Roubei esta fotografia ao JdN:
Soube ontem, ao fim do dia, que Joaquim Aguiar tinha falecido.
Joaquim Aguiar foi alguém a quem me habituei a ler, a ouvir e a respeitar.
Há várias citações das suas reflexões que costumo usar para orientar-me neste mundo. Por exemplo:
- O povo, em eleições, tem sempre razão, mesmo quando não tem.
- Quando os media apontam para o palco, devemos olhar para os bastidores.
- Ganham-se eleições sem legitimidade para agir.
- Quem não reconhece os seus erros está condenado a repeti-los.
- A estabilidade política só existe se houver o permanente ajustamento dos interesses ao campo de possibilidades.
A última vez que o citei foi há pouco mais de um mês, em "
A estagnação como consequência (Parte III)", mas quem pesquisar o marcador "Joaquim Aguiar" lá embaixo vai encontrar mais exemplos da sua mente brilhante.
Esta manhã, ao ler o The Times, encontrei um texto que relaciono com ele facilmente. Em "Happy new year - same unhappy old Keir".
O artigo traça um retrato pouco abonatório do início de 2026 de Keir Starmer, primeiro-ministro inglês: popularidade em queda livre, inquietação crescente dentro do Partido Trabalhista e uma sensação difusa de vazio estratégico. Apesar da vitória esmagadora nas eleições de 2024, o governo entrou rapidamente numa espiral de desilusão porque não apresentou uma agenda clara, coerente e honesta para enfrentar problemas estruturais do Reino Unido - crescimento anémico, estagnação dos rendimentos, serviços públicos sobrecarregados e envelhecimento demográfico.
A crítica central não é apenas à comunicação fraca, mas também à ausência de um "modelo mental" de governo: não há narrativa económica, nem escolhas explícitas, nem aceitação pública de trade-offs difíceis. O artigo sugere que uma eventual substituição de liderança pouco resolveria, pois o problema é sistémico: um partido que ganhou sem saber para quê. O risco é o Reino Unido entrar num ciclo repetitivo de alternância política sem capacidade real de mudança.
Para Joaquim Aguiar, a estagnação nasce muitas vezes de um vício original da democracia eleitoral: líderes que chegam ao poder sem dizer toda a verdade sobre o que pretendem fazer (isto partindo do princípio de que têm ideias… na oposição, slogans bastam; no governo, é preciso pensamento de longo prazo e disciplina. A falta de escolhas explícitas destrói a credibilidade. O governo evita dizer o que não vai fazer, quanto vai custar, e quem vai pagar). Ao ocultarem mudanças difíceis durante a campanha, conquistam votos, mas perdem legitimidade no exercício do poder, pois não receberam um mandato claro para transformar. O resultado é um governo prisioneiro das promessas implícitas, incapaz de decidir quando decidir é essencial — e, assim, a inércia instala-se ou aprofunda-se, não por falta de diagnóstico, mas por ausência de autorização política para agir.
Vou sempre recordar as suas intervenções no Think Tank, na SIC Notícias com Mário Crespo, no seu livro "Fim das Ilusões, Ilusões do Fim".
Quando se nega a alteração do campo de possibilidades ...
Repouse em paz.
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