terça-feira, novembro 03, 2026

Para onde terão ido?

Ontem, o JN publicou um artigo intitulado "Norte lidera descida do desemprego com o têxtil e o calçado" onde se pode ler:

"Segundo a análise, os dados do IEFP relativos a setembro fixaram o desemprego registado em 271 984 pessoas, uma diminuição mensal de 0,6% e uma expressiva redução homóloga de 10,1% (menos 30 616 inscritos). A descida homóloga foi fortemente impulsionada pela indústria e construção: a indústria do vestuário liderou as quedas com -27,1%, o couro e calçado recuou 20,2%, os têxteis desceram 19,7% e a construção registou menos 12,9% de desempregados."

Interessante! Como se terão comportado as exportações destes sectores de actividade?

Se compararmos os primeiros 8 meses de 2025 com os de 2026, o que concluímos?

  • 1,34% - 61 Vestuário e seus acessórios de malha
  • 8,52% - 62 Vestuário e seus acessórios excepto de malha
  • 2,08% - 63 Outros artefactos têxteis, calçado, chapéus, trapos
  • 0,79% - 64 Calçado, polainas e artefactos

Mas é interessante ver o pormenor:
  • 61 Vestuário  e seus acessórios de malha cresceu +5,8% de Janeiro a Abril e -3,0% de Maio a Agosto
  • 64 Calçado, polainas e artefactos cresceu +2,5% de Janeiro a Abril e -0,8% de Maio a Agosto
Como é que o calçado e os têxteis podem explicar a redução do desemprego como descrita no JN? Uma redução de 27,1% de inscritos no caso dos têxteis e de menos 20,2% de inscritos no caso do calçado!

Há aqui um erro potencial... temos de distinguir a origem dos desempregados do destino de quem deixa o desemprego. Estamos a falar de pessoas que trabalham no sector privado. Só no sector público é que as pessoas "estão proibidas" de mudar de profissão

Uma pessoa anteriormente empregada numa fábrica de calçado pode sair dos registos porque encontrou trabalho noutra fábrica de calçado, mas também porque passou a trabalhar na construção, no comércio ou noutra indústria. Pode ainda reformar-se, emigrar ou deixar de estar inscrita. O artigo não apresenta essa decomposição. Por isso, a expressão "o têxtil e o calçado lideram a descida do desemprego" não equivale a "o têxtil e o calçado lideram a criação de emprego". Para sustentar esta segunda afirmação, precisaríamos da evolução do número de trabalhadores empregados nesses sectores, bem como das entradas e das saídas. Portanto,  há menos desempregados registados provenientes destas actividades, o que é positivo; falta demonstrar se isso resulta de expansão das próprias indústrias ou da absorção dos seus antigos trabalhadores por outras actividades. Perante a deterioração recente das exportações, seria precipitado transformar esta notícia numa confirmação de recuperação industrial. O dado que mais ajudaria a esclarecer a questão seria a evolução homóloga do emprego por sector, acompanhada pela carteira de encomendas.

A consulta do último relatório do IEFP acrescenta um pormenor que reforça esta desconfiança: em Setembro, face ao mesmo mês de 2025, as ofertas de emprego comunicadas ao IEFP diminuíram 15,2% no vestuário, 9,9% na indústria do couro e dos produtos do couro e 2,1% nos têxteis. Quanto às colocações efectuadas através do IEFP, recuaram 1,3% no vestuário e 13,0% no couro, embora tenham aumentado 17,5% nos têxteis. Ou seja, sobretudo no vestuário e no couro, a forte descida do número de desempregados provenientes destas actividades coexiste com menos ofertas e menos colocações.

Para onde terão ido os desempregados? Uns poderão ter encontrado trabalho no sector de onde vieram; outros terão mudado de actividade, passando, por exemplo, do calçado para a construção, o comércio ou outra indústria. Outros poderão ter entrado em formação ou em programas de emprego, passado à reforma, emigrado ou simplesmente deixado de estar inscritos no IEFP. A redução dos registos pode, portanto, combinar novos empregos, mudanças de sector e saídas que não correspondem a emprego. Sem conhecer o peso de cada destino, sabemos que há menos desempregados inscritos provenientes destas indústrias, mas não sabemos quantos voltaram a trabalhar nelas.

Sem comentários: