segunda-feira, outubro 12, 2026

Cuidado com o numerador


Uma das tendências de ontem no Twitter andava em torno desta imagem associada a números internos da VW:

Ao ver esta imagem, recordei logo dois postais.

Primeiro, "As anedotas", de Junho de 2010:
"Por isso é que o trabalhador português que emigra para a Alemanha vê aumentar a sua produtividade pessoal? Por isso é que os trabalhadores portugueses no Luxemburgo têm uma produtividade 3 vezes superior à que têm em Portugal?

Conseguem encontrar fábricas gémeas, fábricas que fabriquem os mesmos produtos em Portugal e na Alemanha?

Há uma que salta logo à vista, a AutoEuropa.

No caso da AutoEuropa, aposto que a produtividade portuguesa é, ou semelhante, ou superior às fábricas congéneres da VW na Alemanha (para modelos com a mesma gama de preço)."
O que é que a imagem não nos diz? Não aborda o parêntesis na citação acima. Chama produtividade à cadência física.

Segundo, "Não compararás laranjas com maçãs!!!", de Janeiro de 2013:
"A ideia do postal de Janeiro foi a de chamar a atenção que não faz sentido comparar maçãs com laranjas e dizer que a produtividade polaca é superior à italiana só porque na Polónia menos gente produzia mais quantidade de automóveis da Fiat que as fábricas italianas."

Perguntei ao ChatGPT: "Consegues comparar o preço médio de venda dos automóveis que saem de Emden, Palmela e Tianjin?"

A resposta foi: "Como ordem de grandeza do preço ao cliente final, usaria 50 mil euros para Emden, 35 mil para Palmela e 25 mil para Tianjin. São estimativas minhas a partir dos preços dos modelos, sem conhecer a repartição da produção por versão."

E até me deu uma tabela:


Contar automóveis por trabalhador deixa de fora o valor do que se produz. E esse é o problema de muita gente que escreve sobre produtividade, considera o numerador constante.


Não chega a ser, mas é quase o mesmo que comparar um McDonald’s, aberto durante grande parte do dia, com um restaurante familiar que só serve almoços, contar as refeições por trabalhador e declarar vencedor quem despacha mais pratos. Uma refeição passaria a valer uma refeição, independentemente do que se cozinha, do serviço prestado, do preço que o cliente aceita pagar e do valor acrescentado por hora de trabalho.

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