sábado, outubro 10, 2026

A empresa que o sistema não vê


Esta semana, no webinar sobre a abordagem por processos, apresentei um slide, o 14, intitulado «Understanding the work as it happens». Propus uma forma simples de começar a compreender um processo: reunir quem executa o trabalho e seguir alguns casos recentes, incluindo um que correu bem e outro que ficou atrasado ou se tornou difícil.

Com as mensagens trocadas no processo, os registos gerados e as decisões à frente, podemos reconstruir o percurso de um pedido. Onde esperou? Onde voltou atrás? Onde perdeu informação? Que informação faltava para dar o passo seguinte?

Um estudo da OFS, "Almost 8-in-10 manufacturing operators bypass official systems to get work done", realizado junto de 500 profissionais da indústria transformadora britânica e divulgado no relatório "Same factory, different reality", ajuda a perceber a relevância da minha proposta. 
"79% of manufacturing operators are using workarounds outside official systems, raising questions over whether digital transformation projects are being built around the reality of modern factory floors. 
...
The biggest reason for workarounds is that systems fail to capture the ‘why’ behind production issues, cited by 33% of respondents. A further 20% point to accuracy concerns, while 20% say speed is the issue. Given that only 18% of operators believe they are involved before a new digital system is implemented, this should not be a surprise."
Os números são muito maus!!!

Os números sugerem uma discrepância entre a fábrica representada nos sistemas e a fábrica real na qual é preciso obter resultados. Quando falta contexto, a informação é pouco fiável ou a ferramenta demora demasiado, as pessoas podem encontrar outras formas de fazer avançar o trabalho. A produção continua e, vista de longe, essa continuidade pode alimentar a convicção de que o sistema funciona bem.

É por isso que considero importante analisar também um caso que correu bem. Uma encomenda pode ter sido entregue a tempo graças a uma folha de cálculo pessoal, a três telefonemas e à intervenção de alguém que sabia a quem recorrer. O resultado foi conseguido, mas a análise desse percurso pode revelar dependências e dificuldades que os indicadores agregados deixam escondidas.

O estudo acrescenta um dado interessante: 33% dos inquiridos apontam a incapacidade dos sistemas para captar o "porquê" dos problemas da produção. Saber que uma ordem esteve parada é um ponto de partida. Compreender que esteve parada porque faltava uma especificação, que a resposta chegou à caixa de correio de uma pessoa ausente e que ninguém sabia quem podia decidir permite identificar o que precisa de mudar.

A abordagem por processos ganha substância neste contacto com casos concretos. Os procedimentos ajudam a orientar a análise; as pessoas e os registos permitem perceber como foram aplicados, que dificuldades surgiram e que soluções foram improvisadas. Uma dessas soluções pode conter uma boa ideia, outra pode criar riscos, outra pode ser o vestígio de uma regra que deixou de fazer sentido.

Depois, o que foi aprendido tem de influenciar as escolhas. Quem executa o trabalho deve participar na concepção e nos testes das alterações, ajudando a verificar se a nova solução responde às necessidades identificadas. A participação torna-se útil quando deixa marcas nas decisões. Apenas 18% sentem que são ouvidos. Como é isto possível?

Antes de aprovar o próximo investimento em transformação digital, talvez valha a pena seguir uma encomenda real do princípio ao fim. Que necessidades desse percurso irá o investimento resolver, e como vamos verificar isso com quem faz o trabalho?

Quase oito em cada dez operadores inquiridos recorrem a soluções fora dos sistemas oficiais, os "workarounds" para conseguir fazer o seu trabalho. A dimensão deste resultado merece uma pausa: quantas organizações estarão a interpretar a capacidade das pessoas para contornar dificuldades como prova de que os seus sistemas funcionam? Talvez a distância entre estas fábricas britânicas e a nossa seja menor do que parece, sobretudo quando a confiança nos sistemas assenta no facto de as encomendas continuarem a sair.

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