quarta-feira, setembro 30, 2026

Curiosidade do dia

Li no Financial Times da passada quinta-feira um artigo de Janan Ganesh com um título provocador "Leadership is not the problem in the west". Segundo Ganesh, os eleitores rejeitam medidas que lhes custem alguma coisa e, por isso, pouco adianta pedir aos governantes mais coragem. 

"There are two possibilities here. The big rich countries suffered a drop in the quality of leaders at around the same time. Or voters became harder to please. Neither suggestion is absurd but it should be clear which is more plausible. The west does not have a leadership problem.

...

What the west has is a followership problem. Voters reject policies - however objectively necessary - that cost them anything. One result is huge levels of government debt, which investors are now demanding higher yields to finance."

Confesso que estou tentado a discordar. Pensei nas eleições portuguesas de 2015. Depois de quatro anos de austeridade ajustamento, a coligação liderada por Passos Coelho voltou a ser a força mais votada. Perdeu a maioria e não conseguiu governar, é certo. Também não concluo daí que os portugueses gostassem da austeridade ou quisessem mais quatro anos iguais. Mas o resultado torna difícil sustentar que os eleitores expulsam inevitavelmente quem lhes apresenta uma factura.

O saudoso Joaquim Aguiar dizia uma coisa que me parece mais próxima do problema: 

"Ganham-se eleições sem legitimidade para agir." 

Recordei essa frase quando escrevi sobre ele. Um partido pode ganhar prometendo melhorar os serviços, baixar impostos, proteger todas as prestações e não incomodar ninguém. Quando chega ao governo e anuncia que, afinal, tem de escolher, descobre que nunca pediu aos eleitores um mandato para essa escolha. Tem legitimidade para governar; falta-lhe a autorização política para fazer aquilo que evitou discutir.

É por isso que, num postal de 2021, escrevi que podemos ter alternância sem ter alternativa. Uma alternativa exige olhar os eleitores nos olhos e dizer-lhes coisas que talvez não gostem de ouvir. Exige também saber o que fazer depois de ganhar, ao contrário do cão de Joaquim Aguiar, que ladra à roda do carro sem saber o que faria se a conseguisse apanhar.

Ganesh tem razão numa parte: explicar melhor uma medida difícil não faz desaparecer o seu custo. Há eleitores que a rejeitarão mesmo conhecendo as razões, e há interesses que se organizarão para a travar. Mas quantos líderes chegam sequer a fazer essa experiência? Quantos dizem, durante a campanha, o que deixarão de fazer, quanto custará o que prometem e quem pagará a conta?

Uma maioria que conhece e aceita as escolhas necessárias começa a ser construída antes das eleições. Antes de concluir que os eleitores não aceitam a verdade, convinha dar-lhes a oportunidade de votar sobre ela. Se a rejeitarem, teremos aprendido alguma coisa sobre os limites do que é politicamente possível. Se os líderes a esconderem, ficaremos apenas com mais uma vitória eleitoral e, talvez, com mais um governo sem legitimidade para agir.

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