A propósito desta frase:
"China fue probablemente la mayor fuerza desinflacionaria de la economía mundial en las dos primeras décadas del siglo XXI."
Normalmente, pensamos em China e relacionamos com preços baixos. O que poucos fazem é pensar em China e relacionar com duas décadas de salários industriais estagnados na Europa e não só.
A força desinflacionária da China não se limitou aos preços. Actuou também no poder de negociação dos trabalhadores industriais europeus.
A entrada da China na economia mundial trouxe milhões de trabalhadores para o mercado global da manufactura. O efeito imediato foi simples: bens industriais mais baratos. Roupa, electrónica, brinquedos, componentes, máquinas, produtos intermédios. Isto ajudou a manter a inflação baixa no Ocidente. Para o consumidor europeu, parecia uma boa notícia: mais produtos, preços mais baixos, maior variedade. No entanto, havia o outro lado.
A mesma pressão que baixava os preços também dizia às fábricas europeias: "ou reduzes custos, ou alguém produz mais barato noutro sítio". E "custos" significava muitas vezes salários, emprego, condições, margens industriais e investimento local. Assim, a China não foi apenas uma força desinflacionária no cabaz de compras. Foi também uma força disciplinadora dos salários industriais.
O mecanismo foi este:
Interessante como isto foi feito a 2 níveis. Primeiro, foi no segmento industrial mais baixo onde operavam, por exemplo, as fábricas portuguesas. Agora, temos exactamente o mesmo a acontecer no segmento médio-alto onde operam as fábricas alemãs.
1. Concorrência de produtos mais baratos
As empresas europeias passaram a competir com importações chinesas de baixo custo. Muitas perderam quota de mercado. Outras sobreviveram comprimindo as margens, automatizando, despedindo ou deslocando a produção.
2. Deslocalização e ameaça de deslocalização
Mesmo quando a fábrica não fechava, a ameaça ficava sobre a mesa. O trabalhador ou o sindicato que pedia aumentos ouvia, explicitamente ou não, "os nossos clientes têm alternativas". A China tornou-se uma espécie de “concorrente invisível” nas negociações salariais europeias.
3. Enfraquecimento do trabalhador industrial
O operário industrial europeu do pós-guerra tinha força porque trabalhava em sectores centrais, produtivos, sindicalizados e territorialmente enraizados. Com a globalização, essa posição enfraqueceu. O capital ganhou mobilidade; o trabalhador ficou preso ao território.
4. Substituição do emprego industrial por emprego de menor poder salarial
Quando se perde emprego industrial, nem sempre se fica sem trabalho para sempre. Muitas vezes há transição para serviços, logística, comércio, segurança, plataformas, restauração ou trabalho administrativo de menor produtividade e menor poder negocial. O desemprego industrial é apenas a parte visível; a degradação salarial é a parte mais silenciosa.
5. Inflação baixa como anestesia social
Durante anos, a estagnação dos salários foi parcialmente disfarçada por bens importados baratos. O salário não subia muito, mas a televisão, a roupa ou o telemóvel ficavam mais acessíveis. Só que isto não resolvia a habitação, a saúde, a energia, a educação, a mobilidade ou a poupança. Ou seja: a China ajudou a baixar o preço de muitos bens transaccionáveis, mas não compensou a perda de segurança económica e de trajectória profissional.
Não foi a única causa. Houve também automação, euro, alargamento a Leste, políticas de austeridade, financeirização, enfraquecimento sindical e erros estratégicos europeus. Mas a China foi uma peça central porque aumentou brutalmente a oferta mundial de capacidade industrial barata.
Por isso, a desinflação chinesa teve uma dupla face. Para o consumidor europeu, foi uma bênção de curto prazo. Para muitas comunidades industriais, foi uma erosão lenta: menos fábricas, menos carreiras industriais, menos sindicatos fortes, menos salários de classe média, menos orgulho produtivo.
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