Hermann Simon num livro que comentei aqui há cerca de 10 anos, "Confessions of the Pricing Man" chamava a atenção para um erro muito comum: as pessoas imaginam que as empresas têm margens de lucro muito superiores às reais. Referia que os consumidores americanos estimavam margens de lucro de 46% e os consumidores alemães de 33%, enquanto muitas empresas vivem com margens líquidas de poucos pontos percentuais. Recordo este gráfico do livro:
Entretanto, ontem o The Times publicou "Big business must do a better job of explaining why profit matters" e hoje o The Daily Telegraph publicou " Labour will come to regret making 'profits' a dirty word".
"Back in March the Institute of Economic Affairs, the free-market think tank, published the results of some fascinating polling. It asked 3,000 people to estimate the profit margins of certain industries.
On average, people said pubs and hospitality made a profit margin of 40 per cent. Last year, JD Wetherspoon made 3.8 per cent; the more upmarket Shepherd Neame business made 9.2 per cent. They thought energy companies made 57 per cent, but in reality the most successful made 15 per cent. And they thought supermarkets made 50 per cent profit margins.
Tesco's margin last year was 4.3 per cent, the highest in the industry.
Sainsbury's was 3.3 per cent, Aldi and Lidl run at 0.7 per cent, according to the UK competition watchdog."
Os dois artigos mostram o mesmo problema nas versões política e mediática. O público vê preços a subir, salários apertados e grandes empresas a anunciar lucros e conclui rapidamente: "estão a abusar", mas raramente distingue entre volume de vendas, margem bruta, margem líquida, impostos pagos, investimento necessário, risco assumido e capital que tem de ficar na empresa para garantir o futuro.
Claro que há abusos. Claro que pode haver rendas excessivas, posições dominantes e oportunismo, mas transformar o lucro numa palavra suja é perigoso. Sem lucro, a empresa pode sobreviver por algum tempo; não consegue, porém, renovar equipamentos, formar pessoas, desenvolver novos produtos, resistir a crises, pagar melhor de forma sustentável, nem investir na próxima etapa da sua competitividade. Uma repetição do que aconteceu às empresas nacionalizadas em Portugal em 1975.
É aqui que Schumpeter ajuda. Numa economia dinâmica, o lucro é o prémio temporário de quem inova antes dos outros, encontra uma solução melhor, melhora a produtividade ou assume o risco. E Drucker leva a ideia ainda mais longe: o lucro não é apenas uma recompensa; é também um custo. O custo de continuar vivo. O custo de preparar o futuro.
"The "profit" is partly a reward for success, but it is more importantly a way of working out which companies are making the biggest contribution to the rest of society. But if we don't allow anyone to make profits, we will have no idea what sectors should get more resources, and which less. If that happens, there is no point in complaining if the system stops working completely."
Por isso, as empresas têm de explicar melhor o lucro. Não basta dizer "demos lucro". É preciso mostrar para que serve: quanto fica depois de impostos, quanto será reinvestido, quanto financia inovação, quanto protege empregos, quanto permite atravessar anos maus e quanto sustenta a subida na escala de valor.
Uma sociedade que não compreende o lucro acaba por atacar a própria capacidade de criar futuro. Pode parecer justiça no curto prazo. Mas, se o lucro desaparecer, desaparece também a margem de manobra para investir, melhorar e competir. E, nesse dia, descobriremos que o verdadeiro custo não era o lucro. Era a falta dele.
%2016.21.jpeg)

Sem comentários:
Enviar um comentário