quinta-feira, março 19, 2026

A minha divergência

Leio "Muitos exportadores, pouca escala e baixo valor" e penso que o autor vê bem uma parte do problema. Portugal tem demasiadas empresas pequenas a exportar pouco, pouca escala, pouca densidade e um vazio preocupante de empresas de média dimensão capazes de consolidar presença internacional. 

O texto aponta para um problema real quando refere:

"Portugal parece ter um certo “vazio” de empresas de média dimensão competitivas, com capacidade exportadora relevante."

"o tecido exportador português é composto por uma multiplicidade de empresas muito pequenas."

Também toca num ponto importante quando defende: 

" precisa de um tecido empresarial capaz de crescer, consolidar presença internacional e atingir maior escala. 

...

Se queremos exportar mais valor, o país precisa de políticas que permitam às empresas crescer — não de incentivos que as mantenham pequenas."

Mas é precisamente aqui que começa a minha divergência.

O artigo parece partir da ideia de que a resposta reside, sobretudo, em fazer crescer o tecido existente. Eu não vejo a questão assim. Uma parte relevante desse tecido não está bloqueada apenas pela falta de escala. Está adaptada a um tipo de jogo competitivo diferente. Não se trata de dizer que essas empresas são "menos" do que outras. Um crocodilo não é inferior a uma gazela; é diferente. Mas a gazela corre e salta melhor no terreno onde vive. Da mesma forma, há empresas moldadas para competir em contextos de custos baixos, de menor exigência de diferenciação ou de lógicas competitivas que pertencem a um degrau anterior da escada de desenvolvimento. O problema começa quando o terreno muda e elas continuam a comportar-se como se o jogo fosse o mesmo. O problema não é delas, elas dão o melhor que podem.

Por isso tenho insistido noutra ideia, mais incómoda: deixar as empresas improdutivas morrerem. Não por crueldade. Não por gosto em destruir. Mas por que persistir em salvá-las "apenas perpetua a mediocridade e reduz a eficiência do tecido empresarial".

É aqui que o artigo do ECO me parece insuficiente. Ele diagnostica bem a fragmentação, mas continua a olhar, sobretudo, para o problema como um défice de crescimento. Eu também vejo um défice de selecção. E, sem selecção, o crescimento pode até engordar o tecido, mas não o transforma.

É por isso que uso a metáfora da "DVD leadership team". No caso da Netflix, o ponto decisivo não era apenas querer entrar no streaming. Era preciso perceber que não se constrói o futuro continuando a dar poder de veto aos defensores do negócio antigo. Em Portugal, o apego a "empresas de baixo valor acrescentado, dependentes de custos baixos ou métodos ultrapassados" funciona exactamente assim: são estruturas que ainda sustentam parte do presente, mas "limitam a visão e o potencial de transformação necessária".

O problema, portanto, não é só termos poucas empresas médias. O problema é continuarmos a ouvir, financiar e proteger actividades e modelos de negócio que pertencem ao degrau anterior do desenvolvimento. É aqui que a teoria dos Flying Geese ajuda a pensar. Os países sobem quando abandonam actividades de menor valor e avançam para outras mais sofisticadas.

"Quem deixa de subir fica preso numa corrida para o fundo — ou depende de protecções cada vez mais artificiais."

Ora, se isto é verdade, então a produtividade não sobe apenas ao fazer crescer o que já existe. Sobe também deixando morrer o que bloqueia recursos e criando espaço para o que ainda não existe. Como escrevi no texto sobe a Netflix:
"A experiência irlandesa mostra que o salto de produtividade não ocorre apenas melhorando o existente, mas atraindo novas empresas e sectores que transformam a economia estruturalmente."
É por isso que não me basta a tese de "mais empresas médias". Isso é necessário, mas não chega. 

Muitas empresas de calçado, por exemplo, são excelentes no seu sector; são das mais produtivas que há no seu sector a nível mundial, mas no fim do dia estão limitadas pelo preço do que vendem. Essa é a mensagem principal dos Flying Geese.

A jogada tem de ser mais dura e mais séria: deixar morrer empresas ou modelos de morte natural (não assassínio) que não têm futuro, porque estão a chegar assimptoticamente até onde podem chegar em termos de produtividade, para realocar recursos e criar espaço para negócios inovadores, especializados e de maior produtividade.

Dito de outra maneira: o ECO quer engordar o tecido existente. Eu quero mais do que isso. Quero mudar a sua composição. Quero menos complacência com o legado, menos reverência pelo passado lucrativo, menos tolerância para com a mediocridade protegida. Porque, sem isso, podemos até ficar com empresas um pouco maiores. Mas continuaremos, no essencial, dentro da mesma sala, a ouvir a "DVD leadership team", enquanto o futuro acontece noutro lado.

A lição da Nassim Taleb com que mais lutei, que mais tempo me levou a aceitar, foi esta.

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