segunda-feira, setembro 21, 2026

Curiosidade do dia

No, The Times de ontem, fui atraído por uma citação:
"Burnham is in the painful process of discovering how many constraints he faces"

No texto corrido do artigo o autor, Josh Glancy, escreve:

"The prime minister is in the painful process of discovering just how many constraints he faces" 

O que me fez logo recordar a metáfora dos Goa'uld.

"A metáfora dos goa'uld ajuda a explicar porque é que os políticos da oposição, assim que chegam ao poder  defendem políticas opostas às que defendiam na oposição. Isso acontece, porque já não são eles a decidir mas o goa'uld que assumiu o controlo do seu corpo."

A frase descreve de forma racional a metáfora do Goa'uld a tomar conta do hospedeiro. A frase descreve a passagem da liberdade retórica da oposição para a realidade da execução governativa. 

Na oposição, o político pode apresentar-se como sujeito soberano, livre para prometer rupturas e desprezar obstáculos. Ao chegar ao Governo, o mesmo rosto continua diante das câmaras, mas é agora através dele que fala todo um sistema de dependências. Burnham prometeu ser um circuit-breaker, radical e ousado; começa agora a descobrir que a vontade do primeiro-ministro é apenas uma variável entre muitas — e nem sempre a mais poderosa.

É esse o problema estratégico que a metáfora procura captar: conquistar o poder aumenta formalmente a autoridade, mas reduz a ilusão de liberdade. As restrições que, vistas da oposição, pareciam resultar da falta de coragem dos governantes tornam-se, uma vez no Governo, forças concretas que condicionam cada decisão. O Goa’uld toma conta do hospedeiro precisamente nesse momento: quando o novo governante começa a defender, com a sua própria voz, aquilo que antes atribuía à fraqueza ou à cobardia dos seus antecessores.

Escrevo isto e penso em Mariana Leitão. A IL não chegará ao poder no seu consulado, mas imaginemos...

Na mesma intervenção em que exigiu uma redução do ISP equivalente a 30 cêntimos por litro (sem explicar que despesa cortaria para compensar a receita perdida), mostrou-se preocupada com a eventual redução dos fundos comunitários e reconheceu que Portugal não está preparado para essa realidade. Na oposição, é possível defender simultaneamente menos impostos, melhores serviços e preparação para receber menos dinheiro de Bruxelas; no Governo, seria necessário compatibilizar tudo isso com o défice, a dívida, as regras europeias e as restantes despesas do Estado. O Goa’uld ainda não tomou conta do hospedeiro, mas já se distinguem as restrições que o esperariam do outro lado do portal.

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