domingo, julho 19, 2026

Ideias erradas sobre a produtividade (parte II)


O artigo, ver Parte I, abre com:

"Em Portugal trabalha-se mais horas do que na UE."

A maior parte dos artigos e comentários sobre produtividade centra-se na quantidade de horas e sublinha a baixa produtividade associada a um elevado número de horas. Há até uns "cromos" que profetizam: 

"Baixem as horas trabalhadas e a produtividade subirá."

A produtividade não nasce apenas no posto de trabalho. Começa antes, nas escolhas estratégicas:

  • O que vende a empresa?
  • A quem vende?
  • Em que mercado compete?
  • Com que diferenciação?
  • Com que marca?
  • Com que poder para estabelecer preços?
  • Em que posição da cadeia de valor se encontra?


Uma empresa pode ser muito eficiente a fabricar um produto banal e continuar a apresentar baixo valor acrescentado por hora. O artigo fala de capital, tecnologia e organização, mas quase ignora  a proposta de valor, o posicionamento estratégico, a diferenciação e a concorrência imperfeita.

 

No final há um trecho que revela um paradoxo, não sei se é a melhor classificação. Vamos a ele:

""Baixa produtividade da hora trabalhada e salários mais baixos são duas faces da mesma moeda", vinca Miguel St. Aubyn. "Se se podem pagar salários baixos, a produtividade não precisa de aumentar. E se a produtividade é baixa, não se podem pagar salários mais altos. Tem de se romper com este ciclo", evidencia."

Miguel St. Aubyn tem toda a razão: salários baixos retiram às empresas a pressão para investir e aumentar a produtividade; a baixa produtividade oferece, depois, a justificação perfeita para continuar a pagar salários baixos. A ironia está em ouvir este diagnóstico de alguém próximo do espaço político socialista, depois de anos em que os governos do PS fizeram tudo para reforçar o tal ciclo que ele diz querer romper.


O artigo termina com esta frase:

""O maior número de horas de trabalho compensa, em parte, o grande diferencial de produtividade entre Portugal e a UE", conclui João Cerejeira."

É verdade que mais horas de trabalho podem compensar parte do diferencial de produção ou de rendimento por trabalhador. Mas não compensam o diferencial de produtividade por hora: apenas o escondem através de uma maior quantidade de trabalho. O verdadeiro desafio não é trabalhar mais tempo a produzir eficientemente bens baratos, mas deslocar recursos para actividades com maior conhecimento, diferenciação, rendimentos crescentes e capacidade de praticar preços superiores. Erik Reinert ilustrou esta diferença comparando as bolas de basebol cosidas manualmente no Haiti, uma actividade presa a salários baixos e reduzido potencial tecnológico, com produtos mais sofisticados fabricados nos países ricos. 


Compensar baixa produtividade com mais horas é administrar o atraso; desenvolver-se exige subir na escala de valor. 


A frase confunde a produtividade por hora com a produção ou o rendimento anual por trabalhador. Mais horas não corrigem a baixa produtividade: permitem viver com ela por algum tempo. É uma compensação quantitativa que pode até adiar a transformação qualitativa de que a economia necessita.

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