos, desapareceu também uma parte importante da razão de ser daquela terra.
Mais tarde, surgiu a TimberHP, com um projecto cheio de promessas: aproveitar a antiga fábrica e os resíduos da indústria florestal para produzir isolamento em fibra de madeira. Foram angariados 122 milhões de dólares, chegaram os apoios públicos e regressou a esperança. Contudo, a pandemia, os atrasos, a inflação e as dificuldades de industrialização consumiram o dinheiro. A empresa acabou por pedir protecção contra credores. Entretanto, retomou a produção e emprega cerca de 80 pessoas. É melhor do que uma fábrica abandonada, mas está muito longe de substituir aquilo que Madison perdeu.
Agora, salto para Portugal e para o turismo... Segundo estimativas de âmbito alargado divulgadas pelo Turismo de Portugal, em 2025 o sector terá representado cerca de 21,5% do PIB e sustentado aproximadamente 1,2 milhões de empregos. Hotéis, restaurantes, companhias aéreas, transportes, comércio, imobiliário e muitos serviços vivem, directa ou indirectamente, da chegada contínua de visitantes. Enquanto os aviões aterram e os recordes se sucedem, tudo parece correr bem. Também em Madison tudo parecia correr bem enquanto a fábrica comprava madeira, pagava salários e entregava quase metade das receitas fiscais da vila.
Quantos julgam que o turismo continuará sempre a crescer? Quantos confundem o sucesso actual com segurança futura? Uma recessão nos países de origem, uma nova pandemia, uma crise energética, alterações climáticas ou uma perturbação prolongada no transporte aéreo podem reduzir rapidamente a procura. Nessa altura, poderemos descobrir que orientámos demasiado investimento, trabalho, formação e território para uma actividade que não controlamos. A lição de Madison é simples: a melhor altura para criar alternativas é quando a actividade dominante ainda prospera. Depois da fábrica fechar, ou dos turistas deixarem de chegar, já pode ser tarde.


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