quinta-feira, julho 09, 2026

Voz do futuro ou voz dos activos acumulados no passado?

Há cerca de ano e meio escrevi aqui "Portugal, Netflix e produtividade". Um texto ao qual volto vezes sem conta.

Nele escrevi:

"A decisão estratégica de Reed Hastings e Ted Sarandos de excluir a "DVD leadership team" das reuniões não foi apenas prática, mas simbolicamente poderosa. Eles reconheceram que, para avançar, era essencial abrir espaço para ideias alinhadas com o futuro, mesmo que isso significasse sacrificar o presente. Da mesma forma, Portugal precisa deixar morrer (deixar morrer não é o mesmo que matar) empresas ou modelos que não têm futuro, para realocar recursos e criar espaço para negócios inovadores, especializados e de maior produtividade."

Foi dele, novamente, que me recordei ao ler "German bosses urge Merz to prevent 'lost decade'" no FT de ontem. 

"German chief executives have expressed concern that Chancellor Friedrich Merz's €10bn in tax cuts may not be enough to jump-start the country's stagnant economy.

Merz's coalition government last week unveiled measures including tax cuts for the middle class, labour market reforms, stricter sick-leave rules and initiatives to curb bureaucracy as it aims to kick-start the economy and combat rising voter discontent.

Executives welcomed the moves but warned that the measures were not enough to dispel fears among business leaders that the country was at risk of a "lost decade".

Roland Busch, chief executive of Siemens, Germany's biggest company by market capitalisation, said the reform package was "an important step towards restoring growth and competitiveness" but that "further action will be needed"."

Berlim quer restaurar a competitividade e conter o descontentamento político, mas as empresas temem que reformas lentas, custos laborais elevados, burocracia, infraestruturas atrasadas e falta de incentivos ao investimento continuem a travar a economia alemã.

Penso nisto tudo e imagino um equilibrista, um funâmbulo. Até que ponto o governo alemão está a fazer o que é certo, a evitar assassinar empresas, e até que ponto não estará a ir por um caminho de exagero e a não deixar morrer empresas que estão condenadas? 

Em "Portugal, Netflix e produtividade", a "DVD leadership team" representa os responsáveis pelo negócio antigo: ainda lucrativo, ainda poderoso, ainda cheio de argumentos racionais para estar presente nas decisões, mas estruturalmente comprometidos com a defesa do passado. No exemplo da Netflix, a liderança deixou de convidar essa equipa para certas reuniões porque sabia que essas vozes tenderiam a empurrar a empresa para compromissos destinados a proteger o negócio dos DVD, mesmo quando o futuro estava no streaming. 

No caso alemão, muitos destes líderes empresariais podem comportar-se como essa "DVD leadership team" se a sua pressão sobre Merz tiver como objectivo principal tornar o velho modelo alemão novamente confortável: menos impostos, menos custos laborais, menos burocracia, mais investimento público, mais protecção da base industrial existente.

Nada disso é errado em si mesmo. Custos, impostos, burocracia e infra-estruturas contam. Mas estão a pedir condições para construir o futuro, ou apenas oxigénio para prolongar o passado?

Quem, tendo de ser eleito mais tarde ou mais cedo, tem coragem para dizer que a Festa de Natal foi uma porcaria

E perguntar: que sectores pertencem ao futuro? Não porque os governos saibam "pick winners", mas podem perguntar que tipo de salários podem pagar e, ao mesmo tempo, ser produtivos e competitivos? Que competências industriais ainda são uma vantagem e quais já são um peso morto?

Peso morto ... ainda ontem recordei Karl Weick e "Drop your tools!"

Não podemos aceitar automaticamente a voz dos grandes empresários como se fosse a voz do futuro. Muitas vezes é apenas a voz dos activos acumulados no passado.

Muitos líderes industriais alemães, quando pedem menos impostos, menos custos, menos burocracia e mais apoio público, podem estar a pedir duas coisas muito diferentes: condições para construir o futuro ou autorização para continuar a carregar ferramentas que já não servem para fugir ao fogo. O verdadeiro teste estratégico não é perguntar se essas ferramentas foram úteis no passado; foram. É perguntar se ainda ajudam a atravessar o incêndio ou se tornaram o peso que impede a fuga. "Drop your tools" é, por isso, uma frase brutal: não pede apenas eficiência; pede uma conversão de identidade. E talvez seja essa a parte mais difícil da produtividade: deixar morrer o que ainda tem prestígio, ainda tem voz, ainda tem argumentos, mas já não tem futuro.

Isto não é fácil; é um equilíbrio cada vez mais difícil de manter depois dos apoios pós-2008 e pós-pandemia, em que se perdeu um certo bom senso.


 

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