sexta-feira, outubro 23, 2026

A produtividade também depende de quem nasce (parte lI)

No postal anterior, usei a notícia do JN sobre Revinhade para ilustrar uma ideia: a produtividade de Felgueiras poderá aumentar através da alteração da composição da sua economia. A entrada e o crescimento de actividades com maior valor acrescentado por trabalhador podem elevar a média do concelho. Como saber, daqui a alguns anos, se foi isso que aconteceu?

Comecemos por um exemplo com números inteiramente ilustrativos. Imaginemos uma economia onde 80% dos trabalhadores estão em actividades que geram 30 mil euros anuais de valor acrescentado por trabalhador e os restantes 20% em actividades que geram 60 mil euros. A média é de 36 mil euros. Se os pesos passarem para 60% e 40%, respectivamente, a média sobe para 42 mil euros. Mais 16,7%, mantendo exactamente a mesma produtividade em cada um dos dois grupos. Mudou a composição da economia. Recordo uma série com uma história sobre golos.

Para acompanhar Felgueiras, começaria por construir uma série anual, usando 2024 como referência anterior ao arranque da produção da Somfy, que o artigo situa em Outubro de 2025. A primeira medida seria o valor acrescentado bruto por trabalhador e, havendo informação suficiente, por hora efectivamente trabalhada. O valor acrescentado aproxima-nos daquilo que a actividade gera depois de descontados os bens e serviços consumidos na produção. Uma facturação elevada pode coexistir com um valor acrescentado relativamente reduzido, quando uma parte importante dessa facturação corresponde a componentes, materiais e serviços comprados a terceiros.

Depois, abriria a média do concelho. Acompanharia o peso do calçado, do equipamento eléctrico, dos plásticos e das restantes actividades no emprego e no valor acrescentado. Procuraria perceber quais estão a crescer e qual o seu valor acrescentado por trabalhador. Também distinguiria empresas novas e empresas preexistentes, porque dentro do mesmo sector podem coexistir modelos de negócio e posições na cadeia de valor muito diferentes. A classificação da actividade ajuda a organizar os dados; o valor efectivamente criado permite avaliar o resultado.

O passo seguinte seria separar dois contributos: o aumento da produtividade dentro das actividades e a alteração do peso dessas actividades na economia local. Uma forma de o fazer seria calcular, em cada ano, qual teria sido a produtividade média se a distribuição do emprego continuasse igual à de 2024. A comparação com a média observada permitiria estimar o contributo da mudança de composição. Assim, poderíamos perceber quanto do progresso resultou da melhoria das actividades existentes e quanto resultou do crescimento relativo das actividades mais produtivas.

Acrescentaria as remunerações médias e medianas, descontando a inflação, a evolução das qualificações e das funções desempenhadas e a proporção dos empregos ocupados por residentes no concelho. Interessaria ainda acompanhar os fornecedores locais: conseguiram novos clientes, desenvolveram competências, passaram a fornecer soluções de maior valor acrescentado? Uma nova fábrica pode contribuir para transformar o tecido empresarial à sua volta. Esse efeito merece ser procurado e medido.

Há alguns cuidados necessários neste acompanhamento. O valor acrescentado e o emprego devem corresponder às mesmas unidades efectivamente localizadas em Felgueiras, verificando o efeito da localização das sedes das empresas. A evolução dos preços também deve ser considerada, para distinguir um aumento nominal de uma melhoria em termos reais. 

O artigo referido na parte I admite que a zona industrial poderá chegar aos dez mil postos de trabalho dentro de uma década. Seria interessante que, nessa altura, Felgueiras pudesse apresentar também a evolução do valor acrescentado por hora e das remunerações reais, explicando o contributo das novas actividades para esses resultados. Teríamos então um caso concreto para estudar como um território aumentou a produtividade através da transformação da sua economia.

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